A VOLTA DO PASTOR
(CAPÍTULO I)
A
Cidade estava em festa. Foi um trabalho árduo e cansativo, mas tudo correu bem.
Durante todo o dia, o que se via e ouvia era uma tremenda confusão. Bocas que
falavam ao mesmo tempo, outras que gritavam ordens ininteligíveis. Pés que
andavam, sem direção certa, para lá e para cá. Papéis coloridos – que mais
tarde transformar-se-iam em bandeirolas, graças às mãos ágeis da menina Bia e
de alguns ajudantes, – desordenadamente espalhados pelo chão. Colas
displicentemente derramadas sobre a mesa. Beatas que colocavam flores por todas
as paredes e recantos da igreja. Sim! Uma tremenda confusão! Alaridos e
balbúrdias por todos os lados, mas tudo correra bem. A cidade estava feliz.
A
Sra. Sousa e Silva, uma das responsáveis por esta felicidade, talvez a que mais
tivesse labutado por ela, sentia-se satisfeita consigo mesma.
-
Foi uma trabalheira danada; mas valeu a pena! – pensava com seus botões. –
Mesmo com todas aquelas vozes irritantes que teimavam em falar de uma só vez!
Irritante! Irritante mesmo era a voz da Sra. Castro. Por mais que se
esforçasse, a Sra. Sousa e Silva não conseguia entender como é que alguém
pudesse ter uma voz daquela. Quando falava, a Sra. Castro lembrava o canto
esganiçado de uma araponga desafinada que insistia em despertar logo nos
primeiros raios de uma manhã fria e chuvosa, o sono profundo daqueles que podiam
se dar ao luxo de dormir até mais tarde no domingo, depois de trabalhar todas
as noites, a noite toda durante a semana inteira.
-
Valeu a pena! – repetiu a Sra. Sousa e Silva. E valera mesmo, só o sacrifício
de ouvir horas e horas a voz da Sra. Castro, valera para deixar a cidade
enfeitada e feliz; e olhe que ainda sobrava para desconto de metade de seus
pecados. Rindo do próprio pensamento, a Sra. Sousa e Silva acrescentou: - Agora
só falta ele chegar!
Ele,
para a Sra. Sousa e Silva, era o homem que viria substituir o velho e falecido
Monsenhor de Alcântara. O Pastor que conduziria com retidão no caminho
religioso as ovelhas do rebanho deixado pelo saudoso Monsenhor.
Monsenhor
Aluísio de Alcântara. Coitado! Morrera há um mês vítima de um enfarte no
miocárdio e, provavelmente, da própria senilidade. Ele estava tão velhinho e o
coração tão fraco, que nos últimos tempos, celebrar uma missa para o Monsenhor
de Alcântara, correspondia a levantar quinhentos quilos de peso.
Como
será ele? A cidade inteira se perguntava sem muito interesse, pois tinha a
plena convicção de que era um velho como todos os outros que o antecederam.
Deve ser velho e bonachão como o Monsenhor de Alcântara. – refletiu a Sra.
Sousa e Silva.
Neste
momento, o barulho dos foguetes pipocando no ar e a voz de alguém gritando “o
padre está chegando!” arrancaram a Sra. Sousa e Silva de seus pensamentos.
A
imponente figura de um carro preto de quatro portas vislumbrara no limiar da
cidade e aproximava-se agora, lentamente, até o centro, onde uma banda de
música, mil bandeirolas que se agitavam coloridas ao vento; várias faixas com
dizeres tipo “Ibirapiúna saúda o seu novo representante paroquial”, “É com
alegria que Ibirapiúna recebe o Monsenhor Evaristo D’Almeida”, “Viva o nosso
novo padre”; a presença de autoridades municipais e uma grande multidão, o
aguardavam.
Para
espanto geral da cidade, que esperava encontrar um velho, a pessoa que desceu
do carro era um jovem de, aproximadamente, 28 anos de idade, alto, esbelto, tez
morena, cabelos castanhos um pouco ondulados, olhos plúmbeos e sorriso largo e
pueril que lhe acentuava um certo encanto angelical.
A
Sra. Sousa e Silva empalidecera repentinamente!
Por
certo a cidade não se apercebera, embevecida e agradavelmente surpresa com a
jovialidade e beleza do novo padre.
Mas
aquele olhar! Aquele olhar! Havia alguma coisa de terrível naquele olhar! A Sra. Sousa e Silva tivera um pressentimento ruim. Muito ruim. Sentia todo o seu
corpo enrijecer. O que poderia haver de funesto por trás daquele rosto de anjo?
Era uma premonição. Um presságio. Um prenúncio do mal. Algo de sinistro iria
acontecer. Ela sabia disso, mas não sabia o quê. Aquele olhar! Uma grande
ameaça pairava sobre a cidade. Ela sentia isto. Que estranho segredo se esconde
naqueles olhos cor de chumbo? O que propriamente de nefasto significava aquele
olhar?
Um
súbito e frio tremor percorreu o corpo da Sra. Sousa e Silva do cóccix à nuca.
E então ela soube. Sim, ela sabia! O jovem padre trouxera encanto e beleza à
cidade, mas trouxera também a morte.
Então
era este o pastor que iria conduzir o rebanho do Monsenhor de Alcântara!
Autora: Rita Maynart
Foto: Produção
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com
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