Textos
dos outros — Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos
Anúncio
miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de
aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma
assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de
um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o
28829 sensibilizou-me.
A
princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num
anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que
não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de
apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por
exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir
Salve-Rainhas.
Afinal
essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia
ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa.
Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um
sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu
portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura
que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem
modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio
reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala
a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a
eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de
aperto.
Imagino
o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina
tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de
automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A
infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa
quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi
fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava
intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo
no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala
inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi
refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava
fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não
acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da
escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do
comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se
à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite,
tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o
quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma
súplica bastante embrulhada.
Não
dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou
marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.
A
alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e
começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é
certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios
do jornal que ali estava amarrotado e molhado.
Realmente
muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram
de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma
graça: com certeza escaparam por outros motivos.
(Crônica
garimpada no livro As cem melhores crônicas brasileiras, organizado por Joaquim
Ferreira dos Santos, editora Objetiva.)
***
NOTAS
1.
Ninguém deveria ter que grifar e glosar um texto de Graciliano Ramos com loas
pra convencer outro adulto bem letrado de que aquilo é bom. Mas há gente
esclarecida que, em tempos de fome e feiura, atravessa campos cheios de
abóboras, pepinos, melancias, e chega lá na outra ponta dando instruções aos
serviçais: “não vi nada de especial, podem passar o trator”. Às vezes é a mesma
gente que mostra às visitas e leva à grande feira da cidade… capim. Capim que
qualquer um cultiva e que nasce nos terrenos mais desgraçados e inférteis.
Então estou enfiando os pés nas botas e colocando a cabeça no chapéu pra
conduzir uma curta visita guiada a este lote.
2.
Primeiro, uma colheita de construções que não são mato: “anúncio miúdo”,
“sentimento forte”, “em conformidade com o intelecto do seu portador”, “oração
artística”, “uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios
originais de expressão”, “essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio
reconhece a sua insuficiência”, “fala a viventes ordinários, isto é, aos
leitores dos anúncios miúdos”, “a fuzilaria lá fora continuava intensa, as
chamas do incêndio avivavam-se”, “refugiar-se no banheiro”, “estabeleceu alguma
ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada”,
“[um milagre pequeno, mas] bem inferior aos antigos”. Nada rebuscado, tudo sem
rodeios e muito simples — mas é o simples que poucos conseguem compor…
…e
que rudes leem em estado apático. Existem leitores habitados por um tipo de
serenidade palerma que cruzam um texto pleno de construções atípicas e não
percebem o que é bem dito. Transportam à leitura interesses mesquinhos como a
fofoca, então só querem saber o que aconteceu e com quem.
A
experiência de poder acessar os trechos mais grifados dos livros digitais no
Kindle mostra que aquilo que vinga com o povo são as passagens sentimentais e
de autoajuda, não as construções industriosas e as sutis análises de
comportamento dos personagens. Nessa agremiação de motor biblioterápico, um
Borges faria o recurso da canetinha amarela secar pelo desuso. Se o Brasil é
uma pessoa, quem tem o hábito de ler é uma unha e quem sabe ler é a cutícula
dessa unha.
2.1.
Acredito que um bom autor clarividente atine que de todos os seus leitores —
sejam eles vinte pessoas ou um milhão — só um baixo percentual vale a pena. Mas
o bom autor não pode expressar isso em público. Ele depende dos maus leitores —
o leitor por modismo, o leitor pra passar o tempo, o leitor voyeur, o leitor
livro-é-sapato-elegante, o leitor que acha que é capaz e não é, o leitor
parasita só-continuo-lendo-se-me-der-atenção-sempre-que-eu-quiser, o leitor
isso-eu-também-faço, o leitor OK-mas-prefiro-Shakespeare, o leitor sem critério
que acende o mesmo incenso à realeza e aos vermes — pra se estabelecer no
mercado das letras. Esse mercado já não é exatamente livre, pois ser bem
relacionado favorece muitas coisas. Menos livre ele é quando o bom autor fica
refém de tontos. ¿Quantos tontos não “amam de morte” Machado de Assis? Nem é
preciso se esforçar em cálculos, basta estar vivo e atento pra fazer uma
estimativa. Ter voltado ao pó preserva o escritor de tanto mau senso e
afetação.
3.
Graciliano Ramos é cruel com a personagem da sua crônica, uma mulher que se
pensa agraciada por Nossa Senhora e que resolveu homenagear a santa num
“anúncio miúdo” de jornal. Ele zomba da simplicidade dela criando um cenário
apocalíptico que possa justificar seu melodrama:
“Imagino
o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina
tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de
automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A
infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa
quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi
fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava
intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo
no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala
inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi
refugiar-se no banheiro.”
Dá
pra imaginar a expressão sardônica de Graciliano, na mente ou também na cara,
ao juntar uma metralhadora, um guarda assassinado, gritaria, apitos, correria,
buzinas, incêndio, um tropeçar em lençóis, uma testa na quina da mesa, a
audição duma bala inexistente. “Momentos de aflição” que teriam feito uma
coitada clamar pela mãe de Jesus, de trato mais fácil até pelo estereótipo da
mulher acolhedora. Saída praticamente ilesa do pandemônio, ela agradece a graça
alcançada — não tête-à-tête com a Virgem, pois não se atreve a tanto, mas
publicizando a dádiva a “viventes ordinários”. Se o classificado foi algo que
Graciliano de fato viu e não inventou, é um agradável exercício fantasiar a
mulher pegando um dos diários seguintes, encontrando seu anúncio sendo estudado
e conjecturado nos motivos, sentindo-se humilhada porque não foi tudo isso —
¿quer dizer que uma dor de barriga ou arruaceiros falando alto nas ruas não
valiam o esforço de demonstrar gratidão? —, escondendo a folha do marido (ou do
filho), sondando vizinhas pra saber se elas leram o jornal. A
chacota fica completa no último parágrafo:
“Realmente
muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram
de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma
graça: com certeza escaparam por outros motivos.”
Sendo
uma variante do gaslighting ou apenas frieza diante dum sentimento religioso
forte, essa crônica é ouro.
4.
“Um milagre” também mostra que fórmulas de escrita que funcionam pra uns podem
ser dispensáveis pra outros, pois dá pra escrever bem de diversos modos.
Parecem mais propensos à radicalidade estilística aqueles pitocos com mania de
grandeza que acabam colando na fórmula pessoal de um escritor já reconhecido —
e inacessível — e tentam aplicá-la a tudo pra forjar finura no debate textual
sobre qualidade e bom gosto. Descobrem que o Prestigiado Autor rechaçava
adjetivos — e se põem a descer espadas mal amoladas quando encontram quaisquer
adjetivos na literatura moderna. Descobrem que a Magnânima Autora rechaçava
advérbios de modo — e põem a língua pra fora quero-que-todos-vejam-meu-asco
quando se deparam com advérbios de modo. Por aí vai. ¿E quanto ao Prestigiado
Autor e à Magnânima Autora? Embora tenham criado as próprias regras do que cabe
ou não na construção de um texto, muitas vezes reconhecem colegas que trabalham
com outros valores, às vezes até bem opostos dos seus. O Mario Vargas Llosa
ceifador de adjetivos admirava Gabriel García Márquez, O Adjetivoso, e escreveu
uma tese de 600 páginas sobre ele.
Por
isso aí está uma crônica breve de Graciliano Ramos repleta daquelas palavras
que alguns rejeitam de modo incisivo nos seus códigos: justamente,
infelizmente, precipitadamente, vagamente (duas vezes), realmente. Mas
também não é pra qualquer um acertar assim.
5.
Se essas NOTAS ampliaram sua visão da crônica “Um milagre”, recomendo que você
a leia de novo.
Fonte: Textos dos Outros
Foto: Google