Susan
“Boyle”
R. Santana
Não
tenho o talento de Morris West, o escritor australiano, que tão bem descreveu o
conflito de um bispo na canonização do seu principal personagem, no seu livro:
“O advogado do diabo”, mas quero fazer a defesa sem ser convidado dos jurados
Simon Cowell, Piers Morgan e a linda loira Amanda Taylor que debocharam e
desdenharam discretamente, num primeiro momento, de Susan “Boyle”, no programa
Britain´s got talent. Os coitados dos jurados não tiveram culpa a priori, quem
levaria a sério uma senhora sueca dos rincões de Blackburn, de cabelos
grisalhos, gorducha, desengonçada, quarentona com roupas e trejeitos de
sessenta perseguindo o sonho de ser cantora à Elaine Paige, uma atriz e cantora
de sucesso na terra da rainha Elizabeth II? Ninguém! Os hipócritas e os cínicos
diriam o contrário, porém, cínicos e hipócritas não têm compromisso com a
verdade. A imagem impressiona, todos nós cometemos o pecado de julgar as
pessoas pela aparência por mais que desejemos não ter idéias preconcebidas. A
estética, a beleza física e a boa aparência predominam nas relações primárias
do homem, porém, é necessário esclarecer que a beleza física em si não se
sustenta todo tempo, mas algum tempo. Os condimentos de inteligência, talento,
cultura, polidez e bom caráter são fundamentais para que a beleza física de uma
pessoa se sustente. Sócrates, Gandhi, Einstein, Martinho Lutero, Napoleão,
Bérgson e Gengis Kahn ou Gengis Cão, não eram modelos de beleza, mas dividiram
a História e ganharam o mundo, foram homens do seu tempo, com inteligência, com
sabedoria, com perspicácia, com liderança, com bravura e com amor. O
preconceito é apanágio da natureza humana assim como outros sentimentos
nocivos. A instrução, a educação, a cultura, a sociedade e os instrumentos
jurídicos penais atuais, ajudam moldá-lo, inibi-lo, jamais erradicá-lo. O
pobre, o feio, o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio e o
velho, sempre vão ter pessoas para virar-lhes a cara, torcer-lhes o nariz,
olhá-los de soslaio, de esguelha, ou cumprimentá-los com a ponta dos dedos. Em
certo trecho da liturgia católica o padre pede que todos se cumprimentem com a
mensagem: “o amor de Cristo nos unindo”. Se alguém colocasse uma câmara
invisível nessa parte da liturgia, ficaria pasmo com os gestos discretos de
esforço que alguns fazem para abraçar o irmão, muitos não arredam pé do seu
lugar para cumprimentar o outro, mais alguns passos adiante... Lembro-me de um
episódio em que um motorista do antigo DNER ao encontrar um negro na sala do
seu chefe, o Dr. Pedro Bastos, inquiriu-lhe com desdém: “... negrão aonde foi
Dr. Pedro?”, à medida que o engenheiro-chefe não chegava, ele foi se ousando:
“...negrão tire a bunda dessa cadeira e vá procurar o chefe!”, caiu do cavalo
quando alguém lhe disse que aquele negro esquisito era o diretor regional do
extinto DNER , hoje, DNIT, consequentemente, chefe do seu chefe. Doutra feita,
eu vi um eletricista se descabelar para ligar umas fluorescentes em série
enquanto um moleque amarelo, desprezível, o olhava por baixo, intrigado com sua
incompetência e quando lhe esgotou a paciência, ele com jeito se ofereceu: “O
senhor deixa, eu tentar?...”, o pedido em princípio não foi aceito, na casa do
sem jeito, o velho eletricista cedeu com desconfiança, depois de olhá-lo
cismado. O Zé Aparecido subiu com destreza na escada, puxa fio daqui puxa fio
acolá e minutos depois ele autoriza: “Ligue!”, para surpresa dos que não lhe
confiavam um tostão furado, o salão ficou todo iluminado com a incandescência
de sua meia dúzia de fluorescentes. Porém, o fenômeno Susan “Boyle” é
fantástico, suis generis, jamais alguém vai galvanizar a revolta de tanta gente
em todos os continentes da Terra pelo descaso e deboche que ela foi recebida no
Britain´s got talent. Todavia, a própria Susan “Boyle” nos deu a resposta,
demonstrando humildade, simplicidade, segurança e desenvoltura. Ela não chegou
ao show de talentos, agachada ou derrotada, em determinado trecho do vídeo do
You Tube, ela diz: “Vou fazer esta platéia tremer” e quando Simon Cowell torceu
o nariz pela resposta que ela lhe deu de sua idade, literalmente rebolou e
disse-lhe: “Isto é apenas uma parte de mim”, isto é, demonstrou mais uma vez,
esplendorosa segurança que não é comum aos débeis e aos incautos. Machado de
Assis e Tobias Barreto, apertados na cor, eram insociáveis, tímidos, mas quando
a ocasião se fazia necessária, deixavam os seus complexos de lado e assumiam os
seus talentos na arte da escrita ou da eloquência como gigantes fustigados, mas
não extenuados e acabados. Evocando o dito popular: “Por causa de uma cara feia
se perde um bom coração.” Então, buscando no egrégio pensador Henry David
Thoreau: “As coisas não mudam, nós é que mudamos” ou “Nunca é tarde para
abrirmos mão dos nossos preconceitos”. Viva o exemplo Susan “Boyle”!...
Autor: Rilvan Batista de Santana –
Licença: Creative Commons.
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Fonte: YouTube
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com
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