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12.08.2025

Biografia de Manuel Bandeira

 

Biografia de Manuel Bandeira

    Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho), professor, poeta, cronista, crítico, historiador literário e professor, nasceu no Recife, PE, em 19 de abril de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de outubro de 1968.

    Filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira. Transferiu-se aos dez anos para o Rio de Janeiro, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, de 1897 a 1902, bacharelando-se em letras. Em 1903 matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo para fazer o curso de engenheiro-arquiteto. No ano seguinte abandonou os estudos por motivo de uma grave tuberculose. Praticamente desenganado, aos 18 anos de idade, fez estações de cura em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ, e por fim Clavadel, na Suíça, onde se demorou de junho de 1913 a outubro de 1914. Ali teve como companheiros de sanatório o poeta Paul Éluard e sua futura mulher Gala, que depois se casaria com Salvador Dalí. Contrariando os prognósticos, viveu até os 82 anos, criando uma das obras primordiais da moderna poesia brasileira.

    De volta ao Brasil, Manuel Bandeira começou a publicar em periódicos. Em 1916 perde a mãe, e em 1917 edita A cinza das horas, no qual reuniu poemas compostos durante o período de tratamento da doença. Os poemas do livro oscilavam entre tendências parnasianas e simbolistas, de acordo com a conhecida classificação, puramente negativa, de Pré-modernismo, fase chamada por Tasso da Silveira de Sincretismo, além de trazer influências diretas da poesia europeia da época. No ano seguinte morre a irmã Maria Cândida, da qual era muito próximo. Em 1919 publicou o segundo livro de poemas, Carnaval. Enquanto o anterior evidenciava as raízes tradicionais de sua cultura e, formalmente, sugeria uma busca da simplicidade, esse segundo livro caracterizava-se por uma deliberada liberdade de composição rítmica. Ao lado de “sonetos que não passam de pastiches parnasianos”, segundo o próprio Bandeira, nele figura o famoso poema “Os sapos”, sátira ao Parnasianismo, que veio a ser declamado, três anos depois, durante a Semana de Arte Moderna, por Ronald de Carvalho. Antecipador de um novo espírito na poesia brasileira, Bandeira foi cognominado, por Mário de Andrade, de “São João Batista do Modernismo”. Em 1920 morre seu pai.

    Por intermédio do amigo Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, que o receberia na Academia, conheceu os escritores paulistas que, em 1922, lançaram o movimento modernista. Não participou diretamente da Semana, mas colaborou na revista Klaxon e também na Revista de Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista.

    Em 1927, viajou ao Norte do Brasil, até Belém, com escalas em Salvador, Recife, Paraíba, Natal, Fortaleza e São Luís do Maranhão. De 1928 a 1929 permaneceu no Recife como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Em 1935, foi nomeado inspetor de ensino secundário; em 1938, professor de Literatura Universal no Externato do Colégio Pedro II; em 1942, professor de Literaturas Hispano-americanas na Faculdade Nacional de Filosofia, sendo aposentado por lei especial do Congresso em 1956. Desde 1938, foi membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Seu cinquentenário, em 19536, equivaleu a uma consagração nacional, coroada pela edição do livro Homenagem a Manuel Bandeira, com os depoimentos de 33 grandes nomes da cultura do país. Recebeu o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira, pelo conjunto da obra, em 1937, e o prêmio de poesia do Instituto Brasileiro de Educação e Cultura, também pelo conjunto da obra, em 1946.

    Durante toda a vida, fez crítica de artes plásticas, crítica literária e musical para vários jornais e revistas. Em 1925, colaborou na seção “Mês Modernista” do jornal A Noite, na revista A Ideia Ilustrada e como crítico musical para o Diário Nacional, de São Paulo; em 1930 e 1931, escreveu crítica de cinema para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e para A Província, do Recife; em 1941, fez crítica de artes plásticas em A Manhã, do Rio de Janeiro; em 1954, publicou De poetas e de poesia (reunião de textos de crítica); em 1955, começou a escrever crônicas para o Jornal do Brasil; de 1961 a 1963, escreveu crônicas semanais para o programa “Quadrante”, da Rádio Ministério da Educação; de 1963 a 1964, para os programas “Vozes da Cidade” e “Grandes poetas do Brasil”, da Rádio Roquette-Pinto.

    Como crítico de arte, Manuel Bandeira revelou particular afeição pelas velhas igrejas coloniais da Bahia e de Minas Gerais, pela arte arquitetônica dos conventos e dos velhos casarões portugueses da Bahia e do Rio de Janeiro, e pelas formas singelas das mais humildes igrejas do interior.

    Como crítico de literatura e historiador literário, revelou-se sempre um humanista. Consagrou-se pelo estudo sobre as Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, pelo esboço biográfico Gonçalves Dias, além de ter organizado várias antologias de poetas brasileiros e publicado o estudo Apresentação da poesia brasileira (1946). Em 1954, publicou o livro de memórias Itinerário de Pasárgada, no qual, além de suas memórias, expõe todo o seu conhecimento sobre as formas e técnicas de poesia, o processo da sua aprendizagem literária e as sutilezas da criação poética. Sua obra foi reunida nos dois volumes Poesia e prosa, pela editora José Aguilar, em 1958, contendo numerosos estudos críticos e biográficos.

    Sua morte foi sentida nacionalmente como a perda de uma espécie de muito querido patrono e decano da poesia brasileira.

    Terceiro ocupante da Cadeira 24, foi eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães Filho, e recebido pelo Acadêmico Ribeiro Couto em 30 de novembro de 1940. Recebeu os Acadêmicos Peregrino Júnior e Afonso Arinos de Melo Franco. Foi sucedido por Ciro dos Anjos.


Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL

Imagem: Google

 

 

 

12.07.2025

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

Por Gustavo Velôso

Em 26/11/2025

    Houve um tempo em que ele não era homem: era reflexo. Uma silhueta projetada no fundo da caverna nacional, tremulando na luz fraca de tochas acesas por mãos ansiosas. Era ali, entre ecos antigos e pedras frias, que muitos o viram nascer — não como figura de carne, mas como mito, palavra moldada mais pela crença do que pelo fato.

    Na caverna, as sombras ganhavam vida fácil. Bastava um gesto brusco, uma frase curta, um grito inflamado, e pronto: o país inteiro via na parede um salvador. Um guerreiro. Um justiceiro. O reflexo crescia, distorcido e magnânimo, enquanto o homem — real, limitado, comum — permanecia pequeno lá atrás, escondido atrás da fogueira que o alimentava.

    O mito era mais confortável que a realidade, prometia mais rápido e dispensava nuance. Até que um dia, como toda sombra que depende da chama, a luz vacilou. O fogo arrefeceu. E o que era mito virou réu, o que era promessa virou labirinto e o que era salvador virou acusado.

    Foi então que nasceu o mártir. Não por sacrifício, mas por narrativa; não por entrega, mas por conveniência; não por grandeza, mas por estratégia.

    A caverna, inquieta, precisava de um novo enredo. A sombra do herói não servia mais; melhor a do perseguido. Onde antes havia músculos de titã, agora pintaram feridas. Onde havia soberba, pintaram pureza. Onde havia contradição, pintaram conspiração. E a parede voltou a se iluminar — não com a chama da razão, mas com archotes de indignação cuidadosamente posicionados.

    Os habitantes da caverna se reuniram, como sempre, em volta das sombras. Acreditaram, como sempre, no que queriam acreditar. Repetiram, como sempre, o que ecoava mais alto.

    O homem da caverna — não o filósofo que busca a saída, mas aquele que teme a luz — encontrou seu novo papel: o de mártir incompreendido, injustiçado, predestinado. Enquanto isso, lá fora, o sol seguia nascendo sobre um país que preferia as sombras à claridade dolorosa dos fatos.

    E assim seguimos: entre a luz que liberta e a escuridão que consola, entre o homem e sua sombra, entre o mito fabricado e o mártir improvisado. Porque, afinal, nada é tão resistente quanto as histórias que contamos a nós mesmos quando temos medo de sair da caverna.

Fonte: Texto enviado por Gustavo Velôso

Foto: Google

12.06.2025

Fernando Sabino (Biografia)

 


    Fernando Sabino foi um dos grandes escritores brasileiros do século 20. Jornalista, cronista, contista, romancista, editor, cineasta, baterista, nadador. Muitas foram suas habilidades, mas é fundamentalmente reconhecido por seus textos bem humorados e de leitura muito fácil e prazerosa.

    Nasceu em Belo Horizonte, no Dia da Criança, em 12 de outubro de 1923. Talvez por isso mesmo dizia que se sentia sempre um menino, descobrindo coisas novas cotidianamente. As descobertas se davam no olhar curioso e no ato de escrever. “Os meus livros não são livros que procuram retratar o mundo. Os livros procuram apenas me ensinar aquilo que eu não sei pra eu poder ficar sabendo a meu respeito”, disse em entrevista à Bruna Lombardi no programa Gente de Expressão.

    Dentre suas obras mais conhecidas estão os romances O Grande Mentecapto, O Encontro Marcado e O Menino no Espelho. Publicou diversos livros de crônicas, como O Homem Nu, A Companheira de Viagem e Deixa o Alfredo Falar.

    Fernando Sabino escreveu também novelas, como A Vida Real e Faca de Dois Gumes. Publicou três livros de cartas (Cartas a um Jovem Escritor, correspondências trocadas com Mario de Andrade; Cartas Perto do Coração, com Clarice Lispector; e Cartas na Mesa com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino).

    Morreu de câncer na véspera de seu aniversário de 81 anos, no dia 11 de outubro de 2004, em seu apartamento em Ipanema.

Biografia de Fernando Sabino

    Fernando Sabino nasceu em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, em 1923. Filho de Domenico Savino (“Domingos Sabino”) e de Odete Tavares de Lacerda Sabino, que eram descendentes de italianos nascidos em Leopoldina no interior mineiro. Durante a infância e a juventude, Fernando morou em uma casa da Rua Gonçalves Dias, número 1458, bem em frente à Praça da Liberdade.

Os primeiros textos

    Suas lembranças e fantasias de garoto foram as matérias-primas para a composição do romance O Menino no Espelho, publicado em 1982. Nele, o autor resgata as memórias de uma infância rica em brincadeiras, numa cidade que era ainda jovem (Belo Horizonte foi fundada em 1897, tinha apenas 26 anos quando o autor nasceu).

    Já o período da juventude de Fernando Sabino foi marcado pelo início de suas atividades literárias e a formação de um grupo de quatro amigos que se manteria coeso por toda a vida. Além de Fernando, o quarteto era formado por Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Todos eles se tornaram escritores e foram chamados por Otto de “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. Juntos conversavam sobre literatura e os dilemas da vida, frequentavam a zona boêmia de Belo Horizonte e iniciaram as primeiras atividades literárias e na imprensa. Este período reúne as angústias do jovem Fernando retratadas na primeira parte do livro O Encontro Marcado (1956), considerado por muitos como sua obra-prima.

    Fernando Sabino escreveu seu primeiro conto aos 14 anos e publicou o primeiro livro Os Grilos não Cantam Mais (1941) aos 17. Nesta época dedicava-se à natação e foi campeão recordista mineiro nos 400 metros nado costa.

    Em 1944 se casou com Helena, filha do governador de Minas Gerais, Benedito Valadares. Mudaram-se para o Rio de Janeiro, para que o jovem assumisse o cartório que ganhou de presente de casamento do então presidente Getúlio Vargas. Tiveram quatro filhos: Eliana, Leonora, Pedro e Virgínia.

Rio de Janeiro

    No Rio de Janeiro, passou a colaborar com a imprensa e se tornou amigo de grandes intelectuais e artistas, como Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Rubem Braga.

Ao se separar de Helena, em 1952, Fernando Sabino abriu mão do cartório e passou a se dedicar integralmente à atividade literária e ao trabalho nos jornais e revistas. Chegou a escrever crônicas diárias para jornais.

    Em 1957 se casou com Anne Beatrice Estill e tiveram três filhos: Verônica, Bernardo e Mariana. Se separou em 1972 e se casou com Lygia Marina de Moraes, com quem não teve filhos.

No exterior e editor

    Fernando Sabino morou por dois anos na década de 1940 em Nova Iorque, onde trabalhou no consulado e nesta época produziu crônicas para jornais do Brasil, reunidas mais tarde no livro A Cidade Vazia. Morou também em Londres nos anos 1960, com a função de adido cultural na embaixada brasileira.

    Em 1960 fundou a Editora do Autor em sociedade com o escritor Rubem Braga, com foco em escritores brasileiros e latino-americanos. Em 1966, também com Rubem Braga, fundou a Editora Sabiá.

    Aventurou-se no vídeo e em 1973 criou a Bem-te-vi Filmes, com o cineasta David Neves. Juntos, produziram uma série de dez documentários sobre escritores brasileiros e também filmes sobre feiras internacionais.

    Apaixonado por jazz, foi baterista amador e muitos o viram tocar em bares do Rio de Janeiro.

Maturidade

    Revirando papéis antigos em 1979, Fernando Sabino encontrou as primeiras páginas de um romance que havia iniciado em 1946. Teve, a partir daí, uma compulsão por retomar a história e escreveu O Grande Mentecapto em apenas 18 dias. No ano seguinte, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor romance pelo livro.

    Procurado pela ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Melo, escreveu o relato biográfico Zélia, Uma Paixão. O livro alcançou sucesso imediato, mas foi alvo de muitas críticas, inclusive de amigos do escritor.

    Nos últimos anos de vida, dedicou a organizar e publicar antigos trabalhos, como O Galo Músico (1999) e Os Movimentos Simulados (2004).

    Escreveu o próprio epitáfio, que está em seu túmulo no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!”.

    Seu legado é administrado pelo Instituto Fernando Sabino, presidido por um de seus filhos, Bernardo.

Obras de Fernando Sabino

Os grilos não cantam mais – contos (1941 – Pongetti)

A marca – novela (1944 – José Olympio)

A cidade vazia – crônicas e histórias (1950 – NY)

A vida real – novelas (1952, Editora A Noite)

Lugares comuns – dicionário (1952, Record)

O encontro marcado – romance (1956, Civilização Brasileira)

O homem nu – crônicas (1960, Editora do Autor)

A mulher do vizinho – crônicas (1962, Editora do Autor)

A companheira de viagem – crônicas (inclusive crônicas de viagens) (1965, Editora do Autor)

A inglesa deslumbrada – crônicas (inclusive crônicas de viagens) (1967, Sabiá)

Gente I e Gente II – crônicas e perfis de personalidades (1975, Record)

Deixa o Alfredo falar! – crônicas (1976, Record)

O Encontro das Águas – crônicas sobre uma viagem à cidade de Manaus/AM (1977, Record)

O grande mentecapto – romance (1979, Record)

A falta que ela me faz – crônicas (1980, Record)

O menino no espelho – romance (1982, Record)

O Gato Sou Eu – crônicas (1983, Record)

Macacos me mordam (1984, Record)

A vitória da infância (1984, Editora Nacional)

A faca de dois Gumes – novelas (1985, Record)

O Pintor que pintou o sete (1987, Berlendis & Vertecchia)

Martini Seco – romance policial (1987, Ática)

O tabuleiro das damas – autobiografia literária (1988, Record)

De cabeça para baixo – crônicas de viagens (1989, Record)

A volta por cima – crônicas (1990, Record)

Zélia, uma paixão – biografia (1991, Record)

O bom ladrão – novela (1992, Ática)

Aqui estamos todos nus (1993, Record)

Os restos mortais (1993, Ática)

A nudez da verdade (1994, Ática)

Com a graça de Deus (1995, Record)

O outro gume da faca – novela (1996, Ática)

Um corpo de mulher (1997, Ática)

O homem feito novela (originalmente publicada no volume A vida real) (1998, Ática)

Amor de Capitu – recriação literária de Dom Casmurro (1998, Ática)

No fim dá certo – crônicas (1998, Record)

A chave do enigma (1999, Record)

O galo músico (1999, Record)

Cara ou coroa? (2000, Ática)

Duas novelas de amor – novelas (2000, Ática)

Livro aberto – Páginas soltas ao longo do tempo – crônicas, entrevistas, fragmentos, etc. (2001, Record)

Cartas perto do coração – correspondência com Clarice Lispector (2001, Record)

Cartas na mesa – correspondência com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (2002. Record)

Os caçadores de mentira (2003, Rocco)

Cartas a um jovem escritor e suas respostas (2003, Record)

Os movimentos simulados (2004, Record)

Bolofofos e finifinos (2004, Ediouro)


Fonte: Por Da Janela

Foto: Google

12.05.2025

Carnaval 1910 - Graciliano Ramos

 

Carnaval 1910 - Graciliano Ramos


Eram três dias bem desagradáveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livraria de pesares: se se distraíam, inundavam-nos jatos d’água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Além desses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tintas de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.

Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambás. Ninguém lhe dava importância — e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na função, tornar-se também selvagem, vingar-se, provocar outras indignações e arrastar para a folia os amigos cautelosos. Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira, e desregravam-se com moderação, quase a pedir desculpas encabuladas à cidadezinha pacata. Homens graves, pais de família, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necessária.

Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, sacudindo com espanto e enjôo as cabeças, onde se arrumavam papelotes. Não se contaminavam, estavam livres da pintura, dos banhos, de atracações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procissão. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos d’água-de-cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de confiança. Brincadeira com moça findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confete, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter.

Ainda se desconhecia o automóvel. A gente escassa pezunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas. As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim, branco de fiapos.

De longe em longe desfilavam parafusos, tipos envoltos em numerosas anáguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora, pacholas, cobertos de renda engomada.

Papangus vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meias.

Bobos de máscaras horríveis se esforçavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:

— Você me conhece?

Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados. O índio, de penacho e tanga, era personagem obrigatória e silenciosa.

Passava o cordão, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo decente em redor da porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alteração, muito bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleira de algodão e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.

Mascarados solitários produziam hilaridade com pilhérias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, formavam as críticas, motivo de receios e alarmas. Alusões a notáveis acontecimentos do lugar, comentários a fatos melindrosos e particulares, mexericos tolos, sem graça nenhuma. Criavam-se inimigos. E às vezes se liquidavam contas velhas.

Um cidadão espiava o morcego e o parafuso, de longe. Dois ou três embuçados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, súplicas, sangue, apitos, sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas — e era bom evitar opiniões. No ano seguinte as críticas seriam menos ofensivas.

 

Fonte: Cultura Política, ano I, nº 1, Rio de Janeiro, mar. 1941 / Site do Escritor Graciliano Ramos. 

Foto: Google

 

 

A última crônica - Fernando Sabino

 

A última crônica

Fernando Sabino

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

    O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. Fernando Sabino


Fonte: PENSADOR 

Foto: Google 

12.04.2025

A Velha Amiga - Rachel de Queiróz

 


A Velha Amiga

    Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.

    Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

    Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

    A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.

    Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

    Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

    Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.

    E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

    Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

    Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

    Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.

    A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.

    E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.

    Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.

(Crônica publicada no jornal "O Estado de São Paulo" - 13/01/2001) Rachel de Queiroz


Fonte: Pensador

Foto: Google

 


Biografia

    Quinta ocupante da Cadeira 5, eleita em 4 de agosto de 1977, na sucessão de Candido Motta Filho, e recebida pelo Acadêmico Adonias Filho em 4 de novembro de 1977.

    Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza (CE), em 17 de novembro de 1910, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 4 de novembro de 2003. Filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descende, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente portanto do autor ilustre de O Guarani, e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe.

    Em 1917, veio para o Rio de Janeiro em companhia dos pais, que procuravam, nessa migração, fugir dos horrores da terrível seca de 1915, que mais tarde a romancista iria aproveitar como tema de O Quinze, seu livro de estreia. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, viajando logo a seguir para Belém do Pará, onde residiu por dois anos.

    Em 1919, regressou a Fortaleza e, em 1921, matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade.

    Estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queluz, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redatora efetiva. Em fins de 1930, publicou o romance O Quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com vinte anos apenas, projetava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca.

    O livro, editado às expensas da autora, apareceu em modesta edição de mil exemplares, impresso no Estabelecimento Gráfico Urânia, de Fortaleza.  Recebeu crítica de Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Gruls. A consagração veio com o Prêmio da Fundação Graça Aranha.

    Em 1932, publicou um novo romance, intitulado João Miguel, e, em 1937, retornou com Caminho de pedras. Dois anos depois, conquistou o prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publicou em folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro.

    Cronista emérita, publicou mais de duas mil crônicas, cuja seleta propiciou a edição dos seguintes livros: A donzela e a Moura Torta, 100 crônicas escolhidas, O brasileiro perplexo e O caçador de tatu. No Rio, onde passou a residir em 1939, colaborou no Diário de Notícias, em O Cruzeiro e em O Jornal. Escreveu duas peças de teatro, Lampião, em 1953, e A beata Maria do Egito, de 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a televisão, ainda inédita em livro. No campo da literatura infantil, escreveu o livro O menino mágico, a pedido de Lúcia Benedetti. O livro surgiu, entretanto, das histórias que inventava para os netos. Dentre as suas atividades, destacavam-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes vertidos para o português.

    Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. Participou da 21ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em 1966, onde serviu como delegada do Brasil, trabalhando especialmente na Comissão dos Direitos do Homem. Em 1988, iniciou sua colaboração semanal no jornal O Estado de São Paulo e no Diário de Pernambuco.

    Recebeu o Prêmio  Nacional de Literatura de Brasília para conjunto da obra, em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, em 1981; a Medalha Mascarenhas de Morais, em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamaraty (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986); a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); O Prêmio Luís de Camões (1993); o Prêmio Moinho Santista, na categoria de romance (1996); o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Em 2000, foi eleita para o elenco dos “20 brasileiros empreendedores do século XX”, em pesquisa realizada pela PPE (Personalidades Patrióticas Empreendedoras).


Fonte: ABL

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12.03.2025

Desenvolvimento Infantil: Como A Presença Dos Pais Transforma O Futuro Das Crianças - Raquel Rocha (*)

 

Desenvolvimento Infantil: Como A Presença Dos Pais Transforma O Futuro Das Crianças - Raquel Rocha (*)

      O desenvolvimento infantil não acontece apenas na escola ou nos consultórios. Ele começa em casa, nas interações cotidianas, no colo, no banho, na conversa durante o preparo da comida ou na história antes de dormir. Cada uma dessas experiências simples cria conexões neurais que sustentam a linguagem, o raciocínio, a criatividade e as habilidades emocionais. Por isso, presença ativa dos pais é um dos fatores mais determinantes para o crescimento saudável das crianças, especialmente nos primeiros anos de vida.

    A infância é marcada por descobertas rápidas e profundas. Nos primeiros meses, o bebê aprende pelo contato direto com quem o cuida. A voz dos pais, o olhar, o toque e a forma como respondem ao choro influenciam a construção da segurança emocional, que será a base das futuras relações e da confiança que a criança terá em explorar o mundo. Conversar olhando nos olhos, cantar, embalar, oferecer estímulos sensoriais variados são práticas simples que fortalecem o vínculo e favorecem o desenvolvimento motor e cognitivo.

A força do brincar e da linguagem no desenvolvimento

    Entre um e três anos, a criança quer explorar, testar e descobrir. Brincar é sua principal forma de aprender, e os pais têm papel essencial nesse processo. Objetos simples, potes, caixas, blocos e panelinhas estimulam a imaginação e a coordenação. As brincadeiras de faz de conta ajudam na compreensão da realidade e ampliam a criatividade. Ao mesmo tempo, os limites, as regras de convivência e o manejo das frustrações começam a ser construídos nessa fase.

    A linguagem também floresce intensamente. Ler histórias todos os dias, conversar com a criança durante as atividades, nomear objetos e sentimentos e fazer perguntas simples contribui para a expansão do vocabulário e para a formação do pensamento. Quando os pais participam dessas interações, ajudam a criança a compreender melhor o mundo e a expressar suas necessidades e emoções com mais clareza.

Convivência, limites e cuidados

    O ambiente familiar é o primeiro espaço onde a criança aprende sobre respeito, cooperação e empatia. Ensinar a esperar a vez, pedir desculpas, resolver conflitos e compreender sentimentos começa em casa, com o exemplo dos adultos. A escola ampliará essas aprendizagens, mas a base emocional nasce na convivência familiar.

    Ao mesmo tempo, é necessário atenção ao uso das telas. Especialistas recomendam evitar a exposição antes dos dois anos e preferir sempre interações reais. O excesso de telas pode prejudicar a fala, a atenção e a capacidade de interação social. Quando fizer parte da rotina, o ideal é que um adulto acompanhe e converse sobre o conteúdo, evitando que a tecnologia substitua o contato humano.

    Por fim, pais devem observar o ritmo de desenvolvimento dos filhos, reconhecendo que cada criança tem seu tempo. No entanto, atrasos persistentes na fala, falta de interação social, dificuldades motoras ou comportamentos repetitivos são sinais que merecem avaliação profissional. Buscar ajuda é um gesto de cuidado, pois intervenções precoces podem transformar positivamente o futuro da criança.

    Estimular o desenvolvimento infantil não exige técnicas complexas. Exige presença e afeto. Pais que conversam, acolhem, brincam, ensinam e observam constroem, no dia a dia, as bases de uma infância saudável e de uma vida plena. Seja nas pequenas rotinas ou nos grandes momentos, é na relação com a família que a criança encontra força para crescer, aprender e se tornar quem é.


(*) Raquel Rocha / Psicóloga, Especialista em Neuropsicologia, Saúde Mental e Terapia familiar. 

Fonte: Costa do Cacau Blog

Imagem: Produção do texto

A Arte de Ser Avó - Rachel de Queiróz

 

A Arte de Ser Avó - Rachel de Queiróz

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...

Quarenta anos, quarenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações - todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...

No entanto - no entanto! - nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela, hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer roquetes, tomar café - café! -, mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém, esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...

    (O brasileiro perplexo, 1964.) Rachel de Queiroz


Fonte: “Pensador”

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12.02.2025

Por que o sono é vital para o corpo humano? - Raquel Rocha (*)


Por que o sono é vital para o corpo humano?

Quando foi a última vez que você dormiu realmente bem? Talvez você tenha acordado com a sensação de cansaço, mesmo depois de horas na cama. Ou talvez esteja tão acostumado a noites maldormidas que nem perceba mais o quanto isso afeta seu dia. O fato é simples e inegociável: dormir não é um luxo, é uma necessidade vital, tão essencial quanto respirar.

Mesmo assim, em uma rotina marcada por pressa, prazos e telas que nunca se apagam, o sono costuma ser o primeiro a ser sacrificado. E essa é uma escolha que cobra seu preço. Enquanto você fecha os olhos, seu corpo desperta para um trabalho intenso e silencioso, indispensável para garantir saúde, equilíbrio e vida.

Durante o sono, ocorre uma verdadeira manutenção interna. Nas fases mais profundas, os músculos se recuperam, as células se regeneram e o hormônio do crescimento é liberado. Esse hormônio é fundamental para reparar tecidos e fortalecer o corpo. Muitas dores, cansaços e até dificuldades na prática de atividades físicas podem ser resultado do sono insuficiente, e não apenas da rotina diária.

O cérebro, por sua vez, realiza uma tarefa ainda mais impressionante. Enquanto você descansa, ativa um sistema de limpeza chamado glinfático. Imagine um fluxo de água límpida que circula pelas células nervosas e remove toxinas acumuladas ao longo do dia, incluindo proteínas associadas ao Alzheimer. Quando essa limpeza não acontece de forma adequada, as consequências se acumulam ao longo do tempo.

O professor Álan Eckeli, neurologista da USP, explica: “Se nós dormirmos mal, vamos adoecer e, se pararmos de dormir, vamos falecer. Isso mostra a grande importância do sono.” Em outras palavras, o sono não representa uma simples pausa, mas uma exigência fundamental da vida.

Dormir também influencia diretamente os hormônios do apetite. Aquela vontade exagerada de comer doces e carboidratos depois de uma noite ruim tem explicação biológica. A privação de sono reduz a leptina, que provoca saciedade, e aumenta a grelina, responsável pela sensação de fome. Isso faz com que quem dorme mal consuma mais calorias e tenha maior tendência ao ganho de peso.

A imunidade também depende do sono. Durante o descanso, o corpo produz citocinas, substâncias essenciais para combater infecções. Quando o sono falha, o sistema imunológico enfraquece e infecções se tornam mais frequentes. Dormir mal hoje pode ser a razão de você adoecer amanhã.

O impacto cognitivo talvez seja um dos mais evidentes. Durante a fase REM, experiências são organizadas, memórias são consolidadas e o raciocínio ganha estrutura. Quando esse processo é interrompido, surgem desatenção, lentidão e dificuldade para tomar decisões simples, sinais claros de exaustão cerebral.

O sono é regulado por dois mecanismos essenciais: o ciclo circadiano, que responde à luz do dia, e a pressão do sono, que aumenta conforme permanecemos acordados. Quando esses dois processos funcionam em harmonia, o descanso ocorre de forma natural. Porém, quando há excesso de telas à noite, horários irregulares ou acúmulo de estresse, essa sintonia se perde.

As consequências da privação de sono são amplas e sérias. O risco de hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, depressão, ansiedade, acidentes e até mortalidade aumenta de forma significativa. Sacrificar horas de descanso nunca representa ganho de tempo, mas um prejuízo silencioso e contínuo.

A ciência é clara: dormir não é uma escolha, é uma necessidade fisiológica. Adultos precisam, em média, de sete a nove horas de sono por noite. Mais do que isso, precisam dormir com qualidade. Vale refletir. Você tem respeitado o tempo que seu corpo pede?

Em uma sociedade acelerada, priorizar o sono pode parecer desafiador, mas é uma das decisões mais inteligentes para quem busca bem-estar. Dormir bem transforma o humor, a energia, o foco e a saúde. Dormir é descanso, mas é também cuidado, prevenção e, acima de tudo, sobrevivência.

(*)Artigo de Raquel Rocha, Neuropsicóloga, Especialista em Saúde Mental, Escritora e Presidente da Academia de Letras de Itabuna.


 Att.: O "Ponto de Leitura" considerou este artigo da neuropsicóloga Raquel Rocha, utilidade pública, pois, grande parcela da população sofre de insônia aguda (poucas semanas), ou, insônia crônica, que exige intervenção médica especializada.


Fonte: Jornal "A Região"

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12.01.2025

Reflexão sobre o filme escola da vida.

 

Débora Cunha Xavier Maretto, Leandro Freias Menezes[*], Luceny Rocha Lopez, Sabrina Wanzeler Garcia

 Material escolar

Resumo: Este trabalho vida apresentar uma reflexão sobre o filme “Escola da vida”, com o objetivo de nortear o educador na metodologia e na postura que deve assumir diante das situações escolares e também da pós-modernidade. Com essa análise e com a leitura de outros autores, chegou-se a conclusão que o educador deve ser um indivíduo crítico e reflexivo no desempenho das práticas escolares, pois só, assim, poderá vencer o dogmatismo tradicional e os problemas que envolvem a educação dos alunos.

Abstract: This work plants vines to present a reflection on the movie “School of the life”, with the objective to orientate the educator in the methodology and in the posture that must take office before the school situations and also of the powders-modernity. With this analysis and with the reading of other authors, the conclusion approached that the educator must be a critical and reflexive individual in the performance of the school practices, since only, so, it will be able to win the traditional dogmatism and the problems that wrap the education of the pupils.

Introdução

A escola é o ambiente em que o indivíduo tem a oportunidade de desenvolver o processo de socialização, atingindo sua identidade e autonomia. Isso contribuirá para que ele reconheça o outro nas suas diferenças, ou seja, “[…] é no exercício da vivência entre os seres diferentes que se aprendem normas, sem as quais não sobrevive a sociedade” (FERREIRA; AGUIAR, 2008, p. 130). Entretanto, a escola não está voltada apenas para a socialização, mas também para agregação de conhecimentos acumulados ao longo dos anos, além de ser criada uma escola de acordo com os moldes daquela sociedade, de um determinado tempo, atendendo ao seu interesse.

E com as transformações que vem sofrendo o mundo contemporâneo, em especial a educação, deve-se levar em conta a necessidade de refletir sobre o que traçar em relação aos saberes e às capacidades necessárias para a formação do cidadão. “Assim sendo, ela necessita de pressupostos teóricos, de conceitos que fundamentem e orientem os seus caminhos. A sociedade na qual ela está deve possuir alguns valores norteadores de sua prática” (LUCKESI, 1990, p. 31).Serviços de streaming de filmes online

A partir dessas contribuições e levando em conta que a aprendizagem é tema de importância primordial para qualquer sociedade que vise ao desenvolvimento total e integrado do cidadão, este artigo tem como objetivo refletir sobre a concepção e a prática pedagógica utilizada em sala de aula. Para isso, propõe-se analisar o filme “Escola da Vida”, que traz elementos pertinentes à educação, pois faz ampla referência às diferentes metodologias de ensino utilizadas pelos professores. Nesse sentido, observa-se que nos momentos atuais, ou pós-moderno, como dizem, essa tarefa é árdua para professores e outros profissionais da educação, assim, qual modelo seguir? O filme sugere uma tendência como se verá, mas qual tendência seria realmente a mais adequada visto que não se tem um modelo atualmente? Dessa maneira, partindo da análise do filme em questão, o propósito deste artigo é reconhecer a importância de mudanças metodológicas, quando a aprendizagem, interesse e motivação nas aulas são falhos.Material escolar

Contextualizando o Filme Escola da vida

A construção da prática educativa que norteia nossa caminhada como educadores, deve estar embasada nas teorias pedagógicas, sabendo que elas não são “receitas prontas”, mas sim, elementos norteadores que propiciarão ao cotidiano escolar, identificar, compreender, associar e contextualizar o saber do nosso educando. Dessa forma, de acordo com Libâneo (1990), deve-se aproveitar o conhecimento significativo que o nosso aluno já tem, assessorando-o na aquisição de novos e, com isso, legitimando os saberes. Sendo assim, apresenta-se o filme Escola da Vida, que se passa na escola Fallbrook Middle School, e é narrada pelo aluno e filho do professor Matt. Nesse filme observam-se dois professores, o Senhor D, professor de História e o Matt, professor de Biologia. Esses dois professores trabalham com métodos pedagógicos completamente antagônicos: O Senhor D utiliza a tendência Liberal Renovadora Progressiva e o professor Matt utiliza a Pedagogia Liberal Tradicional.

Observando a metodologia desses dois professores, ver-se-á que a maneira como o Senhor D trabalha acabou mudando “a cara” da escola, pois em suas aulas de História os temas geradores são extraídos do cotidiano dos alunos, usando a ideia de Freinet[†]: “o homem cria a cultura na medida em que se integrando nas condições de seu contexto de vida, reflete sobre ela e dá respostas aos desafios que encontra”. Nesse sentido, esse conceito torna o professor um mediador entre conteúdos e aluno. Na mesma proporção em que o “Sr. D” alcança sucesso em seu trabalho, o professor Matt fracassa ao ministras suas aulas de biologia, pois foca no conhecimento dedutivo, em que eram apresentadas informações para serem armazenadas pelos alunos, e isso era feito com muita autoridade e disciplina, sendo Matt, como o professor, a garantia desse conhecimento.

Comunicação

Porém, foi entre o sucesso e o fracasso experienciado por esses dois profissionais da educação, a grande surpresa desse filme foi a mudança ocorrida na prática educativa de todos os professores, inclusive do professor Matt o qual passa por uma “metamorfose” metodológica. Essa mudança, evidenciada em todo o grupo escolar tem muita semelhança com a afirmação de Paulo Freire: “só se aprende aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em aprendido, sendo capaz de aplicá-lo em situações concretas” Paulo Freire (1977, p.27, 28). Tais palavras do autor, direcionadas ao episódio do filme, mostram a possibilidade de mudança de perspectiva metodológica diante das situações vivenciadas em sala de aula.Serviços de streaming de filmes online

Uma Abordagem dos Conteúdos do Filme

Como se pôde observar, o filme Escola da vida é permeado de elementos pertinentes ao ramo da educação, fazendo alusão aos métodos e comportamentos encontrados nas instituições escolares, pois faz ampla referência à pelo menos duas tendências pedagógicas de ensino utilizadas pelos professores. Por exemplo, vê-se em primeiro lugar a tendência Tradicional defendida pelo dogmático professor Matt, tradicional em suas concepções e tendências pedagógicas. Fundamentado nessa tendência, Matt, insisti na ideia de repassar seus conhecimentos, vendo os alunos que são adolescentes como se fossem adultos em miniatura e, além disso, o educador desconsidera o aprendizado trazido por seus educandos do cotidiano. Dessa forma, fica evidente que na ministração das aulas, Matt tenta transmitir a ideia de que somente ele é portador do conhecimento e, em consequência, disso os alunos não podem colaborar com o processo cognitivo.Material escolar

Em segundo lugar, vê-se, em contraposição à visão anterior, a tendência Liberal Renovadora Progressiva defendida pelo professor Senhor D. Esse profissional valoriza as ideias de Piaget (1977), de Vygotsky (1926) e de Wallon (1925), embora a tendência citada esteja ligada aos ideais de Piaget, os quais concebem o conhecimento como resultado da ação que se passa entre o sujeito e o objeto, evidenciando que o conhecimento não está no sujeito como queriam os inatistas, nem no objeto, como diziam os empiristas, mas resulta da interação entre ambos. Com isso, a atitude do Senhor D, contrária a pedagogia tradicional, é de procurar expandir o conhecimento dos alunos partindo do que eles já estão em contato e dando a oportunidade da participação dos alunos.

Fazendo uma reflexão sobre essas duas tendências pedagógicas apresentadas, nota-se que o professor Matt nos leva a fazer um paralelo com o sistema educacional deste país, onde os interesses próprios estão em suma relevância e a necessidade de reforma na ideologia do educador está em segundo plano. Sendo assim, é com o método do Senhor D que se enxerga a possibilidade de reforma e de tomada de posição em relação ao tradicionalismo dogmático, pois o filme sugere essa atitude por parte daquele que o assiste, além de inspirar meios para que os professores tornem o ensino mais produtivo e embasado. O que o educando aprende não deve ter impacto somente no instante em que está estudando e abordando determinado assunto, mas deve ser parte fundamental de construção de seu caráter e de seu futuro.

Em fim, o filme propõe mudanças de metodologias quando a aprendizagem, interesse e motivações nas aulas são falhos, recorrendo assim a recursos práticos do cotidiano escolar, para aulas mais dinâmicas. Para isso, o professor deve reconhecer e canalizar como fator produtivo das aulas, a gama de conhecimentos que cada aluno trás consigo, fomentando nos educandos o desejo de ampliar seus conhecimentos (a interdisciplinaridade); e também reconhecer que os mesmos são produtores e construtores de saberes.Serviços de streaming de filmes online

Uma Análise Reflexiva Acerca da Postura Pedagógica da Escola da Escola e do Professor Diante das Situações Cotidianas

Qual modelo de educação a escola deve seguir atualmente? A pós-modernidade trouxe essa crise de paradigmas que apresenta diversas propostas pedagógicas, porém essa indagação inicial ainda persiste. Tal instabilidade compromete a instituição escolar, os professores e os alunos. Dessa forma, se se analisar, por exemplo, a papel da escola, nas inúmeras tendências existentes, ver-se-á que cada uma conceitua algo a respeito. No entanto, uma das funções reais da escola a que todas as tendências dever concordar é que a função da escola é socializar o educando, em outras palavras, é prepará-lo para ter consciência de si e ter acesso a todas as instâncias sociais. Entretanto, a escola, atualmente, não tem cumprido esse papel satisfatoriamente (PÉREZ GÓMES, 1998). Nesse sentido, vale ressaltar os papéis de professor/aluno. Qual postura o professor deve assumir diante do fato denominado de “de crise escolar” em que fracassam tanto os alunos que abandonam a escola quanto de alunos que permanecem nela. De quem será a culpa disso? Quais as causas disso, uma vez que as consequências já estão visíveis? Nessa situação, nota-se certa falta de credibilidade quanto ao trabalho do professor, todavia, ao ser investigadas as razões do fracasso escolar, muitos educadores preferem responsabilizar a polêmica figura do “aluno-problema”, que é visto como alguém com supostos problemas psicopedagógicos, com distúrbios cognitivos e indisciplinado, como argumenta Aquino (1998). Embora os educadores levantem várias hipóteses para justifica o fracasso escolar pelo “aluno-problema”, como por exemplo: a escola do passado disciplinava melhor; o aluno sofre desajustes por causa da má convivência familiar; o aluno é desinteressado porque é atraído pelas tecnologias. Dessas hipóteses, o autor mostra que nenhuma tem fundamento. Por causa disso, ele levanta sua hipótese pessoal dizendo que essa visão é antiética excludente e discriminatória, porque seria como ver a clientela (os aluno) como o problema para o exercício da profissão. Além disso, não se pode tomar a disciplina como pré-requisito para o processo educacional, uma vez que os alunos não são indisciplinados em todas as matérias, mas em algumas. Na verdade, em uma ação ética da escola e do profissional, a indisciplina é vista como algo salutar e, vendo-a dessa forma, o “aluno-problema” não existe e o que passa a existir é tão somente uma “situação-problema” a ser superada e suplantada. Nesse mesmo sentido, o professor deve se colocar no lugar do aluno e, questionar-se: Para que escola? Qual a relevância e o sentido do estudo, do conhecimento? No quê isso me transforma? E qual é meu ganho, de fato, com isso? Tais indagações devem funcionar como um diálogo entre professor/aluno; é um mergulhar no cotidiano de sala de aula para se fazer uma nova leitura sobre os problemas que se apresentam e suas possíveis soluções. Diante disso, Aquino (1998) diz que são ideias simples como essa que fazem a diferença na vida de um profissional de educação, porque elas fazem com que ele deixe de lado os pensamentos discriminatórios e endurecidos e as crenças arraigadas do tradicionalismo. E além, disso contribuem para que o educador possa escolher adequadamente o método pedagógico para aplicar em seu cotidiano escolar.  E assim, tenha condições de elaborar meios mais práticos para que o aluno saiba a aplicação do que aprende e saiba para que e por que está aprendendo. Esses são métodos de ensino eficientes que cumprem uma função social: educar para a vida.Material escolar

Considerações Finais

Com as discussões apresentadas acima, conclui-se dizendo que o diante da falta de um modelo de educação e das situações vivenciadas pelo professor, existe a necessidade de que ele seja mais crítico e mais reflexivo a fim de saber escolher os métodos de trabalho que possam assistir com eficiência aos alunos e ao mesmo tempo contribuir com suas atividades.

Referências

AQUINO, J. G. A indisciplina e a escola atual. Ver. Fac. Educ. v.24 n.2, São Paulo, Jul./dez. 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/php=sei_arttext&pid=S0102-255519998000200011&1… Acessado em: 13/02/2006. 

ESCOLA da vida. Direção: Willian Dear. Canadá/ EUA: California Home Vídeo, c2005. 1DVD.Comprar Os mais vendidos

FERREIRA, Naura Syria Carapeto, AGUIAR, Márcia Angela da S. Gestão da Educação: impasses, perspectivas e compromissos.  6. ed. São Paulo: Cortez, 2008, p. 129-145.

LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1990, p. 01-184.

GADOTTI, Moacir. Pensamento Pedagógico Brasileiro. São Paulo: Ática l988

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública. São Paulo: Loyola, 1990

PÉREZ, Gomes. “As funções sociais da escola: Da reprodução à reconstrução crítica do conhecimento e da experiência”. In: SACRISTÁN, J. Gimeno e PÉREZ, Gomes. Compreender e transformar a escola. 4a ed., Porto Alegre: Artmed, 1998, pp. 13-25.

FREIRE, Paulo.  Extensão e comunicação?  Tradução de Rosisca Darcy de Oliveira. 9ªedição, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

MENEZES, L. F. O problema crítico: Filme escola da Vida: uma reflexão sobre a escolha de tendências para o processo de ensino aprendizagem. Revista virtual Partes. Cidade, v. 00, n. 00, p. 00, maio/ago. 2011. Disponível em: (site). Acesso em 4 de maio de 2011.Serviços de streaming de filmes online

[*] Leandro e et alli, ambos são Licenciados em Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Espírito Santo. Contato pelos emails: leandrofm.icm@hotmail.com e leandrofreitasmenezes@yahoo.com.br ; Também pelos telefones: Tel.: (27) 3721-7003  Cel.: (27) 8844-5147.

[†] Celestin Freinet foi um pedagogo anarquista francês, um importante referência da pedagogia de sua época, cujas propostas continuam tendo grande ressonância na educação dos dias atuais.

 Educação didactic, didática, Filme Escola da vida, Movie School of the life, pedagogic tendencies, reflection, reflexão, tendências pedagógicas.


Autores: Débora Cunha Xavier Maretto, Leandro Freias Menezes[*], Luceny Rocha Lopez, Sabrina Wanzeler Garcia

Imagem: Google

O garoto de meias vermelhas - Carlos Heitor Cony

 

O garoto das meias vermelhas - Carlos Heitor Cony

Todos os dias, ele ia para o colégio com meias vermelhas. Era um garoto triste, procurava estudar muito, mas na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa. Os outros guris zombavam dele, implicavam com as meias vermelhas que ele usava. Um dia, perguntaram porque o menino das meias vermelhas só usava meias vermelhas. Ele contou com simplicidade:

- "No ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo. Botou em mim essas meias vermelhas. Eu reclamei, comecei a chorar, disse que todo mundo ia zombar de mim por causa das meias vermelhas. Mas ela disse que se me perdesse, bastaria olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas saberia que o filho era dela".

Os garotos retrucaram:

- "Você não está num circo! Porque não tira essas meias vermelhas e joga fora?" Mas o menino das meias vermelhas explicou:

- "É que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora. Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas. Quando ela passar por mim vai me encontrar e me levará com ela".

Quantas crianças e adolescentes estão HOJE, solitários e tristes, chorando  por alguém  que se foi. Colocam "meias vermelhas," na esperança que alguém as  identifique, em meio à multidão, e as leve para a intimidade do próprio coração.

São crianças, cujos pais as deixaram, um dia, em braços alheios, enquanto eles mesmos se lançaram à procura de tesouros, nem sempre reais. Perdendo os melhores tesouros: seus próprios filhos.

Lesadas em sua afetividade, essas crianças vivem cada dia à espera de alguém, que as entenda, que lhes dê esperança, um aconchego. Têm sede de carinho e fome de afeto.

Trazem o olhar triste de quem se encontra sozinho e anseia por ternura. Ninguém no mundo pode medir a dor de um coração quando abandonado por alguém que tanto amou e esperou.

Talvez, HOJE, exista alguém, bem pertinho de você usando meias vermelhas, esperando uma pessoa que ame a Deus e a encontre.

AutorCarlos Heitor Cony

Imagem: Google 


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