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1.06.2026

DEIXA-ME TE AMAR / O VELHO E O NOVO - Luís Pedro











DEIXA-ME TE AMAR

Deixa-me te amar

Com o coração acelerado

Com aquele amor alucinado

Com a paixão incontrolável


Deixa-me te seduzir

Te levar além do que poderia ser

Quero te mostrar outro universo

Além do simples prazer


Deixa-me te levar

Para uma caminhada de luz, sem fim

Deixa-me te conduzir

Como um maestro numa sinfonia, enfim


Deixa-me te mostrar

Que nem tudo são espinhos

Pode acreditar em mim

No perfume da rosa nos ventos finos


Deixa-me te querer

Fazer de você minha, para sempre

Te conquistar eternamente

Faze-la uma mulher diferente


Deixa-me te dominar

Mostrar as peças do tabuleiro

Onde a rainha domina

E o rei, vira seu eterno protetor guerreiro


Deixa-me te falar

Na beleza do seu olhar

Se esconde um mundo inteiro

Um arco íris verdadeiro

De cores intensas e vivas

de um brilho sem devaneio


deixa eu te contar

faz de conta que sou o primeiro

a te mostrar outro mundo, sem pesadelo

com aquele que sempre sonhou

mas nunca acreditou


Ou talvez, até tenha acreditado

mas não viveu o desejado

agora, comigo ao seu lado

iremos viver o extraordinário


Falo para ela mesmo

que naquela beleza, quero-me fixar

o tempo inteiro, todo instante

todo segundo, a cada momento estar

Autoria:  Luís Pedro

Foto: Produção


O VELHO E O NOVO

As vezes achamos que a vida é curta

Que os momentos são precisos

Que tudo é belo

Sempre com um sorriso

 

Porém, precisamos aprender

Nem tudo é, como parece ser

As coisas podem não parecer

Mas sempre, a cada segundo,

Estamos a envelhecer

 

As coisas boas da vida

Podem durar uma eternidade

Ou a metade de um piscar, com felicidade

Ao quem devemos sentir o prazer

De viver com veracidade

 

Uma criança, com sua mentalidade

Com maturidade, mas sem idade

Sofre, vive a trabalhar

Cresce, aprende, desenvolve

Coisas que nenhum adulto, vai imaginar

 

Um idoso, à sua idade

Tende a envergar, na verdade

Uma criança transformar, com os anos deformar

Mas sabemos, onde tudo pode nos levar

 

Então não julgo, ou julguemos

Ninguém, ao menos

Saber do presente, ou passado

Daquele que está em pensamentos

De como viver, ao menos

Em um mundo, onde se subtrai

Os ruins julgamentos.

 

Adulto, criança, adolescente

Todos podem ser inocentes

Todos possuem uma vida,

sem precedentes

 

Quero que saibam,

e tenham conhecimento

Que todos podem sofrer,

sem o mundo saber

Ou ser feliz, e comemorar,

com o mundo a julgar

 

Mas todos possuem uma vida

De batalhas, de lida

E ninguém está ausente

Das pancadas da vida


Autoria:  Luís Pedro

Foto: Produção


 

 

 

Geografia da Indignação - Rafael Gama

 









Geografia da Indignação

Não é nova a mão que aponta mísseis

para o sul global.

Ela aprendeu cedo

a medir a terra com sangue,

a chamar espólio de ajuda,

a vestir o saque

com a farda da liberdade.

 

Do norte, a palavra democracia

chega oleosa,

escorre da boca cheia de petróleo

e cai como ordem,

nunca como escuta.

 

Há futuros lançados do céu,

mas eles nunca pousam

as casas desabam.

 

Este sul não é quintal.

Não nasceu para ensaio

nem para tutela.

A América Latina carrega relógios próprios:

tropeça, retorna, insiste

 

aprende errando com os próprios pés,

fora dos mapas desenhados à distância.

 

Mas também há muros por dentro.

Palácios que fecham as janelas

e chamam eco de povo.

A Venezuela sangra em silêncio doméstico:

um poder que se olha demais

até confundir espelho com multidão

permanência com destino.

 

Entre a mão que aperta de fora

e a mão que retém por dentro,

o corpo é sempre o mesmo:

o que espera o pão,

o que guarda memórias gastas,

o que aprende cedo

que a pátria, quando tem dono,

não alimenta.

 

Galeano nos deixou o mapa das feridas:

veias abertas

que atravessam a América Latina

e seguem pulsando.

Hoje, dois punhos comprimem o mesmo sangue,

sem ouvir o grito que produzem.

 

Não queremos fardas que prometem salvação

nem ternos que administram o medo.

Queremos o gesto simples e radical:

povos escolhendo caminhos,

governos sabendo partir,

o poder aceitando limite.

 

A vida comum não cabe em discursos.

Ela anda na rua, bate panela vazia,

protege a palavra

antes que a confisquem.

 

Nossa indignação não se ajoelha ao poder.

Ela permanece de pé

onde a história ainda pode

mudar de rumo.

Rafael Gama

Janeiro de 2026


 Att.:

Autoria: Rafael Gama
Foto: Google

Animais e a Peste - Monteiro Lobato

 Animais e a Peste

    Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
    - Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
    - Qual? – perguntou o leão.
    - O mais carregado de crimes.
    O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
    - Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.
    A raposa adiantou-se e disse:
    - Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão. Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
    Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
    E o mesmo aconteceu com todas as outras feras. Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
    - A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
    Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
    - Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
    Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimente eleito para o sacrifício.

Moral da Estória:
Aos poderosos, tudo se desculpa…  Aos miseráveis, nada se perdoa.


Fonte: Pensador

Foto: Google


Chapéu de Machado de Assis - Resumo

 

Chapéu

    Escrita em 1883, e lançada na Gazeta de Notícias, a história reflete sobre as transformações sociais que estavam em curso na segunda metade do século XIX e, mais especificamente, no papel da mulher nesse novo mundo que surgia. A protagonista é Mariana, uma jovem esposa que começa a implicar com o chapéu do marido e pede que ele o troque.

    Quando o seu apelo é ridicularizado e recebido com desdém, a moça é levada a repensar o relacionamento e até o modo como vive dedicada ao espaço doméstico. Estas questões se intensificam quando conhece Sofia, figura que representa as mulheres à frente do seu tempo, que estavam trilhando caminhos de independência.

    A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humilhação subsistia. Mariana não chorou, não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente, não achava justificação para tais excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou à janela meio aberta, viu ainda o marido, na rua, à espera do bonde, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo chapéu na cabeça. 

    Mariana sentiu-se tomada de ódio contra essa peça ridícula; não compreendia como pudera suportá-la por tantos anos. E relembrava os anos, pensava na docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso daquela manhã.


Autoria: Machado de Assis

Fonte: Pensador

Imagem: Google

1.05.2026

Aninha e Suas Pedras - Cora Coralina

 


Aninha e Suas Pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Um dos poemas mais conhecidos de Cora é Aninha e Suas Pedras. Nele vemos um eu-lírico disposto a dar conselhos ao leitor, criando com a audiência um espaço de intimidade e partilha.

A linguagem informal e coloquial pode ser percebida no tom de oralidade da escrita. Os verbos no imperativo sugerem quase uma ordem (recria-remove-recomeça-faz), sublinhando a importância daquilo que se diz e a necessidade de se seguir em frente.

O poema aborda com frontalidade a questão da resiliência e a urgência de tentar outra vez quando o plano não deu certo, mesmo que pareça não haver mais forças.

 

Conclusões de Aninha

Estavam ali parados. Marido e mulher.

Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça

tímida, humilde, sofrida.

Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,

e tudo que tinha dentro.

Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar

novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,

entregou sem palavra.

A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,

se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar

E não abriu a bolsa.

Qual dos dois ajudou mais?

 

O trecho acima é a parte inicial de Conclusões de Aninha e narra uma pequena história cotidiana, tão frequente nas cidades, quando uma pessoa humilde interrompe o caminho de um casal rumo ao carro e pede ajuda depois de explicar a sua situação pessoal.

Com uma linguagem coloquial e marcada pela oralidade, o sujeito poético nos apresenta a cena e a forma como cada um dos personagens se comportou.

O marido ofereceu ajuda financeira, mas não entrou em comunhão com a pessoa que pedia, nem sequer trocou uma palavra. A mulher, por sua vez, não ofereceu nada, mas soube ser ouvido e empatizou com aquela que estava em situação vulnerável. O trecho se encerra com uma pergunta sem resposta, que faz com que o leitor reflita sobre o comportamento dos dois personagens anônimos.

 

Fonte: Pensador

Foto: Google

1.03.2026

Poemas Infantis de Vinicius de Moraes

 


Poemas Infantis de Vinicius de Moraes. Cerca de 4 poemas Infantis de Vinicius de Moraes


O ELEFANTINHO

Onde vais, elefantinho

Correndo pelo caminho

Assim tão desconsolado?

Andas perdido, bichinho

Espetaste o pé no espinho

Que sentes, pobre coitado?

— Estou com um medo danado

Encontrei um passarinho

!Vinicius de Moraes


O Peru

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro Peru!

O Peru foi a passeio

Pensando que era pavão

Tico-tico riu-se tanto

Que morreu de congestão.

O Peru dança de roda

Numa roda de carvão

Quando acaba fica tonto

De quase cair no chão.

 

O Peru se viu um dia

Nas águas do ribeirão

Foi-se olhando foi dizendo

Que beleza de pavão!

Glu! Glu! Glu!

Abram alas pro Peru!

Vinicius de Moraes

:

A CASA

Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia

Entrar nela não

Porque na casa

Não tinha chão

Ninguém podia

Dormir na rede

Porque a casa

Não tinha parede

Ninguém podia

Fazer pipi

Porque penico

Não tinha ali

Mas era feita

Com muito esmero

Na Rua dos Bobos

Número Zero.

Vinicius de Moraes

 

AS BORBOLETAS

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas.

Borboletas brancas

São alegres e francas.

Borboletas azuis

Gostam muito de luz.

As amarelinhas

São tão bonitinhas!

E as pretas, então...

Vinícius de Moraes


Fonte: Pensador

Foto: Google

 

 

Cartas de amor são ridículas - Álvaro de Campos

 

Cartas de amor são ridículas

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, faz uma brincadeira com as cartas de amor e com os sentimentos de quem já esteve apaixonado.


Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas. As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas. Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas. A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas),

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas).

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

 

Fonte: Pensador

Foto: Google

 

1.02.2026

Suje-se Gordo - Machado de Assis

 

Conto de Machado de Assis

Suje-se Gordo!

1906 Parte de Relíquias de Casa Velha (1906)

O conto foi publicado pela primeira vez nesse volume e, segundo J. Galante de Sousa, é provável que tenha sido composto antes de março de 1905, data da assinatura do contrato de edição do livro, com H. Garnier.

Uma noite, há muitos anos, passeava eu com um amigo no terraço do Teatro de São Pedro de Alcântara. Era entre o segundo e o terceiro ato da peça A Sentença ou o Tribunal do Júri. Só me ficou o título, e foi justamente o título que nos levou a falar da instituição e de um fato que nunca mais me esqueceu.

- Fui sempre contrário ao júri - disse-me aquele amigo -, não pela instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condenar alguém, e por aquele preceito do Evangelho: "Não queirais julgar para que não sejais julgados". Não obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, princípio da ladeira da Conceição.

Tal era o meu escrúpulo que, salvo dous, absolvi todos os réus. Com efeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos eram muito mal feitos. O primeiro réu que condenei era um moço limpo, acusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o fato, nem podia fazê-lo, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do crime. Alguém, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem ênfase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal palidez que metia pena; o promotor público achou nessa mesma cor do gesto a confissão do crime. Ao contrário, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a lástima da inocência caluniada.

Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia ódio, e não era. A defesa, além do talento do advogado, tinha a circunstância de ser a estreia dele na tribuna. Parentes, colegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi admirável, e teria salvo o réu, se ele pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous anos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do conselho, que era eu.

Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá se passou. Contarei depressa; o terceiro ato não tarda.

Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguém convencido do delito e do delinquente. O processo foi examinado, os quesitos, lidos, e as respostas, dadas (onze votos contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos assegurassem a condenação, ficou satisfeito, disse que seria um ato de fraqueza, ou cousa pior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos jurados - certamente o que votara pela negativa - proferiu algumas palavras de defesa do moço. O ruivo - chamava-se Lopes - replicou com aborrecimento:

- Como, senhor? Mas o crime do réu está mais que provado.

- Deixemos de debate - disse eu, e todos concordaram comigo.

- Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réu nega, mas o certo é que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!

"Suje-se gordo!" Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a frase, ao contrário; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati à porta, abriram-nos, fui à mesa do juiz, dei as respostas do conselho e o réu saiu condenado. O advogado apelou; se a sentença foi confirmada ou a apelação, aceita, não sei; perdi o negócio de vista.

Quando saí do tribunal, vim pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entendê-la. "Suje-se gordo!" era como se dissesse que o condenado era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei esta explicação na esquina da rua de São Pedro; vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos nomes, dei com o nome todo dele; não valia a pena procurá-lo, nem me ficou de cor. Assim são as páginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e acrescentava que as páginas vão passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não me lembra a forma dos versos.

Em prosa disse-me ele, muito tempo depois, que eu não devia faltar ao júri, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o preceito evangélico; ele teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguém que se prezasse podia negar ao seu país. Fui e julguei três processos.

Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornais deram sem grande minúcia, e aliás eu lia pouco as notícias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réus. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu colega daquele julgamento de anos antes. Não poderia reconhecê-lo logo por estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.

- Como se chama? - perguntou o presidente.

- Antônio do Carmo Ribeiro Lopes.

Já me não lembravam os três primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as reminiscências; não me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunstâncias me impediram de acompanhar atentamente o interrogatório, e muitas cousas me escaparam. Quando me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.

Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de réis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orquestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou muito, o inquérito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma série de circunstâncias agravantes; por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Também ele ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o teto e as pessoas que o iam julgar; entre elas eu. Quando olhou para mim não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.

Todos esses gestos do homem serviram à acusação e à defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos contrários do outro acusado. O promotor achou neles a revelação clara do cinismo, o advogado mostrou que só a inocência e a certeza da absolvição podiam trazer aquela paz de espírito.

Enquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este homem que votara a condenação dele, e naturalmente repeti comigo o texto evangélico: "Não queirais julgar, para que não sejais julgados". Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasião de raiva, matar alguém ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora era agora julgado também.

Ao pé da palavra bíblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: "Suje-se gordo!" Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até àquelas palavras: "Suje-se gordo!" Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação: "Suje-se gordo!" Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!

Ideias e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos à sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, tão certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua. A diferença da votação era tamanha que cheguei a duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora mesmo sinto uns repelões de consciência. Felizmente, se o Lopes não cometeu deveras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta consideração acaba por me consolar do erro, mas os repelões voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguém para não vir a ser julgado. Suje-se gordo! Suje-se magro! Suje-se como lhe parecer! O mais seguro é não julgar ninguém... Acabou a música, vamos para as nossas cadeiras.


Fonte:1906 Parte de Relíquias de Casa Velha (1906)

Foto: Google

Encontro Marcado - Fernando Sabuno

                                                         Encontro Marcado

                                                            Andei.

                                                  Por caminhos difíceis, eu sei.

                                                  Mas olhando o chão sob meus pés,

                                                  vejo a vida correr.

                                                  E, assim, cada passo que der,

                                                  tentarei fazer o melhor que puder.

                                                  Aprendi.

                                                  Não tanto quanto quis,

                                                  mas vi que, conhecendo

                                                  O universo ao meu redor,

                                                  aprendo a me conhecer melhor,

                                                  E assim escutarei o tempo, que ensinará

                                                  A tomar a decisão certa em cada momento.

                                                  E partirei, em busca de muitos ideais.

                                                   Mas sei que hoje

                                                   Se encontram meu passado, futuro 

                                                   e presente.

                                                   Hoje sinto em mim a emoção da despedida.

                                                   Hoje é um ponto de chegada e,

                                                  ao mesmo tempo, ponto de partida.

                                                  Se em horas de encontros

                                                  pode haver tantos desencontros,

                                                  que a hora da separação seja, tão-somente,

                                                   a hora de um verdadeiro,

                                                  profundo e coletivo encontro.

                                                 De tudo ficarão três coisas:

                                                 a certeza de estar sempre começando,

                                                a certeza de que é preciso continuar

                                               e a certeza de ser interrompido antes 

                                               de terminar.

                                               Fazer da queda um passo de dança,

                                               do medo uma escada, do sonho uma ponte,

                                              da procura um encontro.

                                     "Fernando Sabino in "Encontro Marcado"

                                                   Fonte: Pensador

                                                   Foto: Google

 

1.01.2026

Passagem de Ano - Carlos Drummond de Andrade


Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,

a que se deu o nome de ano,

foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança

fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

 

Doze meses dão para qualquer ser humano

se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez

com outro número e outra vontade de acreditar

que daqui pra adiante vai ser diferente


Para você,

desejo o sonho realizado.

O amor esperado.

A esperança renovada.


Para você,

desejo todas as cores desta vida.

Todas as alegrias que puder sorrir.

Todas as músicas que puder emocionar.


Para você neste novo ano,

desejo que os amigos sejam mais cúmplices,

que sua família esteja mais unida,

que sua vida seja mais bem vivida.


Gostaria de lhe

desejar tantas coisas

mas nada seria suficiente…

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo a sua felicidade. Autor desconhecido

Nota: O texto inclui um poema de Roberto Pompeu de Toledo (primeira parte) e um trecho de Vilma Galvão. A autoria do texto tem vindo a ser erroneamente atribuída a Carlos Drummond de Andrade (*)


Fonte: O Pensador

Autoria: Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Google

(*) Preferimos dar crédito a Drummond.

 

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