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11.28.2025

A face obscura do homem - Os jagunços (Capítulo 7)

 

A face obscura do homem - Os jagunços (Capítulo 7)

Os Jagunços

Costuma-se dizer que a história do Sul da Bahia foi escrita com sangue e suor, as páginas, a terra do cacau, o sangue, a tinta, a caneta, o bacamarte, os camaradas e os jagunços, os escrivães.
Além do jagunço, que cuidava das questões de terra, dos caxixes, promovido pelos coronéis, geralmente, embrenhado nas matas, impune às decisões da polícia e da justiça, havia o bravata, o valentão, o criminoso comum, que assolava as cidades com suas atrocidades, às vezes, ele era contratado por alguém de recurso para tirar a vida de algum desafeto, dentre esses malfeitores, Itabuna lembra-se de Zé Nick, Helvécio, Vavá Leal e Vaqueirinho, protótipos de Natário da Fonseca de “Tocaia Grande”.
Em tempo remoto, no início do município de Itabuna, o nego Zé Nick virou mito. Sargento por bravura do Exército e burareiro, aterrorizou a polícia e a população itabunense e a Região de Rio do Braço com suas arruaças e os seus crimes. Acreditava-se que ele tinha o “corpo fechado”, que “envultava”, que as balas da polícia e dos seus inimigos não feriam o seu corpo.
Conta-se que pra matar Zé Nick, os assassinos aproveitaram-no bêbado, e, com foice e machado lhe deram cabo, mesmo assim, ele não morreu de imediato, foi necessário os assassinos usarem o seu próprio punhal para lhe trespassar o coração e quebrar a mandinga.
Em tempo menos remoto, Vavá Leal foi o terror de Itabuna. Arruaceiro, freqüentador assíduo de prostituta, temido pelos policiais, admirado por alguns e odiado por muitos, foi assassinado a tiro por Juca dono do Sport Bar, segundo os cochichos que corriam de boca em boca na época. O motivo do crime não ficou bem esclarecido, mas se atribuiu a ciúme de mulher de vida fácil e rixa velha.
Juca, suposto assassino, não foi preso, pessoa querida dos coronéis, da polícia, do promotor, do juiz e amigo de Dr. José Maria, não pisou os pés na delegacia. Se houve testemunha, nenhuma compareceu às autoridades, ademais, a morte de Vavá Leal foi um mal necessário, um bem para sociedade, difícil de desvendar face à quantidade de seus inimigos.
Dr. José Maria triplicou e quadruplicou sua fortuna na defesa e na acusação dessa escória da sociedade.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 22/09/2012

11.27.2025

A face obscura do homem - Ano de 1939 (Capítulo 8)

 

A face obscura do homem - Ano de 1939 (Capítulo 8)

Ano de 1939

Os tropeiros da fazenda Boa Hora desciam em direção a Ilhéus. Manuelzão, chefe do grupo, berrava com os camaradas para que cuidassem dos animais, escolhessem terreno que tivesse menos lama (havia chovido dois dias antes), mais enxuto, para que cavalos e éguas não ficassem atolados e sofressem acidentes com o peso dos sacos de cacau. A égua madrinha ia adiante com o cincerro chocalhando ao pescoço e puxava a tropa com imponência como se conhecesse cada palmo do terreno, aos tropeiros restavam escolher o trilho bom.
Manuelzão levava o cacau do boqueirão vizinho à fazenda do coronel Manduca Castro para o armazém de Água Preta e de lá para Ilhéus e entregue nos depósitos dos Kaufman. Homem de confiança de doutor José Maria, seguia à risca suas ordens e a ordem foi que esse cacau chegasse ao destino antes de qualquer chuvarada.
Sua relação com o patrão era do tempo de adolescentes. O seu pai tinha sido capataz do coronel Teodoro Alves, pai de doutor José Maria, quando o filho do coronel entrava de férias escolares, corria para fazenda Boa Hora. Embora o coronel tivesse muitas fazendas, o adolescente José Maria preferia passar as férias com o seu companheiro de peraltices e travessuras, o comprido Manuelzão, o filho único do capataz.
Moços, eles se encontravam em final de ano, é que José Maria já estudava Direito em Salvador e a distância dificultava o ócio na fazenda. Porém, quando o “patrãozinho” aparecia, agora, ambos de barba e bigode, além das pescarias e dos forrós, eles montavam a cavalo e iam curtir no “Buraco da Jia”, zona de meretrício de Água Preta, até o dia amanhecer.
Eles não eram de briga. O estudante de Direito se comprazia em dançar, tomar whiskys ou cerveja e quando faltavam ambos, descia na goela, uma cachacinha com limão e mel. Porém, quando algum intruso cismava com o “doutorzinho”, Manuelzão, as prostitutas e os camaradas da fazenda caiam em cima do pobre diabo.
Manuelzão nunca gostou de estudar, fez até o 4º. Ano primário por insistência do seu pai e do coronel, este, queria vê-lo doutor, prometeu-lhe custear os estudos na capital, mas esbarrava na má vontade e falta de gosto aos livros do moleque. Manuelzão gostava mesmo era de se escanchar num cavalo, colher cacau, tomar o mel de cacau, jogar uma pelada nos finais de semana, mergulhar no rio para fisgar acari, pegar traíra e tilápia de rede, e, nas noites de final de semana, trocar umbigadas com as negras do “Buraco da Jia”.
Tivera a promessa de ajuda do “patrãozinho”: “Manuel se o meu pai morrer primeiro, eu irei lhe dar umas terras para você plantar cacau”, promessa feita, promessa cumprida, assim que o coronel Teodoro morreu, doutor José Maria assumiu os negócios da família e um dos seus primeiros atos foi comprar umas terras perto da Boa Hora e passar em nome de Manuelzão, deu-lhe independência e autoestima, como reconhecimento, ele prometeu ao “patrãozinho” que ia cuidar do seu futuro, mas nunca ia lhe deixar. Não quis ocupar o lugar do seu pai, também falecido, ficou como tropeiro principal da fazenda.
Seria capaz tudo para atender ao doutor José Maria, mesmo que pusesse em risco sua vida. Sabia que havia uma questão de limite com as terras do coronel Manduca que se arrastava desde o coronel Teodoro, pouca coisa, uma tira de uns 10 hectares, um nada para o tamanho das fazendas de ambos os coronéis do cacau, mas muita coisa para gerar uma contenda.
A justiça já tinha decidido a favor de doutor José Maria, porém, o coronel Manduca não se conformou, alegava tráfico de influência, que o advogado conhecia do juiz ao oficial de justiça, que tinha usado tráfico de influência na sentença, por isto, jurou resolver a questão ao seu modo, desta data em diante, aumentou-se o efetivo de cabras na Boa Hora, a região conhecia a fama má do coronel Manduca.
Homem desalmado, que tinha construído um latifúndio produtivo se apropriando das terras dos pequenos posseiros a guisa de nada, que usava o caxixe, que usava, principalmente, a tática de coerção e intimidação, porém, essa tática não daria certo nem com o coronel Teodoro, menos ainda com o seu filho, pois, pai e filho não eram de briga, mas eram turrões quando a ocasião exigia e o pretexto alegado pelo doutor José Maria era que se cedesse no pouco, teria que ceder no muito às ambições sem limite do coronel Manduca, ele sempre ira querer mais...
Manuelzão vinha mastigando essas reminiscências, quando alguns metros de distância da tropa, por trás de um montículo surgem pistoleiros atirando em direção aos tropeiros, um deles é atingido no peito e cai como uma jaca do cavalo, os demais, num instinto aguçado de sobrevivência se jogam no chão e procuram se defender como pode atrás das árvores, os animais fogem da linha de tiro e se embrenham nos cacauais, o tiroteio começa.
O tiro que derrubou o negro Joaquim, seria para Manuelzão, mas por segundos, ele havia saído da tropa para mijar, foi sua salvaguarda, além de evitar uma carnificina, ele pode, rastreando, surpreender os jagunços por detrás do monte e forçá-los se expor para alvo dos clavinotes dos seus companheiros. Salvou-lhes, também, a escuridão da mata fechada, embora fosse ainda tarde.
Quando Manuelzão ouviu o primeiro tiro, de maneira prudente, colocou-se à retaguarda dos jagunços, aí, ele forçou-lhes o movimento e a vulnerabilidade. Agora, os tropeiros refeitos do susto, protegidos pelos troncos das árvores derribadas ou outro obstáculo qualquer, tornaram-se invulneráveis, e, à medida que o clavinote de Manuelzão cuspia fogo, as baixas dos jagunços se sucediam, quando restou um jagunço, o chefe dos tropeiros, rastejando como cobra, com cuidado necessário, surpreende o último jagunço e toma-lhe a arma:
- Companheiros, parem de atirar e venham até aqui!!! – o fogo foi suspenso...
O cabra foi manietado e amarrado no tronco de um cacaueiro. Os tropeiros mais afoitos queriam lhe dar cabo, queriam vingança pela morte do negro Joaquim, porém, foram arrefecidos pela palavra firme do seu chefe:
- É covardia matar alguém com as mãos amarradas... Além disto, ele será útil ao patrão vivo e não morto!
O dia amanhecia quando eles recuperaram todos os animais, inclusive, os sacos de cacau que foram atiçados fora enquanto os animais fugiam. Foi grande a matança: morreram 7 jagunços mais o negro Joaquim. O jagunço que sobrou deu na língua, disse a Manuelzão e aos demais que tinha sido obra do coronel Manduca, ele que havia contratado Zé Vermelho, famoso pistoleiro alagoano, para intimidar o dono da fazenda Boa Hora e tomar posse na raça do boqueirão.
A polícia de Ilhéus desceu às pressas para Água Preta e de lá pra Boa Hora. A segurança da fazenda foi reforçada. Doutor José Maria se fez presente, o coronel Manduca foi pego de surpresa e preso. Jogaram-lhe tanto processo em cima que seus advogados não conseguiram impedir dele descer para penitenciária de Salvador.
Dois anos depois, sentou-se, pela primeira vez, no banco dos réus, um coronel do cacau pelos crimes que praticou. Após réplicas e tréplicas dos advogados e da promotoria, o coronel Manduca Castro, ouviu do juiz, a sentença de 28 anos, 3 meses e 15 dias de prisão na penitenciária da capital, sem direito a sursis.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Jesus veio para perdoar (Capítulo 9)


A face obscura do homem - Jesus veio para perdoar (Capítulo 9)

Jesus veio para perdoar

Um ano depois que Lia instalada no seu “bangalô”, agora, com a barriguinha na boca, mais um filho ou filha do advogado José Maria, a caminho, ela começou se soltar mais socialmente, porque além da gravidez, os pais e os irmãos lhe deram mais segurança emocional e passou acompanhar sua mãe à Igreja Católica aos domingos e feriados. No início, elas não chamaram a atenção da assembleia nem do pároco, mas à medida que o tempo passava, o pessoal que zela pela vida alheia acendeu a chama da curiosidade e não demorou que todos ficassem sabendo que eram a amante e a “sogra” do criminalista e fazendeiro José Maria.
Lia no início não percebeu os olhares enviesados e os cochichos insistentes, mas à medida que o tempo ia passando, esses gestos e atitudes indiscretas começaram lhe incomodar, porém, deu tempo ao tempo até o dia que ela foi convidada pelo pároco através do seu sacristão:
- Filha, onde mora?
- Padre, eu moro na Avenida Garcia?
- A senhora é casada?
- Não, sou amancebada...
- Pode me dizer o nome do seu amásio? – perguntou por perguntar, ele já sabia.
- Não!
- É que as famílias...
- Não me aceitam, não é!?
- Silêncio.
- E o senhor me aceita?
- A maioria decide...
- Não me incomoda esses hipócritas, quero saber do senhor!?
- A igreja é da comunidade itabunense...
- Eu moro aqui!
- Eu sei, porém, não se é feliz com a infelicidade do outro!...
- Eu posso saber quem é o “outro”?
- Chamei a senhora para comunicar que a nossa paróquia não lhe quer como membro e não desejo prolongar a discussão. Tá?...
- Como o senhor disse, a igreja é da comunidade, portanto, eu sou da comunidade e não cometi nenhuma heresia para deixá-la de freqüentar! – o padre perdeu a paciência:
- A senhora é insolente!!!
- Não, não sou... O senhor é que não segue os ensinamentos de Jesus Cristo que trouxe o perdão para todos os pecadores: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”, portanto, Jesus veio para perdoar! - O padre descontrolou-se:
- A senhora é mesmo insolente, quer me ensinar os Evangelhos? Saia, saia da minha sacristia, a comunidade tem razão!!!
- A comunidade ou dona Clô!? – o padre não lhe deu resposta, deu uma rabanada...
O advogado soube no mesmo dia a desfeita que sua amada sofreu pelo sacerdote. Decerto, sua esposa estava por detrás de toda essa maldade em conluio com o pároco. Não sabia explicar o motivo da aversão que sentia pelo religioso, às vezes, sua presença lhe causava asco, o fato é que doutor José Maria não gostava dele, pior, tinha que representar uma amizade que não sentia por Apolinário Gaiardoni para não contrariar sua mulher e alguém lhe atribuísse ciúme.
Teve inveja de Henrique VIII que para solucionar um problema de casamento, rompeu com a Igreja Católica e fundou a Igreja da Inglaterra. Se possuísse esse poder, anularia seu casamento com Clô, confiscaria os bens da igreja em Itabuna, desterraria Gaiardoni para os quintos do inferno e faria de Lia uma bispa. Mas, não tinha esse poder nem era desalmado como o rei inglês.
Conhecia a carolice de dona Clô, sua beatice, seu apego pelas coisas da igreja, senão, estaria pensando em infidelidade conjugal, pecha que rejeitava com firmeza quando esses pensamentos lhes vinham à mente. Todavia, havia diminuído a intimidade entre marido e mulher desde que o padre chegou à cidade do cacau, sexo, agora, era obrigação. Se no fosse o amor que sentia por Talita, Samuel e Júnior, seus filhos e amigos, já teria deixado de vez o lar.
Sempre havia mijado fora do caco - eu não sou tuberculoso para comer no mesmo prato, argumentava -, mas sempre preservou a família. Pirocar fora era um costume, mais do que costume, uma tradição antiga, lei de macho, quem não pirocasse na rua, não teria o respeito dos seus amigos e não amigos, não era homem, mas um frouxo.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Educação do ódio (Capitulo 10)

 


A educação do ódio

Houve tempo para ouvir as últimas frases de Apolinário: “o salário do pecado é a morte”, “quem prevarica tem que morrer”, “Deus pune com a espada os infiéis” e “o adúltero é queimado no fogo do inferno”. José Maria não sabia qual a razão de tanto ódio, a priori, reprovou a educação do ódio que o sacerdote estava passando para criançada. Talita e Samuel vibravam com o desfecho da história, Júnior estava meio absorto e Clô só faltava pular da cadeira de tanta admiração pelas palavras de sabedoria do padre. Ele soube depois que Apolinário lhes contava a história de infidelidade de Betsabá e o rei Davi e a profecia de Natã. Davi após engravidar a mulher de Urias, um dos seus dedicados oficiais, ordenou-lhe que deixasse de imediato o front e voltasse para casa, porém, Urias desobedece-lhe com base no código de guerra dos hititas que proibia o sexo antes da luta, na casa do sem jeito, o rei ordena aos seus oficiais que deixassem Urias sem apoio militar e fosse morto pelos inimigos. A Bíblia registra que as profecias de Natã foram cumpridas: houve grandes tribulações no Reino de Israel, o primeiro filho de Davi e Betsabá morreu e também o príncipe Absalão. A paz e a prosperidade voltaram a reinar em Israel com a morte de Davi e a assunção do seu filho Salomão com Betsabá. Uma história contada e recontada por todas as gerações, hoje, de somenos importância, apenas de valor histórico, que não ofereceria nenhuma reprovação do dono da casa se não fosse o sutil veneno retórico de Apolinário. Ele usava um dos pecados do homem para colocá-lo pouco e pouco contra mulher e filhos já que era sabido de todos que ele tinha amante, por isto, entrou de supetão na sala e na conversa: - Posso saber o motivo de tanto ódio, padre? - Não, não é ódio, é justiça divina! - Não entendi!... - Fiz um comentário do crime de Urias, com a garotada e dona Clô... - Ouvir o final de sua conversa, desculpe-me, mas não entendi o motivo de tanto ódio!? - Ódio dizer que “o salário do pecado é a morte” ou “quem prevarica tem que morrer”, por exemplo? - Jesus Cristo veio para perdoar... - Sim, Porém, quem busca o arrependimento, o pecador contumaz, lhe é reservado o fogo do inferno! – Talita cochichou no ouvido de Samuel. - Engraçado... (risos) padre... (risos)... o senhor não leu o capítulo do Evangelho que Pedro pergunta: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Respondeu-lhe Jesus: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18:21-22). O bom senso diz nesta leitura que setenta vezes sete, é a predisposição infinita de Deus perdoar. Noutra passagem do Evangelho, Jesus Cristo desafia o homem e lhe proíbe de apontar o dedo quando uma mulher é flagrada em adultério e teria que ser apedrejada de acordo a lei mosaica: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra” (João 8,1-11). – E, finalizou: - O senhor no seu ministério não deveria fazer o mesmo!? - Além de padre, eu sou um ser humano, limitado, não tenho a natureza perfeita de Jesus Cristo. Hoje, as vicissitudes são maiores e o homem está mais consciente dos seus erros e o custo de sua infidelidade! - O senhor deveria trocar o Novo Testamento pelo Torah dos judeus em suas missas... - Doutor José Maria, a Bíblia é o Novo Testamento e o Velho Testamento, um texto completa o outro! - Mas, Jesus pregou novos tempos, uma Nova Aliança, reduziu os 10 mandamentos do Pentateuco em dois, não pregou “olho por olho e dente por dente”, portanto, ele não pregou o ódio, mas o amor!... – os meninos bateram palmas. Apolinário reprovou-os: - Filhos, Deus ralha com meninos intrometidos e mal educados! – José Maria define a educação dos filhos: - Meus filhos, mais respeito com o nosso sacerdote – virando-se para Apolinário: - Padre, eu quero que os meus filhos cultivem o bem-querer, o amor, o Deus complacente, o Deus de misericórdia, o Deus de perdão, o respeito a todos, e, não o sentimento de vingança, de maldade, enfim, a educação do ódio! O padre saiu bufando de raiva, pelo menos, uma semana José Maria ficou livre dele. Dona Clô reclamou o tempo todo com o marido, alegava birra do marido com o santo homem e culpava os filhos pelo malsucedido da conversa.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Mais um Andrada (capítulo 11)

 

A face obscura do homem - Mais um Andrada (capítulo 11)

Mais um Andrada

Quando ele soube do ocorrido, o rebento já tinha pulado da barriga de Lia e já estava embrulhadinho em finos panos no seu berço laqueado (última moda) ou aconchegado nos braços da mãe, avós, tios e vizinhos. Todos queriam abraçar o pequerrucho Pedro, logo, chamado de “Pedrinho”, não faltavam bem-querer e paparicação...
José Maria torcia para que nascesse menina, contrariando a regra, Lia desejava um menino, ambos tinham argumentos convincentes: ele alegava que tinha uma filha e dois filhos, portanto, mais uma menina, teria dois casais, além disto, ele justificava que a mulher é mais amorosa com os pais e o filho homem é menos amoroso, mais machão e menos família; Lia, tinha medo que a filha se casasse com um troglodita e viesse sofrer, então, fosse puta e sofresse muito mais.
Naquela noite, a noite que Pedrinho veio ao mundo, José Maria estava numa das fazendas. Ele não esperava que Lia desembuchasse naquele mês, menos ainda, naquela semana, menos ainda, naquela noite, mas pelo “sim” ou pelo “não”, deixou “Mãe Otaciana” de sobreaviso. Não houve dificuldade no parto, a dificuldade foi o irmão de Lia acordar a parteira no meio da noite. A simpática velhinha, sem delongas, vestiu um casaco de frio, calçou um sapato, protegeu a cabeça com um xale e com passsinhos miúdos, instantes depois, ela já puxava o moleque para luz com dedicação e perícia.
Criança não parece com ninguém, criança parece com criança, mas Pedrinho não negava o pai. Ele herdara alguns traços inconfundíveis, a exemplo dos olhos esverdeados, o nariz e os dedos compridos das mãos, afora uma pinta preta na parte interna da coxa esquerda. José Maria brincava: “filho de puta, tira a mãe da culpa”. Naquela época não havia exame de DNA e se houvesse não seria necessário, o moleque era cagado e cuspido o pai.
O caixa do Sport Bar, naqueles dias, foi reforçado. O advogado saía do escritório no final da tarde e ia comemorar o nascimento de Pedrinho. Não bebia muito, o seu prazer era reunir os amigos, as prostitutas, dançar e falar da criança de dias como se tivesse anos.
Ele estava feliz, curtia momentos de felicidade, pois tinha o amor de Talita, de Samuel, de Júnior e de Lia. Lia que amava Pedro e ele que amava a ambos
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - O beijo do pecado (Capítulo

 


A face obscura do homem - O beijo do pecado (Capítulo 12)

O beijo do pecado

Dona Clô já ajudava nos trabalhos da igreja (afora o polpudo dízimo) desde o velho padre. Agora, com Apolinário Gaiardoni, as coisas do Senhor redobraram, não havia empecilho que a prendesse, se preocupava mais com os trabalhos da igreja do que com os trabalhos de sua casa. Naqueles dias que doutor José Maria acordava com a macaca e lhe cobrava mais compromisso doméstico e de esposa, melhor seria se não o fizesse, ela justificativa sua necessidade de servir a Deus com lamúria e choramingação, deixando-o com sentimento do pior dos hereges, aí, ele voltava-se para os braços de Lia.
Não havia mais casamento de Clô e José Maria, restavam compromissos conjugais e companheirismo. O amor e o sexo já não existiam na relação de ambos, sexo, agora, não passava de impulso, hábito adquirido ao longo de anos de convivência, de vez em quando, José Maria não controlava o seu instinto animal e Clô se deitava passiva.
Naquela manhã, - caro leitor, não me pergunte o dia nem a hora, apenas, eu sei que foi num momento infinito -, ela limpava o sacrário, quando distraidamente, caiu o cálice esparramando as hóstias pelo chão da igreja -, do nada, surgiu Gaiardoni para socorrer-lhe, sem explicação, boca e boca se uniram, selando, assim, o beijo do pecado.
Foi como se uma descarga elétrica tivesse atingido cada célula de cada protagonista. Se alguma máquina fotográfica indiscreta tivesse registrado aquele momento, registraria a cena, mas não mediria o calor e a intensidade do beijo. Só o gênio de um artista seria capaz de pintar o fulgor daquela paixão contida. Não levou muito tempo as bocas coladas e, seria pecado reduzir o significado daquele beijo contando os segundos, mas foi eterno enquanto durou no dizer do poeta Vinícius de Moraes.
Envergonhada, ela não se aguentava nas penas, articulou algumas palavras imperceptíveis como se quisesse justificar o beijo do pecado, o beijo da traição, o beijo diante do altar de Jesus, o beijo da blasfêmia, o beijo de Judas, ou, o beijo do amor.
Ele levantou-se no pique, não parecia envergonhado, não seria temeridade afirmar que Apolinário construiu na mente aquele momento, talvez, não tivesse imaginado a circunstância, mas havia o desejo contido de tê-la nos braços e embebedar-se de seu amor. Hoje, ele compreendia a falta de afeição que sentia pelo seu marido, atribuía às contendas religiosas, certo que não gostava de sua petulância, não gostava do enfrentamento religioso que lhe fazia Jose Maria, porém, naquele momento, descobriu que havia muito mais do que antipatia, a causa principal era o ciúme latente que sentia de Clô, inconsciente, não aceitava que outro a amasse, tivesse por casamento o direito de usar o seu corpo. Não entendia o marido deixá-la por um amante qualquer, mais ainda, não entendia ele montar casa para amante e ter filho, na mesma cidade, além de adultério, era um desrespeito e uma afronta...
Também, não lhe afligiu nenhum sentimento de culpa religiosa, ter cometido blasfêmia tê-la beijado em frente à imagem de Jesus Cristo na cruz. Não havia planejado aquele momento, não tinha cometido adultério, ela não era adúltera, adúltero era o seu marido. Ele fizera o voto de castidade, sim, como todos os padres de sua ordem, porém, a maioria absoluta se deitava com mulher ou com homem. Nunca vira com bons olhos a condenação do sexo pela igreja, condenar o sexo pra Apolinário Gaiardoni, era violentar a natureza e Jesus Cristo escolheu muitos homens casados para apóstolo, e, na história da igreja católica, muitos papas tiveram amantes e filhos.
Clô lhe despertou tesão desde que a conheceu, não pelo fato dela ser rica, mas por sua fibra e seu cuidado com as coisas da igreja, afora, esconder embaixo de trajes comportados, o corpo de uma linda mulher., não que a tivesse apalpado, ou, a tivesse visto nua, no entanto, podia se adivinhar na leitura das linhas de sua fisionomia o que se escondia embaixo daqueles panos.
Clô continuou sem jeito depois do beijo, porém, as pernas não lhe doíam mais, o lhe doía, agora, era o sentimento de culpa: pensou no marido, pensou nos filhos, pensou nos amigos e nos inimigos, que iriam pensar dela se soubessem do seu flerte com o pároco? Eles iriam apedrejá-la como tentaram apedrejar Maria Madalena!... Não queria ser taxada de “amante de padre Gaiardoni”, não queria virar, quando morresse, “mula-sem-cabeça”, como dizia o povo, nem concubina de padre, se não fosse possível conter os seus impulsos de mulher, iria para outra igreja, mas não cederia, preservaria sua moral e de sua família, no entanto, Apolinário lhe fez ver o contrário:
- Perdoe-me, eu não resisti...
- Vamos esquecer tudo!
- Impossível, foi um ato premeditado...
- O quê!?
- Não posso esconder de Deus nem de ti o meu amor...
- Sou uma mulher casada...
- Com um homem que não te ama!
- É meu marido perante Deus e pai dos meus filhos!
- É pai dos seus filhos e marido no papel, deixou de sê-lo desde que montou casa para amante...
- Aqui, em nossa região é normal, até os maridos pobres têm amantes!... – continuou:
- Condição necessária, em nossa terra, para preservar o casamento.
- Uma pessoa esclarecida e independente não se sujeita à humilhação pública!
- O importante é que a família está unida!
- O adultério não tem importância desde que a família esteja unida?
- É mais ou menos o que os homens e as mulheres pensam!...
- Então, não é pecado te amar, desde que você continue casada?
- Para mulher não existe tolerância! – e completou:
- A Bíblia diz: “... qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus: 5: 32), portanto, quem se aproxima da mulher repudiada comete adultério...
- No confessionário, o seu marido é o rejeitado!... – Clô não se conteve:
- O senhor não tem o direito de revelar segredo de confissão!
- Não existe ninguém neste altar além de mim e ti!
- Silêncio.
Clô não lhe respondeu, não seria necessário, Apolinário Gaiardoni conhecia sua alma. Ela lhe compartilhava em segredo de confissão, os seus sonhos, as suas angústias, os seus medos, os seus sofrimentos e as estripulias de José Maria. Ele sabia mais do que ninguém que o seu casamento não passava de fachada, se não era rejeitada com palavras, era rejeitada com ações. E, quando ela ameaçou se retirar, foi envolvida nos braços fortes do padre, não mais ficou sem palavra ou envergonhada, enlaçou com os braços o seu pescoço e se entregou...
Começava, ali, sob os auspícios da cruz de Jesus Cristo, o romance entre duas pessoas parecidas nas sutilezas do coração, mas de almas diferentes.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - O assassinato do padre (Capítulo 13)

 

A face obscura do homem - O assassinato do padre (Capítulo 13)

O assassinato do padre:

Não se apoquente caro leitor, não faça ilações precipitadas, não foi o padre Apolinário Gaiardoni que foi assassinado, embora num primeiro momento, todos os seus desafetos se alegraram com o crime - alguém espalhou a notícia do seu assassinato na cidade de Itororó -, porém, quem foi assassinado foi o padre Sebastião de Oliveira Alves.
Diziam as más línguas que esse sacerdote não era “flor que se cheire”, que não se apartava de um revólver 38 embaixo da batina. O motivo do crime não foi mulher, mas conflito de terra de família com o fazendeiro Pierre Santos. O padre se arvorou de valente e espalhou que se vingaria de quem matasse o seu pai: “se matarem meu pai, eu tirarei a batina e vingarei sua morte”. Não teve tempo de se vingar, algum inimigo contratou o pistoleiro Manoel Caboclo que o despachou primeiro.
O leitor apressado poderá perguntar ao autor o que tem alhos com bugalhos? Se não foi Apolinário Gaiardoni assassinado – àquela altura, o principal suspeito do crime de José Maria -, com certa razão, todavia, o registro da morte do padre de Itororó fez-se necessário, oportuno, para explicar o sentimento de ódio que a população itabunense alimentava pelo padre Gaiardoni, mesmo depois de dois anos do seu desaparecimento, as pessoas ainda choravam a morte de José Maria e o desejo de vingá-lo.
É justo dizer, neste capítulo, para desencargo de consciência, que é cedo para imputar-lhe a autoria do crime, embora José Maria fosse muito querido, outros suspeitos foram mencionados no inquérito. A igreja católica afastava qualquer coisa que o incriminasse, por isto, transferiu o sacerdote pra bem longe. Não havia provas materiais da tragédia, apenas, insinuações e boatos de sua relação amorosa com Clô, ou seja, nada de concreto e muito de suspeição, e, acusações sem provas materiais ou circunstanciais não se sustentam num processo...
No entanto, o burburinho de infidelidade de dona Clô e o assassinato do padre Sebastião vieram desmistificar a imagem de santo dos padres, aqui e acolá, eles se envolviam em negócios escusos, compravam fazendas de cacau, tinham filhos, montavam casas para amantes e exercitavam outras profissões, principalmente, na educação. Com a vinda dos capuchinhos para o Sul da Bahia e os exemplos de trabalho, de estoicismo, de probidade, de dedicação ao próximo, de desapego material e de vida santa que eles passavam, logo, a igreja católica retoma sua credibilidade como agente de fé e de evangelização junto aos católicos da região cacaueira.

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna 
Foto: Produção

A face obscura do homem - Fazenda Invernada (Capítulo 14)

 

A face obscura do homem - Fazenda Invernada (Capítulo 14)

Fazenda Invernada

Ficava pra o lado de Itapé, hoje, deve ter outro nome desde que foi vendida pelos herdeiros de José Maria. Uma fazenda mista, mais cacau do que pasto. O nome “Fazenda Invernada” foi dado por dona Clô, ela havia feito uma viagem ao Rio Grande do Sul e lá conheceu as invernadas para criação de gado.
O rio Cachoeira cortava ao meio a fazenda Invernada, águas limpas, naquela época, o rio não era o repositório de esgotos das cidades que nasceram em suas margens. Dona Clô adorava a invernada por vários motivos, mas o principal, é que a fazenda não ficava muito distante de Itabuna. Ela, Talita, Samuel e Júnior se esbaldavam nas águas do rio Cachoeira, em alguns pontos do rio, as margens eram cobertas por um areal que pareciam as praias de Ilhéus.
Depois que José Maria adquiriu a Invernada, ninguém mais ousou derrubar um pé de pau, ele entendia, já naquela época, que o desmatamento desequilibraria o ecossistema, por isto, não aumentou os pastos, incrementou os currais de confinamento do gado e aumentou de cacaueiros nos boqueirões, portanto, as matas virgens eram o principal patrimônio da Invernada.
Um ano antes de sua morte, José Maria escolheu a Invernada para passar o São João. Era costume, nessas datas festivas, ele e a família irem para uma das fazendas mais próxima, depois que ele adquiriu a Invernada, ela era a eleita, pois era a fazenda que mais atrativo oferecia aos filhos e a dona Clô, porém, no ano 2007, ela apresentou alguns pretextos que até os seus filhos, também, preferiram não acompanhar o pai.
José Maria gostava de gente, gostava de companhia, com a recusa da esposa em acompanhá-lo, decidiu pela primeira vez, levar sua amante Lia e o seu filho Pedrinho. Embora os agregados da casa grande, os caipiras e suas caboclas não fossem muito devotos de dona Clô, ficaram arredios num primeiro momento, com a presença de Lia e do seu filho, mas pouco e pouco foram se soltando e menos de uma semana depois, Lia extrovertida e simpática, virou beiju de feira, era dona Lia pra lá e pra cá, enfim, conquistou do menino ao menos menino e ao velho, da garota à mulher madura, todos sem exceção, as mulheres mais moças substituíram “dona Lia” por Lia, numa relação de velha intimidade.
Pedrinho, ainda pimpolho, foi o que mais gozou com as férias. Acostumado com o pai só dentro do bangalô, esporadicamente, dava uma volta pela cidade de carro, no colo do pai, estava deslumbrado, pra ele, tudo era novo, tudo era bonito, e não se cansava de cobrar de José Maria outros passeios:
- Ah, painho, por que nunca trouxe mamãe aqui?
- Filhinho, no outro São João, nós viremos pra cá!...
- Tá longe, painho?
- No próximo ano! – Pedrinho, recorre à Lia:
- Mãezinha, um ano é longe?
- Não, Pedrinho, logo passa... – Pedrinho teve outra ideia:
- Por que não moramos na fazenda?
- Se esqueceu dos seus avós, Pedrinho?! – Lia já irritada.
- Painho traz meus voinhos... – Lia pede socorro a José Maria:
- Meu amor, acuda-me!...
- Filhinho, painho vai trazer vovô e vovó pra aqui e vamos todos morar na fazenda!...
Com o jeitinho de José Maria, Pedrinho se conformou, não mais voltou ao assunto, talvez, porque confiasse demais no seu pai que lhe fazia todos os gostos e mimos. Assim que Pedrinho nasceu, uma das primeiras coisas que José Maria fez, foi providenciar o seu reconhecimento em cartório, se alguém quisesse conquistar sua amizade e sua proteção, tivesse afeto espontâneo por Pedrinho e paparicasse sua mãe, os vizinhos de Lia descobriram esse lado fraco do advogado e todos se esforçavam cair em sua graça...
Porém, um ano depois, o destino conspirou contra o pai e o filho, não houve outro São João na fazenda, ele foi morar muito longe tangido por um inimigo de ódio, que a polícia mostrou-se incapaz, por algum tempo, em descobrir o criminoso, todavia, deixou para Pedrinho uma irmãzinha, a Maria Eduarda, gerada da paixão desvairada de um homem por uma mulher e correspondido, não por uma paixão, sentimento impulsivo e perigoso, mas pelo amor ágape de uma mulher, que não era sua esposa no papel, mas que chorou a morte do seu amásio até o fim dos seus dias e não descansou enquanto não o vingou...
Naqueles dias, tomar banho no rio Cachoeira, montar a cavalo com Pedrinho e mil brincadeiras, arrastar o pé no forró com Lia, ser ungido na língua nagô pelo preto velho da fazenda e tirar leite no úbere da vaca, ao canto do galo, deixaram, decerto, José Maria feliz.
Autoria: Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - A família é a identidade do homem (Capítulo 15)

                                                                          

A face obscura do homem - A família é a identidade do homem (Capítulo 15)

A família é a identidade do homem

Crescia mais e mais a intimidade de Apolinário Gaiardoni na casa do advogado José Maria Alves Andrada. Intimidade com o dono da casa, com os filhos e muito com dona Clô, a dona da casa. O padre sentia-se à vontade, cada vez mais. As conversas, o bate-papo, os saraus literários, às vezes, passavam de meia noite.
Apolinário Gaiardoni tinha um bom papo, era um estudioso das ciências humanas, discorria com desenvoltura o conhecimento da época, porém, de quando em vez, claudicava nas exegeses bíblicas e era evasivo quando o assunto era sua família. Clô debitava suas falhas na conta dos muitos afazeres da paróquia.
Porém, José Maria, perspicaz, matreiro, desconfiava que houvesse algo mais além do que cansaço do padre. Se o padre claudicasse num ou noutro texto bíblico, seria irrelevante, mas era de costume ele se enrolar quando o advogado, estudioso da Bíblia e de ideias racionais, se aprofundava nas argumentações, várias vezes, era salvo no gongo por dona Clô:
- Meu filho, a Bíblia tem muitos livros e não é necessário sabê-los de cor. Além disto, a prática do Evangelho exige sabedoria e não profundo conhecimento filosófico! – José Maria não concordava, mas por educação, calava-se.
Gaiardoni, também, era econômico quando falava sobre sua família. Media cada palavra, falava “an passant”, o máximo que se arrancou dele, é que os seus pais eram alemães, tinha mais dois irmãos, um homem e uma mulher e que era catarinense da cidade de Joinville, Santa Catarina.
O arguto José Maria achava que o padre escondia algum segredo, procurava atinar o que era, quando chegava perto, Apolinário Gaiardoni resvalava, porém, era como se fosse o gato que se esconde e deixa o rabo de fora: seus deslizes sobre a Bíblia, as informações imprecisas da família, uma carta recente ou a visita dos pais ou irmãos... eram elos que não se fechavam na cabeça do advogado.
Às vezes, queria cutucar o passado do padre, todavia, era contido pela discrição e dona Clô, mas, um dia, marcou um tento significativo:
- Padre tu és de origem alemã e tem nome italiano!? – Apolinário gaguejou, Clô chegou na hora agá!...

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Queixas embaixo dos lençóis (Capítulo 16)

 


A face obscura do homem - Queixas embaixo dos lençóis (Capítulo 16)

Queixas embaixo dos lençóis

Ao contrário de Messalina, Clô estava cansada e saciada. Cada dia, Apolinário a sentia mais gulosa de sexo. O pudor que ostentava no dia a dia, desaparecia na cama com o padre, uma desavergonhada... Alegava que o marido lhe deixava carente, que só tinha olhos, ultimamente, para sua amante, o que não era verdade no todo, José Maria era um garanhão, um macho sedento de sexo, as mulheres do Sport Bar, tinham-no como um dos melhores clientes, tanto no bolso como na cama, porém, Clô tornava-se cada vez mais arredia com o marido, os pretextos eram os mais diversos, desde uma simples dor de cabeça à menstruação.
Foi naquele clima de sexo que Apolinário, reprimido por necessidade e estratégia, queixou-se do seu marido:
- Amor, ele é uma pedra no sapato! – Clô fez-se desentendida:
- Quem, coração?
- O seu marido!
- Deixe-o pra lá, ele é advogado, polêmico, são recursos dialéticos!...
- Suas perguntas são capciosas, às vezes, indiscretas!
- Coração, não se queixe, tenho lhe socorrido nos apuros!
- Obrigado. Mas se tiver gente de fora, suas perguntas ardilosas irão me desqualificar, não é?!
- Use o contra-argumento inteligente, coloque-o contraparede, se necessário, use sofismas de pouco alcance para o leigo, pesquise perguntas ardilosas de sua profissão, não deixe que ele tome o seu fôlego, controle os seus impulsos, use uma dialética inteligente! – Apolinário a escutava boquiaberto, dia a dia se surpreendia com Clô, embaixo daquela máscara de poucos amigos, escondia-se uma amante que lhe proporcionava prazer nunca tido, além de uma inteligência emocional singular, não lhe deu resposta, puxou-lhe com jeito, penetrou-a com volúpia e se algum desavisado passasse ali no quarto, ouviria os gritos lancinantes de dona Clô:
- Mais!... Mais!... Mais!... Meu padreco!... Meu padreco!... Meu gostoso!... Fo... Fo... foda sua puta!...
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012
Fonte: Capítulo 16 do romance: "A face obscura do homem"
Autor: Rilvan Batista de Santana

A face obscura do homem - Triunvirato (Capítulo 18)

 



A face obscura do homem - Triunvirato (Capítulo 18)

Triunvirato

Caro leitor, não fique assustado, não é o triunvirato de Júlio César, Marco Licínio Crasso e Pompeu, o primeiro triunvirato romano, o triunvirato aqui, da nossa história, não foi triunvirato, foi triângulo amoroso de Apolinário Gaiardoni, Clô e Rita. O título triunvirato veio à mente pelos perfis aguerridos dos três personagens. Apolinário e Clô são velhos conhecidos, Rita precisou ser flagrada nos braços do padre para entrar na história e não mais sair.
A sacristia não ficava nos fundos da igreja, mas numa casa contígua que servia de moradia para o padre e sacristia ao mesmo tempo, uma porta lateral dava para o salão da igreja. Lá, ficavam as toalhas do altar, algumas imagens, as batinas, os vasos de flores e outros acessórios. O acesso era limitadíssimo, afora Clô, Rita e mais duas ou três velhas beatas, tinham acesso.
Naquela manhã, a mulher de José Maria, como sempre, foi uma das primeiras que chegou à igreja, depois de meia dúzia de decrépitas senhoras, deu uma olhada e não viu o padre para o canto de entrada. Sorrateira, entrou na casa do padre sem ser convidada ou esperada e quase vinha abaixo se não se agarrasse numa mesa de jacarandá no centro da sala, ao flagrar sua amiga Rita, esposa do temido coronel do cacau, Honório Ladaró, nos braços de Apolinário Gaiardoni. Na casa do sem jeito (escandalizar, seria escandalizar-se), manhosamente, voltou e aguardou o sacerdote começar o culto.
Rita, loira de cabelo comprido escorrido, altura mediana, corpo violão, mãe de três filhos menores de idade, mais nova que Clô, meiga, era a mulher, o xodó e o bem-querer do fazendeiro Honório Ladaró. Chamava-a de “minha santinha”. Homem rude, moço ainda, que fez fortuna no cabo do facão e do machado, derrubando mata virgem e plantando cacau, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo, não hesitaria matar a mulher amada se soubesse que era traído e arrancar os bagos do malfeitor.
Se a situação lhe fosse favorável, Clô não hesitaria ter escrito uma carta anônima para Honório Ladaró, denunciando a traição de sua mulher e o traidor, por isto, usou o ditado do povo que “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, mexer com um sacerdote, naquela época, seria a mesma coisa que mexer num vespeiro de resultados imprevistos: vai lá que o brutamonte do fazendeiro mata a mulher e o amante, e, a policia descobre que sua carta foi a causa do crime!? Não, não seria tão imprudente...
Não é verdade que a mulher é sexo frágil, mulher não é instintiva, mulher é racional, ela domina suas emoções e controla o homem que é impulsivo e descontrolado quando se apaixona... Depois do flagrante de Rita, Clô fechou as portas e o coração para Apolinário. Não o recebia mais sozinha em sua casa, os empregados eram orientados não recebê-lo (inventassem desculpas...), salvo, se os seus filhos e o marido estivessem presentes, ia à missa no inicio do horário e voltava depois dos ritos finais e deixou as obrigações da igreja alegando saúde fragilizada.
Apolinário, sagaz, maquiavélico, quis lhe chantagear, contar tudo ao seu marido, depois, deixar Itabuna pela porta do fundo e desaparecer para sempre, mas Clô, de repente, mostrou-se determinada e valente:
- O senhor será o responsável pelas consequências!...
- Mas, querida...
- Não sou sua querida!
- Mas, Clô!...
- Por favor, “dona” Clô!... – o padre apelou:
- Depois de tudo, Clô!?
- Depois de tudo, o quê!? O passado seria presente para mim se houvesse significado, portanto, reverendo, o passado passou!
- Será que passou para Dr. José Maria?...
- Não! Acredito que para Dr. José Maria e o coronel Honório Ladaró, o passado será um presente sinistro e fúnebre!...
- Não tenho medo de morrer!
- Triste daquele que ferir o coração do coronel Ladaró, a morte lhe será um bálsamo...
- Não sou culpado de sua mulher me assediar!
- Não sei se terá topete para lhe dizer que Rita foi a culpada, mas se lhe disser, pode ter certeza, o senhor será amarrado e arrastado pelo cavalo do coronel Honório Ladaró até suplicar para que ele lhe dê cabo da vida! – completou:
- Não mais me procure, não frequente como antes minha casa, escolha o momento que o meu marido e os meus filhos estejam presentes, faça da discrição uma segunda natureza... Irei esforçar-me para manter a aparência, espero que a recíproca seja a mesma. Passe bem!...
Autoria: Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Tempo de harmonia (Capítulo 19)

 


A face obscura do homem - Tempo de harmonia (Capítulo 19)

Tempo de harmonia

Não fingida ou social, mas harmonia verdadeira do casal Andrada depois que Clô flagrou Rita nos braços de sacerdote. Ela percebeu que Apolinário Gaiardoni era na galinhagem pior do que o marido, este, não tinha feito votos de castidade ou fidelidade com Jesus Cristo ou sujeito à jurisdição do Vaticano, ademais, qual o homem de posse da terra do cacau que além da esposa não tinha amante? Todos. Montar casa para outra mulher era uma regra e não uma exceção, então, tudo voltou com dantes no reino de Abrantes...
Apolinário, depois que Clô rompeu com sua intimidade e lhe disse o fundo do cacho, ele diminuiu a frequência na casa do advogado José Maria, reservou horários que o dono da casa estava presente ou os seus filhos para visitá-los, mesmo assim, com espaços esporádicos e não mais manteve conversa a só com a dona da casa, todos estranharam suas atitudes, mas as explicações foram convincentes: “Estou muito ocupado na igreja..”, .”A sacristia está sendo retelhada...”, “O bispo me convocou para um trabalho em Ilhéus etc., etc.” Os Andradas foram se acostumando com sua ausência e ninguém mais lhe cobrava sua presença.
Porém, doutor José Maria que conhecia a alma humana como poucos e acostumado às lides dos tribunais do crime, atribuiu sua pouca frequencia às pegadinhas exegéticas que deixavam o sacerdote de saia justa, ou, algumas questões que sempre levantavam dúvidas sobre sua origem:
- Padre, o senhor ainda não me respondeu por que sua origem é alemã e o seu nome de família é italiano!?
- Doutor José Maria, eu acho que estar havendo um equívoco, eu já lhe expliquei a minha origem e o significado do meu nome! – irritado.
- Por favor, é uma curiosidade genealógica, não quero levantar nenhuma celeuma...
- Fique à vontade, não existe nenhum problema lhe explicar tantas vezes forem necessárias... – acrescentou:
- Minha mãe era alemã e o meu pai nasceu em Blomberg, estado de Renânia do Norte – Vestfália, localizado no distrito de Lippe, região administrativa Detmold, Alemanha, após 5 meses os meus avós terem chegado de Nápoles, Sul da Itália, portanto, o meu nome é uma homenagem aos meus ascendentes italianos!...
Autoria: Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

Carta - Testamento de Getúlio Vargas

“A carta-testamento é um documento digno de ser lido, porque ele é generoso; ele é um texto humano; muito forte”, exaltava Leonel Brizola, durante a disputa da eleição para prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, em 2000. O discurso abordava a importância do documento deixado pelo ex-presidente da República, Getúlio Vargas, antes do suicídio, que ocorreu em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, com duas versões: uma manuscrita e outra datilografada. Representativo e impactante, esse posicionamento sempre foi ratificado e ecoado por trabalhistas em cada parte do país.

Ao contextualizar o indicativo da carta, Brizola mostrava o inconsequente ataque que o trabalhista sofria no período. “Havia um ambiente já de golpe de estado, por causa da Petrobras, dos conflitos, tudo isso aí. Ele sentiu. E não quis ser humilhado. Ele ia ser humilhado. Ia ser derrubado. Pressão americana muito grande; cresce no estrangeiro, em outros países. E ele se suicidou e deixou aquela carta.”

“O dia 24 de agosto foi um dia que vocês não têm uma ideia do que foi. O povo, chocado com a morte do presidente, porque aquilo vinha de uma campanha, de uma pressão de campanha terrível, que ele, naquela manhã deu fim à sua vida. E aquilo veio”, explicou, ao completar: “Ele entregou a carta-testamento para João Goulart e mandou que ele saísse daqui, porque ele achava que eles iam destruir a carta-testamento. Mas houve ação de muitos companheiros naquela hora, e fizeram a Rádio Nacional ler a Carta-testamento. Bom, foi um estouro.”

Segundo o líder pedetista, a divulgação da morte potencializou a reação da população. “Vocês sabem que o povo saiu em fúria pelas ruas, por toda a parte, quebrando tudo. Compreendeu? Quebrando tudo. Quebraram os jornais inimigos, os jornais de Chateaubriand; queimaram consulados americanos; o que era firma americana, quebraram tudo, incendiaram. O próprio Exército só depois, mais tarde (quando amainou um pouco a situação) é que saiu nas ruas.”

O ex-senador e antropólogo, Darcy Ribeiro, ratificava que Getúlio foi o maior dos estadistas brasileiros. “Foi também o mais amado pelo povo e o mais detestado pelas elites. Tinha de ser assim. Getúlio obrigou nosso empresariado urbano de descendentes de senhores de escravos a reconhecer os direitos dos trabalhadores. Os politicões tradicionais, coniventes, senão autores da velha ordem, banidos por ele do cenário político, nunca o perdoaram”, indicou.

Para ele, Getúlio governou o Brasil durante 15 anos sob a legitimação revolucionária, foi deposto, retornou, pelo voto popular, para mais cinco anos de governo. “Enfrentou os poderosos testas-de-ferro das empresas estrangeiras, que se opunham à criação da Petrobras e da Eletrobrás, e os venceu pelo suicídio, deixando uma carta-testamento, que é o mais alto e mais nobre documento político da história do Brasil”, acrescentou, ao considerar o documento essencial na história brasileira contemporânea.

Darcy relata ainda que o efeito do suicídio de Getúlio foi uma revirada completa. Segundo ele, a opinião pública, antes anestesiada pela campanha da imprensa, percebeu que se tratava de um golpe contra os interesses nacionais e populares. “Era a direita que estava assumindo o poder e que Getúlio fora vítima de uma vasta conspiração. Os testas-de-ferro das empresas estrangeiras e o partido direitista, que esperavam apossar-se do poder, entraram em pavor e refluíram. As forças armadas redefiniram sua posição, o que ensejou condições para a eleição de Juscelino Kubitscheck”, ponderou.

No relato do enterro, uma passagem emocionante. “O translado do corpo de Getúlio, do Palácio do Catete até o Aeroporto Santos Dumont foi a maior, a mais chorosa e mais dramática manifestação pública que se viu no Brasil. Pode-se avaliar bem o pasmo e a revolta do povo brasileiro ante esta série de acontecimentos trágicos, que induziram seu líder maior ao suicídio como forma extrema de reverter a sequência política que daria fatalmente o poder à direita".

Era Vargas

Para o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-deputado federal, Alceu Collares, a trajetória de Vargas mostrava seu comprometimento com o povo. “Getúlio Vargas, em 1930, chegou ao poder na crista de uma revolução, com a oligarquia. Neiva Moreira sabe disso: Getúlio chegou com a oligarquia, com as elites. Se tivesse se mantido fiel àquelas elites, não teria apeado do poder. É que, chegando ao poder, marchou de forma resoluta, corajosa e forte, porque era um socialista”, ressaltou.

“Ninguém até hoje fez 10% do que Getúlio fez. Não foram apenas a industrialização e a introdução da modernização da agricultura no nosso País, que começou com o café, em São Paulo. Foi ele quem fez os grandes investimentos. Quem fez a maior quantidade de estradas, de portos, de aeroportos? Quem fez o BNDES, a Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, a PETROBRAS, a ELETROBRÁS?”, completou, em um discurso vibrante na Câmara dos Deputados, em 2005.

Getulista, Brizola falava, com orgulho, do conterrâneo gaúcho. “Hoje, as estatísticas mostram que foram os anos que o Brasil mais progrediu, mais avançou; e que o produto econômico mais cresceu foram naqueles anos do presidente Vargas. Aí nasceu a Petrobras. Aí começaram os primeiros passos de outras grandes iniciativas. Morre o presidente Vargas, em 54, e o país viveu um momento difícil”, comentou.

Já Darcy relembrava que os intelectuais esquerdistas e os comunistas não se consolavam de terem perdido para Getúlio a admiração e o apoio da classe operária. “Com eles, o estamento gerencial das multinacionais. Getúlio foi o líder inconteste da Revolução de 1930. Tendo exercido antes importantes cargos, Getúlio pôde se pôr à frente do punhado de jovens gaúchos que, aliados a jovens oficiais do Exército, os tenentistas, desencadearam a Revolução de Trinta. A única que tivemos digna desse nome, pela profunda transformação social modernizadora que operou sobre o Brasil”, disse.

Leia abaixo a íntegra da Carta-testamento de Getúlio Vargas:

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.“

Fonte: FLP - AP / Bruno Ribeiro

Foto: Google 

11.25.2025

Poema O Navio Negreiro - Castro Alves

 


Poema O Navio Negreiro

I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Fonte: Cultura Genial

 

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