Conto
de Machado de Assis
Suje-se
Gordo!
1906
Parte de Relíquias de Casa Velha (1906)
O
conto foi publicado pela primeira vez nesse volume e, segundo J. Galante de
Sousa, é provável que tenha sido composto antes de março de 1905, data da
assinatura do contrato de edição do livro, com H. Garnier.
Uma
noite, há muitos anos, passeava eu com um amigo no terraço do Teatro de São
Pedro de Alcântara. Era entre o segundo e o terceiro ato da peça A Sentença ou
o Tribunal do Júri. Só me ficou o título, e foi justamente o título que nos
levou a falar da instituição e de um fato que nunca mais me esqueceu.
-
Fui sempre contrário ao júri - disse-me aquele amigo -, não pela instituição em
si, que é liberal, mas porque me repugna condenar alguém, e por aquele preceito
do Evangelho: "Não queirais julgar para que não sejais julgados". Não
obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da rua
dos Ourives, princípio da ladeira da Conceição.
Tal
era o meu escrúpulo que, salvo dous, absolvi todos os réus. Com efeito, os
crimes não me pareceram provados; um ou dous processos eram muito mal feitos. O
primeiro réu que condenei era um moço limpo, acusado de haver furtado certa
quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o
fato, nem podia fazê-lo, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração
do crime. Alguém, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma
necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao criminoso
verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem ênfase, triste, a palavra surda,
os olhos mortos, com tal palidez que metia pena; o promotor público achou nessa
mesma cor do gesto a confissão do crime. Ao contrário, o defensor mostrou que o
abatimento e a palidez significavam a lástima da inocência caluniada.
Poucas
vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto,
mas forte, indignado, com um tom que parecia ódio, e não era. A defesa, além do
talento do advogado, tinha a circunstância de ser a estreia dele na tribuna.
Parentes, colegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não
perderam na espera. O discurso foi admirável, e teria salvo o réu, se ele
pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu
dous anos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando
vejo morrer um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas
vamos ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O
presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram
entregues ao presidente do conselho, que era eu.
Não
digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá se passou.
Contarei depressa; o terceiro ato não tarda.
Um
dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguém
convencido do delito e do delinquente. O processo foi examinado, os quesitos,
lidos, e as respostas, dadas (onze votos contra um); só o jurado ruivo estava
inquieto. No fim, como os votos assegurassem a condenação, ficou satisfeito,
disse que seria um ato de fraqueza, ou cousa pior, a absolvição que lhe
déssemos. Um dos jurados - certamente o que votara pela negativa - proferiu
algumas palavras de defesa do moço. O ruivo - chamava-se Lopes - replicou com
aborrecimento:
-
Como, senhor? Mas o crime do réu está mais que provado.
-
Deixemos de debate - disse eu, e todos concordaram comigo.
-
Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime está
mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réu nega, mas o certo é que ele
cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis!
Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!
"Suje-se
gordo!" Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a
frase, ao contrário; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que
fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati à porta, abriram-nos, fui à mesa
do juiz, dei as respostas do conselho e o réu saiu condenado. O advogado
apelou; se a sentença foi confirmada ou a apelação, aceita, não sei; perdi o
negócio de vista.
Quando
saí do tribunal, vim pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entendê-la.
"Suje-se gordo!" era como se dissesse que o condenado era mais que
ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei esta explicação na
esquina da rua de São Pedro; vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar
um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a mão; nem sombra de
Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos nomes, dei com o nome todo
dele; não valia a pena procurá-lo, nem me ficou de cor. Assim são as páginas da
vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e acrescentava que as páginas
vão passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não
me lembra a forma dos versos.
Em
prosa disse-me ele, muito tempo depois, que eu não devia faltar ao júri, para o
qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o
preceito evangélico; ele teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço
gratuito, que ninguém que se prezasse podia negar ao seu país. Fui e julguei três
processos.
Um
destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um
desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornais deram sem grande
minúcia, e aliás eu lia pouco as notícias de crimes. O acusado apareceu e foi
sentar-se no famoso banco dos réus. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e
estremeci; pareceu-me ver o meu colega daquele julgamento de anos antes. Não
poderia reconhecê-lo logo por estar agora magro, mas era a mesma cor dos
cabelos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.
-
Como se chama? - perguntou o presidente.
-
Antônio do Carmo Ribeiro Lopes.
Já
me não lembravam os três primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros
sinais vieram confirmando as reminiscências; não me tardou reconhecer a pessoa
exata daquele dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas
circunstâncias me impediram de acompanhar atentamente o interrogatório, e
muitas cousas me escaparam. Quando me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no
fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de
maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem
ansiedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.
Seguiu-se
a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de
réis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde;
a orquestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a
leitura dos autos me impressionou muito, o inquérito, os documentos, a
tentativa de fuga do caixa e uma série de circunstâncias agravantes; por fim o
depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Também
ele ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o teto e as
pessoas que o iam julgar; entre elas eu. Quando olhou para mim não me
reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.
Todos
esses gestos do homem serviram à acusação e à defesa, tal como serviram, tempos
antes, os gestos contrários do outro acusado. O promotor achou neles a
revelação clara do cinismo, o advogado mostrou que só a inocência e a certeza
da absolvição podiam trazer aquela paz de espírito.
Enquanto
os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo
banco do outro, este homem que votara a condenação dele, e naturalmente repeti
comigo o texto evangélico: "Não queirais julgar, para que não sejais
julgados". Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu
mesmo viesse a cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasião de
raiva, matar alguém ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora
era agora julgado também.
Ao
pé da palavra bíblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: "Suje-se
gordo!" Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo
o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até àquelas
palavras: "Suje-se gordo!" Vi que não era um ladrão reles, um ladrão
de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação: "Suje-se
gordo!" Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela
espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas.
Quer sujar-se? Suje-se gordo!
Ideias
e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos
debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e
recolhemo-nos à sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei
afirmativamente, tão certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia,
entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas
parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dous
jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi
lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua. A diferença da votação era tamanha
que cheguei a duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora mesmo
sinto uns repelões de consciência. Felizmente, se o Lopes não cometeu deveras o
crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta consideração acaba por me
consolar do erro, mas os repelões voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguém
para não vir a ser julgado. Suje-se gordo! Suje-se magro! Suje-se como lhe
parecer! O mais seguro é não julgar ninguém... Acabou a música, vamos para as
nossas cadeiras.
Fonte:1906 Parte de Relíquias de Casa Velha (1906)
Foto: Google