9.17.2026

Alexei Bueno e Nireu Cavalcanti em encontro de amigos - Angu do Gomes.

 

Alexei Bueno e Nireu Cavalcanti em encontro de amigos no Angu do Gomes.

 

Até 27 de junho de 2026 Alexei Bueno era o maior poeta vivo brasileiro, que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, do haicai à ode, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Decomposição de J. S. Bach” e “A Chave Quebrada”.

 

A partir dessa data, com seu desaparecimento do mundo dos vivos, ingressou no panteão dos grandes poetas mundiais de todos os tempos. Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos, escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos! Em suma, Alexei Bueno, “a mais poderosa voz da poesia brasileira revelada nas últimas décadas” (Arnaldo Saraiva), gestou uma obra poética única no Brasil em envergadura e profundidade.

 

Vejamos alguns poemas de Alexei Bueno (com comentários meus):


► O nonsense comparece no poema de seis dísticos com versos de treze sílabas (uma métrica menos comum) “A Luta”:

 

Os relógios girando

A LUTA

 

Os antiquários mordendo coxas de baratas,

Os ladrões poltrões fugindo a tropeçar em latas,

 

Os restaurantes fumando pelas chaminés,

Os monstros do necrotério etiquetando pés,

 

As moscas pousando nas baixelas e nos sacos,

Os leões enjaulados comendo carne aos nacos,

 

As moças beijando, o avô mostrando ao neto os cardos,

Os relógios girando, os anões puxando fardos,

 

As portas rangendo, os vencedores triunfando,

Os loucos supondo, e os burros rindo, e as pombas voando.

 

Trabalha e transforma, corja tonta e encordoada,

Que eu cego nos postes não farei jamais nem nada.

 

► Em “Um Hábito”, a vida é comparada a uma roupa mal-ajambrada:

 

UM HÁBITO

 

Esta roupa mal cortada,

Curta aqui, ali comprida,

Aqui frouxa, ali apertada,

Esta roupa idiota é a vida.

 

Se a enlamearem, se a rasgarem,

Se furar muito depressa,

Que dirão os que a envergarem

Se foi ganha sem promessa?

 

Suja e incômoda a portamos,

Que se esgarce toda, que arda!

Vai ao lixo, e ao lixo vamos

Que ora é próximo, ora tarda.

 

► Como no poema “Mundo Interior” de Machado de Assis, Alexei gosta de jogar com opostos, e à enormidade do mundo cósmico contrapõe a pequenez de nossas vidinhas sobre a superfície terrestre, no poema “Quem sabe”:

 

QUEM SABE?

 

Quem sabe se lá em cima, entre as estrelas

Que explodem e se esfazem sem rumor,

Onde um mundo conhece o ocaso e o alvor,

E onde os sóis se consomem como velas,

 

Quem sabe se a esses astros que andam pelas

Longas rotas da noite sem fragor,

Todo esse cataclísmico estridor,

Essas fusões sem olhos para vê-las,

 

Não passam de um doméstico e decrépito

Tédio que não se altera, um morno estrépito,

Como a vida é entre nós, uma cozinha

 

Onde a tarde se apaga, o pó caído

Sobre um móvel na sombra adormecido,

Uma velha a chorar, curva e mesquinha?

 

► “Poesia” é um metapoema, um poema sobre a poesia:

 

POESIA

 

Essa se vai

Mas sempre volta,

Nunca nos trai,

Nunca nos solta.

 

Damos-lhe uns reles

Trapos com prantos

E ela faz deles

Místicos mantos.

 

Damos-lhe a lama

Da alma, e ela acende

Nisso uma chama

Que a noite entende.

 

Damos-lhe a finda

Vida, e ela a alça

A outra tão linda

Que a ida faz falsa.

 

Essa não mente,

Essa não passa,

Mira de frente

Glória ou desgraça.

 

E quando a Morte

Nos pisa, branda,

Essa diz forte:

Levanta-te e anda.

 

► Em “Na Praça”, poema de um pessimismo a toda prova, o palhaço é visto sob duas óticas antagônicas, a infantil e a adulta:


NA PRAÇA

 

O palhaço na praça encontra a criança.

Para ela, que indescritível ser...

Para nós, um histrião sem esperança

     Que vai morrer.

 

Por detrás dos apitos que ele vende

E das cores da roupa alucinada,

Ao nosso olhar, que há muito tudo entende,

     A dor e o nada.

 

Há uma bomba a falir sob a lapela,

A solidão por baixo da peruca,

A penúria e a doença na amarela

     Cara maluca.

 

Mas a criança na praça se extasia.

E o bufão, onde à noite dormirá?

O que é ele, e o que é tudo, em breve, um dia,

     Ele verá.

 

► O poema “A Perfeição” descreve uma tarde perfeita na vida, contrastando com o habitual pessimismo de Alexei:

 

O sol

A PERFEIÇÃO

 

Ficar sentado na calçada de um café

     Olhando as mulheres que passam

Na tarde fria, mas com sol. Isto, enfim, é

     A glória ideal que as horas traçam.

 

Se queres mais és insensato, ou quase louco.

     O fumo, a bebida, as beldades,

O sol, a brisa. Nunca digas: isso é pouco,

     É mais que muitas das verdades.

 

► Por vezes Alexei atinge uma originalidade temática difícil de encontrar em outros poetas, como em “La Mort des Pauvres”:

 

 

Paris

 

LA MORT DES PAUVRES

 

É muito ruim morrer tendo dinheiro,

Podendo, alegre, ir rápido a Paris.

Almoçar no Véfour, beber inteiro

Um lote de Bordeaux. Flanar, feliz,

 

Nos cais. Comprar um Dürer verdadeiro,

Uns bronzes do Ceilão, a flor-de-lis

De ouro real sobre um códice em carneiro,

Uns vasos gregos, e aí tomar pastis...

 

Bom é morrer falido, endividado,

Cortados gás e luz, o nome imundo

Na praça, todo crédito negado.

 

E, num nicho que alugue algum parente,

Mors omnia solvit, no mais vagabundo

Caixão, ser sepultado inadimplente.

 

► Poema sobre o trajeto da vida até desembocar no “beco” da morte:

 

TRAJETO


Quantas ruas, travessas, avenidas,

De início a abrir-se em leque à nossa frente?

Depois já são bem menos. Finalmente

Umas poucas. Então, de certa feita,

Resta uma só das tantas prometidas,

Um beco, uma viela, unicamente,

E como é estreita.

 

 

► Em “Ad Coevos” (“Aos Colegas”) Alexei professa a sua aversão ao mundo “concreto” e preferência pelo mundo onírico e secreto:

 

AD COEVOS

 

Vibrem outros com as formas mais concretas,

Com o palpável, o real, o aqui e o agora,

Seja lá o que for isso, com o de fora,

Que estou bem com as sonhadas e as secretas.

 

Estorçam-se a gozar nas rijas teses

Que começam e acabam nos sentidos.

Cruzo, e não só, os mares pressentidos --

De concreto me bastam minhas fezes.

 

 

► O poema “Reflexos” resume a marcha da vida, que no começo é cheia de expectativas (o possível) e no final, de recordações (o real), com o incognoscível à frente:

 

REFLEXOS

 

Chega um momento onde o que há à frente é estreito,

E o que há atrás é convidativo e largo.

Que o semblante se volva. É um outro jeito

     Também amargo.

 

Que olhe o que foi real, e julgue, então,

Se o real é um valor, se o é o possível.

Entre os espelhos há o que resta, um vão –

     O incognoscível.

 

► O poema “Comédia” evoca, em tom debochado (porque pessimismo sem humor se torna intragável), antigas crenças dualistas de que apenas o mundo espiritual teria sido criado pela divindade, enquanto o mundo material foi criado por um demiurgo ou demônio.

 

COMÉDIA

 

Um demônio, um demônio galhofeiro,

Criou num dia só o mundo inteiro.

Deus dormia – de Deus se espera o sono –

Deixando assim o Nada ao abandono.

No ensejo, o diabo infeccionou o Nada

Com a bactéria do Ser, que trapalhada!

O Inferno estava pronto, o Paraíso

Espera ainda o Dia do Juízo.

O Purgatório tosta almas sem conta,

Mas a fornada nunca fica pronta.

O Inferno apenas recebeu então

A sua primeira e última demão.

Eis-nos aqui. Bendito tudo seja!

Uivamos. Ri o diabo. Deus boceja.

 

► Um poema originalíssimo, sobre um inseto no balcão de um bar (qual outro poeta teve a imaginação de escrever sobre um tal tema?):

 

EPISÓDIO

 

Um muito pequeno inseto

Pousou no balcão do bar.

Informe, incolor, abjeto,

Um nada, uma nódoa a andar.

 

Com um copo sujo esmaguei-o.

Ao vê-lo imóvel, extinto,

Que estranha impressão me veio,

Que absurda dor, e ainda a sinto.

 

Mas vi que ele se mexia,

Nem sei qual parte. Elas, juntas,

Nada eram. No entanto eu via

Nelas a vida, ex-defuntas.

 

Com o mesmo copo animei-o –

Com a borda –, e ele se mexeu.

Depois andou, com receio,

E, súbito, ei-lo no céu.

 

O ponto morto voava,

E eu, outro átomo esquecido,

Via-o. E ele, do ar, me dava

Um nada, um tudo, um sentido.

 

 

► O curto poema decassilábico, de estrofe única, “Na Plateia”, de um pessimismo total e absoluto, culmina com uma constatação surpreendente:

 

NA PLATEΙΑ

Alguém assistiria à mesma peça

No mesmo teatro, imóvel, por cem anos?

As mesmas falas, marcações, enganos,

Num enredo que sempre recomeça?

Ardis iguais, os mesmos personagens,

E a trama que ninguém desenovela?

A mesma história, e os beijos, e as pilhagens,

Os mesmo alçapões, mesmas passagens.

Desde sempre uma claque assiste a ela.

 

► “Avante” é um poema original sobre algo que dificilmente inspiraria um poeta: as portas.

De quantas formas são as portas!

AVANTE

 

Mais de mil portas se fecharam

Às minhas costas, incontáveis.

Algumas régias, admiráveis,

Outras que os homens nem fitaram.

 

Umas da mais rara madeira,

Outras de pedra trabalhada.

Em vão. Cada uma foi fechada,

Cerrada para a vida inteira.

 

Algumas eram pobres, tortas,

Outras brilhavam como o dia,

Uma imponente, a outra sombria,

De quantas formas são as portas!

 

Trancas abaixo. Os gonzos mudos.

Nem uma aberta, e tantas eram.

Meus olhos retos perseveram.

Um par de lanças. Mil escudos.

 

► Em “Fruições Salvíficas” Alexei escreve sobre o lado bom, salvífico (=que salva) da vida:

 

FRUIÇÕES SALVÍFICAS

 

Todos os livros do mundo

(Alguns só afago e não leio),

E as estátuas, e outro veio –

Os quadros – que não tem fundo;

 

E os filmes, e os edifícios,

E a música inigualada,

Os antídotos do nada,

Os incruentos sacrifícios;

 

Tudo um acúmulo louco,

Tudo, o que importa está nisso,

Êxtase humano insubmisso...

E o tempo, eterno e tão pouco.

 

► Em “Astronomia” Alexei contrasta o universo natural (“desde os micróbios até as nebulosas”) com o mundo da criação humana (o Partenon, a Missa de Bach, um quadro de Rembrandt...):

Quadro de Rembrandt retratando seu filho, Tito, em traje monástico, no Rijks museu de Amsterdam

ASTRONOΜΙΑ

 

Grande universo, pródigo de formas,

Desde os micróbios até as nebulosas,

Todos escravos de umas tantas normas

     Indecorosas.

 

Constelações a arder... Por vós não troco

O Partenon, a Missa em Si Menor,

Nem um Rembrandt por um cometa louco

     A voar, sem cor.

 

Árvore cósmica, cheia de frutos...

Quanto a frutas, prefiro as de Cézanne,

Ou Schubert aos silêncios absolutos.

     Que o mais se dane.

 

Estrelas duplas, astros sem tamanho,

Sóis que arrefecem, globos em fusão!

Só é grande o homem neste circo estranho,

     Mas os que o são.

 

Fonte: Ivo Korytowski / Blog Sopa no Mel

Foto: Produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

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