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1.05.2026

Aninha e Suas Pedras - Cora Coralina

 


Aninha e Suas Pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Um dos poemas mais conhecidos de Cora é Aninha e Suas Pedras. Nele vemos um eu-lírico disposto a dar conselhos ao leitor, criando com a audiência um espaço de intimidade e partilha.

A linguagem informal e coloquial pode ser percebida no tom de oralidade da escrita. Os verbos no imperativo sugerem quase uma ordem (recria-remove-recomeça-faz), sublinhando a importância daquilo que se diz e a necessidade de se seguir em frente.

O poema aborda com frontalidade a questão da resiliência e a urgência de tentar outra vez quando o plano não deu certo, mesmo que pareça não haver mais forças.

 

Conclusões de Aninha

Estavam ali parados. Marido e mulher.

Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça

tímida, humilde, sofrida.

Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,

e tudo que tinha dentro.

Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar

novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,

entregou sem palavra.

A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,

se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar

E não abriu a bolsa.

Qual dos dois ajudou mais?

 

O trecho acima é a parte inicial de Conclusões de Aninha e narra uma pequena história cotidiana, tão frequente nas cidades, quando uma pessoa humilde interrompe o caminho de um casal rumo ao carro e pede ajuda depois de explicar a sua situação pessoal.

Com uma linguagem coloquial e marcada pela oralidade, o sujeito poético nos apresenta a cena e a forma como cada um dos personagens se comportou.

O marido ofereceu ajuda financeira, mas não entrou em comunhão com a pessoa que pedia, nem sequer trocou uma palavra. A mulher, por sua vez, não ofereceu nada, mas soube ser ouvido e empatizou com aquela que estava em situação vulnerável. O trecho se encerra com uma pergunta sem resposta, que faz com que o leitor reflita sobre o comportamento dos dois personagens anônimos.

 

Fonte: Pensador

Foto: Google

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