8.31.2026

CRÔNICA: MINHA MÃE CRIANÇA - Ana Maria Machado

 

CRÔNICA: MINHA MÃE CRIANÇA

      Ana Maria Machado


       Cheguei da escola e vi a porta do quarto aberta, a porta do armário aberta, a gaveta aberta, e minha mãe sentada no chão, descalça, toda despenteada, com uma caixa fechada na mão. Dei um beijo nela e olhei para a caixa. Era a coisa mais linda do mundo, toda de madeira, mas madeira de cores diferentes, umas mais claras, outras mais escuras, formando um desenho, uma paisagem, onde tinha um morro, uma casinha, um pinheiro, umas nuvens no céu. Aí minha mãe abriu a caixa e tirou de dentro, bem lá do fundo, um envelope de papel pardo, velho e meio amassado.

       - Que é que tem aí dentro, mãe?

       - Nem lembro mais, minha filha. Vamos ver.

       - Deve ser muita coisa, que o envelope está bem gordinho.

       E era mesmo. Um monte de retratos. Tinha um com umas pessoas sérias numa praça. Tinha outro com uma família toda, cheia de crianças e até um cachorro, bem debaixo da estátua do Cristo Redentor. Tinha mais um, de uma menina com dois laçarotes de fita na cabeça, no meio de uma planta esquisita, uma espécie de moita em forma de camelo, imagine só. Fiquei espantada:

       - Como é que pode, mãe, planta que parece bicho?

       - É que eles cortavam a moita assim, era moda, umas redondinhas, outras em feitio de poltrona, outras com formato de bicho. Era na Praça Paris, um lugar com laguinho e repuxo, chafariz que acendia colorido de noite. Parecia um balão d’água bem aceso no chão.

        - Como é que você sabe disso tudo?

        - Eu lembro, minha filha. Essa menina aí sou eu.

        - Não é possível. Você está brincando...

        Eu olhava para minha mãe e para o retrato da menina, achava meio gozado aquilo, minha mãe criança, brincando no galho de um camelo, pensando em balão d’água. E era meio esquisito, ela grande ali na minha frente, sentada no chão, explicando coisas, toda animada:

         - A gente ia de bonde, era ótimo, fresquinho, todo aberto.  Às vezes tinha reboque. Quando a gente pagava a passagem, o motorneiro puxava uma cordinha e tocava uma campainha, aí mudava um número numa espécie de relógio que ficava lá no alto e marcava quantas pessoas viajavam no bonde.

          Eu ficava imaginando como seria aquilo, sabia que bonde era uma espécie de trem de cidade, já tinha visto em filme na televisão, queria saber mais:

           - E quando o motorneiro puxava a cordinha, não tinha que largar o motor? Não era perigoso?

           Mamãe achou graça:

 

           - Não, que ideia! Bonde era a coisa menos perigosa do mundo. E o motorneiro não tinha nada a ver com o motor, ele só cobrava, o nome é que parece...Quem dirigia era o condutor...


Autora: Ana Maria Machado

Foto: Google


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Solo da paixão - Antônio Cícero

 






Solo da paixão

 

O solo da paixão não dura mais

 

que um dia antes de afundar, não mais

 

que esta noite ou esta noite e um dia

 

e o clarão da noite antes de amargar.

 

Um dia solar eu vou lhe entregar:

 

que ela sequestre o mundo por um dia

 

(um dia só será que já vicia?)

 

depois devolva tudo: terra céu e mar.

 

Guardar (1996)

 

 

Fonte: Ermira Cultura

Foto: Google


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8.30.2026

“O câncer não mata, eleva - verdades libertadores sobre a doença do século”

O lançamento do livro “O câncer não mata, eleva - verdades libertadores sobre a doença do século” me fez perceber o quanto o mundo pode ser belo. Mas para isso, precisamos querer! A vida, as pessoas e as coisas podem ser tudo que sonhamos, basta termos as vivências e referências corretas para acreditarmos e transformamos nosso entorno no infinito virtuoso. Quando me remeto a algo ou alguém, logo me vem uma outra qualidade à mente: meu pai-porto seguro; minha família-amor; abraço-presença; amigo-ajuda; trabalho-propósito; pacientes-ensinamento; saúde-zelo; ciência-evolução; medicina-cuidado; câncer-esperança. Este momento foi proporcionado pela minha família para a grande família humana e nem o maior dos ateus vai negar a presença de Deus naquele momento. Foi festivo e emocionante, graças a todos que se fizeram presentes. Desejo paz e serenidade aos que estão na Terra. Vivam! Pois, afirmo aos que estão sofrendo pela perda dos que já se foram, seja por uma neoplasia ou não, que a morte pode parecer um mistério, mas talvez só passamos para uma outra dimensão em que um dia todos estaremos juntos na eternidade sorrindo do passado daquele mundo belo que escolhemos viver.

 

Rafael Kalil Mangabeira, autor do livro


Autoria – Rafael Kalil

Vídeo: YouTube

Foto- Produção


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Biografia de Antonio Cicero Correia Lima

 


Biografia

 

Antonio Cicero Correia Lima nasceu no Rio de Janeiro, 6 de outubro de 1945 é compositor, poeta, crítico literário, filósofo e escritor brasileiro. Em 10 de agosto de 2017 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

É filho dos piauienses Amélia Correia Lima e Ewaldo Correia Lima. Seu pai foi um dos intelectuais fundadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), tendo sido também diretor do BNDE durante o governo JK. Em 1960, Ewaldo assume um cargo executivo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que então acabava de ser criado, e toda a família se transfere para Washington, D.C.. Lá, Antonio Cicero fará seus estudos secundários.

De volta ao Brasil, Cicero começa a cursar filosofia na PUC do Rio de Janeiro e, depois, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Em 1969, devido a problemas políticos, vai para Londres, onde conclui o curso de filosofia na Universidade de Londres. Em 1976, Cicero vai fazer pós-graduação na Georgetown University, nos Estados Unidos, onde estuda grego e latim, o que lhe permitirá ler no original clássicos como Homero, Píndaro, Horácio e Ovídio. Posteriormente lecionará Filosofia e Lógica, em universidades do Rio de Janeiro.

Antonio Cicero escreve poesia desde jovem, mas seus poemas só apareceram para o grande público quando sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima, passou a musicar um deles. A partir desse momento, passou a escrever, além de poemas para serem lidos, letras para as melodias que sua irmã – e, depois, outros parceiros – lhe enviavam. Produziu, então, várias letras de canções como, por exemplo, as de Fullgás, Pra começar e À francesa – as duas primeiras em parceria com sua irmã, e a última com Cláudio Zoli. A partir de então, Cicero tornar-se-ia um dos mais próximos parceiros de Marina. Entre outras parcerias, destacam-se aquelas com Waly Salomão, João Bosco, Orlando Morais, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos (co-autor, junto com Antonio Cicero e Sérgio Souza, do hit O Último Romântico, de 1984).

De 1991 a 1992, Antonio Cicero coordenou, em colaboração com o poeta e professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense Alex Varella os cursos de Estética e Teoria da Arte do Galpão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).

Em 1993, concebeu, em colaboração com o poeta Waly Salomão e com o patrocínio do Banco Nacional, o projeto "Banco Nacional de Idéias", através do qual, nesse ano e nos dois anos subsequentes, promoveu ciclos de conferências e discussões de artistas e intelectuais de importância mundial, como João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, John Ashbery, Derek Walcott, Caetano Veloso, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk, Ernest Gellner, Bento Prado Júnior e Darcy Ribeiro, entre outros.

Em 1994, organizou, em parceria com Waly Salomão, o livro O relativismo enquanto visão do mundo, que reúne as conferências realizadas pelo projeto Banco Nacional de Ideias nesse ano.

Em 1995, publicou O Mundo Desde o Fim, uma reflexão filosófica sobre a modernidade.

Em 1996, lançou o livro de poemas Guardar, vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria estreante. Lançou também um CD em 1996, Antonio Cicero por Antonio Cicero, onde recita seus poemas.

Em 2001, seu poema "Guardar" foi incluído na antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi.

Em 2002, lançou o livro de poemas A cidade e os livros. No mesmo ano participou, junto com outros artistas como Gabriel o Pensador, Chico Buarque, Ronaldo Bastos e Fernando Brant, entre outros, de uma coletânea de quatro CDs em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Ainda em 2002, participou, junto a personalidades como José Saramago, Hermeto Pascoal e Wim Wenders, do documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho.

Em 2005, lançou o livro de ensaios filosóficos Finalidades sem fim, que foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria "Teoria / Crítica literária".

Em 2010, lançou, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, o Livro de sombras: pintura, cinema e poesia.

Em 2012, lançou o livro de poemas Porventura, o livro Poesia e filosofia (ensaio filosófico) e, como organizador, o livro de ensaios estéticos Forma e sentido contemporâneo: poesia. No mesmo ano, lançou o livro de entrevistas, organizado por Arthur Nogueira, Antonio Cicero por Antonio Cicero.

Antonio Cicero foi, de abril de 2007 a novembro de 2010, colunista do jornal Folha de S. Paulo.

Em junho de 2007, Antonio Cicero apresentou em Lisboa a palestra "Da atualidade do conceito de civilização", no encontro intitulado O Estado do Mundo, organizado pela Fundação Gulbenkian, publicada, em Portugal, no livro A urgência da teoria (Lisboa: Gulbenkian, 2007) e, na Inglaterra, traduzido por "On the concept of civilization", no livro The urgency of theory (Manchester: Carcanet, 2007). Em novembro de 2008, pronunciou a palestra de encerramento do Congresso Internacional Fernando Pessoa, em Lisboa, publicada, com o título de "Fernando Pessoa: poesia e razão", em Pessoa. Revista de ideias, em dezembro de 2010.

O escritor Antonio Cicero foi eleito no dia 10 de agosto 2017 para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo Eduardo Portella, morto no dia 3 de maio deste ano. "Antonio Cicero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea", declarou o Acadêmico Domício Proença Filho. Cicero foi eleito por 30 votos. Concorreram na eleição 22 acadêmicos - 12 por cartas. Antes de Cicero, os ocupantes anteriores da cadeira 27 foram: Joaquim Nabuco – fundador da cadeira e que escolheu como patrono Maciel Monteiro, Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.


Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL

Foto: Produção


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Guardar - Antônio Cícero

 








Guardar - Antônio Cícero

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

 

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero  Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 1996.


Fonte: Processador

Foto: Google

 


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8.29.2026

A LÍNGUA - Agilson Cerqueira

 


A LÍNGUA 

Agilson Cerqueira 



Não gosto de falar muito.
Tenho medo do tropeço.


A língua, como órgão, articula a oralidade; mas a palavra nasce antes dela.

Antes de ser som, é pensamento; antes do pensamento, talvez seja sensação, memória, desejo ou inquietação.


Por isso, sou exigente comigo quando falo. 

Há palavras que procuro, outras que recuso.

Às vezes penso tanto no que dizer que a palavra perde o momento de nascer.


Há, em mim, uma contradição: gosto do silêncio, mas sei que o silêncio não basta.

Pensamento que não se comunica permanece prisioneiro de quem o pensa.


É pela linguagem que o indivíduo ultrapassa os limites de si mesmo e alcança o outro.


Comunicar não é simplesmente emitir palavras; é tentar fazer com que aquilo que existe dentro de nós encontre uma forma compreensível fora de nós.


Talvez esteja aí a verdadeira importância da comunicabilidade: não basta ter o que dizer; é preciso tornar possível que o outro compreenda o que pretendemos dizer.


Uma ideia pode ser profunda e, ainda assim, fracassar se não encontrar uma linguagem capaz de transportá-la.


A língua é essa travessia. 

Gosto da língua em movimento.


Gosto do neologismo — essa coragem de criar quando as palavras existentes já não conseguem nomear aquilo que o pensamento descobriu. 


O neologismo revela que a língua não é uma coisa acabada. É organismo vivo: transforma-se, incorpora, abandona, reinventa.


Gosto da língua regionalista, porque nela existe território. Há gente, memória, costumes, paisagens e maneiras particulares de compreender o mundo.


Gosto do sotaque sem destaque. Aquele que não pretende afirmar-se, mas que, discretamente, denuncia de onde viemos.


Gosto da semântica, porque uma palavra nunca é somente aquilo que parece ser. Seu significado pode deslocar-se, aprofundar-se, contradizer-se. Uma mesma palavra pode iluminar um pensamento ou obscurecê-lo.


Gosto da etimologia.

Há algo fascinante em descobrir por onde uma palavra caminhou antes de chegar até nós. As palavras carregam marcas do tempo. São pequenas ruínas vivas da história humana.


E gosto do silêncio.

Não porque o silêncio seja ausência de linguagem, mas porque também pode ser linguagem. Há silêncios que dizem mais que discursos inteiros. Mas o silêncio, quando permanente, também pode aprisionar.


O homem precisa da palavra para sair de si.


É pela comunicação que uma consciência encontra outra. É pela palavra que uma experiência particular pode tornar-se experiência compartilhada; que uma dúvida pode encontrar outra dúvida; que um pensamento pode ser contestado, ampliado ou transformado.


Por isso, talvez, comunicar seja mais importante do que falar. 

Falar é produzir sons. 

Comunicar é produzir encontro.


A língua pode ferir, acariciar, convencer, enganar, aproximar ou separar. 

Pode construir uma ponte ou levantar um muro. Pode esclarecer o pensamento ou escondê-lo atrás da própria eloquência.


Há quem fale muito sem dizer nada. 

Há quem diga pouco e consiga dizer quase tudo.


Por isso, tenho cuidado com a língua.

Não apenas pelo risco de errar a palavra, mas pelo risco maior de acertá-la no lugar errado. 


A palavra, depois de pronunciada, já não nos pertence inteiramente. 


É como uma flecha lançada.


Podemos explicar a intenção do disparo, mas não podemos controlar o caminho que ela fará dentro daquele que a recebe.


E talvez esse seja o verdadeiro tropeço de quem fala: não tropeçar na palavra, mas tropeçar no significado que ela produzirá no outro.


Porque a comunicação não termina quando a palavra sai da boca. Ela termina  ou começa quando encontra alguém capaz de compreendê-la.


Eis o paradoxo da língua: somos donos daquilo que pensamos, mas não somos inteiramente donos daquilo que dizemos.


Pensar é um ato íntimo. 

Falar é torná-lo público.

Comunicar é correr o risco de ser compreendido, incompreendido, aceito ou recusado. 


Ainda assim, precisamos falar.


Porque uma humanidade constituída apenas de pensamentos individuais seria uma humanidade sem diálogo, sem transmissão de experiência, sem memória compartilhada.


A língua nos tira da solidão. E talvez seja por isso que eu tenha tanto cuidado com ela. 


Não tenho medo apenas de falar.


Tenho medo de não conseguir fazer da palavra uma ponte entre aquilo que penso e aquilo que o outro compreende. 

Por conseguinte, escrevo.


Porque, no fim, não é a língua que fala.

É o homem que se revela através dela.



Agilson Cerqueira

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.


Licença: Creative Commons


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Catar Feijão - João Cabral de Melo Neto

 










João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999)

 

João Cabral de Melo Neto foi um famoso poeta e diplomata nascido no Recife que continua sendo apontado como um dos maiores escritores da língua portuguesa.

A sua poesia fugia de sentimentalismos ou tons confessionais; pelo contrário, o fazer poético de Cabral de Melo Neto era encarado como uma construção.

Parte da terceira geração do modernismo brasileiro, o poeta é lembrado pelo rigor estético das suas composições, sempre ancoradas em imagens concretas (a pedra, a faca, etc).

Escrevendo sobre as suas viagens e os lugares que conheceu, o autor também manteve um olhar atento e engajado sobre a realidade brasileira, em obras como Morte e Vida Severina (1955).

 

Catar feijão

 

1.

 

Catar feijão se limita com escrever:

Jogam-se os grãos na água do alguidar

E as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelada, por chumbo seu verbo;

pois catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

 

2.

 

Ora, nesse catar feijão entra um risco,

o de que, entre os grãos pesados, entre

um grão imastigável, de quebrar dente.

Certo não, quando ao catar palavras:

a pedra dá à frase seu grão mais vivo:

obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a com risco.

 

Fonte: Cultura Genial

Autoria: João Cabral de Melo Neto

Foto: Google

 

 

A infância - Ariano Suassuna

 





A infância

Sem lei nem Rei, me vi arremessado
bem menino a um Planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao Sol do Acaso,
vi o mundo rugir. Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado,
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho: e foi despedaçado!
E veio o Sangue: o marco iluminado,
a luta extraviada e a minha grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,
na Cadeia que estive e em que me acho,
a Sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!

Análise da poesia de Ariano Suassuna

Conteúdo

A poética do escritor é repleta de simbologias e bebe muito na tradição popular brasileira, sobretudo nordestina (convém lembrar que a infância de Ariano Suassuna foi integralmente passada no interior da Paraíba).

Toda baseada na tradição oral, a lírica se debruça sobre as cenas impregnadas na memória e mistura intencionalmente o real e o imaginário.

Os temas fundamentais da lírica de Suassuna são o exílio, o pai, a origem e o reino.

Assistimos também um interessante cruzamento entre referências populares e eruditas. Ariano encontra-se, sem sombra de dúvidas, no universo erudito (lembre-se que durante décadas o autor foi professor de estética de uma universidade renomada) ao mesmo tempo em que procura se alimentar de elementos populares.

Há nos seus versos muito presente traços do repente nordestino e afeto pelo sertão, lugar de origem do poeta. Não por acaso grande parte da poesia de Ariano é biográfica, marcada pelo percurso de vida do poeta.

O eu-lírico procura ver o lado luminoso do interior árido; ele dá menos enfase à seca, à esterilidade, à dureza, e sublinha mais o afeto, a comunhão, as particularidades solares dessa região do Brasil.

Forma

Marcada por carregar elementos do barroco, a lírica de Ariano é composta por uma escrita complexa, hermética. O vocabulário simples é combinado de uma maneira inesperada, nada usual.

Trata-se de uma poesia que não parece encerrada, antes pelo contrário, está sempre em movimento, em processo. Um dado interessante que comprova esse fato são os registros de Ariano Suassuna, papéis com inúmeras versões que atestam a permanente reescrita de algumas composições.

Em termos de formato, a sua poética apresenta preferência pela forma fixa (o soneto ou a ode).

Saiba quem foi Ariano Suassuna (1927- 2014), Ariano Vilar Suassuna, conhecido pelo grande pública apenas pelo primeiro e último nome, nasceu em Nossa Senhora das Neves, na Paraíba, no dia 16 de junho de 1927.

Filho do governador do seu Estado, cresceu no sertão da Paraíba ao lado dos seus oito irmãos. A vivência no interior do nordeste influenciou profundamente a sua produção literária.

Formado em Direito, Suassuna começou a escrever em 1945 quando publicou o poema Noturno no Jornal do Comércio - na ocasião tinha dezoito anos. A sua primeira peça de teatro, Uma Mulher Vestida de Sol, foi escrita dois anos mais tarde.

Ariano tornou-se também professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco. O escritor seguiu produzindo de modo voraz ao longo das décadas.

Seus trabalhos mais conhecidos são provavelmente Auto da Compadecida (peça de teatro) e Romance d’A Pedra do Reino.

Em 1990 o escritor ingressou na Academia Brasileira de Letras (ABL) tendo assumido a cadeira número 32.

Ariano Suassuna foi casado com Zélia de Andrade Lima e teve cinco filhos.

O escritor faleceu no dia 23 de julho de 2014 no Recife.


Autoria: Ariano Suassuna

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

 

 

 

 

8.28.2026

O coletivo imbecil - Olavo de Carvalho

 

O coletivo imbecil

Astrologia, universidades privadas e livros: como Olavo de Carvalho projetou desde os anos 1990 o que de pior se pensou para o Brasil

Paulo Roberto Pire

Amorte de Olavo de Carvalho silencia uma das vozes mais nocivas ao debate público no Brasil. Astrólogo e autodenominado “filósofo”, começou nos anos 1990 uma trajetória de arrivismo intelectual que encontraria no bolsonarismo, esse amálgama de ignorância, ressentimento e truculência, o veículo perfeito para se difundir. Em seus cursos, radicalizou jovens desinformados e brucutus de todas as extrações e idades. Consagrado como guru da extrema direita que vem corroendo a democracia brasileira, deixa um legado de anticomunismo violento, grosseria e negacionismo laboriosamente cultivado em 74 anos de imposturas.

Olavo de Carvalho foi uma criação coletiva. Dela fizeram parte seus ocultos financiadores, os veículos de imprensa seduzidos pelo pseudo-polemismo vulgar e editores de livros que legitimaram as estultices que escreveu­ ­— e, nos últimos tempos, também deram vida editorial a tediosas páginas de irrelevância assinadas por seus epígonos. A todos eles devemos, além da flagrante degradação da vida intelectual, a chegada ao poder de desqualificados que de 2018 para cá influíram diretamente em política externa, educação e cultura.

No início da ultima década do século, Olavo de Carvalho era assíduo na seção de anúncios do Jornal do Brasil, que viria a ser sua primeira tribuna de importância. Em outubro de 1990, conduziu um workshop de astrocaracterologia, “descrição do caráter individual segundo o horóscopo”. No ano seguinte, lecionava sobre “Astrologia segundo São Tomas de Aquino” e, em 1992, ofereceu quatro palestras sobre “O futuro da astrologia”. No ano seguinte começou um curso de “História essencial da filosofia”, que se seguiu, em 1994, ao coruscante seminário “Pensamento e atualidade de Aristóteles”. Era o início de uma nova encarnação.

 

Os apóstolos da destruição: as bases ideológicas da direita populista

Em 1996, seria acolhido pela Faculdade da Cidade com seu Seminário de Filosofia. No anúncio publicado no JB pela instituição de ensino carioca, hoje defunta, uma promessa de autoajuda, eivada de charlatanismo: “Aprenda a pensar. Desenvolva o raciocínio crítico em um ambiente propício ao exercício do pensamento”. A mesma universidade lançaria, em 22 de agosto daquele ano, com apoio da Academia Brasileira de Filosofia, O imbecil coletivo, opus magna que mereceria atualizações e acréscimos até alcançar as intermináveis 448 páginas da edição da Record. A editora, que então o prezava como grande pensador, também publicou O mínimo que você precisa de saber para não ser um idiota, volume que o Führer de chanchada ostentava na live em que comemorou sua chegada ao poder.

Intervenção americana Paulo Sérgio Pinheiro

Aqui peço licença para um necessário “eubituário”, esse gênero consagrado pelas redes sociais. Duas semanas depois do lançamento, publiquei no Globo, onde trabalhava como repórter do Segundo Caderno, uma resenha galhofeira de O imbecil coletivo. Olavo enviou um fax quilométrico, direito de resposta que ocuparia umas cinco vezes o espaço dedicado à sua obra. No dia seguinte, sem ao menos responder à contraproposta de edição do texto, fez publicar no JB a íntegra de sua réplica como anúncio pago (pela Faculdade da Cidade). Confesso que “O imbecil do Pires e o meu”, hoje antologizado em O imbecil coletivo, muito me divertiu.

Na época, Olavo ainda não tinha regredido à recente fase anal e tratava os excrementos com mais pudícia. “E após ter assim procurado ferir de maneira intencional a dignidade de um sujeito que ele nunca viu e que nunca lhe fez mal algum”, escreveu ele, “o Pires ainda o acusa de ‘grosseiro’. Certo, certo. O Pires é que é fino. Fino e de porcelana como um urinol do Império.” Olavo, coitado, se mostra magoado com a crítica, e me ataca: “Não havia, até o advento do Pires, qualquer crítica desfavorável a O imbecil coletivo ou a qualquer outro livro meu".

Já assimilado como “o contraditório”, “o polemista”, Olavo se tornou um atleta em rinhas de imprensa promovidas pelo que hoje se chama “pluralismo”. Não satisfeito com espaços editoriais — onde pontificava em qualquer discussão que envolvesse esquerda ou antiintelectualismo — mantinha-se ativo até na seção de cartas, onde deitava indignação pedestre contra consumo de drogas, esquerdismo e pautas que mantinham aceso o udenismo atávico de parte de seus seguidores.

 

A raiz doutrinária espiritual de Olavo de Carvalho, Steve Bannon e Aleksandr Dugin

Mesmo assim, ainda houve quem se chocasse quando, em 1997, quatro alunos da PUC-Rio citavam-no como inspiração — “mentor intelectual”, vocalizou um deles — para O Indivíduo, jornal que, em novembro daquele ano, protestava pela realização na universidade de uma Semana da Consciência Negra. Segundo a publicação, o evento depunha “contra a própria raça negra, como se esta fosse composta por pessoas que precisassem desesperadamente de autoafirmação”. O texto prossegue: “A escravidão era comum entre as tribos africanas e todos sabemos que os negros das tribos mais fortes foram cúmplices dos europeus no comércio de escravos. Assim sendo sugiro que os negros que desejam reparação façam árvores genealógicas para ir cobrá-las dos descendentes dos negros escravizadores.” 

“A extrema direita faz escola na PUC”, cravou o mesmo JB no título da reportagem que repercutia os olavistas de primeira hora. Assinada por Claudio Cordovil, a matéria dava voz a dois dos “alunos” de Olavo e submetia O Indivíduo ao filósofo Hilton Japiassu, ao psicanalista Joel Birman e ao cientista político Luiz Eduardo Soares.  Estarrecidos com o que leram e ouviram, os três advertiram sobre as implicações futuras do episódio. Em sua avaliação, Birman pontou para o que, naquele momento, não era óbvio como hoje: “Esta pode ser a ponta de um iceberg de uma coisa muito maior que deve ter ramificações na sociedade brasileira que sequer suspeitamos”.

Em vida, Olavo de Carvalho catalisou o que de pior se pensou e projetou para o Brasil. A morte não o redime e tampouco sepulta suas ideias. Mas pode nos fazer vigilantes para que a farsa não se repita como história.

 

Autoria: Paulo Roberto Pires (Análise do texto) 

Fonte: Olavo de Carvalho

Foto: Google

 

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