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1.18.2026

Conversa sobre a literatura francesa - Graciliano Ramos

 Conversa sobre a literatura francesa

De Graciliano Ramos

 Não necessitamos de outras palavras para os nossos leitores sobre Graciliano senão aquelas que andam na boca de todo mundo; é um dos maiores romancistas novos do Brasil. Grande cultura a serviço de bela inteligência — Aqui damos o seu “por que amo a França”, apanhado por um dos nossos redatores.

Graciliano Ramos preferiu responder verbalmente. Estávamos na Livraria José Olympio e o romancista de Angústia atendeu à nossa pergunta, apontando risonhamente para os livros espalhados num balcão, diante de nós:

— Eu amo a França por isso…

Resposta vaga e precisa, ao mesmo tempo, e a que o nosso companheiro antepôs o ardil das insinuações, diante das quais Graciliano Ramos, com o seu hábito de falar poupado, foi compelido a ir discreteando longamente sobre a sua grande fascinação intelectual pela gente gaulesa.

— Os franceses certamente influíram bastante em sua formação literária…

— Sim. De França evidentemente recebi as primeiras sugestões propriamente literárias. Por uma questão de programa e de uso, sempre que o brasileiro deixa o curso primário, o primeiro livro que lhe vem às mãos são Os Lusíadas. A mentalidade da criança experimenta dificuldades terríveis para surpreender o pensamento do clássico. Cria-se então a ojeriza pela epopeia e também pela literatura portuguesa. Em geral, prolonga-se essa aversão pelo resto da vida. Em tal circunstância, só há um recurso: refugiar-se na literatura francesa. Comigo, foi assim. Li primeiramente a chamada literatura de cordel, é certo que não o fiz por uma questão de estética e de enlevo, mas por uma exigência da curiosidade do adolescente. A língua francesa, direta, facilita os autodidatas, que somos todos nós, intelectuais brasileiros. Em pouco, familiarizei-me principalmente com os romancistas. Balzac foi para mim um deslumbramento. Ainda hoje me detenho diante de sua obra com a certeza de que me encontro com o maior romancista do mundo.

— Quer dizer que pensa como aquele homem exótico que Anatole France encontrou a revolver velhos livros num alfarrabista de Paris, e que dizia, gravemente, indicando as prateleiras: Balzac é um mundo…

— Evidentemente. Depois, Zola impressionou-me também, mas não conseguiu desviar a fascinação pela obra balzaquiana. Julgo ter sido verdadeiramente diabólica a mentalidade do autor das Ilusões perdidas. A propósito, acho que é este o seu melhor livro. Que surpresa de técnica! Ali há de tudo, desde a base econômica, admiravelmente definida e levantada, e sobre a qual o resto do livro cai, para consistência eterna. O resto do livro caminha impulsionado por aquela rajada até à surpresa daqueles pensamentos filosóficos que Balzac coloca na boca de um cura. Por isso, bastava apenas Balzac para que eu amasse intensamente a França. O escritor português que me deixou maior influência foi, em parte, francês: Eça de Queirós. O seu ritmo, a sua construção, o seu riso — tudo teve o seu berço sob o solo de Paris, muito embora ele construísse os seus volumes num hotel de Londres ou mesmo na ambiência sossegada de Leiria. A minha fascinação e o meu entusiasmo pela literatura francesa determinaram em mim quase um desconhecimento total do que se escreveu no Brasil. Basta lhe dizer que somente há uns dois ou três anos vim conhecer Machado de Assis.

— Considera Machado de Assis um caso de genialidade?

— Certamente que não. Justifica-se esse meu ponto de vista por uma questão de educação literária, quando não fosse por um imperativo do temperamento. Meu espírito se formou numa ambiência de riso claro e vivo, como o de Anatole France. Ademais, o que mais me distancia de Machado de Assis é o seu medo de definir-se, a ausência completa da coragem de uma atitude. O escritor tem o dever de refletir a sua época e iluminá-la ao mesmo tempo. Machado de Assis não foi assim. Trabalhando a língua como nenhum, poderia ter feito uma obra transitável às ideias. Como vê, ainda é o amor à França que me faz discordar da maioria dos homens cultos do Brasil: não amo Machado de Assis. Entretanto, releio o Eça de Queirós, pelo que me transmite, harmoniosamente, do espírito francês.

Nesse instante, vinha chegando Amando Fontes. Graciliano Ramos despediu-se, sorrindo:

— Parece que satisfiz a curiosidade de seu jornal…

Do livro Conversas, de Graciliano Ramos. Organização de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 281-4.


Fonte: Blog um texto por mês

Foto: Google


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