Minha mãe morreu tão cedo!...
Eu era pequeno,
era feliz; porque não conhecia os enganos do mundo, e os pesares da
vida; inocente corria por entre as campinas, colhia flores e ia
derramá-las sobre minha mãe, salvava os regalos que encontrava no meu brincar,
corria atrás da borboleta azul, travava com ela um combate que acabava pela
minha vitória; adormecia sossegado e feliz no meu berço inocente,
embalado pelas cantigas e pelos beijos maternos que nas faces recebia; eu
dormia o sono da infância era feliz; oh! quem me dera sempre viver assim! Ao
depois cresci, quando podia retribui-lhe as suas caricias; quando mais me
era precisa a sua existência, a cruel sorte me a roubou; oh! quanto sofro hoje
que isolado do mundo, cansado da vida, não encontro o seu seio para esconder as
minhas lágrimas, e nem os seus risos para adoçar-me as dores.
...... Uma
mãe!... Palavra sublime, que enche o coração de prazer e entusiasmo, que eleva
a alma a um viver inocente e belo.
Uma
mãe!!... Único ente que nos ama no mundo, que compreende as nossas
dores, que sofre quando sofremos, que chora quando nossa alma é triste, que
se desespera quando choramos, e que morre quando o homem deixa o mundo de
ilusões e prazeres para ir viver no mundo das felicidades. — Dores reais;
sofrer sincero.
Oh! como é
triste existir sem ter o elo que nos prende á vida, sem os afagos do
verdadeiro amor, sem as doçuras da verdadeira afeição. E haverá quem não chore
uma mãe?
Quem não sinta
um vácuo no coração quando uma lágrima se desliza sobre o túmulo de uma mãe!
Quem não sofra muito sem os cuidados desse anjo que o Senhor enviou á terra
para ensinar-nos o amor, o dever e a religião ?
Oh! eu sou
infeliz, muito infeliz...
Aos 9 anos
perdi minha mãe, fiquei só no mundo; só como a rola sem o ninho! Entrei no
mundo das ilusões e dos enganos; sofri muito, descri muito. A sociedade
egoísta e corrupta fez-me descrer de todas as felicidades, de todo o amor
sincero e verdadeiro, de toda a virtude; porque já tinha perdido o único
ente que me amava com amor sincero, e a crença que me fazia feliz: fugi do
mundo, entreguei-me á solidão e muito chorei, porque não encontrei quem me
acalentasse nos braços e mitigasse as minhas dores.— Não tinha mãe!
Como eu sofro!... minha mãe, lá da mansão dos justos, lança a benção sobre teu filho, pede a Deus pela felicidade do padecente. Eu sem ti, sem o perfume da flor que me fazia feliz e crente, chorarei sempre sem consolação; porque uma mãe perde-se uma vez e nunca mais se encontra.
Fonte: Carta de Machado de Assis
Foto: Google


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