11.27.2025

A face obscura do homem - Triunvirato (Capítulo 18)

 



A face obscura do homem - Triunvirato (Capítulo 18)

Triunvirato

Caro leitor, não fique assustado, não é o triunvirato de Júlio César, Marco Licínio Crasso e Pompeu, o primeiro triunvirato romano, o triunvirato aqui, da nossa história, não foi triunvirato, foi triângulo amoroso de Apolinário Gaiardoni, Clô e Rita. O título triunvirato veio à mente pelos perfis aguerridos dos três personagens. Apolinário e Clô são velhos conhecidos, Rita precisou ser flagrada nos braços do padre para entrar na história e não mais sair.
A sacristia não ficava nos fundos da igreja, mas numa casa contígua que servia de moradia para o padre e sacristia ao mesmo tempo, uma porta lateral dava para o salão da igreja. Lá, ficavam as toalhas do altar, algumas imagens, as batinas, os vasos de flores e outros acessórios. O acesso era limitadíssimo, afora Clô, Rita e mais duas ou três velhas beatas, tinham acesso.
Naquela manhã, a mulher de José Maria, como sempre, foi uma das primeiras que chegou à igreja, depois de meia dúzia de decrépitas senhoras, deu uma olhada e não viu o padre para o canto de entrada. Sorrateira, entrou na casa do padre sem ser convidada ou esperada e quase vinha abaixo se não se agarrasse numa mesa de jacarandá no centro da sala, ao flagrar sua amiga Rita, esposa do temido coronel do cacau, Honório Ladaró, nos braços de Apolinário Gaiardoni. Na casa do sem jeito (escandalizar, seria escandalizar-se), manhosamente, voltou e aguardou o sacerdote começar o culto.
Rita, loira de cabelo comprido escorrido, altura mediana, corpo violão, mãe de três filhos menores de idade, mais nova que Clô, meiga, era a mulher, o xodó e o bem-querer do fazendeiro Honório Ladaró. Chamava-a de “minha santinha”. Homem rude, moço ainda, que fez fortuna no cabo do facão e do machado, derrubando mata virgem e plantando cacau, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo, não hesitaria matar a mulher amada se soubesse que era traído e arrancar os bagos do malfeitor.
Se a situação lhe fosse favorável, Clô não hesitaria ter escrito uma carta anônima para Honório Ladaró, denunciando a traição de sua mulher e o traidor, por isto, usou o ditado do povo que “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, mexer com um sacerdote, naquela época, seria a mesma coisa que mexer num vespeiro de resultados imprevistos: vai lá que o brutamonte do fazendeiro mata a mulher e o amante, e, a policia descobre que sua carta foi a causa do crime!? Não, não seria tão imprudente...
Não é verdade que a mulher é sexo frágil, mulher não é instintiva, mulher é racional, ela domina suas emoções e controla o homem que é impulsivo e descontrolado quando se apaixona... Depois do flagrante de Rita, Clô fechou as portas e o coração para Apolinário. Não o recebia mais sozinha em sua casa, os empregados eram orientados não recebê-lo (inventassem desculpas...), salvo, se os seus filhos e o marido estivessem presentes, ia à missa no inicio do horário e voltava depois dos ritos finais e deixou as obrigações da igreja alegando saúde fragilizada.
Apolinário, sagaz, maquiavélico, quis lhe chantagear, contar tudo ao seu marido, depois, deixar Itabuna pela porta do fundo e desaparecer para sempre, mas Clô, de repente, mostrou-se determinada e valente:
- O senhor será o responsável pelas consequências!...
- Mas, querida...
- Não sou sua querida!
- Mas, Clô!...
- Por favor, “dona” Clô!... – o padre apelou:
- Depois de tudo, Clô!?
- Depois de tudo, o quê!? O passado seria presente para mim se houvesse significado, portanto, reverendo, o passado passou!
- Será que passou para Dr. José Maria?...
- Não! Acredito que para Dr. José Maria e o coronel Honório Ladaró, o passado será um presente sinistro e fúnebre!...
- Não tenho medo de morrer!
- Triste daquele que ferir o coração do coronel Ladaró, a morte lhe será um bálsamo...
- Não sou culpado de sua mulher me assediar!
- Não sei se terá topete para lhe dizer que Rita foi a culpada, mas se lhe disser, pode ter certeza, o senhor será amarrado e arrastado pelo cavalo do coronel Honório Ladaró até suplicar para que ele lhe dê cabo da vida! – completou:
- Não mais me procure, não frequente como antes minha casa, escolha o momento que o meu marido e os meus filhos estejam presentes, faça da discrição uma segunda natureza... Irei esforçar-me para manter a aparência, espero que a recíproca seja a mesma. Passe bem!...
Autoria: Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

A face obscura do homem - Tempo de harmonia (Capítulo 19)

 


A face obscura do homem - Tempo de harmonia (Capítulo 19)

Tempo de harmonia

Não fingida ou social, mas harmonia verdadeira do casal Andrada depois que Clô flagrou Rita nos braços de sacerdote. Ela percebeu que Apolinário Gaiardoni era na galinhagem pior do que o marido, este, não tinha feito votos de castidade ou fidelidade com Jesus Cristo ou sujeito à jurisdição do Vaticano, ademais, qual o homem de posse da terra do cacau que além da esposa não tinha amante? Todos. Montar casa para outra mulher era uma regra e não uma exceção, então, tudo voltou com dantes no reino de Abrantes...
Apolinário, depois que Clô rompeu com sua intimidade e lhe disse o fundo do cacho, ele diminuiu a frequência na casa do advogado José Maria, reservou horários que o dono da casa estava presente ou os seus filhos para visitá-los, mesmo assim, com espaços esporádicos e não mais manteve conversa a só com a dona da casa, todos estranharam suas atitudes, mas as explicações foram convincentes: “Estou muito ocupado na igreja..”, .”A sacristia está sendo retelhada...”, “O bispo me convocou para um trabalho em Ilhéus etc., etc.” Os Andradas foram se acostumando com sua ausência e ninguém mais lhe cobrava sua presença.
Porém, doutor José Maria que conhecia a alma humana como poucos e acostumado às lides dos tribunais do crime, atribuiu sua pouca frequencia às pegadinhas exegéticas que deixavam o sacerdote de saia justa, ou, algumas questões que sempre levantavam dúvidas sobre sua origem:
- Padre, o senhor ainda não me respondeu por que sua origem é alemã e o seu nome de família é italiano!?
- Doutor José Maria, eu acho que estar havendo um equívoco, eu já lhe expliquei a minha origem e o significado do meu nome! – irritado.
- Por favor, é uma curiosidade genealógica, não quero levantar nenhuma celeuma...
- Fique à vontade, não existe nenhum problema lhe explicar tantas vezes forem necessárias... – acrescentou:
- Minha mãe era alemã e o meu pai nasceu em Blomberg, estado de Renânia do Norte – Vestfália, localizado no distrito de Lippe, região administrativa Detmold, Alemanha, após 5 meses os meus avós terem chegado de Nápoles, Sul da Itália, portanto, o meu nome é uma homenagem aos meus ascendentes italianos!...
Autoria: Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 23/09/2012

Carta - Testamento de Getúlio Vargas

“A carta-testamento é um documento digno de ser lido, porque ele é generoso; ele é um texto humano; muito forte”, exaltava Leonel Brizola, durante a disputa da eleição para prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, em 2000. O discurso abordava a importância do documento deixado pelo ex-presidente da República, Getúlio Vargas, antes do suicídio, que ocorreu em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, com duas versões: uma manuscrita e outra datilografada. Representativo e impactante, esse posicionamento sempre foi ratificado e ecoado por trabalhistas em cada parte do país.

Ao contextualizar o indicativo da carta, Brizola mostrava o inconsequente ataque que o trabalhista sofria no período. “Havia um ambiente já de golpe de estado, por causa da Petrobras, dos conflitos, tudo isso aí. Ele sentiu. E não quis ser humilhado. Ele ia ser humilhado. Ia ser derrubado. Pressão americana muito grande; cresce no estrangeiro, em outros países. E ele se suicidou e deixou aquela carta.”

“O dia 24 de agosto foi um dia que vocês não têm uma ideia do que foi. O povo, chocado com a morte do presidente, porque aquilo vinha de uma campanha, de uma pressão de campanha terrível, que ele, naquela manhã deu fim à sua vida. E aquilo veio”, explicou, ao completar: “Ele entregou a carta-testamento para João Goulart e mandou que ele saísse daqui, porque ele achava que eles iam destruir a carta-testamento. Mas houve ação de muitos companheiros naquela hora, e fizeram a Rádio Nacional ler a Carta-testamento. Bom, foi um estouro.”

Segundo o líder pedetista, a divulgação da morte potencializou a reação da população. “Vocês sabem que o povo saiu em fúria pelas ruas, por toda a parte, quebrando tudo. Compreendeu? Quebrando tudo. Quebraram os jornais inimigos, os jornais de Chateaubriand; queimaram consulados americanos; o que era firma americana, quebraram tudo, incendiaram. O próprio Exército só depois, mais tarde (quando amainou um pouco a situação) é que saiu nas ruas.”

O ex-senador e antropólogo, Darcy Ribeiro, ratificava que Getúlio foi o maior dos estadistas brasileiros. “Foi também o mais amado pelo povo e o mais detestado pelas elites. Tinha de ser assim. Getúlio obrigou nosso empresariado urbano de descendentes de senhores de escravos a reconhecer os direitos dos trabalhadores. Os politicões tradicionais, coniventes, senão autores da velha ordem, banidos por ele do cenário político, nunca o perdoaram”, indicou.

Para ele, Getúlio governou o Brasil durante 15 anos sob a legitimação revolucionária, foi deposto, retornou, pelo voto popular, para mais cinco anos de governo. “Enfrentou os poderosos testas-de-ferro das empresas estrangeiras, que se opunham à criação da Petrobras e da Eletrobrás, e os venceu pelo suicídio, deixando uma carta-testamento, que é o mais alto e mais nobre documento político da história do Brasil”, acrescentou, ao considerar o documento essencial na história brasileira contemporânea.

Darcy relata ainda que o efeito do suicídio de Getúlio foi uma revirada completa. Segundo ele, a opinião pública, antes anestesiada pela campanha da imprensa, percebeu que se tratava de um golpe contra os interesses nacionais e populares. “Era a direita que estava assumindo o poder e que Getúlio fora vítima de uma vasta conspiração. Os testas-de-ferro das empresas estrangeiras e o partido direitista, que esperavam apossar-se do poder, entraram em pavor e refluíram. As forças armadas redefiniram sua posição, o que ensejou condições para a eleição de Juscelino Kubitscheck”, ponderou.

No relato do enterro, uma passagem emocionante. “O translado do corpo de Getúlio, do Palácio do Catete até o Aeroporto Santos Dumont foi a maior, a mais chorosa e mais dramática manifestação pública que se viu no Brasil. Pode-se avaliar bem o pasmo e a revolta do povo brasileiro ante esta série de acontecimentos trágicos, que induziram seu líder maior ao suicídio como forma extrema de reverter a sequência política que daria fatalmente o poder à direita".

Era Vargas

Para o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-deputado federal, Alceu Collares, a trajetória de Vargas mostrava seu comprometimento com o povo. “Getúlio Vargas, em 1930, chegou ao poder na crista de uma revolução, com a oligarquia. Neiva Moreira sabe disso: Getúlio chegou com a oligarquia, com as elites. Se tivesse se mantido fiel àquelas elites, não teria apeado do poder. É que, chegando ao poder, marchou de forma resoluta, corajosa e forte, porque era um socialista”, ressaltou.

“Ninguém até hoje fez 10% do que Getúlio fez. Não foram apenas a industrialização e a introdução da modernização da agricultura no nosso País, que começou com o café, em São Paulo. Foi ele quem fez os grandes investimentos. Quem fez a maior quantidade de estradas, de portos, de aeroportos? Quem fez o BNDES, a Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, a PETROBRAS, a ELETROBRÁS?”, completou, em um discurso vibrante na Câmara dos Deputados, em 2005.

Getulista, Brizola falava, com orgulho, do conterrâneo gaúcho. “Hoje, as estatísticas mostram que foram os anos que o Brasil mais progrediu, mais avançou; e que o produto econômico mais cresceu foram naqueles anos do presidente Vargas. Aí nasceu a Petrobras. Aí começaram os primeiros passos de outras grandes iniciativas. Morre o presidente Vargas, em 54, e o país viveu um momento difícil”, comentou.

Já Darcy relembrava que os intelectuais esquerdistas e os comunistas não se consolavam de terem perdido para Getúlio a admiração e o apoio da classe operária. “Com eles, o estamento gerencial das multinacionais. Getúlio foi o líder inconteste da Revolução de 1930. Tendo exercido antes importantes cargos, Getúlio pôde se pôr à frente do punhado de jovens gaúchos que, aliados a jovens oficiais do Exército, os tenentistas, desencadearam a Revolução de Trinta. A única que tivemos digna desse nome, pela profunda transformação social modernizadora que operou sobre o Brasil”, disse.

Leia abaixo a íntegra da Carta-testamento de Getúlio Vargas:

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.“

Fonte: FLP - AP / Bruno Ribeiro

Foto: Google 

11.25.2025

Poema O Navio Negreiro - Castro Alves

 


Poema O Navio Negreiro

I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Fonte: Cultura Genial

 

11.24.2025

Eleição na Academia de Letras de Itabuna - ALITA

 

Aos

Estimados confrades e confreiras:

    Eu sei que não tenho o prestígio dos principais escritores e administradores da academia, porém, ninguém pode negar minha resiliência e história de vida. Não se pode ser agradável com todos, sempre tem alguém que faz questão de nos antipatizar gratuitamente ou por motivo de foro íntimo,  ou, pela nossa franqueza em que trato as coisas da academia e do dia a dia. Não gostar de mim, é de somenos importância, não irei mudar a natureza e o entendimento de ninguém. Não sou de jogar confetes, falsos elogios, dizer o que não penso para cair nas graças de alguém, porém, sou mais fiel que um cão Labrador, com a pessoa de amizade e consideração recíprocas.

    Toda essa introdução é para refletir na votação para escolha do novo membro alitano no próximo dia 29.11.2025. Os dois candidatos são  excelentes, pessoas dignas, com  história de vida exemplar e, são  intelectuais que honram qualquer academia de letras, de arte ou de ciência. Porém, nesse sábado, eles passarão pelo crivo e avalição dos egrégios membros da Academia de Letras de Itabuna - ALITA, para preenchimento, somente,  de 01 (uma) vaga.

     No meu entendimento e embasado em precedentes não bem sucedidos, a exemplo das indicações do pseudo-alitano, cadeira nº. 33, patrono João de Silva Campos e uma pseudo-alitana cadeira n.º 35, cujo patrono é Jorge Medauá. Estes pseudos acadêmicos, competentes no que gostam, mas, sem compromisso naquilo que não gostam.  Estes pseudos acadêmicos são ilustres desconhecidos para ALITA. Nunca produziram nada, não tem nenhum compromisso alitano, não contribuem financeiramente nem intelectualmente, entraram pela “Janela” e nunca honraram suas indicações, portanto, por força do Regimento e do Estatuto já deveriam ter sido comunicados por ofício suas vacâncias na academia.

    Renee Albagali, pela importância na Educação do Sul da Bahia e Gestão Educacional, é merecedora de todos os encômios. Ela tem vários títulos acadêmicos dentre eles, doutorado na Universidade  Federal da Bahia - UFBA e Gestão na Universitária St. Paul University e Chicago (EUA), ex- reitora da Universidade Santa Cruz - UESC, não deveria concorrer ao cargo eletivo da ALITA, mas sua indicação fosse “Hours Concours”, seria uma homenagem de gratidão da  academia pelos seus serviços prestados nessa terra que um dia foi do cacau.

    Seria uma honra, uma oportunidade única, o ingresso na ALITA de Dr. Rafael Kalil Mangabeira. Jovem, escritor, oficial médico da polícia militar da Bahia, além de, e acima de tudo, ONCOLOGISTA, que, qualquer infortúnio de um dos membros da academia, estaria lá Dr. Rafael Kalil para atender ou encaminhar o  desafortunado com sua ciência oncológica.

    Tem gente muito inflexível nesse mundo passageiro, que não enxerga um palmo diante do nariz, pensa que as coisas acontecem, somente, com os outros, por isto, confrades e confreiras permitam-me contar uma história: no início do ano de 1993, as coisas corriam bem comigo e, com minha família, porém, um dia, não me lembro a data, eu a esposa e a filha mais velha fazíamos compras no mercado “Messias”, do nada, minha filha desmaiou, levamos minha filha, iminente para o hospital COTEF, os médicos indicaram uma transfusão de sangue urgente, foi um horror para família, porém, o pior estaria por vir: transplante de medula óssea. Daí em diante foi uma maratona de médicos e exames e fomos parar no  Hospital de Clínicas, na capital de São Paulo. Dr. Antônio Mangabeira, pai de Dr. Rafael Kalil, que nos “abriu” as portas do hospital paulista, através de sua amizade com seu antigo professor de Oncologia. Foi um ano de sufoco,  naquela época, eu trabalhava no CEI e no IMEAM, fizemos até rifa para fazer jus às diversas despesas. Não houve medula compatível (100.000 para uma medula óssea igual, salvo de irmãos univitelinos), ela morreu em São Paulo capital, em: 11.11.1993, trouxemos com ajuda de Fernando Gomes, o seu corpo de avião para Itabuna. A querida professora, Cláudia Celeste, esposa do nosso querido “Gustavão”, é testemunha e muito nos ajudou moral e disponibilidade.

    Por isso, a importância da ALITA, ter no seu quadro, um acadêmico que além de escritor, possui essa qualificação, pois, quando não é com a gente,  uma desdita dessa, é com um neto, um filho, um sobrinho, um tio, um pai, uma mãe,  ou, outro parente distante. Não que Rafael Kalil Mangabeira traga a cura, câncer é uma doença que não tem cura, todavia, existe tratamento e, ele quando não puder resolver, “abrirá” portas, indicará o tratamento certo, assim como seu pai abriu para mim e família.

    Certo da atenção dos confrades e confreiras, peço-lhes que reflitam sobre a  eleição acadêmica de 29.11.2025, o que é bom para ALITA, hoje, amanhã e no futuro. Fraternalmente, Rilvan Batista de Santana. São Caetano, Itabuna (Bahia), 25. 11. 2025.

11.23.2025

O Fuminho - R. Santana

 

O Fuminho
R. Santana

     Nos idos de 1947, o bairro São Caetano era um aglomerado de poucas casas espalhadas, cercadas por roças de cacau, roças de mandioca, bananeiras, jaqueiras, canaviais, frutas em abundância, muita mata e uma fauna maravilhosa. Sua gente era de trabalhadores rurais, pequenos cacauicultores, pescadores, caçadores, oleiros, carpinteiros, marceneiros, lavadeiras, parteiras, benzedeiras, pedreiros, açougueiros e alguns minguados bodegueiros.
     A vida no povoado corria sem novidade, monótona, lazer só para os machos, à noite, nas casas das caftinas Helvécia e Rosa, ou, algum bate-coxa de final de semana em cabaré fétido, quando dois sujeitos roubaram umas bolas de fumo de algum armazém da iniciante Itabuna, e, numa canoa (a ponte Lacerda estava em construção), atravessaram as água limpas e caudalosas do rio Cachoeira e vieram ao povoado passar as bolas de fumo ao atravessador.
     Os elementos, ladrões chinfrins, foram presos, logo depois, com o atravessador, o bodegueiro Permínio, que tinha uma bodega no início, hoje, da avenida princesa Isabel. Naquela época, não havia Direitos Humanos nem humanos direitos, advogado era luxo, coisa de gente rica, os pobres diabos devem ter levado uma boa surra de cipó-de-boi ou foram corrigidos com palmatória de jacarandá e soltos.
     Porém, o imbróglio do roubo das bolas de fumo, serviu para despertar o sentimento bairrista dos parcos moradores contra os deboches e desdéns dos citadinos que passaram chamar o seu lugarejo de “Fuminho”. Se alguém do outro lado do rio Cachoeira se atrevesse chamar o São Caetano de “Fuminho” ao habitante do lado de cá, poderia não dar briga, mas a reação e o repúdio eram imediatos de menino ao velho.
     No entanto, não foi a primeira nem a última vez que o bairro São Caetano foi ameaçado do seu nome ser substituído. Com o assassinato do presidente dos E U A, John F. Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, os bajuladores dos ianques espalhados em todo mundo, deram o seu nome, in memoriam, aos bairros, ruas, praças, jardins etc. Nós, de terras tupiniquins, das terras do sem fim, não fugimos à regra. O vereador Antônio Calazans, velha raposa política, quis pegar o bonde da História e elaborou um anteprojeto de lei que mudava o nome de São Caetano para bairro presidente John Kennedy. A reação dos líderes comunitários Pedro Batista de Santana (Pedro do Bar), Eduardo Fonseca e o povo, foi enfurecida, irrefreável, movimentos de protestos pipocaram nos quatro cantos do bairro.
     Os reclames do povo e dos líderes comunitários chegaram ao prefeito, o Sr. José de Almeida Alcântara (apelidado carinhosamente pela meninada de “Arranca”, derivativo deformado de Alcântara), mestre da demagogia e da encenação. Ele foi sensível e oportunista aos protestos e reclames da comunidade caetanense, prometeu aos líderes e à comunidade, negociar com os vereadores, vetar o projeto, tirou proveito político o quanto pode...
     Os vereadores Calazans e Antônio Côrtes (relator da matéria), insistiam em submeter o projeto à assembleia para votação final, estavam irredutíveis, queriam a qualquer custo americanizar o bairro, trocando “São Caetano” por “John Kennedy”, a data da votação foi definida, parecia que os caetanenses estavam na casa do sem jeito, num beco sem saída, teriam mesmo que embolar a língua e pronunciar: - John Kennedy!...
     O dia D chegou. Os vereadores estavam convencidos da aprovação fácil do seu projeto, pouco se lixando para população, quando o prédio da Câmara de Vereadores (atual prédio da 27ª. Zona Eleitoral), a Praça Olinto Leone e as ruas circunvizinhas, foram tomadas de assalto por milhares de populares, moradores do bairro São Caetano e doutros bairros, gritando palavras de ordem, discursos, carro-de-som, faixas, cartazes, apitos, numa demonstração de cidadania e civismo nunca visto.
     Calazans acuado, sem respaldo popular, sem apoio político das autoridades da cidade (exceto seus pares), numa saída de mestre, esvaziou o plenário da Câmara, suspendeu o projeto por falta de quórum, articulou com os líderes do bairro uma nova proposta: não mudar o nome do bairro, mas manter a homenagem ao presidente americano, dando-lhe o seu nome à principal avenida, por muito tempo, o São Caetano teve sua “Avenida Kennedy”, mas graça ao sentimento patriótico das novas gerações, a posteriori, foi batizada com o nome de gente nossa: - Avenida Manoel Chaves!...
     Portanto, “São Caetano” continuou “São Caetano”, nome de santo da Igreja Católica e justa homenagem foi feita ao lavrador José Batista Caetano, o fundador do bairro São Caetano.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google


11.21.2025

Biografia de Martin Luther King Jr.

 

Biografia de Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr. (1929-1968) foi um ativista norte-americano, lutou contra a discriminação racial e tornou-se um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964.

Martin Luther King nasceu em Atlanta, Geórgia, Estados Unidos, no dia 15 de janeiro de 1929. Filho e neto de pastores da Igreja Batista, resolveu seguir pelo mesmo caminho.

Em 1951 formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Convertido em pastor, em 1954, Martin Luther King assumiu a função de pastor em uma igreja na cidade de Montgomery, no Alabama.

Luta pelos direitos dos negros

Desde jovem, Martin Luther King tomou consciência da situação de segregação social e racial em que viviam os negros de seu país, em especial nos estados do Sul.

Em 1955 começou sua luta pelo reconhecimento dos direitos civis dos negros norte-americanos, com métodos pacíficos, inspirado na figura de Mahatma Gandhi e na teoria da desobediência civil de Henry David Thoreau, as mesmas fontes que inspiraram a luta de Nelson Mandela contra a Apartheid, na África do Sul.

artin Luther King dedicou a sua vida a luta contra a discriminação racial

No dia 1 de dezembro de 1955 a costureira negra Rosa Parks foi detida e multada por ocupar um assento reservado para as pessoas brancas, pois nos ônibus de Montgomery o motorista tinha que ser branco e os negros só podiam ocupar os últimos lugares.

O protesto silencioso de Rosa Parks propagou-se rapidamente. O Conselho Político Feminino organizou um boicote aos ônibus urbanos, como medida de protesto.

Martin Luther King apoiou a ação e, pouco a pouco, milhares de negros passaram a caminhar quilômetros a caminho do trabalho, causando prejuízo às empresas de transporte. O protesto durou 382 dias, terminou em 13 de novembro de 1956, quando a Suprema Corte norte-americana aboliu a segregação racial nos ônibus de Montgomery.

Foi o primeiro movimento vitorioso do gênero registrado no solo americano. No dia 21 de dezembro de 1956, Martin Luther King e Glen Smiley, sacerdote branco, entraram juntos e ocuparam lugares na primeira fila do ônibus.

Martin Luther King e Glen Smiley sentados lado a lado no mesmo banco do ônibus

Os movimentos contra a segregação dos negros provocaram a ira das autoridades e de grupos racistas como o Ku Klux Klan, que atacavam com violências os participantes, como o próprio Luther King, o grupo ativista Panteras Negras e o muçulmano Malcolm X.

Em 1957, Martin Luther King fundou a Conferência da Liderança Cristã do Sul, sendo o seu primeiro presidente. Passou a organizar campanhas pelos direitos civis dos negros. Em 1960 conseguiu liberar o acesso dos negros em parques públicos, bibliotecas e lanchonetes.

Discurso I Have a dream (Eu Tenho um Sonho)

Em 1963 sua luta alcançou um dos momentos culminantes ao liderar a "Marcha sobre Washington", que reuniu 250 mil pessoas, quando fez seu importante discurso intitulado I Have a Dream (em português, Eu tenho um Sonho), em que descreve uma sociedade na qual negros e brancos possam viver harmoniosamente.

Nesse mesmo ano, Martin Luther King e outros representantes de organizações antirracistas foram recebidos pelo presidente John Fitzgerald Kennedy, que se comprometeu a agilizar sua política contra a segregação nas escolas e a questão do desemprego, que afetavam de modo especial toda a comunidade negra. No dia 22 de novembro de 1963 o presidente foi assassinado.

Em 1964 foi criada a Lei dos Direitos Civis, que garantia a tão esperada igualdade entre negros e brancos. Nesse mesmo ano, Martin Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Segue um trecho do discurso:

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais.

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caráter.

Tenho um sonho, hoje.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade.

Casamento e filhos

Martin Luther King era casado com Coretta Scott King (1927-2006) desde 18 de junho de 1953. O casal teve quatro filhos: Yolanda King (1955-2007), Martin Luther King III (1957-), Dexter Scott King (1961-2024) e Berenice King (1963-).

Morte de Martin Luther King

A luta continuou. Em 1965, Martin Luther King encabeçou uma manifestação de milhares de defensores dos direitos civis, desde Selma até Montgomery. Mas sua luta teve um fim trágico, quando sua vida foi interrompida por um tiro enquanto descansava na sacada de um hotel em Memphis, época em que apoiava um movimento grevista dos lixeiros.

King foi socorrido, passou por uma cirurgia de emergência no St. Joseph’s Hospital, mas não resistiu. Estava com apenas 39 anos.

Martin Luther King foi assassinado com um tiro em 1968

Martin Luther King faleceu em Memphis, Tennessee, Estados Unidos, no dia 4 de abril de 1968.

Em 1977, em homenagem póstuma, representado por sua esposa Coretta Scott King, recebeu a "Medalha Presidencial da Liberdade". Em 2004 recebeu a "Medalha de Ouro do Congresso Americano" pelos 50 anos da promulgação da histórica "Lei dos Direitos Civis".

Dia de Martin Luther King

Nos Estados Unidos, em 1983, Ronald Reagan instaurou um feriado nacional chamado de Dia de Martin Luther King (Martin Luther King Day).

A partir de então, o dia 20 de janeiro é dedicado às celebrações à vida desse homem tão importante para a história do combate ao racismo. 

Fonte: Site Escola / Imagem: Googl

A COR DA CONSCIÊNCIA - Ruy Póvoas

 


A COR DA CONSCIÊNCIA

Ruy Póvoas

O adjetivo é uma categoria gramatical que se refere ao substantivo. Através dele, os usuários do idioma atribuem qualidade ao seres, seja ela essencial ou explicativa. E porque o idioma é uma construção da psique humana, resultante de sua escalada na face da terra, é justamente no seu uso que se manifestam as particularidades das diferentes culturas que o imaginário conseguiu construir.
O uso do idioma português pela gente brasileira revela um gosto exacerbado pela qualificação. No universo masculino, por exemplo, a mulher é gostosa, a partida de futebol é de lascar, o sambão é uma coisa de doido, a cerveja é divina e tem de ser gelada. E de tanto qualificar o que é concreto, estendemos as restrições e explicações para o que é abstrato. Até Deus é qualificado e com muitos adjetivos que repassam para o divino atributos essencialmente humanos.
Dentre outras particularidades do povo brasileiro, a mistura de etnias é uma determinante. Por causa das relações socioeconômicas, a tonalidade da cultura dominante sempre tem sido branca. É provável que, por isso mesmo, nunca tenha sido preciso qualificar a consciência da cultura oficial como branca. Na vida dos homens e na ordem natural das coisas, no entanto, tudo tem seu dia. E um conjunto de fatores que perfazem estes tempos da nossa pós-modernidade traz à tona, de maneira contundente, a questão afrodescendente do brasileiro. Se nunca foi necessário falar-se em uma consciência branca, agora fala-se de uma consciência negra. E o adjetivo se levanta como alavanca mestra de nossas frases, na ânsia de transbordar os conteúdos semânticos de nossa agonia afônica.
Evidentemente, há riscos. O modismo, o oba-oba, a falação, a politicagem que, disfarçadamente, afirma uma luta em favor dos oprimidos. Os discursos em prol da adjetivação da consciência nunca foram tão fartos. As igrejas, os partidos políticos, os clubes de serviço, as associações de bairro, as entidades carnavalescas, a imprensa falada, escrita e televisiva, as escolas, os pesquisadores, tudo isso toma um porre de falas a favor da consciência, agora adjetivada como negra. Se a época da restrição da fala foi perigosa, a enxurrada de discursos pode comprometer a causa, pois corre-se o risco da banalidade, do discurso que é meramente falatório vazio e repetitivo.
Por isso, é preciso muito cuidado. Caso contrário, poderemos fazer o que fizemos com o dia do índio, no qual as escolas vestiam – e muitas ainda vestem – suas criancinhas com penachos, colam tirinhas de esparadrapo colorido no rosto e lá vamos nós “valorizando” o índio. É preciso ter em mente que a adjetivação desnecessária banaliza o substantivo e sua essência fica ofuscada. Flaubert, exemplo de escritor francês, tinha crises apopléticas quando não conseguia atinar num substantivo que não necessitasse de adjetivo, por meio do qual ele pudesse expor os conteúdos que imaginava essenciais.
Na verdade, a tomada de consciência, no caso específico do brasileiro, para exercer a plenitude da cidadania, implica abordar também questões de etnia. Jamais, porém, será necessário que a consciência se torne negra, branca, parda, vermelha, ou assuma um outro colorido qualquer, para que se torne realmente consciência. Certamente, para quem conhece seu lugar no mundo e se sente gente do jeito que o Universo o chamou a estar na existência, entende o seu entorno, sua ancestralidade e os desvãos da trajetória de seu povo. Não é necessário, no entanto, para isso, colorir sua consciência. Ao contrário, quanto mais translúcida e cristalina a consciência, mais humano é o seu portador, mais evoluída é a sociedade que a construiu.
É necessário cuidado com as ciladas, os equívocos, as fantasias. É realmente preocupante imaginar que a Universidade, na construção de uma consciência dita negra, é a solução para todos os desvios construídos pelos brasileiros em sua escalada, enquanto povo. Se ela fosse realmente a panacéia que muitos imaginam, todos os brasileiros brancos teriam educação, moradia, trabalho e lazer garantidos. E isso está muito longe de ser verdade. É certo que a Universidade tem como resolver algumas questões. Algumas, apenas algumas. Aliás, ela mesma já é uma grande questão: carente de verbas e de recursos, nem sabe ainda como escapar de sua infeliz sina de repetir o saber.
Já seria um excelente trabalho, se a Universidade começasse a ensinar a todos que, apesar da enorme gama da variação étnica do brasileiro, a consciência não tem cor, tal qual o espírito, a verdade, a justiça e a dignidade. Tais valores são expressos em substantivos que não necessitam da muleta do adjetivo. Não se restringe, nem se explica tais nomes, porque sua essência resplandece como valores máximos construídos pelos humanos, em sua trajetória sobre a Terra.

Itabuna, 20/11/2004
Ruy Póvoas
Babalorixá, professor, escritor e poeta.
Membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Letras de Itabuna.
(Esses dizeres foram escritos há 21 anos)

Destaques

Tupã - R. Santana

  Tupã - R. Santana   A vida é feita de momentos de sentimentos agradáveis. Não faz muito tempo, um tiquinho de tempo, que encontrei um ...

Última semana