7.13.2026

Ode ao Burguês - Mário de Andrade

 







Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,

o burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! o homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!


Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!

que vivem dentro de muros sem pulos;

e gemem sangues de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os "Printemps" com as unhas!

 

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

 

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!

Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!

"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

Mas nós morremos de fome!"

 

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!

Oh! purê de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!

Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

 

Em Ode ao burguês, publicado em Pauliceia Desvairada, o autor faz uma crítica em tom de sátira à classe burguesa e seus valores.

O poema tem relevância na obra de Mário, pois, além de ser um ícone modernista, foi recitado na Semana de Arte Moderna de 22, evento que foi realizado no Theatro Municipal de São Paulo e que contribuiria grandemente para a renovação cultural do país.

Na ocasião, quando foi declamado, o público ficou indignado e sentiu-se ofendido, pois grande parte das pessoas que estiveram na Semana integravam justamente a burguesia, e alguns inclusive contribuíram financeiramente para a realização do evento.

Entretanto, Mário não se intimidou e leu o texto em que defende seu ponto de vista contrário às futilidades e caráter mesquinho da aristocracia brasileira.

Note que o título “Ode ao” tem uma sonoridade que sugere a palavra “ódio”. Ode, em literatura, é um estilo poético - geralmente entusiasmado - em que as estrofes são simétricas.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

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