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10.31.2025

A pobre, rica literatura do Sul da Bahia - R. Santana

 


A pobre, rica literatura do Sul da Bahia

R. Santana

 

     Eu quero, a priori, dizer que este texto é um estudo embasado na leitura e observação. E, dizer aos amigos e aos menos amigos, que este texto, também, foi produzido para chamar à atenção dos que fazem cultura no Sul da Bahia, que é pobre em literatura de qualidade e rica em produtividade literária. Invocando Ernesto Carneiro Ribeiro em polêmica com Rui Barbosa, na redação do Código Civil do Brasil, dizia que Rui Barbosa, o egrégio jurista, “nadava muito e afundava pouco”, ou seja, Ernesto Carneiro Ribeiro fez um apelo para análise, síntese e lógica dos conceitos do Código Civil e evitando prolixidade. Resguardando a genialidade de ambos, também, os escritores e poetas do Sul da Bahia, “nadam muito e afundam pouco”. Os produtores de cultura do Sul da Bahia, eles dão mais significado à quantidade que à qualidade do verso e da prosa.

     Numa terra de versadores e prosistas de boa qualidade, como escritores e poetas: Sósigenes Costa, Euclides Neto, Ariston Caldas, Ildásio Tavares, Plínio de Almeida, Firmino Rocha (Deram um fuzil ao menino! No Portal da ONU), Clodomir Xavier, Helena Borborema, Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha, dentre muitos, eles deveriam ter sido reconhecidos pela crítica especializada do país, porém, suas produções não passaram do limite de suas cidades, na melhor avaliação, de sua Região. Qual a causa desses escritores e poetas que não foram reconhecidos lá fora? Acredito, que falta de originalidade, de criatividade, conteúdo esgotado, falta de talento literário e genialidade, não obstante, todos esses poetas e escritores foram intelectuais de nomeada do seu tempo.

     Não é a quantidade de literatura que produz um best seller, alguém pode escrever “n” livros e não vendê-los e esses livros morfarem nas estantes das bibliotecas.

    A história da literatura está cheia de poetas e escritores que escreveram pouco e são universais a exemplo de Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe), Euclides da Cunha (Os Sertões), Maquiavel (O Príncipe), Kafka (O Processo e Metamorfose), José Mauro de Vasconcellos (Meu Pé de Laranja Lima), Edgar Allan Poe (O Corvo), Emily Bronté (O Morro dos Ventos Uivantes), etc.

     Jorge Amado, escritor itabunense, diferente dos seus conterrâneos, deixou um legado literário e político significativos, com vasta produção literária, sua obra foi adaptada para o cinema e televisão e traduzido em mais de 80 países. Jorge Amado foi um escritor de literatura Sul baiana no mais lato sentido da palavra.

     Depois do verso livre, todo mundo se autointitula poeta ou escritor, a maioria sem qualificação, talento e vocação que, minhoca nunca será cobra, eles alimentam a vã ilusão que escrever é uma atividade fácil, de reconhecimento e retorno financeiro imediatos. Escrever é um ato solitário e publicar um livro, hoje, é dispendioso e necessário uma boa editora e serviço de marketing para disponibilizá-lo no mercado consumidor. O escritor e editor Monteiro Lobato, sustentava que “O livro é uma mercadoria como outra qualquer” se não vende, é que o livro não despertou o interesse do comprador, que não “presta”...

     Escrever é uma necessidade interior, um impulso incontrolável, como o ar que se respira, um dom de Deus. Clarice Lispector descreve a escrita como a “única forma de existir”. Quem escreve prosa ou escreve versos por diletantismo, não pode ser considerado escritor e poeta na acepção estrita da palavra. Não se faz um escritor ou um poeta na escola, mas, nasce o escritor e nasce o poeta, isto é, já nasce com natureza de escritor ou natureza de poeta.

     Produzir ideia, emoção ou beleza, não é tarefa fácil, é uma vida íngrime, introspectiva e solitária, muitos poetas e escritores ficcionistas vivem ou morrem numa penúria financeira de dar dó. Alguém acha que Fernando Pessoa, Drummond, Cora Coralina. Machado de Assis, Graciliano Ramos, Aluísio de Azevedo, e, tantos outros, viveram nababescamente? Ledo engano!

     Muitos sobreviveram de outras atividades, ajuda de família ou ajuda de amigos. Nem todo mundo nasce com a estrela de Paulo Coelho e Jorge Amado que venderam milhões de livros, afora direitos autorais para TV e Cinema. A maioria morre pobre e esquecido. Faz um tiquinho de tempo, que o poeta Mário Quintana, na penúria financeira, foi ajudado pelo jogador Paulo Roberto Falcão, que o alojou no "Hotel Royal" de sua propriedade, até sua morte.   

     Propositadamente, Adonias Filho ficou por último, porque, ele foi quase tão longe quanto Jorge Amado. Agraciado com várias honrarias, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), jornalista, ensaísta, crítico literário e romancista. Escreveu demais e literatura de qualidade, porém, não teve sucesso de venda de suas produções e suporte midiático. Dentre todos os seus romances, destacam-se: Corpo Vivo, Luanda Beira Bahia e Memórias de Lázaro, As velhas, etc. Na fundação da Academia de Letras de Itabuna - ALITA, seus membros escolheram-no como patrono.

     Enfim, o objetivo desta crônica foi para chamar à atenção dos produtores culturais e autoridades municipais do Sul da Bahia, com a promoção de políticas públicas que embasem novas produções culturais, quanto à logística, quanto aos eventos e na edição de livros de poetas e escritores da terra do cacau, senão, o nosso acervo criativo ficará sempre restrito aos limites da cidade.

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

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