7.02.2026

Tupã - R. Santana

 

Tupã - R. Santana

 

A vida é feita de momentos de sentimentos agradáveis. Não faz muito tempo, um tiquinho de tempo, que encontrei um amigo de priscas eras, Valmir Rocha, que de chofre, perguntou-me:

- Lembra-se de Tupã? – cachorro criado pelo saudoso tio Pedro.

- Claro, Valmir! – aí, ele contou-me a seguinte história que deve datar de 50 anos atrás:

- Eu e Pedro estávamos conversando (Tupã ao lado), quando passou um fotógrafo, então, Pedro espirituoso, chamou o fotógrafo:

- Tire a foto desses três cachorros, ah, ah, ah... – Valmir completou:

- Eu ainda tenho essa foto, irei lhe enviar pelo WhatsApp.

          Tupã era um cachorro grande (não me pergunte a raça), pelo marrom luzidio e instinto aguçado, possuía algumas habilidades sem adestramento, habilidades inatas ou adquiridas ao longo dos anos. Morreu de velhice e foi um drama para Pedro, esposa e filhos, uma grande perda, como se fosse a morte de um parente querido.

          Tupã não era agressivo, salvo, se mexesse com Pedro ou os filhos e a mulher. Era um cachorro de fácil convivência, vivia sem coleira, focinheira ou qualquer outro equipamento de contenção animal, circulava entre os fregueses do “Bar de Pedro” sem nenhum risco. Outro traço de “civilidade” desse animal, é que só fazia coco e xixi em lugares adequados.

          Tupã quedava-se a qualquer gesto de afago dos clientes, por isto, todos gostavam dele e, ai daquele desconhecido que molestasse um dos seus “amigos”.

          Porém, nessa época, os filhos de Pedro: Celso, César e Celmar estudavam em escolas primárias, aqui, no São Caetano. Tupã era seus guarda-costas. No horário escolar, de manhã ou meio dia, ele saía de fininho, sem ninguém mandar, ia levá-los ou ia buscá-los na escola. Certa feita um desconhecido desavisado foi brincar com um dos filhos de Pedro, que voltava da escola, Tupã avançou com tanta força que jogou o sujeito no chão e, se não fosse os gritos do menino e Pedro que chegava, o cachorro teria estragado a cara do indivíduo.

          Quando Valmir me relatou a história da foto e a graça de Pedro: “Tire a foto desses três cachorros”, acreditei porque era do seu feitio, do seu estado de humor, sempre tinha uma saída humorada para as coisas mais desfavoráveis. Nunca o vi agressivo ou descontrolado emocional, primava pelo bom senso: sair das situações adversas com temperamento pacífico e inteligente.

Lembro-me de um fato pitoresco que ocorreu no “Bar de Pedro’. O bar além de uma modesta lanchonete, havia sinuca, dominós e carteado (jogo de baralho) que varava a madrugada. O negro Lubião era viciado no baralho, quando não jogava, ficava peruando o jogo dos outros parceiros. Certo dia, surgiu uma barata no salão, depois de morta, Pedro brincou:

- Lubião, se você comer essa barata, lhe darei Cr$ 50,00 (cinquenta cruzeiros), para entrar no jogo. Lubião era um negro pinguço, comeu a barata (para incredulidade de todos), entrou no jogo e saiu cheio de dinheiro e feliz da vida.

Portanto, não me admirou quando Valmir Rocha falou da conduta brincalhona de Pedro: “Fotógrafo, tire a foto desses três cachorros”, pois, seu forte era viver bem com a vida.

Certamente, Tupã era um cachorro diferenciado, um instinto aguçado, diria, inteligente, que voluntariamente, solucionava qualquer situação desagradável.

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

Fonte: Valmir Rocha
Foto: Produção

 

Blog: Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

         

              

 

         

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