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4.10.2026

O menino e o poeta Valter - Luis de Oliveira Moraes


O menino e o poeta

Valter Luis de Oliveira Moraes

 

O menino passeava ao longe do jardim e ouviu o que ele achou serem gritos. Procurou com seus olhinhos aguçados qual a origem dos suplícios e se deparou com um homem vestido de roupão colorido, que contrastava com o dia cheio de luz, totalmente espalhafatoso.

Usava um chapéu azul com uma pena vermelha ao lado e um nariz de tomate, complementando a paisagem do sol vermelho no céu.

Ele estava em pé sobre um banco que, ao lado, tinha uma árvore bastante robusta, dando-lhe a aparência elegante de uma deusa, com o caule avantajado e a copa arredondada.

A copa da árvore era a coroa verde da princesa, com seu tronco elegante, brincos amarelos e colares coloridos. Ao redor, vários tipos de orquídeas, roseiras sobrecarregadas de rosas exalando seus perfumes e plantas cor de violetas, vermelhas, roxas, ornamentando toda sua vestimenta, enfeitando o espaço, dando ênfase ao homem que sobre o banco gritava, gesticulava, agachava-se, sentava na posição de lótus e levantava-se como um garoto, com equilíbrio e elegância.

O menino, ao longe, pensando ser um maluco qualquer, chamava a atenção dos transeuntes que paravam, olhavam e aplaudiam, mas, na verdade, era um poeta declamando.

Era como se o menino e o poeta estivessem em um teatro.

Tudo aquilo era novidade para aquele menino. Na sua casa não tinha nem revista, nem televisão, que era a epidemia da época.

O menino não estava entendendo nada daquele acontecimento. Para ele, era como se fosse o doido Zéu aprontando mais uma das suas maluquices.

Já que todos estavam se aglomerando ao redor desse ser extravagante e excêntrico, a minha curiosidade foi mais forte e me aproximei meio acanhado, prestei atenção ao que ele dizia e fiquei concentrado, ouvindo como ele se expressava. Era como se cantasse de uma maneira diferente, comovendo seus assistentes. Alguns emocionados choravam timidamente, mas com certeza, se estivessem a sós, chorariam com mais ênfase, efusivamente, tamanha a comoção.

De repente, alguém gritou no meio do público:

Esse é um poeta de verdade!

     Declama como se estivesse

     encarnado na poesia,

     Dando-lhe vida!

     Dando-lhe alma!

     Nesse teatro ao ar livre!

     Palmas! Palmas! Palmas!

    Então é isso.

    É um poeta recitando versos!

    Estava encantado!

    Feliz por assistir àquela cena deslumbrante.

    Foi como o dia em que vi o mar pela primeira vez.

Assim, voltei para casa refletindo sobre aquela beleza de teatro, da descoberta de uma coisa que não ouvira falar e também não havia assistido.

Logo comentei com minha mãe e minha tia sobre a beleza dos versos, falando de amor, da vida, dos céus, dos deuses, sobre a arte da poesia e o ser poeta sobre o banco do jardim, deixando uma sensação de alegria e deslumbre.

À noite, voando no cavalo alado, recitei poemas de amor para a amada que partiu comigo para as aventuras da arte.


Fonte: Agilson Cerqueira

Foto: Produção

Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

Editor: WhatsApp: (73) 988939460

4.09.2026

Rilvan em Acróstico – O grande amigo, professor e poeta / João de Paula

Rilvan Batista de Santana
(Arte: Agilson Cerqueira) 

Rilvan em Acróstico – O grande amigo, professor e poeta.

 

Rico, amigo, poeta, escritor e professor

Idealista, criador, produtor e editor

Luz para o Saber-Literário

Verdade, bem e belo

Amor altruísta, vivencia no dia a dia com arte de escrever

Na vida como grande instrutor, aprendiz e professor

 

Beleza única no saber e proceder

Amigo número um do Planeta Letras

Testemunha firme da sinceridade, partilha e confraternidade

Iluminado de Deus, mestre ensinando mestre

Sabedoria que vem de Deus

Templo de uma realidade feliz

Amante do saber em arte e em poesia

 

Descobre a chave do problema, é um alerta para prática de um amor altruísta

Em todos os tempos o ser humano aspirou o amor e à felicidade

 

Somos todos importantes para Deus

Admirando e contemplando as letras

Natureza humana de uma família saudável

Transformado em paraíso o que pode melhor

Alegria plena e bem-estar com a beleza dos sentimentos

Na esperança de Dias melhores vivenciar

Amor, paz, saúde e prosperidade irradiar

 

Honra ao Mérito

Os produtores do jornal “O Produtor” e do “Site A Voz do Povo de Itabuna” têm o orgulho de conceder o "CERTIFICADO DE HONRA AO MÉRITO", Amigo da Arte e da Poesia, ao professor e escritor Rilvan Batista de Santana, do Saber-Literário, pelos relevantes serviços prestados à Região e dedicação ao Mundo das Letras.

Itabuna, 25 de julho de 2013.

Diretoria:

João Batista de Paula (presidente)

Expedita Maciel Viana (vice-presidente)

Israel Cardoso (Assessor)

Anísio Alves de Almeida (Assessor)


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

O amor, quando se revela - Fernando Pessoa

 







O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

 

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa - Poesias Inéditas (1919-1930)


Fonte: Pensador

Foto: Google

191 anos de Luiz Gama: por que um abolicionista é exaltado pela direita?

191 anos de Luiz Gama: por que um abolicionista é exaltado pela direita?

Advogado, jornalista e poeta, Luiz Gama morreu seis anos antes da abolição e conseguiu resgatar a liberdade de mais de 500 pessoas escravizadas

Texto: Juca Guimarães | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Juca Guimarães

Mandato da vereadora Erika Hilton havia disponibilizado R$ 25 mil para conservação

Estátua de Luiz Gama segue sem restauração

Imagem: Juca Guimarães/Alma Preta

O advogado e jornalista Luiz Gama, nascido em 21 de junho de 1830, na cidade de Salvador, é um símbolo da luta contra a escravidão e a exploração da população negra no Brasil. Desde os 17 anos de idade, começando por ele mesmo, Gama conseguiu libertar mais de 500 pessoas escravizadas, mantidas ilegalmente nessas condições. Ele também foi um abolicionista e republicano.

O lema de Gama era “por uma terra sem reis e sem escravos”. Apesar de ter a sua história pouco reconhecida, o abolicionista é inspiração para as reflexões do movimento negro organizado. Ao mesmo tempo, é uma figura histórica muito citada pela direita mais conservadora como um antagonista à luta de Zumbi dos Palmares. No último 13 de maio, por exemplo, o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ) encerrou seu discurso exaltando alguns personagens históricos: “Viva Princesa Isabel! Viva Rebouças! Viva Luiz Gama! Viva Maria Firmina!”. A Fundação Palmares, presidida por Sérgio Camargo, replicou a fala do parlamentar.

“O resgate da história de Luiz Gama pelos reacionários é pela metade. Eles não falam a fundo sobre ele, que sempre foi um progressista. Por exemplo, ele dizia que um escravizado que mata o seu senhor está praticando um ato de legítima defesa”, lembra o advogado Irapuã Santana, da ONG Educafro e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Santana relembra que, historicamente, o abolicionista nunca se alinhou com conservadores e senhores de escravos. “Gama era do partido Liberal, porém, de uma ala mais radical e isso não se alinha com os atuais reacionários do Brasil. Eles usam Luiz Gama como símbolo ou por má-fé ou por não conhecer a história”, diz o advogado, que ainda comenta que os movimentos de esquerda no Brasil nunca deram a devida relevância ao seu legado.

Nesse sentido, a guia de turismo Débora Pinheiro, da agência Black Bird Viagens, acrescenta que ainda que Luiz Gama tenha uma história muito interessante, por conta do racismo estrutural é pouco conhecida a fundo.

“Existe um apagamento histórico das personalidades negras. Luiz Gama é um herói, com realizações incríveis, que deveria ser estudado nas escolas. Ele foi jornalista, advogado e lutou pela República. Ele libertou mais de 500 pessoas escravizadas. Há um movimento no legislativo paulista para que se troque o nome da rodovia Anhanguera, que foi um bandeirante, por Luiz Gama”, avalia a guia de turismo.

No dia 29 de junho, o Conselho da USP (Universidade de São Paulo) vai definir se será concedido a Luiz Gama o título póstumo de doutor honoris causa. O pedido foi apresentado pela ECA (Escola de Comunicação e Artes) e tem uma abaixo-assinado na internet em apoio ao título. Gama também foi poeta e escreveu o livro “Primeiras trovas burlescas”, além de ter participado da criação dos jornais Diabo Coxo e Cabrião.

“Se estivesse aqui, hoje, ele seria, sem dúvida, o pesadelo deles, nos tribunais e na imprensa”, considera o escritor Oswaldo Faustino, autor do livro ficcional infanto juvenil “A Luz de Luiz – por uma terra sem reis e sem escravos”.

Em 2015, foi reconhecido simbolicamente como advogado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e, em 2018, recebeu uma homenagem, com foto e placa, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP).


Fonte: Site Alma Preta

Foto: Produção

 

 

4.08.2026

Ora direis ouvir estrelas - Olavo Bilac

 

Ora direis ouvir estrelas (Olavo Bilac)

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 

Além de ser conhecido pela criação da letra do Hino à Bandeira, o carioca Olavo Bilac também é considerado um dos principais poetas nacionais do parnasianismo, representado pelo soneto XIII do livro Via Láctea que, embora não seja um dos seus mais populares é, sem sombra de dúvidas, um dos mais belos!

“Memórias do Cárcere” - Eloésio Paulo (*)

Resenha “Memórias do Cárcere”: “Incômodo retrato do Brasil de Vargas, feito ao avesso por Graciliano Ramos”, por Eloésio Paulo (*)

As Memórias do cárcere (1953) podem ser lidas como um romance. E talvez o devam ser.

A primeira edição saiu no mesmo ano da morte do autor, e o livro ficou incompleto; segundo o relato de Ricardo Ramos, filho de Graciliano, faltava apenas o capítulo final, em que seriam tratadas as reações do prisioneiro recém-libertado às coisas e pessoas vistas ou reencontradas no Rio de Janeiro, então capital da República, quase 40 anos depois do período em que o escritor alagoano lá vivera na juventude.

Graciliano foi preso no início de 1936, no bojo de uma onda repressiva que antecedeu a decretação do Estado Novo (eufemismo para designar a ditadura de Getúlio Vargas, vigente até 1945). Ficou cerca de 10 meses na cadeia sem nunca ter havido contra ele uma ação judicial. Diferente do Joseph K. de O processo, porém, o escritor brasileiro não termina sendo executado “como um cão”. O que teve foi sua vida arruinada, a despeito de não haver participado de qualquer dos levantes comunistas usados como pretextos para a onda de prisões.

O modo narrativo de Memórias do cárcere é, com frequência, mais ficcional do que memorialístico. O escritor não conseguiu guardar as notas feitas durante o cativeiro, precisou descartá-las para evitar que fossem apreendidas e pudessem figurar como prova de subversão. Em muitas passagens do livro, fica claro que o detalhamento de episódios e caracteres não seria possível sem largo recurso à imaginação. Uma passagem evidencia isso particularmente: o resumo da vida do homossexual chamado Aleixo, que não só tem o mesmo nome de um dos protagonistas do romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, mas sua história é praticamente a mesma, porém misturada com a de Amaro, a outra personagem principal do mesmo livro.

Igualmente, a narração a partir de uma recordação alheia, como a das desventuras do prisioneiro Francisco Chermont, dificilmente terá apoio apenas na memória de Graciliano, por mais poderosa que ela tenha sido. Assim, a determinação das porcentagens de memória e ficção fica impossível, como de resto em boa parte das obras catalogadas como uma coisa ou outra. A propósito: Hayden White, em Trópicos do discurso (1978), demonstrou como é escorregadio o limite entre os domínios da ficção e da realidade.

A narrativa tem início em março de 1936, quando o escritor morava numa casa na praia de Pajuçara, em Maceió, com a mulher e seis filhos. Apareceram agentes de polícia para prendê-lo e ele foi conduzido de carro e depois embarcado para Recife, onde ficou duas semanas até ser metido no infecto porão do navio Manaus, com destino ao Rio de Janeiro. A partir daí, foram meses de reclusão em vários estabelecimentos penais, sendo o pior deles a colônia correcional da Ilha Grande, que, pelo relato de Graciliano, pouco ficava devendo aos campos de extermínio nazistas. Não por acaso a ditadura varguista teve relações muito amistosas com Hitler, a ponto de enviar para a morte naqueles campos duas militantes brasileiras nas quais coincidiam os “crimes” de serem esquerdistas e terem ascendência judaica. O episódio é mencionado num dos últimos capítulos de Memórias do cárcere.

Além de expor a perversidade de nosso sistema carcerário, que pelo menos naquela época não registrava decapitações espetaculosas, a leitura vale por um mergulho profundo na complicada psicologia de Graciliano. Ele descreve seus percursos interior e exterior ao longo desses meses de reclusão com grande riqueza de detalhes, ainda potencializada pela incapacidade de iludir-se a respeito de nosso destino como país e da própria natureza humana. Entre os grandes escritores brasileiros, o autor de São Bernardo (1934) e Angústia (1936) não foi somente o mais obsessivo com a perfeição do texto; também era o mais incapaz de se deixar prender por qualquer ilusão ideológica. Sua adesão ao Partido Comunista, bem posterior aos meses de prisão, terá todos os motivos menos a crença na patacoada stalinista que era a doutrina oficial da esquerda radical daquela época.

As misérias detalhadas em Memórias do cárcere, especialmente nos meses passados na Ilha Grande, não teria sentido tentar resumi-las. Vão da simples privação de comida à convivência com a escória da sociedade brasileira – presente tanto entre os prisioneiros como entre as autoridades encarregadas de reduzi-los à condição mais subumana possível. A crueldade do sistema prisional, porém, não chega nem perto daquela (por falar em Stálin) detalhada por Alexander Soljenitsin no cartapácio que é Arquipélago Gulag (1973), leitura muito recomendável para devotos do capitalismo de Estado.

Emerge da narrativa de Graciliano um lúcido panorama do Brasil nos anos 1930, porém estruturado pelo avesso, tanto que não existe no livro uma única referência a Getúlio Vargas. Aliás, o próprio Brasil exterior aos estabelecimentos prisionais não penetra neles a não ser por meio de boatos e artigos de jornal – os quais, para o escritor, eram em sua quase totalidade subservientes ao regime varguista.

Em meio a tudo isso, avulta como personagem o próprio narrador, cuja autodepreciação pessoal e literária surpreende a quem dela ainda não teve notícia, por exemplo, por meio da excelente biografia O velho Graça (1992), feita por Dênis de Moraes. Graciliano usa várias vezes o adjetivo “chinfrim” para designar a si mesmo e a sua obra, da qual os dois cumes inexcedíveis tiveram seu princípio de gestação naqueles meses em que o autor esteve, pelo menos em duas ocasiões, à beira da morte: Vidas secas (1938) e Infância (1945). Graciliano, fumante compulsivo, ainda viveu 15 anos depois de ser libertado.

A miséria humana e política descrita nas páginas de Memórias do cárcere talvez traga aos esperançosos um consolo, ainda que débil. É que, mesmo entre indivíduos pagos pelo Estado para torturar e humilhar, alguns conseguiram conservar-se humanos e, por meio de atitudes imprevistas e imprevisíveis de solidariedade, resguardar um pouco da dignidade daquelas pessoas mandadas ao Inferno apenas por terem ideias incômodas aos donos do poder.

Numa chave mais restrita, a leitura pode trazer algum alento no sentido de confirmar que, entre nós, até o fascismo é fajuto, pois essas manifestações de humanidade da parte de esbirros de uma ditadura são virtualmente inimagináveis, por exemplo, entre aqueles autômatos implacáveis fabricados pela Juventude Hitlerista e pela máquina de propaganda ideológica inventada por Goebbels. Pelo menos isso, apesar do recente empenho de certa parte da elite econômica brasileira, ainda não tivemos por aqui.

 

(*) Eloésio Paulo é professor da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras – uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020).

 

Fonte: Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL

Foto: Produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

4.07.2026

Contagem regressiva - Ana Cristina César

 

Contagem regressiva, de Ana Cristina César

A carioca Ana Cristina César (1952-1983) infelizmente ainda é pouco conhecida pelo grande público, apesar de ter deixado uma obra preciosa. Embora tenha vivido uma vida curta, Ana C., como também ficou conhecida, escreveu versos muito variados e sobre os mais diversos temas.

O trecho que trazemos, retirado do poema mais longo Contagem regressiva (publicado em 1998 no livro Inéditos e dispersos) fala sobre a sobreposição de amores, quando escolhemos nos envolver com uma pessoa para esquecermos outra.

A poetisa deseja, a princípio, organizar a sua vida afetiva, como se fosse possível ter controle total dos afetos e superar aqueles que amou.

Mas ela acaba descobrindo que o que amou nas relações anteriores permanece, mesmo com novos parceiros.

Se gosta de poesia achamos que também irá se interessar pelos seguintes artigos:

(...) Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google


 

Sucesso no Trabalho é um Esporte de Equipe - Robert Tamasy

 

Sucesso no Trabalho é um Esporte de Equipe

Por Robert Tamasy

 

Se quisermos encontrar um modelo para sucesso no ambiente de trabalho atual não precisaremos olhar para mais nada além do corpo humano. Enfermidades e doenças são geralmente o resultado de uma parte do corpo não estar funcionando como deveria ou não estar funcionando de modo algum. Imagine um corpo saudável sem um coração pulsando ou sem o cérebro dirigindo os sistemas do organismo. Mesmo que todos os demais componentes estivessem em perfeito funcionamento, a vida sem um dos mais importantes órgãos não seria possível. 

 

De forma semelhante, o sucesso no ambiente de trabalho – individual ou corporativamente – é resultado de muitas pessoas que possuem diferentes pontos fortes, dons e níveis de experiência compartilhar uma missão em comum. 

 

Recentemente tive a oportunidade de me reunir com membros de uma pequena empresa, primeiramente um a um, depois em grupo, para revisar suas respectivas características, forças, necessidades para trabalhar eficientemente com outras pessoas, e seu comportamento em momentos de estresse, quando suas necessidades não são satisfeitas. Através do uso de uma ferramenta de avaliação chamada de Método Birkman, eles aprenderam muito sobre si mesmos e sobre os demais.

 

Um dos grandes benefícios desse tipo de interação é aprender a valorizar e apreciar a capacidade e as diferenças uns dos outros, e como trabalhar em conjunto de forma mais eficiente, compreendendo como eles podem se complementar ao abraçarem vários projetos e tarefas. Os membros dessa firma aprenderam, como geralmente acontece, que o todo pode e deve ser maior do que a soma das partes. 

 

Vemos isso claramente demonstrado em equipes esportivas – atletas desempenhando suas funções e guardando suas posições, seja num campo de futebol, seja numa quadra de basquete ou num rinque de hockey. Todos têm papéis diferentes, mas para que o time vença todos precisam fazer bem o seu trabalho.

 

O conceito de equipe também é frequentemente apresentado na Bíblia, mesmo que um relacionamento crescente com Deus seja algo muito pessoal e individual. Aqui estão alguns princípios que a Bíblia cita:

 

O valor da fricção criativa.  Metal friccionado contra metal é uma antiga forma de afiar uma lâmina. De igual modo nossa interação uns com os outros, mesmo quando resulte em aparente conflito e caos, é uma das melhores maneiras de planejar, avaliar alternativas e descobrir novas soluções para os problemas. “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.” (Provérbios 27:17). 

 

O benefício do apoio mútuo.  Ás vezes, podemos estar determinados a fazer as coisas do nosso próprio jeito e resistir ao envolvimento de outros.  Entretanto, a combinação das forças, capacidades e habilidades de duas ou mais pessoas trabalhando juntas invariavelmente se prova mais eficaz e produtiva.  “É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se... Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade.”  (Eclesiastes 4:9-12). 

 

A importância do aprendizado compartilhado.  “Nenhum de nós é mais inteligente do que todos nós juntos” – diz o ditado. Uma das melhores maneiras de sermos uma equipe eficiente é compartilhando o entendimento, sabedoria e compreensão que adquirimos e obtivemos de outras pessoas.  “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros.” (II Timóteo 2:2). 

 

 

1.   Você á passou pela experiência de ter parte importante do corpo sem funcionar de modo apropriado? Quais foram os sintomas e como o restante do corpo tentou compensar dando suporte ao órgão ou membro doente? 

 

2.   Como você vê seu trabalho diário, como indivíduo ou como parte de uma equipe de pessoas trabalhando com vistas a uma meta ou objetivo em comum?

 

3.   Em sua experiência, quais os maiores benefícios ou recursos decorrentes da abordagem das oportunidades e desafios de trabalho como equipe? Como uma perspectiva de equipe pode enriquecer o crescimento e fertilidade espiritual?

 

4.   Quais os maiores obstáculos ou impedimentos para se trabalhar eficientemente como equipe?

 

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Romanos 12:4-8; 1Coríntios 12:12-26; 2Coríntios 3:5; 2Timóteo 1:13.

 

4.06.2026

Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos

 

Textos dos outros — Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos

Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.

A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve-Rainhas.

Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.

Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada.

Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.

A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.

Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.

(Crônica garimpada no livro As cem melhores crônicas brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva.)

*** 

NOTAS

1. Ninguém deveria ter que grifar e glosar um texto de Graciliano Ramos com loas pra convencer outro adulto bem letrado de que aquilo é bom. Mas há gente esclarecida que, em tempos de fome e feiura, atravessa campos cheios de abóboras, pepinos, melancias, e chega lá na outra ponta dando instruções aos serviçais: “não vi nada de especial, podem passar o trator”. Às vezes é a mesma gente que mostra às visitas e leva à grande feira da cidade… capim. Capim que qualquer um cultiva e que nasce nos terrenos mais desgraçados e inférteis. Então estou enfiando os pés nas botas e colocando a cabeça no chapéu pra conduzir uma curta visita guiada a este lote.

2. Primeiro, uma colheita de construções que não são mato: “anúncio miúdo”, “sentimento forte”, “em conformidade com o intelecto do seu portador”, “oração artística”, “uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão”, “essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência”, “fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos”, “a fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se”, “refugiar-se no banheiro”, “estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada”, “[um milagre pequeno, mas] bem inferior aos antigos”. Nada rebuscado, tudo sem rodeios e muito simples — mas é o simples que poucos conseguem compor…

…e que rudes leem em estado apático. Existem leitores habitados por um tipo de serenidade palerma que cruzam um texto pleno de construções atípicas e não percebem o que é bem dito. Transportam à leitura interesses mesquinhos como a fofoca, então só querem saber o que aconteceu e com quem.

A experiência de poder acessar os trechos mais grifados dos livros digitais no Kindle mostra que aquilo que vinga com o povo são as passagens sentimentais e de autoajuda, não as construções industriosas e as sutis análises de comportamento dos personagens. Nessa agremiação de motor biblioterápico, um Borges faria o recurso da canetinha amarela secar pelo desuso. Se o Brasil é uma pessoa, quem tem o hábito de ler é uma unha e quem sabe ler é a cutícula dessa unha.

2.1. Acredito que um bom autor clarividente atine que de todos os seus leitores — sejam eles vinte pessoas ou um milhão — só um baixo percentual vale a pena. Mas o bom autor não pode expressar isso em público. Ele depende dos maus leitores — o leitor por modismo, o leitor pra passar o tempo, o leitor voyeur, o leitor livro-é-sapato-elegante, o leitor que acha que é capaz e não é, o leitor parasita só-continuo-lendo-se-me-der-atenção-sempre-que-eu-quiser, o leitor isso-eu-também-faço, o leitor OK-mas-prefiro-Shakespeare, o leitor sem critério que acende o mesmo incenso à realeza e aos vermes — pra se estabelecer no mercado das letras. Esse mercado já não é exatamente livre, pois ser bem relacionado favorece muitas coisas. Menos livre ele é quando o bom autor fica refém de tontos. ¿Quantos tontos não “amam de morte” Machado de Assis? Nem é preciso se esforçar em cálculos, basta estar vivo e atento pra fazer uma estimativa. Ter voltado ao pó preserva o escritor de tanto mau senso e afetação.

3. Graciliano Ramos é cruel com a personagem da sua crônica, uma mulher que se pensa agraciada por Nossa Senhora e que resolveu homenagear a santa num “anúncio miúdo” de jornal. Ele zomba da simplicidade dela criando um cenário apocalíptico que possa justificar seu melodrama:

“Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro.”

Dá pra imaginar a expressão sardônica de Graciliano, na mente ou também na cara, ao juntar uma metralhadora, um guarda assassinado, gritaria, apitos, correria, buzinas, incêndio, um tropeçar em lençóis, uma testa na quina da mesa, a audição duma bala inexistente. “Momentos de aflição” que teriam feito uma coitada clamar pela mãe de Jesus, de trato mais fácil até pelo estereótipo da mulher acolhedora. Saída praticamente ilesa do pandemônio, ela agradece a graça alcançada — não tête-à-tête com a Virgem, pois não se atreve a tanto, mas publicizando a dádiva a “viventes ordinários”. Se o classificado foi algo que Graciliano de fato viu e não inventou, é um agradável exercício fantasiar a mulher pegando um dos diários seguintes, encontrando seu anúncio sendo estudado e conjecturado nos motivos, sentindo-se humilhada porque não foi tudo isso — ¿quer dizer que uma dor de barriga ou arruaceiros falando alto nas ruas não valiam o esforço de demonstrar gratidão? —, escondendo a folha do marido (ou do filho), sondando vizinhas pra saber se elas leram o jornal. A chacota fica completa no último parágrafo:

“Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.”

Sendo uma variante do gaslighting ou apenas frieza diante dum sentimento religioso forte, essa crônica é ouro.

4. “Um milagre” também mostra que fórmulas de escrita que funcionam pra uns podem ser dispensáveis pra outros, pois dá pra escrever bem de diversos modos. Parecem mais propensos à radicalidade estilística aqueles pitocos com mania de grandeza que acabam colando na fórmula pessoal de um escritor já reconhecido — e inacessível — e tentam aplicá-la a tudo pra forjar finura no debate textual sobre qualidade e bom gosto. Descobrem que o Prestigiado Autor rechaçava adjetivos — e se põem a descer espadas mal amoladas quando encontram quaisquer adjetivos na literatura moderna. Descobrem que a Magnânima Autora rechaçava advérbios de modo — e põem a língua pra fora quero-que-todos-vejam-meu-asco quando se deparam com advérbios de modo. Por aí vai. ¿E quanto ao Prestigiado Autor e à Magnânima Autora? Embora tenham criado as próprias regras do que cabe ou não na construção de um texto, muitas vezes reconhecem colegas que trabalham com outros valores, às vezes até bem opostos dos seus. O Mario Vargas Llosa ceifador de adjetivos admirava Gabriel García Márquez, O Adjetivoso, e escreveu uma tese de 600 páginas sobre ele.

Por isso aí está uma crônica breve de Graciliano Ramos repleta daquelas palavras que alguns rejeitam de modo incisivo nos seus códigos: justamente, infelizmente, precipitadamente, vagamente (duas vezes), realmente. Mas também não é pra qualquer um acertar assim.

5. Se essas NOTAS ampliaram sua visão da crônica “Um milagre”, recomendo que você a leia de novo.


Fonte: Textos dos Outros

Foto: Google

 

 

Com licença poética (1976) - Adélia Prado

 







Com licença poética (1976), de Adélia Prado

O poema mais famoso da escritora mineira Adélia Prado é Com licença poética, que foi incluído no seu livro de estreia chamado Bagagem.

Como era até então desconhecida do grande público, o poema faz uma breve apresentação da autora em poucas palavras.

Além de falar de si mesma, os versos também mencionam a condição da mulher na sociedade brasileira.

O poema é ainda faz referência a Carlos Drummond de Andrade porque usa uma estrutura semelhante ao seu consagrado Poema das Sete Faces. Drummond, além de ter sido um ídolo literário para Adélia Prado, era também um amigo da poetisa novata e impulsionou muito sua carreira.

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Canção, de Cecília Meireles

 






Canção, de Cecília Meireles

Em apenas quinze versos, Cecília Meireles consegue compor na sua Canção uma ode à urgência do amor. Singelo e direto, os versos convocam o retorno do amado.

O poema, presente no livro Retrato natural (1949), também conjuga elementos recorrentes na lírica da poetisa: a finitude do tempo, a transitoriedade do amor, o movimento do vento.

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,

que as nuvens me puxam pelos vestidos

que os ventos me arrastam contra o meu desejo!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,

nácar de silêncio que o mar comprime,

o lábio, limite do instante absoluto!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço

a anêmona aberta na tua face

e em redor dos muros o vento inimigo…

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã eu morro e não te digo…


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

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