MANIFESTO DE UM PROFESSOR EM ESTADO DE LUTO
Não
é cansaço. É indignação.
Não
é desgaste individual. É um projeto político. Se eu morresse amanhã, não seria
apenas de exaustão física, mas de asfixia simbólica. Morreria por ser professor
em um sistema que insiste em nos esvaziar enquanto finge nos homenagear em
datas comemorativas.
Sou
professor há trinta anos. E isso, hoje, não é medalha: é prova de resistência.
Denuncio que o conselho de classe deixou de ser um espaço pedagógico para se
tornar instrumento burocrático de legitimação de decisões já tomadas. Chamam-no
de soberano, mas sua soberania é frágil, condicional, revogável por gabinetes
distantes da escola e alheios à realidade da sala de aula. Que soberania é essa
que se curva a planilhas, metas, indicadores e pressões políticas? Que
democracia é essa em que eu falo, registro, avalio, mas não decido?
Hoje
me dizem, sem pudor: avaliar demais reprova estatísticas, exigir demais
atrapalha índices, ensinar demais exclui. O conteúdo virou obstáculo. O
conhecimento, um risco. A recuperação, um favor. O professor foi rebaixado a
monitor de presença, vigilante de corredores, preenchedor de sistemas, executor
de ordens que contradizem a ética pedagógica. Não se exige que o aluno aprenda.
Exige-se que ele passe. E se não passou por mérito, passa por decreto.
Se
não estudou, avança por consenso forçado. Se nada produziu, é promovido para
não constranger o sistema. E quando tudo falha, a culpa recai sobre o
professor. Sou violentado quando minha avaliação é desautorizada. Sou
violentado quando minha prática é invalidada. Sou violentado quando a educação
é transformada em gestão de números. Isso não é inclusão.
Isso
é fraude pedagógica institucionalizada. Não me peçam silêncio. Não me peçam
cumplicidade. Não me peçam para assinar atas que enterram o sentido do meu
trabalho.
Ser
professor não é caridade. Não é vocação romântica. Não é missão religiosa. É
profissão. É ciência. É responsabilidade social.
Exijo respeito à autonomia docente. Exijo que o conselho de classe seja, de fato, deliberativo. Exijo que a Secretaria de Educação pare de legislar contra a escola. Porque quando o professor é desmoralizado, não sou apenas eu que perco: perde o aluno, perde a escola pública, perde a sociedade. Este manifesto não é despedida. É resistência. E se um dia escreverem na minha lápide: “Foi professor por trinta anos”, que isso seja entendido como denúncia histórica de um tempo em que ensinar passou a ser ato político, e resistir, uma obrigação ética.
Autor: Moisés
Aguiar
Foto: Google

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