11.05.2025

ALITA! Ó ALITA! Que foi feito de ti? - R. Santana

 

ALITA! Ó ALITA! Que foi feito de ti? - R. Santana

A  ALITA foi fundada em 19 de abril de 2011, numa das salas da FICC, 16 homens e mulheres ali reunidos com o objetivo comum de fundar uma entidade que preservasse a história dos amantes das letras e das artes de Itabuna e região, ao mesmo tempo, que essa chama do conhecimento e do saber fosse perene e novos valores fossem incentivados.
Naquele dia, foi eleita por assentimento uma diretoria. O Regimento e o Estatuto foram feitos em tempo recorde, pois dentre os membros da nova diretoria, havia gente de saber jurídico relevante, a exemplo de Marcos Bandeira, Gustavo Fernando Veloso, Antônio Laranjeira, Eduardo Passos e, intelectuais de escol: Ruy Póvoas, Lurdes Bertol, Dinalva Melo e Genny Xavier, dentre outros que a memória não me ajuda lembrá-los.

O primeiro presidente da ALITA, o juiz (não ex-juiz, porque quem foi rei continua majestade), Marcos Bandeira, ele tornou de fato e de direito os acadêmicos da ALITA na Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC. Foi um evento memorável com a presença do presidente da Academia de Letras da Bahia – ALB, o escritor Aramis Ribeiro Costa. Quase todos acadêmicos compareceram e foram empossados.

Eu fui seu primeiro tesoureiro, arrecadei a taxa de contribuição mensal dos acadêmicos com determinação e lisura, junto com o presidente, conseguimos contratar um buffet e a festa de posse dos membros da nova academia foi regada com champanhes, refrigerantes, vinhos, cervejas, doces e salgados. Há quase 8 anos, lembro-me que o custo da festa excedeu mais de R$ 4.000,00 (quatro mil reais). Com organização e critério, pagamos todas as despesas sem necessidade de recorrer aos gestos filantrópicos dos acadêmicos.

Com o afastamento, por motivos particulares, do juiz Marcos Bandeira da presidência, a entidade começou a degringolar, porque assumiu a presidência da ALITA a juíza e professora da UESC, Sônia Maron. Senhora séria, de vida pregressa ilibada, porém, de temperamento autoritário, racional, pouco dada às discussões contraditórias e, pouca sensibilidade para compreensão e aceitação das diferenças individuais de seus pares, ou seja, pessoa mais de confronto do que de consenso. Sua falta de habilidade para o dissenso foi gritante que, poucos dias que assumiu a presidência da ALITA, advertiu protocolado um membro fundador da entidade por manifestar desconforto administrativo com privilégios para alguns em detrimento de outros, algum tempo depois, por motivos quase idênticos, urdiu com outros membros um “Termo de desagravo” em jornais e sites de literatura da cidade para o mesmo membro.

Faz-se necessário esclarecer, por justiça, que Sônia Maron não foi a única responsável pelo estado de inércia que se encontra a nossa academia de letras itabunense, o escritor Cyro de Mattos, também de temperamento autoritário e intolerante, talvez, foi o mais nocivo para desenvoltura e reconhecimento da ALITA na comunidade desde sua fundação, como poeta e escritor reconhecido aqui e lá fora, usou esta condição para formação de um “establishment” para influenciar e decidir todas as ações e decisões acadêmicas – indicou e aprovou a maioria relativa dos membros da entidade, formou diretorias e controlou a revista e o site ao seu bel-prazer sempre.

A superioridade de Cyro de Mattos na entidade literária itabunense foi/ou é que, no final do mandato de Sônia Maron na presidência da ALITA, ele indicou e elegeu para substitui-la, a coordenadora do “Memorial Adonias Filho”, professora Silmara Oliveira, que trabalha e reside em Itajuípe. Aqui, não se coloca em dúvida sua capacidade administrativa e seu mérito pessoal, mas a inconveniência dela residir e trabalhar noutra cidade, não ser conhecida na comunidade itabunense e não possuir livre acesso às autoridades políticas e administrativas de nossa cidade.

Cyro de Mattos tornou-se ao longo desses anos, o Mecenas da ALITA, jornalistas e comunicadores que prestigiaram sua literatura de alguma forma, foram presenteados com o título notável de acadêmico alitano, contrariando o Estatuto da entidade que diz: “Art. 2º - Só pode ser membro efetivo da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário. As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes”.

O objetivo deste artigo não é denegrir a entidade ou pessoas, mas chamar a atenção de outros membros para tirar a academia da letargia que se encontra: site desativado (com prejuízo do seu arquivo e a divulgação de novas produções), projetos inexistentes, salvo, o incipiente “Roda de Leitura” que está nas escolas de ensino fundamental, nenhum estímulo às novas produções de seus membros, nenhuma ação política para reconhecimento de entidade de utilidade pública e a democratização da revista “Guriatã”, hoje, só os apaniguados de seu diretor, têm ali, seus textos publicados.

É lamentável, depois de uma consulta, a resposta que tive da direção atual da ALITA: “Não estamos tendo reuniões. Por motivo de força maior, estamos inativos este ano. Só estamos trabalhando no “Roda de Leitura” em várias escolas e na biblioteca municipal, com ótimos resultados! O site está com problema e a Raquel está tentando resolver”.

Quero enxertar neste texto, parte de minha crônica publicada no Saber-Literário e no site Recanto das Letras, em 17.09.2015, com o título: “Academia”. Nessa data, discorri embasado num livro de Jorge Amado: “Farda, fardão, camisola de dormir”, que as futricas, as intrigas, a política acadêmica e os egos inchados que permeiam a vida dos imortais da ABL e, conclui:

“A academia é a entidade que preserva para sempre o melhor pensamento intelectual de cada época, por isto, diz-se que os seus membros são “imortais”, ou seja, sua obra não morre. Mas, com a proliferação dessas entidades (a cidadezinha mais remota do país tem sua academia), a produção intelectual dá lugar à importância social, econômica e política dos seus membros na comunidade, aí, não se tem um pensamento intelectual refinado, mas uma academia de notáveis sociais”.

Hoje, tenho registro da “União Brasileira de Escritores – UBE”, que me orgulha e agradeço a Deus, as condições de saúde física e mental que Ele me deu para receber essa honraria, todavia, nunca me encontrei como escritor, eu sou apenas, um amante das letras e da arte de escrever. Quando recebi o telefonema do preclaro juiz Marcos Bandeira (não o conhecia pessoalmente), para fazer parte da nova academia de letras itabunense que se fundava, fiquei contente que nem “pinto no lixo”, custou-me acreditar merecedor de tamanha distinção, por isto, não me conformo com o destino menos histórico que algumas pessoas querem dar à Academia de Letras de Itabuna – ALITA. Abaixo, transcrevo “ipsis litteris”, as palavras de um dos seus mais insignes fundadores:

“Essa é a Academia de Letras de Itabuna - ALITA, que nasceu para agigantar-se com seus fundadores e integrantes plugados na sensibilidade e focados no futuro em direção à ocupação dos espaços literários - homens e mulheres, que aceitaram o desafio de construir no presente o que lhes for possibilitado para honrar ao povo dessa terra grapiúna”. Autoria: Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna(BA).
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 24/10/2018

No túnel do tempo - R. Santana


No túnel do tempo - R. Santana
Itabuna, 27 de outubro de 1997.

Amigo Francisco:

Estou usando deste expediente (carta), depois de algum tempo, para falar com você, por dois motivos: primeiro, pela inconveniência de abordar um problema particular num encontro público; segundo, não irei ao seu gabinete tomar o seu tempo para abordar um problema que não tem solução e não se exige, pois, o que vou lhe dizer não passa de um desabafo.
Você me procurou, xeroxou os meus documentos, entregou-os ao Sr. Secretário da Educação (conforme sua afirmação), com o objetivo de eu ser designado para direção de um colégio estadual. Não fui designado e não estou, aqui, lamentando o desfecho, lamento a falta de consideração, o descaso pelos sentimentos das pessoas amigas, que sempre estiveram empunhando a atual bandeira política, senão, integralmente (não havia parceria), porém, sempre com a mesma coerência há mais de 20 anos.
Depois de algum tempo, as pessoas ainda me perguntam pela malfadada direção com sutil gozação, porque alguém teve o mérito de espalhar a notícia para meio mundo, inclusive, contrariando o seu pedido de sigilo, enquanto isso, concomitantemente, eu era “fritado” por vocês sem nenhum gesto amigo justificando minha defenestração e deixando à mercê das aves agoureiras, que, quanto maior o fracasso, maior é a revoada.
Eu sei que você não é o responsável direto por essas designações, todavia, pela sua intercessão, muitos foram nomeados para direção de importantes colégios de Itabuna (não irei citá-los por questão ética, mas a maioria de suas indicações nunca votou em Fernando ou em ACM), embasados, somente, no seu atual prestígio político e na sua vontade de prestigiá-los e, alguns deles não possuem a minha experiência profissional (desculpe-me a imodéstia), que o seu velho amigo adquiriu ao longo desses anos.
Reconheço que você sempre foi compreensivo e prestativo comigo quando estava na direção do CEI (entretanto, nunca abusei, mesmo quando minha filha estava hospitalizada e no limiar da morte), mas, não o fiz com você de modo diferente, quando eu era o diretor do CEI, sempre atendi aos seus pedidos e cheguei a contemporizar algumas reclamações de seus alunos (o professor Mateus é testemunha) com o gerente da DIREC 07, daquela época. Nunca lhe falei, não estou alegando, estou justificando, apenas, o meu descontentamento e a minha decepção, não pelo cargo que não obtive (para mim, é de somenos importância dirigir uma escola pequena e sem recursos, seria mais encargo do que cargo), porém, pela maneira que fui alijado, sem nenhuma satisfação, sem nenhum apreço.
As pessoas mudam com o cargo, como camaleão muda de cor para não ser abocanhado pelos inimigos. Veja o exemplo da minha cunhada, ela solicitou sua remoção desde Edehilda, respaldada legalmente, pois além de ter duas décadas no estado da Bahia, com bons serviços prestados à educação, reside vizinha à escola, ocorreu o quê? Você não considerou nossa amizade e designou outra professora para o seu lugar com o pretexto que a professora foi transferida de outra localidade, ao invés de aproveitar a oportunidade, se desejasse, para recoloca-las, isto é, colocar a novata na escola da minha cunhada e designar Vandi para o seu lugar de direito – se é que prevalece o direito.
Enfim, espero continuar sendo seu amigo, afinal, os cargos e as contingências políticas são circunstanciais. A amizade e o respeito mútuo devem ser preservados. Nós estamos numa democracia, em pleno estado de direito, não exteriorizar o nosso descontentamento, é hipocrisia, é covardia, mesmo quando é para nossos amigos. A “bronca” e o destempero são necessários para manter a autoestima. Eu tenho o “pavio” curto, não gosto de falsidade ou alvo de chacota, é próprio do meu caráter, franco, às vezes, eu sou incompreendido pelos hipócritas, mas sempre com probidade e lealdade aos que sou grato.


Cordialmente,

Rilvan Batista de Santana

Nota Editorial:
Esta semana, remexendo os meus arquivos, encontrei esta correspondência de 21 anos atrás: é uma carta de desabafo que fiz ao professor Francisco Carlos, naquela época, gerente da DIREC 07, Itabuna (BA).
Hoje, seu valor é estimativo, um documento histórico de 21 anos, que se fosse expedido por uma pessoa desorganizada, seu destino seria o lixo, mas gosto de guardar todas os meus documentos expedidos e recebidos.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 28/11/2018

Alterado em 28/11/2018 

A FICC FICA... - R. Santana

 


A FICC FICA...

A FICC FICA...
R. Santana


Não sou um pensador profissional, um filósofo de nomeada, mas um cidadão comum que não fede nem cheira nas coisas da política. Concordo com Aristóteles que “o homem é um animal político”, o estagirista tem lá suas razões, quer queira quer não, a política nas suas mais variadas formas e acepções, mexe com o homem político ou aquele que não se diz político. Se algum deputado federal, por exemplo, como medida de contenção de despesa, encaminha um projeto para extinção do nosso santo 13º. Salário, e, sancionado, afetará o bolso de todos sem exceção.
Por isso, resolvi meter o bedelho na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC, não que eu seja poeta, escritor, trovador, compositor, cantor, pintor, ou, coisa que valha, mas um lagartense radicado nesta cidade há muitos anos, um nordestino cabra da peste, que gosta e ama esta terra.
Discordo daqueles que dizem que a FICC tem problema gerencial. É sabido o empenho, a dedicação, a desenvoltura, o sacrifício pessoal, de todos os gestores que passaram por ali para que a entidade deslanchasse e atendesse aos interesses dos artistas de Itabuna e quiçá do Sul da Bahia, porém, eles sempre esbarraram na falta de recursos financeiros, acima de tudo, na falta de vontade política de prefeitos que não valorizam a educação nem a cultura, porque a educação liberta do domínio intelectual e a cultura é a expressão maior da alma humana.
O que não tem faltado ao longo desses anos nessa entidade de promoção artística, são projetos, seminários, oficinas, apoio logístico aos novos autores e outras ações de cunho cultural. Porém, lá falta tudo, inclusive, um espaço condizente às manifestações culturais atuais. O descaso e a falta de respeito são tão agressivos com os artistas da palavra e da expressão, que a entidade foi instalada num prédio velho do Século XIX, uma antiga “cadeia”, do tempo de Tabocas, sem as mínimas condições estruturais e funcionamento.
A FICC não pode ser estigmatizada como “cabide de emprego”, sua importância para sociedade itabunense e baiana, vai além de um repositório de afilhados políticos refugados de outros órgãos do município, dos conchavos de bastidores, do toma lá da cá dos políticos descomprometidos, mas deve ser prestigiada como uma entidade de cabeças pensantes, o nous do município, o princípio ordenador, um celeiro de ideias e projetos comunitários.
Nesse tempo de mudança administrativa em que um novo alcaide irá assumir o governo do município, é de somenos importância sua cor partidária, seu credo, sua orientação sexual, sua raça, mas se ele tem a sensibilidade de Mecenas, a ética de Aristóteles e o racionalismo de Descartes, portanto, no meu modo tabaréu de ver, não é “E A FICC COMO FICA?”, mas dizer-lhe, meu caro leitor, que a FICC FICA...

Autor: Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 19 de novembro de 2012.








A face obscura do homem - Armadilha do destino ( Capítulo 17)

 


A face obscura do homem - Armadilha do destino ( Capítulo 17)

17
Armadilha do destino

Os dois homens se encontraram na rampa que dava acesso ao navio por acaso, pareciam irmãos gêmeos. A pele, a altura, os cabelos, os olhos, a idade e os traços fisionômicos pareciam moldados na mesma forma. Poderiam ser irmãos de verdade se um não fosse de Caxias do Sul, gaúcho e filhos de alemães, e, o outro, joinvillense e filhos de pais italianos, além do fato que os seus pais nunca foram próximos nem no Brasil nem nesses países de origem. Coincidência!...
Em comum, naquela viagem, é que ambos tomaram um navio do “Lloyd” brasileiro em Florianópolis e desembarcariam em Salvador, daí em diante, ambos pegariam um navio da “Companhia Baiana de Navegação”, o gaúcho iria pra Porto Seguro e o catarinense iria para Ilhéus, cidades do Sul e extremo Sul da Bahia.
Porém, na rampa do navio do “Lloyd”, o mal começou tomar conta do bem por algum tempo, mas não por todo tempo, com a carteira que caiu do bolso de um dos passageiros:
- Senhor!!!
-Sim!?
- Sua carteira!. – o outro tomou um susto, bateu a mão no bolso, realmente, lhe faltava a carteira.
-Oh!... Obrigado. – completou:
- Se eu estivesse como Honório de Machado de Assis, jamais a teria de volta!
- O senhor é advogado?
- Sou. Não me chame de senhor, afinal, parecemos ter a mesma idade!?
- Completei 35 primaveras, faz pouco!...
- Não me diga?... Completei este mês, também, 35 anos de vida! – O advogado lembrou-se de um detalhe:
-Aliás, ainda não nos apresentamos! – o outro estende a mão:
- Apolinário Gaiardoni, padre diocesano!...
-Padre!? Ah, Ah, Ah... Agora, sei que este casco velho não vai afundar!... – e acrescenta:
- Hans Manfred Spitznamen, seu criado!...
- Alemão?
- Não. Filho de alemães!...
Rilvan Santana

11.04.2025

A face obscura do homem (Capítulo 2)

 


A face obscura do homem (Capítulo 2)
 
2

Cinco anos antes

Em 19 de março de 1953, Itabuna estava engalanada para receber o novo pároco. Havia uma grande expectativa dos cidadãos católicos (maioria absoluta, naquela época), todos ansiavam mudanças nos destinos da igreja de São José, padroeiro da cidade. O antigo pároco, velho e esclerosado, foi recolhido ao mosteiro Beneditino de Salvador, para descansar e morrer em paz. Essa mudança decorreu por interferência do prefeito e outros líderes políticos, de coordenadores e vice-coordenadores de grupos religiosos e dos movimentos comunitários, enfim, da sociedade civil e religiosa da cidade.
Às 16 horas, todos preocupados com o atraso do novo pároco - previsto para o início da tarde -, um automóvel pára de repente na frente da igreja, para alívio das beatas e satisfação dos demais, é que logo se reconheceu pelo solidéu, a figura impoluta de Dom João Santos da Silva, bispo da diocese de Ilhéus com jurisdição no Sul e extremo Sul da Bahia.
A igreja estava repleta, gente se apinhava por todos os lados, o bispo e mais três padres entraram na nave em fila indiana, ninguém ainda sabia quem seria o pároco, porém, um deles chamou a atenção pelo porte e pelo jeito europeu: alto, branco, cabelos loiros e olhos azuis e não tinha mais de 35 anos de idade, soube-se depois que se chamava Apolinário Gaiardoni, o novo pároco.
O padre Apolinário Gaiardoni além de bonito, ele era um exímio orador, com recursos retóricos brilhantes, mas conservador demais para sua idade (os mais esclarecidos esperavam um discurso com menos fanatismo e mais progressista), todavia, a assembleia atribuiu o radicalismo exegético do novo padre ao desejo de agradar o bispo que se encontrava presente.
Ele usou o “diabo” e o “inferno” para “punir” maus católicos, àquelas pessoas que se afastavam da igreja, de sua religião de nascimento, religião dos seus pais e dos avôs, religião do papa, sucessor de São Pedro, e, recorriam às bruxarias e às seitas protestantes, com cenas tão dantescas e convincentes, que sua retórica sobrepujou o falso conteúdo.
Dona Clô, toda serelepe, não se cansou de ajudar para que tudo ocorresse nos conformes: arrumação da sacristia, flores nos vasos, tolha de mesa, limpeza das imagens e faixas de boas vindas ao novo pároco. Embora tivesse fama do sovina, nas coisas de sua igreja, ela não poupava tempo nem dinheiro, dois meses antes da posse do novo pároco, Dr. José Maria teve que despender alguns recursos no retelhamento, na pintura e nos retoques de pedreiro para que a igreja estivesse pronta para o tão aguardado acontecimento.
Dr. José Maria não era herege nem beato, tinha sua maneira de acreditar em Deus, nutria por Jesus Cristo grande respeito histórico, herdara dos pais o gosto pelo trabalho e o faro para os bons negócios, exercia também a profissão de advogado criminalista, ultimamente, andava meio desleixado com suas causas, os seus negócios o absorviam, frequentava a igreja católica mais por insistência da mulher do que movido pela fé. Ele era um homem bem informado, leitor de bons livros, gostava de poesia sem descuido das ciências jurídicas, cultivava como ninguém os textos filosóficos e a biografia dos seus autores.
No dia da posse do novo pároco Dr. José Maria se vestiu com esmero, encomendou um terno novo ao seu compadre Juca, pois os outros estavam surrados das lides forenses, não queria ir, achava as homilias chatas e repetitivas, costumava dizer com humor para uma coisa por demais conhecida: “... igual missa de padre”, porém, dona Clô, mostrou-lhe a importância do evento: a substituição de um pároco velho, que havia batizado os seus filhos, por um padre de ideias novas de “sangue nas veias” que certamente, iria dar um novo impulso na igreja de São José, o pai de Jesus Cristo e o padroeiro da cidade.
A posse do novo pároco foi um sucesso, dona Clô leu uma mensagem de boas vindas ao novo pároco, representando todos os grupos, foi bastante diplomática: generosa com o pároco que saiu (problemas de saúde e merecido descanso), e, esperançosa com os novos rumos que o novo padre iria imprimir na paróquia. Valorizou no seu discurso o trabalho e a união de todos os membros da paróquia, que não mediam esforços nem tempo para que tudo ocorresse de acordo o calendário planejado anualmente. E, findou tecendo rasgados elogios ao seu marido que como rei Salomão construiu o Templo de Jerusalém, ele havia feito com os seus recursos, uma reforma no prédio da igreja que duraria para sempre.
Dr. José Maria estranhou a mania de grandeza da esposa, a comparação do seu feito com a magnificência do Templo de Salomão, mas atribuiu o arroubo de dona Clô à importância histórica do momento. Nada é para sempre nem mesmo o legado deixado pelo filho de David e protegido de Jeová e do profeta Natã
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 28/05/2019

Revirando o baú da ALITA - R. Santana

 


Revirando o baú da ALITA - R. Santana

Há 06 anos, no dia 14 de junho de 2013, na sala da ALITA, numa discussão acalorada e democrática, insurgir-me com o grupo que monopolizava, naquela época, o site da academia. Insurgir-me contra a hipocrisia, a demagogia, a dissimulação e os artifícios que a direção desse site usava para contemplar, somente, as divulgações e as produções literárias de alguns membros em detrimento daqueles que não eram amigos do egrégio diretor da revista "Guriatã", o escritor Cyro de Mattos, ou, não menos famosa, a presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA, Dr.ª Sônia Maron.

Não é verdade que solicitei que todos tivessem, individualmente, a senha desse site institucional, todavia, meu pleito foi pra que cada membro tivesse sua página com senha individual, que é diferente, eles confundiram alhos com bugalhos, conforme o texto (abaixo) de advertência escaneado do original. Será que os acadêmicos Merval Pereira, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney, Ana Maria Machado e Marco Lucchesi e Nélida Piñon irão submeter, a priori, seus textos ao diretor do site da ABL para serem ou não publicados? Evidente que não, cada um tem sua página pessoal para publicar suas produções, é prerrogativa do diretor do site da instituição administrá-lo para que essas produções não tenham um viés pessoal ou ideológico que destoem das normas regimentais, jamais impedir-lhes - segundo Caetano Veloso: "...é proibido proibir."

Outra inverdade é a afirmação: “... que todos os presentes sentiram-se atingidos pelo seu comportamento intempestivo, agressivo e descortês”. É verdade que, eu senti-me acuado, desprestigiado, alijado, porém, em toda minha vida, eu soube respeitar os meus superiores hierárquicos, notadamente, se o meu superior é uma mulher, nunca me faltaram respeito e gentileza no trato com as mulheres. Evidente que me irritei, mas dentro da tolerância não do desrespeito, ademais, na primeira oportunidade que tive, eu pedi desculpas aos membros da academia em plenário.

A advertência protocolada, abaixo, ainda me recomendava, sob ameaças regimentais que não publicasse nenhuma pauta e convite da ALITA, mesmo com a melhor da intenção, isto é, um ato de censura, cerceamento e autoritarismo explícitos, resquícios de tempos idos, tempos de atos discricionários.

Hoje, os tempos são outros, veja o exemplo do STF que voltou atrás com as revistas e sites da CRUSOÉ e ANTAGONISTA. Além disto, recebo por e-mail, com frequência, da Academia de Letras da Bahia – ALB, informações e convites para serem publicados no Saber-Literário que em nome da cultura literária e da ciência, eu estou sempre disponível.


Eu não me quedei nem aceitei ser censurado, amordaçado, continuei a criticar as mazelas da ALITA, já que me excluíram das reuniões da plenária. Uma das mazelas que eu criticava era a falta de comunicação da entidade, até hoje, ninguém conhece a ALITA, não tem penetração na comunidade itabunense, quase que não tem serviço prestado (exceto, as "Rodas de Leitura" na Escola Pio XII e no Instituto Municipal Teosópolis, em 2018, pelas abnegadas confreiras Lurdes Bertol e Raquel Rocha), não é presença nos eventos literários e outros eventos públicos, não é reconhecida por Lei como entidade de utilidade pública, etc. Naquela época, o site parecia um obituário, só dava notícia de morte, pra piorar, as mensagens póstumas ficavam dias na primeira página do site, afora isto, o site servia para publicar os textos requentados do escritor Cyro de Mattos sobre futebol ou seus poemas insossos do Rio Cachoeira.


A sanha, a ira e o ódio desses senhores não pararam nessa ADVERTÊNCIA PROTOCOLADA, no dia 10 de março de 2017, fui exposto, denegrido, alijado e achincalhado, publicamente, em sites e semanários da terra com um famigerado “MANIFESTO DE DESAGRAVO”. Este manifesto surgiu pelo desejo e articulação dos confrades Cyro de Mattos e Sônia Maron, face às mazelas da entidade que continuei a criticar através do Saber-Literário.

Dentre aleivosias e acintes que eu li no “Manifesto de Desagravo”, destaquei em negrito: “... não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade"; "... não se trata de um valhacouto de idosos como ofende injustamente o acadêmico inconformado e blogueiro Rilvan Batista de Santana”.

No primeiro destaque, os signatários discriminam-me pejorativamente quando se refere à finalidade da ALITA: “Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade”. No segundo destaque, os confrades subscreveram em algo que nunca falei ou escrevi: “Não se trata de um valhacouto de idosos como ofende injustamente o acadêmico inconformado e blogueiro Rilvan Batista de Santana”. Jamais iria afirmar que a ALITA é um refúgio de velhos, pois, eu também sou idoso, além de ter tido uma educação com significativos princípios morais, éticos e religiosos, sempre respeitei o outro.

Os confrades foram incoerentes quando me deram o apodo de “figura inexpressiva”, pois, eu fui indicado por alguns próceres para ser um dos fundadores da academia de letras itabunense. Se fui indicado para configurar entre esses notáveis, é que tenho algum gosto literário, portanto, deixo de ser uma pessoa inexpressiva para ser um igual dentre os confrades alitanos.

Porém, far-se-ia justiça se nesse manifesto não fosse embasado no ódio e na retaliação, mas na verdade, que as minhas críticas não eram para denegrir a entidade, sim, para que ela fosse reconhecida pela comunidade e todos os seus membros tivessem igual assento.

As minhas atitudes desencontradas com os próceres da academia decorreram das minhas boas intenções de vê-la na liderança da cultura itabunense. Acho que divulgar suas ações e feitos contribui para seu reconhecimento comunitário, porque a academia é uma entidade literária e não uma entidade mística fechada, pitagórica, maçônica.

Embora as academias brasileiras sejam instituições privadas, isto é, não estão sob a égide do estado, elas se fazem necessárias transparentes, de visibilidade pública, porque elas sobrevivem com a contribuição dos seus membros, doações particulares e verbas públicas.

Hoje, até as sessões do STF e outros órgãos de poder são transmitidas pela TV aberta e pelo rádio, a exemplo do Senado e da Câmara Federal. A palavra de ordem dos dias atuais é: transparência! A transparência embasa-se em ações democráticas, por isto, a transparência de uma entidade pública, deve estar ao alcance de pessoas interessadas.

Faz-se necessário que o presidente duma academia de letras deve ser escolhido não entre os mais renomados, os mais criativos, os mais notáveis, os mais produtivos intelectualmente, os "medalhões", mas entre aqueles que sabem administrar conflitos e respeitar diferenças, dentre aqueles de bom senso cartesiano. O dirigente duma entidade que sobram cabeças pensantes, ele deve ser firme, independente e, sem autoritarismo.


Suponho que esse texto de advertência protocolada, deve ter sido escrito pelo escritor e babalorixá Ruy Póvoas, pois em sua introdução esbanja Leon Tolstoi, digressões sobre o belo, a flora e a fauna, coisas de somenos importância para se admoestar um colega de entidade literária - cultura inútil! Com devida vênia, sugiro ao ilustre escritor (se o texto não foi de sua autoria, ele foi um dos signatários), que noutra oportunidade, seja mais técnico, mais objetivo e, menos escorregadio. Outro fato que me chamou a atenção, é que os ilustres escritores Ruy Póvoas, Gustavo Veloso e Carlos Eduardo Passos, que subscreveram essa abjeta advertência, eles não estavam no dia da controvérsia.

Alguém me perguntou por que voltar a esse assunto? Respondi-lhe que há um ditado popular que diz: “Quem bate esquece, quem apanha não”. Afora isto, hoje, eu tenho compromisso ético com a academia, não, compromisso de amizade com esses senhores, salvo, se eles tivessem a grandeza moral de reconhecer que foram intolerantes, egoístas e injustos, que me deixaram marcas na alma.


Eu nunca vou esquecer dos momentos não dormidos que passei, a humilhação, a rejeição dos confrades, as explicações repetidas que tive de dar aos meus amigos e conhecidos para justificar as minhas boas intenções, que não sou mau caráter nem mal-educado e agressivo com ninguém, principalmente, com as senhoras e as senhoritas. Além disto, foi um bom motivo, naquele momento, para que os meus "inimigos" explorassem por algum tempo em sites e jornais, o mal-estar que causei na entidade, embasados nas afirmação textuais desses confrades signatários.

Também, jamais vou esquecer do encontro que tive com a professora Silmária Oliveira, recém eleita presidente da ALITA, no Shopping Jequitibá, quando lhe fiz uma carta para voltar frequentar às reuniões da academia e tive como resposta: "Que não iria me sentir bem no grupo", e a prof.ª Lurdes Bertol ainda acrescentou que um dos confrades condicionou: "Ele ou eu!" Mesmo lhe disponibilizando uma pasta com mais de 20 documentos digitados de minha atuação na ALITA, eu saí dali mais decepcionado e humilhado que antes, lamentei ter tomado àquela reaproximação, de acreditar nos sentimentos bons das pessoas.

Hoje, 14 de junho de 2019, eu comemoro 6 anos de desencontros e frustrações de acadêmico da ALITA, que modestamente ajudei fundar e fui seu primeiro tesoureiro por 2 anos. Espero que antes de passar daqui pra lá, alguém menos presunçoso, menos egoísta, mais grandioso, mais generoso, agregador e menos medalhão, ele restabeleça o meu status quo dantes. na primeira academia de letras itabunense.

Enfim, invocando o poeta Mário Quintana, quando rejeitado para Academia Brasileira de Letras - ABL: - Todos esses que aí estão atravancando meu caminho. Eles passarão... Eu passarinho! Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna (BA), 14 de junho de 2019.


Rilvan Batista de Santana

R. Santana


Post Scriptum:

Para que este artigo não ficasse enorme, achamos conveniente não anexar os textos: ADVERTÊNCIA PROTOCOLADA nem o MANIFESTO DE DESAGRAVO, se necessário, temos os originais.

Fontes:

1) Arquivo do Saber-Literário, 2) "Advertência Protocolada" e 3) Manifesto de Desagravo (10.03.2017)



O Fantasma - R. Santana

 

O Fantasma
R. Santana
 
O meu amigo Pedro é pior do que S. Tomé. São Tomé duvidou, mas creu na ressurreição quando encontrou Cristo Ele mesmo vendo ainda usa empecilho e dúvida. Não é uma dúvida cartesiana, racional e inteligente. Ele é um niilista sem ser niilista. O niilista nega a verdade absoluta, mas propõe um novo modelo social a partir do zero. Pedro é mais um chato que não acredita porque não quer acreditar, duvida pelo prazer da duvidar.

-Pedro, saímos de Vitória da Conquista com quatro carretas carregadas de café com destino ao Porto de Ilhéus, ao invés de passarmos por Itabuna e pegar a BR-415, pernoitamos em Uruçuca por motivos particulares e o dia ainda escuro, puxamos os carros.

-Se vocês quatro viajavam juntos como só você viu o fantasma?

-Pedro, não se viaja um colado no outro, há um intervalo de tempo de cinco ou mais minutos. Assim que a garota me levou até o carro virado quase embaixo da ponte, voltei para pedir socorro e já encontrava os meus companheiros parados no acostamento, preocupados comigo.

-Sua história estar parecendo de pescador, compra o peixe para arrotar eficiência de pescador. Vocês usam tantos artifícios de segurança, iriam se render aos apelos de uma garotinha, na bruma da madrugada, na beira do asfalto, que poderia ser uma isca? Vai pra lá...

-Não estou lhe pedindo para acreditar. Você que me pediu pela enésima vez para repetir essa história.

-Eu gosto tanto de ouvir suas histórias de caminhoneiro que mesmo não acreditando nelas, espairece-me a alma.

-Pedro se você não fosse meu amigo, eu iria mandar você...

Mudamos de assunto, senão, iria aborrecer-me com o meu amigo Pedro, ele é polêmico, mas aprendi que numa amizade contam mais os defeitos do que as qualidades. Quem não sabe conviver com os defeitos não alcança as qualidades. Ele é ranzinza, enjoado, mas, não conheço pessoa mais prestativa e solidária do que Pedro. Tem um coração que não pode ver alguém sofrer, é capaz de vender a mulher e empenhar os filhos se isto fosse possível para atender às necessidades de um amigo.

A história que lhe contei foi verdadeira, não foi um conto da carochinha. Sei que é difícil acreditar em visagem, assombração, alma penada, fantasma, enfim, cousas do outro mundo, entretanto, existe uma contradição na negação porque quando se nega a existência de um ser, é que o não-ser existe.

Peço que o amigo leitor tenha paciência que irei repetir a história que comecei contar para Pedro.

Pernoitamos em Uruçuca. Tínhamos condições de dormir em Ilhéus. Era cedo quando chegamos à Uruçuca, naquela última quinta-feira, à tarde, do mês de maio de 2004. Porém, um dos colegas tinha residência e família ali; outro, uma xodó de priscas eras. Eu e o colega mais novo não tínhamos mulher nem xodó, mas estávamos doidos pra cair na gandaia, tomar umas cervejas e depois dormir enroscado com alguma andorinha da terra.

Acordamos às quatro da madrugada. Tomamos um café, fumamos, fizemos uma vistoria nos carros e partimos. Por ser o mais velho e o mais experiente, o meu carro ia na frente. Juliano, o motorista mais novo e mais moleque, costumava falar:

-Deixe o coroa ir na frente, experiência é posto! - Não gostava de puxar os demais carros, pois teria que ser o mais rápido e o primeiro a enfrentar o perigo. Embora a brincadeira de Juliano fosse de mau gosto, gozando dos meus anos de estrada e de idade, a expressão “experiência é posto”, dava-me fumos de autoridade no volante e enchia o meu ego, já que estava prestes à aposentadoria.

Acredito que viajamos menos de 25 quilômetros. Longe ainda, avistei uma garota loira, os cabelos compridos e escorridos nas costas, pedindo pra parar. Pensei acelerar o carro e passar distante, poderia ser uma isca, nos assaltos, era comum o uso de mulheres e menores para atrair o incauto motorista ou o motorista de bom coração. Porém, fui refreado por uma força estranha e impedido de continuar, parei poucos metros distantes da garotinha.

-Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!... Venha, eles estão lá embaixo dentro do carro. – Não pensei uma fração de segundo (não sei se os astrônomos têm um instrumento eletrônico capaz de medir um tempo tão infinitesimal), peguei a garota pela mão e descei a ribanceira para acudir os pais dela e seu irmão.

Era um quadro dantesco sem ser o quadro de Dante Alighieri que só tinha fogo. Um carro da Fiat, quatro portas, tinha arrastado matos e pedras na descida desgovernada de uma ribanceira e virado uma ou duas vezes e quase caído dentro do rio que cortava a rodovia. O motorista estava desmaiado, debruçado sobre o volante, um menino chorando e uma mulher gemendo e sangrando presa ao sinto de segurança. Voltei-me para garota:

- Espere-me aqui um minuto, vou pedir ajuda aos colegas que estão chegando!

Quando retornei, os meus colegas já tinham estacionado à traseira da minha carreta. Gritei para todos:

- Correm, tem um carro lá embaixo com uma família dentro. – Tem alguma vítima grave? – perguntou Juliano – Não sei, vamos lá! – intimei-os.

Todos desceram rapidamente. Janjão tirou logo o menino que estava com um choro traumatizado. Juliano e Zezéu foram em socorro da mulher, enquanto eu procurava com dificuldade abrir a porta do motorista para lhe prestar ajuda que coadjuvado por Juliano, conseguimos retirar o motorista do carro. Era um homem enorme, que começou gemer à medida que o tirávamos do automóvel.

Além de Janjão ter ido buscar água no seu carro para o menino, telefonou para polícia de Uruçuca solicitando-lhe providências e organizou uma operação de socorro com os carros que iam rumo a Ilhéus, 20 minutos depois, os socorros chegavam em abundância: desde remédios até padiolas improvisadas.

Naquele momento, pensei que todas as providências já tivessem sido tomadas quando Zezéu me chama:

- Roberto vem cá!- Tinha subido para o asfalto para agilizar o transporte do pessoal ferido, pois a mulher gritava de dor e pedindo-nos para cuidar dos seus filhos e o seu marido não ficava por menos. Acho que fisicamente, ele estava sofrendo mais.

- Diga Zezéu!...

- Vem cá. Temos mais um problema! – Quando cheguei, Zezéu puxava com cuidado, do banco traseiro, uma pessoa. Ainda não dava para ver o rosto e a idade. Percebi que era mulher porque estava usando vestido. Quando me aproximei, Zezéu completou:

-Roberto não quis lhe dizer daqui para que os pais dela não ouvissem. Mas, esta garota (apontou) está morta! – Estava menos de dois metros de Zezéu, quando num pulo me aproximei do corpo e gritei:

- Não, não é possível!!!... – Zezéu ficou absorto, não tinha entendido a minha reação. Pensou que eu estivesse preocupado com a reação dos pais da pobre garota. Ninguém ia compreender e acreditar em mim, a garota que estava ali estirada era a mesma que tinha me pedido socorro. Quando Janjão pegou a criança, na agonia, não percebeu que ela estava caída entre o banco de passageiros e as poltronas da frente ou ela não estava lá? Ele jura até hoje, que vira somente o menino que choramingava um choro sofrido. Maior foi o mistério: é que no alvoroço e na balbúrdia, todos querendo ajudar só vir lembrar-me dela quando a encontrei nos braços de Zezéu.

Hoje, quando me lembro de tudo que ocorreu naquele acidente, fico assustado, com os cabelos eriçados, pois tenho certeza que foi aquela menina que salvou a família depois de morta. As pessoas não acreditam, mas foi ela que me fez parar o carro e levou-me até o local do sinistro, com seu rostinho angelical e sua voz delicada e dizer-me:

- Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!...




Autor: Rilvan Batista de Santana
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A Terra - R. Santana

 

    A Terra 

      R. Santana


Meu amigo, minha amiga, hoje, quero colocar no papel tudo sobre a nossa e única morada: a Terra. Os poetas românticos e os ficcionistas dedicaram os seus versos e suas prosas à Lua, à Vênus, ao planeta Marte e aos raios incandescentes do Sol, mas quase ninguém cantou em verso ou prosa a beleza da Terra.

A Terra é um planeta perfeito para forma de vida que conhecemos: água em abundância, atmosfera, ar para os nossos pulmões, fotossíntese para árvores clorofiladas, mares, oceanos, Sol, chuvas, seiva para alimentar as árvores, florestas, várias espécies animais superiores e inferiores, vegetais que alimentam o homem, morros, montanhas, planícies, minérios, plantas e flores que ornamentam a natureza, enfim, os mundos vivos da flora e da fauna.

A Terra é a presença de Deus, um mundo perfeito, conforme o pensamento de Einstein: “Deus não joga dados”, isto é, nada foi feito aleatoriamente, o Universo foi pensado pela Providência, as Leis celestiais são imutáveis, ele ainda completou: “A teoria produz um bom resultado, mas dificilmente nos aproxima do segredo do Criador”.

Quando criança, a minha avó, beata da fé, dizia que quando alguém morre pode ir para o céu, para o paraíso ou para o inferno, conforme seus atos bons ou maus praticados neste mundo, se os pecados do indivíduo não são graves, seu destino será o paraíso, depois o céu, se os pecados de alguém são graves, muito graves, seu lugar será o inferno, lugar de fogo eterno com os diabinhos cutucando o infeliz com tridentes de exu. Discordo de minha avó, acredito que a Terra é o nosso paraíso, não obstante, que o homem ainda não tem essa consciência de preservação da natureza, suas atitudes, ao longo do tempo, têm sido nefastas e destrutivas.

Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua em sua Apollo XI, descreveu a Terra como o planeta mais bonito do sistema solar, mais bonito do que Vênus, não pela sua luminosidade, mas pelo seu azul turquesa das águas e florestas. Se algum dia infinito, um morador da Lua ou de Marte, vê-la pelo telescópio, ele vai renegar todas as gerações que lhe antecederam por não ter preservado a natureza do nosso planeta, destruindo suas florestas, seus rios, seus mares, seus minérios, seus aquíferos, suas geleiras, seus icebergs e poluído sua atmosfera, enfim, destruído a vida.

Deus propiciou à Terra, ao homem, 4 estações climáticas que atendem às necessidades de todos os seres vivos. Mais um vez, constata-se que o mundo não foi feito aleatoriamente, tudo foi pensado e calculado, é de somenos importância que o homem esteja no Hemisfério Norte ou no Hemisfério Sul, o clima é regido por um calendário fixo: o verão de 21.12 a 20.03; o outono de 20.03 a 21.06; o inverno de 21.06 a 22.09 e a primavera de 22.09 a 21.12, faz-se necessário esclarecer que as datas são diferentes do Hemisfério Norte às datas do Hemisfério Sul pela posição do Sol e dos movimentos de rotação e translação da Terra, porém, as estações climáticas continuam iguais, aqui e lá.

O verão é a estação da alegria, das praias, da exposição da beleza feminina e masculina, dos eventos externos, etc. O outono sucede o verão e antecede o inverno, é o mês das colheitas, da queda das folhas das árvores, por isto, muita gente diz que é a estação do ocaso, de temperatura amena. O inverno sucede o outono, é a estação do frio, das geadas, do recolhimento, das roupas quentes, das botas de cano longo, também, é o tempo do aconchego e do amor. A primavera sucede o inverno e antecede o verão, é a estação da juventude, época primeira, aurora... A primavera é o mês da beleza, das flores, o jardim do Criador.

Quando o Criador doou a Terra a Adão e Eva e, eles não esperaram o tempo de Deus, foram desobedientes, daí, surgiu o pecado original e a Terra foi entregue aos homens bons e homens maus, mais maus do que bons, de lá pra cá, a Terra é explorada e agredida em sua natureza. O homem nunca foi um bom inquilino, diferente dos outros animais que de maneira instintiva a preserva de danos e destruição.

O Criador criou belas paisagens que os gênios das artes plásticas tiveram dificuldades de retratá-las em suas pinturas pelos seus infinitos detalhes e precisão. As belas paisagens da natureza são inúmeras, diria infinitas, mas pela importância cultural e turística, eu escolhi: Baia Maya no Sul da Tailândia, Montanha da Igreja na Islândia, Lago Crater, Oregon, EUA e a Floresta Ashdown, na Inglaterra. Aqui, as paisagens naturais mais visitadas pelos turistas e pelo valor da cultura: Monte Roraima, Maragogi, Cânion Fortaleza, Chapada Diamantina e Pantanal.

O Criador fez da Terra, o celeiro da vida, proveu-lhe de condições para que a vida floresça em abundância, por isto, ela é constituída de 75 % de água e 25% de terra, envolta numa atmosfera em que o oxigênio sustenta a vida. O homem a dividiu geopoliticamente em 6 continentes, ou seja, 6 territórios geográficos: América, Europa, Oceania, Antártida, África e Ásia, estes territórios são banhados por oceanos e mares que alimentam o homem e produzem riquezas.

Porém, o homem na ambição de produzir riquezas e domínios, em nome da evolução da sociedade, do desenvolvimento tecnológico, da energia atômica, do enriquecimento de urânio para fins bélicos, ele vem contribuindo, ao longo do tempo, para os desastres naturais da Terra: os lixões industriais e municipais, o lixo atômico, a mineração artesanal e industrial, os produtos químicos industrializados, a poluição do ar, dos rios, dos mares, o desmatamento das florestas e o uso irregular dos aquíferos. Todas essas provocações e agressões à natureza são responsáveis pelas tempestades, inundações, terremotos, maremotos, furacões, erupções vulcânicas, secas etc.

Alguém menos avisado pode alegar que esses desastres naturais sempre existiram, lhe direi que alguns, a exemplo das erupções vulcânicas, mesmo assim, em intensidades menores e intervalos distantes, vejamos: Thera 1500 a.C., mais de 500 anos depois, o Monte Vesúvio, 79 d. C., Monte Tambora em 1815, o Krakatoa em 1883 e o Monte Pinatubo em 1991. Hoje, os tsunamis e as erupções vulcânicas e outros desastres naturais são frequentes.

O poeta Nélio Joaquim cantou em seus versos, com genialidade, os quatro elementos da natureza: No ar o amor vai propagar / Na terra o amor vai estranhar / Na água o amor vai contaminar / No fogo o amor vai inflamar.

Contudo há uma esperança que alimenta a humanidade que é a conscientização ecológica do homem contemporâneo, além das ONGs que defendem este planeta para que ele não sucumba que, o modesto articulista tem o dever moral de citá-las: Instituto Social Ambiental (ISA), SOS Mata Atlântica, Greenpeace e Instituto AKATU, dentre outros movimentos de preservação ecológica.

Enfim, se a minha avó estivesse viva, eu dir-lhe-ia que o paraíso não está do lado de lá, mas do lado de cá, a Terra é o paraíso do homem. Cresce a consciência ecológica, as gerações futuras preservarão mais o nosso planeta que as gerações passadas e as gerações de hoje, não por essas gerações futuras serem boazinhas, menos destrutivas, mas necessária à sobrevivência da humanidade, se o homem continuar cutucando a natureza, ela irá reagir transformando o mundo em um lugar inóspito pra vida.


Autoria: Rilvan Batista de Santana
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A Mentira - R. Santana

 

A Mentira
R. Santana

     Faz algum tempo que ouço dizer que “a mentira tem pernas curtas”, os moralistas sustentam que o problema do mentiroso, é que ele tem de mentir muitas vezes para sustentar sua primeira mentira. A sentença que mais define a mentira é sua antítese, a verdade: “a verdade adoece, mas não morre”, ou seja, a verdade o oposto da mentira, claudica, fica enferma, moribunda, mas um dia, ela surge com força desmedida. Por isto, aconselho àquela pessoa que me quer ouvir, que não minta, por mais inocente que seja sua mentira.

     Às vezes, a vida puxa-nos para situações que não desejamos e não estamos psicológica e fisicamente preparados para enfrentá-las, aí, a mentira é sacada para se esconder uma realidade irreversível, que não temos como lhe converter, sentimo-nos impotentes, a exemplo: dizer a verdade para um ente querido em estado terminal, que os médicos esgotaram todos os recursos da ciência conhecida para salvar sua vida. Neste caso, na casa do sem jeito, recomenda-se a meia verdade, isto é, nem alimentar uma esperança que não existe nem renunciar à compaixão, o respeito, enfim, considerar o sofrimento daquele ente querido.
     Permita-me leitor, leitora, ilustrar este texto nos parágrafos subsequentes com uma historinha que mostra a fraqueza da mentira que não resiste por muito tempo à força da verdade, quando a verdade chega, a mentira perde a esperteza.
     No início dos anos 60, com idade de 11 ou 12 anos, eu estudava na Escola Sagrado Coração de Jesus, dirigida pela professora Nair Assis Menezes, quando o Banco Raso ainda não era Banco Raso, mas uma capoeira com casebres espaçados, construídos aqui e acolá.
     A maioria do seu alunado morava no bairro São Caetano, alguns alunos moravam na zona rural, fazendas ou sítios, poucos alunos moravam do outro lado da ponte do rio Cachoeira, isto é, em algum lugar da cidade itabunense. Não havia transporte coletivo, o transporte dos alunos para Escola Sagrado Coração de Jesus, era feito a cavalo, de bicicleta, de carroça, de Fobica ou Jeep, a maioria dos alunado ia e voltava a pé.
     Do bairro Banco Raso até o bairro São Caetano, onde eu e outros colegas morávamos, íamos e voltávamos a pé por uma vereda dentro do matagal. Nesse caminho estreito, fazíamos fila indiana e preocupados com alguma cobra iminente, quando chegávamos num lugar mais espaçoso, pegávamos picula com brincadeiras criativas, não tínhamos mochilas de marca, trazíamos os livros nas mãos ou, aqueles estudantes de mães costureiras, improvisavam sacolas de cáqui (luxo do luxo), embornais, tudo simples, mas de significado inestimável para esses sortudos.
     Nunca tive uma sacola de cáqui, nem mochila, prendia os livros no sovaco. Com bermuda de brim, camisa de algodão, “Volta ao Mundo”, de tamanco ou sandália de couro curtido ou, “sandália japonesa”, tínhamos aí o nosso “uniforme” não padronizado. A professora Nair se preocupava com o conteúdo escolar, a aprendizagem e, a nossa higiene pessoal: - dentes escovados, ouvidos limpos, unhas aparadas, banho diário e cabelo feito, quem não se encaixava nesse padrão, voltava para casa com incumbência de levar pra escola no outro dia, o dobro das tarefas cotidianas, se o indivíduo negligenciasse com as atividades, seus pais eram convocados.
     Pois, foi nesse vaivém, nessa pobreza de materiais escolares, de suportes didáticos, a falta duma mochila, a displicência da idade, que eu perdi o meu lápis, principal elemento da escrita, com uma borracha na ponta e estampado: último modelo. O leitor e a leitora poderão questionar: “Que tem a ver a mentira com perder o lápis?”, dir-lhe-ei que neste caso, o lápis foi a causa da mentira, ao perder o lápis fiz coisa errada além da mentira.
     Naquela época, o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem - DNER, hoje, Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte – DNIT, estava terraplanando uma área de 2 ou mais hectares para construir sua sede administrativa no Sul da Bahia. Os tratores faziam escavação na terra, ao tempo que os tratoristas amontoavam toneladas de cascalhos finos, aqui, ali, acolá. Um desses tratoristas, era o negro Ademário, que algum movimento negro não diga que eu sou racista, mas pela simplicidade de Ademário, digo-lhe, hoje, que ele era um “negro de alma branca”.
     Quando voltávamos da escola, obrigatoriamente, passávamos por esse terreno em terraplanagem, ali, no meio dos escombros e do vaivém das máquinas, eu perdi esse lápis de estima, por desencargo de consciência, menos por acreditar em encontrá-lo, pedi ajuda aos tratoristas, que se o encontrasse, devolvesse-me, dentre esses tratoristas, reforcei o pedido ao negro Ademário, que era amigo da família e quase vizinho.
     Naquele dia, o inacreditável aconteceu: o negro Ademário encontrou esse lápis em meio de toneladas de cascalho, de terra e tocos de árvores, além disto, eu fui pego por meu tio (espécie de pai) por ter mentido e usado dinheiro indevido dum pequeno comércio da família, na perda do lápis, peguei sem autorização, alguns centavos de cruzeiro no caixa do comércio, insignificantes no valor, mas flagrante desvio moral de conduta. Naquele dia, quando esse lápis para mim era coisa do passado, já apagado em minha memória, fui surpreendido pela voz de censura do meu tio:
     - Que é de seu lápis!?
     - Ele está na cômoda!

  - Vá buscá-lo! – peguei o lápis com a velocidade de um raio e entreguei-lhe, mas, caí das pernas, quando ele me mostrou o verdadeiro lápis que o tinha escondido atrás das costas:
     - E, este!? – aí a história veio à tona: Ademário havia encontrado o lápis, o imaginável, inimaginável, a impossibilidade, possível, e, o uso do dinheiro indevido para substitui-lo. Como diz o malandro d`hoje, “a casa caiu”, meu tio em nome da probidade e da verdade, puniu-me com meia dúzia de “bolos” com palmatória de jacarandá, a palmatória com um furinho no meio, corretivo da Psicologia da época.
     Estimado leitor e leitora, hoje, nem que a “vaca tussa”, eu não minto, na casa do sem jeito, valho-me do provérbio popular de que “quem cala consente”, ou seja, não digo “sim” nem “não”, deixo que o interlocutor faça seu juízo de verdade. A verdade é uma candeia que mais que tentemos esconder sua iluminação, a iluminação rompe pela fresta.
     Enfim, “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”, espero que meu exemplo permaneça e seja luz para formação de caráter de muitos jovens e menos jovens, mundo afora.

 




Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google 
 

 

A olaria - R. Santana

 

A olaria - R. Santana
 

     Naquele ano, que já vai longe, eu brincava nos corredores de tijolos não cozidos duma olaria, quando uma prateleira de tijolos crus despencou e por fração de tempo não caiu em cima de mim. Mais pelo susto do que pelo acidente, abri o berreiro e fui acudido por Nozinho, oleiro dos quatro costados, ele ocupava o lugar do pai que não tive.

     Nozinho era o marido de minha tia-mãe Judite. Homem simples, sem malícia, inocente da luxúria do mundo, uma alma boa, logo, se o céu é dos humildes de coração, certamente, ele está lá amparado por santos e anjos.

     Naquela época, eu deveria ter 4 ou 5 anos de idade, cabelos cor de milho, cor branca, olhos verdes, se tivesse nascido na Europa, receberia de Joseph Goebbels a graça de sangue ariano, mas ali, no meio do barro e dos barreiros, eu era o filho do oleiro. Esses fumos de grandeza, megalomaníacos, se adquirem com a vida e os anos, ali, rodeado de tijolos crus, telhas, moringas de barro e potes cozidos, orgulhava-me de ser o filho do dono da olaria.

     Sentia por Nozinho o amor de filho, não conhecia outro pai nem queria conhecer outro pai, para mim, ele era o meu pai. Quando, depois do almoço, ele me levava para olaria, passava às tardes nos corredores dos barracões cobertos de palha, atrás dos calangos que ousadamente saiam de suas tocas, ou, passava a tarde moldando bonecos de barro, cachorros de barros, gatos de barro e outros animais, que no fim do dia, Nozinho os colocava no forno e de lá saía “gente”, saía “cachorro” e, saía também, todo o meu sonho de criança imaginado. Se algum boneco nascia com defeito de nascença, ele refazia comigo o boneco perfeito, às vezes, a noite caía.

     Em casa, muitos utensílios domésticos eram de barro de olaria: panela de barro, moringa, pote, jarro, etc. O fogão era de tijolo revestido de reboco com uma chapa de ferro com buracos adaptados pra panela, embaixo da chapa, colocava-se, como combustível, lenha seca ou carvão. Se alguém ia fazer um churrasco, improvisava-se 2 fileiras paralelas de tijolos e uma trempe de ferro em cima, aí, a churrasqueira estava pronta.

     Aqueles homens tinham em comum o peito sempre constipado pelo fato de lidarem com forno de temperatura elevada para cozimento de tijolo, de telha e de todas as peças de barro. Além do vício do cigarro de fumo in natura, do tabaco e da boa cachacinha no final do serviço. A olaria não lhes trazia dinheiro farto, mas lhes deixava dignos em sua pobreza. Todos os oleiros tinham mulher e filhos e a fonte de renda principal era a olaria, todavia, a CLT não chegava até eles, carteira de trabalho assinada nem ver... A maioria, velho, morria na miséria. Faz-se necessário registrar que nessa olaria não havia máquina de cerâmica, tudo era primitivo, artesanal, desde abrir o barreiro, com enxada, cavador, pá e picareta, até moldar o barro em forma de madeira e transformá-lo em objetos manufaturados para o mercado livre.      Lembro-me que naquela tarde, depois de muita peraltice, chamou a minha atenção uma revista com homens e mulheres na folia de carnaval, mulheres quase nuas e homens fantasiados de mulher: vestido, peito postiço, colares, pintura e sapato alto. Um dos circunstantes, disse-me que só saía no carnaval travestido de mulher, na minha inocência infantil, respondi-lhe que “viado é que usa roupa de mulher”, foi um constrangimento, naquela época, ninguém esperava que uma criança saísse com uma tirada daquela. Há a necessidade de esclarecer que eu não sabia o significado verdadeiro de “viado”, apenas, possuía a noção que era o homem que se vestia de mulher. Naquela época, esse “animal” era raro e quando aparecia era rejeitado com dureza pela família e pela sociedade, muitos eram sodomizados e mortos pela intolerância da maioria.

     A olaria foi o meu primeiro laboratório do exercício de pensamento e de criatividade, enquanto eu moldava homens e mulheres de barro, a imaginação puxava a criatividade para encontrar linhas, curvas e formas perfeitas. O segredo do sucesso em qualquer atividade humana é sua capacidade de criação.

     A invenção e a criatividade são atributos dos seres humanos, os animais não inventam nem são criativos, eles podem até imitar, fazer diferente, criar, jamais. João-de-barro repete a mesma "casa" desde que o mundo é mundo. Muita gente na vida é como joão-de-barro, repete sempre o que já foi feito, não cria e não inova.

     Viver bem é construir a vida com tijolos queimados, bem amarrados em base rochosa. A vida não aceita tijolos quebrados, crus, sem rejuntamento, sem amarração, quando negligenciamos essa construção, a tendência é cair a cumeeira.

 

 




Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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O livro - R. Santana

 


O livro - R. Santana


     O livro é o mundo nas mãos. O leitor sem sair do seu mundo, ele conhece outros mundos, outras civilizações, outras realidades, outras pessoas, costumes, culturas e sociedades diferentes. Através dos livros, nós conhecemos histórias de superação, histórias de amor, histórias de ódio, heróis, exemplos que dignificam a humanidade, também, conhecemos o pior do ser humano. Através dos livros, nós conhecemos picos, montanhas, florestas, lagos, rios e oceanos. Através dos livros, nós conhecemos ruas, cidades, estados e países. Através dos livros, chegamos ao conhecimento e à ciência. Platão foi feliz na definição do livro: “Livros dão alma ao universo, asas para mente, voo para imaginação, e vida a tudo”. Portanto, não é heresia dizer que Deus fez o homem e deu-lhe o livro como principal meio de transporte.
     O livro convencional de hoje, impresso no papel, surgiu nos anos de 1448 com Johannes Gutenberg, mas o registro do cotidiano vem desde o homem das cavernas com as pinturas rupestres. O Oriente cultivava sua escrita em pequenas lajotas de barro, os indianos usavam folhas de palmeiras para registrarem sua escrita. Os romanos usavam placas de madeira encerada como “livro” e os astecas e os maias registravam em seus “livros” sanfonados feitos das entrecascas das árvores, seu dia a dia. Moisés escreveu os 10 Mandamentos, primeiro código de conduta do homem em enormes placas de pedra fixadas no cume da montanha. Porém, foi com o papiro (Cyperus papyrus), erva encontrada às margens do rio Nilo que se revolucionou a escrita. A biblioteca de Alexandria, naquela época distante, teve em seu arquivo, mais de 700 mil livros em rolos de papiros.
     Como todo produto feito pelo homem, há livro bom e livro ruim. Monteiro Lobato, escritor, produtor e editor, sustentava, no século passado, que o livro é uma mercadoria, se a mercadoria é boa, ela é vendável, se a mercadoria não é boa, essa mercadoria irá mofar na prateleira. Drummond foi crítico: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”, noutras palavras, o livro ruim serve para escorar e não deixar cair os bons livros. Ultimamente, a superprodução do livro tem contribuído para aversão do leitor ao livro convencional. Hoje, as pessoas subestimam os livros às mensagens. Na literatura todo mundo escreve versos, contos, romances, às vezes, sem criatividade e talento. Machado de Assis nasceu para ser Machado de Assis, assim como, minhoca nasceu para ser minhoca, nunca será cobra.
     Desde o século passado, publicar livro impresso, é privilégio de alguns, poucos autores têm editora, muitos fazem suas produções independentes. Conta-se que que Manuel Bandeira, Paulo Coelho, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Mário de Andrade, Fernando Pessoa e outros famosos, produziram e pagaram o seu primeiro livro.
     A Internet veio para democratizar a produção e a publicação de livros. As plataformas que dão acesso às publicações gratuitas de livros são várias. O livro virtual em forma de e-book são lançados às dezenas todos os anos. Fazer o download de um livro virtual, o custo é menor do que adquirido nas livrarias ou nas editoras, além disto, as obras de domínio público (autores com mais de 75 anos de morte), estão ao alcance de todos os leitores apaixonados por livros.
     A plataforma infantil “Play Kids Explorer”, por exemplo, contribui para que a criança, cedo, entre no mundo da literatura. Faz-se necessário esclarecer que esses livros virtuais têm o mesmo destino que os convencionais quando não prestam: o lixo e o lixo eletrônico.
     Uma maneira que os empresários encontraram para escoar os livros ruins e de época, são as feiras de livros, os sebos e as bancas de jornais. É comum nesses eventos e nesses lugares, encontrarmos Franz Kafka, Dante Alighieri, Platão, Albert Einstein, George Orwell, Shakespeare, Karl Marx, Engels, Maquiavel, Saint Exupéry, Marcel Proust...
     Por outro lado, livros clássicos que foram marcos da literatura mundial e ainda resistem ao tempo: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Urupês, Macunaíma, Crime e Castigo, Tocaia Grande, Gabriela, Cravo e Canela, O Velho e o Mar, Desassossego, O Cortiço, O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Dom Quixote, O Corcunda de Notre Dame, O Pequeno Príncipe, O Príncipe, Contos de Aprendiz, Eu, Passarinho...

     Quando adolescente, eu andava a tiracolo com os livros, se ia pra rua, levava um livro, se ia ao banco, eu levava um livro, se ia passear, eu levava um livro, aqui, ali e acolá, eu levava um livro, por isto, recebi o apodo dos meus amigos e conhecidos de “homem do livro”, que me deixava orgulhoso e compenetrado na busca do saber. Não gostava de lê-lo por obrigação, mas por prazer, por isto, não me dava tão bem com os livros da escola, não os apreendia, decorava-os.
     Com os cabelos encanecidos ainda sou um leitor contumaz, porém, não tenho a mesma garra como antes, hoje, eu sou mais seletivo e econômico, livros espessos e histórias esticadas, poemas metafísicos e leituras metafóricas não entram mais no meu “cardápio”, gosto do inteligível. Não faz muito tempo, adquirir a biografia de Winston Churchill em 2 volumes com mais de 600 folhas, não tive fôlego pra ir até o fim, li, somente, os trechos significativos.
     Os livros me deram conhecimento e sabedoria, mais sabedoria do que conhecimento. O conhecimento vê a vida com os olhos da lógica e da razão enquanto a sabedoria enxerga a vida com os olhos do coração. O saber se aprende com os livros e a sabedoria se aprende com o mundo.
     O livro virtual é uma realidade técnica, científica, basta um download no seu computador para seu acesso e cópia, ele é mais democrático, com um toque na tela do computador, o leitor moderno lê qualquer clássico de ontem ou de nossos dias, porém, o livro impresso no papel tem o seu lugar desde que o alemão Johannes Gutenberg imprimiu a primeira Bíblia no ano de 1448 d.C., primeiro livro impresso no Ocidente com 1282 páginas em 2 colunas e, em latim.
     O livro impresso no papel também evoluiu na forma e na encadernação: livro de bolso, livro ilustrado, livro desenhado, book (conteúdo fotográfico), etc., etc.
     Não existe nada mais prazeroso na leitura que folhear as páginas de um livro com a ponta dos dedos e dividir os capítulos lidos com marcadores, é melhor do que “rolar” a tela de um computador. O livro impresso não dá defeito, dispensa carregador e energia elétrica, seu transporte é cômodo e pode ser lido em qualquer ocasião e lugar e não é objeto de desejo dos bandidos.
     Enfim, concordo com o fundador da Microsoft, William Henry Gates III, Bill Gates: “... Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros”. Nada mais importante para criança, na sua formação moral e intelectual, do que o gosto pela leitura, o gosto pela leitura dum bom livro.



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letrsa de Itabuna - ALITA

Rilvan Santana

O poder corrompe o homem - R. Santana

 


O poder corrompe o homem - R. Santana
 
Com os cabelos encanecidos, no começo do fim, deixei duma vez de militar em partido político A ou B, quando jovem, fui vereador itabunense pelo antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), mas, como o homem é um animal político, mesmo que a gente não mexa com a política, a política mexe com a gente.

Hoje, de bermuda e sandália, levo a minha vidinha insignificante sem preocupação maior, não me interessa se a Bolsa de Nova York subiu e a Bolsa de São Paulo baixou, se Thereza May saiu e Boris Johnson assumiu o governo da Inglaterra. Não me interessa ser ativista nem revolucionário, para mim, basta ser exemplo de conduta proba e honrar a todo custo, a palavra de Jesus Cristo: “Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Temas o SENHOR com amor reverente, andando em seus caminhos, servindo ao Eterno, teu Deus, com todo o teu coração e ... amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Um dos maiores estadistas do mundo, Abraham Lincoln disse: “Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”. O poder corrompe o homem não só nas coisas materiais, financeiras, mas corrompe as ideias, o caráter, a personalidade. O poder quando não é de bom senso, faz do homem sensato, um homem insensato, do democrata, um déspota.

Como cidadão comum, fico triste quando vejo um homem com a história de vida do ex-juiz Sérgio Moro, corromper suas ideias, jogar no lixo sua história jurídica, mentir para sociedade e conduta parcial (Vaza Jato) de magistrado em alguns processos da Lava Jato para construção dum projeto de poder, a ponto de não se dignar e ser chamado de ladrão por um parlamentar federal: “... E o senhor vai estar no livro de história como juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão... É o que o senhor é: um juiz que se corrompeu, um juiz ladrão”.

Não entendo como alguém renuncia à função de Estado, com carreira promissora, com credibilidade pública, com credibilidade jurídica e admiração de seus pares para servir à política partidária, servir a um político sem postura de estadista, que não tem zelo pelo ritual do cargo de presidente do país, que não valoriza as regras das instituições, que é tendencioso com parte da mídia falada e escrita. Não entendo como uma figura admirada e respeitada do Oiapoque ao Chuí, ele torna-se de uma hora para outra, uma figura caricata e burlesca, se somente se para se sustentar num cargo público de confiança por mais relevante que seja.

Hoje, eu não vejo Sérgio Moro, ministro da Justiça, com a aura e a alegria de antes. Vejo-o com cara de nojo, cada dia, perdendo o respeito público, não o vejo mais como “Senhor dos Anéis”, mas, usado pelo “Senhor dos Anéis” de modo desrespeitoso, autoritário e mal-educado. Não entendo como um homem de estatura moral e intelectual como o atual ministro da Justiça, é desautorizado, ofuscado e desrespeitado administrativamente pelo seu chefe Jair Bolsonaro, vejamos:

No começo do ano, Sérgio Moro nomeou a cientista política Ilana Szabó para Suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, logo depois de nomeada, num telefonema de Bolsonaro, fez Moro demiti-la;

Bolsonaro editou o “Decreto das Armas”, sem consultar-lhe, além de não considerar a posição de Moro que defende não armar a população, pois armar a população, conforme seu entendimento, não é uma medida de segurança pública;

Moro ficou à mercê do seu destino na Câmara dos Deputados com o seu “Projeto Anticrime”;

Moro estruturou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), com mais funcionários, material de expediente e condições de trabalho, visava o principal instrumento de trabalho para combate à corrupção do seu ministério. O COAF foi transferido para Economia pela Câmara dos Deputados com assentimento de Bolsonaro e a demissão de Roberto Leonel;

Agora, o imbróglio é a PF, Bolsonaro quer mudar o superintendente da polícia federal do Rio de Janeiro, além de mudar o diretor-geral da Polícia Federal, nomeado por Moro, Maurício Valeixo. Faz-se necessário esclarecer que a Polícia Federal é vinculada ao ministério da Justiça, que a ingerência nos assuntos internos da entidade, é do ministro da Justiça, no momento, o ex-juiz Sérgio Moro.

Caricato, do latim caricato, carregado nos defeitos, também, do ator cômico que interpreta caricaturas, por isto, entendo que o ministro Sérgio Moro está representando um papel caricaturesco para o povo brasileiro. Não sei se há objetivo subjacente atrás dessa conduta condescendente.

Por outro lado, sua conduta parcial, notadamente, na condução do processo de Lula, à frente 13ª Vara Cível Federal, torna-se cada vez mais convincente, mais decisivo, mais contundente, depois das publicações da Vaza Jato pelo The Intercepet Brasil. Os advogados de defesa do ex-presidente, Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Martins sustentam a parcialidade de Moro:

· Seus defensores foram tratados como mera formalidade;

· Provas relevantes foram indeferidas;

· Moro autorizou ilegalmente a interceptação por 23 dias do principal ramal do escritório dos advogados, com procuradores e policiais, as conversas e estratégias dos advogados de defesa;

· A participação e exposição em eventos com inimigos declarados de Lula, a exemplo de Lula e Aécio Neves;

· A predisposição em condenar o ex-presidente em conversar informais com Dallangnoll;

· Prêmios recebidos por entidades contrárias a Lula ou, aos seus projetos sociais, como o “Prêmio Faz diferença”, do jornal “O Globo”.

Não se deve considerar ao pé da letra as lições de Maquiavel de que “os meios justificam os fins”, aliás, os estudiosos dizem que o filósofo de “O Príncipe” não disse isso, porém, a essência de sua filosofia, é que o príncipe tem que trabalhar para o bem comum de seus súditos quaisquer que sejam os meios para atingir essa finalidade.

Enfim, se o ex-juiz construiu um projeto de poder usando meios não recomendáveis pelo ordenamento jurídico e republicano, decerto, passará para História não como perseguidor de corruptos e corruptores, porém, como magistrado que foi corrompido pelo encantamento do poder.



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Somos todos Brasil - R. Santana

 


Somos todos Brasil - R. Santana
 
Eu tenho um vizinho que é meu vizinho, não é meu amigo. Damo-nos bem como vizinhos, não como amigos. Não existe nenhum conflito em nossa relação, é coisa de época, as relações de vizinhos não são como antes, naquele tempo, o vizinho sentava-se à porta do outro, à boquinha da noite, para bater papo tête-à-tête das coisas dos filhos, da roça ou da cidade, enquanto no terreiro as meninas cantavam cantiga de roda e os meninos brincavam de esconde-esconde. Hoje, é o “ZapZap”, o Facebook, o Instagram e outras redes sociais que funcionam. Os amigos são virtuais, são amigos, mas não são amigos... Pois bem, um desses dias, eu caí na bobagem de lhe dizer: “... eu teria vergonha de dizer que votei em Bolsonaro”. Pra que lhe falei isto? O homem virou uma fera! Hoje, a nossa relação que não fedia nem cheirava, ficou pior, quando lhe dou “bom dia!”, ele rosna: “hum!!!”.

Essa historinha acima ilustra o estado de espírito atual dos seguidores do presidente Bolsonaro, eles são fanáticos, “doentes”, a ponto de lhe apelidar de “mito”. Na cultura grega, os mitos eram deuses ou, super-homens. Porém, é sabido que nosso presidente é um homem com qualidades e defeitos, não, um mito. Portanto, nós que o elegemos, somos / seremos cúmplices de seu governo bom ou ruim. O escritor francês Victor Hugo deixou uma reflexão sobre a responsabilidade do povo com o seu governante: “Entre o governo que faz o mal e o povo que consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa”. Noutras palavras, povo e governante são farinhas do mesmo saco.

Hoje, a expressão, quanto pior, melhor, não tem mais significado entre os opositores políticos e entre os partidos, nós estamos no mesmo navio, se afunda, afunda todo mundo. Mesmo, nós outros, que não votamos no capitão Bolsonaro em outubro do ano de 2018, como compatriotas, temos o dever e a obrigação de apoiar suas políticas públicas que atendam às necessidades do povo. Se por acaso, o comandante de um navio com o timo nas mãos, não souber levar o navio ao porto, antes de colocá-lo à deriva ou levá-lo ao fundo do mar, a tripulação troca o comandante e o navio toma outro destino.

Esse governo é trapalhão, não só o seu líder. Separei enésimas situações constrangedoras, mas, para não cansar os nossos leitores, elegemos as mais exploradas, as gafes “suis generis”, as gafes exploradas pela mídia falada ou escrita, leiamos:

* Nos primeiros dias de governo, num evento, a ministra da “Mulher, da Família e dos Direitos Humanos”, aprofundou as regras da educação moderna: “... menino veste azul e menina rosa”.

* Em abril de 2019, Bolsonaro em Israel, no museu do Holocausto (6 milhões de judeus sacrificados) Yad Vashem, afirmou em seu discurso que o nazismo é de esquerda, só que para o israelense, o “Nacional Socialista” de Hitler, é de direita, aliás de extrema direita.

* O Ministério da Educação ordenou que todas as escolas do país gravassem os alunos cantando o Hino Nacional e terminassem com o slogan político de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, depois, enviassem os vídeos para o MEC.

* Nos Estados Unidos, Bolsonaro e Trump reunidos, ao invés do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Henrique Fraga Araújo, participar da reunião, como é de praxe, ele ficou de fora, Eduardo Bolsonaro o substituiu...

* Em janeiro, no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, Bolsonaro teria 45 minutos para seu discurso, falou 6 minutos, sem conteúdo significativo, foi um vexame...

* Prometeu mudança da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, para agradar ao presidente Trump;


* Ricardo Valez, o primeiro ministro da Educação, declarou à revista Veja: “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião, ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

Coletei, apenas, alguns equívocos do atual governo, mas são dezenas de equívocos em pouco tempo, os mais recentes: Ricardo Galvão, cientista e ex-diretor do INPE, foi exonerado após o governo contestar dados sobre desmatamento, mesmo diante da reação nacional e internacional; declaração de Bolsonaro sobre o desaparecimento de Fernando Augusto Santa Cruz, na ditadura militar, o pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB; celeumas com as ONGs da Amazônia e declarações não diplomáticas com Ângela Markel e Emmanuel Macron, sobre os problemas ambientais (desmatamento, queimadas e grilagem) da Amazônia.

Faz-se necessário dizer que em relação à Amazônia, o presidente Bolsonaro tem razão de desconfiar das intenções subjacentes desses europeus. Há anos, eles falam em internacionalizá-la, lembro-me de um fato: o ex-senador Cristovam Buarque fazia certa palestra numa universidade americana, quando questionado por um estudante sobre a internacionalização da Amazônia, com lucidez e raciocínio, respondeu-lhe: “Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!"

Emmanuel Macron, presidente da França, aproveitou as labaredas altas nas florestas amazônicas para sugerir aos países ricos, um Estatuto para Amazônia, que significa, juridicamente, eles se apropriarem da Amazônia em nome da humanidade. Ora, se o Sr. Macron, com toda sua tecnologia, não evitou o incêndio da Catedral de Notre-Dame, um patrimônio da humanidade, como se arvora tomar conta da fauna e da flora amazônica? Claro, que essa atitude do presidente Macron é oportunista, pois, se ele não consegue resolver os problemas de economia do seu país e dos trabalhadores franceses, como resolverá os problemas ambientais de uma área que cabe 10 países do tamanho da França? Oportunismo e caráter duvidoso! - Louvável a posição do governo brasileiro.

Todavia, causa-me estranheza, com todas essas trapalhadas do nosso governante atual, os nossos conterrâneos, da maneira apaixonada, sem reflexão, criarem uma rede social: #todossomosbolsonaro..., os nossos conterrâneos se tivessem juízo, se fossem menos arrebatados, criariam uma página: #somostodosbrasil. Mitos e deuses são de era primitiva, nós, contemporâneos, da era de energia atômica, da exploração de espaço sideral, racionais, civilizados, instruídos, temos que aguçar o nosso senso crítico e bom senso na escolha dos nossos governantes, senão, seremos sempre uma nação subdesenvolvida, povo subdesenvolvido, sem o respeito internacional devido (não obstante, a 10ª potência econômica do mundo), seremos sempre tratados como país do terceiro mundo, como Haiti, Nigéria, Moçambique, Guiné...




Autoria: Rilvan Batista de Santana

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O poder corrompe o homem (II) - R. Santana

 


O poder corrompe o homem (II) - R. Santana

O poder corrompe o homem (II)
R. Santana
 
Há duas semanas, eu fui convidado pelo vizinho para um café da manhã que prestigiava um pré-candidato a prefeito de Itabuna. Pensei não ir, mas, não poderia fazer essa desfeita ao vizinho. Faz algum tempo que não milito partidariamente na política. O pré-candidato já foi prefeito e fez um bom trabalho, além de não ter enriquecido no cargo, saiu com o mesmo patrimônio que entrou. As más línguas dizem que ele não roubou, todavia, deixou roubar, pois sua “bagagem” não era confiável no trato dos recursos públicos.

Embora ele seja muito simpático comigo, toda vez que me encontra, trata-me com certo apreço, como cidadão itabunense (título que fui honrado pela Câmara Municipal no dia 25.07, do ano em curso, graças aos meus amigos Val Cabral e o vereador Júnior do “Trator”), gostaria que a política de Itabuna fosse renovada com novos líderes, aqui, é lamentável que são os mesmos líderes políticos há 40 anos. A cidade regrediu no tempo. Hoje, Itabuna é cidade que já “teve” ou, já perdeu: fábrica, hospital, ginásio de esporte, estádio, maior comércio do Sul da Bahia, colégio, shopping popular, maior polo produtor de cacau do mundo, etc., etc.

Político é um cão que não larga o osso. Hoje, a cantilena é que as prefeituras estão falidas, os estados estão falidos e a União é deficitária, mas, os políticos profissionais não largam o osso depois que comeram o filé-mignon, desviaram os recursos públicos e corromperam e foram corrompidos. Alguns energúmenos e aqueles que vivem à sombra do poder, mamando nas tetas dos governos, transferem as mazelas históricas para certos partidos políticos, porém, roubar recursos públicos neste país é sistêmico, é cultural, o povo corrobora: “rouba, mas faz”.

O povo é cúmplice desses maus políticos. Alguém já disse que o eleitor brasileiro não sabe votar. O eleitor elege e reelege esses maus políticos sempre, são eleitores “encabrestados” financeiramente ou afetivamente. Claro, que não se pode generalizar, contudo, faz-se necessário que os eleitores brasileiros passem por um longo aprendizado para saber escolher e atinjamos a cultura cidadã dos países mais ricos e civilizados do planeta.

Exemplo emblemático é o nosso presidente, vereador, 7 vezes deputado federal (baixo clero), filho senador, filho deputado federal (possível embaixador nos EUA), filho vereador, ou seja, todo mundo mamando e fazendo queijo canastra com o leite da vaca brasileira de úbere inesgotável. Essa família com tantos anos de poder, dificilmente, não corrompe ou não é corrompida pelo sistema político e pelo poder econômico, é notório o caso do “investidor” Fabrício Queiroz de Flávio Bolsonaro. Também, é lamentável que o “mito” Bolsonaro que se elegeu com o discurso de moralidade pública, dos bons costumes, de anticorrupção, de combate ao nepotismo, meses depois, indique um dos filhos, sem carreira diplomática, para embaixada do país mais poderoso do planeta, flagrante indiscutível de nepotismo.

Aqui, também, não existe renovação na política há 40 anos, os principais líderes políticos são os mesmos: Geraldo Simões, prefeito 2 vezes, deputado federal, deputado estadual 2 vezes, ex- presidente do PT local e secretário de estado; Fernando Gomes, prefeito 5 vezes, 3 vezes, deputado federal e corre à boca pequena que ambos são pré-candidatos para eleição de prefeito de 2020.

Alguns eleitores fazem comentários velados quanto à faixa etária do prefeito Fernando Gomes, particularmente, eu acho a idade de somenos importância, Konrad Adenauer governou a Alemanha Ocidental (antes da derrubada do muro), até aos 90 anos de idade e, o generalíssimo Francisco Franco, a Espanha, com mais de 80 anos de vida, enquanto na América Central, Fidel Castro governou Cuba por 49 anos e morreu no poder com 90 anos de idade.

Por isso, para evitar a corrupção, o nepotismo, a sinecura, as falcatruas, os vícios e artifícios em nossa política, urge a necessidade duma reforma da Lei Eleitoral vigente, que a figura da reeleição no executivo seja extinta, quiçá, que os mandatos dos legisladores, também, sejam regulados, que a reeleição do vereador, do deputado estadual, do deputado federal e senador, não seja sem limite, emprego vitalício.

O povo tem que saber escolher, escolher com discernimento, sem paixão, não eleger herói com os pés de barro e rabo de palha. Delegar poder a alguém é temerário, arriscado, pois, nós, eleitores, estamos entregando ao outro o nosso destino e, Abraham Lincoln advertiu o homem há 2 Séculos, que: “... se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.

Extingamos de vez o estigma que o eleitor brasileiro não sabe votar, que vota com paixão, movido por interesse pessoal, não visando o bem comum, principalmente, as políticas públicas prementes que atendem às demandas comunitárias e sociais. Que não sejamos obtusos, que não endossemos o pensamento de Guerra Junqueiro: “Um povo imbecilizado... Uma burguesia cívica e politicamente corrupta até a medula”.

Enfim, o voto é um instrumento democrático para promover mudanças políticas e sociais. Na "urna", o voto de "Zé Mané" é igual ao voto do presidente Toffoli. Só existe corrupto por que há do outro lado o corruptor, não seja cúmplice dessa vergonha nacional que traz malefícios a todos, portanto, valorize o seu voto que é a manifestação material de sua consciência.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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