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1.06.2026

Animais e a Peste - Monteiro Lobato

 Animais e a Peste

    Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
    - Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
    - Qual? – perguntou o leão.
    - O mais carregado de crimes.
    O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
    - Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.
    A raposa adiantou-se e disse:
    - Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão. Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
    Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
    E o mesmo aconteceu com todas as outras feras. Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
    - A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
    Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
    - Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
    Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimente eleito para o sacrifício.

Moral da Estória:
Aos poderosos, tudo se desculpa…  Aos miseráveis, nada se perdoa.


Fonte: Pensador

Foto: Google


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