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1.06.2026

Geografia da Indignação - Rafael Gama

 









Geografia da Indignação

Não é nova a mão que aponta mísseis

para o sul global.

Ela aprendeu cedo

a medir a terra com sangue,

a chamar espólio de ajuda,

a vestir o saque

com a farda da liberdade.

 

Do norte, a palavra democracia

chega oleosa,

escorre da boca cheia de petróleo

e cai como ordem,

nunca como escuta.

 

Há futuros lançados do céu,

mas eles nunca pousam

as casas desabam.

 

Este sul não é quintal.

Não nasceu para ensaio

nem para tutela.

A América Latina carrega relógios próprios:

tropeça, retorna, insiste

 

aprende errando com os próprios pés,

fora dos mapas desenhados à distância.

 

Mas também há muros por dentro.

Palácios que fecham as janelas

e chamam eco de povo.

A Venezuela sangra em silêncio doméstico:

um poder que se olha demais

até confundir espelho com multidão

permanência com destino.

 

Entre a mão que aperta de fora

e a mão que retém por dentro,

o corpo é sempre o mesmo:

o que espera o pão,

o que guarda memórias gastas,

o que aprende cedo

que a pátria, quando tem dono,

não alimenta.

 

Galeano nos deixou o mapa das feridas:

veias abertas

que atravessam a América Latina

e seguem pulsando.

Hoje, dois punhos comprimem o mesmo sangue,

sem ouvir o grito que produzem.

 

Não queremos fardas que prometem salvação

nem ternos que administram o medo.

Queremos o gesto simples e radical:

povos escolhendo caminhos,

governos sabendo partir,

o poder aceitando limite.

 

A vida comum não cabe em discursos.

Ela anda na rua, bate panela vazia,

protege a palavra

antes que a confisquem.

 

Nossa indignação não se ajoelha ao poder.

Ela permanece de pé

onde a história ainda pode

mudar de rumo.

Rafael Gama

Janeiro de 2026


 Att.:

Autoria: Rafael Gama
Foto: Google

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