CURTA O DIA
Carpe diem é uma expressão em latim que significa aproveite o dia. Essa
é a tradução literal, e não significa aproveitar um dia específico, mas tem o
sentido de aproveitar ao máximo o agora, apreciar o presente.
Sabe o que acabei de fazer? Não? Pois eu lhe digo: Fiz o que todo mundo anda fazendo, afinal, não quero ser um desigual dos outros. Queria porque queria saber o significado dos dizeres latinos, carpe diem. Aí, me dei a uma de modernoso. Não perguntei à professora, não quis saber do padre, ignorei os mais velhos. Fui a ela, a sabidília, pois ela sabe do ontem, do hoje e do amanhã. Põe qualquer um no bolso, seja a professora de latim; o padre artista, cantor de agora e candidato nas próximas eleições; ao mais- velho cuja mente já está falhando.
Ela, não. Saúde perfeita, tino tinindo, eternamente à disposição. Podem perguntar à vontade: ela não se cansa, não se irrita. Democrática até o tutano, atende para o bem e para o mal, seja gente de extrema direita ou de extrema esquerda. Ateus ou beatos, heteros ou homos, pretos, brancos ou indígenas. Nunca se pensou em algo tão universal. A essas alturas, já se sabe de quem se trata. Sim, ela, a magnífica, a gloriosa, a suprema inteligência artificial, apelidada de IA. Mesmo assim, se quiser dar uma passadinha na beirada da casa dela, em um de seus pontos universais, basta digitar: - Pronto! Você nunca mais será o mesmo. Para lhe evitar mais delongas, pus o vaticínio dela no alto deste texto, sinal de abertura.
Acontece que, às vezes, sou ranhento, preciso meter a mão na chaga, igual a Tomé. Amanheci com vontade de curtir, isto é, aproveitar o meu dia. Tomei minhas providências: me vesti de anonimato – roupas surradas, sandália quase se acabando.
Acontece que há dois pontos em minha cidade os quais amo de coração. Um, constituído por um quarteirão, na avenida principal; outro, a praça mais agradável da cidade. Por esses pontos, passa desnuda a alma de meu povo, travestido de ocidentais, sul-americanos, nordestinos, baianos, grapiúnas. Tem de tudo o que a boca come. Gente gorda, esparramando pneus pelas laterais; outras, espigadas de corpo, verdadeiros varapaus. Olhe, enfim, tem de tudo mesmo.
Quando você quiser ver a alma do povo faça assim: escolha a calçada de um quarteirão, na artéria principal de sua cidade. Lá, se misture aos transeuntes e preste atenção nos fragmentos de conversas entre as pessoas que estejam à sua frente, nas laterais e por trás. Você vai ouvir coisas do arco da velha. Não se descuide de observar o que elas trazem: maletas, embrulhos, pacotes, bolsas, sacolas, sacos de todo tipo. Muitos sacos plásticos. É bom até cogitar sobre o que elas conduzem com tanto cuidado e zelo, escondido nos trambolhos.
Ah, sim: não se descuide dos calçados, das cores das vestes. Normalmente, roupas fofolanas, um espetáculo... Não despreze os detalhes, a exemplo dos penteados. Você vai descobrir coisas das quais nem nunca ouviu falar.
Mas o bom mesmo foi quando passei pela esquina da referida praça. Duas senhoras, por sinal, meio gordas, conversavam animadas, alegremente. Até aí, novidade alguma. Acontece que cada uma estava sentada em cadeira de braços, branca, de plástico. E o mais sério: as cadeiras estavam em pontos opostos da largura da calçada. Elas deixaram uma passagem de mais ou menos metro e meio entre as cadeiras, por onde os circulantes teriam de passar, obrigatoriamente, por entre elas.
Foi aí que se deu o encanto natalino. Ao passar por entre elas, bradei: – Dá licença, amadas e alegres senhoras. Feliz Natal, feliz Natal, feliz Natal! Aí, as portas do Paraíso se abriram e elas se revelaram em sua essência divinal. Gente, eram dois anjos celestiais, disfarçados em matronas gorduchas. Bradaram assim, alternadamente: – Bom dia, bom dia! Ô, quanta gentileza de sua parte. Que as bênçãos dos Céu lhe cubram em corpo, mente e espírito. Que seu Natal tenha tanta coisa boa, para que você nunca mais se esqueça de que, um dia, passou por nós. Seja abençoado da parte de Deus e da Virgem Maria!
De relance, pensei: gente, o que é isso? Pessoas populares usando esse tipo de vocabulário? Confesso: me senti atingido por um drone russo sobre a Ucrânia. No caso, a Ucrânia era eu, um frangalho; elas, um facho de luz, nunca invasoras da terra alheia. Mal tive tempo de brincar: – É Natal! Hô, hô, hô!
Retomei meu caminho e segui adiante. Dei uma paradinha e olhei para trás. Elas acenaram para mim, comedidamente, com um largo e santo sorriso enternecedor. Pelo caminho, vim me perguntando: Oh, fiel espelho meu, existe alguém mais abençoado do que eu? Ele permaneceu calado. Até agora, não me disse nada.
Voltei
para casa. Meu Natal já estava completo. Pois é, conforme dizia a Velha Nanewá,
“quem do pouco se admira corra o mundo que vê mais.” Por isso mesmo, nunca
deixe de curtir, isto é, de aproveitar o seu dia, carpe diem.
Fonte: Ruy Póvoas
Foto: Google


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