9.21.2026

Poema Amor é fogo que arde sem se ver - Luis de Camões

 

Poema Amor é fogo que arde sem se ver (com análise e interpretação)

(*) Revisão por Laura Aidar

Amor é fogo que arde sem se ver é um soneto de Luís Vaz de Camões (1524-1580), um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. O famoso poema foi publicado na segunda edição da obra Rimas, lançada em 1598.

 

Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor

 

Análise e interpretação

Camões desenvolve o seu poema de amor através da apresentação de ideias opostas: a dor se opõe ao não sentir, o contentamento que é descontente.

O poeta usa esse recurso de aproximação de elementos que parecem distantes para explicar um conceito tão complexo como o amor.

 

Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

Assim, o poeta nos faz uma série de afirmações sobre o amor que parecem contraditórias, mas que são próprias do sentimento amoroso. Esse recurso linguístico é chamado antítese.

Outro ponto importante é que o poema do mestre português é baseado num raciocínio lógico que leva a uma conclusão. Essa argumentação fundamentada em afirmações que levam a uma consequência lógica é chamada silogismo.

 

No poema de Camões, as afirmações são feitas nos dois quartetos e no primeiro terceto, sendo a última estrofe a conclusão do silogismo, como podemos observar.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor

 

O formato do soneto clássico e a sonoridade estão diretamente relacionados ao conteúdo do poema. Nas onze primeiras estrofes temos o desenvolvimento de um raciocínio e observamos uma sonoridade próxima por conta das rimas e da pausa na sexta sílaba métrica.

 

Camões, mais um poeta a falar sobre o amor

Camões usa do pensamento lógico para expor um sentimento profundo e complexo, o amor. O tema é muito caro à poesia, explorado há séculos por diversos escritores.

 

Um dos pontos abordados é a lealdade daquele que ama em relação ao ser amado. As cantigas medievais versavam constantemente sobre esse sentimento de servidão. O autor não deixa de colocá-lo no seu poema, usando sempre a antítese para construir o argumento.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Camões exprime a dualidade desse sentimento de uma forma exemplar. Alcançando a essência de um dos sentimentos mais complexos; que nos provoca tanto prazer e sofrimento ao mesmo tempo.

 

Fonte: Cultura Genial

(*) Revisão por Laura Aidar - Arte-educadora, fotógrafa e artista visual

Foto: Google

 



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9.20.2026

Aqui morava um rei - Ariano Suassuna

 







Aqui morava um rei

Aqui morava um rei quando eu menino

Vestia ouro e castanho no gibão,

Pedra da Sorte sobre meu Destino,

Pulsava junto ao meu, seu coração.

 

Para mim, o seu cantar era Divino,

Quando ao som da viola e do bordão,

Cantava com voz rouca, o Desatino,

O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

 

Mas mataram meu pai. Desde esse dia

Eu me vi, como cego sem meu guia

Que se foi para o Sol, transfigurado.

 

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.

Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa

Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

 


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

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A casa - Gabriela Mistral

 







A casa

A mesa, filho, está posta

em brancura quieta de nata,

e em quatro muros que mostram sua cor azul

dando brilhos, a cerâmica.

Este é o sal, este o azeite

e ao centro o Pão que quase fala.

Ouro mais lindo que ouro do Pão

não está nem em fruta nem em retama,

e do seu cheiro de espiga e forno

uma fortuna que nunca sacia.

O partimos, filhinho, juntos,

com dedos duros e palma branda,

e tu o olhas assombrada

de terra preta que dá flor branca.

 

 

Abaixada a mão de comer,

que tua mãe também a abaixa.

Os trigos, filho, são do ar,

e são do sol e da enxada;

porém este Pão “cara de Deus”*

não chega as mesas das casas;

e se outras crianças não o tem,

melhor, meu filho, não o tocares,

e não tomá-lo melhor seria

com mão e mão envergonhadas.

*No Chile, o povo chama ao pão de “cara de Deus”


Autoria: Gabriela Mistral

Foto: Google


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9.19.2026

ENTRE A LUZ E A SOMBRA - Agilson Cerqueira

 















ENTRE A LUZ E A SOMBRA
 
Agilson Cerqueira



O amanhecer se move em direção ao dia.
O dia escorre lentamente para a tarde.
A tarde se desfaz em sombra.
E a noite guarda, no escuro,
A promessa silenciosa de outra luz.
 
Tudo passa por tudo
 
A luz atravessa a sombra.
A sombra espera a luz.
O vento move o que parecia imóvel.
 
Nada permanece inteiro.
Nada desaparece por completo.
 
O que nasce já carrega o fim.
O que termina deixa alguma coisa
para aquilo que ainda não começou.
Talvez seja assim que o tempo exista:
Movendo a luz,
Desfazendo a sombra,
Levando tudo adiante
sem jamais sair do mesmo lugar.
 
E nós,
Entre o claro e o escuro,
Também passamos.


Agilson Cerqueira

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.


Licença: Creative Commons


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EM BUSCA DO TEMPO CONTIGO - Sérgio Brandão

 








EM BUSCA DO TEMPO CONTIGO

 

Buracos na camada de ozônio

bem como em massas cerebrais,

sequelas do egoísmo bisonho

e inconsequência do que se faz.

 

Se pudesse voltar a ser um rapaz,

melhor seria o homem que exponho

Teria amado o tempo muito mais, 

contigo estaria além do meu sonho.

 

O que hoje sou de bom, veio de ti,

Mulher vestida pelos raios solares.

Ideal da perfeição que nunca vi.

 

Ilhéus, na água morna dos mares

guardo tua presença bem ali:

ondas. Pra mim são como altares!

 

S.R.P.B.

09.19.2020

Autoria: Sérgio Brandão

Foto: Produção


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Gabriela Mistral - Biografia

Gabriela Mistral, pseudônimo de Lucila de Maria do Perpétuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña / Chile, 7 de abril de 1889 – Nova Iorque/EUA, 10 de janeiro de 1957), foi uma poeta, diplomata e pedagoga chilena. Gabriela Mistral, uma das principais personagens da literatura chilena e latino-americana, foi a primeira pessoa latino-americana e a primeira mulher americana a ser agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. Escolher Próximo Livro

Filha de Juan Jerônimo Godoy Villanueva, professor, e Petronila Alcayaga Rojas, de ascendência basca. Gabriela Mistral nasceu em Vicuña, cidade na qual existe hoje um museu dedicado a ela na rua onde nasceu e que hoje tem seu nome. Com dez dias de nascida, seus pais a levaram para La Union (Pisco Elqui), mas seu "amado povoado", como ela mesma dizia, era Montegrande, onde viveu dos três aos nove anos, e onde pediu que fosse enterrada.

Seus avós paternos, oriundos da atual região de Antofagasta, foram Gregório Godoy e Isabel Villanueva; e os maternos, Francisco Alcayaga Barraza y Lucía Rojas Miranda, descendentes de famílias proprietárias de terras do Vale de Elqui. Mistral teve uma meia irmã, que foi sua primeira professora, Emelina Molina Alcayaga, cujo pai foi Rosendo Molina Rojas. Embora seu pai tivesse abandonado o lar quando ela tinha aproximadamente três anos, Gabriela Mistral sempre gostou dele e o defendeu. Conta que "revolvendo papéis", encontrou uns versos dele, "muito bonitos". "Esses versos de meu pai, os primeiros que li, despertaram minha paixão poética", escreveu.

Aos 15 anos se apaixonou platonicamente por Alfredo Videla Pineda, homem rico e belo, 20 anos mais velho, com quem se correspondeu por carta durante quase um ano e meio. Depois conheceu Romélio Ureta, um funcionário das ferrovias. Ele sacou um dinheiro da caixa da ferrovia onde trabalhava com a finalidade de ajudar um amigo; como não pôde devolver, Ureta se suicidou. Mais tarde – com base em sua vitória nos Jogos Florais com Sonetos da Morte, versos que relacionaram com o suicida – nasceu o mito, que teve ampla difusão, do grande amor entre ambos.  Experimentar Speed  Dating

Em 1904 começa a trabalhar como professora ajudante na Escola da Companhia Baixa em La Serena e começa a mandar colaborações ao jornal serenense El Coquimbo. No ano seguinte continua escrevendo nele e em La Voz de Elqui, de Vicuña.

Desde 1908 é professora em La Cantera e depois em Los Cerrillos. Não estudou pedagogia, já que não tinha dinheiro para isso, mas posteriormente, em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal N° 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, com o que pôde exercer a docência no nível secundário. Este fato lhe custou a rivalidade de seus colegas, já que recebeu o título como validação de seus conhecimentos e experiência, sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Posteriormente seu valor profissional ficou demonstrado ao ser contratada pelo governo do México para assentar as bases de seu novo sistema educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência, pois sofreu apenas algumas modificações no sentido de atualizá-lo.

Início da atividade literária

Em 12 de dezembro de 1914 obtém o primeiro prêmio no concurso de literatura dos Jogos Florais organizados pela FECh em Santiago, por seus Sonetos da Morte. Escolher Próximo Livro

Desde então utilizou o pseudônimo literário Gabriela Mistral em quase todos os seus escritos, em homenagem a dois de seus poetas favoritos, o italiano Gabriele D'Annunzio e o francês Frédéric Mistral. Em 1917 Julio Molina Nuñez e Juan Agustin Araya publicam uma das mais importantes antologias poéticas do Chile, Selva Lírica, onde Lucila Godoy já aparece como uma das grandes poetas chilenas. Esta publicação é uma das últimas em que utiliza seu nome verdadeiro.

Desempenhou o cargo de inspetora no Liceu de Senhoritas de La Serena. Foi destacada educadora; visitou o México, os Estados Unidos e a Europa estudando as escolas e métodos educativos destes países. Foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico.

O fato de ter vivido de Antofagasta, no extremo norte, até o porto de Punta Arenas no extremo sul, onde dirigiu seu primeiro liceu e estimulou a vida da cidade, marca sua vida para sempre. Seu apego a Punta Arenas também se deveu a sua relação com Laura Rodig, que vivia ali. Mas a escritora de Elqui não suportava bem o clima polar. Por isso, pediu transferência e em 1920 se mudou para Temuco, de onde partiu para Santiago em 1921. Durante sua estada em Araucania conheceu um jovem chamado Neftali Reyes, que posteriormente seria conhecido mundialmente como Pablo Neruda.

Gabriela Mistral aspirava a um novo desafio depois de ter dirigido dois liceus de péssima qualidade. Disputou e ganhou o posto prestigioso de diretora do Liceu Nº6 de Santiago, mas os professores não a receberam bem, censurando sua falta de estudos profissionais.

”Desolação”, considerada sua primeira obra mestra, aparece em Nova Iorque em 1922, publicada pelo Instituto das Espanhas, por iniciativa de seu diretor Federico de Onís. Ela escreveu a maioria dos poemas que formam este livro dez anos antes, quando residia na localidade de Coquimbito.

Em 23 de junho desse ano Gabriela Mistral vai para o México no vapor Orcoma acompanhada de Laura Rodig, convidada pelo então ministro da Educação, José Vasconcelos. Ali permaneceu quase dois anos, trabalhando com os intelectuais mais destacados do mundo de fala espanhola naquela época.

Em 1923 é inaugurada sua estátua no México, publica-se ali seu livro Leitura para mulheres, aparece no Chile a segunda edição de “Desolação” com uma tiragem de 20 mil exemplares e aparece na Espanha a antologia “As melhores poesias”, com prólogo de Manuel de Montoliú.

Depois de uma viagem pelos Estados Unidos e Europa, voltou ao Chile, onde a situação política era tão tensa que se viu obrigada a partir de novo, desta vez para servir na Europa como secretária de uma das seções da Liga das Nações em 1926; no mesmo ano ocupa a secretaria do Instituto de Cooperação Internacional, da Sociedade das Nações, em Genebra.

Em 1924 publica em Madrid “Ternura”, livro em que pratica uma inovadora "poesia escolar", renovando os gêneros tradicionais da poesia infantil (canções de ninar, cantigas de roda, sussurros...) com uma poética austera e muito depurada. Petronila Alcayaga, sua mãe, morreu em 1929, por isso ela lhe dedicou a primeira parte de seu livro “Tala”.

Sua vida é, doravante, uma continuação da incansável vida errante que conheceu no Chile, sem posto fixo em que utilizar seu talento. Preferirá, então, viver entre a América e a Europa. Assim, viaja, por exemplo, à ilha de Porto Rico em 1931, como parte de um tour do Caribe e da América do Sul. É nesse giro que o general Sandino, a quem tinha apoiado em numerosos escritos, a nomeia "Benemérita do Exército Defensor da Soberania Nacional" na Nicarágua. Ademais, fez discursos na Universidade de Porto Rico, Rio Piedras, na República Domienicana, em Cuba, e em todos os demais países da América Central.

A partir de 1933, e durante um período de vinte anos, trabalhou como cônsul de seu país em cidades da Europa e América. Sua poesia foi traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão e sueco, influindo na obra criativa de muitos escritores latino-americanos posteriores, como Pablo Neruda e Octávio Paz. Seus diversos poemas escritos para as crianças são recitados e cantados em muitos países na atualidade. Muitos de seus poemas e livros foram lidos por crianças e adultos em diversos países.

Prêmio Nobel

Gabriela Mistral recebeu a notícia de que tinha ganho o Nobel em 1945 em Petrópolis, a cidade brasileira onde desempenhava a atividade de cônsul desde 1941 e onde tinha se suicidado aos 18 anos Yin Yin (Juan Miguel Godoy Mendoza), seu sobrinho segundo se dizia, filho de um meio-irmão, que adotara, com sua amiga e confidente Palma Guillén, e com o qual vivia pelo menos desde que ele tinha quatro anos.

No final de 1945 regressou aos Estados Unidos pela quarta vez, agora como cônsul em Los Ângeles e, com o dinheiro ganho com o prêmio, comprou uma casa em Santa Bárbara. Seria ali que no ano seguinte escreveria grande parte de Lagar I, em muitos de cujos poemas se observa a marca da segunda guerra mundial, e que será publicado no Chile em 1954. Em 1946, conheceu Doris Dana, uma escritora estadunidense com quem estabeleceu uma controvertida relação e de quem não se separaria até sua morte.

Gabriela Mistral foi nomeada cônsul em Nova Iorque em 1953, cargo que conseguiu para estar junto à escritora e bacharel norte-americana Doris Dana, a quem conhecera em 1946 e que foi depositária, porta-voz e executora oficial.

A correspondência entre Dana e Mistral revela aparentemente o estabelecimento de uma sólida relação interpretada por muitos como homosexual entre ambas, coisa que Dana negou até o final de seus dias.

Testemunho da paixão entre Mistral e Dana é a correspondência entre ambas, que a editora Lúmen publicou no Chile em 2009 sob o título “Menina errante”, com transcrição, prólogo e notas de Pedro Pablo Zegers, conservador do Arquivo do Escritor, da Biblioteca Nacional. "Doris, eu estou nos Estados Unidos por tua causa", disse em uma carta. "Sou tua em todos os lugares do mundo e do céu", escreve. E antes: "Talvez tenha sido loucura muito grande entrar nesta paixão".

En 1953, Gabriela Mistral foi recebida com honras depois do convite do governo do Chile encabeçado por Carlos Ibañez del Campo. Nessa ocasião estava acompanhada por Doris Dana, a quem a imprensa nacional identificava como a secretária de Mistral, e que pisava a terra chilena pela primeira e última vez.

Gabriela Mistral foi recebida com um arco do triunfo, por alunos destacados de diferentes colégios e pelas autoridades da região. Foi também homenageada com o título de Honoris Causa pela Universidade do Chile.

Posteriormente voltou aos EUA, "país sem nome", segundo ela. Para Gabriela Mistral, a cidade de Nova Iorque era demasiado fria; ela teria preferido viver na Flórida ou em Nova Orleans (tinha vendido sua propriedade na California), e assim disse a Doris, a quem propôs comprar uma casa em nome das duas em algum desses lugares, mas afinal terminou acomodando-se em Long Island, na mansão da família de Dana e se instalou nos arredores da megalópole: "Mas se tu não queres deixar tua casa, compra-me, repito, um aquecedor e ficamos aqui", escreve-lhe em 1954.

Doris Dana, nessa época consciente de que a existência de Gabriela Mistral era finita, começou um minucioso registro de cada conversação que tinha com a poeta. Ademais, acumulou um total de 250 cartas e milhares de ensaios literários, que hoje constituem o mais importante legado mistraliano e que foi doado por sua sobrinha Doris Atkinson depois de sua morte, ocorrida em novembro de 2006.

Morte, homenagens póstumas e legado

Mistral tinha diabetes e problemas cardíacos; finalmente morreu no Hospital de Hempstead, Nova Iorque, devido a um câncer de pâncreas, em 10 de janeiro de 1957, aos 67 anos, na presença de Doris Dana.

Doris Dana permaneceu como executora oficial da obra de Mistral e evitou enviá-la ao Chile até que não se reconhecesse da maneira devida a sua estatura mundial. Inclusive chegou a ser feito um convite da parte do governo do presidente Ricardo Lagos Escobar, coisa que ela gentilmente declinou.

Em seu testamento, Mistral estipulou que o dinheiro produzido pela venda de seus livros na América do Sul devia ser destinado às crianças pobres de Montegrande, onde passou seus melhores anos de infância, e o da venda em outras partes do mundo a Doris Dana e Palma Guillén, que renunciou a essa herança em beneficio das crianças pobres do Chile. Este pedido da poeta não pôde ser realizado durante algum tempo por restrições legais. Com a revogação dessas restrições, atualmente os ingressos resultantes de sua obra chegam às crianças de Montegrande no Vale do Elqui.

A sobrinha de Doris Dana, Doris Atkinson doou finalmente ao governo chileno o legado literário de Mistral, mais de 40 mil documentos, custodiados atualmente nos arquivos da Biblioteca Nacional do Chile, incluídas as 250 cartas escolhidas por Zegers para sua publicação. Escolher Próximo Livro.

Seus restos chegaram ao Chile em 19 de janeiro de 1957 e foram velados na sede central da Universidade do Chile, para depois ser sepultados em Montegrande, como era seu desejo. Uma vez disse que gostaria que batizassem uma serra de Montegrande em sua homenagem; conseguiu postumamente: em 7 de abril de 1991, quando completaria 102 anos, a serra Fraile passou a ser chamada Gabriela Mistral.

A imagem de Gabriela Mistral aparece na nota de 5 mil pesos chilenos. Em setembro de 2009 entrou em circulação uma nova nota de 5 mil pesos com uma imagem mais agradável de Mistral.

Uma universidade privada (uma das primeiras no Chile) também leva seu nome, a Universidade Gabriela Mistral.

Em 15 de novembro de 2005, Gabriela Mistral recebeu uma homenagem no Metrô de Santiago, em comemoração dos 60 anos da atribuição do Prêmio Nobel. Foi dedicado a ela um trem batizado com seu nome e com suas fotografias.

Praticamente todas as cidades importantes do Chile possuem uma rua, praça ou avenida batizada em sua homenagem com seu nome literário.

Em dezembro de 2007 chega ao Chile grande parte do material retido nos Estados Unidos por sua primeira executora, Doris Dana. A ministra da Cultura chilena, Paulina Urrutia, recebeu o material, junto a Doris Atkinson, a nova executora. O trabalho de recopilação, transcrição e classificação foi feito pelo humanista chileno Luís Vargas Saavedra que, ao mesmo tempo, preparou uma edição do trabalho chamada "Almácigo".

Em 10 de dezembro de 1945 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura das mãos do Rei Gustavo V da Suécia. Com este galardão se converteu no primeiro literato latino-americano a receber o Nobel. Na cerimônia de entrega do prêmio, ela foi chamada "rainha da literatura latino-americana".

Em 1947 recebeu o Doutorado Honoris Causa do Mills College of Oakland, Califórnia. Em 1951 obteve o Prêmio Nacional de Literatura, Chile.

Entre os muitos doutorados honoris causa que ela recebeu, destacam-se os da Universidade da Guatemala, da Universidade da Califórnia (Los Ângeles) e da Universidade de Florença (Itália), entre outros. Em 1954, a Universidade do Chile finalmente decidiu outorgar-lhe também a honraria.

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Fontes: CONCHA, Rolando Manzano; AGUILLERA, Luis E.. Gabriela Mistral, para ler à noite, perder o sono e ter pesadelos.[tradução José Reinaldo Carvalho].. Publicado em Portal Vermelho/ cultura - 15 de janeiro de 2011. (atualizações e correções feitas) |  Site oficial Gabriela Mistral

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 Fonte: Templo Cultural Delfos

Foto: Produção


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A Universidade das Quintas-feiras

 

A Universidade das Quintas-feiras

“VALE A PENA LER”:

Todas as quintas-feiras, pontualmente às 10h, na sala 3B de um prédio da faculdade no centro de Bucareste (capital da Romênia), um grupo peculiar toma seus lugares: Ninguém tem menos de 70 anos. Alguns chegam com bengalas, outros de bicicleta.

Uma mulher traz bolos caseiros. Outra distribui citações de autores gregos. Todos sorriem como crianças em sua primeira excursão escolar.

Eles se autodenominam “A Universidade das Quintas-feiras”, embora não haja mensalidades nem provas. Apenas o desejo de aprender. Tudo começou com Mihnea Dragomir, um ex-professor de literatura romena que, após se aposentar, sentiu algo dentro de si se apagando.

“Eu tinha livros, eu tinha tempo… mas me faltava o brilho nos olhos para compartilhar minha história.” Então, ele pediu permissão para usar uma sala de aula vazia uma vez por semana. Ela colocou um anúncio na padaria do bairro: “Aulas para pessoas com mais de 65 anos. Grátis. Sem dever de casa. Só curiosidade.” Na primeira vez, apareceram três pessoas. Na segunda, sete. Na terceira, vinte. Agora, toda quinta-feira, mais de quarenta idosos se reúnem para conversar sobre tudo: história, poesia, cinema, tecnologia, neurociência, arte africana, evolução, inteligência emocional. Cada aula começa com uma rodada de perguntas:

—O que você aprendeu esta semana fora da escola? E as respostas são surpreendentes:

—Aprendi a fazer videochamadas com minha neta em Berlim.

—Descobri que as baleias cantam em diferentes dialetos.

—Assisti a um filme coreano sem entender uma palavra… mas chorei mesmo assim.

 

Mihnea não cobra. Ela não faz chamada. Ela simplesmente oferece um quadro branco, uma história e uma xícara de chá ao final de cada sessão. Mas o que acontece naquela sala de aula vai muito além do conhecimento. “Vim pela cultura”, diz Adela, de 82 anos, “mas encontrei algo mais urgente: pertencimento.”

Muitos deles moravam sozinhos. Alguns haviam parado de sair. Um deles até confessou que não conversava com ninguém por mais de cinco minutos há anos. Agora, eles trocam mensagens. Emprestam livros. Comemoram aniversários. E se alguém falta na quinta-feira, o telefone toca: “Você está bem? Precisa de alguma coisa?”

A Universidade das Quintas-feiras não concede diplomas, mas oferece algo mais valioso: significado.

Em uma sociedade que empurra os idosos para o esquecimento, esse grupo demonstra que a sede de conhecimento não envelhece. Ela apenas se transforma.

Há alguns meses, eles foram convidados para uma conferência universitária sobre inovação educacional.

A plateia silenciou ao ver aquele grupo de pessoas de cabelos grisalhos, com andadores e risos contidos, entrar. Um dos estudantes perguntou:

“E que tipo de inovação vocês trazem?” O mais velho, Pavel, de 90 anos, respondeu:

"Inovamos não desistindo. Continuando a fazer perguntas. Não é isso que um bom cientista faz?" A plateia o aplaudiu de pé.

Hoje, vários jovens se juntaram à plateia como ouvintes. Alguns dizem que entendem melhor seus avós. Outros dizem que finalmente aprenderam a ouvir sem pressa.

E Mihnea, o professor que não queria parar de lecionar, diz que não tem mais medo de envelhecer.

"Porque agora eu sei que, enquanto houver quinta-feira, haverá um motivo para acordar com entusiasmo."

 

Autoria: desconhecida

Foto: Google

 

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9.18.2026

A árvore em fogo - BERTOLT BRECHT

 

Eugen Berthold Friedrich Brecht dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. nasceu a 10 Fevereiro 1898, em Augsburgo, Alemanha e morreu a 14 Agosto 1956, em Berlim Leste, Alemanha. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista "Baal", de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble.

Brecht, por David Levine - Clifford

 Odets February 4, 1982

Brecht é uma época. Uma época tumultuosa de rebeldia e de protesto. Refletem-se, em suas obras, os problemas fundamentais do mundo atual: a luta pela emancipação social da humanidade. Brecht tem plena consciência do que pretende fazer. Usa o materialismo dialético da maneira mais sábia para a revolução estética que se dispôs a promover na poesia e no teatro.

A poesia de Bertold Brecht

Brecht tem, sobre a poesia, o mesmo pensamento que tem sobre a arte dramática. Maneja-a da maneira mais sábia em defesa da liberdade do homem. Há, em seus poemas, o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais. Recusa-se a aceitar uma poesia alheia aos acontecimentos sociais. Exige que ela seja atuante sem perder, entretanto, o seu sentido artístico. A poesia moderna deve estar ao lado da revolução.

O êxito excepcional do teatro e da poesia de Brecht confirma a justeza de seus pontos-de-vista. Sua arte é duplamente revolucionária: no fundo e na forma. Não só se opõe à estética de Aristóteles como não se submete ao convencionalismo e aos preconceitos sociais. Escreve independentemente como acha que se deve escrever.

:: Texto extraído: MONIZ, Edmundo. "Objetivo da poesia moderna", em 'Bertolt Brecht – Uma Breve Biografia (1898-1956)'. in: Cultura Brasil. / e releituras (acessado em 18.6.2015).

 

ALGUMAS OBRAS DE BERTOLT BRECHT PUBLICADAS NO BRASIL

Poesia


:: Antologia Poética. Bertolt Brecht. [seleção e tradução de Edmundo Moniz]. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1982.

:: Seleção de Poesias, textos e teatro. São Paulo: Dinossauro, 1999.

:: Poemas 1913-1956.  Bertolt Brecht. [seleção e tradução Paulo Cesar de souza]. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986; São Paulo: Editora 34, 2000.

 

Teatral

:: Teatro dialético. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

:: Estudos sobre teatro. Bertolt Brecht. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

:: O circulo de giz caucasiano. Bertolt Brecht. [tradução e apresentação Manuel Bandeira; prefácio Christine Röhrig e Samuel Titan Jr.; ensaio Roland Barthes]. Coleção prosa do mundo. São Paulo: Cosac Naify, 32 il., 216p.

ALGUMAS OBRAS POÉTICAS DE BERTOLT BRECHT  PUBLICADAS EM PORTUGAL

:: Poemas - Bertolt Brecht. [estudos, antologia, tradução Arnaldo saraiva; co-tradução com Sylvie Deswarte.. Lisboa: Presença, 1970.

:: Poemas - Bertolt Brecht. [tradução Arnaldo Saraiva]. Coleção Campo da Poesia. Porto: Campo das Letras, 1998, 128p.

POEMAS ESCOLHIDOS DE BERTOLT BRECHT

A árvore em fogo

Na ténue névoa vermelha da noite

Víamos as chamas, rubras, oblíquas

Batendo em ondas contra o céu escuro.

No campo em morna quietude

Crepitando

Queimava uma árvore.

Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos

Negros, rodeados de centelhas

De chuva vermelha.

Através da névoa rebentava o fogo.

Apavorantes dançavam as folhas secas

Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas

Zombando, em volta do velho tronco.

Mas tranquila, iluminando forte a noite

Como um gigante cansado à beira da morte

Nobre, porém, em sua miséria

Erguia-se a árvore em fogo.

E subitamente estira os ramos negros, rijos

A chama púrpura a percorre inteira –

Por um instante fica erguida contra o céu escuro

E então, rodeada de centelhas

Desaba.

- Bertolt Brecht, em "Poemas 1913-1956". [seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo: Editora 34, 2000, p. 9.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

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9.17.2026

OS MISERÁVEIS - Agilson Cerqueira

 


OS MISERÁVEIS

Agilson Cerqueira


Quando se lê Os Miseráveis, de Victor Hugo, ninguém sai ileso.


Após folhear as páginas de um livro que levou trinta anos para ser escrito, alguma coisa muda.


Porque diante da grandeza da obra não estão apenas personagens, pobreza, injustiça e sofrimento. Está o próprio homem diante de suas escolhas, de seus preconceitos, de sua indiferença e de sua capacidade de compaixão.


Fico a imaginar o quão sofrido é escrever sobre o sofrimento humano sem desistir, por um período tão grande.


Uma vida em uma obra, ou melhor, em uma obra-prima.


Os Miseráveis é para ler e olhar para a miséria sem a distância confortável de quem observa o sofrimento alheio. É perceber que, muitas vezes, a sociedade fabrica seus miseráveis antes de condená-los por serem aquilo que ela mesma os ajudou a criar.


Por isso, depois da leitura, continuar exatamente a mesma pessoa é ser desprovido de sensibilidade e ter um olhar ausente da humanidade.


Quem lê pode até fechar o livro.

Mas não deveria conseguir fechar os olhos.



Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.

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O GAROTO E O JUAZEIRO: MEMÓRIAS QUE FLORESCEM – (*) Mário Rogério

O GAROTO E O JUAZEIRO: MEMÓRIAS QUE FLORESCEM – (*) Mário Rogério

 

No início do quintal de nossa casa, havia um juazeiro, o único da vizinhança, que se destacava das demais plantas. De porte médio, cerca de dez metros de altura, o tronco, não era de grande diâmetro, ramos tortuosos, com numerosos espinhos. Era uma árvore de elegante porte, copa globulosa e densa, quase encostando seus ramos cobertos de espinhos e folhas de tom verde claro no chão.

Eram desconhecidos a origem e a idade do juazeiro, ao ser indagado o Sr. João, meu pai, respondia sempre, “Já encontrei o juazeiro no quintal quando viemos para cá, soube que ele tem uns cinquenta anos, … daí pra lá“. O Juazeiro dividia o espaçoso quintal com outras fruteiras plantadas por meu velho: ateira, cirigueleira, goiabeira e gravioleira. Próximo a cacimba rasa com quinze metros de profundidade, havia um frondoso pé de azeitona-roxa e dois coqueiros carregados de frutos, completavam o pequeno pomar.

Nos dias quentes de agosto, quando o sol de Fortaleza parecia que ia queimar tudo ao redor. A copa densa e os galhos robustos do juazeiro ofereciam uma sombra acolhedora, tornando o local perfeito para os momentos de lazer e reflexão.

Foi ali, sob a sombra fresca da copa do juazeiro, que eu um garoto de nove anos buscava refúgio, proteção da insolação, dos medos e das dúvidas que vez ou outra, surgiam em minha mente. Mas, a curiosidade me levou a descobrir e aprender sobre a árvore que me acolhedora.

Logo, fiquei fascinado pelo juazeiro. Meu pai homem do interior, acostumado a lida diária do campo, sempre fazia referências sobre aquela árvore tão especial, “Meu filho, o juazeiro é muito resistente às intempéries da seca”, afirmava em um tom convincente. “Ele resiste ao calor, ao tempo seco, não deixa de acolher, de oferecer sua sombra e sua vida. Graciliano Ramos em seu livro ‘Vidas Secas’, fez registros sobre o juazeiro abrigando retirantes famintos, cansados, fugidos da seca sob a sombra fresca de sua frondosa copa”. Essas palavras ficaram gravadas, bem como, as tardes que passávamos juntos no quintal da 207 na Avenida Monsenhor Tabosa, a poucos metros do Seminário da Prainha e de alguns quarteirões da Praia de Iracema.

Naqueles dias de abril, enquanto Fortaleza precisava desacelerar sob o calor intenso, o juazeiro mostrou-se diferente, parecia querer anunciar o início de um novo ciclo, a floração do juazeiro. As flores surgiram discretas, quase tímidas, espalhando-se entre as folhas verdes da copa como pequenas estrelas de cor amarelas-esverdeadas. Era a forma do juazeiro comunicar que o verão apesar do calor, era tempo de renascimento.

Testemunhei pequenos milagres que o juazeiro proporcionou. O quintal se encheu de vida. As abelhas, primeiras visitantes, chegaram em enxames organizados, zumbiam suavemente enquanto se alimentavam do néctar das flores. Aprendi que as abelhas, borboletas e os pássaros: Beija-flor, Bem-te-vi, Sanhaçu, eram parceiros invisíveis, que garantiam ao juazeiro a continuidade do seu ciclo de vida. Todos ao seu modo, contribuem com um só objetivo, transformar as flores do juazeiro em frutos. Acompanhei essas mudanças com expectativa cada vez mais crescente. Fiquei extasiado com a colorida aquarela pintada pela natureza, com a vida que pulsava ali, O crescimento dos frutos do juazeiro era um evento mágico muito esperado.

O tempo passava, e as flores do juazeiro começaram a dar lugar aos frutos. Atentamente acompanhei essas mudanças com uma crescente expectativa. Vi os frutos surgirem, pequenos, amarelados, com possibilidades de algo muito maior. E com o passar dos dias, eles iam amadurecendo, ganhando cor e tamanho, até estarem prontos para serem colhidos. Me senti invadido por uma grande felicidade por ter tido a oportunidade de participar daquele processo, pelo simples fato de observar e esperar. Era como estivesse crescendo também, junto com a árvore.

Aprendi que cada verão traz sempre uma nova lição, um novo ciclo de vida e que o universo está em constantes mudanças. Portanto, com meu pai e o juazeiro, aprendi identificar as mudanças que a natureza, mesmo em meio à cidade, tinha sua própria forma de ensinar, demonstrar as mutações no nosso habitat.

Com o passar dos anos, essa paixão me levou a escolher um caminho. Decidi estudar Engenharia Agronômica, para aprender e aplicar princípios científicos e tecnológicos para a produção agrícola. objetivando ampliar e difundir os conhecimentos, um pouco mais do que fizera no quintal de minha infância. A imagem do juazeiro e suas lições e as de meu pai, sempre estarão presentes em minha mente, ora dando-me forças, ora para lembrar-me do início da minha jornada.

Grato Juazeiro, pela paciência, por dares ouvidos aos meus lamentos, pelos ensinamentos, por me abrigares sob tua frondosa e fresca copa.

Obrigado meu pai, pelo legado. Por indicares o Norte que eu deveria seguir, por me ensinares que amar é mais simples do que parece.

 

*Mário Rogério Araújo Sousa. É Cearense, Cronista, Mestre em Economia Rural pela Universidade Federal do Ceará – UFC, onde se graduou em Engenheiro Agrônomo. Especialista em Agronegócio pela Universidade de São Paulo – USP. Reside em Fortaleza – CE.

 

Fonte: Recanto das Letras

Autoria: Mário Rogério Sousa

Foto: Google

 

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