DIREITOS – Quando foi fundada e onde fica sediada a
Academias de Medicina de Itabuna?
Silvio Porto – A AMEI foi fundada em 17/10/2021, a solenidade de
posse aconteceu no auditório da FASA/AFYA situado na avenida Ibicaraí, nº
3.270, bairro Nova Itabuna, onde também funcionou a nossa sede provisória por
alguns anos, sendo que a sede atual fica no edifício Benjamin de Andrade,
nº 884, salas 701/702, na avenida Cinquentenário, centro da cidade.
DIREITOS – Quem são os fundadores da Academia de
Medicina de Itabuna?
Silvio Porto – Ela foi fundada em 17/10/2021 (véspera do Dia do
Médico) com 40 membros titulares-fundadores e 15 membros correspondentes, que
foram empossados em solenidade festiva em 19/11/2021. E o projeto de fundação
nasceu para homenagearmos os médicos/as que foram destaques, cada um em seu
tempo na nossa história médica contemporânea.
DIREITOS – Estatutariamente quais são os objetivos
da instituição?
Silvio Porto – A AMEI tem como objetivo o de contribuir para o
estudo, a discussão e o desenvolvimento das práticas da medicina, cirurgia,
saúde pública e privada e ciências afins, além de servir como órgão de
consulta do Governo Municipal sobre questões de saúde e de educação médica. A
ideia é que sejamos uma entidade científica dedicada à saúde a reunir-se
regularmente em nossa cidade.
A Academia também pretende promover congressos nacionais e
internacionais, cursos de extensão e atualização e, anualmente, durante a
semana do dia do médico e a sessão de aniversário, distribuir certificados,
diplomas e prêmios para Estudantes de Medicina, médicos e pesquisadores
não pertencentes aos seus quadros. Além de promover a medicina, a ciência e a
memória médica, contribuindo com saber e humanismo para o desenvolvimento da
sociedade.
DIREITOS – Quais são os critérios de
ingresso/escolha dos acadêmicos/as? O quadro da AMEI está completo?
Silvio Porto – O candidato a Membro Titular deverá preencher os
seguintes requisitos: a) ser brasileiro, b) ser graduado em Medicina, por tempo
não inferior a 15 (quinze) anos, c ) morar em Itabuna nos últimos cinco anos, e
c) apresentar memória ou dissertação inédita e de lavra própria. d) possuir
atividade científico-profissional, comprovada mediante apresentação dos seus
títulos e trabalhos. Sim está completo.
DIREITOS – O senhor é também “imortal” da Academia
de Letras de Itabuna (Alita), onde ocupa a cadeira nº 28.
Sílvio Porto – Sim. Fui aceito e eleito como Membro Titular da
cadeira 28 da Academia de Letras de Itabuna, que tem como patrono o poeta
Firmino Rocha, substituindo a acadêmica Delile Oliveira (in memoriam).
DIREITOS – No último mês de março, o senhor recebeu
a ‘Comenda 2 de Julho’, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa da
Bahia (Alba). Fale- nos sobre esse momento ímpar.
Sílvio Porto – Receber a Comenda 2 de Julho é uma honra que me
emociona profundamente. Esta homenagem, que carrega um significado tão especial
para a história e para o povo da Bahia, eu a recebo com gratidão e, acima de
tudo, com humildade.
Nenhuma conquista é individual. Por isso, neste momento, faço questão de
dividir esta honra com tantas pessoas e instituições que fizeram parte da minha
caminhada.
Aos meus amigos de infância, que caminham comigo desde os primeiros
sonhos.
Aos colegas do Colégio Estadual de Itabuna e do Colégio 2 de Julho, onde
foram formadas as bases do que sou hoje.
À turma de 1974 da Escola
Bahiana de Medicina, companheiros de uma jornada intensa de estudo, idealismo e
compromisso com a vida.
Minha gratidão também à Santa Casa de Itabuna, espaço de trabalho,
aprendizado e dedicação ao próximo.
Ao cooperativismo, que tanto marcou minha trajetória, representado aqui
pela OCEB, pela Unimed e pelo Sicredi, instituições que demonstram diariamente
a força da união e da solidariedade.
Agradeço ainda à Academia de Letras de Itabuna e à Academia de Medicina
de Itabuna, ambientes de reflexão, cultura e ciência que tanto engrandecem
nossa terra.
Meu abraço fraterno aos amigos de Jussarí, de Itabuna e de toda a Bahia,
que sempre caminharam ao meu lado.
Mas, acima de todos os agradecimentos, há um que vem do fundo da alma. Meu maior agradecimento é para minha mãe, Adalgisa Ferreira Porto.
Sem ela, jamais estaria hoje nesta Casa recebendo tão importante
comenda. Foi ela quem me ensinou a olhar o mundo com dignidade, com coragem e
com altivez. Foi ela quem abriu meus olhos para as possibilidades da vida e
para o valor do trabalho, da honestidade e da perseverança.
Foi no colo, nos ombros e no exemplo dela que encontrei força para
seguir em frente. Foi com seu amor e sua orientação que aprendi a sonhar e a
construir o caminho que me trouxe até aqui.
Se hoje recebo esta honraria, devo muito a ela.
Ela me fez crescer, me fez
acreditar e, sobretudo, me fez ser quem sou.
Recebo esta Comenda com gratidão e com o compromisso de continuar
honrando os valores que sempre guiaram minha vida.
DIREITOS – No mês de abril o senhor recebeu título
de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz
(Uesc). Conte-nos sobre essa honraria.
Sílvio Porto – Receber o título de Doutor Honoris Causa é,
antes de tudo, um convite à memória. Não apenas à memória dos fatos, mas à
memória das raízes — aquelas que sustentam, silenciosamente, cada passo da
caminhada.
Se hoje estou aqui, não estou só. Trago comigo os pilares que deram
sentido à minha trajetória. O primeiro deles é a minha família. E, de forma
muito especial, minha mãe — que, com a sabedoria simples e profunda das grandes
educadoras da vida, me ensinou que o estudo seria minha bússola no mundo. Foi
ela quem, antes de qualquer universidade, me mostrou que o conhecimento não é
apenas um caminho — é um destino de dignidade.
O segundo pilar são meus professores. Desde o ensino primário, passando
pelo ginásio, pelo científico e, de forma marcante, pela formação médica. Cada
um deles deixou em mim uma marca indelével. Foram mais do que transmissores de
conteúdo — foram construtores de possibilidades.
Entre esses mestres, permitam-me destacar o professor Afonso Malta, cuja
presença foi determinante na minha formação médica e humana.
O terceiro pilar é a própria Medicina. E ela me deu tudo. Não apenas uma
profissão, mas um propósito. Ela me ensinou que cuidar do outro é, em essência,
compreender a própria condição humana. E que ciência e sensibilidade não são
caminhos paralelos — são dimensões inseparáveis do mesmo compromisso.
O quarto pilar foi a Santa Casa de Itabuna. Ali, dei meus passos mais
decisivos como médico. Ali, aprendi que o exercício da medicina não se faz
apenas com técnica, mas com entrega, responsabilidade e espírito coletivo.
Faço aqui um reconhecimento especial àqueles que foram fundamentais na
minha consolidação profissional: Calixto Midlej Filho, João Otávio, Renato
Costa, Galvão Filho, Urandi Riella e Alberto Seixas. Cada um, à sua maneira,
contribuiu para que eu me tornasse o médico que sou hoje.
E, por fim, o quinto pilar: o cooperativismo. Foi no cooperativismo que
ampliei minha visão de mundo. Onde compreendi que liderar não é conduzir
sozinho, mas construir junto. Que resultados sustentáveis nascem da confiança,
da participação e do propósito coletivo.
Nesse caminho, registro minha gratidão a Wedner Costa, Edmon Lucas, Ary
Avelar, Helton Freitas e Omar Abujamra — nomes que foram decisivos na minha
evolução como líder e como ser humano dentro dessa filosofia.
Se há algo que essa trajetória me ensinou, é que ninguém constrói uma
história sozinho. Somos sempre resultado de encontros — encontros com pessoas,
com ideias, com oportunidades e, sobretudo, com valores.
Recebo este título não como ponto de chegada, mas como reafirmação de um
compromisso: o de continuar aprendendo, contribuindo e honrando aqueles que
fizeram parte da minha caminhada. Porque, no fim, como aprendi ainda cedo, a
história de adiante sempre ensina a de detrás.
DIREITOS – Suas considerações finais.
Sílvio Porto – Ao olhar para minha trajetória, muitos enxergam os
títulos, as homenagens, as instituições que ajudei a construir, os desafios
vencidos como médico, neurocirurgião e gestor. Eu, porém, quando olho para
trás, vejo primeiro um menino.
Herança, para mim, nunca foi o que se acumula numa estante. Herança é
aquilo que carregamos no peito. É o cheiro da terra molhada depois da chuva, o
banho de rio (piabanha em Jussara, Baixa do Alho em Barro Preto e
Cachoeira em Itabuna) a feira livre, a comida feita pelas mãos da avó, a fé
simples que não precisa fazer alarde.
Venho de Jussari e de Itabuna. Antes de qualquer diploma, de qualquer
cargo ou reconhecimento, sempre serei o menino que acompanhava minha mãe e
minha avó nas feiras. Foi ali que aprendi que dignidade nasce do trabalho e que
o carinho também pode ser servido numa marmita.
Uma das lembranças mais vivas da minha infância era levar o almoço para
meu avô Melchiades Ferreira Porto, na roça, sob o sol forte do meio-dia. Eu o
encontrava já envelhecido, trabalhando na lavoura. Quando me via chegando,
abria um sorriso que jamais esqueci. Sentava-se, abria a marmita preparada por
minha avó e comia com uma gratidão silenciosa que dizia muito mais do que
qualquer discurso. Naquele momento aprendi uma das maiores lições da minha
vida: o trabalho ganha sentido quando é acompanhado de amor, de cuidado e de
gratidão.
Foi essa herança que levei comigo quando troquei os rios de Jussari pela
faculdade de Medicina, a banca da feira pelo centro cirúrgico e os sonhos da
juventude pela responsabilidade de cuidar de vidas.
A medicina me ensinou a cuidar das pessoas. O cooperativismo me ensinou
que cuidar junto é sempre melhor do que cuidar sozinho. Por isso, nunca vi
liderança como privilégio. Sempre a enxerguei como serviço.
Ao longo da vida recebi títulos que muito me honram, assumi
responsabilidades importantes e participei da construção de instituições que
deixaram marcas na medicina e no cooperativismo. Sou imensamente de grato por
cada reconhecimento. Mas aprendi que nenhum cargo é maior do que a confiança
das pessoas e que nenhuma homenagem supera o olhar de um paciente recuperado,
de um colega valorizado ou de uma equipe que cresce unida.
Sou também fruto dos grandes mestres que encontrei pelo caminho. Mestres
da medicina, da Santa Casa, da Unimed, do cooperativismo de crédito e da vida.
Homens e mulheres que me ensinaram que conhecimento se multiplica quando é
compartilhado e que o verdadeiro líder é aquele que forma novos líderes.
Também sou filho de mulheres extraordinárias. Minha mãe, minha avó e
tantas outras me ensinaram que simplicidade nunca foi sinônimo de pequenez.
Simplicidade é fundamento. É caráter. É firmeza sem arrogância.
Por isso, quando a vida me ofereceu títulos, procurei responder com
trabalho. Quando me confiou responsabilidades, procurei responder com
compromisso. Onde estive — na medicina, na Santa Casa, na Unimed, na Sicredi e
em tantas outras jornadas — apenas tentei devolver um pouco do muito que
recebi.
Se pudesse deixar uma única mensagem às novas gerações, seria esta:
nunca permitam que o sucesso lhes faça esquecer as próprias raízes. A
tecnologia muda. A ciência evolui. Os modelos de gestão se transformam. Mas os
valores que sustentam uma vida digna continuam os mesmos: honestidade,
trabalho, solidariedade, respeito às pessoas e amor pelo que se faz.
A modernidade que vale a pena nunca arranca nossas raízes; ela as
fortalece.
Se algum legado eu puder deixar, espero que não seja lembrado apenas
pelas obras construídas, pelos cargos ocupados ou pelos títulos recebidos, mas
pela forma como procurei tratar as pessoas ao longo do caminho.
Porque, no fim das contas, a maior herança que podemos deixar não está
nas paredes que levantamos, nem nos currículos que escrevemos. Está nas vidas
que tocamos.
E, enquanto houver um pouco daquele menino de Jussari vivendo dentro de
mim, continuarei acreditando que vale muito mais dizer “nós” do que “eu”.
Afinal, foi do interior que eu vim, e foi cuidando de pessoas que encontrei o
ver
dadeiro sentido da minha própria vida.
Fonte: Jornal on-line de Itabuna, editor: Dr. Vercil
Rodrigues
Entrevistado: Dr. Silvio Porto de Oliveira - Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: Produção

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos