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3.26.2026

Olhos parados - Manoel de Barros

 

Manoel de Barros (1916-2014) foi um dos grandes poetas brasileiros. Com uma poética que celebra o miúdo e o singelo, sua obra é um mergulho no universo interior e nas belezas escondidas do cotidiano.

1. Olhos parados

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

Os versos acima foram retirados após a primeira passagem do extenso poema Olhos parados. Neles, o sujeito reflete sobre a vida, expressando gratidão pelas experiências vividas e pelos encontros felizes. Reconhece a beleza de estar vivo, pleno, e dá valor a essa completude.

Em Olhos parados se estabelece uma relação de cumplicidade entre o autor e os leitores, deixando que eles assistam esse instante íntimo de balanço da sua vida pessoal.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Produção

 

3.25.2026

Os sapos - Manuel Bandeira

 









Os sapos

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.


Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

- "Meu pai foi à guerra!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".


O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: - "Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas..."

 

Urra o sapo-boi:

- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

 

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

- A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

 

Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo".

 

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas,

- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

 

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Veste a sombra imensa;

 

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

 

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio...

 

O poema Os sapos foi criado em 1918 e deu o que falar ao ser declamado por Ronald de Carvalho durante a emblemática Semana de Arte Moderna de 1922.

Numa crítica clara ao parnasianismo (movimento literário que definitivamente não representava o poeta), Bandeira constrói esse poema irônico, que tem métrica regular e é profundamente sonoro.

Trata-se aqui de uma paródia, uma maneira divertida de diferenciar a poesia que o escritor praticava daquela que vinha sendo produzida até então.

Os sapos são, na verdade, metáforas para os diferentes tipos de poetas (o poeta modernista, o vaidoso poeta parnasiano, etc). Aos longo dos versos vemos os animais dialogarem sobre como se constrói um poema.

Conheça uma análise aprofundada do poema Os sapos e confira os versos declamados:


Fonte: Pensador

Foto; Google

 

Capacitando Colaboradores - Robert Tamasy

                                         Capacitando Colaboradores

Por Robert Tamasy

 

Max De Pree, empresário e escritor americano, escreveu diversos livros que provocam reflexões sérias, baseado em suas próprias experiências e observações do mercado de trabalho. Uma de suas afirmações que achei especialmente interessante é: “Líderes devem dar espaço às pessoas – espaço no sentido de liberdade. Liberdade que possibilite que nossos talentos sejam exercidos. Precisamos dar uns aos outros espaço para crescer, para sermos nós mesmos.”

 

Essa percepção é particularmente significativa para mim porque, cerca de 16 anos atrás, um amigo adotou essa atitude quando decidimos trabalhar juntos. Dave e eu nos conhecemos através de nosso envolvimento no CBMC, inclusive trabalhando juntos no quadro de funcionários. Pouco depois que ele começou seu próprio negócio sem fins lucrativos, o Leaders Legacy, eu sentia que era tempo de fazer algo novo. Assim, encontrei-me com Dave e solicitei seu conselho.

 

Depois de conversarmos durante algum tempo, pareceu-nos óbvio que trabalharmos juntos no Leaders Legacy poderia ser mutuamente benéfico. Jamais esquecerei o que Dave disse para mim naquela tarde: “Bob, se você precisar de um lugar onde possa florescer e se tornar tudo o que Deus quer que você seja, temos um lugar para você”. 

 

Desde então tenho vivido uma carreira frutífera, desfrutando de muitas experiências recompensadoras tanto como escritor, quanto como editor. Esse convite, porém, prometia abrir portas que eu ainda tinha por explorar. E como se revelou, o meu tempo com a Leaders Legacy ao longo dos últimos 15 anos proporcionou muitas oportunidades novas, as quais, eu acredito, capacitaram-me a prosperar profissionalmente. 

 

A chave era simples. Permitiram-me, como De Pree escreveu, ter liberdade para exercer meus dons, talentos e experiência mais do que nunca. Em certo sentido, eu me sentia como um cavalo de corrida puro sangue quando o jóquei solta as rédeas e lhe dá permissão de correr livremente. 

 

Eu não tenho queixas quanto aos meus empregadores anteriores; nem estou querendo louvar a mim mesmo de modo algum. Acontece que em muitas situações os trabalhadores não têm toda sua capacitação utilizada – às vezes, nem eles próprios as reconhecem. Geralmente é preciso que alguém – o CEO, o administrador, mesmo o supervisor  - diga algo como: “Vejo muito potencial em você que ainda está intocado. Talvez nem mesmo você tenha consciência disso. Quero ajudá-lo a se tornar tudo o que pode vir a ser”. Você pode imaginar o quão liberador pode ser para um empregado valioso ouvir essas palavras?

 

Sob a perspectiva da Bíblia, adotar esse tipo de abordagem seria parte de “...Ame o seu próximo como a si mesmo...” (Marcos 12:31) e “Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles.” (Lucas 6:31). Outra passagem, porém, aborda essa importante característica da liderança de maneira diferente. Provérbios 27:23-26 admoesta a todos que ocupam posições de autoridade – aqueles que têm responsabilidade sobre as pessoas que são confiadas à sua direção. O texto fala sobre ter discernimento, buscando estar sensível às necessidades daqueles que estão ao redor: “Esforce-se para saber bem como suas ovelhas estão, dê cuidadosa atenção aos seus rebanhos, pois as riquezas não duram para sempre, e nada garante que a coroa passe de uma geração a outra. Quando o feno for retirado, surgirem novos brotos e o capim das colinas for colhido, os cordeiros lhe fornecerão roupa, e os bodes lhe renderão o preço de um campo...

 

Colocar o interesse daqueles que trabalham para nós em primeiro lugar, em muitos casos, também será de nosso próprio interesse. 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1.   Por sua própria experiência, como você reage à declaração: “Deus, em Sua Palavra, nunca irá lhe dar um princípio que não possa ser posto em prática.” Alguma vez isso não foi verdadeiro em sua vida?

2.   Se você concorda que “Quando você segue os princípios bíblicos, nunca erra”, que princípios lhe vêm à mente e que você descobriu serem eficazes quando postos em prática?

3.   Olhando para um dos princípios mencionados, por que é tão difícil para a maioria de nós ter que esperar até vermos algo se concretizar?

4.   Você já experimentou a forma como Deus usa as dificuldades para nos ensinar e moldar, tornando-nos as pessoas que Ele quer que sejamos? Dê um exemplo e explique o que aprendeu com o processo.

 

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 11:23, 25; 12:1; 14:29; 15:22; 17:14; 21:5; 23:19-21; 26:10; 27:17; 28:20.  

 

A delicada arte de viver muito - Mário Donato D’Angelo

 

A delicada arte de viver muito.

por Mário Donato D’Angelo

 

Viver muito sempre foi, por séculos, uma raridade quase mítica. Era coisa de avó centenária que conhecia a cura das doenças no cheiro do mato, ou de personagem de romance russo, desses que morriam em São Petersburgo, sob a neve, citando Aristóteles em voz embargada. Longevidade era exceção. Agora virou estatística.

Vivemos mais. Isso é fato. A medicina avançou, os antibióticos viraram gente da casa, o colesterol passou a ser vigiado como se fosse um criminoso reincidente. A expectativa de vida subiu, e com ela a ideia, quase ingênua, de que bastaria durar para que tudo desse certo.  Mas viver muito não é a mesma coisa que viver bem. E é aí que começa a grande arte.

Porque a verdade é que a longevidade chegou antes do manual de instruções. Achávamos que envelhecer seria como alcançar um mirante: olhar para trás com serenidade, cruzar os braços sobre o próprio legado, saborear os frutos de uma vida bem vivida.

Mas a velhice, como a infância, exige cuidados diários, e também alguma poesia.

O corpo, esse velho cúmplice, começa a dar sinais de que o tempo passou. As juntas rangem como portas de armário antigo, os reflexos hesitam, os músculos se retraem.

Mas não é só o corpo que envelhece: às vezes o mundo ao redor também se torna estranho, distante. Os amigos partem, os filhos se dispersam, as calçadas ganham degraus invisíveis. E de repente, o que mais dói não é o quadril, é o silêncio.

E então vem ela: a queda.

Não só a queda literal, essa que acontece no banheiro, no degrau da padaria, na pressa inocente de atravessar a rua. Mas a queda simbólica: do entusiasmo, da autonomia, da autoconfiança. A queda de uma imagem de si mesmo que antes era firme, decidida, ágil. A queda de um modo de viver que não se encaixa mais no corpo que agora abriga a alma com mais cuidado.

A Organização Mundial da Saúde diz que um terço dos idosos sofre uma queda por ano. E essa queda pode ser o primeiro passo de uma jornada difícil: fraturas, cirurgias, internações, perdas, de mobilidade, de independência, de ânimo.

Mas veja bem: não se trata de um alerta sombrio. Trata-se, aqui, de um chamado amoroso à reinvenção.

Porque o envelhecimento também pode ser reinício. E preparar-se para ele é como preparar um jardim: exige tempo, presença, escolhas. É preciso cultivar força, sim, não para carregar sacos de cimento, mas para levantar-se da cadeira com leveza e poder abraçar um neto sem receio de tombar. É preciso elasticidade, não só nos músculos, mas nas ideias. E é preciso algo ainda mais raro: gentileza consigo mesmo.

Não se trata de negar a velhice. Ela chega, queira-se ou não, com suas rugas e suas lentidões, com seus esquecimentos charmosos e suas manias de repetir histórias. Mas há velhices e velhices. E há aquelas que florescem, porque foram cuidadas, porque tiveram sol e sombra, porque foram vividas com afeto, com liberdade, com algum humor.

Sim, o humor. Ele é, talvez, o músculo mais importante a ser mantido. Porque rir de si mesmo, das gafes, das perdas de memória, do tropeço nas palavras, é um jeito de desarmar o tempo.

O velho ranzinza é um clichê injusto, há velhos encantadores, que dançam bolero na sala com o ventilador ligado e o cachorro olhando desconfiado. Que tomam vinho com moderação e sorvete sem culpa. Que, aos oitenta, aprendem a usar o celular, e ainda erram, mas riem do erro.

A longevidade, quando bem-vivida, é como uma tarde longa e luminosa. Daquelas em que o sol demora a ir embora e o tempo parece suspenso entre uma lembrança e outra. Não é preciso correr. Nem competir. Basta estar inteiro: corpo e alma em compasso.

É isso que propomos aqui: um olhar amoroso para o futuro que já chegou. A velhice não precisa ser sinônimo de decadência. Pode ser plenitude.

E envelhecer bem não é luxo, nem sorte, é construção diária. Com passos firmes, com gestos suaves, com a força das pernas e o riso no rosto. Com o cuidado do corpo, sim, mas também com a ternura da memória.

Porque o segredo não é apenas viver muito.

É fazer da longevidade uma arte íntima, uma coordenação delicada entre o tempo e o desejo. E que, ao final, quando chegar a noite, a gente possa dizer, com lucidez e com alegria — “Foi bom ter vivido tanto. Mas foi melhor ainda ter vivido bem.”


Autor: Mário Donato Ângelo

Foto: Google

3.22.2026

Presença - Mário Quintana

 






Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos…

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo…

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

É partindo de duas dicotomias que se constrói o poema Presença: por um lado vemos os pares opositores passado/presente, por outro lado observamos o segundo par opositor que serve como base da escrita (ausência/presença).

Pouco ou nada ficaremos sabendo dessa misteriosa mulher que provoca nostalgia cada vez que a sua lembrança é evocada. Aliás, tudo o que saberemos dela ficará a cargo dos sentimentos originados no sujeito.

Entre esses dois tempos - o passado marcado pela plenitude e o presente pela falta - ergue-se a saudade, mote que faz com que o poeta cante os seus versos.


Fonte: Pensador

Foto: Google


Entrando no Campo Missionário - Robert Tamasy

 

Entrando no Campo Missionário

Por Robert Tamasy

Quando você ouve a expressão “campo missionário” o que lhe vem à mente? Tipicamente pensamos numa terra distante, com pessoas vivendo numa cultura diferente, falando uma língua não familiar, até mesmo estranha. Você já pensou no campo missionário que existe bem do lado de fora de seu escritório ou cubículo, ou nas pessoas que vai encontrar na próxima ligação de vendas?

Anos atrás, um amigo meu, Ken Johnson, estabeleceu um ministério para empresários e altos executivos. Um de seus objetivos era ajudar cada membro a reconhecer que eles eram missionários – em seus prédios de escritório, construindo fábricas e territórios de vendas. De fato, Ken tinha pequenos emblemas impressos que ele deu a todos afiliados ao seu Christian Network Teams. Nos emblemas estava escrito: “Você agora está entrando no campo missionário”.

Em nenhum lugar a Bíblia especifica que as únicas pessoas que podem ser qualificadas como “missionários” são aquelas que estão sob a autoridade direta de uma igreja ou agência missionária ou cujos rendimentos devem ser gerados apenas através de contribuições caritativas. Por essa razão, um homem de negócios ou um profissional qualquer que trabalhe com indivíduos que ainda não se declarem seguidores de Jesus Cristo tem direito de se considerar um missionário.

Quando Jesus comissionou Seus seguidores, próximo ao final de seus dias na terra, Ele os direcionou a irem e fazerem “...discípulos de todas as nações...ensinando-os a obedecer a tudo o que Eu lhes ordenei. E Eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.” (Mateus 28:19-20). Em nenhuma parte desse mandamento Ele indicou que isso deveria ser feito apenas dentro de um contexto institucional e religioso.

De modo similar, em Atos 1:8 Jesus declara onde deveria ter lugar o serviço prestado aos outros em Seu nome: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.” Ao dizer isso, Jesus estava descrevendo todo o mundo conhecido naquele tempo. Ele estava instruindo Seus seguidores: “Falem às pessoas sobre mim aonde quer que vocês forem, seja no escritório ao lado, sua vizinhança, em toda a cidade ou em uma parte do mundo totalmente diferente.”

Pensando sobre isso, vemos a indicação de que, não importa qual seja a fonte de nossos rendimentos, somos encarregados de servir como representantes de Jesus Cristo – o que o CBMC chama de “embaixadores no mercado de trabalho” – onde quer que vamos. Não precisamos de um chamado específico para deixarmos nossa profissão ou nos mudarmos para outra parte do mundo. Como alguém já disse sabiamente, Deus quer que nos envolvamos com outras pessoas onde estamos – porque obviamente não podemos servir a Deus onde não estamos.

Ao longo de seus quase 90 anos de existência, o CBMC tem visto muitos milhares de homens e mulheres chegarem ao conhecimento de Jesus Cristo de uma maneira transformadora de vidas, e muitos deles se desenvolveram e se tornaram fieis e zelosos embaixadores por Ele, e não somente em suas próprias cidades e nações, mas também onde quer que viajem ou conduzam negócios. Uma tradução literal de Mateus 28:19 é: “Enquanto estiverem indo, façam discípulos (seguidores) de Jesus.” Aonde quer que formos – aonde quer que as oportunidades que Deus dá nos levem – devemos servi-Lo e alcançar outros com as suas Boas Novas.

Questões Para Reflexão ou Discussão   

Que palavras ou imagens lhe vêm à mente ao ouvir a palavra “missionário”?

Como você reage à ideia de que é um missionário, não importando o trabalho que faz? Como a ideia de “estar entrando no campo missionário” muda sua percepção ou atitude em relação às pessoas que encontra no decorrer do seu trabalho diário?

O que a expressão “embaixador no mercado de trabalho” significa para você? Como seria se tornar – e agir – como embaixador no mercado de trabalho?

Que tipo de obstáculos ocorreriam considerando servir como missionário no mundo empresarial e profissional? Como esses obstáculos poderiam ser vencidos?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Isaias 43:4; Marcos 16:15; Colossenses 4:5-6; 2Timóteo 2:2-6; 1Pedro 3:15-17. 

 

3.20.2026

CICLO DA RAZÃO (I — Sentidos) - Agilson Cerqueira

 










Simbiose (Razão - I, II, III)

Óleo Sobre Tela 

Agilson Cerqueira


CICLO DA RAZÃO (I — Sentidos)

Agilson Cerqueira

Antes da ideia

existe o mundo.

A luz derrama-se nos olhos

como um rio silencioso,

o vento escreve na pele

sua caligrafia invisível,

e os sons se espalham no ar

como círculos sobre a água.

Tudo começa assim:

Em uma delicada invasão.

O corpo recolhe sinais,

mínimos fragmentos do universo,

sementes dispersas

de um saber ainda sem nome.

Cada cor,

cada textura,

cada rumor distante

é um sussurro da realidade.

E pouco a pouco

a consciência desperta

como um amanhecer

dentro do ser.


CICLO DA RAZÃO (II — Intelecto)

Agilson Cerqueira

Então a mente começa

seu trabalho secreto.

Recolhe os vestígios do mundo

trazidos pelos sentidos

como quem junta estrelas caídas.

Entre o sentir e o perguntar

nasce o intelecto.

Ele separa o caos,

ordena a luz,

traça caminhos invisíveis

no território das ideias.

Das sensações ele faz pensamento.

Do instante ele faz memória.

Do encontro ele faz pergunta.

E assim, lentamente,

o universo exterior

ganha morada

dentro da mente.

Mas sem o sopro da experiência,

sem o fogo dos sentidos,

seria apenas

um  vazio.


CICLO DA RAZÃO (III — Razão)

Agilson Cerqueira

E então surge a razão.

Não como pedra fria,

nem como montanha isolada,

mas como um horizonte

que se abre no pensamento.

Ela ilumina o que foi sentido,

revela o que foi pensado,

e costura o mundo

à consciência.

Na razão,

as coisas encontram forma,

e o pensamento encontra direção.

O ser humano percebe

que compreender

é também uma maneira

de tocar o infinito.

Pois cada ideia

é uma ponte invisível

lançada entre o eu

e o universo.

E assim,

o mundo continua

a nascer todo dia

com sentidos, mente e razão.

Vida!


Autoria: Agilson Cerqueira (*) - Professor, engenheiro, poeta e artista plástico.

Foto: Produção

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira (1886-1968) foi um dos maiores poetas brasileiros, tendo ficado conhecido pelo grande público, especialmente pelos célebres  Vou-me Embora pra Pasárgada e Os sapos. Mas a verdade é que, além dessas duas grandes criações, a obra do poeta comporta uma série de pérolas pouco.

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Eis o mais consagrado poema de Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada. Aqui encontramos um inegável escapismo, um desejo de evasão, de sair da sua condição atual rumo a um destino altamente idealizado.

O nome do local não é gratuito: Pasárgada era uma cidade persa (para sermos mais precisos, foi a capital do Primeiro Império Persa). É ali que o sujeito poético se refugia quando sente que não consegue dar conta do seu cotidiano.

Tradicionalmente esse gênero de poética que procura a liberdade propõe uma fuga para o campo, na lírica do poeta modernista, no entanto, há vários elementos que indicam que essa fuga seria em direção a uma cidade tecnológica.

Em Pasárgada, esse espaço profundamente desejado, não existe solidão e o eu-lírico pode exercer sem limites a sua sexualidade.

 

Fonte: Pensador

Foto: Google

Tecendo a manhã - João Cabral de Melo Neto

 







Tecendo a manhã - João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto  

Fonte: Pensador

Foto: Google

 

3.19.2026

Arthur Schopenhauer: “O homem é o único animal que causa dor aos outros sem outro propósito senão o de fazê-lo.”

 

Arthur Schopenhauer: “O homem é o único animal que causa dor aos outros sem outro propósito senão o de fazê-lo.”

Por Gessika Julia   Arthur Schopenhauer analisa o pessimismo filosófico e a insaciável vontade humana

Imagine acordar em um dia comum, cumprir todas as tarefas, alcançar o que você queria e, ainda assim, sentir um vazio difícil de explicar. Foi diante desse tipo de inquietação que Arthur Schopenhauer, nascido em 1788 em Danzig e atuante sobretudo na Alemanha, construiu uma das visões mais marcantes do chamado pessimismo filosófico. Sua reflexão, influenciada por contatos com o budismo e o hinduísmo em uma época em que quase ninguém no Ocidente falava disso, tenta compreender por que desejamos tanto, sofremos tanto e descansamos tão pouco.

O que é o pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer?

Quando se fala em pessimismo filosófico em Schopenhauer, não é apenas alguém que “vê tudo pelo lado ruim”. É uma tentativa de encarar com honestidade as dificuldades da vida, sem maquiar a dor. Para ele, viver significa entrar em um ciclo de desejos que nunca se saciam por completo, o que traz tédio, frustração e angústia entre uma conquista e outra.

Essa visão está ligada à ideia de que o mundo é, em sua raiz, vontade. Não uma vontade consciente e bem planejada, mas uma energia primordial, irracional e insaciável. Ela atravessa tudo, das forças da natureza às escolhas humanas, mantendo cada ser em inquietação constante, algo que inspirou pensadores como Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Thomas Mann, além de influenciar discussões atuais em psicologia e estudos sobre a mente.

Ao observar a natureza humana, Schopenhauer conclui que o egoísmo é predominante. Como funciona a noção de vontade cega em Schopenhauer?

A chamada vontade cega é o coração do pensamento do filósofo. Em vez de um universo organizado por um plano moral ou racional, Schopenhauer enxerga um fundo sem propósito claro. A vontade age sem direção consciente, aparece em instintos, ambições e impulsos que surgem sem cessar, muitas vezes nos empurrando para conflitos desnecessários.

Essa força ajuda a explicar por que nos envolvemos em disputas, competições e rivalidades que parecem não ter fim. Procuramos satisfação, mas, quando ela finalmente chega, dura pouco e logo dá lugar a novos vazios. Assim, o sofrimento não é um acidente isolado, mas algo estrutural na existência humana, que atravessa gerações e contextos sociais, aproximando a análise de Schopenhauer de certas leituras contemporâneas sobre consumismo e exaustão emocional.

Quando se fala em pessimismo filosófico em Schopenhauer, não é apenas alguém que “vê tudo pelo lado ruim”. Por que Arthur Schopenhauer via o ser humano como egoísta por natureza?

Ao observar a natureza humana, Schopenhauer conclui que o egoísmo é predominante. Em geral, colocamos nossos interesses em primeiro lugar, mesmo quando sabemos que isso pode machucar alguém. A vontade quer se afirmar o tempo todo, muitas vezes usando o outro apenas como meio para os próprios objetivos.

Ele chama atenção para situações em que o ser humano provoca dor de forma calculada. Enquanto muitos animais atacam para sobreviver, nossa agressividade aparece em humilhações, violências simbólicas, perseguições, guerras e cancelamentos públicos movidos por orgulho, inveja e desejo de vingança, o que revela uma crueldade consciente e planejada. Essa leitura antecipa, de certo modo, debates que mais tarde seriam aprofundados por Freud ao tratar de pulsões destrutivas e conflitos internos.

Qual é o papel da compaixão e da arte no pensamento de Schopenhauer?

Apesar do pessimismo filosófico, Schopenhauer não abandona a ideia de que existem brechas de alívio e cuidado. Para ele, a compaixão é uma chave importante, porque faz a pessoa perceber que o outro sente medo, dor e insegurança da mesma forma. A partir dessa consciência, surge uma moral prática, em que se escolhe, sempre que possível, diminuir o sofrimento, e não aumentá-lo. 

Outro caminho é a experiência estética, especialmente por meio da música e das artes em geral. A arte funciona como uma pausa temporária no turbilhão de desejos, oferecendo um descanso da pressão diária. Nessa perspectiva, alguns pontos ganham destaque:

A compaixão é a base de uma moral que busca reduzir o sofrimento de todos. A arte oferece um respiro momentâneo das preocupações e ansiedades cotidianas.

A música expressa de modo direto o movimento da vontade, aproximando e, ao mesmo tempo, afastando o ouvinte dela.

Ao combinar uma crítica dura à realidade com a indicação de pequenos refúgios, Arthur Schopenhauer continua atual em 2026. Sua filosofia ajuda a entender a violência, o egoísmo e a dor que vemos nas notícias e nas redes, mas também lembra que empatia e experiência estética podem, ainda que parcialmente, transformar nossa maneira de existir, inspirando discussões éticas e culturais que vão de Nietzsche à psicologia social contemporânea.

 

Fonte: Géssica Júlia

Foto: – Créditos: depositphotos.com / iku4

3.18.2026

Crônica: “O mar que cabe na palma da mão” - Gustavo Velôso (*)

 


Cultura | Literatura

Por: *Gustavo Velôso

Crônica: “O mar que cabe na palma da mão”

Há cidades que a gente visita. Outras, a gente carrega.

Buerarema — para quem conhece — não é apenas um ponto no mapa do sul da Bahia. É dessas terras que ficam guardadas na memória como se fossem coisa viva, respirando dentro da gente. E, curiosamente, quanto mais o tempo passa, mais elas crescem.

Outro dia, percorrendo as páginas de “Com o mar entre os dedos”, que se insere no gênero das crônicas, reunindo textos que transitam entre memória, cotidiano e reflexão publicado em 2016 pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), da autoria intelectual de Antônio Lopes, me dei conta de que o autor não escreve apenas crônicas. Ele faz outra coisa: ele devolve lugares.

Devolve Buerarema com suas ruas, seus tipos humanos, suas histórias miúdas — aquelas que nunca viram manchete, mas que sustentam o mundo.

O livro é isso: um passeio por experiências, lembranças e episódios que parecem simples, mas que carregam uma espécie de verdade silenciosa sobre a vida.

E talvez seja exatamente por isso que funcione.

Porque ninguém vive de grandes acontecimentos o tempo todo. A vida, no fundo, é feita desses instantes quase invisíveis — uma conversa, uma lembrança, um detalhe que só faz sentido para quem viveu.

Antônio Lopes entende isso. E escreve como quem não quer transmitir uma explicação profunda. Deixa que o leitor reconheça, por conta própria, aquilo que já sentiu um dia.

Há, nas páginas, um certo humor, mas também uma melancolia leve — não pesada, não triste — apenas aquela sensação de que tudo passa. E passa rápido.

Talvez por isso o título seja tão preciso.

O mar, quando escorre entre os dedos, não se deixa prender. É bonito justamente por isso. É presença e ausência ao mesmo tempo. É o instante que não se repete.

Assim são as cidades da memória.

Assim são as pessoas.

Assim é a vida.

E talvez seja esse o maior mérito do livro: lembrar, sem alarde, que aquilo que parece pequeno — uma rua, uma história, um dia comum — é, no fim das contas, o que realmente fica.

Ou melhor: o que insiste em não ir embora.

(*) Gustavo Velôso é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) ocupando a Cadeira de nº 15 que tem como Patrono José Haroldo Castro Vieira. Autor intelectual da Coleção Raízes Grapiúnas Selo FERRADAS com onze volumes.

Em: 18/03/2026

 

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