Geografia da Indignação
Não é nova a mão que aponta mísseis
para o sul global.
Ela aprendeu cedo
a medir a terra com sangue,
a chamar espólio de ajuda,
a vestir o saque
com a farda da liberdade.
Do norte, a palavra democracia
chega oleosa,
escorre da boca cheia de petróleo
e cai como ordem,
nunca como escuta.
Há futuros lançados do céu,
mas eles nunca pousam
as casas desabam.
Este sul não é quintal.
Não nasceu para ensaio
nem para tutela.
A América Latina carrega relógios próprios:
tropeça, retorna, insiste
aprende errando com os próprios pés,
fora dos mapas desenhados à distância.
Mas também há muros por dentro.
Palácios que fecham as janelas
e chamam eco de povo.
A Venezuela sangra em silêncio doméstico:
um poder que se olha demais
até confundir espelho com multidão
permanência com destino.
Entre a mão que aperta de fora
e a mão que retém por dentro,
o corpo é sempre o mesmo:
o que espera o pão,
o que guarda memórias gastas,
o que aprende cedo
que a pátria, quando tem dono,
não alimenta.
Galeano nos deixou o mapa das feridas:
veias abertas
que atravessam a América Latina
e seguem pulsando.
Hoje, dois punhos comprimem o mesmo sangue,
sem ouvir o grito que produzem.
Não queremos fardas que prometem salvação
nem ternos que administram o medo.
Queremos o gesto simples e radical:
povos escolhendo caminhos,
governos sabendo partir,
o poder aceitando limite.
A vida comum não cabe em discursos.
Ela anda na rua, bate panela vazia,
protege a palavra
antes que a confisquem.
Nossa indignação não se ajoelha ao poder.
Ela permanece de pé
onde a história ainda pode
mudar de rumo.
Rafael Gama
Janeiro de 2026
Foto: Google


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