Aninha e Suas Pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz
doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de
vir.
Esta fonte é para uso de todos os
sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Um dos poemas mais conhecidos de Cora é Aninha e Suas Pedras. Nele vemos um eu-lírico disposto a dar conselhos ao leitor, criando com a audiência um espaço de intimidade e partilha.
A linguagem informal e coloquial pode ser percebida no tom de oralidade da escrita. Os verbos no imperativo sugerem quase uma ordem (recria-remove-recomeça-faz), sublinhando a importância daquilo que se diz e a necessidade de se seguir em frente.
O poema aborda com frontalidade a
questão da resiliência e a urgência de tentar outra vez quando o plano não deu
certo, mesmo que pareça não haver mais forças.
Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio
aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha
queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um
auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas
pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou
uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou,
especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora
havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
O trecho acima é a parte inicial de Conclusões de Aninha e narra uma pequena história cotidiana, tão frequente nas cidades, quando uma pessoa humilde interrompe o caminho de um casal rumo ao carro e pede ajuda depois de explicar a sua situação pessoal.
Com uma linguagem coloquial e marcada pela oralidade, o sujeito poético nos apresenta a cena e a forma como cada um dos personagens se comportou.
O marido ofereceu ajuda financeira,
mas não entrou em comunhão com a pessoa que pedia, nem sequer trocou uma
palavra. A mulher, por sua vez, não ofereceu nada, mas soube ser ouvido e
empatizou com aquela que estava em situação vulnerável. O trecho se encerra com
uma pergunta sem resposta, que faz com que o leitor reflita sobre o
comportamento dos dois personagens anônimos.
Fonte: Pensador
Foto: Google


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