11.03.2025

Os cabelos brancos R. Santana

 


Os cabelos brancos

R. Santana

 

     Quando eu tinha 55 anos de idade, surgiram os meus primeiros cabelos brancos ainda escondidos. No primeiro momento foi um choque, percebi que o tempo primeiro dava passagem para o tempo segundo. Não é fácil para o novo perceber que o velho avança. Claro, nem sempre o cabelo branco é sinônimo de velhice, muitos jovens têm os cabelos brancos, aliás, nascem com cabelos loiros claros, com o tempo ficam brancos.

          No início, eu resisti aos cabelos brancos, pensei pintá-los, mas um indiscreto amigo – os cabelos pintados não escondem a idade – fez me ver à inutilidade do eufemismo, nunca os pintei, segui seu conselho, não adianta pintá-los se o resto do corpo denuncia a idade.

          Outro fator que não me estimulou não pintar o cabelo foi a dependência, o indivíduo que pinta o cabelo o faz pelo menos de quinzena se não o fizer o cabelo branco sai despontando sem licença por baixo do cabelo pintado e nas pontas. A dependência angustia, se o indivíduo por qualquer motivo não pinta o cabelo no tempo certo compromete a estética facial, visto que, o cabelo é que deixa a pessoa atraente, sem o cabelo bonito, a beleza do rosto é comprometida.

          Antigamente, os produtos de beleza eram artesanais, pessoas idosas ficavam ridículas: o cabelo preto mais escuro que as asas da graúna destoavam da cor da pele ao invés da beleza, a feiúra. Hoje, os produtos cosméticos e a pintura, além do cabelo, eles limpam, amaciam e hidratam a pele, inclusive, diminuem os sulcos e as rugas da velhice.

          Diz o adágio popular: “Se conselho fosse bom não se dava vendia”, por isto, eu não aconselho ninguém, pois entendo que cada cabeça é um mundo, porém, deixar o cabelo branco crescer é a convicção que cada um toma de sua história. Cada fio de cabelo branco representa anos de experiência. O cabelo branco representa vida, salvo os distúrbios precoces da melanina, o cabelo branco é um processo de anos vencidos.

          O cabelo branco dá status, pressupõe-se que todo sujeito maduro já fez sua independência financeira, intelectual e moral em anos passados. A canção de Tierry “Cabeça Branca” é a realidade dessa fase da vida: “O dono da lancha é o cabeça branca / A champanhe que banca é o cabeça branca / Por que novinha na hora da selfie / Junto com as amigas o coroa nunca aparece”... Porém, o dono da lancha não importa gastar com a novinha se o prazer é maior. O saudoso “Rei da Soja”, Olacyr de Moraes, questionado por um jornalista se as novinhas da noite gostavam dele, respondeu: “Meu amigo, eu gosto muito de camarão. Vou a um restaurante e peço um prato desta iguaria. Eu não pergunto se o camarão gosta de mim... Eu simplesmente como!”, quando ele deu essa resposta ao jornalista abelhudo, o empresário tinha quase 80 anos.

          O cabelo branco não representa honestidade, bom caráter, idoneidade moral, porque no dizer de Rui Barbosa: “Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem”. Ou seja, não se deve confiar pelo fato do sujeito ter a cabeça branca, a velhice chega para todo mundo, “quem não morre envelhece”, é a lei da vida.

          Não se pode negar que a vida é um dom de Deus, portanto, envelhecer é um privilégio, muitos não tiveram o privilégio da idade encanecida, morreram no nascimento, então, moço. Alguém pode se maldizer de ter nascido, queixar-se do dia a dia, porém, nascer é um milagre e ninguém tem o direito de se maldizer, maldizer-se é negar Deus, é um pecado absoluto que é não reconhecer o Espírito Santo.

          Porém, toda regra há exceção, o homem é bom, nem todo homem é canalha, por isto, respeitar os cabelos de uma pessoa é reconhecer sua história, é reconhecer quanto aquele ser representou ou representa na comunidade ou no seu grupo social. Por trás de todo homem existe um passado, portanto, é necessário que o jovem e o adulto respeitem a experiência, o passado e o presente do homem de cabelos brancos, às vezes, curvar-se diante do seu legado.

          Eu abri esta crônica considerando a inutilidade de pintar o cabelo branco cujo objetivo é rejuvenescer o sujeito. Hoje, reconsidera-se a necessidade do prazer como estilo de vida humana. A saudosa Dercy Gonçalves, por exemplo, com quase 100 anos de vida, mantinha seus cabelos (peruca nos últimos anos de vida) pintados e maquiagem perfeitas, outro exemplo longevo é do empresário Silvio Santos, não apresenta seu programa de TV sem os cabelos pintados e maquiagem impecáveis. Para os hedonistas, o prazer é o bem supremo.

          Leitor amigo, se pintar os cabelos lhe faz bem, é de somenos importância quem pense o contrário, aliás, cada indivíduo exerce seu livre arbítrio e seu modo de vida.

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos

Destaques

Átomos Ambulantes - Agilson Cerqueira

  Agilson Cerqueira Sou átomos ambulantes. Nasci da combinação de partículas, que se uniram em moléculas, formaram tecidos, ergueram órgãos ...

Última semana