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12.13.2025

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira

 

Vou-me embora pra Pasárgada 

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Fonte: Imagem e texto Google

12.12.2025

“O Mito da Caverna” - Platão

 “O Mito da Caverna”, Platão


    A obra “O Mito da Caverna” é uma das principais do filósofo Platão, sendo uma referência quando se trata de seu pensamento e sua visão de mundo. Uma das características mais marcantes de tal texto é a continuidade da inquietação que os assuntos abordados trazem à mente do leitor, e como a abordagem de Platão consegue se fazer presente até os dias atuais.

    O contexto tratado no livro é sobre uma alegoria que questiona o que poderia ser real, visto que os fatos podem ser divergentes, desencadeando, assim, a grande pergunta de “O que é a verdade?”. Platão traz à tona o processo de conhecimento ao descrever um grupo de pessoas presas em uma caverna por toda a sua vida, vendo sempre as mesmas sombras projetadas à sua frente, as quais são geradas por figuras que passam na frente de uma fonte de luz. Como tais prisioneiros nunca viram nada além dessa realidade, tomam essa cena de sombras como a única verdade existente.

    Contudo, certa vez um prisioneiro consegue sair da caverna e, inicialmente, encontra-se cego ao ir de encontro com a luz externa. Aos poucos, conforme sua nova realidade é sentida e tomada pelo seu corpo, o prisioneiro acostuma-se à claridade e começa a enxergar novos fatos, os quais são invisíveis aos olhos dos que continuam presos na caverna. Tomado por um sentimento de partilha do conhecimento, o prisioneiro liberto retorna ao interior da caverna para relatar sua realidade aos antigos companheiros, mas esses encontram-se incrédulos e permanecem na ignorância de achar que apenas a realidade das sombras é a verdadeira.

    Dessa forma, a alegoria de Platão lança luz a várias interpretações, sendo uma delas a da necessidade de o conhecimento ser partilhado e da importância da educação e do ensinamento para uma sociedade mais esclarecida. Além disso, muito usada no Iluminismo, uma das maneiras de ler o conteúdo filosófico sugere que a luz é o saber, o que levaria à verdade.

    Em resumo, “O Mito da Caverna” continua levantando questões sobre a natureza da verdade, da realidade e das diferentes maneiras de enxergar e lidar com os fatos, além da importância da educação e do conhecimento para a formação social.

Esta resenha faz parte da série Autores da Torre, do Projeto de extensão Torre de Babel, da Biblioteca José de Alencar (Faculdade de Letras/UFRJ)

 Projeto de extensão Autores da Torre, Maria Eduarda Guimarães, O Mito da Caverna, Platão, projeto de extensão, resenha, torre de babel


Fonte: Biblioteca J0sé de Alencar

Faculdade de Letras - UFRJ

Imagem: Google

Bichinho de pelúcia - R. Santana

 

Bichinho de pelúcia
R. Santana
I

    No dia 13 (não sei se era uma sexta-feira) de janeiro do ano 2005, o jovem executivo Dalton Bianchini, acordou cedo com uma missão inadiável: comprar um bichinho de pelúcia para presentear sua filha Júlia que fazia 10 anos de idade naquele dia. Uma tarefa simples, ele poderia usar até um dos seus prepostos da sua empresa para comprar um brinquedo no Shopping da primeira esquina, o objeto de desejo de Julia, no dia anterior, na hora de dormir, ela cobrou:
    -Papai, amanhã será o meu aniversário, não esqueça do meu bichinho de pelúcia!
   Levantou-se cedo, antes de sair, foi ao quarto de Júlia, deu-lhe efusivos e carinhosos parabéns, fez um desjejum rápido e saiu. Noutros dias, saía de casa um pouco antes das 9 h, mas naquele dia, tinha que tomar algumas providências internas na sua loja de autopeças, antes de atender os seus clientes.
    Saiu de casa com uma dor no peito inexplicável. Não era uma dor física, mas um crescente mal estar, uma angústia que se manifestou ao longo do dia de trabalho. De quando em quando ouvia a voz de sua mulher, recomendando que chegasse cedo em casa para celebrar o aniversário da filha:
    -Dalton chegue cedo, só iremos cantar os parabéns quando você voltar!
    -Não se preocupe, à tardinha, quando o movimento da loja estiver fraquinho, irei comprar o presente de Júlio e virei direto para casa. – prometeu.

II
    Palavra dada promessa cumprida. Às 17h e 10 min, Dalton tomou as últimas providências de praxe na empresa, pegou o carro e entrou na avenida que levava ao Shopping Mar&Mar, o principal centro comercial varejista de Ilhéus e das cidades circunvizinhas.
    Não foi fácil encontrar um brinquedo de pelúcia que atendesse às exigências de Júlia. Não que faltassem brinquedos, mas pelo excesso deles. Dalton já tinha percorrido algumas lojas que lhes apresentaram uma quantidade variada de bichinhos em beleza e preço. Ele não estava preocupado com o preço, Júlia lhe era especial e o seu dia natalício também, por isto, mandou enrolar um lindo e grande Scoby Doo.
    Ela não queria boneca tão comum em sua idade. Com fixação em desenho animado, Scoby Doo era o seu principal herói virtual, então, pediu que o seu pai o transformasse em pelúcia.
III

    A senhora Bianchini já tinha subido e descido várias vezes as escadas de sua residência. Era um duplex com designe arquitetônico moderno. O prédio ficava numa área com garagem, jardim, piscina e uma quadra esportiva com gangorra, trepa-trepa, balanço, escorregadores e outros brinquedos de recreação.
    
    Às 19:00 horas, o nervosismo da senhora Bianchini era visível. Os convidados e os colegas de Júlia começavam chegar e o seu marido não retornava do trabalho. Já tinha ligado para meio mundo, mas a resposta era a mesma: tinha saído quase no final do dia para comprar um presente pra filha.
IV
    À saída do Shopping, na área de estacionamento, Dalton é arremessado por um automóvel, dirigido por um jovem e imprudente motorista. Um acidente besta, imprevisível, numa área bem sinalizada e a velocidade desenvolvida pelos automóveis, é inferior a 20 km/h, gravidade maior é que no atropelamento uma das pernas teve uma fratura exposta.
    Dalton estirado no chão, agarrado ao bichinho de pelúcia (protegeu-o com o corpo), gritava com dores lancinantes. Tentou levantar, mas debalde, preferiu ficar deitado no asfalto e gritar por socorro.
Constrangia-lhe o ajuntamento de curiosos e a dor tornava-o mais desesperado quando pensava que naquela hora, sua família o esperava para comemorar o aniversário de Júlia.
    A ambulância não tardou chegar ao local do sinistro. Todas as providências de socorro foram tomadas pelo pessoal da administração do shopping e o jovem atropelador também não foi omisso em socorrer-lhe.
V
    -Dr. Armando, chegou nesse instante no pronto-socorro um homem atropelado por um carro, com uma fratura exposta na perna direita, aparentemente, só teve isso – avisou-lhe a enfermeira.

    - Senhorita, eu estou de saída. Hoje é o aniversário de minha filha mais nova e a minha mulher já ligou uma dúzia de vezes. Procure outro!...
    -Doutor, eu já procurei outros cirurgiões da área, ninguém responde, os celulares estão em caixas - postais ou fora de área. Parece-me que todos estão combinados ou falta de sorte desse senhor que está gritando de dor. – argumentou.
    -Peça ao médico clínico, aplicar-lhe umas injeções à base de codeína ou tromadol para conter as dores do paciente até os médicos plantonistas chegarem.– estava irredutível.
    -Doutor, eu ouvi dizer que é um rico empresário, inclusive é conhecido por alguns funcionários daqui. O clínico que me pediu para lhe falar. Desculpe-me doutor, mas se esse homem tiver qualquer problema, vão lhe acusar de omissão. – sentenciou sua secretária.
    -Oficialmente, o computador vai dizer que não estou mais aqui. Há uns 10 minutos que fechei a pauta da minha frequência. Informe ao Dr. Cazuza que não me encontrou. – sugeriu-lhe.
    -Doutor, há um provérbio popular que “a corda quebra no lugar mais fraco”, não vou mentir. – respondeu-lhe.
    -A senhorita está desafiando-me?! – perguntou-lhe nervoso.
    -Não, não, porém, eu não serei culpada se alguma coisa ocorrer. Se chamada para prestar algum esclarecimento, irei dizer que lhe dei o recado do médico clínico. O senhor assuma seus pepinos. Tenho família para sustentar e preciso deste emprego. – ela estava decidida.
    -Tudo bem, vai lá diga ao Dr. Cazuza que tome todas as providências e faça os procedimentos necessários antes de encaminhar o paciente para sala de cirurgia – quando a enfermeira Mônica ia saindo:
    -Não se esqueça de avisar ao anestesista! – estava fulo de raiva.
VI
    Doutor Armando não era má pessoa, era um profissional responsável, humano, todavia, como todo ser humano tinha os seus dias de fraqueza. Naquele dia seria a festa de aniversário da filha mais nova. Demais estava de saco-cheio. Se não tivesse feito o juramento de Hipócrates, não teria atendido os apelos de sua enfermeira, que tudo fosse para o inferno!... Gostava da profissão, mas para manter o padrão social da família e as crescentes despesas educacionais dos filhos em detrimento de uma política de governo de salários achatados na saúde, exigia que o profissional trabalhasse cada vez mais.
    Por outro lado, Dalton Bianchini não tinha problemas financeiros imediatos, mas naquele dia 13, ele acordou com urucubaca. Pense em um dia que tudo sai errado? Pensou? Pois, esse foi o dia de Dalton. Saiu de casa com um mal estar inexplicável, na empresa teve que passar o dia driblando maus clientes e solucionando problemas. Se não fosse o diretor da empresa não teria saído para comprar o presente de Júlia, pareceu-lhe que todos os problemas da empresa tinham despencado de uma vez em sua mesa de trabalho. No final da tarde, deixou que o tempo e o destino se incumbissem da solução dos problemas e comunicou à secretária:
    -Senhorita Sílvia, não estou mais para ninguém. Algum problema agende-o para amanhã. Tenho que ir comprar     o presente de Júlia. Eu e Mary não lhe dispensamos à noite.
   Para cumprir os maus presságios, surge um jovem inconsequente, que entra num estacionamento de um shopping como se estivesse numa pista de mão única e fosse o dono do asfalto que estivesse à sua frente, deixando a preocupação e os riscos com o motorista que viesse à sua traseira.
VII

       -Alô, é dona Mary?
      -Sim, o quê deseja?
     -Dona Mary, aqui é do hospital Santo Antônio... – foi abruptamente interrompida.
    -Hospital? Meu Deus... O quê houve com Dalton!? – estava desesperada.
    -Calma senhora, foi um acidente...
    -Acidente?
    -Sim, mas tenha calma, tudo está sob controle. O senhor Dalton foi atropelado por um carro e fraturou a perna direita... – foi interrompida mais uma vez.
    -A senhorita me pede calma e meu marido aí hospitalizado!!! – gritou.
    -Por favor, senhora, nada de pânico. Seu marido está lúcido e pediu-me para que não estragasse o aniversário da garota com sinistras notícias, logo, ele estará em casa. – tentou tranquilizá-la.
    Mary era impulsiva, não fez alarde, mas dispensou os convidados, informando-lhes os fatos e rumou-se para o hospital...
VIII

    Um dia depois. Dalton estirado numa cama de hospital com a perna direita parafusada, enfaixada, mantinha certa fleuma, parecia menos desesperado que a mulher e os filhos. O pós-operatório era traumático, ainda sentia dores e o mal estar dos aparelhos, mas procurou dissimular com a entrada de Júlia no apartamento:
    -Vem cá querida! - abriu os braços. Júlia choramingando, abraçou-se ao pai calorosa.
   -Calma querida, o pai está inteiro (riu e apontou os aparelhos), mesmo com essa perna quebrada. Quero lhe dar os parabéns, mesmo extemporaneamente... – brincou. Clamou à enfermeira:
    -Senhorita, que é de o nosso bichinho? – Mônica saiu e voltou logo depois com um objeto enrolado de papel presente e amarrado de fitas e entregou-o ao senhor Dalton.
    -Pensa que me esqueci da minha princesa?... – entregou-lhe o pacote. Júlia abriu o embrulho, extasiada gritou:
    -Meu bichinho de pelúcia, meu bichinho de pelúcia, meu bichinho de pelúcia!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Imagem: Google

12.11.2025

Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector

 Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector

“Gostaria de morrer em nome de alguma coisa, mas não creio que mereça tanto.”

Fernando Sabino e Clarice Lispector (foto: ...)

Esta entrevista foi feita antes de Fernando Sabino declarar que a literatura morreu.

Clarice Lispector – Fernando, por que é que você escreve? Eu não sei por que eu escrevo, de modo que o que você disser talvez sirva para mim.

Fernando Sabino – Há muito tempo que não escrevo. A última vez foi ali por volta de 1956, 1957. Escrevia por necessidade de me exprimir. Desde então tenho me utilizado da palavra escrita como atividade profissional, por necessidade de ganhar a vida. Mas não chamo a isso de escrever, como ato de criação artística.

Clarice Lispector – Como é que começa em você a criação, por uma palavra, uma ideia? É sempre deliberado o seu ato criador? Ou você de repente se vê escrevendo? Comigo é uma mistura. É claro que tenho o ato deliberador, mas precedido por uma coisa qualquer que não é de modo algum deliberada.
Fernando Sabino – A criação nunca começava por uma palavra ou por uma ideia. Era uma espécie de sentimento em mim que partia em busca dessa palavra ou dessa ideia. Qualquer palavra, qualquer ideia. Hoje o sentimento ainda existe, mas tem-se dispensado de se exprimir através de palavras ou ideias – de certa maneira me contento com o próprio sentimento, que procura fora de mim alguma forma de expressão já existente com que se identificar. A música, por exemplo – especialmente a de Thelonious Monk.

Clarice Lispector – Há quanto tempo você escreve crônicas? Falta-lhe assunto às vezes? A mim, no Jornal do Brasil, por enquanto ainda não.
Fernando Sabino – Escrevo crônica desde 1947. Sempre falta assunto – é penoso ter de inventar. Procuro suprir o jornal ou a revista que me pagaria com a matéria escrita que corresponda ao que esperam de mim, ou seja, agradar o leitor. Aceito alegremente a tarefa, como um móvel.

Clarice Lispector – Que é que você acha do protesto dos jovens no mundo inteiro? Que estão eles querendo, na sua opinião?
Fernando Sabino – Na minha opinião estão querendo o mesmo que eu queria quando era jovem – e continuo querendo: repudiar um mundo errado que os mais velhos lhes querem deixar como herança. Estão querendo acertá-lo e não sabem como – mas nós muito menos.

Fernando Sabino (foto: ...)

Clarice Lispector – Que é que você acha de Marcuse?

Fernando Sabino – Só li de Marcuse algumas páginas da tradução de um livro seu, o suficiente paraver que ele parece ignorar, na proposição de suas ideias com relação ao  mundo de hoje, um dado elementar: o de que o mundo de hoje tem muito mais gente que o mundo do princípio do século. E quanto a isso, ele não apresenta nenhuma outra solução. Nem mesmo a pílula.

Clarice Lispector – Por que você, Fernando, com o grande talento que tem, só escreveu um romance? Teve tanto sucesso que isso deveria incentivar você a produzir mais. Ou o sucesso atrapalhou você? A mim quase que faz mal: encarei o sucesso como uma invasão.

Fernando Sabino – O sucesso sempre atrapalha: neutraliza a nossa necessidade de se afirmar. No meu caso, entretanto, não foi o sucesso do meu romance que me atrapalhou, mas a necessidade, a que não soube resistir, de fazer da palavra escrita um ofício do qual tiro o meu sustento. Deixando de escrever, e indo buscar de dentro do mais obscuro anonimato um meio de expressão, é possível até que eu começasse realmente a escrever. Não desisti: lhe asseguro que ainda pretendo começar.

Clarice Lispector – Fernando, qual o seu processo de trabalho, você se inspira como? Ou se trata de uma disciplina?

Fernando Sabino – Há muito tempo que não me dou a esse luxo: o de inspirar-me. Contar com algum tema, alguma solicitação, algum estímulo que signifique uma verdadeira inspiração. E a verdadeira inspiração é aquela que nos impele a escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo.

Clarice Lispector – Conte-me um pouco sobre a Editora Sabiá.
Fernando Sabino – A Editora Sabiá tem grandes planos para este ano. Vamos prosseguir na nossa série de antologias poéticas bilíngues, iniciada com Pablo Neruda, publicando uma de Garcia Lorca. E entre as nacionais, será lançada em breve a de Jorge de Lima. Vamos iniciar também uma série de traduções de grandes romances modernos, o primeiro dos quais será Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – um verdadeiro monumento da literatura moderna, best-seller internacional, considerado o livro mais importante da língua espanhola desde Don Quixote. Além disso, Rubem Braga e eu não perderemos de vista o objetivo pessoal que nos levou a fundar a Editora Sabiá: o de publicar nossos próprios livros em melhores condições e, por extensão, os dos nossos amigos.

Fernando Sabino (foto: ...)

Clarice Lispector – Em que jovem de hoje você tem esperança como futuro grande escritor?
Fernando Sabino – Não tenho acompanhado como devia a atividade de nossos jovens escritores – passei algum tempo fora do Brasil e ainda não retomei o contato como gostaria. Mas sei que há diversos jovens escrevendo o que há de melhor por esse Brasil. Os de Minas, por exemplo, ocasionalmente me têm dado prova disso, através do excelente suplemento literário do Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião. Já realizados como escritores da nova geração, eu poderia citar, entre outros, Oswaldo França Júnior e José J. Veiga, que me parecem admiráveis. Mas no Brasil, mal um escritor entrou na casa dos trinta, já é considerado velho...

Clarice Lispector – Qual foi, Fernando, a sua maior decepção na vida?
Fernando Sabino – Eu poderia responder repetindo Léon Bloy: a de não ter sido um santo. Mas modestamente, entretanto, prefiro dizer que foi a de não me ter ainda realizado como romancista.

Clarice Lispector – Quando é que você se alegra?

Fernando Sabino – Sou sempre alegre – daquela alegria interior dos fronteiriços da debilidade mental e que, portanto, têm ainda uma oportunidade de salvação.

Clarice Lispector – O que é que você desejaria para o Brasil?

Fernando Sabino – Desejaria que o Brasil conseguisse realizar nada menos que o grande sonho da humanidade: o de atender à necessidade de justiça social para todos sem prejuízo dos direitos fundamentais de cada um. Uma utopia, que no entanto deve ser o mínimo de ideal a ser sustentado por um homem digno desse nome.

Clarice Lispector – Como é que você resumiria o conteúdo da palavra amor?
Fernando Sabino – Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro. Amar o próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas.

Clarice Lispector – Quais são os seus projetos como romancista?

Fernando Sabino – Não sei. Só vou ficar sabendo depois que escrever um novo romance. É preciso que eu me convença de que um romance não é mais do que um romance. Tenho de esquecer o pouco que aprendi e sair tateando às cegas até encontrar o botão de luz.

Clarice Lispector – Você acha que a nossa geração falhou? Eu acho que sim. Acho que nos faltou dar o corajoso passo no escuro. Nós não tínhamos desculpa, porque tínhamos talento e vocação.
Fernando Sabino – Não sei se nossa geração falhou. Nunca me senti, como escritor, como parte de uma geração. (Nem eu, pensei.) Sempre me senti sozinho e este talvez tenha sido o meu erro. Quis aprender sozinho e perdi a inocência. O artista é um inocente. Era preciso reaprender a olhar tudo como se fosse pela primeira vez. Eu olhei como se fosse a última. Em tempo: o romance que não consegui escrever se chamaria O salto no escuro. Estou dispensado até deste título, pois já saiu outro com o mesmo nome.

Fernando Sabino (foto: ...)


Clarice Lispector – Fernando, você tem medo antes e durante o ato criador? Eu tenho: acho-o grande demais para mim. E cada novo livro meu é tão hesitante e assustado como um primeiro livro. Talvez isso aconteça com você, e seja o que está atrapalhando a formação de seu novo romance. Estou ficando impaciente à espera de um romance seu.

Fernando Sabino – O que atrapalha a criação de um novo romance é a presunção de que somos capazes de criar. Diante da grandiosidade da tarefa, descubro que não sou coisa nenhuma. Era preciso partir da consciência de minha própria insignificância, e reconhecer com humildade que a tarefa nem grandiosa é, mas apenas um ato de louvor a Deus na medida das minhas forças.

Clarice Lispector – Você é profundamente católico ou apenas superficialmente?

Fernando Sabino – O catolicismo é uma herança de minha formação familiar que, graças a Deus, não abandonei. Deus não abandona aos que não o abandonam. Mas isso é assunto para conversa só entre nós dois.

Clarice Lispector – Qual o seu santo preferido?
Fernando Sabino – Não tenho preferência. Acho os santos uns chatos, pela inveja que me despertam, me fazendo ainda mais pecador.

Clarice Lispector – Você, que morou na Inglaterra como adido cultural nosso, notou lá algum movimento novo na literatura? Eu acho a literatura do mundo muito parada. Não há quem me satisfaça numa leitura. E você?

Fernando Sabino – Atualmente eu me interesso mais pelo depoimento pessoal, pelo documentário jornalístico – que talvez sejam novas formas de literatura.

Clarice Lispector – Como é que você encara o problema da morte?
Fernando Sabino – Deixar este mundo não me faz mais alegre, porque a vida é boa. Mas a morte é o eterno repouso. E eu tenho muita vontade de repousar eternamente. E muita curiosidade. Espero que não doa muito. Gostaria de morrer em nome de alguma coisa. Morrer deliberadamente, e não como alguém que depois do jantar espera que o garçom lhe traga a conta e fica pensando na gorjeta. Fazer da minha morte a justificação da minha vida. Mas não creio que mereça tanto.

Fonte: Templo Cultural Delfos

Fotos: Publicação

12.10.2025

O segredo da felicidade - R. Santana

 

O segredo da felicidade

R. Santana

"A felicidade não é ausência de conflito, mas a habilidade de lidar com eles. Uma pessoa feliz não tem o melhor de tudo, ela torna tudo melhor"

         O segredo da vida é a felicidade. O homem desde início persegue a felicidade. A felicidade não é sempre. O homem desfruta de momentos de felicidade, assim como, ele tem momentos de tristeza, de angústia, de desespero, de infelicidade, é que “não existe bem que sempre dure nem mal que não se acabe”, ou, “após uma noite escura sempre chega um lindo amanhecer”.

          Os pensadores corrompem o pensamento e o espírito do homem simples. Não se perde nada ou quase nada alguém que não leu Karl Marx, Nietzsche, Martin Heidgger, Diderot, Epicuro, dentre outros, negar Deus é afirmar sua existência.

          A discussão do mal e do bem, existirá enquanto houver o homem. Na Bíblia, em Gênesis, o Criador diz a Adão e Eva que, eles poderiam comer de todos os frutos do Jardim do Éden, menos o fruto proibido da árvore do conhecimento, com a desobediência do primeiro homem e da primeira mulher, estabeleceu-se o “pecado original” na humanidade, aí, a dor, o sofrimento e a infelicidade.

          A dor e o sofrimento são atributos da natureza humana e servem para seu amadurecimento e evolução espiritual.  Desde a barriga da mãe que o homem tem contato com a dor e o sofrimento. A felicidade chega depois. A felicidade não chega à galope, instantânea, ela chega devagar. Se a felicidade fosse perene, eterna, não haveria crescimento e desenvolvimento humanos.

          Nós somos as nossas circunstâncias. Nós somos responsáveis pelas nossas boas escolhas e responsáveis pelas más escolhas. O homem não é produto do meio, uma visão determinista, o homem tem a capacidade de influenciar e transformar o meio.

          Deus abdicou do controle absoluto de sua criação, por isto, deu-lhe o livre arbítrio. Até o Diabo não foi extinto para sempre, continuou com sua natureza má, mas, continuou. Não entendemos o sofrimento dos inocentes nem os benefícios do homem mau. Às vezes, a revolta do homem é compreensível, porém, é incompreensível os desígnios de Deus.

          Quem entende os sismos, os furacões, as tempestades, as inundações e os incêndios? Quantas vezes, populações inteiras são sucumbidas nesses desastres naturais? Inúmeras! Por isto, a revolta e a incompreensão de muitos nietzschianos. O ateu estriba-se em suas teorias racionais e lógicas para negar a existência e a sabedoria de Deus.

          A verdade é que quando o homem nasce é como uma “folha em branco”, uma “tabula rasa”, o conhecimento e a conduta moral são acrescidos com a vida. Para Reausseau, o homem nasce bom, com os mais puros instintos, contudo, a sociedade o corrompe e o torna mau.

          Há 15 anos, todos os problemas acima inquietavam-me, mas, tive a resposta da Providência Divina, sem vangloriar-me, elaborei um ensaio com reflexão crítica e subjetiva para responder essas inquietações e num dos capítulos, acho que encontrei todas as respostas. O capítulo chama-se: “O mundo das possibilidades”: Possibilidade contingencial, Real e Necessária.

A possibilidade contingencial é aquela que não se enquadra o pensamento lógico. Por exemplo: o sujeito não viaja de avião com medo de morrer, mas, um dia, o avião cai em sua casa, ele morre e a família fica ilesa; o sujeito não sai à noite com medo de bala perdida, porém, uma bala perdida trespassou sua parede de casa e estourou sua cabeça, ele não gosta de lotérica, mas, um dia, sua esposa insiste fazer um jogo e, ele ganha uma bolada, etc., etc. 

A possibilidade real é quando todos os fatores concorrem para sua realização. Se o pai de um garoto é músico, ele tem todos os instrumentos disponíveis dentro de casa para se tornar um músico se desejar; um menino pobre, hoje, sonha ser médico, os financiamentos do governo, possibilitarão esse sonho.

Enfim, a possibilidade necessária é Deus. 

Por isso, as coisas acontecem pela ação humana. Já pensou um Deus responsável até pela desdita do homem? A onde está o livre arbítrio? Deus é determinista? Nenhum pai deseja mal para seu filho, mesmo o filho mais desobediente e Jesus Cristo deu essa resposta: ― Qual homem, do meio de vocês, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir peixe, lhe dará uma cobra? (Mateus 7 : 9 – 11). Se Deus não castiga, não intervém, a resposta para o sucesso ou fracasso do homem está no “Mundo das Possibilidades”.

Definitivamente, o homem nasce para ser feliz. A felicidade é um estado de espírito e não duradouro, aqui, em nosso mundo, não existe felicidade absoluta, existem momentos de felicidade. Porém, a felicidade está numa vida mais simples, naquele homem sem ambição de riquezas, sem apego material, movido pela fé no Espírito Santo e, de amor ao próximo, não, somente, o próximo que está próximo, mas, a humanidade.

A felicidade não está em Kant, Descartes, Nietzsche, Hegel, Jean Jacques Rousseau, Aristóteles, Platão, sábios e filósofos, ao contrário, quanto menos se conhece esses pensadores, essa gente privilegiada, menos intoxicada fica a mente humana. O segredo da felicidade é a simplicidade. A felicidade está na inocência da criança, na natureza, nos homens e mulheres abnegados e nos homens e mulheres santos.

Portanto, a felicidade não é um privilégio de poucos é um apanágio da humanidade. Todos trazem no nascimento esse atributo. Se alguém não é feliz, ele não nasceu para ser infeliz, às vezes, sua conduta e más escolhas contribuíram para sua infelicidade.

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

O homem que sabia javanês - Lima Barreto

 

O homem que sabia javanês - Lima Barreto

 "O homem que sabia javanês ", um conto de Lima Barreto publicado no periódico Gazeta da Tarde.

Nesse conto, Lima Barreto irá fazer uma crítica ao sistema brasileiro (o famoso QI - Quem indica) que favorece os pseudo intelectuais que acabam conseguindo as melhores colocações,  enquanto aqueles que posssuem um verdadeiro conhecimento sobre algo não têm oportunidades.

É aquela história. Você não precisa saber algo desde que achem que você sabe. Basta ter um ar de autoridade, uma boa eloquência, se relacionar com as pessoas certas, que logo estará "dando aula de javanês " , mesmo sem saber uma única palavra da língua malaia.

É impossível não fazer um paralelo com nossos tempos atuais. Basta dar uma breve olhada nas redes sociais e logo encontraremos uma enxurrada de "especialistas", de "gurus" que vendem, muitas vezes, os resultados que não têm com base em um conhecimento estruturado em apenas "linhas gerais."

E é por isso que um clássico, como disse Italo Calvino, " é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer". Sempre que lemos um clássico temos essa impressão de que ele está falando de "hoje."

E nesse conto, Castelo é nosso pseudo intelectual. Um homem que chegou ao Rio de Janeiro na miséria, vivia fugindo de seus credores, mas que chegou a Cônsul, representou o Brasil em congressos internacionais, escrevia artigos em jornais e revistas e até almoçou com o Presidente da República. Tudo isso por causa do tal javanês do qual Castelo só sabia algumas letras.

E essa empreitada de Castelo foi bem sucedida justamente porque não havia ninguém para desmascará-lo, uma vez que ninguém sabia javanês.

É por isso que conhecimento é poder. Se você não detém um conhecimento,  qualquer coisa que lhe dizem soa como verdade.

E Castelo sabia tanto que essa forma de agir funciona que, ao final do conto, ele fala que se não estivesse tão contente com sua carreira no consulado, ele seria bacteriologista eminente.

Mas vamos ao conto. É Castelo quem narra , em retrospecto, para o amigo Castro, toda a aventura de sua vida.

Ele encontra Castro em uma confeitaria já como Cônsul e escuta o amigo reclamar da burocracia brasileira. Castelo, no entanto,  acha o Brasil um lugar onde se pode conseguir "belas páginas de vida" e começa a contar como conseguiu chegar ao consulado sendo professor de javanês.

Ele estava completamente falido quando leu um anúncio em um jornal, onde um barão precisava de um professor de língua javanesa.

Castelo vai então até a Biblioteca Nacional e copia todo o alfabeto javanês e passa 2 dias em casa treinando sua pronúncia. Ele também pesquisou, assim muito por cima, sobre a cultura local, o nome de alguns autores e algumas expressões básicas. Tudo isso para construir o seu pseudo conhecimento.

Ao cabo desses 2 dias, ele se apresentou na residência do Barão de Jacuecanga para se candidatar a vaga.

O barão estava em busca de um professor porque ele tinha herdado um livro de seu pai escrito em língua malaia e havia uma lenda familiar de que quem conseguisse ler o que estava escrito teria prosperidade.

O barão havia recebido o livro de seu pai que, por sua vez, já havia recebido do avó dele, mas nunca ninguém deu muita importância a essa tradição porque a situação financeira da família era confortável.

Até que os negócios do barão começaram a degringolar e ele atribuiu seu fracasso financeiro ao fato de ainda não ter lido o tal o livro em javanês.

Castelo é aceito como professor e de início ele tenta ensiná-lo o alfabeto, mas o barão não se mostra muito disposto a aprender e pede para  Castelo apenas ler o que estava escrito.

Castelo começou então a "traduzir" o livro para o barão, mas na verdade ele apenas inventava algumas bobagens e todos acreditavam que ele estava de fato lendo o livro.

Ocorre que durante esse período, o barão recebe uma herança  e tanto ele , quanto a sua filha e seu genro, atribuíram essa reviravolta nas finanças do barão ao professor de javanês.

O genro do barão, que era desembargador, ficou encantado com o javanês de Castelo e acabou o indicando para uma audiência com o ministro que o colocou no cargo de Cônsul.

E assim deu início a vida diplomática de Castelo. Uma carreira bem sucedida e cheia de benefícios.  Lima Barreto foi cirúrgico nesse conto em nos alertar que nem tudo que reluz é ouro. Vale muito a pena a leitura.

 

Fonte: Site lendocontonaquinta

Foto: Google

 

 

12.09.2025

Triângulo do Ser - Gustavo Velôso

 

Triângulo do Ser - Gustavo Velôso

In FERRADAS: Eu, Nietzsche e o Cosmos - Deus, Jesus Cristo e a Crença Volume 10 Tomo I Coleção Raízes Grapiúnas. Em publicação

Que não digam que Nietzche negou Cristo — ele apenas recusou a sombra que o velou. Quis o Cristo vivo, não o domesticado pelo medo, não o crucificado em dogmas, mas o que caminha, forte, nas ruas do espírito.

Cristo — o amor que levanta,

Nietzsche — a força que desperta,

Spinoza — a luz que diz que Deus respira em tudo.

Três vértices, uma alma só.

Entre a razão e o sagrado, entre a carne e o eterno, corre o fio da vida: viver é ato de coragem, fé que se faz gesto, pensamento que se encarna.Que nosso peito seja altar, nossa mente jardim, nosso existir poema.

Pois o divino não exige submissão  — ele exige construção.

É no erro que nos forjamos, na queda que encontramos altura, e no amor que reconhecemos Deus.

Nietzsche nos ensina a levantar,

Cristo a perdoar,

Spinoza a compreender: somos parte daquilo que buscamos.

E assim, entre força, graça e razão,

descobrimos o prazer de viver: ser humano, sim, mas infinito por dentro.

Autoria: Gustavo Velôso 

Foto: Google

Em 07/12/2025        


“A Escola- A flor”, de José Mauro de Vasconcelos

 

“A Escola- A flor”, de José Mauro de Vasconcelos


    A escola. A flor. A flor. A escola… Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza. Quando terminou a aula, me chamou.
    – Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
    Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a  coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
    – Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
    Balancei a cabeça, afirmativamente.
    – Da flor? É, sim, senhora.
    – Como é que você faz?
   – Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
    – Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.
    – Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também… Ela ficou espantada com a minha lógica.
    – Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… e eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
    – De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?
    – Poderia dar todos os dias. Mas você some…
    – Eu não poderia aceitar todos os dias…
    – Por quê?
    – Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
    – A senhora não vê a Corujinha?
    – Quem é a Corujinha?
   – Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
    – Sei. A Dorotília.
    – É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
    Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
    – A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. Eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
    As lágrimas estavam descendo.
    – Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
    – Não é isso, Zezé. Venha cá.
    Pegou minhas mãos entre as dela.
– Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
– Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso.     A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
   – Não tem importância. Para mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
    – Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
   – Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
    Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
    – Agora pode ir, coração de ouro…

Autoria: José Mauro de Vasconcelos, Meu Pé de Laranja Lima

José Mauro de Vasconcelos (1920-1984)

Foto: Google

 

12.08.2025

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

Das vantagens de ser bobo

    O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que  não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

    Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
    Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
    Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
    O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.
    Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
    Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
    Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que   eles sabem.
    Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
    É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector - A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Entrevista (on-line) - R. Santana

 Entrevista (on-line)

R. Santana 

          Não faz muito tempo que conheci Jota Alves, eu o conheci pelo Facebook  com essa mania de publicação das minhas produções aos finais de semana. Jota Alves é um jovem estudante de jornalismo que se interessa por poesia, crônica, romance, enfim, tudo que a criatividade vem antes do fato. Argumentei ao preclaro jovem que os meus textos não têm tanto valor literário, mas, uma maneira de libertar-me do dia a dia. Tanto foi sua insistência que resolvi lhe conceder esta entrevista com a condição que fosse registrada em áudio não em imagem, que usasse depois o desaigner de IA para ilustrá-la em seu trabalho de jornal. Vejamos:

          J. A.:  Quem é R. S.?

          R. S.:  Uma pessoa comum, que é simples e vive na simplicidade.

          J. A.:  Qual o método que o senhor usa na construção dos seus textos?

       R. S.:  Geralmente, recebo um insight do tema, em seguida, concilio a     criatividade com a realidade.

          J. A.:  Como assim?

          R. S.: A criatividade não prescinde da realidade.

          J. A.: O senhor escreve para vários sites literários, é membro de uma academia de letras e me disse em “Off” que não é escritor. O senhor não é incoerente?

          R. S.: Parece, an passant, que “estou plantando verde pra colher maduro”, não é verdade, se o escritor não tem uma editora, não tem o reconhecimento de sua comunidade ou da sociedade, no máximo, para adocicar o ego, ele é um escritor amador, ou seja, escreve por diletantismo, sem compromisso com a forma e a técnica literárias.

          J. A.:  Quais os seus escritores e poetas preferidos?

          R. S.:  O mundo está  repleto de grandes poetas e ótimos escritores em profusão, porém, em nosso país, eu gosto de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Carlos Drummond, Clarice Lispector e Mário Quintana, lá fora, gosto de Alexandre Dumas, Fernando Pessoa, Morris West, Sidney Sheldon e   Antoine de Saint-Exupéry, etc.

          J. A.:  Como chegou à Academia de Letras de Itabuna – ALITA?

          R. S.:   Fui convidado por Dr. Marcos Bandeira, naquela época, Juiz de Direito de Direito da cidade itabunense.

J. A.:  Sua produção literária aumentou depois que ingressou na academia?

R. S.: Não! O objetivo da academia é o zelo pelo idioma, preservar os bens culturais, apoiar seus membros em qualquer atividade cultural, apoiar na edição e lançamento de seus livros e preservar a memória do acervo cultural da instituição.

J. A.:  O senhor já publicou quantos livros e os títulos?

R. S.:  Bem... eu tenho vários livros em forma de PDF publicados em plataformas específicas, mas impresso por editora, eu publiquei: “O empresário” e “Maria Madalena”.

J. A.:  Chegamos ao fim, obrigado por disponibilizar seu tempo para esta entrevista, gostaríamos que o senhor desse sua autorização no final para que possamos publicar no blog “Notícias Culturais”.

R. S.: Ok!

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana (Coautoria)

Licença: Creative Commons

Membro da ALITA

Imagem: Google

 

 

 

 

 

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