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12.27.2025

O Homem Nu - Fernando Sabino

 

O Homem Nu

Ao acordar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

— Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

— Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.


Autoria: Fernando Sabino

Foto: Google

 

12.26.2025

O Corvo, de Edgar Allan Poe

 

ARTE, CULTURA E FILOSOFIA

O Corvo, de Edgar Allan Poe

O poema O Corvo, do poeta americano Edgar Allan Poe (1809-1849), é considerado um dos poemas mais famosos da história. Sua ambientação melancólica, associada ao perfeito equilíbrio entre rima, sonoridade e dramaticidade causam forte impressão no leitor.  De certa forma, ao ler O Corvo temos a impressão de que estamos lendo um conto de terror angustiante. Entretanto, trata-se de um belíssimo poema escrito de forma impecável em todos os aspectos literários. Por isso O Corvo é uma obra-prima inigualável.

Essa construção perfeita do poema foi realizada na língua inglesa, e as traduções comprometem o seu impacto. O poema foi traduzido para o português por grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis e Fernando Pessoa. Porém, considero a tradução de Milton Amado (1913-1974) a mais bela das traduções para o português.

Para ler o poema com todo o impacto planejado por Poe, seria necessário, obviamente, ler em inglês. Contudo, a tradução de Milton conseguiu o feito de transportar a energia singular do poema para a língua portuguesa.O tradutor, escritor e poeta brasileiro Ivo Barroso considera a tradução de Milton superior às traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Milton Amado foi um jornalista e tradutor de Belo Horizonte. Não tinha a fama e o prestígio dos demais tradutores citados, contudo, quis o destino que uma das melhores traduções para o português do poema mais famoso do mundo fosse fruto de um talento pouco reconhecido. Nada mais dramático e digno de um poema de Edgar Allan Poe.

Att.:

Autor: Alfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.

O Corvo, de Edgar Allan Poe

Tradução de Milton AmadoClássicos da literatura

O Corvo

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,

A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,

E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,

Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.

“É alguém,  fiquei a murmurar, que bate à porta, devagar;

Sim, é só isso e nada mais.”

 

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro

E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.

Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda

Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora

Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora

E nome aqui já não tem mais.

 

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,

Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.

De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia

E a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.

Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.

É apenas isso e nada mais.”

 

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:

“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;

Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,

Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,

Assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:

Escuridão, e nada mais.

 

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,

Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.

Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,

Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”

E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”

Depois, silêncio e nada mais.

 

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,

Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.

“É na janela”, penso então. “Por que agitar-me de aflição?

Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,

O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.

É o vento só e nada mais.”

 

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:

É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.

Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,

Adeja e pousa sobre o busto, uma escultura de Minerva,

Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,

Empoleirado e nada mais.

 

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,

Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.

“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular”, então lhe digo

“Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!”

Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

 

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,

Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;

Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,

Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,

Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta

E que se chame “Nunca mais”.

 

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,

Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.

Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,

Enquanto a mágoa me envenena: “Amigos? sempre vão-se embora.

Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora.”

E disse o Corvo: “Nunca mais.”

 

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,

Julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.

Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura

E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo

De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: o ritornelo

De “Nunca, nunca, nunca mais”.

 

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,

Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais

E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,

Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,

Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo

Grasnava sempre: “Nunca mais.”

 

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,

Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.

Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada

Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,

Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,

Já não repousa, ah! Nunca mais?

 

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso

Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.

“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,

Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,

Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

 

“Profeta!? brado? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal

Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,

De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita

Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:

Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”


“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!

Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,

Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,

Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,

Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”

 

“Seja isso a nossa despedida! Ergo-me e grito, alma incendida.

Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!

Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!

Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu voo dessa porta!

Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”

 

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,

Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.

No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,

E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.

Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,

Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

 

Fonte: Postado em Blog do Editor, Podcast | Áudios de Leitura Clássicos da literatura / O Corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Milton Amado)

Imagem: Google

Mulher da Vida - Cora Coralina

 

Mulher da Vida

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

Autora: Cora Coralina

Foto: Google 

 

12.25.2025

CURTA O DIA - Ruy Póvoas


CURTA O DIA

    Carpe diem é uma expressão em latim que significa aproveite o dia. Essa é a tradução literal, e não significa aproveitar um dia específico, mas tem o sentido de aproveitar ao máximo o agora, apreciar o presente.

Sabe o que acabei de fazer? Não? Pois eu lhe digo: Fiz o que todo mundo anda fazendo, afinal, não quero ser um desigual dos outros. Queria porque queria saber o significado dos dizeres latinos, carpe diem. Aí, me dei a uma de modernoso. Não perguntei à professora, não quis saber do padre, ignorei os mais velhos. Fui a ela, a sabidília, pois ela sabe do ontem, do hoje e do amanhã. Põe qualquer um no bolso, seja a professora de latim; o padre artista, cantor de agora e candidato nas próximas eleições; ao mais- velho cuja mente já está falhando. 

Ela, não. Saúde perfeita, tino tinindo, eternamente à disposição. Podem perguntar à vontade: ela não se cansa, não se irrita. Democrática até o tutano, atende para o bem e para o mal, seja gente de extrema direita ou de extrema esquerda. Ateus ou beatos, heteros ou homos, pretos, brancos ou indígenas. Nunca se pensou em algo tão universal.     A essas alturas, já se sabe de quem se trata. Sim, ela, a magnífica, a gloriosa, a suprema inteligência artificial, apelidada de IA. Mesmo assim, se quiser dar uma passadinha na beirada da casa dela, em um de seus pontos universais, basta digitar:              - Pronto! Você nunca mais será o mesmo. Para lhe evitar mais delongas, pus o vaticínio dela no alto deste texto, sinal de abertura. 

    Acontece que, às vezes, sou ranhento, preciso meter a mão na chaga, igual a Tomé. Amanheci com vontade de curtir, isto é, aproveitar o meu dia. Tomei minhas providências: me vesti de anonimato – roupas surradas, sandália quase se acabando.

Acontece que há dois pontos em minha cidade os quais amo de coração. Um, constituído por um quarteirão, na avenida principal; outro, a praça mais agradável da cidade. Por esses pontos, passa desnuda a alma de meu povo, travestido de ocidentais, sul-americanos, nordestinos, baianos, grapiúnas. Tem de tudo o que a boca come. Gente gorda, esparramando pneus pelas laterais; outras, espigadas de corpo, verdadeiros varapaus. Olhe, enfim, tem de tudo mesmo. 

Quando você quiser ver a alma do povo faça assim: escolha a calçada de um quarteirão, na artéria principal de sua cidade. Lá, se misture aos transeuntes e preste atenção nos fragmentos de conversas entre as pessoas que estejam à sua frente, nas laterais e por trás. Você vai ouvir coisas do arco da velha. Não se descuide de observar o que elas trazem: maletas, embrulhos, pacotes, bolsas, sacolas, sacos de todo tipo. Muitos sacos plásticos. É bom até cogitar sobre o que elas conduzem com tanto cuidado e zelo, escondido nos trambolhos. 

Ah, sim: não se descuide dos calçados, das cores das vestes. Normalmente, roupas fofolanas, um espetáculo... Não despreze os detalhes, a exemplo dos penteados. Você vai descobrir coisas das quais nem nunca ouviu falar. 

Mas o bom mesmo foi quando passei pela esquina da referida praça. Duas senhoras, por sinal, meio gordas, conversavam animadas, alegremente. Até aí, novidade alguma. Acontece que cada uma estava sentada em cadeira de braços, branca, de plástico. E o mais sério: as cadeiras estavam em pontos opostos da largura da calçada. Elas deixaram uma passagem de mais ou menos metro e meio entre as cadeiras, por onde os circulantes teriam de passar, obrigatoriamente, por entre elas. 

Foi aí que se deu o encanto natalino. Ao passar por entre elas, bradei: – Dá licença, amadas e alegres senhoras. Feliz Natal, feliz Natal, feliz Natal! Aí, as portas do Paraíso se abriram e elas se revelaram em sua essência divinal. Gente, eram dois anjos celestiais, disfarçados em matronas gorduchas. Bradaram assim, alternadamente: – Bom dia, bom dia! Ô, quanta gentileza de sua parte. Que as bênçãos dos Céu lhe cubram em corpo, mente e espírito. Que seu Natal tenha tanta coisa boa, para que você nunca mais se esqueça de que, um dia, passou por nós. Seja abençoado da parte de Deus e da Virgem Maria! 

De relance, pensei: gente, o que é isso? Pessoas populares usando esse tipo de vocabulário? Confesso: me senti atingido por um drone russo sobre a Ucrânia. No caso, a Ucrânia era eu, um frangalho; elas, um facho de luz, nunca invasoras da terra alheia. Mal tive tempo de brincar: – É Natal! Hô, hô, hô! 

Retomei meu caminho e segui adiante. Dei uma paradinha e olhei para trás. Elas acenaram para mim, comedidamente, com um largo e santo sorriso enternecedor. Pelo caminho, vim me perguntando: Oh, fiel espelho meu, existe alguém mais abençoado do que eu? Ele permaneceu calado. Até agora, não me disse nada.

Voltei para casa. Meu Natal já estava completo. Pois é, conforme dizia a Velha Nanewá, “quem do pouco se admira corra o mundo que vê mais.” Por isso mesmo, nunca deixe de curtir, isto é, de aproveitar o seu dia, carpe diem.

 

 Fonte: Ruy Póvoas

Foto: Google

12.24.2025

MANIFESTO DE UM PROFESSOR EM ESTADO DE LUTO - Moisés Aguiar

MANIFESTO DE UM PROFESSOR EM ESTADO DE LUTO

Não é cansaço. É indignação.

Não é desgaste individual. É um projeto político. Se eu morresse amanhã, não seria apenas de exaustão física, mas de asfixia simbólica. Morreria por ser professor em um sistema que insiste em nos esvaziar enquanto finge nos homenagear em datas comemorativas.

Sou professor há trinta anos. E isso, hoje, não é medalha: é prova de resistência. Denuncio que o conselho de classe deixou de ser um espaço pedagógico para se tornar instrumento burocrático de legitimação de decisões já tomadas. Chamam-no de soberano, mas sua soberania é frágil, condicional, revogável por gabinetes distantes da escola e alheios à realidade da sala de aula. Que soberania é essa que se curva a planilhas, metas, indicadores e pressões políticas? Que democracia é essa em que eu falo, registro, avalio, mas não decido?

Hoje me dizem, sem pudor: avaliar demais reprova estatísticas, exigir demais atrapalha índices, ensinar demais exclui. O conteúdo virou obstáculo. O conhecimento, um risco. A recuperação, um favor. O professor foi rebaixado a monitor de presença, vigilante de corredores, preenchedor de sistemas, executor de ordens que contradizem a ética pedagógica. Não se exige que o aluno aprenda. Exige-se que ele passe. E se não passou por mérito, passa por decreto.

Se não estudou, avança por consenso forçado. Se nada produziu, é promovido para não constranger o sistema. E quando tudo falha, a culpa recai sobre o professor. Sou violentado quando minha avaliação é desautorizada. Sou violentado quando minha prática é invalidada. Sou violentado quando a educação é transformada em gestão de números. Isso não é inclusão.

Isso é fraude pedagógica institucionalizada. Não me peçam silêncio. Não me peçam cumplicidade. Não me peçam para assinar atas que enterram o sentido do meu trabalho.

Ser professor não é caridade. Não é vocação romântica. Não é missão religiosa. É profissão. É ciência. É responsabilidade social.

Exijo respeito à autonomia docente. Exijo que o conselho de classe seja, de fato, deliberativo. Exijo que a Secretaria de Educação pare de legislar contra a escola. Porque quando o professor é desmoralizado, não sou apenas eu que perco: perde o aluno, perde a escola pública, perde a sociedade. Este manifesto não é despedida. É resistência. E se um dia escreverem na minha lápide: “Foi professor por trinta anos”, que isso seja entendido como denúncia histórica de um tempo em que ensinar passou a ser ato político, e resistir, uma obrigação ética.


Autor: Moisés Aguiar

Foto: Google 



12.23.2025

Donald Trump: A vida antes da presidência : Benjamin C. Waterhouse


Donald Trump: A vida antes da presidência : Benjamin C. Waterhouse

Donald John Trump nasceu em 14 de junho de 1946, o quarto de cinco filhos de Mary Anne MacLeod Trump e seu marido, Frederick Christ Trump, Sr. A mãe de Trump nasceu na Escócia e emigrou para os Estados Unidos em 1930. Seu pai nasceu na cidade de Nova York, filho de imigrantes alemães. Durante a infância de Trump, a família morava em um bairro nobre do Queens, em Nova York, conhecido como Jamaica Estates.

Fred Trump era dono e administrava uma bem-sucedida empresa imobiliária chamada Elizabeth Trump & Son, nomeada em homenagem à sua mãe e a ele próprio, que desenvolvia propriedades para famílias brancas de classe média no Queens, Brooklyn e Staten Island. Quando atingiram a idade apropriada, os três filhos de Trump — Fred Jr., Donald e Robert — trabalharam para a empresa em canteiros de obras e escritórios. As filhas dos Trumps, Elizabeth e Maryanne, não trabalharam para a empresa familiar. Donald e Robert Trump acabaram se envolvendo nos negócios do pai quando adultos. Seu irmão Fred tornou-se piloto de avião e morreu de alcoolismo em 1981. Donald Trump cita a luta fatal de seu irmão contra o vício como a razão pela qual ele não bebe. Robert morreu em 2020 e Maryanne em 2023.

Quando criança, Trump apresentou dificuldades comportamentais. "Ele era um garoto bem travesso quando pequeno", lembrou seu pai mais tarde. Em um esforço para incutir um senso de disciplina, seus pais o matricularam aos 13 anos na Academia Militar de Nova York, ao norte da cidade de Nova York. Trump relatou que gostava dos exercícios e do estilo de vida, mas a academia marcou o limite de seu envolvimento com as forças armadas. Ele se matriculou na Universidade Fordham, na cidade de Nova York, e depois se transferiu para a Universidade da Pensilvânia, onde obteve o diploma de bacharel em economia pela Wharton School of Finance and Commerce da Penn em 1968.

Durante a Guerra do Vietnã, no final da década de 1960, quando Trump tinha pouco mais de 20 anos, ele usou isenções por estar na faculdade e por motivos médicos (devido a um diagnóstico de esporão ósseo) para evitar o alistamento nas Forças Armadas. Quando os Estados Unidos instituíram um sistema de sorteio para o serviço militar em 1969, numa tentativa de tornar o recrutamento mais aleatório e menos dependente de isenções, o aniversário de Trump foi o número 356 entre 366 no sorteio. Ele não foi convocado.

Trump iniciou sua carreira empresarial ainda na faculdade, investindo em imóveis na Filadélfia. Ao concluir sua graduação em 1968, retornou a Nova York e se juntou aos negócios do pai em tempo integral. Críticas públicas e escândalos marcaram o início da carreira de Trump. Em 1973, o Departamento de Justiça dos EUA acusou a empresa Trump de discriminação contra potenciais inquilinos afro-americanos. Embora a empresa não tenha admitido irregularidades, resolveu a questão concordando em alugar mais apartamentos para inquilinos negros.

Na década de 1970, Trump ajudou a expandir os negócios, comprando propriedades fora da cidade de Nova York em locais como Virgínia, Ohio, Nevada e Califórnia. Ao mesmo tempo, ele expressou interesse em expandir as operações imobiliárias da empresa para mais perto de casa, saindo dos bairros periféricos de Nova York e entrando em Manhattan, uma área tradicionalmente mais rica e da "alta sociedade". Em meados da década de 1970, a agora renomeada Organização Trump já havia se expandido para os arranha-céus de Manhattan.

A primeira grande jogada de Trump, em 1976, foi desenvolver o Hotel Grand Hyatt no terreno do então falido Hotel Commodore, da Penn Central Railroad. Embora a Organização Trump não tivesse dinheiro suficiente para comprar o hotel, Trump usou seu relacionamento pessoal com a rede de hotéis Hyatt e a influência política de seu pai (Fred Trump era um membro proeminente do Partido Democrata do Brooklyn) para negociar um acordo incomum com o governo da cidade de Nova York. Trump recebeu uma isenção fiscal de 40 anos, ou seja, uma suspensão do pagamento do IPTU do hotel. Originalmente avaliada em US$ 4 milhões por ano, a isenção totalizou aproximadamente US$ 400 milhões ao longo de 40 anos devido à inflação no valor do imóvel e às mudanças na legislação tributária. Ele então usou a promessa dessa economia para persuadir o Commodore a vendê-lo para ele e a Hyatt a se tornar sua parceira. "Tudo o que meus amigos Fred e Donald querem nesta cidade, eles conseguem", teria dito o prefeito de Nova York, Abraham Beame, sobre o acordo.

Na década de 1980, Donald Trump consolidou sua reputação como um grande incorporador imobiliário. Ele construiu o complexo de apartamentos cooperativos de 36 andares chamado Trump Plaza, bem como a Trump Tower na Quinta Avenida, que abrigava lojas de luxo, a residência particular de Trump e a sede de sua empresa. Ele também expandiu seus negócios para o ramo de cassinos em Atlantic City, Nova Jersey, construindo o Trump Plaza Hotel and Casino (originalmente chamado Harrah's at Trump Plaza) e o Trump Castle. Em 1990, construiu o Trump Taj Mahal a um custo de quase US$ 1 bilhão — ele o chamou de “a oitava maravilha do mundo”.

Apesar dessas grandes operações comerciais, a Organização Trump enfrentou sérios desafios financeiros. Trump contraiu empréstimos significativos para financiar os hotéis e cassinos. A situação tornou-se tão grave em 1990 que Fred Trump, então com mais de 80 anos, comprou mais de US$ 3 milhões em fichas de cassino no Trump Castle para que o cassino pudesse pagar os juros. Essa compra foi posteriormente considerada um empréstimo ilegal, e Nova Jersey aplicou uma multa de US$ 65.000. Duas empresas de propriedade de Trump entraram com pedido de falência durante esse período: o Trump Taj Mahal em 1991 e o Trump Plaza Hotel em 1992. Uma biografia pouco lisonjeira de Donald Trump, publicada em 1993, intitulada "  Magnata Perdido  ", declarava que ele havia se tornado um "motivo de chacota pública" em decorrência de seus fracassos empresariais.

Nos anos que se seguiram, Trump usou a proteção contra falência para reestruturar as dívidas das diversas empresas que compunham a Organização Trump, conseguindo efetuar pagamentos mesmo acumulando mais dívidas com taxas de juros mais altas. Como explicou, em retrospectiva, em 2011: "Usei as leis deste país para reduzir a dívida."

Ele também criou uma empresa de capital aberto, a Trump Hotels and Casino Resorts, protegendo-se de responsabilidades financeiras e permitindo-lhe vender ações ao público em geral. Inicialmente, ele detinha 56% das ações, o que lhe conferia a maioria e, portanto, o controle total da empresa, que adquiriu diversas propriedades e empresas da Organização Trump. Em 2004, a empresa não conseguiu pagar seus empréstimos e não obteve lucro. Entrou com pedido de recuperação judicial e Trump reduziu sua participação acionária para 27%, abandonando um papel ativo na empresa.

O próprio Trump culpou o declínio geral de Atlantic City pelos fracassos de sua empresa, embora os críticos apontassem que seus cassinos nunca haviam prosperado, mesmo quando a economia de jogos de azar de Atlantic City era forte. As tentativas de reerguer a empresa fracassaram, e ela entrou em falência novamente em 2009 e 2014. Quando Trump anunciou sua candidatura à presidência em 2015, seus negócios de jogos de azar haviam parado completamente. Os acionistas da empresa perderam seus investimentos, e muitos fornecedores e credores sofreram prejuízos, mas as perdas financeiras pessoais de Trump foram atenuadas por suas ações financeiras e legais.

Durante sua tumultuada carreira empresarial, Donald Trump manteve a aparência pública de um sucesso estrondoso. Mesmo com o fracasso de seus negócios imobiliários e de jogos de azar, ele conseguiu proteger sua marca e diversificar seus investimentos para o licenciamento de empresas nos Estados Unidos e no exterior. Em 2004, o  New York Times  observou: “Seu nome se tornou sinônimo de sucesso, de modo que até mesmo os reveses mais humilhantes mal afetam sua reputação… As regras que regem os outros simplesmente não se aplicam a Trump.”

Trabalhando com escritores fantasmas, Trump publicou diversos livros de instruções e conselhos de negócios, incluindo o amplamente lido  "Trump: A Arte da Negociação" , lançado originalmente em 1987. Ele licenciou o nome "Trump" para campos de golfe, resorts e produtos de marca própria, desde bifes e vodca até água engarrafada. De 1996 a 2015, foi proprietário dos concursos de beleza Miss EUA, Miss Teen EUA e Miss Universo. Em 2015, as emissoras de televisão Univision e NBC se recusaram a transmitir os concursos em resposta aos ataques racistas de Trump contra imigrantes latino-americanos durante sua campanha presidencial. No ano seguinte, Trump anunciou que havia resolvido os processos judiciais com elas e vendido sua participação nos concursos.

A expansão de Trump na indústria do entretenimento atingiu o auge com sua participação no reality show de sucesso "  O Aprendiz" (The Apprentice ), exibido pela NBC de 2004 a 2015. Trump interpretava a si mesmo no programa, que colocava aspirantes a líderes empresariais uns contra os outros em uma série de desafios. Trump avaliava o desempenho dos participantes e eliminava os concorrentes, dizendo a cada semana a um dos perdedores: "Você está demitido". O programa e seu derivado, "  O Aprendiz Celebridades" (Celebrity Apprentice ), foram amplamente assistidos. Eles ajudaram Trump a alcançar o público nacional e confirmaram, para muitos telespectadores, a imagem de Trump como um empresário bem-sucedido e carismático, que falava a verdade sem rodeios, mesmo quando difícil de ouvir. Somente quando Trump anunciou formalmente sua candidatura à presidência com retórica anti-imigrante e racista, a NBCUniversal encerrou formalmente sua parceria com o programa.

Os interesses comerciais de Trump estão reunidos em uma entidade conhecida como Organização Trump, descendente da empresa fundada por sua avó e seu pai. Trump assumiu o controle da empresa em 1971, renomeou-a em 1973 e concedeu a liderança formal a seus filhos, Donald Jr. e Eric, em 2017. Diferentemente de uma empresa típica que detém oficialmente suas subsidiárias, a Organização Trump é um conjunto de aproximadamente 500 entidades comerciais individuais, todas pertencentes principalmente ou exclusivamente a Donald Trump. Nenhuma dessas empresas constituintes tem ações negociadas em bolsa, portanto, não são obrigadas a divulgar publicamente sua situação financeira ou valor (como as empresas de capital aberto). Como Donald Trump, em uma quebra de precedentes recentes que remontam ao presidente Richard Nixon, nunca divulgou sua declaração de imposto de renda pessoal, uma avaliação completa das finanças da Organização Trump se mostrou impossível.

Quando Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, em novembro de 2016, a Organização Trump possuía um vasto número de empresas, produtos e contratos de licenciamento. Esses ativos incluíam pelo menos uma dúzia de resorts de golfe nos Estados Unidos e cinco em outros países; oito propriedades hoteleiras nos EUA e seis no exterior; e dezenas de outros imóveis ao redor do mundo. Em agosto de 2016, o  New York Times  noticiou que seus imóveis acumulavam uma dívida de pelo menos US$ 650 milhões. Como candidato, Trump se vangloriou de seus altos níveis de endividamento e de sua capacidade de reduzir ou eliminar sua obrigação de pagar imposto de renda, apesar de seu altíssimo patrimônio líquido. (O valor exato de sua riqueza tem sido e continua sendo debatido.) Evitar impostos, disse ele durante um debate com Hillary Clinton no outono de 2016, “me torna inteligente”.

Os negócios de Trump também estiveram envolvidos em um grande número de processos judiciais, tanto como réus quanto como autores. O jornal  USA Today  noticiou que, até 2016, Trump ou uma de suas empresas estiveram envolvidos em 3.500 processos judiciais em tribunais federais e estaduais. Trump foi o autor em 1.900, processando terceiros; em 1.450, ele foi o réu. Os demais incluíam outros tipos de casos, inclusive falências.

Após sua eleição em 2016, a Organização Trump resolveu diversos casos de grande repercussão. Três deles envolviam alegações de fraude ao consumidor por parte da então extinta Universidade Trump, uma empresa com fins lucrativos fundada em 2005 que oferecia cursos de imóveis e prometia ensinar os segredos do sucesso pessoal de Trump. Trump pagou US$ 25 milhões para encerrar esses processos, sem admitir qualquer irregularidade. Ele também fechou a Fundação Trump, uma organização beneficente sem fins lucrativos, após relatos de que não havia contribuído com seu próprio dinheiro para a fundação desde 2008, mas sim o utilizado para distribuir dinheiro que solicitava de terceiros e que poderia ter se envolvido em transações ilegais em benefício próprio.

A carreira empresarial de Trump, a natureza peculiar da Organização Trump e os níveis desconhecidos, porém substanciais, de endividamento pessoal relacionados à sua vasta carteira de ativos globais criaram uma situação sem precedentes quando ele foi eleito presidente. Muitos observadores políticos expressaram preocupação com o potencial de conflitos de interesse entre seus negócios e suas decisões presidenciais.

Os críticos temiam que ele inevitavelmente violasse a cláusula de emolumentos da Constituição dos EUA, que proíbe funcionários federais de receberem presentes ou pagamentos (ou qualquer outra coisa de valor) de um líder estrangeiro. Qualquer líder, empresa ou pessoa estrangeira que fizesse negócios com uma propriedade de Trump, alegavam esses críticos, colocaria dinheiro no bolso de Donald Trump. O próprio Trump rejeitou os apelos para se desvincular completamente de seus negócios, declarando que, em vez disso, entregaria as operações diárias da Organização Trump a seus filhos adultos. Estes, por sua vez, prometeram evitar fazer novos negócios com países estrangeiros. Essas medidas pouco fizeram para acalmar as preocupações dos críticos sobre o potencial de conflitos de interesse. PresidentDonald Tr

Donald John Trump nasceu em 14 de junho de 1946, o quarto de cinco filhos de Mary Anne MacLeod Trump e seu marido, Frederick Christ Trump, Sr. A mãe de Trump nasceu na Escócia e emigrou para os Estados Unidos em 1930. Seu pai nasceu na cidade de Nova York, filho de imigrantes alemães. Durante a infância de Trump, a família morava em um bairro nobre do Queens, em Nova York, conhecido como Jamaica Estates.

Fred Trump era dono e administrava uma bem-sucedida empresa imobiliária chamada Elizabeth Trump & Son, nomeada em homenagem à sua mãe e a ele próprio, que desenvolvia propriedades para famílias brancas de classe média no Queens, Brooklyn e Staten Island. Quando atingiram a idade apropriada, os três filhos de Trump — Fred Jr., Donald e Robert — trabalharam para a empresa em canteiros de obras e escritórios. As filhas dos Trumps, Elizabeth e Maryanne, não trabalharam para a empresa familiar. Donald e Robert Trump acabaram se envolvendo nos negócios do pai quando adultos. Seu irmão Fred tornou-se piloto de avião e morreu de alcoolismo em 1981. Donald Trump cita a luta fatal de seu irmão contra o vício como a razão pela qual ele não bebe. Robert morreu em 2020 e Maryanne em 2023.

Quando criança, Trump apresentou dificuldades comportamentais. "Ele era um garoto bem travesso quando pequeno", lembrou seu pai mais tarde. Em um esforço para incutir um senso de disciplina, seus pais o matricularam aos 13 anos na Academia Militar de Nova York, ao norte da cidade de Nova York. Trump relatou que gostava dos exercícios e do estilo de vida, mas a academia marcou o limite de seu envolvimento com as forças armadas. Ele se matriculou na Universidade Fordham, na cidade de Nova York, e depois se transferiu para a Universidade da Pensilvânia, onde obteve o diploma de bacharel em economia pela Wharton School of Finance and Commerce da Penn em 1968.

Durante a Guerra do Vietnã, no final da década de 1960, quando Trump tinha pouco mais de 20 anos, ele usou isenções por estar na faculdade e por motivos médicos (devido a um diagnóstico de esporão ósseo) para evitar o alistamento nas Forças Armadas. Quando os Estados Unidos instituíram um sistema de sorteio para o serviço militar em 1969, numa tentativa de tornar o recrutamento mais aleatório e menos dependente de isenções, o aniversário de Trump foi o número 356 entre 366 no sorteio. Ele não foi convocado.

Trump iniciou sua carreira empresarial ainda na faculdade, investindo em imóveis na Filadélfia. Ao concluir sua graduação em 1968, retornou a Nova York e se juntou aos negócios do pai em tempo integral. Críticas públicas e escândalos marcaram o início da carreira de Trump. Em 1973, o Departamento de Justiça dos EUA acusou a empresa Trump de discriminação contra potenciais inquilinos afro-americanos. Embora a empresa não tenha admitido irregularidades, resolveu a questão concordando em alugar mais apartamentos para inquilinos negros.

Na década de 1970, Trump ajudou a expandir os negócios, comprando propriedades fora da cidade de Nova York em locais como Virgínia, Ohio, Nevada e Califórnia. Ao mesmo tempo, ele expressou interesse em expandir as operações imobiliárias da empresa para mais perto de casa, saindo dos bairros periféricos de Nova York e entrando em Manhattan, uma área tradicionalmente mais rica e da "alta sociedade". Em meados da década de 1970, a agora renomeada Organização Trump já havia se expandido para os arranha-céus de Manhattan.

A primeira grande jogada de Trump, em 1976, foi desenvolver o Hotel Grand Hyatt no terreno do então falido Hotel Commodore, da Penn Central Railroad. Embora a Organização Trump não tivesse dinheiro suficiente para comprar o hotel, Trump usou seu relacionamento pessoal com a rede de hotéis Hyatt e a influência política de seu pai (Fred Trump era um membro proeminente do Partido Democrata do Brooklyn) para negociar um acordo incomum com o governo da cidade de Nova York. Trump recebeu uma isenção fiscal de 40 anos, ou seja, uma suspensão do pagamento do IPTU do hotel. Originalmente avaliada em US$ 4 milhões por ano, a isenção totalizou aproximadamente US$ 400 milhões ao longo de 40 anos devido à inflação no valor do imóvel e às mudanças na legislação tributária. Ele então usou a promessa dessa economia para persuadir o Commodore a vendê-lo para ele e a Hyatt a se tornar sua parceira. "Tudo o que meus amigos Fred e Donald querem nesta cidade, eles conseguem", teria dito o prefeito de Nova York, Abraham Beame, sobre o acordo.

Na década de 1980, Donald Trump consolidou sua reputação como um grande incorporador imobiliário. Ele construiu o complexo de apartamentos cooperativos de 36 andares chamado Trump Plaza, bem como a Trump Tower na Quinta Avenida, que abrigava lojas de luxo, a residência particular de Trump e a sede de sua empresa. Ele também expandiu seus negócios para o ramo de cassinos em Atlantic City, Nova Jersey, construindo o Trump Plaza Hotel and Casino (originalmente chamado Harrah's at Trump Plaza) e o Trump Castle. Em 1990, construiu o Trump Taj Mahal a um custo de quase US$ 1 bilhão — ele o chamou de “a oitava maravilha do mundo”.

Apesar dessas grandes operações comerciais, a Organização Trump enfrentou sérios desafios financeiros. Trump contraiu empréstimos significativos para financiar os hotéis e cassinos. A situação tornou-se tão grave em 1990 que Fred Trump, então com mais de 80 anos, comprou mais de US$ 3 milhões em fichas de cassino no Trump Castle para que o cassino pudesse pagar os juros. Essa compra foi posteriormente considerada um empréstimo ilegal, e Nova Jersey aplicou uma multa de US$ 65.000. Duas empresas de propriedade de Trump entraram com pedido de falência durante esse período: o Trump Taj Mahal em 1991 e o Trump Plaza Hotel em 1992. Uma biografia pouco lisonjeira de Donald Trump, publicada em 1993, intitulada "  Magnata Perdido  ", declarava que ele havia se tornado um "motivo de chacota pública" em decorrência de seus fracassos empresariais.

Nos anos que se seguiram, Trump usou a proteção contra falência para reestruturar as dívidas das diversas empresas que compunham a Organização Trump, conseguindo efetuar pagamentos mesmo acumulando mais dívidas com taxas de juros mais altas. Como explicou, em retrospectiva, em 2011: "Usei as leis deste país para reduzir a dívida."

Ele também criou uma empresa de capital aberto, a Trump Hotels and Casino Resorts, protegendo-se de responsabilidades financeiras e permitindo-lhe vender ações ao público em geral. Inicialmente, ele detinha 56% das ações, o que lhe conferia a maioria e, portanto, o controle total da empresa, que adquiriu diversas propriedades e empresas da Organização Trump. Em 2004, a empresa não conseguiu pagar seus empréstimos e não obteve lucro. Entrou com pedido de recuperação judicial e Trump reduziu sua participação acionária para 27%, abandonando um papel ativo na empresa.

O próprio Trump culpou o declínio geral de Atlantic City pelos fracassos de sua empresa, embora os críticos apontassem que seus cassinos nunca haviam prosperado, mesmo quando a economia de jogos de azar de Atlantic City era forte. As tentativas de reerguer a empresa fracassaram, e ela entrou em falência novamente em 2009 e 2014. Quando Trump anunciou sua candidatura à presidência em 2015, seus negócios de jogos de azar haviam parado completamente. Os acionistas da empresa perderam seus investimentos, e muitos fornecedores e credores sofreram prejuízos, mas as perdas financeiras pessoais de Trump foram atenuadas por suas ações financeiras e legais.

Durante sua tumultuada carreira empresarial, Donald Trump manteve a aparência pública de um sucesso estrondoso. Mesmo com o fracasso de seus negócios imobiliários e de jogos de azar, ele conseguiu proteger sua marca e diversificar seus investimentos para o licenciamento de empresas nos Estados Unidos e no exterior. Em 2004, o  New York Times  observou: “Seu nome se tornou sinônimo de sucesso, de modo que até mesmo os reveses mais humilhantes mal afetam sua reputação… As regras que regem os outros simplesmente não se aplicam a Trump.”

Trabalhando com escritores fantasmas, Trump publicou diversos livros de instruções e conselhos de negócios, incluindo o amplamente lido  "Trump: A Arte da Negociação" , lançado originalmente em 1987. Ele licenciou o nome "Trump" para campos de golfe, resorts e produtos de marca própria, desde bifes e vodca até água engarrafada. De 1996 a 2015, foi proprietário dos concursos de beleza Miss EUA, Miss Teen EUA e Miss Universo. Em 2015, as emissoras de televisão Univision e NBC se recusaram a transmitir os concursos em resposta aos ataques racistas de Trump contra imigrantes latino-americanos durante sua campanha presidencial. No ano seguinte, Trump anunciou que havia resolvido os processos judiciais com elas e vendido sua participação nos concursos.

A expansão de Trump na indústria do entretenimento atingiu o auge com sua participação no reality show de sucesso "  O Aprendiz" (The Apprentice ), exibido pela NBC de 2004 a 2015. Trump interpretava a si mesmo no programa, que colocava aspirantes a líderes empresariais uns contra os outros em uma série de desafios. Trump avaliava o desempenho dos participantes e eliminava os concorrentes, dizendo a cada semana a um dos perdedores: "Você está demitido". O programa e seu derivado, "  O Aprendiz Celebridades" (Celebrity Apprentice ), foram amplamente assistidos. Eles ajudaram Trump a alcançar o público nacional e confirmaram, para muitos telespectadores, a imagem de Trump como um empresário bem-sucedido e carismático, que falava a verdade sem rodeios, mesmo quando difícil de ouvir. Somente quando Trump anunciou formalmente sua candidatura à presidência com retórica anti-imigrante e racista, a NBCUniversal encerrou formalmente sua parceria com o programa.

Os interesses comerciais de Trump estão reunidos em uma entidade conhecida como Organização Trump, descendente da empresa fundada por sua avó e seu pai. Trump assumiu o controle da empresa em 1971, renomeou-a em 1973 e concedeu a liderança formal a seus filhos, Donald Jr. e Eric, em 2017. Diferentemente de uma empresa típica que detém oficialmente suas subsidiárias, a Organização Trump é um conjunto de aproximadamente 500 entidades comerciais individuais, todas pertencentes principalmente ou exclusivamente a Donald Trump. Nenhuma dessas empresas constituintes tem ações negociadas em bolsa, portanto, não são obrigadas a divulgar publicamente sua situação financeira ou valor (como as empresas de capital aberto). Como Donald Trump, em uma quebra de precedentes recentes que remontam ao presidente Richard Nixon, nunca divulgou sua declaração de imposto de renda pessoal, uma avaliação completa das finanças da Organização Trump se mostrou impossível.

Quando Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, em novembro de 2016, a Organização Trump possuía um vasto número de empresas, produtos e contratos de licenciamento. Esses ativos incluíam pelo menos uma dúzia de resorts de golfe nos Estados Unidos e cinco em outros países; oito propriedades hoteleiras nos EUA e seis no exterior; e dezenas de outros imóveis ao redor do mundo. Em agosto de 2016, o  New York Times  noticiou que seus imóveis acumulavam uma dívida de pelo menos US$ 650 milhões. Como candidato, Trump se vangloriou de seus altos níveis de endividamento e de sua capacidade de reduzir ou eliminar sua obrigação de pagar imposto de renda, apesar de seu altíssimo patrimônio líquido. (O valor exato de sua riqueza tem sido e continua sendo debatido.) Evitar impostos, disse ele durante um debate com Hillary Clinton no outono de 2016, “me torna inteligente”.

Os negócios de Trump também estiveram envolvidos em um grande número de processos judiciais, tanto como réus quanto como autores. O jornal  USA Today  noticiou que, até 2016, Trump ou uma de suas empresas estiveram envolvidos em 3.500 processos judiciais em tribunais federais e estaduais. Trump foi o autor em 1.900, processando terceiros; em 1.450, ele foi o réu. Os demais incluíam outros tipos de casos, inclusive falências.

Após sua eleição em 2016, a Organização Trump resolveu diversos casos de grande repercussão. Três deles envolviam alegações de fraude ao consumidor por parte da então extinta Universidade Trump, uma empresa com fins lucrativos fundada em 2005 que oferecia cursos de imóveis e prometia ensinar os segredos do sucesso pessoal de Trump. Trump pagou US$ 25 milhões para encerrar esses processos, sem admitir qualquer irregularidade. Ele também fechou a Fundação Trump, uma organização beneficente sem fins lucrativos, após relatos de que não havia contribuído com seu próprio dinheiro para a fundação desde 2008, mas sim o utilizado para distribuir dinheiro que solicitava de terceiros e que poderia ter se envolvido em transações ilegais em benefício próprio.

A carreira empresarial de Trump, a natureza peculiar da Organização Trump e os níveis desconhecidos, porém substanciais, de endividamento pessoal relacionados à sua vasta carteira de ativos globais criaram uma situação sem precedentes quando ele foi eleito presidente. Muitos observadores políticos expressaram preocupação com o potencial de conflitos de interesse entre seus negócios e suas decisões presidenciais.

Os críticos temiam que ele inevitavelmente violasse a cláusula de emolumentos da Constituição dos EUA, que proíbe funcionários federais de receberem presentes ou pagamentos (ou qualquer outra coisa de valor) de um líder estrangeiro. Qualquer líder, empresa ou pessoa estrangeira que fizesse negócios com uma propriedade de Trump, alegavam esses críticos, colocaria dinheiro no bolso de Donald Trump. O próprio Trump rejeitou os apelos para se desvincular completamente de seus negócios, declarando que, em vez disso, entregaria as operações diárias da Organização Trump a seus filhos adultos. Estes, por sua vez, prometeram evitar fazer novos negócios com países estrangeiros. Essas medidas pouco fizeram para acalmar as preocupações dos críticos sobre o potencial de conflitos de interesse.


Benjamin C. Waterhouse

Professor de História

da Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill

Por Benjamin C. Waterhouse

Foto: Shutterstock/Debby Wong

agnóstico - Fernando Sabino

 

- Ateu, não: agnóstico

- Pois eu te dou quinhentas pratas se você me disser o que quer dizer essa palavra.

- Ora, para começar você não tem quinhentas pratas. Estou conversando a sério e você me vem com molecagem. Acho que Deus é uma coisa, os padres outra. O ranço das sacristias me enoja. Tenho horror ao bafo clerical dos confessionários! O bem que a confissão pode nos fazer é o de uma catarse, um extravasamento, que a psicanálise também faz, e com mais sucesso. Estou mesmo com vontade de me especializar em psiquiatria.
- Só mesmo um doido de procuraria
Maur não pôde deixar de rir. Eduardo acrescentou:
- Você vai ter de se curar para depois curar os outros.
- É isso mesmo - concordo o outro, sério - Estou exatamente preocupado com o meu próprio caso. Já iniciei o que eu chamo de "a minha libertação".
- E o que eu chamo de "a sua imbecilização".
- Vista pela sua, que já é completa. O que eu chamo de libertação é a possibilidade de me afirmar integralmente, como homem. O homem é que interessa. Se Deus existe, posso vir a me entender com ele, mas há de ser de homem para homem.

Fonte: Fernando Sabino

Foto: Google

A rosa de Hiroshima - Vinicius de Moraes

 


A rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Embora tenha ficado mais conhecido pela sua lírica amorosa, Vinicius de Moraes também cantou versos dedicados a outros temas. A rosa de Hiroshima é um exemplo de poema engajado, profundamente preocupado com o futuro do mundo e da sociedade.

Vale lembrar que profissionalmente Vinicius de Moraes atuou como diplomata, por isso estava a par dos severos problemas político e sociais do seu tempo.

O poema, escrito em 1973, tece uma crítica grave a Segunda Guerra Mundial, especialmente as explosões das bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki (no Japão).

A rosa de Hiroshima foi posteriormente musicado por Gerson Conrad e chegou a ser tocado pela banda Secos e Molhados no disco de estreia (assista abaixo).


Fonte: Vinicius de Moraes

Foto: Google

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