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12.24.2025

MANIFESTO DE UM PROFESSOR EM ESTADO DE LUTO - Moisés Aguiar

MANIFESTO DE UM PROFESSOR EM ESTADO DE LUTO

Não é cansaço. É indignação.

Não é desgaste individual. É um projeto político. Se eu morresse amanhã, não seria apenas de exaustão física, mas de asfixia simbólica. Morreria por ser professor em um sistema que insiste em nos esvaziar enquanto finge nos homenagear em datas comemorativas.

Sou professor há trinta anos. E isso, hoje, não é medalha: é prova de resistência. Denuncio que o conselho de classe deixou de ser um espaço pedagógico para se tornar instrumento burocrático de legitimação de decisões já tomadas. Chamam-no de soberano, mas sua soberania é frágil, condicional, revogável por gabinetes distantes da escola e alheios à realidade da sala de aula. Que soberania é essa que se curva a planilhas, metas, indicadores e pressões políticas? Que democracia é essa em que eu falo, registro, avalio, mas não decido?

Hoje me dizem, sem pudor: avaliar demais reprova estatísticas, exigir demais atrapalha índices, ensinar demais exclui. O conteúdo virou obstáculo. O conhecimento, um risco. A recuperação, um favor. O professor foi rebaixado a monitor de presença, vigilante de corredores, preenchedor de sistemas, executor de ordens que contradizem a ética pedagógica. Não se exige que o aluno aprenda. Exige-se que ele passe. E se não passou por mérito, passa por decreto.

Se não estudou, avança por consenso forçado. Se nada produziu, é promovido para não constranger o sistema. E quando tudo falha, a culpa recai sobre o professor. Sou violentado quando minha avaliação é desautorizada. Sou violentado quando minha prática é invalidada. Sou violentado quando a educação é transformada em gestão de números. Isso não é inclusão.

Isso é fraude pedagógica institucionalizada. Não me peçam silêncio. Não me peçam cumplicidade. Não me peçam para assinar atas que enterram o sentido do meu trabalho.

Ser professor não é caridade. Não é vocação romântica. Não é missão religiosa. É profissão. É ciência. É responsabilidade social.

Exijo respeito à autonomia docente. Exijo que o conselho de classe seja, de fato, deliberativo. Exijo que a Secretaria de Educação pare de legislar contra a escola. Porque quando o professor é desmoralizado, não sou apenas eu que perco: perde o aluno, perde a escola pública, perde a sociedade. Este manifesto não é despedida. É resistência. E se um dia escreverem na minha lápide: “Foi professor por trinta anos”, que isso seja entendido como denúncia histórica de um tempo em que ensinar passou a ser ato político, e resistir, uma obrigação ética.


Autor: Moisés Aguiar

Foto: Google 



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