11.20.2025

Zumbi dos Palmares, 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra.


Zumbi dos Palmares

Quilombo dos Palmares, localizado na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos PalmaresAlagoas, era uma comunidade, um reino formado por escravos negros que haviam escapado das fazendas, prisões e senzalas brasileiras. Ele ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal. Naquele momento sua população alcançava por volta de trinta mil pessoas.

Zumbi nasceu na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, atual União dos Palmares, Alagoas, livre, no ano de 1655, mas foi capturado e entregue ao padre missionário português Antônio Melo quando tinha aproximadamente seis anos. Foi batizado pela Igreja Católica com o nome de 'Francisco', Zumbi recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim, e ajudava diariamente na celebração da missa.

Por volta de 1678, o governador da Capitania de Pernambuco, cansado do longo conflito com o Quilombo de Palmares, se aproximou do líder de Palmares, Ganga Zumba, com uma oferta de paz. Foi oferecida a liberdade para todos os escravos fugidos se o quilombo se submetesse à autoridade da Coroa Portuguesa; a proposta foi aceita pelo líder, mas Zumbi rejeitou a proposta do governador e desafiou a liderança de Ganga Zumba. Prometendo continuar a resistência contra a opressão portuguesa, Zumbi tornou-se o novo líder do quilombo de Palmares.

Quinze anos após Zumbi ter assumido a liderança, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi chamado para organizar a invasão do quilombo. Em 6 de fevereiro de 1694 a capital de Palmares foi destruída e Zumbi ferido. Apesar de ter sobrevivido, foi traído por António Soares, e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça em seu reduto (talvez a Serra Dois Irmãos). Apunhalado, resiste, mas é morto com vinte guerreiros quase dois anos após a batalha, em 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça cortada, salgada e levada ao governador Melo e Castro. Em Recife, foi exposta a cabeça em praça pública no Pátio do Carmo, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi.

Em 14 de março de 1696, o governador de Pernambuco Caetano de Melo e Castro escreveu ao Rei:

Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares.

Controvérsia sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares

Por se tratar de um personagem do Século XVII cujo registros são esparsos e escritos, na sua maioria, por seus inimigos de guerra, muitos mitos surgiram na figura do Zumbi.

Escravidão

A polêmica mais comentada é que Zumbi teria sido dono de escravos. Tal polêmica foi impulsinada pela publicação do livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch e seu conteúdo foi muito criticado entre historiadores pela falta de evidências.

Não existe suporte documental confiável que indique a existência de escravidão em Palmares. As evidências de que isso teria acontecido consistem de pequenos trechos em relatos que afirmam que escravos que fugiam voluntariamente para os quilombos eram livres e aqueles que eram capturados eram escravos. Ou seja, é possível que houvesse escravos nos quilombos, mas provavelmente em formatos mais próximos da escravidão africana do que a escravidão colonial, predominante na época. A escravidão colonial era comercial, envolvia o tráfico de pessoas para produção de comodities e era condição, na maior parte das vezes, perpétua para os escravizados. Enquanto isso a escravidão africana possuía uma gradação enorme de formas de dependência e esses elementos não eram frequentes.

Assim, teóricos do tema já interpretaram a prática dos quilombos como um conservadorismo africano, que mantinha as práticas culturais e sociais das regiões de origem da África. Assim, existem historiadores que defendem que Zumbi teria escravos.

Repressão e execução de fugitivos

Outra controvérsia que pode ser apontada é a prática de perseguição e execução dos negros que tentassem sair da comunidade ou comunicar com pessoas consideradas inimigas do quilombo. Tais afirmações encontram mais suporte na documentação. Existem relatos oficiais de assassinatos de quilombolas que tentaram fazer acordos de paz provavelmente não aprovadas pelas lideranças.

Fonte: Wikipédia

Imagem: Google

11.19.2025

Biografia de Cora Coralina

 


Biografia de Cora Coralina

Cora Coralina (1889-1985) foi uma poetisa e contista brasileira. Publicou seu primeiro livro quando tinha 75 anos e, tornou-se uma das vozes femininas mais relevantes da literatura nacional.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, conhecida como Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás, no Estado de Goiás, no dia 20 de agosto de 1889. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador, nomeado por Dom Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, cursou apenas até a terceira série do curso primário.

Primeiros Poemas

Cora Coralina começou a escrever poemas e contos quando tinha 14 anos, chegando a publicá-los em 1908, no jornal de poemas “A Rosa”, criado com algumas amigas. Em 1910, seu conto "Tragédia na Roça" foi publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", usando o pseudônimo de Cora Coralina.

Em 1911, Cora Coralina fugiu com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, indo morar em Jaboticabal, no interior de São Paulo. Em 1922 foi convidada para participar da Semana de Arte Moderna, mas foi impedida pelo marido.

Em 1934, depois da morte do marido, Cora Coralina tornou-se doceira para sustentar os quatro filhos. Viveu por muito tempo de sua produção de doces. Embora continuasse escrevendo, produzindo poemas ligados à sua história e aos ambientes em que fora criada, se dizia mais doceira do que escritora. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno.

Em São Paulo, em 1934, trabalhou como vendedora de livros. Em 1936, muda-se para Andradina, onde começou a escrever para o jornal da cidade. Em 1951 candidatou-se a vereadora. Após 45 anos, Cora resolveu voltar para sua cidade natal. Agora tinha consigo o intuito de escrever.

Em 1959, com 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e entregá-las aos editores. Diante das águas do Rio Vermelho, na sua casa, a filha ilustre da cidade compôs versos. Ele serviu de inspiração e batizou um dos seus poemas: "Tenho um rio que fala em murmúrios. Tenho um rio poluído. Tenho um rio debaixo das janelas".

Primeiro Livro

Em 1965, com 75 anos, Cora Coralina conseguiu realizar o seu sonho de publicar o primeiro livro "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Entre os poemas do livro destaca-se:

Becos de Goiás

Becos da minha terra...
Amo tua paisagem triste, ausente e suja.
Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.
Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio.
E a réstia de sol que ao meio-dia desce fugidia,
e semeias polmes dourados no teu lixo pobre,
calçando de ouro a sandália velha, jogada no monturo.

Amo a prantina silenciosa do teu fio de água,
Descendo de quintais escusos sem pressa,
e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.
Amo a avenca delicada que renasce
Na frincha de teus muros empenados,
e a plantinha desvalida de caule mole
que se defende, viceja e floresce
no agasalho de tua sombra úmida e calada..."

 

Em 1970, tomou posse da cadeira n.º 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Em 1976, lançou seu segundo livro "Meu Livro de Cordel". O interesse do grande público só foi despertado graças aos elogios do poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1980.

Nos últimos anos de vida sua obra foi reconhecida, sendo convidada para participar de conferências e programas de televisão. Cora Coralina foi agraciada com o título de Doutor Honoris Causa da UFG.

Cora Coralina recebeu o "Prêmio Juca Pato" da União Brasileira dos Escritores como intelectual do ano de 1983, com o livro “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha”.

Em 1984 foi nomeada para a Academia Goiana de Letras, ocupando a cadeira n.º 38.

A poetisa, que escreveu sobre o seu tempo e sobre o futuro destacando a realidade das mulheres dos anos de 1900, é o principal nome da cidade de Goiás. Em 2002, a cidade de Goiás, com sua paisagem urbana predominantemente marcada pela arquitetura dos séculos 18 e 19, recebeu o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, dado pela Unesco. A casa onde morou a poetisa Cora Coralina é hoje o museu da escritora.

Cora Coralina faleceu em Goiânia, Goiás, no dia 10 de abril de 1985.

Poema: Meu Destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes – 
íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...

Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado 
com a pedra branca da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Fonte: Dilva Frazão / Biblioteconomista e professora

11.18.2025

Rui Barbosa e o ladrão de galinhas

 


    Rui Barbosa e o ladrão de galinhas Ilustração "Causo" juridiquês do baú relembrado por Gaudêncio Torquato nas Porandubas Políticas:   "Certa vez, um ladrão pulou o muro da casa de Rui Barbosa para roubar uma galinha. No alvoroço, o grande tribuno acordou do profundo sono, e se dirigiu ao galinheiro. Lá chegando, viu o ladrão já com uma de suas galinhas, e passou o carão :  
    – Não o interpelo pelos bicos de bípedes palmípedes, nem pelo valor intrínseco dos retrocitados galináceos, mas por ousares transpor os umbrais de minha residência. Se foi por mera ignorância, perdôo-te, mas se foi para abusar da minha alta prosopopéia, juro pelos tacões metabólicos dos meus calçados que dar-te-ei tamanha bordoada no alto da tua sinagoga que transformarei sua massa encefálica em cinzas cadavéricas.   O ladrão, pasmo e sem entender patavina, tascou :   

Cumé, doutor, posso levar ou não a galinha?"


É permitida a reprodução desde que citada a fonte: Marco Eusébio - Entrelinhas da Notícia

Bar de Pedro - R. Santana

 Bar de Pedro

R. Santana

        Nos meados dos anos 60, o “Bar de Pedro” era referência obrigatória no São Caetano, Itabuna, situado na esquina da Rua princesa Isabel com a transversal da Rua São José, à altura do número 1020, hoje, onde funciona uma casa lotérica.
       Naquela época não havia outra casa de distração para adulto no São Caetano. O bar tinha duas sinucas, quatro mesas de dominó, uma mesa de baralho, um balcão de sorveteria e um serviço de bebida (murcha-venta, conhaque de alcatrão São João da Barra, caipirinha cerveja Brahma e cerveja Antártica), e um arremedo de lanchonete com todos os tipos de tira-gosto, picolé, sorvete, café-com-leite, pão e biscoito, vitaminas de fruta e sucos para todos os gostos, para os padrões da época, o lugar era chique no último...
       Nos finais de semana e quase todas as noites o “Bar de Pedro” ficava apinhado de gente, embora quase todos os jogos fossem apostados, não havia briga, os jogadores se comportavam como profissionais, evidente, que havia os “esquentados”, perdedores insatisfeitos, porém, a maioria era cordata, ganhando ou perdendo.
       O “Bar de Pedro” não ostentava placa ou letreiro em sua fachada, o nome surgiu boca-a-boca, como principal ponto de referência do São Caetano: “... eu lhe encontro no Bar de Pedro”, “no Bar de Pedro o pessoal lhe mostra onde moro”, “...aonde vou? Vou ao Bar de Pedro!”, “... deixe a encomenda no Bar de Pedro!” etc., etc. O dono do bar, Pedro Batista de Santana, que emprestou o nome ao estabelecimento.
        A população do bairro era de uns mil e poucos moradores, uma grande família, todo mundo conhecia todo mundo... Se chegasse alguém estranho, todos ficavam de butuca, de olho, e, se o forasteiro urinasse fora do pinico, os filhos do bairro lhe caíam de pau e o pobre diabo teria que se mandar! Porém, se fosse sangue bom, de paz, gente boa, seria aceito na comunidade pouco tempo depois assim que passasse a cisma.

        Alguns clientes do “Bar de Pedro” tinham nomes esquisitos: Zé Urubu, Lopeu, Pintado, Antônio Charqueada, Crente, Elias Preto, Machado, Zoinho, Lubião, Lameu, Garrincha, Mané de Aristides, Tonho da Véia, Tibinha, Benzinho, Zarolho, Lagartixa (locutor de alto-falante, cujo estúdio ficava num compartimento do bar e que tinha a petulância de anunciar diuturnamente “A Voz...”: “... para o São Caetano, para o Brasil e para o mundo!”), Tamborete, Dendê... personagens simples, a maioria analfabeta, mas gente direita, gente trabalhadora e de bom coração.
        O bairro só contava com uma autoridade: “Dico Soldado”. Dico se achava... Semi- analfabeto, grosso, metido a garanhão, armado até os dentes, eliminava os fora da lei e os seus supostos inimigos mais por prazer do que por necessidade. Naquela época, assentava praça mais por bravura, cultura e inteligência não eram pressupostos necessários na formação profissional de um policial, pois se cultura e inteligência fossem condições sine qua non, Dico não passaria nem na frente do quartel.
        Não se tinha notícia da polícia civil, o delegado era “calça-curta” no jargão da classe. O primeiro delegado qualificado do São Caetano foi o sargento Mário Silva, escudado pelo soldado Sinval, um sujeito truculento e sanguinário. Mário Silva além de possuir o curso médio, era um autodidata do Direito, o seu “inquérito-policial”, hoje, serviria de modelo para qualquer doutor delegado, todavia, quando bebia, perdia as estribeiras e tornava-se violento e autoritário.
        Lopeu era o cliente mais assíduo, um parasita, não trabalhava, vivia a expensas do pai e do jogo de sinuca. Lopeu “abria” e “fechava” o bar, mas era boa praça, índole afável, jamais agrediu alguém mesmo com os dichotes de afeminado que o pessoal lhe tachava. Certa feita, Dico Soldado, perdedor contumaz no jogo de sinuca, irritado jogou-lhe uma bola de bilhar na caixa dos peitos que lhe fez chorar.
      Outro episódio lamentável daquela época, que ficou registrado nas mentes dos moradores, coisa de cachaça, foi Dico Soldado atirar num chapa (carregador de caminhão) em frente ao bar, provocando balbúrdia e sentimento de revolta na população do bairro.
       O desenvolvimento do “Bar de Pedro” foi registrado por dois fatos curiosos: o primeiro, foi a troca da lâmpada elétrica incandescente pela lâmpada fluorescente com um transformador de energia acoplado numa calha; o segundo, foi a instalação de um balcão de sorveteria de mármore fingido. Hoje, seriam fatos de somenos importância, porém, naquela época, era o anúncio da chegada de progresso e mudança. Além disto, duas lições de humildade marcaram essa passagem que preferimos registrá-las nos parágrafos abaixo.
       Luciano, funcionário federal, inteligente, de palavra fácil, gente boa, todavia, exagerado na pabulagem, garganteiro, tinha feito um curso por correspondência de eletricidade no Instituto Universal Brasileiro ou escola afim. Por isto, de vez em quando, após uns dois copos de cerveja ou alguns goles de murcha-venta, arrotava os seus vastos conhecimentos eletroeletrônicos para os seus incautos interlocutores no balcão do bar que não entendiam bulhufas daquela ciência, mas a eloquência de Luciano os deixavam embasbacados.
       Naquele dia, o proprietário do “Bar de Pedro” contratou Luciano para trocar as lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes. O procedimento exigia instalar as calhas e o sistema ligasse todas as lâmpadas do salão do bar num único interruptor. Luciano desenhou mapa das correntes elétricas, puxou fio daqui, esticou acolá, sobe escada, desce escada, fez emendas com fita isolante, mas nada das lâmpadas...
       Pedro, o dono do bar, já preparava o Aladim pelo adiantado da hora, quando Benzinho, velho mecânico que há tempo testemunhava com humildade a imperícia do fanfarrão eletricista, ofereceu-se ajudá-lo e desatar o nó do problema. Luciano sentiu-se atingido no seu saber, duvidou de Benzinho e apostaram uma caixa de cerveja para que o velho mecânico lhe mostrasse o erro. Não demorou muito tempo para que ele realizasse o prometido: “Benzinho deu luz!”, gritou o menino abelhudo, alegre com a ruína do fanfarrão Luciano.
      Quando da instalação do balcão de sorveteria algo parecido ocorreu com o mecânico Deusdedit do DNER – DNIT. Deusdedit um mecânico de mancheia, reconhecido pelos colegas o melhor da época em seu mister, além disto, uma pessoa humilde, falava pouco, às avessas de Luciano, a pedido de Pedro do Bar, se dispôs instalar o balcão de sorveteria, porém, ele tinha pouca prática naquele tipo de motor (era um motor trifásico, enorme para os padrões atuais), mexeu, remexeu, colocou chave de energia, fusíveis e nada do motor funcionar, enquanto isto, um moleque amarelo e inexpressivo o observava calado, e, quando Deusdedit pensou que não iria conseguir, o rapazinho sem bazófia, pediu-lhe que o deixasse tentar... Algum tempo depois o motor funcionou pra nunca mais parar, produzindo gostosos picolés e sorvetes de fruta para alegria da garotada e dos adultos – o rapaz era de uma família de exímios eletricistas de motores pesados.
       O jogo de dominó, o baralho e a sinuca corriam apostas, nada de significativo, mais pra matar o tempo, pois a maioria era de gente simples, trabalhadores rurais, pedreiros, carpinteiros, mecânicos, burareiros, raro, pessoas de condição da cidade e pequenos empresários viciados.
Certa feita apareceu um elemento mal-amanhado, pés descalços, chapéu de palha na cabeça, calça com bainhas uma mais alta que outra, enfim, uma figura esquisita, chamando parceiro para o jogo de sinuca. O mal-ajambrado demorou de encontrar quem quisesse jogar, o pessoal tinha certa resistência com desconhecido, porém, à medida que o tempo passava, essa resistência foi diminuindo e o forasteiro teve parceiro para jogar o tempo todo.
       O mal-ajambrado se passou por pixote dois ou três dias, perdeu alguns trocados, suicidava (o próprio jogador encaçapa sua bola branca) o tempo todo no jogo, “espirrava” o taco com freqüência, fez pantomima... Todos acreditaram que o forasteiro fosse um otário e aí, ele foi ganhando pouco a pouco, sem mostrar o seu verdadeiro potencial, mas quando as apostas chegaram ao limite, ele deixou os demais jogadores de bolso limpo, pra caçoar dos parceiros, várias vezes, ele fechou o jogo da bola um até a bola sete, numa tacada.
       Os velhos moradores do São Caetano se lembram de um jogador compulsivo de carteado que apareceu no bar e se passando por membro da tradicional família Gusmão de Vitória da Conquista. Indivíduo de fino trato, bem trajado, boa lábia, mas viciado em jogo de baralho. Não sabia jogar, um otário no linguajar dos carteadores, perdia mais do que ganhava. Além do jogo comprou carro fiado, deu cheque sem fundo, deitou e rolou com trapalhadas e terminou sendo preso. A família veio de Minas ou Vitória da Conquista, soltá-lo. Soube-se depois que o jogador inveterado, era realmente, membro da família Gusmão - a ovelha negra.
       Faz-se necessário dizer que o “Bar de Pedro” serviu durante algum tempo para realização de festas carnavalescas. O bairro ainda não tinha clube e os foliões, rapazes e moças fogosas, contratavam-no e transformavam o salão no mais requintado ambiente momesco.
      Oxalá que este texto chegue às mãos de alguém que um dia queira escrever a História do Bairro São Caetano, e, insira o capítulo “Bar de Pedro” em suas páginas e registre a importância que teve aquela casa na promoção de diversão, lazer, entretenimento, comércio varejista e, referência comercial por mais de duas décadas na região Sul da Bahia, portanto, o “Bar de Pedro” contribuiu para o desenvolvimento e progresso do Bairro São Caetano e desta terra do cacau.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

Hoje, Pedro Batista de Santana, tem 95 anos de idade, fundador e uma lenda da na História do  São Caetano- Itabuna (BA)
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 03/06/2012
Alterado em 20/05/2023

A Censura - R. Santana

 

                                                                      A Censura
                                                                      R. Santana

     A censura é uma prática não recomendável mesmo que seja institucional. Quantos espíritos brilhantes deixam de colocar no papel suas idéias, inibidos pela censura da gramática e a censura oral? Milhões. Nem todos tiveram a sorte de Cristo, Maomé e Sócrates que não escreveram uma linha e suas idéias foram perenizadas pelos discípulos.
     O Dr. Praxedes, de O gramático, de Artur de Azevedo ainda é comum nos dias atuais. Às vezes, esbarramos em censores da língua de maneira indelicada e graciosa. Não raro encontramos um ”Dr. Praxedes” que nos corrige em situações adversas e constrangedoras. Hoje, em que filólogos e lingüistas estão convencidos do que a comunicação e a informação são mais importantes do que as filigranas gramaticais, há indivíduo que ao invés de valorizar o significado das idéias, o pensamento de um orador ou escritor, ele se preocupa com os pequenos solecismos e erros gramaticais que, às vezes, são de somenos importância na construção de um conjunto..
     Aqui não é uma apologia ao erro. Os erros ortográficos, as cacofonias, os erros gramaticais, devem ser corrigidos porque geram situações hilariantes, grotescas e dúbias, eis alguns exemplos:

          -Só capim canela!
          -Uma mulher como ela, eu jamais encontrarei!
          -Meu coração por ti gela, meus sentimentos por ti são duradouros!
          -Devem fazer cinco anos que nossos pais morreram!
          -Traga um copo de água para mim beber! – Quando as situações são dúbias, podem gerar até briga:

          -José, aquele sujeito falou que só sai de casa com sua mãe.
          -Paulo, acho que ele sai é com sua mãe,
          -Minha mãe não!
          -Então, ele vai ter que provar isso!
          -Calma, José. Não é isso que você pensou. Ele quis dizer com “sua mãe”, ou seja, com a mãe dele.

          -Pedro, se eu lavo não cozinho se eu cozinho não lavo!...

     Além daqueles que gostam de patrulhar os erros gramaticais e os vícios de linguagem, existem os afetados, os esnobes e vaidosos que vão ao fundo do dicionário e da gramática. Há um dito de um famoso político brasileiro que questionado por um jornalista por que razão tinha feito determinada coisa, ele responde:

          - Fi-lo porque qui-lo! – Os entendidos dizem que é uma construção correta... Os pronomes enclíticos substituem o z e o s, desinências dos verbos fazer e querer.

     Outro político que não era letrado, explicando na Assembléia da Bahia que seu irmão (prefeito), tinha usado a verba em trabalho de infra-estrutura na cidade itabunense:
 
     - ...Calçou-las e aterrou-las! – E um colega seu mais atirado, completa: - aquele povo comia numa cuinha, agora, eles vão comer num cuião!...

     Há frases de pessoas famosas que embora esdrúxulas, foram marcantes e comunicativas e também, foram usadas pela mídia e produtoras de marketing para vender seus produtos por longo tempo, além delas terem sido incorporadas ao folclore e ao humorismo nacionais:

     “Haja o que hajar, o Corinthians será campeão” – Vicente Matheus

     “Cachorro também é ser humano.” - Antônio Rogério Magri

     ”Fernando Henrique foi o 2º melhor presidente do Brasil. O 1º foram todos os outros." - José Simão

     "A bola ia indo...indo...e iu !!!" – Paulo Nunes

     “O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável” – Vicente Matheus

     O idioma é vivo e mutável. As convenções são passageiras, o termo errado e inexistente atualmente, poderá constar no léxico de amanhã. Quem pode jurar pelos santos dos céus que menas, somenas, e outras palavras que o povo insiste em falar não estarão no Aurélio de amanhã? Ninguém.
     Nestor Passos, era um impoluto intelectual itabunense, ao contrário de Dr. Praxedes, que se irritava com seus contemporâneos que cometiam deslizes gramaticais, Passos era incapaz de censurar ou apontar o erro lingüístico de uma pessoa. Se por dever profissional (ex-padre e professor de português e filosofia), tivesse de fazê-lo, o faria com atalhos e rodeios para não melindrar e constranger o seu interlocutor que invariavelmente era um dos seus alunos.
     Seus conterrâneos gostavam de aludir um feito intelectual de Passos a nível de estado baiano: quando ainda era padre (licenciou-se para casar), concorreu com dezenas de candidatos à cátedra de latim de uma universidade federal do seu estado e foi aprovado em primeiro lugar. Isto demonstra sua sapiência e é citado a título de exemplo. Sua capacidade intelectual era grande não pela arrogância dos seus conhecimentos, porém pela generosidade que tinha com o outro.
     Aquele que sabe é simples e compreensivo com aquele que não sabe, pois enxerga nele suas limitações e reconhece que somente Deus é a fonte do conhecimento e da verdade.

     Chacrinha, gênio da comunicação, resumiu o objetivo primeiro da língua: - Quem não se comunica, se trumbica!...
     – E, Eça de Queiroz completa: - Falar bem o nosso idioma é pronunciar mal o idioma estrangeiro.
 
 
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Crônica
MEMBRO DA ALITA


"Nóia não, meu filho!" - R. Santana

 

                                                            "Nóia não, meu filho!"
                                                                       R. Santana

                                                                                1

          A casa dela fica no sopé de uma encosta, em um bairro de pobre, de uma cidade grande (leitor não me peça o endereço, é uma história de ouvir-dizer), embora por fora a casa não tivesse um aspecto tão miserável, por dentro, as paredes de bloco estavam sem reboco, esburacadas, lugares ideais para Alexandro, o “Alex”, assim conhecido na roda da malandragem, esconder suas pedras de crack, papelotes, porções de cocaína e quando não abraçava jacaré numa balada de grã-finos, deslocava algumas pílulas de LSD. Foi também nesses buracos das paredes de sua baia que certa feita, os milicos flagraram essa bagulhada, para surpresa de sua mãe, numa batida inesperada.
          A faxineira Matilde, conhecida de algumas casas ricas, aos troncos e barrancos, conseguiu construir o seu casebre, não era escrava do aluguel... Bom papo, amiga da vizinhança, prestativa, nordestina da gema, nos finais de semana, pegava o busão e ia bater coxas nas casas de forró, onde conheceu e enrabichou-se pelo pernambucano Alexandro de Tonha.
          . Além de Alex, Matilde teve mais quatro filhos e, se não fosse a morte prematura de Alexandro de Tonha por um colega de bebedeira, teria o dobro da molecada, pois o negro não deixava sua perereca em paz, era um danado rufião!...

                                                                                2

          Naquela manhã foi grande o alvoroço na casa de Matilde, o pessoal do Conselho Tutelar, alguns policiais e alguns bisbilhoteiros da imprensa estavam lá, movidos por uma denúncia anônima.
O babado foi barra-pesada, os milicos e o pessoal do Conselho Tutelar flagraram o nóia do Alex preso ao cadeado por uma enorme corrente. Um alcagüete, um vizinho, algum boca-mole, havia denunciado Matilde por maus tratos e cárcere privado do seu filho Alexandro.
          Boca-aberta, incapaz de maldade, jamais pensou que por perto houvesse algum dedo-duro que se prestasse denunciar um ato de amor. Acorrentar o filho foi a contragosto, o seu peito doía, o seu coração de mãe sangrava, dilacerava, mas tinha sido do gosto e permissão de Alex, que lhe pedira como único recurso para não ser morto pelos traficantes e noiados na rua, dele dá um rolê, capar o gato...
          Condicionou à sua mãe, que o acorrentasse junto da casa de força, não queria ajuda de ninguém no momento de despejar o barro ou lançar mijo no vaso, exigências cumpridas e satisfeitas sem dificuldade, pela pequenez do casebre.
          Naquele dia, fotografada de todos os ângulos e posições, transformada num piscar de olhos, em bruxa, mãe desalmada e megera, por aquela gente de paletó e gravata, farda e coturno, vestido e salto alto, pedindo-lhe para explicar o inexplicável, citando-lhe leis e artigos, de muita monta e pouca utilidade, de muito saber e pouco resolver, muito xaveco e pouco dizer, Matilde teria mandado aqueles almofadinhas e aquelas mocréias queimarem a rosca noutro lugar, zoar noutra freguesia, mas o seu chegado Zé Buceta e as ameaças de prisão impediram que ela mandasse os vazarem dali...

                                                                                3
Dois meses depois:

          -E aí véi, tudo bem?
          -Tô a pampa! – respondeu-lhe Alex.
          -Tô a fim dum rolo, véi!...
          -Arranje um trampo, Joca!
          -Só de aviãozinho, mano!
          -Fulerage véi, os nóias queimaram o meu filme! – acrescentou:
          -Tô na seca mano, com vontade de puxar um beck!...
          -Eu tenho aqui uma muamba quer?
          -Fulerage, Alé!...
          -Mano quem está na seca...
          -Paraguai não, mano! Vou pegar um traveco daqui a pouco e queimar... – Alex bufou:
          -Bobó só de mulher véi, tem que rolar sentimento, tesão!...
          -Papo de elefante, mano! – Alex desconversou:
          -Estou bolando um trampo... barra-pesada, vinte e dois... vou precisar de gente sacudida!
          -Oie eu aqui mano! Sento o dedo numa boa... - Alex o interrrompe:
          -Si liga, Joca! Nada de presunto, use a cachola e não o dedo, véi!...
          -Tá lordaço, mano!!! – irritado.
          -Quer peitar os milicos, os gambés, miolo de pote!? – Joca corou.
          -Mano, eu não sou mané, fique na moral... – Alex amenizou:
          -Véi te considero, deixe de ser salsicha!– completou:
          -É money, muito money, muita grana e não couro de rato! – Joca se animou:
          -Agora, estou começando ter a moral, véi! É muito money?
          -Muito!
          -Pode crer, se avexe não Alé, estou aqui véi!...
          -Arranje dois guapos, não quero ninguém espichando as canelas!
          -Dividido por quatro, mano?
          -Já lhe disse que é muito dindin, fita forte, e o entrevero pode ser barra-pesada!
          -Deixe comigo Alé, conheço dois cascas-grossa de confiança. E as máquinas?
          -Não se avexe, mano! – Joca muda de assunto para agradar o companheiro:
          -Tem azarado a mina?
          -Puro suco, style mano!... – deu uma risada e advertiu-lhe:
          -Cinquenta nove, véi!
          -Não se avexe Alé, pode crer!...
          Alex e joca pegaram o beco, ficaram na moita uns três meses. Promessa feita, palavra cumprida, Joca conseguiu numa birosca conhecida, entre uma gel e uma birita, arrebanhar para Alex, dois chegados, mais que chegados, dois colados, eternos devedores de sua amizade e favores.
          Enquanto Alexandro matutava o seu plano, embrechava-se mais com a louraça Mary, não saía de sua casa, rolava sentimento, tesão e bem querer. Amizade de criança, prazer de adolescente e mais tarde... amor de adulto.
Mary, moça saitica, puro suco, enrabichou-se desde moleca por Alexandro, um ano mais nova, fazia dele gato e sapato, mais sapato do que gato, ia buscar-lhe em qualquer boca, destemida, até pouco tempo cabaço, jurara pra sua mãe e ia catiando para o seu bem querer, toda vez que ele ia com a mão leve:
          -Assim não dar nega!!! – retado.
          -Tá de chico...
          -Tirando onda comigo, nega!?
          -Bote fé!
          Alexandro armou para lhe tirar o cabaço, dar uma, ficar e enfiar... Esperou-lhe um vacilo, aproveitou um bate-coxa de sua velha num final de semana e a levou para sua baia, lá lhe encheu o bucho de caipirinha e mais cedo do que pensou e mais tarde que pode agüentar, a loira se abriu mais do que macaxeira-batata.
          Agora, sua nega estava estranha, arredia, parecendo facão, choramingando pelos cantos, de cachimbo apagado, não rolava mais sentimento, fubanga sem ser fubanga, mocréia ainda menina. Apagou-se o vulcão que lhe queimava as entranhas, não tinha mais fogo no rabo, desconfiada, exigia-lhe camisinha, não podia mais dizer “tá de chico” ; agora, Alexandro a conhecia pelo direito e pelo avesso:
          -Nega, ta me fazendo de mané?
          -Não paizinho, é que ando com uns sonhos...
          -Sonhos?
          -Sim!
          -Todo mundo sonha, nega!
          -Mas...
          -“Mas” o quê?
          -Paizinho espichando a canela...
          -Tá de miolo mole nega?... Tá dando uma de mãe Creuza?...
          -É que tô com medo ocê morrer, tô grávida! – Alexandro quase tem um treco...
          -Verdade, nega?
          -Verdade, verdadeira!...
                                                                                4

          O quarteirão fervilhava de policiais, suas viaturas fechavam todas as ruas ao redor, ninguém entrava, ninguém saía, lá, dentro do Banco do Povo – BP, três adultos e um moleque crescido, de revólveres em punho, deixavam em pânico, em polvorosa, os clientes, os jovens, os menos jovens e os idosos, enquanto a polícia de megafone apelava e advertia-lhes para o perigo que eles e os reféns estavam expostos, não admitiam negociar, não atenderiam de forma alguma às suas exigências, que a saída, o bom senso, seria, eles libertarem os reféns e renderem-se à prisão:
          -Rapazes soltem os reféns e entreguem-se, os seus direitos lhes serão assegurados!!!
          -É lero-lero, atendam aos nossos pedidos!!!
          O desgaste era visível, há mais de três horas, eles estavam nessa demanda: a polícia não cedia e os bandidos não transigiam e os reféns de medo morrendo...
          As mães dos bandidos foram chamadas, a polícia usou os apelos da mãe do bandido mais novo, pois parecia o mais recalcitrante e que mantinha o controle dos demais:
          -Filho, se entregue! Sua mulher tá grávida, você vai ser pai!...
          Este último apelo mexeu com o adolescente: “você vai ser pai!...” entrou como uma lâmina afiada no seu peito. Dezesseis anos incompletos e pai, não sonhou aquilo, não sonhou ser bandido, sonhou ser doutor ou jogador, sonhou sair daquela vida de miséria, deixou a vida lhe levar, quase não teve pai, toda vida teve mãe-pai, velha guerreira, sua heroína, heroína sem placa, anônima, mas de muita história e lição de vida, escrava e mãe de escravos ainda não alforriados duzentos anos depois, pelos mais afortunados: “merda!...” – pensou.
          Novo burburinho, alguma coisa iria acontecer e aconteceu: um rapazola empunhando um 38, escondido atrás de uma jovem, rendia-se, ia entregar-se, dessem-lhe segurança, tudo estava perdido:
          -Paz!!!
          Porém, o seu apelo não levou um minuto, alguém escondido não se sabe onde, deu um tiro de fuzil e acertou o coração da jovem escudeira, simultaneamente, o jovem bandido atirou na testa do homem do megafone, caindo em seguida, crivado de balas!...                                                                           
                                                                                     5
          Duas mulheres se descabelavam em cima do corpo do jovem Alexandro Crispiniano Filho, quando um velho policial tentou confortá-las:
          -Senhoras, menos um nóia, menos um criminoso na sociedade... – Matilde o interrompeu:
          -Nóia não, meu filho!!! – as lágrimas caiam copiosamente dos seus rostos...
 

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 

 

O Fantasma - R. Santana

 

Fantasma
R. Santana

     O meu amigo Pedro é pior do que S. Tomé. São Tomé duvidou, mas creu na ressurreição quando encontrou Cristo Ele mesmo vendo ainda usa empecilho e dúvida. Não é uma dúvida cartesiana, racional e inteligente. Ele é um niilista sem ser niilista. O niilista nega a verdade absoluta, mas propõe um novo modelo social a partir do zero. Pedro é mais um chato que não acredita porque não quer acreditar, duvida pelo prazer da duvidar.
     -Pedro, saímos de Vitória da Conquista com quatro carretas carregadas de café com destino ao Porto de Ilhéus, ao invés de passarmos por Itabuna e pegar a BR-415, pernoitamos em Uruçuca por motivos particulares e o dia ainda escuro, puxamos os carros.
     -Se vocês quatro viajavam juntos como só você viu o fantasma?
     -Pedro, não se viaja um colado no outro, há um intervalo de tempo de cinco ou mais minutos. Assim que a garota me levou até o carro virado quase embaixo da ponte, voltei para pedir socorro e já encontrava os meus companheiros parados no acostamento, preocupados comigo.
     -Sua história estar parecendo de pescador, compra o peixe para arrotar eficiência de pescador. Vocês usam tantos artifícios de segurança, iriam se render aos apelos de uma garotinha, na bruma da madrugada, na beira do asfalto, que poderia ser uma isca? Vai pra lá...
     -Não estou lhe pedindo para acreditar. Você que me pediu pela enésima vez para repetir essa história.
     -Eu gosto tanto de ouvir suas histórias de caminhoneiro que mesmo não acreditando nelas, espairece-me a alma.
     -Pedro se você não fosse meu amigo, eu iria mandar você...

     Mudamos de assunto, senão, iria aborrecer-me com o meu amigo Pedro, ele é polêmico, mas aprendi que numa amizade contam mais os defeitos do que as qualidades. Quem não sabe conviver com os defeitos não alcança as qualidades. Ele é ranzinza, enjoado, mas, não conheço pessoa mais prestativa e solidária do que Pedro. Tem um coração que não pode ver alguém sofrer, é capaz de vender a mulher e empenhar os filhos se isto fosse possível para atender às necessidades de um amigo.
     A história que lhe contei foi verdadeira, não foi um conto da carochinha. Sei que é difícil acreditar em visagem, assombração, alma penada, fantasma, enfim, cousas do outro mundo, entretanto, existe uma contradição na negação porque quando se nega a existência de um ser, é que o não-ser existe.
     Peço que o amigo leitor tenha paciência que irei repetir a história que comecei contar para Pedro.
Pernoitamos em Uruçuca. Tínhamos condições de dormir em Ilhéus. Era cedo quando chegamos à Uruçuca, naquela última quinta-feira, à tarde, do mês de maio de 2004. Porém, um dos colegas tinha residência e família ali; outro uma xodó de priscas eras. Eu e o colega mais novo não tínhamos mulher nem xodó, mas estávamos doidos pra cair na gandaia, tomar umas cervejas e depois dormir enroscado com alguma andorinha da terra.
     Acordamos às quatro da madrugada. Tomamos um café, fumamos, fizemos uma vistoria nos carros e partimos. Por ser o mais velho e o mais experiente, o meu carro ia na frente. Juliano, o motorista mais novo e mais moleque, costumava falar:
     -Deixe o coroa ir na frente, experiência é posto! - Não gostava de puxar os demais carros, pois teria que ser o mais rápido e o primeiro a enfrentar o perigo. Embora a brincadeira de Juliano fosse de mau gosto, gozando dos meus anos de estrada e de idade, a expressão “experiência é posto”, dava-me fumos de autoridade no volante e enchia o meu ego, já que estava prestes à aposentadoria.
     Acredito que viajamos menos de 25 quilômetros. Longe ainda, avistei uma garota loira, os cabelos compridos e escorridos nas costas, pedindo pra parar. Pensei acelerar o carro e passar distante, poderia ser uma isca, nos assaltos, era comum o uso de mulheres e menores para atrair o incauto motorista ou o motorista de bom coração. Porém, fui refreado por uma força estranha e impedido de continuar, parei poucos metros distantes da garotinha.
     -Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!... Venha, eles estão lá embaixo dentro do carro. – Não pensei uma fração de segundo (não sei se os astrônomos têm um instrumento eletrônico capaz de medir um tempo tão infinitesimal), peguei a garota pela mão e desci a ribanceira para acudir os pais dela e seu irmão.
     Era um quadro dantesco sem ser o quadro de Dante Alighieri que só tinha fogo. Um carro da Fiat, quatro portas, tinha arrastado matos e pedras na descida desgovernadade uma ribanceira e virado uma ou duas vezes e quase caído dentro do rio que cortava a rodovia. O motorista estava desmaiado, debruçado sobre o volante, um menino chorando e uma mulher gemendo e sangrando presa ao sinto de segurança. Voltei-me para garota:
     - Espere-me aqui um minuto, vou pedir ajuda aos colegas que estão chegando!
     Quando retornei, os meus colegas já tinham estacionado à traseira da minha carreta. Gritei para todos:
     - Correm, tem um carro lá embaixo com uma família dentro. – Tem alguma vítima grave? – perguntou Juliano      – Não sei, vamos lá! – intimei-os.
     Todos desceram rapidamente. Janjão tirou logo o menino que estava com um choro traumatizado. Juliano e Zezéu foram em socorro da mulher, enquanto eu procurava com dificuldade abrir a porta do motorista para lhe prestar ajuda que coadjuvado por Juliano, conseguimos retirar o motorista do carro. Era um homem enorme, que começou gemer à medida que o tirávamos do automóvel.
     Além de Janjão ter ido buscar água no seu carro para o menino, telefonou para polícia de Uruçuca solicitando-lhe providências e organizou uma operação de socorro com os carros que iam rumo a Ilhéus, 20 minutos depois, os socorros chegavam em abundância: desde remédios até padiolas improvisadas.
     Naquele momento, pensei que todas providências já tivessem sido tomadas quando Zezéu me chama:
     - Roberto vem cá!- Tinha subido para o asfalto para agilizar o transporte do pessoal ferido, pois a mulher gritava de dor e pedindo-nos para cuidar dos seus filhos e o seu marido não ficava por menos. Acho que fisicamente, ele estava sofrendo mais.
     - Diga Zezéu!...
     - Vem cá. Temos mais um problema! – Quando cheguei, Zezéu puxava com cuidado, do banco traseiro, uma pessoa. Ainda não dava para ver o rosto e a idade. Percebi que era mulher porque estava usando vestido. Quando me aproximei, Zezéu completou:
     -Roberto não quis lhe dizer daqui para que os pais dela não ouvissem. Mas, esta garota (apontou) está morta! – Estava menos de dois metros de Zezéu, quando num pulo me aproximei do corpo e gritei:
     - Não, não é possível!!!... – Zezéu ficou absorto, não tinha entendido a minha reação. Pensou que eu estivesse preocupado com a reação dos pais da pobre garota.
     Ninguém ia compreender e acreditar em mim, a garota que estava ali estirada era a mesma que tinha me pedido socorro. Quando Janjão pegou a criança, na agonia, não percebeu que ela estava caída entre o banco de passageiros e as poltronas da frente ou ela não estava lá? Ele jura até hoje, que vira somente o menino que choramingava um choro sofrido. Maior foi o mistério: é que no alvoroço e na balbúrdia, todos querendo ajudar só vir lembrar-me dela quando a encontrei nos braços de Zezéu.
     Hoje, quando me lembro de tudo que ocorreu naquele acidente, fico assustado, com os cabelos eriçados, pois tenho certeza que foi aquela menina que salvou a família depois de morta. As pessoas não acreditam, mas foi ela que me fez parar o carro e levou-me até o local do sinistro, com seu rostinho angelical e sua voz delicada e dizer-me:
     - Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!...

Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commos
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 

Escrever é um ato solitário - R. Santana

 

Escrever é um ato solitário
R. Santana

     O exercício da escrita é solitário e difícil, mais fácil é falar (a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece), discursar, palavrear, tagarelar, jogar conversa fora, mas quando se deseja colocar no papel, palavras, conceitos e ideias, aí, a porca torce o rabo... Parodiando Thomas Edson, escrever não resulta só de inspiração, mas de transpiração, de persistência na elaboração e construção de um texto. No capítulo da curiosidade dos grandes escritores, a criatividade é uma manifestação divina, é o insight, todavia, a desenvoltura e o estilo são adquiridos através do trabalho e da experiência ao longo do tempo.
     Quem rebusca as páginas das escolas literárias, irá encontrar escritores com passagem por mais de uma escola, a exemplo de Machado de Assis que teve um pé fincado no Romantismo por influência de José de Alencar, Bernardo Guimarães, Gonçalves de Magalhães, e, terminou os seus dias enterrado até o pescoço no Realismo e se vivesse mais tempo, teria, certamente, construído outros caminhos geniais, contudo, ele ainda influenciou os escritores como Bilac e Lima Barreto, expoentes do parnasianismo, no verso e na prosa.
     Mas, essa evolução de estilo e de forma não representam demérito do escritor, poucos escritores na história literária, foram best seller no seu primeiro livro, às vezes, o escritor duma extensa obra, é reconhecido, apenas, em um ou dois livros, Franz Kafka, por exemplo, tem uma obra significativa, mas os seus livros: “O processo” e “A Metamorfose” que lhe deram notoriedade.
     Numa entrevista televisiva recente, uma escritora (não me lembro de seu nome), queixou-se da dificuldade que os jovens têm de colocar no papel uma boa história, enquanto na linguagem oral e cênica, eles falam e desempenham com facilidade qualquer texto que lhes chega às mãos. Essa dificuldade, ela atribuía a falta de leitura, a linguagem corrida da Internet e a substituição da escrita pela imagem.
     As escolas de escritores que se proliferam, ultimamente, ajudam na formação de um redator, mas o processo de criatividade do escritor é diferente, é inato, é vocação, é perseverança, é suor, é objetividade, é perseguição dum ideal. Não se faz um escritor, nasce um escritor com suas potencialidades, a experiência intelectual e o tempo definem sua genialidade.
     Um jovem solicitou por e-mail a determinado escritor, as regras necessárias para elaboração de bons textos de prosa e poesia, grande foi o seu desapontamento com a resposta que se segue:
     “... não tenho a receita do que tu me pedes, creio, também, que ninguém a possui com as exigências que tu me solicitas, pois, é fácil ensinar gramática e técnicas de redação na escola, porém, na escola não se ensina pensar, pouco se usa a imaginação e tornou-se pior com o advento da Internet, da informática, a garotada que antes estudava, hoje, faz de conta que pesquisa e aprende. Atualmente, as informações são mais democráticas e mais acessíveis, mas não ensinam refletir, pensar é um exercício de paciência que exige disciplina e desprendimento”.
     Particularmente, acho o ato de escrever além de solitário, sofrido, pela preocupação correta da gramática e dos censores de plantão. Além de a língua ter suas regras e normas convencionais, qualquer que seja o idioma, ela não escapa às interpretações pessoais de acordo o entendimento do sujeito pelo fato dela ser viva e dinâmica. Quem leu as Réplicas e Tréplicas de Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro, encontra ali, exemplos gritantes, não de erros, mas de concepções e interpretações pessoais diferentes.
     Porém, o escritor compulsivo, escrever é um vício, aquele que é impelido criar, pouco se lixa para essas firulas dos detentores do saber linguístico, pior do que escrever ruim, é não escrever, pior do que escrever sem a gramática, é não produzir, é não ter ideias criativas, aqui, vale o pensamento: “Quem não sabe ensina, quem sabe faz”.


Autor: Rilvan Batista de Santana (Publicado em Coletânea do Rio de Janeiro)
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google

O aborto - R. Santana

 

O aborto - R. Santana

     À uma hora, daquela Segunda-feira, Mariana, esborrachada na cama, não despregava os olhos do teto do seu apartamento. Não conseguira pregar os olhos, o sono lhe tinha fugido, há seis meses tinha feito um aborto, seis meses de noites mal-dormidas e não dormidas. Os remédios lhe aliviavam a tensão, a angústia, o mal-estar, as dores de cabeça, os remédios lhe davam um arremedo de sono, um sono conturbado, um pesadelo, mas os remédios não lhe davam sono, os remédios não lhe curavam, os remédios não curavam sua dor...
     Mariana lembrava-se como tudo começou: desiludida de Victor por arrastar-lhe a um noivado que não tinha fim, jogou-se nos braços de Guto, o melhor amigo do seu noivo e engravidou. Não sabia se engravidara de Vítor ou de Guto, poderia colocar o rebento nos braços do noivo, mas poderia ser traída pela natureza assim como foi traída Capitu quando foi infiel ao seu marido Bentinho com Escobar e nasce Ezequiel semelhante ao amante para seu desespero e martírio longe da pátria.
          Às 2 horas, daquela Segunda-feira, o calor tomava conta do seu quarto, Mariana respingava de suor, não obstante o ventilador ligado, a cabeça latejava-lhe, num impulso levanta-se da cama, veste uma roupa leve, olha pela vidraça da janela, a cidade está vazia, as ruas estão bem iluminadas, vê de quando em quando algum notívago passar sem rumo e sem pressa (morador de rua ou boêmio), cansada daquela imagem soturna, pega o elevador e desce...
          Às 3 horas, daquela Segunda-feira, Mariana cansada de perambular a esmo pelas ruas da cidade volta para o apartamento. Saiu muda e voltou calada, no saguão esbarrou com um dos porteiros que a cumprimentou, ela grunhiu como resposta, um gesto que não passaria despercebido pelo mais desleixado dos servidores do prédio, pois era dada com todos, do zelador ao mais ilustre morador, era persona grata em todos 64 apartamentos, arroz-de-festa, conhecia cada família como se sua fosse.
     Sua cabeça não mais latejava, tomou algumas providências necessárias antes de se jogar na cama: abriu as janelas, desceu as venezianas, colocou um colchonete na sala e duplicou os barbitúricos!... Às 4 horas, daquela Segunda-feira, Mariana dorme o sono dos justos.
          Doutor Marcos não era santo nem satanás, restava-lhe alguns pruridos morais e éticos ao longo de 28 anos de boa obstetrícia, porém a necessidade de manter os filhos em faculdades de elite, há uns 8 anos, vinha driblando a Lei. Agora, com os filhos formados e bem encaminhados na profissão e no bolso, não havia necessidade dele continuar na má obstetrícia, mas como o hábito é uma segunda natureza, continuava praticando-a naqueles casos que a Lei o amparava, porém, o cesteiro de um cesto é o mesmo de cem, também a praticava naqueles casos em que a cliente possuía uma conta bancária irresistível.
     Explicou-lhe os riscos e os procedimentos de um aborto na primeira consulta, deu-lhe um tempo para pensar... Mariana resistiu ao apoio psicológico indicado pelo médico, não ia voltar atrás, “alea jacta est”, se César confiou na sorte, “eu não”? Por isto, marcaram dia e hora para expulsão daquele corpo indesejável!...
          Às 5 horas, daquela Segunda-feira, Mariana estirada no colchonete de sutiã e calcinha, mexia-se e choramingava baixinho, depois, num diálogo estranho, quase aos gritos, movida por uma força invisível, em transe, ela alternava vozes de adulto e criança com flashes de imagem:
     -Olhe o seu filho!!!
     -Esses pedaços de carne?!
     -Você o quis assim!!! – berrava o médico.
     -Não, não, é sua mentira – completava:
    -O senhor disse que no meu útero não havia gente, mas um amontoado de células!... – o “filho” com doçura:
     -Mãezinha, peça-lhe para devolver os meus pezinhos, as minhas perninhas, os meus braços, o meu corpo... – Mariana descontrolou-se:
     -Devolva o meu filho doutor!!!
   -Eu sou Deus? Você o transformou “nisso” quando tomou aquele remédio, ele teve que sair aos pedaços!
          -Miserável!... – caiu em prantos. O “monstrinho”, girando a cabeça sinistra, grita:
          -Assassinos!!! – voltando-se para mãe:
       -O manto da treva cubra sua alma para sempre!... – voltando-se para o médico:
      -Certamente, tua alma queimará no fogo do inferno, mil anos sejam-lhe dados para cada vida que tu tiraste!...
          Mariana acordou encharcada de suor, a cabeça lhe latejava, alucinada, rogava perdão ao Criador, incontinenti se joga do 4º. Andar, seu corpo cai sem vida no playground...
          Que o seu sangue lhe lave os pecados e Deus lhe dê a vida eterna!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons 
Membro da Academia de Letras de Itabuna-ALITA 
Imagem: Google



A hóstia cuspida - R. Santana

 

A hóstia cuspida
R. Santana
1
     A mão direita embaixo, a mão esquerda em cima, depois, a mão direita pega a hóstia e leva-a à boca, assim os fiéis participam da eucaristia: "E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19-20), o sacerdote voltado para os fiéis, com o cálice à altura, vai além: “Este é o cálice da Nova Aliança, no meu sangue derramado em favor de vós." (Mateus 26;26-29, Marcos 14:22-25, I Coríntios 11:23-26), este é o momento mais alto da missa do dia do Senhor, naquele dia, Demetrius cuspiu a hóstia.
     Sentado no último banco da igreja, observava todos os gestos do sacerdote e gravava cada palavra do sacerdote em sua mente, embora se sentisse um peixe fora d`água, Demetrius possuía agudeza de espírito, observador, lhe foi fácil chegar até o altar e receber a hóstia.
     Com as mãos em gesto de oração, contrito, acompanhou a fila em busca do sacramento, se algum conhecido o visse naquela hora, decerto, diria alguns impropérios pelo embuste ou morreria de rir da pantomima da encenação do herege e ateu Demetrius, mas o astuto e manhoso descendente grego, escolheu uma paróquia à légua de distância de sua comunidade para representação dessa blasfêmia.
     Perto do altar, longe de sua vez, sua mente sofreu um repuxão para que não cometesse aquele ato insano, mas a maldade prevaleceu e tomando a hóstia com a mão esquerda e colocando-a na boca com a mão direita, esgueirou-se no meio dos fiéis, refugiou-se num canto da nave e na penumbra da luz, deu uma cusparada no “corpo de Cristo” e voltou para o seu lugar.
     Não esperou os ritos finais, os avisos, a bênção do sacerdote, fazer o quê? Tudo tinha saído a contento, conforme desafio que fez ao seu colega da faculdade:
     - Aquilo é farinha e água sem fermento! Corpo de Cristo!? Corpo de Cristo!?... – e se engasgava de tanto rir.
     Ao sair de igreja, ele ria-se por dentro... Agora, iria fanfarronar sua façanha a Beto, contar-lhe os detalhes, rir de sua cara de espanto e vê-lo aterrorizado da ignomínia, decerto, diria: “Endoideceu Demetrius?...” então, diria: “Deus tenha misericórdia de tua alma irmão de Judas Iscariotes e filho do Tinhoso!”, porém, passado o susto, a bronca, Beto o relevaria, o desculparia, conhecia-lhe a alma e o coração.
 
2
 
     O suor lhe encharcava o corpo, Demétrius virava-se na cama de um lado para outro insistente, algo lhe sufocava, as visões apareciam em flashes, não conseguia discernir as imagens, só uma voz rouca lhe chegava aos ouvidos: “Filho de Belzebu! Filho de Belzebu! Filho de Belzebu!...”, não reconhecia aquela voz, não era a voz do seu amigo Beto, tampouco de sua mãe, ela não seria capaz de deixá-lo naquela agonia...
     Agora, a voz era mais clara, todavia, a imagem confusa torturava ainda mais a mente de Demétrius, aquela voz doía-lhe aos ouvidos, não agüentava mais, tentou levantar-se, não conseguiu, uma coisa lhe esgoelava, a voz mais estridente gritava: “Satanás! Satanás! Satanás!...”, de repente, de chofre, a imagem veio-lhe nítida, definida, não havia mais dúvida, o padre daquela missa lhe perseguia, era ele, reconheceria aquele filho de gnomo em qualquer lugar, aquela figura baixinha, cabeçudo, nariz adunco, olhos penetrantes, deu-lhe susto e medo ao vê-lo quando entrou naquela igreja e se não tivesse sido o propósito de deixar Beto fulo da vida, talvez não tivesse ousado cuspir a hóstia, pelo medo que o padre lhe causou.
     Tentou na aflição do pesadelo esmurrar o padre, quebrar-lhe as fuças, mas o diabo do gnomo era mais ágil, Demetrius perdia o fôlego de tanto tentar, mas em vão, o padre chegava e lhe xingava e desaparecia como por encanto. Dado momento, o padre desapareceu e, aparece-lhe uma hóstia, não a hóstia que cuspiu, mas uma grande hóstia que de tão clara, de tão luz incandescia-lhe a visão, Demetrius levava o braço aos olhos inutilmente, desejava fugir, não conseguia, a luz da hóstia lhe acompanhava como se o cercasse por trás e por frente, como se o espremesse...
     O coração parecia que ia explodir, Demetrius arfava cada vez mais forte, no limite da resistência humana, escusava-se pedir socorro a Deus, o seu orgulho de ateu não deixava, sentia, mesmo dormindo, no limiar da consciência, que nada daquilo era verdade, que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto do inconsciente, quando o seu corpo teve outros repuxões e sacudidelas, o clarão da hóstia tinha fugido, mas uma grande cruz pingando sangue lhe apareceu cada vez mais próxima, cada vez cada vez mais próxima, cada vez mais próxima...
     Acordou-se aturdido, com gritos lancinantes, ainda arfando, o suor descendo pelo corpo, os “flashes” vivos em sua mente, de supetão, Demetrius desceu da cama, ajoelhou-se, abençoou-se em nome do “Pai”, do “Filho”, do “Espírito Santo”, e, orou e chorou, chorou e orou, orou e chorou...



Autor: Rilvan Batista de Santana
LIcença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna -ALITA
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 30/05/2012
Alterado em 01/01/2024

Destaques

Tupã - R. Santana

  Tupã - R. Santana   A vida é feita de momentos de sentimentos agradáveis. Não faz muito tempo, um tiquinho de tempo, que encontrei um ...

Última semana