Chapéu
Escrita em 1883, e lançada na Gazeta de Notícias, a história reflete sobre as transformações sociais que estavam em curso na segunda metade do século XIX e, mais especificamente, no papel da mulher nesse novo mundo que surgia. A protagonista é Mariana, uma jovem esposa que começa a implicar com o chapéu do marido e pede que ele o troque.
Quando o seu apelo é ridicularizado e recebido com desdém, a moça é levada a repensar o relacionamento e até o modo como vive dedicada ao espaço doméstico. Estas questões se intensificam quando conhece Sofia, figura que representa as mulheres à frente do seu tempo, que estavam trilhando caminhos de independência.
A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humilhação subsistia. Mariana não chorou, não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente, não achava justificação para tais excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou à janela meio aberta, viu ainda o marido, na rua, à espera do bonde, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo chapéu na cabeça.
Mariana sentiu-se tomada de ódio contra essa peça
ridícula; não compreendia como pudera suportá-la por tantos anos. E relembrava
os anos, pensava na docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as
vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa
justamente a causa do excesso daquela manhã.
Autoria: Machado de Assis
Fonte: Pensador
Imagem: Google


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