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11.01.2025

Biografia - Walker Luna / R. Santana

 


Biografia - Walker Luna

"A vida é íngreme e imprevisível, somente os fortes sobrevivem" (Rilvan Santana)

 

Walker Luna – poeta. itabunense

 

Natural de Itabuna (BA), Nascido em Itabuna, em 6 de agosto de 1925 / Faleceu em 3 de julho de 2007, em Jundiaí, São Paulo (SP).

 

Walker Luna - Walker Luna escreveu pouco, a exemplo de Castro Alves, Álvares de Azevedo, Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro e Helena Borborema. Os seus livros: Estes seres de mim (1969), Companheiro (1979), Estação dos pés (1983) e Um ângulo entre montanhas (1985) e Na condição de Existir são no dizer de Telmo Padilha: “... de elaboradíssima tessitura, são personalíssimos e possuem uma ductilidade rara entre os seus companheiros”.

     Homem arredio, antissocial, sofrido, se preocupava mais com a qualidade de sua poesia do que quantidade de editoração, ele mereceu de Assis Brasil e de seu conterrâneo Cyro de Mattos, sinceros elogios, para Cyro de Mattos, a poesia de Walker Luna “possui homogeneidade temática e formal, seus poemas interligam-se por um fio narrativo, um complementando o outro, atingindo níveis vertiginosos, compartilhando perplexidade, angústias, emoção que vibra o ontem e o hoje em sua dicção solitárias, ao mesmo tempo em que mistifica imagens.”

     Nascido em Itabuna, em 6 de agosto de 1925 / Faleceu em 3 de julho de 2007, em Jundiaí, São Paulo. Ele começou o curso primário com Dona Etelvina de Andrade e o terminou no Colégio Belfor Saraiva, aos 14 anos, mudou-se para Salvador e concluiu o curso secundário na colégio do professor Hugo Baltazar. Conta-se que não fez curso superior e aos 19 anos radicou-se no Rio de Janeiro, onde começou publicar suas poesias.

     “A cidade perdida” além de correção de técnica e forma, o poeta expressa sensibilidade nostálgica, não reconhece mais a cidade pura de outrora, que nasceu e viveu parte de sua adolescência. Agora, atingida pelos fumos de desenvolvimento e progresso: “Insatisfeita subiu”. As imagens do passado não são mais as mesmas... O rio, o céu e os jardins perderam os seus encantos ou foi ele que perdeu o encanto do olhar. Hoje, a cidade só pensa em crescer e tudo ocorreu sob a ação inflexível do tempo, então, o poeta descobre que a Itabuna de outrora não mais existe: ”É só pensamento, minha cidade de outrora”.

     Hoje, estou convencido que Walker Luna alçou voos tão alto na poesia quanto Machado de Assis na prosa, por isto, eu o aceitei como meu patrono!...

 

Pais: Ignorados.

Família: Walker Luna

 

Histórico Escolar: curso primário com Dona Etelvina de Andrade e o terminou no Colégio Belfor Saraiva, aos 14 anos, mudou-se para Salvador e concluiu o curso secundário na colégio do professor Hugo Baltazar.

 

Produção Literária:

Livros Romances: Estes seres de mim (1969), Companheiro (1979), Estação dos pés (1983) e Um ângulo entre montanhas (1985) e Na condição de Existir.

 

Fatos e curiosidades relevantes: A fundação da ALITA e a minha posse como acadêmico fundador, na cadeira nº. 09, Patrono Walker Luna.

 

Att.: Os textos abaixo, foram redigidos na primeira pessoa, pois trata-se de uma transcrição de 02 artigos de minha autoria e são curiosidades biográficas.

 

Considerações sobre Walker Luna (Patrono): Nunca havia lido uma linha sobre Walker Luna, não conhecia sua obra, não sabia se ele era autor de prosa ou poesia, ou, ambos, eu não sabia se ele havia nascido na Bahia, no Pará, ou, na Cochinchina, mas não manifestei a minha ignorância aos demais confrades, resignei-me com o ensinamento de Paulo Freire: “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa”. Voltei para casa e consultei o “Google”, o pai dos burros e não o “Aurélio”, mas não encontrei nada ou quase nada de Walker Luna, agora, meu patrono.

     Recorri aos amigos, Antônio Lopes e Eglê, eles enviaram por e-mail algum material, porém, incipiente para o resumo biográfico do patrono, um mês depois, recebi um e-mail do filho de Walker Luna, através do presidente Marcos Bandeira, parabenizando-me pela homenagem que tinha prestado ao seu pai, com a promessa de disponibilizar o material necessário para se elaborar uma descrição mais completa e colocá-la no quadro de patrono, infelizmente, foi tudo.

 

     Não obstante a escassez de referências bibliográficas do poeta itabunense, sua falta de raízes da região do cacau, faz-se necessário transcrever (abaixo), na íntegra, o seu poema “A cidade Perdida”, extraída do livro: “Um ângulo entre montanhas, ano 1985”, quando o poeta retorna para sua terra natal.

 

A CIDADE PERDIDA - Walker Luna

Minha cidade estendeu-se / Alargou suas redondezas / Multiplicada em distância / Insatisfeita / Subiu / Buscando mais horizontes / e perdeu-se dentro dela / Volto hoje a procurá-la / Transfiguraram-se os jardins / E os encantos do seu rio / Tomaram novas feições / Até o céu era outro / ou eram outros os meus olhos? Sob a ação de tanto tempo / Anoiteceu em si mesma / E confundiu seus vestígios Entre as formas De mais gritos / Agora / É só pensamento / - minha cidade de outrora.

 

     Neste poema “A CIDADE PERDIDA”, Walker Luna fala de uma cidade que não existe mais, ela “alargou as redondezas”, os jardins não são os mesmos, o rio não é mais despoluído e cristalino, “até o céu era outro”, enfim, a cidade de outrora é outra que só existe no pensamento.

     Este poema desperta a consciência do homem que as coisas e o mundo vivem em mudança permanente. O pai da dialética, Heráclito de Éfeso, dizia: “...Ninguém entra num mesmo rio pela segunda vez”, ou seja, tudo vive em eterna mudança, a lei do movimento permanente.

     As cidades têm essa característica quanto mais antiga, mais elas se renovam, diferente do ser humano que envelhece e caminha para decrepitude ao longo dos anos. Alguém que deixa uma cidade bucólica, singela, pura, ingênua, depois de muitos anos, depois que a retorna, encontra um mundo diferente: mais desenvolvida, transformada, porém, menos humana.

     O homem por natureza, ele gosta da vida simples, do campo, da natureza, curtir o canto dos passarinhos, apreciar o crepúsculo matutino e o crepúsculo vespertino, o desabrochar da flor, tomar banho no rio cristalino e à noite dormir numa rede no alpendre da casa.

     O homem não nasceu para estresse da cidade grande, corre-corre, grande afã, horário apertado, compromisso mais compromisso, mas, ele nasceu pra ser cúmplice da natureza, quanto mais se distancia da natureza, mais infeliz e menos favorecido da vida.

     É sabido que Walker Luna morou muito tempo na cidade grande e quando voltou para sua terra surpreendeu-se que aqui como lá, as mazelas eram as mesmas, não existia a cidade campesina que deixou, o progresso e a civilização tinham transformado os costumes, a cultura e a cidade.

     O seu poema, “A cidade perdida”, expressa esse sentimento de desilusão de uma cidade que não mais existe.

 

CONCLUSÃO:

     “O poeta sabe que, mesmo quando protesta na coerência falha dos mortais, / num aprendizado duro e sem termo / na convergência de todo extravio, procede nas dobras do pensamento secreto e puro. Custa saber que na alquimia obscura da existência há o risco e o transe que são expostos através de situações estranhas, em um ritmo secreto de contágio e fogo, numa canção onde as constantes influências tocam-se nos extremos. Elabora seu enigma feito de abismos. Emotivo sem ser lamurioso, porque consciente de que poesia é coisa séria, destituída de desabafos ingênuos, reflexivo, mas não conceitual no sentido estéril, a poesia de Walker Luna resulta de uma experiência humana de natureza crítica do homem solitário. Cercado de sombras, indagações, fugas, depressões. Seus versos queimam como fogo, sinalizam verdades na lucidez no sonho” (Referência: Mattos, Cyro, Revista Prosa Verso e Arte)

 

Rilvan Batista de Santana, membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA (Cadeira nº. 09, Patrono Walker Luna), São Caetano, Itabuna (BA)

 

A escola do futuro - R. Santana

 


A escola do futuro 

R. Santana

 

     A escola do futuro não será o modelo atual e não é necessário ser um futurólogo, um Paulo Freire, um Vygotsky, um Piaget, um Henri Wallon, um Anísio Teixeira, ou seja, um cientista da educação para entender que a escola de hoje está doente das pernas e não sobreviverá por muito tempo, pois além dos problemas de aprendizagem que vêm se arrastando muito antes do movimento da “Escola Nova”, que de maneira sábia, valorizou mais a capacidade de discernimento do que o processo de memorização, o sujeito da aprendizagem não é mais um repositório de informação, mas um ser de capacidade de julgamento crítico e produtivo.

     Hoje, além dos problemas estruturais (política salarial aviltante, profissionais sem vocação e descomprometidos, carência de materiais didáticos, instalações físicas precárias, exploração comercial, etc.), a escola é vítima da violência, do narcotráfico, e, os crimes escolares que grassam aqui, acolá e alhures, não são mais casos isolados, mas índices estatísticos, malucos de ideias e de drogas estão promovendo carnificinas repugnantes naquela que deveria ser, somente, a casa de formação cívica e saber.

     Com o advento da informática e da internet, o conhecimento não é mais privilégio de poucos. Os fatos, em qualquer lugar do mundo, são transmitidos e vistos em tempo real. Afora alguns conhecimentos técnicos de direitos autorais alienados às indústrias e protegidos das especulações comerciais e as tecnologias bélicas que asseguram a segurança dos estados, as bibliotecas tradicionais e as bibliotecas virtuais, possuem todo conhecimento sistematizado produzido pela humanidade e de domínio público, logo, o saber é mais um ato de vontade, é querer aprender, é determinação, é consciência cívica.

     Não se pode negar o papel fundamental da escola no desenvolvimento afetivo, social, moral e intelectual do homem desde os sofistas até os dias atuais, seria uma injustiça histórica, seria tampar o sol com a peneira, a escola é o embrião da ciência, porém, o modelo de escola atual é que não mais se sustenta e será necessário que os pedagogos e os cientistas da educação encontrem outro caminho de uma escola mais dinâmica e atualizada, uma escola mais segura, uma escola mais acessível, uma escola mais comprometida com a aprendizagem e formação do sujeito.

     Vai longe o tempo que a escola publica ou privada tinha ensino de qualidade, não obstante as distâncias e acesso (escolas da zona rural), dificuldades de professores com formação específica (a maioria leiga, às vezes, sem curso médio ou fundamental incompleto), instalações inadequadas, material didático improvisado, metodologia imprópria e atitudes radicais de avaliação e educação dos mediadores da aprendizagem, valorizava-se mais as normas de comportamento do sujeito e a memorização dos conteúdos em detrimento do desenvolvimento intelectual.

     Os estágios de desenvolvimento piagetiano: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório-formal não são mais os mesmos, as crianças cresceram mentalmente e fisicamente. Hoje, a idade escolar inicial é de 4 anos e o adolescente de 16 anos participa do processo eletivo do chefe da nação. A evidência atual que os estágios de desenvolvimento cognitivo não são os mesmos apregoados pela “Epistemologia Genética”, é que existe um clamor social para que a maioridade penal seja reduzida e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) seja reformulado e adaptado à realidade da sociedade contemporânea.

     Não é fácil mudar conceitos arraigados, situações definidas, interesses inconfessáveis, “Status quo”, pois o novo faz medo e encontra resistência. O Criacionismo, por exemplo, é mais cômodo para religião do que a Teoria da Evolução de Darwin. Certamente, irá ocorrer a mesma coisa com a escola atual, qualquer projeto de mudança esbarrará em enésimos empecilhos, porém, mais cedo ou mais tarde, o modelo atual esgotado, o ambiente onde se processa o ensino-aprendizagem será outro, mais dinâmico e mais eficiente.

     Alfabetizar é capacitar o sujeito da aprendizagem na leitura e na escrita. Alfabetizado é ser capaz de escrever, compreender e explicar o que leu. Se o indivíduo não domina a escrita e a leitura, apenas assina o seu nome ou ler a placa de um ônibus do seu bairro, é um analfabeto funcional. A escola do futuro vai exigir que o indivíduo seja alfabetizado ainda nas séries iniciais para desenvolver suas potencialidades e construa o seu saber.

     Embora o ato de aprender seja solitário, o processo de aprendizagem é a interação do sujeito com o seu meio ambiente e Piaget acrescenta que o sujeito aprende aquilo que lhe é significativo e conforme sua predisposição genética, se o objeto não tem significado o aprendiz não tem interesse e não haverá nenhuma transformação intelectual.

     A escola convencional não motiva mais o sujeito da aprendizagem, além do conteúdo sem finalidade prática e intelectual, o meio ambiente não possui os estímulos necessários para aprendizagem de qualidade, até os conteúdos transversais não atendem mais ao interesse de uma clientela ciosa de informação atualizada. Os cursos de educação à distância, tomam conta do mercado. Com as novas tecnologias, o ambiente presencial não é condição sine qua non no processo ensino-aprendizagem.

     É difícil predizer o modelo da escola do futuro, certamente, seguirá o caminho da ciência da computação porque os recursos de imagem e de linguagem estão cada vez mais sofisticados – computador, laptop, laptop infantil, tablet, idphone, celular, data show, fotoshow, etc., etc. - professor e aluno podem estar separados a quilômetros de distância, que a interação e o feedback não serão prejudicados.

     Enfim, a escola do futuro sua clientela ao invés de ter livros, ela terá computadores ligados à web, ao invés de professores, mediadores da aprendizagem, ao invés de salas de aula, centros de consulta e informação, ao invés de avaliação individual, exame nacional anual em todos os níveis de aprendizagem e os cursos de formação profissional completariam sua carga horária nas instituições específicas. Decerto, essas novas ferramentas subsidiarão uma nova pedagogia, uma nova escola...

 

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licenciado: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

Manduca - R. Santana

 


Manduca - R. Santana

 

     Manduca é matuto por convicção, faz questão de ser matuto, nasceu na roça, viveu na roça, criou os filhos na cidade e permaneceu na fazenda até dias atrás quando teve que vendê-la pra morar na cidade pelo peso da idade. Manduca é uma pessoa simples, porém, o que lhe diferencia das pessoas de sua idade, é sua resistência às coisas novas, principalmente, o celular e o telefone. Como Ariano Suassuna e Getúlio Vargas, ele tem aversão a esses aparelhos de comunicação à distância, som e imagem em tempo real.

     Quem mais zoa Manduca é seu neto primogênito. Ele provoca seu avô, pois conhece sua reação:

     - Vô, o senhor já ouviu falar em site de relacionamento?

     - Não!

     - O senhor bate–papo descompromissado com uma pessoa pela Internet até conhecê-la pessoalmente e chegar ao namoro ou ficar na amizade!

     - Meu neto, não é melhor conhecer a pessoa de carne e osso do que pela Internet?

     - Vô, se mora em outro estado ou outra cidade?

     - Nesse caso é melhor nem conhecê-la. Com tanta mulher aqui, irei procurar uma mulher em outro lugar!?

     - Vô, hoje, o senhor vê a imagem e ouve a pessoa a centena de quilômetros de distância pelo celular ou pelo tablet!

     - Meu neto, eu não sei e não quero usar esses equipamentos. Gosto do olho no olho, de ouvir a respiração, de tocar na pele e conhecer a alma da pessoa por dentro, namorar de longe é coisa da modernidade. Eu e sua avó namoramos muito tempo, adivinhava seus gostos e sua vontade pelo olhar.

     - Vô, isso foi naquele tempo que se amarrava cachorro com linguiça, papagaio era meu louro e dois cruzados meu dinheiro!      Hoje, o tempo é outro, tempo novo, tempo de novas tecnologias, não de atraso – o velho olhou para as grades da casa e respondeu como se o neto não estivesse ali:

     - Tempo é tempo, o tempo não muda, as pessoas, as situações e as coisas que mudam. Eu nasci na roça, meus pais não eram ricos, mas tínhamos a natureza como riqueza, fartura na mesa, tínhamos liberdade como bem maior: tomávamos banho no rio, subíamos na árvore mais alta para pegar a última fruta, à noite, brincávamos de picula no terreiro, jogávamos bola no campo de várzea, os nossos pais sentavam-se na porta para prosear sem medo, hoje, vivemos atrás das grades, não proseamos na calçada com o vizinho, perdemos nossa liberdade e nossa paz      – voltou olhar para o neto e concluiu: - meu neto, pra quê tanta tecnologia? Se nós perdemos a vida todos os dias e ficamos presos em nossas casas protegidos pelas grades?

     - Vô, cada coisa no seu tempo, as pessoas têm que se adaptar ao tempo, não o tempo às pessoas. Conheço idosos que se adaptaram às novas tecnologias sem resistência, eles fazem pagamentos pelo celular, transferem valores, compram nos mercados produtos alimentícios de pronta entrega, “delivery”, “UBER”, etc. Não seria necessário o senhor ir ao banco sacar dinheiro pra fazer o básico, tudo pode ser feito com o celular que cabe na palma da mão.

     - Meu neto querido, eu sei de tudo isso que falou, porém, eu gosto de gente. Quando eu vou ao banco, converso com os funcionários, converso com gente nova e gente da minha idade, ando pelas ruas, visito as lojas (na maioria das vezes não compro nada), somente, pelo prazer de andar. Já pensou se ficasse dentro de casa enclausurado? Morreria de tédio – completou:

     - Quando eu adoeci, cada um de vocês, tinha um pretexto pra não tomar conta de mim, quem me deu assistência foi o açougueiro, o dono do mercadinho, o dono da padaria, os meus vizinhos, os meus amigos... O celular pode lhe dar conhecido virtual, não amizade.

     - Vô, não seja injusto, quando o senhor adoeceu, eu não estava aqui, mas seu filho e sua nora e meus irmãos vieram lhe dar assistência.

    - Eles visitaram-me, no entanto, naquele momento, eu precisava de muito mais. Entendo que todos têm seus afazeres, eles não podiam ficar paparicando um velho doente, além do mais, a empregada cuida de mim, da minha comida e minha roupa, porém, o cuidado de filho, de neto e nora, o cuidado é diferente, cuidado com amor.

     - Vô, eu peço-lhe desculpa por galhofar do senhor, pensei que não aderiu às novas tecnologias por ignorância e birra, mas saio daqui, consciente que não usa esses apetrechos modernos por convicção e sabedoria.

     Os dois se abraçaram e prometeram se entender dali em diante.

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

 

A Festa Cívica - R. Santana

 


A Festa Cívica

R. Santana

 

     O dia de eleição para o executivo e legislativo, municipal, estadual e federal, certamente, é um dia de festa. O eleitor veste a melhor roupa e o melhor sapato pra votar. Não há diferença de classe social, de raça, de credo, moço ou velho, todos saem espontaneamente de casa, do trabalho, às vezes, da cama de hospital, com o objetivo de exercer sua cidadania: o voto, secreto e intransferível. Hoje, ninguém vota por um saco de cimento, uma cesta básica ou uma receita médica. Não existe mais o eleitor de “cabresto”, em frente à urna, o eleitor e sua consciência política decidem o destino do povo.

     Hoje, não adianta a “boca de urna”, a distribuição de “santinhos”, o aliciamento, subornar o eleitor, financeiramente, moral ou intelectual, que o cidadão não se afasta dos seus ideais políticos. O inesquecível deputado federal Ney Ferreira dizia que quando alguém lhe propunha dar 200 votos, no primeiro dia, ele “cortava” um zero, ou seja, ficavam 20 votos, e, no dia da eleição, ele “cortava” mais um zero, isto é, sobravam 2 votos, 1 voto do líder comunitário e 1 voto de sua mulher.

     Não faz muito tempo o voto era de papel, o eleitor depositava na urna o seu voto, porém, esse processo era passível de adulteração, não foram poucas as denúncias de corrupção. Com o advento da urna eletrônica, o processo eleitoral tornou-se mais seguro, pois, a urna eletrônica não tem Internet, depois do pleito, os resultados são transferidos “online” por um dispositivo móvel à central do TSE. Claro, o processo da urna eletrônica poderá ser aperfeiçoado, a exemplo, a impressão do voto que possibilitará ser auditado se necessário.

     O voto é a expressão de vontade mais democrática. Os gregos usavam o voto para eleger seus governantes. Não era um processo universal, os escravos e as mulheres não votavam. Aqui no Brasil, a mulher começou votar em 1932, com algumas restrições, o “Código Eleitoral” condicionava que fosse casada no civil e com a autorização do marido. As viúvas votavam se comprovassem independência financeira e não tivessem contraído uma nova união conjugal. No ano de 1934, o Código Eleitoral aboliu todas essas restrições, porém, o voto feminino era facultativo e obrigatório para o homem. Depois de muita luta de mulheres ativistas, a exemplo da potiguar Leolinda Daltro e a gaúcha Bertha Lutz, no ano de 1946, a mulher foi reconhecida com os mesmos direitos eleitorais do homem e no ano de 2011, o país consagrou Dilma Roussef, a primeira presidente.

     Hoje, o partido político é obrigado pela Constituição de 1988, reservar 30% às mulheres candidatas nas eleições proporcionais, ou seja, vereador, deputado estadual, deputado federal e senador. Contemplada, também, com os cargos políticos executivos: prefeito, governador e presidente da República. Aliás, as mulheres têm se distinguido brilhantemente nesses cargos que eram de homens numa antiguidade não muito distante.

     Não existe nem existirá outra forma e regime de governo que o homem exerça sua liberdade, sua cidadania, que é democrática e obtida pelo voto. Nos regimes comunistas e totalitários, o povo não decide, o voto não é uma expressão manifesta da vontade da maioria da população do país. Lá o sistema eleitoral é intrincado e o povo não participa das decisões nacionais, quem decide é a classe política dominante representada pelo líder supremo da nação que impõe sua autoridade através de leis arbitrárias e antidemocráticas. Abraham Lincoln com poucas palavras conceituou o governo democrático, constituído pelo voto: “Governo do povo, pelo povo e para o povo”.

     Não existe outro momento mais significativo da cidadania do que a eleição para cargos políticos em todos os níveis. O fato do voto ser obrigatório é de somenos importância, se amanhã, na Constituição da República, o voto for livre, de espontânea vontade, a abstenção será insignificante, pois, prevalecerá a tradição de mais de 90 anos que o brasileiro vai às urnas. Na morte e na hora de votar, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o branco e o negro, o crédulo e o incrédulo, todos são iguais, isto é que faz a importância do voto.

     Não existe bem maior do que a vida e a liberdade. Nós, brasileiros, que vivemos num país que preserva os valores da vida (não existe aborto legal) e a liberdade, não valorizamos a vida e a liberdade como quem vive em Cuba, Coréia do Norte, Venezuela, Rússia, China, etc. Toda essa conquista de princípios, ideias e valores, foi através do voto, é o voto que define as políticas públicas, é pelo voto que se livra de maus gestores e corruptos.

     Enfim, que as gerações futuras gozem de liberdade de expressão, de ir e vir, de vida em abundância, que este país seja modelo de democracia e estado de direito ad eternum para o mundo.

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro Fundador da academia de Letras de Itabuna–ALITA

Imagem: Google

Advogado de porta de cadeia - R. Santana

 


Advogado de porta de cadeia - R. Santana

 

     Quando era adolescente (isto nos idos de um mil novecentos e uns), achava que seria advogado. Quando lia História Universal, deliciava-me com os grandes tribunos: Cícero, Diógenes, Júlio César, Montesquieu, padre Vieira, Ruy Barbosa, Tobias Barreto, Rousseau, eram os meus preferidos.

     Quando lia os grandes romancistas brasileiros observava que a maioria era advogado ou formado em Ciências Jurídicas e Sócias, noutras palavras, tinham o curso de bacharel em direito, mas não tinham tido a prática forense.

     Certo dia o saudoso João Leal (homem culto que gostava de declamar em latim as Catilinárias de Cícero), num bate papo vocacional, induziu-me inscrever-me num curso que me daria o registro para ensinar matemática. Naquela época, a carência de professor dessa disciplina era significativa. Completava o professor Leal que eu iria ficar rico de dinheiro e trabalho. Ele juntou a fome com a necessidade de comer - eu não tinha nem dinheiro nem trabalho. Aí, o país perdeu um advogado e ganhou um sofrível professor de matemática.

     Hoje, eu agradeço à memória do saudoso João, o diabo não é tão feio como se pinta, não fiquei rico (professor rico, só por herança ou loteria), mas nunca me faltou trabalho, eu passei a vida orientando adolescentes e adultos em escolas públicas e particulares, na ciência de Pitágoras. Se tivesse sido advogado, salvo, ter me pendurado no galho dum emprego público ou privado estaria à mercê de parcos e eventuais honorários e esporádicos clientes.

     A nossa justiça está tão abarrotada de processos e eternos recursos, tão emperrada e ociosa que transformou o profissional do direito num mendigo de gravata, a maioria presta serviço em mais de uma comarca para sobreviver.

     Foi de somenos importância a criação dos juizados especiais. A lei que deu origem a esses tribunais de causas modestas, tinha por objetivo desafogar os tribunais tradicionais e dar mais celeridade às demandas jurídicas, entretanto, esses tribunais, atualmente, estão tão empedernidos e congestionados de processos que quando as partes envolvidas numa questiúncula não usam o bom senso para um desfecho comum, entulham-se as prateleiras de ”arquivo morto”.

     Além do sistema judiciário brasileiro está assentado em Códigos que não evoluíram às mudanças sociais, alguns agentes da justiça também não incorporaram essas mudanças e os exemplos de injustiças são diversos. Afora os casos de desvio de dinheiro público, vendas de sentença, tráfico de influência, corporativismo e etc.

     O brasileiro enxergou uma luz no fim do túnel para solução dos seus problemas, com a cantada e decantada reforma do judiciário. Alinhavaram-se (ninguém quis abri mão dos seus direitos adquiridos, isto é, deixar as tetas do dinheiro público e quase nada mudou), umas leis no Congresso, um órgão independente foi criado para gerir os atos do poder judiciário, porém os resultados práticos dessas mudanças não chegaram para o povo. Os magistrados e os funcionários graduados da justiça ainda continuam gozando das benesses e privilégios dos seus cargos. A sociedade não possui mecanismos jurídicos nem o exercício da cidadania amadurecido e definido para cobrar do poder judiciário, produtividade e eficiência. É notório os erros de sentença, de pessoas serem condenadas por delitos que não cometeram ou os controversos casos do cidadão comum ser apenado de maneira desproporcional por uma situação delituosa famélica em 39 cárceres desumanos enquanto cidadãos da elite desviam milhões do dinheiro público, praticam outros delitos e ficam presos em suas mansões - a chamada prisão domiciliar. São as brechas das leis que só beneficiam os ricos e os poderosos...

     Seria excelente para o povo que tivéssemos um judiciário operante e rápido, que os processos não criassem bolor pelo tempo. Um judiciário que salvaguardasse de fato os nossos direitos. Que as nossas reivindicações trabalhistas, cíveis, criminais e as injustiças cometidas por outros poderes do país fossem atendidas e solucionadas. Que todos nós fôssemos iguais perante à lei e não uma figura de retórica constitucional.

     Por causa desse importante e necessário poder da República está tão enferrujado e desacreditado é que os recém egressos jovens das escolas de direito, estão usando somente o interregno tempo de experiência profissional exigido e migrando para atividades empresariais ou funções públicas que lhes garantirão estabilidade social e funcional, então ingressando na política, o caminho mais fácil de dinheiro e poder. Deixando para trás os seus colegas encanecidos e alquebrados, de ternos surrados, o trabalho de porta de cadeia e as lides inglórias dos tribunais.

 

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

 

A família - R. Santana

 


A família

R. Santana

 

     É lugar comum dizer que a família é a célula mater da sociedade, é necessário que se diga sempre, porque a família é o sentimento de amor maior do homem. O homem que se desembaraça da família, perderá o equilíbrio psicoemocional e condenará sua história. Não lhe adiantará nenhuma riqueza ou sucesso profissional, se ele não tem o agasalho dos pais, a compreensão do cônjuge e o aconchego dos filhos.

     Para o filósofo Jean-Jacques Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe, outros, acreditam que o homem nasce com potenciais instintos e razão e a sociedade lhe dá humanidade. Porém, quantos indivíduos maus existem que a educação e a instrução não conseguem aprimorar? Inúmeros! Esses indivíduos que nascem com a maldade congênita, jamais serão socializados plenamente, sempre viverão à margem da sociedade.

     A família, além de suporte afetivo, propicia princípios religiosos, morais e intelectuais aos seus membros. Hoje, as políticas públicas de todas esferas de governo, elas são voltadas mais para educação, saúde e bem-estar social. Os recém-nascidos são protegidos por creches e os pré-adolescentes, os adolescentes e os jovens adultos são amparados por um sistema educacional que abrange o ensino fundamental, o médio, o ensino técnico profissionalizante e o superior em todos os rincões do país, ou seja, não existe desculpa pra o indivíduo não adquirir conhecimento.

     Hoje, com a modernidade e a banalização dos costumes, muitos casais protelam à chegada de filhos ou renunciam à sagrada função de ser mãe e pai biológicos. Porém, no seu poema “Enjoadinho”, o poeta Vinícius de Moraes questiona: “Filhos, filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-los? / Noites de insônia / Cãs prematuras / Prantos convulsos / Meu Deus, salva-o! / Filhos são o demo / Melhor não tê-los / Mas se não temos / Como sabe-los?”, ou seja, os filhos são necessários, são as bênçãos de Deus, o casal sem filho sujeita-se encerrar sua história, sua descendência, além de uma vida infrutífera e vazia.

     É lamentável que alguém complete uma família, com cachorro, gato, etc. Tê-los podem preencher um vazio afetivo, mas os animais não substituem o filho, mesmo adotivo. O mais racional é a coexistência de animais e gente.

     Hoje, há vários tipos de família, no entanto, aqui se discute a família tradicional, aquela deixada por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”, Gênesis 1:28, com as instruções: “enchei e dominai a terra”. E, completa: Deus os abençoou e lhes disse: “Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Essas outras famílias não têm a função biológica de fecundação e reprodução, elas são as "famílias" sociais ou famílias homoafetivas.

     A família não se resume ao núcleo (pai, mãe e irmãos), também, a família extensiva: avôs, avós, tios, sobrinhos, primos e, os parentes por afinidade, a exemplo de noras, cunhados, genros, etc.

     A família se caracteriza pela solidariedade, generosidade, empatia e amor entre seus membros, quando alguém da família é acometido de algo funesto, todos sentem a dor do outro. Uma mãe é capaz de dar a vida pelo seu filho. Por mais que o filho tenha defeito, má conduta, sua conduta sempre é suavizada e justificada pelos pais.

     A família é uma instituição milenar, tão velha quanto o mundo. A Bíblia em Gênesis fala da primeira família: Eva, Adão e os filhos Caim e Abel. Infelizmente, o primeiro fratricídio da história da humanidade, Caim matou seu irmão Abel, assim, a história registra a primeira família e o primeiro crime.

     Por outro lado, a Sagrada Família nos ensina o amor, a compaixão e a fé. Em Efésios, Capítulo 6, Versículos 1-4, lê-se: “Filhos, obedeçam aos seus pais no Senhor, pois isso é justo”. A Sagrada Família é por natureza santa, pois todos os seus integrantes possuem santidade confirmada pela Igreja Católica e pela fé cristã. Maria escolhida, concebeu virgem, seu filho Jesus Cristo, e, José, varão corajoso e justo. Maria, até os dias atuais, ela se apresenta ao mundo sob várias facetas divinas, operando milagres pela fé de seus crentes.

     Não obstante existir a família desajustada, desunida, que não se encontra, incompreensiva, mesmo assim, é uma instituição que não se substitui porque sua natureza é santa e pecadora, não é somente, a menor unidade estruturada da sociedade, a célula mater, fora dela, não haverá momentos felizes nem paz existencial.

     Enfim, invocando o adágio popular: "Uma mãe é para 100 filhos e muitas vezes 100 filhos não são para uma mãe", portanto, nada no mundo substitui o pai e a mãe, filho!... 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

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O Natal - R. Santana

 


O Natal - R. Santana

 

     Em tempos idos, tempo de simplicidade, de amor e paz, o Natal era nossa festa maior. A minha tia Judite, que carinhosamente, eu a chamava de “mãe Judite”, fazia o possível e o impossível para alimentar o meu sonho de “Papai Noel”. Nas noites dos dias 24/25, ela servia a ceia natalina, mais farta e diversificada, mas, antes de tudo, a família prostrava-se em oração para celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Quando dava meia noite, lá estávamos na Missa do Galo.

     A casa não era rica, mas não podíamos nos queixar da ceia de Natal: peru, frango ao molho pardo, carne, patê de fígado, purê de batata, feijão, arroz, saladas, nozes, azeitonas, tudo regado com bom vinho para os adultos e a molecada se empanturrava em doces de caju, manga, jabuticaba, quem não gostava de doce, se empanturrava no caldeirão de ponche natural – não havia geladeira.

     Quando voltávamos da missa, na estrada de barro, quando não estava chovendo, que a lama respingava e manchava nossa roupa nova, nós vínhamos brincando e pegando picula, os garotos eram da mesma idade, tudo era festa. Não havia malfazejo, ladrão só de galinha, saíamos da missa e chegávamos em casa sem sermos molestados por algum malfeitor.

     Nós não entendíamos bulhufas do que o padre falava. A maioria das vezes, era um padre alemão de língua embolada, sabíamos que tinha chegado ao fim, quando ele ultimava os ritos finais: “Benedicat vos omnipotens Deus” e “Pater et Filius et Spiritus Sanctus, Amen!”, aí, corríamos para o presépio, onde Jesus Cristo, deitado na manjedoura significava o gesto de humildade absoluta. Não sabíamos o significado eclesial do presépio, queríamos só brincar e olharmos os animais do presépio e os três Reis Magos adorando o Menino–Deus, José e Maria.

     Questionava mãe Judite como Papai Noel conseguiu passar pelo telhado com aquele saco enorme de presentes. Ela dizia-me que Papai Noel é encantado e entra em qualquer casa, desde que o menino lhe rogue um brinquedo, e acrescentava que Papai Noel mora numa terra muito distante, lá no Polo Norte, lugar de muito gelo, por isto, sua roupa vermelha fechada com boina de lã para evitar o frio e, nas grandes distâncias, ele usa seus trenós mágicos com renas amestradas para percorrer o mundo.

     Porém, o bom do Natal era o dia seguinte: pulava da cama em busca do presente que tinha pedido ao Papai Noel, uma bola, um “caminhão”, ou, uma pistola de jato d`água, encontrava-o dentro do sapato ou fora, conforme o tamanho do presente, certa feita, ganhei um velocípede da empresária Nela.

     As rádios AM e os alto-falantes dos bairros eram imprescindíveis para divulgar os festejos e as noites natalinas, Jesus Cristo era o tema, mas o sentimento infantil e lírico das letras deslumbravam os garotos: "Natal está chegando, plim plim plim / Que bom te ver sonhando, plim plim plim / Aqui não vai ter neve, vai ter sim / Muito calor e amor pra mim!"

     Não se pode apagar a chama do Natal, pois apagar-lhe seria desconstruir um reino de magia, de sonhos, de esperança, além do significado religioso que é importantíssimo na história da humanidade. Festejar o nascimento de Jesus Cristo é um ato de gratidão por ter morrido na cruz pra redimir o pecado do homem.

     A tradição oral e escrita, hoje, a mídia falada e televisada são fundamentais para alimentar o sonho do bom velhinho, bonachão, barrigudo, barba e cabelos brancos, que traz no seu saco de brinquedos, a inocência, o amor e a paz, que, ele fique na mente das crianças e dos adultos para sempre.

     Se a vida é tão dura e difícil, se a alma não fosse alimentada com efeito artístico, magia e fantasia, a morte seria um descanso, não a esperança de vida eterna. Por isto, Papai Noel é o suporte emocional necessário para preencher a lacuna de insegurança do homem de todas as raças e credos, não, somente dos cristãos.

     Os estadunidenses, por causa do limite físico do homem e sua natureza finita, eles criaram, também, no Século XX, seus heróis imortais, não a exemplo de Papai Noel, personagem infantil, mas heróis que combatem a injustiça e protegem os mais fracos, a exemplo de Thor, Hulk, Homem de ferro, Capitão América, dentre outros heróis.

     O brasileiro para mexer com a alma dos seus pequenos, criou seus personagens que povoam a mente de crianças e adultos, eles não são universais, mas satisfazem o imaginário do seu povo, a exemplo de Saci-pererê, Curupira e Boitatá.

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Marcos Bandeira - R. Santana

 


Marcos Bandeira 

R. Santana

       Naquela manhã (leitor amigo, não me lembro o dia) do mês de abril de 2011, minha esposa recebeu um telefonema que me passou depois: - Dr. Marcos Bandeira telefonou! - Quem? - O juiz! - Deseja o quê? – a mulher apreensiva: - Acho... você... anda escrevendo essas bobagens...

     No segundo telefonema, o objetivo foi parcialmente esclarecido: o projeto de uma academia de letras em curso e o Juiz de Direito itabunense gostaria de conversar comigo pessoalmente. Combinamos dia, local (Fórum Ruy Barbosa de Itabuna) e hora.

     Não conhecia pessoalmente dr. Marcos Bandeira, conhecia-o através da mídia falada e escrita e an passant sabia que tinha atuado na Comarca de Camacan como Juiz criminal.

     Na data combinada, tirei a roupa do fundo do baú, calcei o sapato mais novo, chamei minha filha Anne Glace para me assessorar e fomos encontrá-lo no seu local de trabalho. Aproveitei e levei 2 romances (O empresário e Maria Madalena) de minha autoria para lhe presentear. Eu pensei que ia encontrar um homem afetado pelo cargo com resquício de autoritarismo, mas, encontrei um nordestino raiz de Bom Jesus da Lapa (BA), dócil, educado que convencia pela força do argumento, não pela autoridade de Juiz de Direito, um democrata.

     Combinamos nos encontrar na FICC (Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC), situada na Praça Tiradentes s/n, próximo à catedral São José. Palavra dada, palavra cumprida, naquele dia, lá na FICC, eu encontrei: Marcos Bandeira, Antônio Laranjeira, Ary Quadros, Carlos Eduardo Passos, Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Gustavo Fernando Veloso, Lurdes Bertol, Genny Xavier, Ruy Póvoas, Sione Porto, Sônia Maron, Marialda Jovita e Maria Luiza Nora.

     Em nossa primeira reunião (19 de abril de 2011), definimos o nome da academia, por aclamação dr. Marcos Bandeira foi eleito presidente junto com a diretoria (eu fui eleito 2º. Tesoureiro, com a desistência de Gustavo Fernando Veloso, 1º. Tesoureiro, eu assumir seu lugar), fechamos a manhã daquele dia com o “esqueleto” pronto da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.

     Em reuniões vindouras, sob a batuta de dr. Marcos Bandeira, em 7 meses, redigimos o Estatuto, o Regimento, criamos a revista “Guriatã”, desenhamos o fardão, os brasões “Litterae in Fraternitattis 2011” ou “Litteris Amplecti 2011” - O Hino da ALITA, veio depois, letra do escritor Cyro de Mattos – no dia 05 de novembro de 2011, no auditório da FTC, o escritor, cronista, Juiz de Direito e professor da UESC das disciplinas: Direito Processual Penal, Direito da Criança e do Adolescente, dava posse aos acadêmicos, em solenidade de gala. O acadêmico Ruy Póvoas discursou em homenagem ao patrono da Academia, Adonias Filho, e, Cyro de Mattos ostentando no peito suas medalhas lhe auferidas em tempos idos, discursou em nome dos acadêmicos empossados e Aramis Ribeiro falou representando, como seu presidente, a Academia de Letras da Bahia – ALB.

     Faz-se necessário dizer, por desencargo de consciência que, em todas as etapas de fundação da ALITA, o desempenho pela experiência de outras academias de Ruy Póvoas e Cyro Pereira de Mattos, foi significativo. Coube ao dr. Marcos Antônio Santos Bandeira, primeiro presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA, à assessoria jurídica.

     Não obstante a falta de recursos materiais e financeiros, a gestão colegiada de dr. Marcos Bandeira foi acima da média, em 2 anos de mandato, o que era um ideal imaginário (criar uma academia de letras), transformou-se em realidade como pessoa jurídica (CNPJ), além de ter pago a festa de solenidade de posse dos acadêmicos com recursos próprios, o registro do Estatuto e Regimento, uma conta bancária no Banco do Brasil para contribuição mensal dos novos acadêmicos e através da saudosa Sônia Maron, a cessão de 2 salas para sede provisória no Edifício Dilson Cordier, à Rua Ruffo Galvão. 155 – Centro / Itabuna (BA).

     Estimado leitor, talvez, não mais me suporte com essa ladainha de fundação da ALITA. Porém, peço-lhe que me tolere mais um pouco, é que nosso homenageado foi seu primeiro presidente, e, se ele é seu amigo, o admira, releve essa chatice e me acompanhe para que, eu e você, possamos adentrar naquilo que lhe foi sua razão de vida: O Direito como disciplina normativa que procura fazer justiça social: assegurando aos menos favorecidos e aos mais aquinhoados pelo destino, os mesmos direitos diante da Lei. Portanto, amigo leitor, passemos aos parágrafos que virão do nosso amigo Juiz de Direito e completemos com ajuda de Deus, sua trajetória profissional e humana.

     Dr. Marcos Bandeira foi um juiz garantista, que o réu é um ser humano e merece ser tratado com direito ao contraditório no Tribunal Judiciário, acusação, também, a defesa, que não seja prejudicado em sua honra, que não seja humilhado pela acusação e responda, somente, a prática do seu crime. Para Luigi Ferrajoli, pai do garantismo, se caracteriza: 1) como modelo normativo de Direito; 2) como teoria jurídica e 3) como uma filosofia política.

     Dr. Marcos Bandeira foi o juiz com recorde que nenhum outro juiz alcançou: presidiu mais de 250 sessões do Tribunal do Júri em Itabuna desde 1910, quem fala dessa proeza é o Juiz de Direito, dr. Ricardo Augusto Shimitt, quando prefaciou o livro "Tribunal do Júri":

     “Marcos Bandeira, juiz, professor doutrinador, para tratar com absoluta maestria sobre a reforma do “Tribunal do Júri”, com seu olhar crítico de mais de 250 júris presididos, o que faz com que sua obra receba o título de excelência, a ser aclamada por todos nós, operadores do direito”.

     O “Tribunal do Júri” foi criado pelos gregos, aperfeiçoado pelos romanos, implantado pelos britânicos e Estados Unidos. Foi instituído no Brasil pela Lei de 18 de julho de 1822 para julgar os crimes da imprensa.

     Quando li: “Apologia de Sócrates”, livro de prosa em verso, em que Sócrates é condenado beber cicuta por um Tribunal do Júri, que o acusava de “perverter a juventude”. Um tribunal corrompido por jurados de interesses inconfessáveis matou o filósofo que questionava o conhecimento com a célebre frase; “Sei que nada sei”.

     Antes da Lei nº. 11.689/2008 que se destinou a seção III do Capítulo II referente ao Júri, dr. Marcos Bandeira, instituiu no Tribunal do Júri em Itabuna, algumas mudanças a exemplo do réu não ficar ladeado por 2 policiais brutamontes, mas ao lado do seu advogado de defesa. Criou, também, o cadastro voluntário, ele justificou que algumas pessoas quando eram convocadas, chegavam ao tribunal com a cara feia e má vontade. Absolveu o sigilo da votação não do voto, que a sala secreta foi substituída por uma sala envidraçada que não comprometia o auditório vê a votação. Que o resultado absoluto de 7X0 foi substituído pelo resultado relativo 4x0, ou seja, por maioria simples.  - Que é de o prêmio INNOVARI?

     Ele gostava dos frequentadores assíduos do Tribunal do Júri, principalmente, da frequência de Zito Bolinha (in memoriam), que certa feita esclareceu a razão de sua assiduidade: ”Doutor, aqui se aprende lições de vida que não ensinam nos livros e nem na escola”.

     Mas, presidindo um Tribunal do Júri em Ferradas, que os indivíduos trepavam nas árvores para assistirem ao júri que se desenvolvia nesse bairro, teve um “Insight”, a partir dali, só faria júri nos bairros porque seria mais educativo e mais atrativo.

     Apesar do semblante “pesado”, dr. Marcos Bandeira é um brincalhão, certa feita que alguém falava de imortalidade, ele disse: “Cyro, pra ser imortal, só precisa morrer". Um aficionado pelo futebol, ele é “Fluminense” de quatro costados, no Rio de Janeiro, foi ver seu ídolo Rivelino. Alguém me disse que dr. Marcos Bandeira jogou no Colo Colo de Futebol e Regata de Ilhéus. Pelo tamanho e grossura, coloco minha mão no fogo, sem medo de queimá-la que foi um grande zagueiro.

     Doutor Marcos Bandeira, não vestiu o pijama da aposentadoria, é advogado, é professor concursado da UESC e doutorando em Direito pela Faculdade de Lomas de Zamorra da Universidade Nacional de Buenos Aires.

     Hoje, seu bem maior, a razão de sua vida, é sua família, Rosana, a esposa, os filhos: Marcos Bandeira Júnior, Michelle, Danielle e Francielle. 

     É lugar comum dizer que a família é a célula mater da sociedade, é necessário que se diga sempre, porque a família é o sentimento de amor maior do homem. 

 

 

 

 

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

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Att.: Informações, a posteriori, Marcos  Bandeira foi meia esquerda, camisa 10, do Colo Colo de Futebol e Regata de Ilhéus e da Seleção.

 

Afortunada - R. Santana

 


Afortunada - R. Santana

     Há 3 anos Tommaso Rossi Oliveira estava internado na “Casa de Repouso São Lucas”, situada numa cidade da Região Metropolitana de São Paulo. A casa abriga mais de 50 idosos, área murada e espaçosa, monitorada 24h/dia, arborizada e confortável. A casa possui estrutura física moderna, corredores espaçosos adaptados, área de lazer, apartamentos climatizados de 2 ou 3 camas e quartos individuais, além de serviço clínico de geriatria, apoio psiquiátrico e psicológico.

     Tommaso Rossi, com 79 anos de idade, não foi para “Casa de Repouso São Lucas” voluntariamente, mas, seus 4 filhos recorreram à Justiça interditá-lo, que lhes foram negados, então, num estratagema maquiavélico dos filhos, ele foi convencido com a cumplicidade de um psiquiatra, abrigar-se numa casa de repouso por estafa mental, a proposta inicial seria passar um mês, já se iam 3 anos de internamento.

     Giovanni é seu filho mais velho e vice-presidente das empresas do pai, um grupo empresarial de prédios de apartamentos, fazendas de pecuária e soja, uma construtora e 2 concessionárias de veículos da “Chevrolet”. Giovanni e as 3 irmãs administram as empresas. Tommaso Rossi não se afastou da presidência por mais que seus filhos insistissem, de quando em vez, na casa do sem jeito, Giovanni levava alguns documentos para que seu pai assinasse, na “Casa de Repouso São Lucas”.

     Tommaso Rossi é um homem soturno, quase não participa de atividades recreativas da casa, com exceção, os jogos de xadrez e as aulas de piscina. Ele gosta de nadar, costume de sua residência e casa de veraneio em Guarujá.

     Dentre suas amizades na casa, a mais significativa é com a jovem enfermeira Ana Júlia. Ela em suas folgas, ia passar com Tommaso, carinhosamente e o chama de “Tio Tomas”. Eles têm uma afinidade de pai e filha e brincam que noutra vida havia sido realidade. Porém, Ana Júlia é despojada, desprendida, brincalhona, carinhosa e humana com todos os internos da “Casa de Repouso São Lucas”, porém, seu chamego maior é com Tommaso, inicialmente, foi por vê-lo, praticamente, abandonado pela família, não conhecia pessoalmente, os filhos de “Tio Tomas”.

     Naquela antevéspera de Natal de 2024, o advogado e amigo Freddie Castanheira foi chamado por Tommaso Rossi, em princípio, jogar conversa fora, mas Rossi tinha em mente, outros objetivos:

     - Castanheira, quanto tempo?

     - Tommaso, quem é vivo, um dia aparece. Mas, não se queixe, quando os afazeres permitem, eu venho lhe ver!

     - Estou brincando... – acrescentou:

     - Eu quero deixar em Cartório meu testamento, pode providenciar?

     - Homem, você está bem de saúde!

     - Aparentemente... tenho medo de Giovanni... ele é ambicioso.... ele não tem escrúpulos!...

     - Infelizmente... eu concordo com você... seu filho é maquiavélico, mau-caráter! – acrescentou:

     - Posso saber o beneficiário ou os beneficiários?

     - No tempo certo. Quero deixar uma cópia lacrada em seu escritório, quando lhe for propício, tomará as providências necessárias.

     - Bem, eu iriei providenciar um tabelião. Acredito que o custo do testamento seja diferenciado pelo trabalho de ele vir aqui, ainda hoje.

     - Não se preocupe, eu tenho dinheiro, eles não conseguiram bloquear a minha conta de pessoa física. Faço questão de lhe remunerar pelo trabalho advocatício – Freddie Castanheira se despediu e prometeu providenciar os trâmites do processo de herança de seu constituinte.

                                                                                          *****

Dois meses depois:

     O pequeno escritório de Freddie Castanheira estava quase cheio com a família Rossi e Ana Júlia Scher Silva, todos convocados pelo famoso advogado. Ana Júlia sentia-se uma estranha no ninho, não sabia o motivo de sua convocação pelo advogado Castanheira. Não conhecia os filhos de “Tio Tomas”, os conheceu no dia do seu sepultamento, se eles estavam ali, deveria ter sido, também, convocados pelo advogado Castanheira. Não saía do seu pensamento as últimas palavras do seu Tio Tomas: “A beleza agrada os olhos, mas a doçura das ações, encanta a alma”. Enquanto Ana Júlia se perdia em suas digressões, o advogado de supetão, adentrou no escritório, cumprimentou todos e deu início à reunião:

     - Senhores, eu fui nomeado inventariante, pelo saudoso amigo Tommaso Rossi, portanto, cabe-me cumprir sua vontade testamentária. Peço-lhes mais alguns minutos, pois, faltam chegar mais duas pessoas para que iniciemos a leitura do testamento – Giovanni até aquele momento calado, questionou Castanheira:

     - Doutor Freddie, nós, os filhos, estamos aqui, não entendo a presença de pessoas estranhas ao processo de inventário?

     - Seu pai era um homem meticuloso, metódico e direito, deixou tudo por escrito e registrado em cartório na forma da Lei. Espero que os senhores respeitem sua vontade.

     - Porém, temos o direito de contestar em juízo qualquer arbitrariedade do meu pai – os demais convocados chegaram e o advogado pediu-lhes que se acomodassem que iria ler o testamento.

     “Eu, Tommaso Rossi Oliveira, brasileiro, maior, viúvo, empresário, RG e CPF anexos, estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais (relatório médico anexo), disponho dos meus bens (relação anexa), respeitando a parte legítima dos herdeiros necessários e designo como inventariante, dr. Freddie Castanheira, que fará cumprir minha vontade em qualquer Tribunal, conforme necessidade jurídica.

     Os meus filhos biológicos, Giovanni, Adriana, Paula e Milena, faltaram-me nos meus últimos dias de vida, internaram-me a contragosto na “Casa de Repouso São Lucas”, para um mês de repouso, num malabarismo maquiavélico, deixaram-me abandonado mais de 3 anos, com relatórios médicos forjados, antes, lhes foram negados pela Justiça de São Paulo, um processo judicial de minha interdição. Durante esse tempo, afastaram-se, inclusive, os meus netos, sabia das coisas através do meu amigo Freddie Castanheira.

     Na casa de repouso quase enlouqueceria se não fosse a jovem enfermeira Ana Júlia, ela cuidou de mim como filha, deu-me afeto e apoio moral, deixava os domingos e feriados e ia jogar conversa fora comigo para que eu não ficasse sozinho. Gostávamos de discutir literatura e assistirmos filmes na TV. Nossa amizade era espiritual, nunca lhe disse que era rico e presidente de um grande grupo empresarial, cujo objetivo era conhecer seu caráter e seu interesse pelas coisas materiais. Nunca lhe falei dos meus filhos. Dizia-lhe que estava ali pelo plano de saúde e tinha uma pequena aposentadoria da previdência oficial.  Aliás, ela não se interessava pela minha fonte de sobrevivência, ou seja, de onde vinham meus recursos financeiros.

     Por isso, disponho dos meus bens de forma juridicamente perfeita, 35% para minha enfermeira, a senhorita Ana Júlia Scher Silva; 7,5% para o “Hospital Municipal São José” e 7,5 % para o “Lar dos Idosos São Francisco”, também deste município. Ass.: Tommaso Rossi Oliveira, São Bernardo (SP), 23 de dezembro de 2024 – abaixo assinaram 3 testemunhas.

     Finda a leitura, o alvoroço tomou conta do ambiente, Giovanni e suas irmãs ameaçaram recorrer, contudo, o advogado acalmou os ânimos e esclareceu que, eles tinham todo direito de recorrer, porém, eles já eram detentores de 50% do grupo, que Tommaso Rossi Oliveira transferiu em testamento o que lhe era devido por direito.  

 

Moral da história: "Filhos, filhos? / melhor não tê-los / Mas se não o temos / Como sabê-los?"(Vinícius de Moraes)

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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FERRADAS: O Berço da Literatura do Sul da Bahia - R. Santana

 


FERRADAS: O Berço da Literatura do Sul da Bahia.

R. Santana

 

     Ontem, dia 28 do mês de março do ano em curso, o acadêmico alitano Gustavo Veloso, presenteou-me com a antologia: “A voz dos Acadêmicos II”, organizado por Demóstenes Almeida, publicado pela KELPS, Goiânia ano de 2025. Nessa antologia, Gustavo contribuiu com o poema (A MORAL) e o texto em prosa (FERRRAS: DA LITERATURA À TELA DE CINEMA). Faz-se necessário dizer que Gustavo Veloso é aficionado por Ferradas, seu chão, seu bem-querer e seu amor maior. Sem exagero, sem bairrismo, ele não troca Ferradas por Nova York, Paris ou Dubai, lá, ele formou seu caráter, seu pensamento cognitivo, sua memória afetiva, seu escopo intelectual e encontrou sua bem amada que lhe deu filhos e prazer de viver.

     O poema “A moral” é uma descrença nos valores morais que norteiam a humanidade. Hoje, “a moral é um resto, uma sombra, do que foi”. Conforme Gustavo, o homem usa de princípios morais para alcançar a crença de virtudes religiosas. Porém, é no sistema de poder que a moral se esvaiu, perdida nas mãos sujas do homem. A moral não é um sentimento inato de boa conduta, às vezes, a moral é obtida pela prática normativa de imposição de conduta. E, quando a moral é corrompida na elite de poder, o povo sofre as consequências e não consegue discernir o que é verdadeiro e o que é falso e os bons costumes são relativizados.

     Para Aristóteles de Estagira que sistematizou a ética e consequentemente, a moral, no tratado Ética a Nicômaco, a moral é racional, que a busca da virtude é prudente. Para Aristóteles, a Ética não é uma ciência, mas uma disciplina da filosofia. O indivíduo para viver em sociedade, é condição sine qua non saber o que é errado e o que é certo, sua conduta tem limite escrito pelo homem e a censura internalizada de sua consciência moral.

     Seu texto em prosa: FERRRADAS: DA LITERATURA À TELA DE CINEMA, Gustavo destaca a importância de Ferradas na literatura do Sul da Bahia através das obras “Cacau” e “Terras do Sem Fim”, do seu filho mais reconhecido no Brasil e no mundo o escritor romancista Jorge Amado. Faz-se necessário dizer que Ferradas naquela época, foi polo de desenvolvimento de Ilhéus.

     Jorge Amado narrou com competência o desbravamento das terras do Sul da Bahia e a saga dos desbravadores na derrubada das matas, cabrocar as roças e o plantio dos pés de cacau. Os posseiros foram vítimas dos coronéis, pois quando não eram expulsos de suas terras pelo clavinote, com derramamento de suor e sangue, eles eram expulsos pelos caxixes. Os topógrafos (medir as terras) e os advogados especializados em falcatruas eram os profissionais daqueles tempos mais requisitados.

     Não se pode negar a importância de Jorge Amado na divulgação dessas mazelas na construção da civilização do cacau, mas seu pensamento criativo, Ilhéus é a inspiração maior na construção de seus romances do cacau, foi assim, com “Gabriela, Cravo e Canela” e “São Jorge dos Ilhéus” com seus primeiros coronéis: Horácio da Silveira, Frederico Pinto e Sinhô Badaró.

     Jorge Amado nasceu em Ferradas, em 10 de Agosto de 1912, fazenda Auricídia, naquela época, município da recém emancipada Itabuna. Filho do casal João e Eulália Amado. Jorge Amado estudou viveu em Ilhéus até os 11 anos de idade, depois foi pra Salvador estudar no Colégio Antônio Vieira, onde passou sua adolescência, juventude e vida adulta.

     Não se pode falar da origem de Ferradas se omitirmos a figura providencial do Frei Ludovico, homem de ação, mas preocupado com as injustiças sociais e exploração do homem descamisado, escravo das circunstâncias miseráveis do seu tempo. “O homem é o lobo do homem”,  "homo, homini lupus", a expressão de Thomas Hobbes que significa que o mais forte prejudica e escraviza o mais fraco numa terra de paixões e tragédias humanas.

     Em 1946 a “Atlântida de Cinema” patrocinou o filme “Terra Violenta” com base no romance “Terras do Sem Fim” de Jorge Amado e Ferradas se encaixou como uma luva na mão e foi o cenário do filme. O filme teve a voz de comando de Alinor Azevedo e a direção de Edmond Bernaudy com produção de Luís Severino Ribeiro Júnior e Lírio Panicaly e a trilha sonora foi enriquecida por Lourival Caymi.

     O elenco com atores como Anselmo Duarte, Ruth de Souza, Maria Fernanda e Grande Otelo e alguns ferradenses participaram como coadjuvantes. O “Ponto Elegante”, point de Aristides Sodré, serviu para o lazer de atores e profissionais do cinema. O povo na rua se misturava com as estrelas do elenco.

     Um fato curioso, em que a vida imita a arte, é que um ferradense conhecido, foi vítima de uma emboscada assassina e o cavalo o levou para o set improvisado da produção.

     Infelizmente, o filme “Terra Violenta” foi danificado pela ação do tempo e “morrido”. O professor Guido Araújo tentou restaurá-lo, contudo, por falta de recursos financeiros e tecnologia limitada, não foi possível. Porém, o filme permanece na memória dos ferradenses e transmitido pela tradição oral e Ferradas com o estigma de berço da literatura do Sul da Bahia.

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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