9.02.2026

O SABER, O PENSAR E O SOFRER - Agilson Cerqueira

 

O SABER, O PENSAR E O SOFRER


Agilson Cerqueira


O saber nos remete à reflexão.

A reflexão a razão.

A razão ao sofrimento.

O sofrimento ao desespero.

O desespero ao fim…

Sem reflexão,

Sem razão,

Sem recomeço,

Desesperado,

Débil, vago sem saber!

Confuso. Difuso.

Fuso (no tear, na matemática ou na citologia?)!

Me calo quieto,

Meu saber está inquieto.

Continuo desesperado!



SÍNTESE


(Uma síntese na tentativa de explicar o Saber, o Pensar e o Sofrer, após a releitura de O Silêncio dos Sábios, de Dostoiévski. Para ele, não é ausência de pensamento, mas o recolhimento de quem se confronta profundamente com a consciência, com as contradições humanas e com verdades que nem sempre encontram palavras. Saber é enxergar; pensar é não conseguir deixar de enxergar; sofrer, talvez, seja carregar aquilo que se viu).



O SABER, O PENSAR E O SOFRER II



Saber é uma espécie de condenação.

Primeiro, aprendemos

Depois, pensamos sobre aquilo que aprendemos.

Então começamos a duvidar.


E quando a dúvida encontra a razão, alguma coisa dentro de nós já não volta a ser como antes.


O saber nos leva à reflexão.

A reflexão nos entrega à razão.

A razão nos abandona diante da consciência.

E a consciência, quando desperta, não promete felicidade.

Promete perguntas.


Talvez seja por isso que os sábios se calam.

Não porque lhes faltem palavras, mas porque já descobriram que algumas verdades não encontram abrigo na linguagem. 


Falar pode ser uma maneira de fugir do pensamento; calar-se, às vezes, é permanecer diante dele.


Há homens que sofrem porque não sabem.

Há outros que sofrem porque sabem.


E talvez os mais atormentados sejam aqueles que sabem que não sabem.


Eu estou entre eles.

Penso.

Duvido.

Volto a pensar.

E quanto mais penso, mais a certeza se desfaz.


Confuso.

Difuso.

Fuso.


Fuso no tear, na matemática, na citologia...

Ou talvez apenas fuso dentro de mim, entre os fios de uma consciência que não consegue permanecer inteira.


Quero uma resposta.

Encontro uma resposta.

Desconfio dela.

E volto à pergunta.


Que espécie de homem sou eu?

Aquele que pensa?

Aquele que sente?

Aquele que sabe?

Ou aquele que sofre por não conseguir conciliar o que pensa com aquilo que sente?


Talvez a razão não tenha razão.

Ela persegue a mentira, mas também pode agredir  aquele que a empunha.


E então compreendo por que tantos preferem a certeza à verdade.


A certeza tranquiliza.

A verdade inquieta.

A certeza permite viver.

A verdade obriga a pensar.


E pensar…


Pensar pode ser uma forma lenta de sofrimento.

Por isso me calo.

Não porque tenha encontrado a resposta.

Mas porque descobri que talvez a pergunta seja maior do que eu.


Fico quieto.


E, no silêncio, meu pensamento continua.

Meu saber não descansa.

Minha razão não se satisfaz.

Minha consciência não me perdoa.

E o desespero permanece.


Talvez seja esse o castigo de quem enxerga:

não conseguir mais fingir que não viu.

Então me calo.

Como os sábios.

Como os culpados.

Como os homens que descobriram, tarde demais, que dentro de cada resposta existe outra pergunta.


E continuo pensando.

Continuo sabendo.

Continuo sofrendo.


Porque talvez o verdadeiro paradoxo não seja não saber. Talvez seja saber o suficiente para jamais conseguir voltar à inocência de não saber.



Agilson Cerqueira

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.


Licença: Creative Commons


Link: rilvanbatistadesantana.blogspot.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos

Destaques

Discurso de Lula na ONU

Lula na ONU  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu os trabalhos na Assembleia Geral das Nações Unidas e foi o primeiro chefe de ...

Última semana