ARTE,
CULTURA E FILOSOFIA
O Corvo, de Edgar Allan Poe
O poema O Corvo, do poeta americano Edgar Allan Poe (1809-1849), é considerado um dos poemas mais famosos da história. Sua ambientação melancólica, associada ao perfeito equilíbrio entre rima, sonoridade e dramaticidade causam forte impressão no leitor. De certa forma, ao ler O Corvo temos a impressão de que estamos lendo um conto de terror angustiante. Entretanto, trata-se de um belíssimo poema escrito de forma impecável em todos os aspectos literários. Por isso O Corvo é uma obra-prima inigualável.
Essa construção perfeita do poema foi realizada na língua inglesa, e as traduções comprometem o seu impacto. O poema foi traduzido para o português por grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis e Fernando Pessoa. Porém, considero a tradução de Milton Amado (1913-1974) a mais bela das traduções para o português.
Para ler o poema com todo o impacto planejado por Poe, seria necessário, obviamente, ler em inglês. Contudo, a tradução de Milton conseguiu o feito de transportar a energia singular do poema para a língua portuguesa.O tradutor, escritor e poeta brasileiro Ivo Barroso considera a tradução de Milton superior às traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa.
Milton Amado foi um jornalista e tradutor de Belo Horizonte. Não tinha a fama e o prestígio dos demais tradutores citados, contudo, quis o destino que uma das melhores traduções para o português do poema mais famoso do mundo fosse fruto de um talento pouco reconhecido. Nada mais dramático e digno de um poema de Edgar Allan Poe.
Att.:
Autor: Alfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.
O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução de Milton AmadoClássicos da literatura
O Corvo
Foi uma vez: eu refletia, à
meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em
curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi
de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido
à minha porta, devagar.
“É alguém, fiquei a murmurar, que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais.”
Ah! claramente eu o relembro! Era
no gélido dezembro
E o fogo, agônico, animava o chão
de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão,
a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda,
atroz saudade de Lenora
Essa, mais bela do que a aurora, a
quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.
A seda rubra da cortina arfava em
lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando ignotos
medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o
coração veloz batia
E a sossegá-lo eu repetia: “É um
visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a
bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.”
Ergui-me após e, calmo enfim, sem
hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor,
se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi
tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém
chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta.”
Escancarei então a porta:
Escuridão, e nada mais.
Sondei a noite erma e tranquila,
olhei-a a fundo, a perquiri-la,
Sonhando sonhos que ninguém,
ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o
negror imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo
eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o
repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.
Com a alma em febre, eu novamente
entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e
repercute nos vitrais.
“É na janela”, penso então. “Por
que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na
janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse
rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.”
Abro a janela e eis que, em
tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo,
egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e,
sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto, uma
escultura de Minerva,
Bem sobre a porta; e se conserva
ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.
Ao ver da ave austera e escura a
soleníssima figura,
Desperta em mim um leve riso, a
distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo
e singular”, então lhe digo
“Não tens pavor. Fala comigo, alma
da noite, espectro torvo!”
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o
nome teu no inferno torvo!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
Maravilhou-me que falasse uma ave
rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a
retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum,
outrora ou no presente,
Que igual surpresa experimente: a
de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa),
empoleirada em sua porta
E que se chame “Nunca mais”.
Diversa coisa não dizia, ali
pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar
naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e
sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa me envenena:
“Amigos? sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora,
ele também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais.”
Vara o silêncio, com tal nexo, essa
resposta que, perplexo,
Julgo: “É só isso o que ele diz;
duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura
uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura,
apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um
epitáfio: o ritornelo
De “Nunca, nunca, nunca mais”.
Como ainda o Corvo me mudasse em um
sorriso a triste face,
Girei então numa poltrona, em
frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, mergulhado no coxim, pus-me a
inquirir (pois, para mim,
Visava a algum secreto fim) que
pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, torvo,
esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: “Nunca mais.”
Sentindo da ave, incandescente, o
olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em
deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a
descansar, sobre a almofada
Dessa poltrona aveludada em que a
luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente,
à luz cai suavemente,
Já não repousa, ah! Nunca mais?
O ar pareceu-me então mais denso e
perfumado, qual se incenso
Ali descessem a esparzir
turibulários celestiais.
“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus
te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as
saudades de Lenora,
Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora!
Esquece, olvida essa Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta!? brado? Ó ser do mal!
Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou
que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita
e estéril terra, a esta precita
Mansão de horror, que o horror
habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad?
Imploro! Dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal!
Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que
adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante
atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos
céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que a aurora, a
quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”
“Seja isso a nossa despedida!
Ergo-me e grito, alma incendida.
Volta de novo à tempestade, aos
negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui,
que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste!
Alça teu voo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito
e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”
E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda
hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva,
inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o
anjo do mal, em sonhos, dorme,
E a luz da lâmpada, disforme, atira
ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra,
está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca
mais!
Fonte: Postado em Blog do Editor, Podcast
| Áudios de Leitura Clássicos da literatura / O Corvo, de Edgar
Allan Poe (tradução de Milton Amado)
Imagem:
Google


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