Na
grande cidade, plana, montanhosa, rica, miserável, cheia de hiatos, horrores e
belezas, o viajante da província, chegado há pouco num vaporzinho ronceiro,
coleciona surpresas e contradições. O morro pitoresco visto de longe, verde e
pedregoso, coberto de tábua e lata, parece baixar-se de repente, alargar-se na
planície. É uma elevação quase imperceptível, sem verdura nem pedra, mas lá
fervilha uma sociedade como a das grandes alturas, das ladeiras íngremes e
ziguezagueantes. A favela desceu; torcem-se becos na areia, labirinto
complicadíssimo. As árvores do Jardim Botânico erguem-se na vizinhança. As
casas próximas cresceram e tornaram-se palacetes, o arranha-céu baixa a cabeça
e espia, constrangido, a vermina que lhe formiga os pés. Rolam ônibus e meia
dúzia de passos. E ali, na tábua dura e na lata enferrujada, Aurora se
contempla num pedaço de espelho, seu Oscar arranca tristezas do pinho, os
meninos de seu Oscar pegam vasilhas e vão mendigar água nos corredores.
O
viajante estira o pescoço, desvia-se do jornal, larga Churchill e Hitler, faz
reflexões ponderosas, receita mentalmente remédios enérgicos e paliativos, logo
esquecidos. Saiu do hotel pela manhã e, atordoado por estranhos rumores, gritos
de choferes e buzinar de automóveis, incorporou-se na multidão e foi estudar
topografia. Como na terra dele se diz que todo o caminho dá na venda, achou
desnecessário munir-se de carta: entrou num veículo e rodou para o sul.
Apeou-se
em Copacabana, onde viu numerosas criaturas de roupas escassas banhando-se ou
lagarteando, estateladas. Afastou-se, repeliu severamente aquela nudez e aquela
mistura, foi descansar nos bancos da praça, ver as palmeiras, o coreto. Voltou
a examinar os banhistas, dobrou esquinas, circulou na praia e nas vias
interiores, admirou a altura dos prédios, o tamanho dos elevadores e os
cartazes dos cinemas. Desnorteado, meteu-se num bonde e distraiu-se algum tempo
olhando as placas das ruas compridas. Saltou no fim de Ipanema, tomou outro
bonde e, atraído por uma espaventosa manchete, pôs os óculos e começou a ler
disfarçadamente, com o rabo do olho, o jornal dum companheiro de banco.
Entreteve-se atentando na favela.
Agora
repousa a vista numa longa fileira de bangalôs tranqüilos, decentes, meio
ocultos em vegetais educados nos limites impostos pela tesoura do jardineiro,
plantas desambiciosas, chinfrins e burocráticas. Algumas crianças patinam
moderadamente na calçada; com certeza mamãe, lá dentro, manipula os vestidos
das pequenas; papai chateia-se na repartição. Ordem. Parece que as coisas vão
direito. Não há motivo para desgosto. O nosso passageiro esfrega as mãos. Por
que esse barulho todo na Europa, essa fúria, essa doidice? De fato há pessoas
exigentes, milhões de pessoas exigentes e mal intencionadas.
Rua
Voluntários da Pátria, bonito nome. Não morava aqui o Oswaldo Cruz? É, morava.
Que bagunça, pai do céu! Tempo esquisito! Berros no Congresso, artigos
medonhos, fuzuê, gente morrendo por causa da vacina. Hoje não há disso, graças
a Deus. A imprensa é razoável, somos todos razoáveis, e os discursos, no rádio,
perderam a eficácia.
Parada
no Pavilhão Mourisco, cinco minutos junto à fonte vazia e suja. Nova mudança de
veículo.
Bem.
Isto por aqui deve ser Botafogo, não? Leituras antigas auxiliam o provinciano.
Antigas e recentes. Botafogo, sem dúvida. Que é da placa? Vive ali uma das
personagens do sr. Gilberto Amado. Onde ficarão as palmeiras? O homem conhece a
boa literatura. Instituto Juruena. Naquele jardim o sujeito do pára-quedas se
esborrachou. Caíram na vizinhança pedaços do aeroplano onde viajava o ministro
de Cuba. Escangalharam-se dois aviões e uns dez indivíduos entregaram a alma a
Deus, mas só nos lembramos do dr. Catá. O resto sumiu-se, como os
pára-quedistas metralhados e os marinheiros que afundam.
Marquês
de Abrantes. Quem terá sido o marquês de Abrantes? O passageiro ignora muitos
patronos das vias públicas, o que não o inibe de respeitá-los.
Numa
praça miúda, com folhas de papel na mão, José de Alencar está sentado em
posição ridícula. Muito grande, José de Alencar. Necessário melhorar-lhe a
estátua. O Guarani, que poucos leram e todos admiram, há de tornar-se um livro
fundamental, maior que Os Sertões. Falta uma estátua de Euclides da Cunha:
cidadão deste século, ainda não amadureceu convenientemente.
Rua
Machado de Assis. Ah! Esse era enorme e continua a crescer. Superior,
infinitamente superior a Eça de Queirós. Precisamos afirmar isto. Sem
comparação não há grandeza. Só Deus é Deus e Maomé é o seu profeta.
Lá
está o Catete. Sim senhor é ali. Nos arredores, a casa de móveis do judeu,
literatos padecendo no fundo de pensões ordinárias, bodegas de frutas, as
meninas de Rubem Braga, em chinelos, transitando na calçada. Muito democrático.
Pouco
adiante, o relógio da Glória e o combate nos tempos pré-históricos, divulgados
nas estampas que enfeitam peças de fazenda barata, no interior. Estamos
chegando.
O
Passeio Público encolheu-se e pedirá demissão qualquer dia. O Monroe. Para quê?
Chi! Quanto cinema! A Biblioteca Nacional e, defronte, o monumento de Floriano
com diversos atavios, Y-juca-pyrama, O Caramuru e outras habilidades.
O
viajante desce do carro e mergulha no apertão da Avenida, morrinhento,
encharcado de suor. Depois dará uma volta por Engenho de Dentro ou pelo Méier.
Mas isto é província. Por enquanto precisa recolher-se, deitar-se. 25
de maio de 1941
IN:
RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.356-360.
Fonte: Blog um texto por mês
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