Padre Júlio Lancellotti, as redes digitais e o “incômodo” aos poderosos por optar pelos mais pobres
A
seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas
possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O
artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa
representar necessariamente o ponto de vista da organização.
Neste
mês de dezembro de 2025, muita gente foi pega de surpresa com o anúncio de que
o padre Júlio Lancellotti estaria sendo afastado das redes digitais. A missa
que ocorre na Paróquia de São Miguel Arcanjo na cidade de São Paulo não será
mais transmitida pelo padre Júlio Lancellotti
Ainda
se espalhou nessas redes que o padre seria afastado das funções na paróquia por
decisão do cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer. Desde então, não
sabemos de mais nada.
O
sacerdote católico não explicou o motivo, mas, segundo Denise Ribeiro,
jornalista e voluntária que trabalha com o padre, o fim das transmissões é uma
determinação da Arquidiocese de São Paulo. Ela conta que a ordem foi recebida
na semana passada diretamente do cardeal. O breve texto da jornalista pode ser
lido na internet.
O
Pe. Júlio Lancellotti é uma figura muito conhecida nas redes digitais, na vida
social de São Paulo e para além da capital paulista. Desenvolve um trabalho
marcante com a população em situação de rua há mais de 30 anos e se tornou
referência no tema. Incomodou e incomoda políticos de direita, sendo perseguido
pelo prefeito de São Paulo e diariamente atacado nas redes digitais.
O
padre tem atuação constante, seu Instagram, em particular, tem milhares de
seguidores. A conclusão óbvia: o afastamento do padre Júlio foi motivo de
controvérsia e de várias polêmicas. Especula-se as razões de seu afastamento
sem ainda termos nada comprovado.
Lemos
em vários textos e notas nas redes que seria alguma forma de perseguição ao
padre. Sabe-se que seu trabalho e atuação na internet tem sido alvo de ataques
constantes desde 2016 pelo menos. E, recentemente, Pe. Júlio foi alvo de
sistemático ataque em que se resgatou processos antigos em que foi acusado pela
Justiça.
Em
2024, Pe. Júlio e seu trabalho pastoral com pessoas em situação de rua foi
motivo de uma CPI na cidade de São Paulo perpetrada por um vereador de direita.
A CPI foi arquivada. Mas as críticas e ameaças ao padre continuaram.
Qual
a novidade destes últimos ataques ao padre Júlio? Denúncias que chegaram ao
Vaticano e que “obrigaram” o cardeal arcebispo a tomar alguma decisão.
Exatamente quais seriam as denúncias, ainda não sabemos, oficialmente. Como
sempre, temos várias especulações. O que se sabe é que um desses “youtubers” de
direita e um deputado mineiro do PL fizeram formalmente denúncias contra o
mesmo na Nunciatura brasileira.
Nosso
texto não tem a intenção de atacar o cardeal ou julgar suas atitudes públicas
sobre o padre Júlio, mas tentar entender a situação dentro das informações
disponíveis que temos e para além do sensacionalismo midiático.
Também
não somos neutros na leitura sobre a atuação do padre Júlio nas redes de internet.
Acreditamos que seu trabalho é de grande importância e tem relevância nos meios
de comunicação e na sua opção pelos pobres e marginalizados desse País.
Nossa
leitura foca num ponto importante: o papel do padre Júlio nas redes digitais no
atual momento histórico do Brasil e da conjuntura eclesial vivida pelo
catolicismo Romano nas últimas décadas.
É
público e notório a polarização interna vivida pela Igreja Católica no Brasil
desde 2013 e que foi aumentando paulatinamente em 2014…. 2016… 2018 (ponto alto!)
e 2022 (com a disputa Lula/Bolsonaro).
Percebemos
sem muito esforço uma extrema direita católica atuante sistematicamente nestas
redes digitais por meio de grupos organizados e “Youtubers” se tornaram
populares na internet e chegando a influenciar em dioceses e paróquias.
Com
militância virulenta, ataques constantes ao Concílio Vaticano II (1962-1965), a
teologia da libertação, a defesa de teorias da conspiração, reprodução das
ideias de Olavo de Carvalho ou delírios sobe infiltração comunista dentro da
Igreja, esses grupos/youtubers prepararam um terreno fértil para ataques de
toda ordem. Bispos foram atacados covardemente (a exemplo de Dom Mol ou Dom
Vicente Ferreira), teólogos/teólogas, leigos/leigas atuantes nas pastorais
sociais, padres… todas essas pessoas foram impiedosamente agredidas. Em casos
mais extremos, rolou processo judicial.
E
como não poderia ser diferente e por sua relevância, padre Júlio foi um dos
alvos que mais sofreu ataques de toda sorte. Desde agressões à sua honra até suas
posições políticas.
Acreditamos
que um dos pontos que merece uma leitura atenta é as coisas geradas nestas
redes digitais. O professor Sérgio Amadeo tem alertado constantemente para os
perigos de uma certa militância de direita na internet contemporânea e seus
livros mais recentes são necessários para uma compreensão do que ocorre com o
padre Júlio.
A
igreja Católica no Brasil e suas lideranças na CNBB ainda não perceberam a real
relevância das redes digitais e seu papel na popularidade de ideias religiosas.
Hoje podemos ver uma imensidão de brasileiros/brasileiras que tem um aparelho
de celular e faz uso cotidiano dele. Estamos diante de uma realidade
inescapável. E o padre Júlio não se negou ao trabalho pastoral para além do
presencial. Entrou nestas redes e fez e faz uma diferença enorme. Ele ampliou
seu horizonte de ação.
Como
optou livre e evangelicamente em trabalhar com os mais pobres e em condição de
marginalidade, ele se tornou alvo de muitos poderosos ou de religiosos de
extrema direita.
Além
de celebração eucarística, suas missas aos domingos são lugar de informes e
denúncias. O padre indica leituras e reforça um processo de conscientização.
Padre Júlio é um notório discípulo de Paulo Freire. O nosso mais famoso
filósofo da educação é um dos mais atacados por uma direita desqualificada e
despreparada para uma profunda reflexão pedagógica.
Para
nós, os ataques ao padre Júlio vêm, principalmente, pela ameaça que ele
representa aos “donos do poder”.
O
padre virou personalidade pública e influente na atual quadra histórica deste
Brasil constantemente em transe. Padre Júlio tem uma autêntica atuação popular.
Faz um sistemático trabalho de base e disputa políticas públicas para
beneficiar os mais pobres de São Paulo. Virou uma pessoa escutada muito além do
marco territorial paulista e tem uma rede de apoio nas redes digitais. E isto
incomoda e muito. Dentro e fora da Igreja Católica.
Fonte:
ROMERO VENÂNCIO, especial para a Mangue Jornalismo
Foto: Produção

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