Minha Bahia que
mora dentro de mim!
Silvio Porto de
Oliveira
“Escrevo
como se a Bahia fosse contada de dentro da lembrança, da alma e da vida
vivida.”
Bahia, te amar é o meu jeito de viver. Eu aprendi cedo que a Bahia não era apenas um lugar no mapa. Era uma maneira de sentir o mundo. Antes mesmo de entender a geografia, eu já conhecia sua respiração. Ela estava no barro grudado nos pés, no sol queimando manso a pele, no cheiro da terra depois da chuva, no rumor das feiras, no canto dos passarinhos, no riso fácil do povo e nesse jeito tão nosso de conversar demorado, como se o tempo tivesse coração.
A
minha Bahia nunca foi somente a das fotografias bonitas. Foi, antes de tudo, a
Bahia vivida. A Bahia dos interiores, dos caminhos de roça, das cidades que
cresceram entre a luta e a esperança, da sombra dos cacaueiros, dos rios
correndo como se levassem recados antigos, das famílias que aprenderam a
enfrentar os dias duros sem perder a ternura. Foi essa Bahia funda, de carne e
memória, que me ensinou a viver.
E
quando penso nela, penso logo no sul. Penso em Itabuna e Ilhéus como quem pensa
em duas presenças da própria casa. Ilhéus sempre me pareceu ter nascido do
encontro entre a beleza e a nostalgia. Tem mar, tem romance, tem sobrado
antigo, tem perfume de história derramado nas esquinas. Itabuna, por sua vez,
sempre me falou mais alto como cidade de fibra, de nervo, de trabalho, de
pulsação cotidiana, de gente que não se entrega. Se Ilhéus parece sonhar à
beira do mar, Itabuna parece acordar cedo para construir o futuro. Mas as duas,
no fundo, são irmãs do mesmo ventre grapiúna, alimentadas pelo cacau, pela
cultura e pela coragem.
Foi
entre essas paisagens, reais e afetivas, que aprendi a amar a Bahia não apenas
pela vista, mas pelo espírito. O sul da Bahia me ensinou que a terra pode ter
voz. E teve. Teve nas páginas de Jorge Amado, que transformou esse chão em
epopeia, em carne, em paixão, em luta, em eternidade. Jorge deu ao mundo o
sabor humano de nossa terra. Fez do cacau destino, dos coronéis drama, das
mulheres força, dos homens contradição, e do povo baiano uma matéria de romance
que ninguém mais esquece.
Adonias
Filho veio com outra luz, ou talvez com outra sombra. Sua escrita grave mostrou
que a mesma terra que florescia também guardava tragédia, silêncio e destino.
Cyro de Mattos, com seu talento delicado e sentimental soube recolher os gestos
pequenos , os sentimentos discretos, os lampejos humanos que fazem da vida
simples uma grande literatura. Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, Firmino Rocha
e Hélio Pólvora também ajudaram a erguer, palavra por palavra, a dignidade
literária desse território. Não escreveram apenas sobre lugares: ajudaram a
construir uma alma regional que conversa com o universal.
Mas a
grandeza do sul da Bahia não mora apenas nos nomes já consagrados pela
história. Ela continua viva em muitas vozes que pensam, escrevem, ensinam,
pesquisam, criam e honram essa terra com sensibilidade e inteligência. E eu
gosto de vê-las como quem contempla uma constelação de presenças necessárias.
Ceres
Marylise, Lurdes Berthol, Sione Porto, Raquel Rocha, Margarida Fahel, Janete
Macedo, Tica Simões,Heloísa Prazeres, Cyro de Mattos, Clóvis Góes Júnior,
Rilvan Santana, Ademilton Batista, Ruy Póvoas, Jorge Batista, Marcos Bandeira,
Delile Oliveira, João Otávio, Rafael Gama, Gustavo Cunha , Eliabe Isabel,
Silmara, Baisa Nora, Wilson Caetano, Renée Albagli, Gustavo Veloso, e Sérgio
Sepúlveda são, cada um à sua maneira, expressões desse patrimônio vivo. Uns
mais próximos da literatura, outros da reflexão, da pesquisa, da memória, da
crítica, da docência, da cultura. Todos, porém, ligados por esse fio invisível
que une a inteligência ao sentimento de pertencimento. São nomes que não deixam
a nossa região cair no esquecimento; ao contrário, fazem dela permanência.
Há
algo de muito bonito quando uma terra produz não só riqueza material, mas
também riqueza de espírito. O sul da Bahia produziu cacau, sim, mas produziu
também linguagem, imaginação, poesia, pensamento. Produziu homens e mulheres
capazes de ver além da superfície das coisas. Produziu quem soubesse contar a
dor, a beleza, o trabalho, a decadência, a esperança, o amor e a resistência.
Isso é raro. Isso é grande. Isso é civilização.
Talvez
por isso eu nunca tenha conseguido amar a Bahia de modo superficial. O meu amor
por ela não é turístico, é visceral. Não nasce do encantamento passageiro, mas
da convivência funda. Eu amo a Bahia porque nela reconheço o chão dos meus
passos, o sotaque da minha emoção, o cenário de tantas lembranças, o berço de
tantas amizades, a origem de tantos afetos e a moldura de tantas lutas.
Amo a
Bahia porque nela a vida sempre me pareceu mais humana. Mais próxima. Mais
quente. Mais falada no olho. Mais repartida em volta da mesa, da calçada, da
praça, da praia, da fazenda, da varanda. Amo a Bahia porque ela me ensinou que
o mundo pode ser duro sem perder a música. Que a saudade não é fraqueza, é
patrimônio. Que a memória não é peso, é raiz. E que uma terra só vive
verdadeiramente quando continua sendo contada por seus filhos.
Por
isso, quando digo que Bahia, te amar é o meu jeito de viver, não estou
repetindo uma frase bonita. Estou confessando uma fidelidade. Uma aliança
antiga entre o que sou e o chão que me formou. Estou dizendo que há dentro de
mim um pedaço de Itabuna feito de luta, amizade, trabalho e persistência. E há
também um pedaço de Ilhéus feito de sonho, maresia, romance e contemplação.
Estou dizendo que me reconheço na literatura que essa terra gerou, nas vozes
que a celebraram e nas pessoas que seguem mantendo sua chama acesa.
A
Bahia, para mim, é isso:
um
lugar que não termina na paisagem,
porque
continua dentro da gente.
Ela
está nas páginas de Jorge Amado e Adonias Filho,
no
lirismo de Cyro de Mattos,
na
força intelectual de Ruy Póvoas,
na
delicadeza e na presença de tantas outras vozes como:
Ceres
Marylise, Lurdes Berthol, Sione Porto, Raquel Rocha, Margarida Fahel, Janete
Macedo, Tica Simões,Heloísa Prazeres, Cyro de Mattos, Clóvis Góes Júnior,
Rilvan Santana, Ademilton Batista, Ruy Póvoas, Jorge Batista, Marcos Bandeira,
Delile Oliveira, João Otávio, Rafael Gama, Gustavo Cunha , Eliabe Isabel,
Silmara, Baisa Nora, Wilson Caetano, Renée Albagli, Gustavo Veloso, e Sérgio
Sepúlveda
Todos
eles, junto com tantos mais, ajudam a provar que a Bahia não é apenas uma terra
de beleza — é uma terra de espírito.
E eu,
que a trago na lembrança, na fala e no coração, só posso dizer assim, como quem
fala de amor verdadeiro:
Bahia,
te amar é o meu jeito de viver.
Porque
foi em teu sul de cacau e maresia,
em tua
Itabuna de fibra,
em tua
Ilhéus de encanto,
em
teus escritores, mestres e herdeiros,
que
aprendi que algumas terras
não
apenas nos acolhem —
nos
inventam.
*****
Fonte: Blog do Thame
Autoria: Sílvio Porto, neurocirurgião, poeta e escritor.
Foto: Produção
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

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