7.07.2026

BRASIL VERDE - João Batista de Paula

 






BRASIL VERDE

João Batista de Paula

Brasil terra de todos nós. O Brasil tem que ser campeão, dando de goleada, no que é bom.


Um Brasil limpo.

Um Brasil verde.

Um Brasil de homens livres.

Brasil amado por todos nós


Exemplo grandioso é histórico em...

Educação,

Segurança

Honestidade,

Respeito.

Liberdade.

Geração de emprego e renda.


Patriotismo.

Pontualidade.

Solidariedade.

Moradia.

Transporte.


Bondade.

Cortesia.

Poesia.

Justiça.

Dignidade.


Fe.

Amor.

Esperança

Família

Direito de ir e vir.


Um Brasil

Livre de:

Drogas.

Doença.

Pobreza.

Fome.

Conflito.

Corrupção.

Falsário.

Político trapaceiro.

Ladrão.

 

Precisamos de um Brasil com novo amanhecer, dando de Goleada em paz, união, fidelidade e construções de elevados níveis espinhal e material. Brasil dos bons exemplos em virtudes por um mundo melhor.

 

Autoria: João Batista de Paula - Escritor e Jornalista.

Foto: produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

7.06.2026

Mar português - Fernando Pessoa

 






Mar português

Um pequeno poema de Fernando Pessoa que contém uma das suas mais famosas frases: tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Autoria: Fernando Pessoa

Fonte: Pensador


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Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade

 








Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

 

Com o título "Quadrilha", esta composição parece fazer referência à dança europeia com o mesmo nome que virou tradição nas festas juninas brasileiras. Vestidos com disfarces, os casais dançam em grupo, conduzidos por um narrador que propõe várias brincadeiras.

Usando essa metáfora, o poeta apresenta o amor como uma dança onde os pares se trocam, onde os desejos se desencontram. Nos três primeiros versos, todas as pessoas mencionadas sofrem de amores não correspondidos, menos Lili "que não amava ninguém".

Nos quatro versos finais, descobrimos que aqueles romances falharam. Todas as pessoas mencionadas acabaram isoladas ou morreram, apenas Lili casou. O absurdo da situação parece ser uma sátira sobre a dificuldade de encontrar um amor verdadeiro e correspondido. Como se fosse um jogo de sorte, apenas um dos elementos é contemplado com o final feliz.

 

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

José de Alencar - Crônicas

 Em julho deste ano chegam ao mercado as oito crônicas inéditas de José de Alencar (1829-1877) que foram localizadas em 2015. Elas serão publicadas em livro pela editora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em reunião e apresentação do professor e pesquisador Wilton Marques, que as redescobriu ao examinar textos do autor no jornal Correio Mercantil.

A obra que reúne os textos é intitulada Ao correr da pena (crônicas inéditas), uma alusão à coluna que Alencar mantinha no Correio. As crônicas são anteriores aos primeiros romances que o consagrariam - foram publicadas em 1854 e 1855, enquanto sua primeira ficção expressiva, O Guarani, é de 1857. O curioso é que, em um desses textos inéditos, o autor cearense critica a nacionalização da língua e ironiza vocábulos indígenas. Entre outras ideias, Marques defende que a ausência dessa crônica de uma coletânea que Alencar lançou em vida foi premeditada para não soar incoerente em relação à sua produção posterior.

Ao Pernambuco, Marques fala sobre como essas descobertas nos ajudam a entender melhor a formação do romancista José de Alencar, um conhecimento que pode influenciar a visão que hoje temos sobre a obra que ele produziu em sua maturidade.


A edição das oito crônicas inéditas de José de Alencar que será publicada em julho virá com um ensaio seu sobre os possíveis motivos da ausência desses textos nas coletâneas de crônicas do autor. Pode antecipar algumas das ideias do ensaio?

De início, é preciso contextualizar o problema do livro. Entre setembro de 1854 e julho de 1855, José de Alencar escreveu, sempre aos domingos, uma primeira série de folhetins no jornal Correio Mercantil. A coluna chamava-se Ao correr da pena. Em 1874, os folhetins foram reunidos pela primeira vez em livro por um admirador do escritor romântico, o Dr. José Maria Vaz Pinto Coelho. Deste então, essa primeira coletânea tem servido sistematicamente para as reedições dos folhetins. Em 1956, o crítico Francisco de Assis Barbosa localizou e publicou, junto com a “primeira série”, uma “segunda série”, isto é, alguns folhetins esparsos, publicados também sob o nome de Ao correr da pena, no Diário do Rio de Janeiro, jornal que Alencar assumira a direção em outubro de 1856.

Pois bem, quando fiz o levantamento dos folhetins de Alencar, notei uma discrepância de número entre os folhetins publicados no livro e os do Correio Mercantil, ou seja, existiam oito folhetins que tinham sido excluídos do livro. Evidentemente, o problema inicial era o de tentar descobrir por que tais textos não apareceram na primeira edição.

Assim, o ensaio procura mostrar que os folhetins foram excluídos da primeira edição por interferência do próprio José de Alencar. O primeiro indício é que Alencar, no fragmento de uma carta publicada pelo organizador, afirma que, caso tivesse tempo, faria uma revisão de todos textos. Curiosamente, o primeiro folhetim da série foi modificado em vários momentos, o que sugere que Alencar começou a mexer nos textos. No entanto, em 1873, ano da referida carta, Alencar foi diagnosticado com tuberculose e, por recomendação médica, viajou para o Ceará. Ou seja, impedido de realizar uma revisão mais criteriosa, Alencar, além de pedir a exclusão dos oito folhetins, deixou que os demais fossem publicados tais quais estavam na coluna do jornal. Um segundo indício da interferência de Alencar na organização do livro foi a inclusão de um folhetim - Máquinas de coser- que não foi publicado originalmente na coluna de Ao correr da pena. Este texto apareceu numa sexta-feira sob a rubrica de apenas Folhetim, no dia 3 de novembro de 1854, no mesmo Correio Mercantil.

Dessa forma, para tentar resolver o enigma dos folhetins, fiz uma leitura dos textos com um olho no momento do aparecimento deles no Correio Mercantil e com outro no momento em que a primeira edição foi publicada em 1874. A partir do levantamento de alguns dos temas tratados, esbocei então a minha hipótese de leitura, isto é, a de que tais temas se tornaram inconvenientes para o escritor quando da publicação do livro, afinal, não se pode perder de vista que eram textos de juventude. O que tento fazer no ensaio é justamente mostrar quais seriam tais inconveniências.

Como exemplo pontual, há o caso interessante do segundo folhetim excluído do livro, publicado no dia 8 de outubro de 1854. De modo geral, o texto se estrutura em torno do embate entre a idealização do passado e a crítica do presente. Depois de construir a imagem literária algo idílica dos “tempos de outrora” do Rio da Janeiro, Alencar passou a discutir a revolução tecnológica que se aproximava com a chegada das máquinas de coser ao Rio de Janeiro, “de maneira que agora sai um homem pela manhã, compra pano na loja, passa pela fábrica, e de tarde recolhe-se com o seu enxoval pronto para ir ao baile”. Rematando o texto, o folhetinista fez então uma aparente apologia ao progresso tecnológico e, com indisfarçável e ferina ironia, destacou “que alguns países descobriram uma espécie muito importante” de melhoramento no mundo das máquinas, ou seja, a “máquina-deputado”, aquela que, ao contrário de outras, era movida pelo interesse e, sobretudo, por “pão-de-ló”, o que, no jargão político da época, significava propina.

No caso deste folhetim, a visada irônica sobre a “máquina-deputado” e, por tabela, sobre o funcionamento da vida politica no país poderiam ser os motivos óbvios que levaram o autor a excluí-lo do livro de 1874. Sobretudo se se considerar que José de Alencar não apenas tinha ocupado recentemente o cargo de Ministro da Justiça (1868-1870) como também, naquele momento histórico, era um deputado de terceira legislatura. A publicação deste folhetim, mesmo levando-se em conta o seu conhecido temperamento de polemista, poderia criar uma situação no mínimo constrangedora para o autor romântico, indispondo-o, para muito além das opções partidárias, com grande parte de seus confrades. Para não ferir suscetibilidades, José de Alencar deve ter pensado que era melhor deixar de lado esse exercício literário de juventude.

Em uma das crônicas, a de 28 de janeiro de 1855, Alencar ironiza a ideia de a literatura se aproximar da cultura indígena. Dois anos depois (1857), ele lançaria O Guarani e, dez anos após a crônica (1865), viria Iracema. Ambas contribuem para a formação da identidade nacional, com a representação do ancestral indígena de forma idealizada e por tratar da mestiçagem entre brancos e índios. Poderia comentar isso?

Esse folhetim é bem curioso e se insere numa polêmica que Alencar teve com um leitor. A exemplo de outros folhetinistas, Alencar, num texto anterior, criticou o entrudo popular, escrevendo sobre a necessidade de melhorar a organização do carnaval. Por sua vez, no dia seguinte, o referido leitor – Monsieur de Tal – rebateu a ideia dos folhetinistas, incluindo a ideia do próprio Alencar, criticando o excesso de estrangeirismos dos textos e, de forma irônica, sugeriu a eles que, em primeiro lugar, deveriam “nacionalizar a língua”. Foi respondendo a tal leitor que, no texto de 28 de janeiro de 1855, Alencar faz uma alusão negativa e irônica da língua tupi, afirmando: “Não haverá remédio, pois senão voltarem às espigas de trigo, às jubas fulvas de leão, e à todas essas outras comparações clássicas da poesia antiga. Quem não quiser estar por isso, pode agarrar-se à língua tupi, e achará nela uma mina ainda não explorada de imagens poéticas, uma multidão de nomes fanhosos, de frutas, de coquinhos, de bichinhos, de cipós, que devem ser de uma originalidade encantadora. Teremos então cabelos de sabambaia, lábios de uricuri, olhos de guajiru, et reliqua commitante caterva”.

De modo evidente, mais do que a discussão sobre a nacionalização da língua, a explícita referência negativa à língua tupi e sua “multidão de nomes fanhosos” seria um motivo absolutamente óbvio para que este folhetim não aparecesse na edição de Ao correr da pena. Afinal, lembre-se aqui que José de Alencar, que já havia publicado O Guarani (1857) e Iracema (1865), publicaria o seu terceiro romance de temática indianista – Ubirajara – justamente em 1874. Ainda nesse sentido, bastaria citar um pequeno trecho da famosa “Carta ao Dr. Jaguaribe”, que serviu de posfácio à Iracema, em que o escritor não apenas reconhecia que “o conhecimento da língua indígena era o melhor critério para a nacionalidade da literatura” como também que era “nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro”, para demonstrar o quão inoportuno seria deixar vir a público esse comentário irônico sobre a língua tupi. Ainda mais no caso de José de Alencar que, em prosa, consagrara a temática indianista no imaginário literário brasileiro.

Em entrevista ao G1, você disse que é preciso sobrevalorizar o Alencar cronista, porque nos permite reconstituir o cotidiano do século XIX – época na qual a crônica ocupava um lugar de destaque. Há algo diferente na forma que Alencar retrata o cotidiano daquele tempo ou a narrativa se inscreve no que já se via nas demais crônicas dele?

De modo geral, o estudo da crônica é, sem dúvida, uma porta de entrada para o cotidiano do século XIX. O problema, no entanto, é a preparação para tal estudo, já que, antes de qualquer interpretação, é necessário que, em primeiro lugar, seja feito um paciente trabalho de esclarecimento dos assuntos tratados: acontecimentos históricos, figuras do mundo político ou artístico, etc. Depois disso, é que se parte para a leitura interpretativa. Como esse tipo de pesquisa leva tempo, e hoje a academia é premida – a meu ver erroneamente – por uma política de produção em série de artigos, são poucos os estudiosos que se aventuram por este campo de trabalho. A editora da Unicamp, por exemplo, tem publicado vários estudos acurados e comentados sobre as crônicas do Machado de Assis, o que, obviamente, tem ajudado muito nas pesquisas.

Nesse sentido, para voltar ao Alencar, o problema inicial dele foi justamente adequar seu texto às especificidades do gênero, que, por sinal, não tinham regras estabelecidas, tanto que o próprio autor chamava o folhetim de o “Monstro de Horácio”. Dessa forma, como já explicou o crítico Brito Broca, “os folhetins giravam frequentemente em torno de três assuntos que polarizavam o interesse e as atenções da sociedade brasileira do Segundo Reinado: o mundanismo (bailes, festas, recepções), a vida teatral (principalmente os espetáculos líricos) e a política (a eterna torcida provocada pelo revezamento dos partidos e a queda dos ministérios)”.

Em outras palavras, foi acertando e errando na prática da escrita que Alencar acabou construindo o seu estilo, que, diga-se de passagem, foi influenciado por Francisco Otaviano e depois influenciou Machado de Assis. Enfim, através da leitura dos primeiros folhetins de Alencar, é possível afirmar que a leveza dos textos, permeada por um toque de lirismo e fantasia, já prenunciava o surgimento do ficcionista romântico.

Você fez descobertas sobre o jovem Machado de Assis e o jovem José de Alencar. Há intenção sua em mapear a formação de autores canônicos para tentar entender como eles chegarão, posteriormente, à sua maturidade artística. Já pode falar algo sobre isso com mais certeza ou ainda está em fase de pesquisa? O que essas descobertas contribuem para o entendimento desses autores e da nossa literatura?

Como já tive a oportunidade de afirmar aqui em outro momento, um dos grandes problemas críticos em relação às obras de autores canônicos brasileiros é que normalmente se olha tais obras de trás para frente, ou seja, privilegia-se as obras da maturidade literária. Assim, o que foi produzido antes é quase sempre visto com desconfiança. O que proponho em minhas pesquisas, sobretudo em relação a Machado de Assis, é justamente tentar entender o processo de formação intelectual do autor para entender, a partir da leitura dos primeiros textos literários, a sua obsessiva preocupação com o aperfeiçoamento estético.

Entretanto, no estágio atual da pesquisa, ainda não comecei a trabalhar com esse problema específico. O tempo da pesquisa tem uma lógica própria e que, a despeito do óbvio desejo de querer terminá-la, não pode seguir a lógica da pressa. Assim, no momento, estou trabalhando a primeira parte do livro que trata justamente das relações entre os escritores (Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves Dias, Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar e, por fim, o próprio Machado) e o Correio Mercantil. A discussão mais aprofundada sobre a formação inicial do Machado será feita na segunda parte, tendo, como ponto de partida, a análise do poema inédito “O grito do Ipiranga”, que, como se sabe, também foi publicada no jornal [Marques descobriu esse poema, que é de 1856, ao analisar o jornal. Pouco depois, acharia uma menção a uma obra de poesia que Machado jamais publicou, o Livro dos Vinte Anos].

De todo modo, com o caminho natural da pesquisa, cada vez mais acredito que entender o período de formação dos autores locais é uma chave interessante de leitura que, espero, poderá ajudar a pensar as condições de desenvolvimento da literatura brasileira ao longo do século XIX, sobretudo se se levar em conta os inúmeros obstáculos sociais que precisavam ser enfrentados por eles no interior de uma sociedade que era regida (e guardadas as devidas proporções ainda o é) por uma perversa lógica excludente.

A descoberta desse material inédito veio após análise das edições do jornal Correio Mercantil. Apesar de disponíveis a todos na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, são 11 milhões de páginas, muitas praticamente ilegíveis. Pode falar um pouco sobre as dificuldades de pesquisa em literatura em fontes primárias?  

Pode-se dizer que a primeira virtude do pesquisador de fonte primária é, sem dúvida, uma grande dose de paciência. Além dela, é preciso persistência, já que, dependendo é claro da pesquisa, o número de jornais consultados pode ser elevado. Mas, de toda forma, o trabalho de digitalização dos jornais brasileiros pela Biblioteca Nacional tem facilitado muito o trabalho de pesquisa, já que, num passado nem tão distante, quem não era do Rio de Janeiro, precisava ir até à Biblioteca Nacional, procurar as fontes por alguns dias, microfilmar os jornais para só então, com todas as dificuldades impostas pela leitura de microfilmes, poder analisar as fontes; hoje, pesquisa-se de casa. Com o avanço da tecnologia de informação, e mais notadamente com o contínuo aperfeiçoamento das ferramentas de busca, não tenho dúvidas em afirmar que provavelmente outros textos inéditos aparecerão.

Por outro lado, e por causa da própria facilidade de acesso, surgem outras dificuldades para o trabalho de pesquisa, como, por exemplo, o excesso de informações. Por mais óbvio que possa parecer, o pesquisador, para não se perder nesse mar de informações, precisa, de antemão, definir de modo mais ou menos preciso o período que pretende estudar. Ter alguma familiaridade com o momento histórico pesquisado significa um ganho de tempo no que se refere ao levantamento de dados. Outro problema adicional que sempre aparece é, de fato, a ilegibilidade de várias páginas dos periódicos. Aí, não tem jeito, é necessário consultar o original.

Enfim, com paciência e persistência, a pesquisa com fontes primárias pode, inclusive, apresentar agradáveis surpresas, como, no meu caso, as causadas pelos folhetins do Alencar e pelo poema do Machado. Nesse sentido, aproveito aqui para ressaltar, de público, a importância do fundamental trabalho de preservação da memória histórico-literária, que, apesar das dificuldades de sempre, vem sendo, entre outras, realizado pela Biblioteca Nacional, pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e pelo Real Gabinete Português de Leitura.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

7.05.2026

ZÉVANDRO: A LACUNA QUE FICA Por Isaac Albagli

ZÉVANDRO: A LACUNA QUE FICA

Por Isaac Albagli

Ilhéus perdeu hoje um dos seus filhos mais queridos. Josevandro Nascimento, o Zévandro de todos nós, partiu, e com ele se vai um pedaço essencial da vida cultural desta cidade que ele tanto amou e tanto honrou. Presidente da Academia de Letras de Ilhéus, jornalista, escritor, professor universitário: os títulos são muitos, mas nenhum deles, sozinho, dá conta do tamanho do homem que hoje choramos.

Quem conviveu com Zévandro sabe que era impossível resumi-lo a um cargo ou a uma profissão. Ele era, antes de tudo, um humanista, uma dessas pessoas raras que carregam a cultura não como ornamento, mas como modo de estar no mundo. Culto sem nunca ser arrogante, inteligente sem nunca ser frio, bem-humorado sem nunca perder a seriedade das coisas que importavam. Essas eram suas principais qualidades. Mas havia uma, entre todas, que era simplesmente imbatível: o dom da oratória.

Quem teve o privilégio de ouvi-lo discursar sabe do que se fala. Zévandro não fazia discursos. Ele dava aulas. Cada palavra pesada, cada frase construída com o cuidado de quem respeita tanto a língua quanto o público, cada pausa no momento certo. Não importava a ocasião: uma sessão solene da Academia, uma posse, uma homenagem a algum confrade que partia, ou na tribuna da Câmara de Vereadores. Ele subia ao palco e, em minutos, transformava um evento protocolar em algo memorável. Sabia costurar história, literatura, memória afetiva e humor fino numa mesma fala, e fazia isso com uma naturalidade que só vem de quem estudou muito e amou ainda mais aquilo que estudou.

 

Não é pouca coisa dizer que Zévandro foi, por anos, a voz da Casa de Abel, a Academia de Letras de Ilhéus, uma das mais antigas do Brasil, fundada em 1959. Presidi-la é assumir a responsabilidade de manter viva uma tradição de quase sete décadas, de zelar pela memória de nomes como Jorge Amado, Adonias Filho e tantos outros que passaram por suas cadeiras. Zévandro fez isso com dedicação exemplar, abrindo a instituição para a comunidade, promovendo homenagens, cuidando da história literária e cultural do sul da Bahia como quem cuida de um patrimônio de família. Formado em Direito, com mestrado em Direito Público, trouxe para dentro das letras o rigor de quem também soube ser jurista, e para o Direito, o encanto de quem nunca deixou de ser, no fundo, um homem de palavras.

Como jornalista e escritor, deixou registros que hoje se tornam ainda mais preciosos: textos, discursos publicados, homenagens escritas com aquele mesmo cuidado artesanal que dedicava à fala. Como professor universitário, formou gerações. É provável que, neste momento, muitos de seus antigos e atuais alunos estejam relembrando alguma aula, algum comentário certeiro, algum daqueles momentos em que um professor deixa de ensinar conteúdo e passa a ensinar postura diante da vida.

Mas talvez o que mais vá fazer falta seja o Zévandro amigo. Aquele que cumprimentava com um sorriso genuíno, que tinha sempre uma piada na ponta da língua, que sabia rir de si mesmo e do mundo sem nunca ser leviano. A convivência com ele era um privilégio simples e constante: bastava uma conversa de corredor para sair dali mais leve, mais informado, ou simplesmente mais feliz por ter cruzado com alguém tão inteiro.

Ilhéus perde um dos guardiões da sua memória cultural. A Academia de Letras perde seu presidente. A universidade perde um mestre. O jornalismo perde uma pena lúcida. Mas os amigos perdem algo ainda maior e mais difícil de nomear: perdem a presença de alguém que tornava os dias mais interessantes só por estar por perto.

Zévandro, a lacuna que você deixa entre nós é grande. É do tamanho da sua oratória, da sua inteligência, do seu bom humor, da sua generosidade. Mas fica também, como consolo possível, a certeza de que sua voz continuará ecoando: nos discursos que ainda serão citados, nas aulas que moldaram tanta gente, nas histórias que os amigos vão contar e recontar sobre você por muito tempo.

Que a Casa de Abel guarde para sempre a sua cadeira com a reverência que você merece. Que o povo de Ilhéus se lembre de você como um dos seus melhores amigos.

Aos que ficam, o nosso abraço mais sentido: à esposa Consuelo e à filha Katiussa, toda a solidariedade e o carinho neste momento de dor. Que encontrem conforto na certeza de que Zévandro foi e continuará sendo profundamente amado e admirado por todos que tiveram a sorte de conhecê-lo.

Descanse em paz, querido Zévandro. A saudade já começou, e vai durar



Att.:

O Ponto de Leitura - se solidariza com os parentes, amigos e família pela morte inesperada do Presidente da Academia de Letras de Ilhéus - ALI


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TEORIA DOS SIGNIFICADOS (Versando e Proseando) - Agilson Cerqueira

 


TEORIA DOS SIGNIFICADOS (Versando e Proseando)


VERSANDO

Com ótica,
Sem semiótica,
Visões sem linguagens mentais:
Analfabetos funcionais.


PROSEANDO

A visão inaugura o contato com o mundo, mas não o seu significado. Os olhos captam formas, cores e movimentos; entretanto, é a mente que lhes confere sentido. Entre o que se vê e o que se compreende existe um intervalo invisível, preenchido pelos signos, pela linguagem e pela experiência. Sem esse percurso, a realidade permanece apenas como fenômeno, jamais como conhecimento.


A ótica revela a existência das coisas; a semiótica revela aquilo que elas representam. Uma descreve a incidência da luz; a outra investiga a incidência do sentido. Quando a primeira existe sem a segunda, o mundo transforma-se em um inventário de imagens destituídas de significado. Vê-se tudo, compreende-se pouco.


Não é a ausência da visão que empobrece o pensamento, mas a incapacidade de atribuir significados ao que se apresenta diante de nós. A ignorância mais profunda não reside na falta de informações, mas na impossibilidade de interpretá-la. O analfabetismo funcional nasce precisamente nesse espaço: onde há percepção sem compreensão, leitura sem interpretação, informação sem consciência.


Toda civilização se alicerça menos sobre aquilo que enxerga do que sobre aquilo que é capaz de significar. O ser humano não habita apenas o universo das coisas, mas, sobretudo, o universo dos sentidos que cria para elas. Quando os significados desaparecem, a realidade permanece visível, porém intelectualmente inacessível.


Ver é um ato biológico. Compreender é um ato filosófico. Entre ambos se ergue a linguagem, não apenas como instrumento de comunicação, mas como a própria arquitetura do pensamento. É nela que o mundo deixa de ser apenas visto para tornar-se verdadeiramente conhecido.

Agilson Cerqueira 
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 
Licença: Creative Commons

7.04.2026

CELEBRAÇÃO PELA VIDA por João Batista de Paula

 

CELEBRAÇÃO PELA VIDA - João Batista de Paula


Celebração pela vida 

Pelo amor à vida, pela saúde pela família, pelo trabalho, pela prosperidade, pelo lar, doce lar.


Vamos comemorar?

Vamos celebrar a vida?

Vamos festejar?

Vamos saltar de felicidade?

Vamos orar?

Vamos ao culto em ação de graça?


Motivos não devemos faltar para erguemos as mãos para o alto e agradecer pelas maravilhas que vivenciamos que promovemos ou realizamos. O fato essencial é fazer o outro feliz e gerarmos felicidades onde quer que estejamos.

A bondade fica bem em qualquer lugar. Assim é a gratidão, o   reconhecimento, o presente que ofertamos.

A nossa celebração pela vida nos enche de regozijo, alegria, louvor, amor, esperança e desejo de retribuir a grande conquista.


Vamos adorar.

Vamos orar.

Vamos manifestar gratidão.

Vamos avançar.

Vamos sorrir

Vamos festejar sempre o amor a vida e a boa vontade.

Celebração pela vida aproxima pessoas maravilhosas fortalece a espiritualidade e eleva nossos níveis de homens e mulheres felizes, amados por Deus e por todos.

Já a ingratidão, a insatisfação, a lamúria, o desejo de vingança, ódio, ira, rancor e as críticas destrutivas, afastam as pessoas da nossa caminhada, quando o importante são as flores do caminho.

Vamos celebrar a vida.

Vamos compartilhar.

Vamos semear o bem

Vamos construir um mundo melhor.

Vamos celebrar você.

 

Autoria: João Batista de Paula- Escritor e Jornalista

Foto: Produção


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7.03.2026

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

 

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector 


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector 

A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


Autoria: Clarice Lispector

Foto: Google

Fábulas de Esopo - Vídeo





Fonte: YouTube

Imagem: Google


 

MAR TRANQUILO - João Batista de Paula

 

MAR TRANQUILO - João Batista de Paula


O Mar da Tranquilidade pode até ficar na lua, mas o mar das ondas que vão e voltam, naquele vai e vem da vida que não param, fica aqui na terra.

 

É vida.

É movimento.

É ação

É renovação.

 

Nem todos os dias eu sorrio. Sabe por quê?

Por que há dias diferentes.

 

Há mares diferentes... Mar Vermelho.

Mar morto.

Mar de coral.

Mar mediterrânea

No mundo todo existem

Mais de cem mares.

Assim, bem assim, são os dias...

Há dias que choro.

Há dias que brinco.

Há dias que danço.

Há dias que agradeço.

Há dias que vivo o mar.

 

Um mar grande

Um mar de Deus

Um mar de vida.

Um mar de bons frutos

Um mar de rosas

 

E vivo o mar da tranquilidade...

Há dias que aplaudo.

Há dias que só observo.

Há dias que rezo.

Há dias de regozijo

Há dias de lamentações.

Há dias gloriosos.

Há dias de honra.

 

Nesse mar da vida devemos evitar a lama, o lodo e a sujeira, que geram o desencanto

 

Há dias que duvido.

Há dias da verdade.

Há dias de luta

Há dias de preguiça.

Há dias de braços cruzados.

Há belos dias.

 

Neste mar de água viva, fogo, terra, sal, ar e preciosidades, dias de sol, frio ou chuva, há presença divina: Deus

 

Há vida.

Há fé

Há esperança.

Ha o sol.

Ha chuva de bênçãos

Há gente sorrindo.

Há gente feliz.

Há certeza de que dias melhores virão.

 

O mar da Tranquilidade é você que faz.

Viva.

Faça o seu melhor.

Vale a pena nadar e navegar em águas tranquilas.

 

Lembre-se:

Há para cada coisa um tempo determinado por Deus.

Acredite se quiser.

 

Salve Deus.

O mar Tranquilo.

 

Autor: João Batista de Paula, escritor e jornalista.

Foto: produção

  

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