Alexei
Bueno e Nireu Cavalcanti em encontro de amigos no Angu do Gomes.
Até 27
de junho de 2026 Alexei Bueno era o maior poeta vivo brasileiro, que, à
semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas
da produção poética, do soneto à poesia em prosa, do haicai à ode, da
redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso
longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Decomposição de J. S.
Bach” e “A Chave Quebrada”.
A
partir dessa data, com seu desaparecimento do mundo dos vivos, ingressou no
panteão dos grandes poetas mundiais de todos os tempos. Se em 35 anos de vida
Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais
anos, Alexei, em seus 63 anos, escreveu uma obra de uma vastidão e variedade
digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos! Em suma, Alexei
Bueno, “a mais poderosa voz da poesia brasileira revelada nas últimas décadas”
(Arnaldo Saraiva), gestou uma obra poética única no Brasil em envergadura e
profundidade.
Vejamos
alguns poemas de Alexei Bueno (com comentários meus):
► O
nonsense comparece no poema de seis dísticos com versos de treze sílabas (uma
métrica menos comum) “A Luta”:
Os
relógios girando
A LUTA
Os
antiquários mordendo coxas de baratas,
Os
ladrões poltrões fugindo a tropeçar em latas,
Os
restaurantes fumando pelas chaminés,
Os
monstros do necrotério etiquetando pés,
As
moscas pousando nas baixelas e nos sacos,
Os
leões enjaulados comendo carne aos nacos,
As
moças beijando, o avô mostrando ao neto os cardos,
Os
relógios girando, os anões puxando fardos,
As
portas rangendo, os vencedores triunfando,
Os
loucos supondo, e os burros rindo, e as pombas voando.
Trabalha
e transforma, corja tonta e encordoada,
Que eu
cego nos postes não farei jamais nem nada.
► Em
“Um Hábito”, a vida é comparada a uma roupa mal-ajambrada:
UM
HÁBITO
Esta
roupa mal cortada,
Curta
aqui, ali comprida,
Aqui
frouxa, ali apertada,
Esta
roupa idiota é a vida.
Se a
enlamearem, se a rasgarem,
Se
furar muito depressa,
Que
dirão os que a envergarem
Se foi
ganha sem promessa?
Suja e
incômoda a portamos,
Que se
esgarce toda, que arda!
Vai ao
lixo, e ao lixo vamos
Que
ora é próximo, ora tarda.
► Como
no poema “Mundo Interior” de Machado de Assis, Alexei gosta de jogar com
opostos, e à enormidade do mundo cósmico contrapõe a pequenez de nossas
vidinhas sobre a superfície terrestre, no poema “Quem sabe”:
QUEM
SABE?
Quem
sabe se lá em cima, entre as estrelas
Que
explodem e se esfazem sem rumor,
Onde
um mundo conhece o ocaso e o alvor,
E onde
os sóis se consomem como velas,
Quem
sabe se a esses astros que andam pelas
Longas
rotas da noite sem fragor,
Todo
esse cataclísmico estridor,
Essas
fusões sem olhos para vê-las,
Não
passam de um doméstico e decrépito
Tédio
que não se altera, um morno estrépito,
Como a
vida é entre nós, uma cozinha
Onde a
tarde se apaga, o pó caído
Sobre
um móvel na sombra adormecido,
Uma
velha a chorar, curva e mesquinha?
►
“Poesia” é um metapoema, um poema sobre a poesia:
POESIA
Essa
se vai
Mas
sempre volta,
Nunca
nos trai,
Nunca
nos solta.
Damos-lhe
uns reles
Trapos
com prantos
E ela
faz deles
Místicos
mantos.
Damos-lhe
a lama
Da
alma, e ela acende
Nisso
uma chama
Que a
noite entende.
Damos-lhe
a finda
Vida,
e ela a alça
A
outra tão linda
Que a
ida faz falsa.
Essa
não mente,
Essa
não passa,
Mira
de frente
Glória
ou desgraça.
E
quando a Morte
Nos
pisa, branda,
Essa
diz forte:
Levanta-te e anda.
► Em
“Na Praça”, poema de um pessimismo a toda prova, o palhaço é visto sob duas
óticas antagônicas, a infantil e a adulta:
NA
PRAÇA
O
palhaço na praça encontra a criança.
Para
ela, que indescritível ser...
Para
nós, um histrião sem esperança
Que vai morrer.
Por
detrás dos apitos que ele vende
E das
cores da roupa alucinada,
Ao
nosso olhar, que há muito tudo entende,
A dor e o nada.
Há uma
bomba a falir sob a lapela,
A
solidão por baixo da peruca,
A
penúria e a doença na amarela
Cara maluca.
Mas a
criança na praça se extasia.
E o
bufão, onde à noite dormirá?
O que
é ele, e o que é tudo, em breve, um dia,
Ele verá.
► O
poema “A Perfeição” descreve uma tarde perfeita na vida, contrastando com o
habitual pessimismo de Alexei:
O sol
A
PERFEIÇÃO
Ficar
sentado na calçada de um café
Olhando as mulheres que passam
Na
tarde fria, mas com sol. Isto, enfim, é
A glória ideal que as horas traçam.
Se
queres mais és insensato, ou quase louco.
O fumo, a bebida, as beldades,
O sol,
a brisa. Nunca digas: isso é pouco,
É mais que muitas das verdades.
► Por
vezes Alexei atinge uma originalidade temática difícil de encontrar em outros
poetas, como em “La Mort des Pauvres”:
Paris
LA
MORT DES PAUVRES
É
muito ruim morrer tendo dinheiro,
Podendo,
alegre, ir rápido a Paris.
Almoçar
no Véfour, beber inteiro
Um
lote de Bordeaux. Flanar, feliz,
Nos
cais. Comprar um Dürer verdadeiro,
Uns
bronzes do Ceilão, a flor-de-lis
De
ouro real sobre um códice em carneiro,
Uns
vasos gregos, e aí tomar pastis...
Bom é
morrer falido, endividado,
Cortados
gás e luz, o nome imundo
Na
praça, todo crédito negado.
E, num
nicho que alugue algum parente,
Mors
omnia solvit, no mais vagabundo
Caixão,
ser sepultado inadimplente.
►
Poema sobre o trajeto da vida até desembocar no “beco” da morte:
TRAJETO
Quantas
ruas, travessas, avenidas,
De
início a abrir-se em leque à nossa frente?
Depois
já são bem menos. Finalmente
Umas
poucas. Então, de certa feita,
Resta
uma só das tantas prometidas,
Um
beco, uma viela, unicamente,
E como
é estreita.
► Em
“Ad Coevos” (“Aos Colegas”) Alexei professa a sua aversão ao mundo “concreto” e
preferência pelo mundo onírico e secreto:
AD
COEVOS
Vibrem
outros com as formas mais concretas,
Com o
palpável, o real, o aqui e o agora,
Seja
lá o que for isso, com o de fora,
Que
estou bem com as sonhadas e as secretas.
Estorçam-se
a gozar nas rijas teses
Que
começam e acabam nos sentidos.
Cruzo,
e não só, os mares pressentidos --
De
concreto me bastam minhas fezes.
► O
poema “Reflexos” resume a marcha da vida, que no começo é cheia de expectativas
(o possível) e no final, de recordações (o real), com o incognoscível à frente:
REFLEXOS
Chega
um momento onde o que há à frente é estreito,
E o
que há atrás é convidativo e largo.
Que o
semblante se volva. É um outro jeito
Também amargo.
Que
olhe o que foi real, e julgue, então,
Se o
real é um valor, se o é o possível.
Entre
os espelhos há o que resta, um vão –
O incognoscível.
► O
poema “Comédia” evoca, em tom debochado (porque pessimismo sem humor se torna
intragável), antigas crenças dualistas de que apenas o mundo espiritual teria
sido criado pela divindade, enquanto o mundo material foi criado por um
demiurgo ou demônio.
COMÉDIA
Um
demônio, um demônio galhofeiro,
Criou
num dia só o mundo inteiro.
Deus
dormia – de Deus se espera o sono –
Deixando
assim o Nada ao abandono.
No
ensejo, o diabo infeccionou o Nada
Com a
bactéria do Ser, que trapalhada!
O
Inferno estava pronto, o Paraíso
Espera
ainda o Dia do Juízo.
O
Purgatório tosta almas sem conta,
Mas a
fornada nunca fica pronta.
O
Inferno apenas recebeu então
A sua
primeira e última demão.
Eis-nos
aqui. Bendito tudo seja!
Uivamos.
Ri o diabo. Deus boceja.
► Um
poema originalíssimo, sobre um inseto no balcão de um bar (qual outro poeta
teve a imaginação de escrever sobre um tal tema?):
EPISÓDIO
Um
muito pequeno inseto
Pousou
no balcão do bar.
Informe,
incolor, abjeto,
Um
nada, uma nódoa a andar.
Com um
copo sujo esmaguei-o.
Ao
vê-lo imóvel, extinto,
Que
estranha impressão me veio,
Que
absurda dor, e ainda a sinto.
Mas vi
que ele se mexia,
Nem
sei qual parte. Elas, juntas,
Nada
eram. No entanto eu via
Nelas
a vida, ex-defuntas.
Com o
mesmo copo animei-o –
Com a
borda –, e ele se mexeu.
Depois
andou, com receio,
E,
súbito, ei-lo no céu.
O
ponto morto voava,
E eu,
outro átomo esquecido,
Via-o.
E ele, do ar, me dava
Um
nada, um tudo, um sentido.
► O
curto poema decassilábico, de estrofe única, “Na Plateia”, de um pessimismo
total e absoluto, culmina com uma constatação surpreendente:
NA PLATEΙΑ
Alguém
assistiria à mesma peça
No
mesmo teatro, imóvel, por cem anos?
As
mesmas falas, marcações, enganos,
Num
enredo que sempre recomeça?
Ardis
iguais, os mesmos personagens,
E a
trama que ninguém desenovela?
A
mesma história, e os beijos, e as pilhagens,
Os
mesmo alçapões, mesmas passagens.
Desde
sempre uma claque assiste a ela.
► “Avante” é um poema original sobre algo que dificilmente inspiraria um poeta: as portas.
De
quantas formas são as portas!
AVANTE
Mais
de mil portas se fecharam
Às
minhas costas, incontáveis.
Algumas
régias, admiráveis,
Outras
que os homens nem fitaram.
Umas
da mais rara madeira,
Outras
de pedra trabalhada.
Em
vão. Cada uma foi fechada,
Cerrada
para a vida inteira.
Algumas
eram pobres, tortas,
Outras
brilhavam como o dia,
Uma
imponente, a outra sombria,
De
quantas formas são as portas!
Trancas
abaixo. Os gonzos mudos.
Nem
uma aberta, e tantas eram.
Meus
olhos retos perseveram.
Um par
de lanças. Mil escudos.
► Em
“Fruições Salvíficas” Alexei escreve sobre o lado bom, salvífico (=que salva)
da vida:
FRUIÇÕES
SALVÍFICAS
Todos
os livros do mundo
(Alguns
só afago e não leio),
E as
estátuas, e outro veio –
Os
quadros – que não tem fundo;
E os
filmes, e os edifícios,
E a
música inigualada,
Os
antídotos do nada,
Os
incruentos sacrifícios;
Tudo
um acúmulo louco,
Tudo,
o que importa está nisso,
Êxtase
humano insubmisso...
E o
tempo, eterno e tão pouco.
► Em “Astronomia” Alexei contrasta o universo natural (“desde os micróbios até as nebulosas”) com o mundo da criação humana (o Partenon, a Missa de Bach, um quadro de Rembrandt...):
Quadro
de Rembrandt retratando seu filho, Tito, em traje monástico, no Rijks museu de
Amsterdam
ASTRONOΜΙΑ
Grande
universo, pródigo de formas,
Desde
os micróbios até as nebulosas,
Todos
escravos de umas tantas normas
Indecorosas.
Constelações
a arder... Por vós não troco
O
Partenon, a Missa em Si Menor,
Nem um
Rembrandt por um cometa louco
A voar, sem cor.
Árvore
cósmica, cheia de frutos...
Quanto
a frutas, prefiro as de Cézanne,
Ou
Schubert aos silêncios absolutos.
Que o mais se dane.
Estrelas
duplas, astros sem tamanho,
Sóis
que arrefecem, globos em fusão!
Só é
grande o homem neste circo estranho,
Mas os que o são.
Fonte:
Ivo Korytowski / Blog Sopa no Mel
Foto:
Produção
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

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