5 poemas para refletir
sobre a Consciência Negra
Laura Aidar Laura Aidar Arte-educadora, fotógrafa e artista visual
O dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, é uma data muito importante para a população brasileira. Isso porque nosso país sofreu quase 400 anos de escravidão, onde pessoas negras foram humilhadas e escravizadas.
O legado desse passado doloroso é um racismo com bases estruturais e o contínuo empobrecimento e opressão da população negra.
Por isso foi criada essa data, para que as pessoas reflitam sobre a história do povo negro no Brasil, sua importância e valorização.
Assim, nós do Toda Matéria selecionamos 5 poemas que trazem importantes reflexões acerca da negritude. Confira!
1. Negro forro, de Adão
Ventura
Minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
Minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele
2. Sou Negro, de Solano
Trindade
Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o
batismo dos tambores
atabaques, gongôs e
agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo
preço
plantaram cana pro senhor
de engenho novo
e fundaram o primeiro
Maracatu
Depois meu avô brigou
como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh`alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação
3. Encontrei minhas
origens, de Oliveira Silveira
Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos
tumbeiros
encontrei
em doces palavras
cantos
em furiosos tambores
ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei
4. Integridade, de Geni
Mariano Guimarães
Ser negra,
Na integridade
Calma e morna dos dias.
Ser negra,
De carapinhas,
De dorso brilhante,
De pés soltos nos caminhos.
Ser negra,
De negras mãos,
De negras mamas,
De negra alma.
Ser negra,
Nos traços,
Nos passos,
Na sensibilidade negra.
Ser negra,
Do verso e reverso,
Do choro e riso,
De verdades e mentiras,
Como todos os seres que habitam a terra.
Negra
Puro afro sangue negro,
Saindo aos jorros
Por todos os poros.
5. Me gritaram negra, de
Victoria Santa Cruz
Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na
rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” –
me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste
verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e
meus lábios grossos
e mirei apenada minha
carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas
minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas
sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que
retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não
quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo
eles –
que por evitar-nos algum
disabor
Chamam aos negros de
gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque
quis Deus
que negro azeviche fosse
minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.
Foto: Google

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