11.18.2025

Madrasta, mãe - R. Santana

 

Madrasta, mãe - R. Santana

Madrasta, madrasta boa, madrasta má, amável madrasta!
Mãe de filhos de ti não gerado, por ti acolhido e amado,
Filho sergipano, alagoano, pernambucano, mineiro, filho...
Filho branco, preto, amarelo, filhos de raça, raça humana!...

Filhos bons, filhos maus, filhos gratos, filhos ingratos, filhos!
Filhos de orixás, de Iyárobá, de Yoruba, filhos do candomblé,
Filhos ateus, filhos espíritas, filhos católicos, filhos evangélicos,
Filhos baianos, filhos adotados, aceitos, filhos queridos, amados!...

Bem-aventurado quem de ti nasceu, cresceu, viveu e voltou a ti.
Félix a desvirginizou, Firmino Alves e Henrique esposaram-na...
Buna de Maria, que nas tuas águas lavou e, ita, pedra preciosa!...

Madrasta, madrasta doce, madrasta efêmera, mãe, mãe eterna!
Pedaço de terra querida, princesa, princesinha do Sul da Bahia,
Na pia, nem tabocas, nem itaúna, mas para sempre, Itabuna!...


Gênero: soneto (verso livre)
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google (Itabuna)
Autor: Rilvan Batista de Santana
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 30/05/2012
Alterado em 16/12/2023

A C R U Z - R. Santana

 

A  C R U Z
R. Santana

“Tens tu lido
Da dura cruz
Na qual Jesus morreu,
Desfazendo as trevas raiou a luz,
Manando sangue seu?”

     Conta-se que um fazendeiro do interior da Bahia vivia sempre reclamando e maldizendo-se da vida. Fazia da rotina pessimismo. Se o céu escurecesse durante o dia, prenunciava tempestade, se fizesse sol mais de uma semana, achava que ia haver uma calamidade!... Se houvesse um déficit anual de sua produção agrícola em decorrência das intempéries da natureza, culpava todos os Santos que conhecia. Reclamava da mulher, dos filhos, dos empregados, pelos seus infortúnios. Em suma: era um rabugento insuportável de dar porre em Sonrisal...
     Certo dia, depois de farto jantar, foi mais cedo pra cama. Sonhou que tinha morrido e ido para o céu. No céu foi recebido com alegria por São Pedro e sua staff. Ficou surpreso pela auspiciosa recepção. Quis se desculpar mas, São Pedro adiantou:
     - Filho lembra-se das palavras do Mestre? Ele disse: “... haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
     O lamuriento começou percorrer as ruas, as praças, os condomínios e os shoppings. Quando em vez, reclamava do desperdício, dos transeuntes, da suntuosidade, da fartura alimentícia e do fausto. E, para o anjo que o acompanhava:
     - Isso é um desperdício. Não há controle das contas públicas? É o caos!... – O Anjo lhe explicava que no céu era diferente da Terra. Não havia Tribunais de Contas, Ministério da Fazenda, Banco Central, Controladoria Geral da União, impostos... e completava: - aqui todos trabalham em mutirão, cada um prover sua casa de acordo suas necessidades - o fazendeiro interrompia: - e os desonestos? Os mais argutos? – O Anjo discorria que lá não havia ladrão ou desonestos de qualquer espécie, todos tinham consigo o Espírito Santo e andavam de acordo a palavra do Mestre. E se alguém saísse da linha, voltaria para Terra para purgar seus pecados. Desonestidade, crime de morte e outros crimes eram coisas de seres imperfeitos da Terra e de outras casas de Deus, nos céus somente os redimidos do pecado. O nosso amargo amigo ouviu, ouviu mas saiu dali atendido sem ser convencido.
     No terceiro e último dia de sua estada no céu, já chateado e irritado com tanta alegria e felicidade daquele povo, procurou São Pedro: - São Pedro, quero voltar para Terra. A minha fazenda está entregue aos cuidados daqueles incompetentes, se eu demorar aqui só vou encontrar o casco! – São Pedro: - calma filho, sua fazenda está em boas mãos, os seus lhes são fiéis... quer conhecer o Cartório de Registro? Vamos lá? – O fazendeiro, mesmo a contragosto, não poderia ser ingrato aos auspícios recebidos ali. Apenas, solicitou de São Pedro que o mandasse de volta às suas terras logo.
     O Cartório de Registro ocupava um quarteirão com vários departamentos. As prateleiras estavam lotadas de livros. Havia um movimento enorme de pessoas trabalhando. São Pedro percorria as salas, era um cicerone perfeito. Era estimado e venerado por todos. Após algum tempo de visita, chegaram a um departamento lotado de cruzes de madeira, de ferro, de latão, de prata, de ouro... umas pequenas, outras médias, outras grandes e outras enormes! Todas simetricamente arrumadas. O lamurioso fazendeiro ficou curioso pela diversificação das peças, não entendia porque tantas variedades e tamanhos, quais os significados? Não eram todas peças cruzes? E, passou para São Pedro suas preocupações...
     - Filho, cada cruz aqui, representa uma pessoa na Terra, cada pessoa lá tem sua cruz. As cruzes de madeira representam a maioria das pessoas, as de metais representam homens e mulheres que lutam em favor da humanidade, quanto maior é a cruz, maior é sua tribulação, há cruzes de vidro, de plástico, marfim, gesso... – o fazendeiro estava intrigado, qual daquelas cruzes seria a dele? Mas não podia romper a indiscrição, será que São Pedro poderia lhe informar? Ou, eram informações sigilosas que só o Criador era detentor? Mas arriscou:
     - São Pedro, eu conheço alguns donos dessas cruzes? – Sim! Nesta sala estão todas pessoas do seu convívio. Aquela cruz é de Antônio seu vizinho (enorme), a outra de Pedro seu tio, a outra de Manoel seu cunhado, e foi nomeando.... Cada cruz uma maior do que a outra – faltou-lhe paciência, perguntou: - a minha São Pedro?
     - a sua é aquela – apontou - a maior da esquerda? – não, é aquela do fundo a menor de todas! – Não podia acreditar, com tantas tribulações, carregava a menor cruz daquele salão, irritado perguntou: - e a cruz de Maria, minha mulher? – São Pedro apontou a maior de todas à direita – não é possível, ela é bem maior do que a minha! Eu que me acabo para sustentá-la - São Pedro justifica:
     - É filho, Maria caminha com você, para que maior atribulação? Maior, só a cruz do Mestre que nela morreu para redenção dos nossos pecados!...
 
“achamos sempre que a cruz do outro é menor do que a nossa!...”


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença Creative Commons)
Membro da Acadenia de Letras de Itabuna - ALITA
IMAGEM: Google
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 30/05/2012
Alterado em 24/01/2024

Bebo eu, bebe todo mundo... - R. Santana

 

Bebo eu, bebe todo mundo... -  R. Sanatana

Bebeu a princesa Isabel, bebeu o imperador
Bebe o soldado, bebe o cabo e o major
Bebe o pobre, bebe o remediado e o rico,
Bebo eu, que não sou rei nem militar!...

O Senhor deixou a mandioca, a uva, a cana...
O homem fez vinho, vodka, whisky...
O Francês bebe vinho, o mexicano bebe tequila,
O americano bebe whisky, cerveja bebe o alemão.


Bebe o meirinho, o advogado, o juiz e o promotor
Bebe o bispo, o padre, o franciscano e o sacristão,
Bebo eu, que não sou direito nem santo, sou pecador!

Bebe o ministro, o deputado, o vereador e o senador
Bebe o cientista, o enfermeiro, a médica e o doutor,
Bebo eu, bebe todo mundo, também, o presidente!...


Gênero: Soneto (verso livre)
Autor: Rilvan Batista de Santana
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 31/05/2012
Alterado em 18/12/2023

O homem-rato - R. Santana

 

O homem-rato
R. Santana

     Galego deveria ter uns 40 anos de idade, um pouco mais ou um pouco menos, todavia, o tempo de cachaça era o mesmo, pois começou beber a branquinha no ventre de sua mãe, de acordo o bebum, a velha também gostava duma caninha desde moça e não se tornou abstêmia quando de sua gravidez, naquela madrugada há 4 décadas passadas quando lhe deu à luz, a parteira encheu a moringa de murcha-venta de sua mãe para que ele não demorasse de nascer, cesariana era luxo de grávida rica, pobre tinha que ser no cru e no cru Galego veio ao mundo.
     Ele possuía consciência cidadã, reclamava dos poderes públicos, tinha consciência de sua miséria, era um bebum diferente dos demais, que noite e dia, dia e noite, inundam a feira-livre da cidade de Tupiara e sua praça do “Ó”, dormem embaixo de marquises de lojas circunvizinhas, enrolados em trapos velhos, papelões e colchonetes sujos e nojentos. Os gogorobas se confundem com os seus andrajos, não se sabe quem fede mais, eles ou os seus trapos, restos de gente, farrapos de gente...
     Apresentava-se de maneira correta consigo e com o interlocutor:

     -João Alberto da Silva, vulgo Galego!... – completava:
     -Vossa Senhoria chama-se?... – quando peitava uma autoridade:
     -Vossa Excelência é responsável pelo aumento desses miseráveis!... – a autoridade protestava:
     -Quê é isso?... Estou no cargo há menos dum ano, eu não sou responsável por suas desditas! – Galego justificava:
     -Eu sei Excelência, mas os políticos prometem fundos e mundos aos pobres antes da eleição, depois de eleitos, enchem os ricos de fundos e mundos!... – os assessores e bajuladores, de pronto, intercediam para que a conversa não se azedasse e arrastavam ”Sua Excelência” para longe dali.
     Galego fez-se a voz dos miseráveis, a autoridade sem mando, o advogado sem causa e mandato, mais fanfarrão do que ouvido, o rei da bazófia e do alarde, o bobo metido a sabido, o São João Batista que clamava no deserto!...
     De dia, perambulava pelas ruas de Tupiara, à noite, escondia-se em algum lugar, decerto, preocupado com gente perversa que se esconde no manto da escuridão para o gozo de suas maldades. Alguns colegas de copo juravam que ele possuía filhos, mulher e casa, as mentes mais fantasiosas acrescentavam que Galego não era pobre, mulher e filhos cuidavam dos seus níqueis!...
     Certeza não se tinha e não existe prova da fortuna do pé-de-cana, é comum ao homem simples fazer da desgraça do outro apologia, como se faz do limão uma limonada, porém, uma coisa não se podia negar: Galego era diferente dos outros bêbados nas atitudes e na sutileza de raciocínio. Costumava poetizar o seu vício:

     “Bebeu a princesa Isabel, bebeu o imperador
     Bebe o soldado, bebe o cabo e o major
     Bebe o pobre, bebe o remediado e o rico,
     Bebo eu, que não sou rei nem militar!...

     O Senhor deixou a mandioca, a uva, a cana...
     O homem fez vinho, vodka, whisky...
     O Francês bebe vinho, o mexicano bebe tequila,
     O americano bebe whisky, cerveja bebe o alemão.

     Bebe o meirinho, o advogado, o juiz e o promotor
     Bebe o bispo, o padre, o franciscano e o sacristão,
     Bebo eu, que não sou direito nem santo, sou pecador!

     Bebe o ministro, o deputado, o vereador e o senador
     Bebe o cientista, o enfermeiro, a médica e o doutor,
     Bebo eu, bebe todo mundo, também, o presidente!...”

     Naquela manhã, alguém lhe encontrou pra baixo, sorumbático, triste e esquecido do mundo:
     -Eh, eh, eh, homem! Tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva!... O quê houve?... – Galego não estava num dos seus dias:
     -Eu não sou homem, sou um rato!!!
     -Quê rato, homem!? Deixe de maluquice!!! Nunca lhe vi assim!
     -Desculpe-me amigo, estou deprimido, mas nós não passamos de ratos!
     -Nós, Galego!? Eu sou homem!!! – espinhou-se...
     -Não se agaste rapaz! Para mim não existe retorno, sinto que estou mais prá lá do que pra cá, por isto, peço-lhe que deixe a mim e a minha desgraça a sós! – o rapaz insiste:
     - Primeiro, explique essa história que somos ratos!...
   - Rapaz, eu acho que somos piores do que ratos. O rato serve de cobaia à ciência, é um animal arguto, inteligente, vive em comunidade, em família, anda limpo, escovado, inspira filme, desenho e, o gato de Esopo não lhe colocou guizo no pescoço... Nós somos sujos, fedorentos, à margem da sociedade, relegados pela família, bobo da coorte!... Nós... nós... nós somos piores do que os ratos. Eu não sou homem... Eu sou pior do que um rato!!! – não esperou contraditório, deu-lhe as costas e foi embora.
     Dias depois, morreu embaixo duma barraca de feira, encolhido, enregelado, desprezado da família e de todos, João Alberto da Silva, vulgo Galego, não, morreu o rato, não de novo, morreu sim, o homem-rato!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Gênero: conto
Imagem: Google
Itabuna, 13 de outubro de 2010.

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 31/05/2012
Alterado em 24/11/2023

Carta para Maria João - R. Santana

 

Carta para Maria João
R. Santana

Querida Maria João:


     Recebi ontem, dia 28 de agosto do ano cristão de 2008, o seu livro, com o sugestivo título: “O polvo não sabia que o mexilhão tinha asas”. Quero lhe pedir licença para fugir de qualquer formalidade lingüística e misturar os pronomes de tratamento, usar figuras de linguagem, figuras de estilo, como eufemismos, hipérboles, ironias, metáforas, metonímias e por aí afora, assassinar a gramática, cometer algumas cacografias e usar uma linguagem descomprometida e nada convencional, uma linguagem de tabaréu que nunca arredou pé do seu país.
     Como ia lhe dizendo, recebi o seu livro e fiquei envaidecido, abestalhado, parvo, corri para os vizinhos e minha família para mostrar-lhes que uma escritora portuguesa, que mora do outro lado do oceano, uma europeia, me honrara com um livro autografado e uma carinhosa dedicatória: “Para o Rilvan, meu amigo e companheiro de escrito, com um grande abraço”. Que honra para um desconhecido cidadão!... É que Maria, aqui na minha cidade, a maioria me conhece como um simples professor e não com o dom de colocar palavras bonitas e cheias de vida no papel.
     Não sou um mestre da prosa e nem da poesia, não nasci com a inteligência linguística do baiano Ruy Barbosa, que na Conferência de Haia deixou o Barão de Marschall da Alemanha no chinelo, por ter as ideias mais brilhantes e falar em todos os idiomas oficiais daquela conferência e quando o seu antigo professor e filólogo Ernesto Carneiro Ribeiro fez alguns senões ao seu estilo na redação do Código Civil do Brasil de1902, Ruy deu origem a maior polêmica filológica da língua portuguesa com vários livros de Réplicas e Tréplicas, nunca visto dantes, tamanha briga de egos e vaidade intelectual. Porém, eles deixaram para posteridade, uma análise filológica da língua portuguesa que ainda serve de parâmetro aos lingüistas de hoje.
     Por isso, a razão da minha euforia quando o livro chegou, recebia duma pessoa tão distinta, de uma poetisa da prosa, o epíteto de “companheiro de escrito”, isto é, tinha passado de um simples escrevinhador de pálidas histórias da vida, do dia-a-dia, para categoria de escritor. Há distinção maior para quem gosta de mexer com as palavras? Acho que não!...
     Cara amiga Maria João, eu não tive tempo ainda para ler todos os contos do seu livro, mas o que li: “O sonho do rio”, “Infatigável lanterna”, “Chave Mágica”, “Um caranguejo em apuros”, dentre outros, tem uma coisa em comum: o lirismo. É uma prosa adocicada, fácil, leve, com cheiro de rosa, de personagens simples, humanos, diria: ingênuos de alma e coração, mas não é de admirar, pois o título do seu livro é, talvez, o menor poema do mundo: “O polvo não sabia que o mexilhão tinha asas”. Não sei se a preclara amiga, o escolheu pela sonoridade ou pelo eufemismo que encerra em si, enquanto o polvo é um predador, cheio de tentáculos, que come peixes e crustáceos e invertebrados, o pobre do mexilhão fica preso às rochas através dos bissos e é um prato predileto das estrelas-do-mar.
     Em comum, o mexilhão e o polvo, são apetitosos moluscos, que os chefes de cozinha do mundo, criam os mais variados e gostosos cardápios, mas enquanto o polvo entorpece os seus predadores, lançando em sua fuga uma tinta tóxica e espessa, o pobre do mexilhão fecha-se em suas negras e azuladas conchas e ao invés de veneno, oferece pérolas ao homem, o seu mais pérfido predador.
     Ah minha amiga, tua sensibilidade poética deu “asas” ao indefeso mexilhão para que ele se desgarrasse das rochas e fugisse dos seus inimigos naturais e surpreendesse o polvo com suas asas. Mas, minha amiga, cá como lá nas terras lusitanas, não faltam gênios da palavra, artífices na descrição do amor e construtores imbatíveis da prosa e da poesia. Sua terra é um seleiro de talentos inesgotáveis. Gênios como Camões, Eça de Queirós, o cego Castilho, Júlio Diniz, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Ferreira de Castro e mais recente, Fernando Pessoa, honram qualquer pátria e qualquer nação, com certeza, hoje, eles continuam portugueses de nascimento, porém, acima ou abaixo da pátria, eles são patrimônios da humanidade.
     Aqui como lá, estimada Maria João, temos também os nossos gênios da música, da pintura, da poesia, da ciência, do futebol e, principalmente das letras. Tu conheces: Machado de Assis? Monteiro Lobato? Graciliano Ramos? José Lins do Rego? Jorge Amado? Érico Veríssimo? Drummond de Andrade? Guimarães Rosa? Vila Lobo? Cartola? Castro Alves? Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo? Tomás Antônio Gonzaga? Certamente que sim.
     Porém, erudita Maria João, dentre esses monstros sagrados, eu quero tua licença, para falar de dois gênios que se não tivessem nascido nestas tupiniquins, seriam tão endeusados quanto William Shekspeare, Milton, Allan Poe, Haminguey, Dante Alighieri, Plínio, Cícero e tantos outros que a memória me trai.
     Tu ouviste falar de Joaquim Maria Machado de Assis? Claro, porém, tu conheces a vida e a obra de Machado de Assis? Acredito que sim, mas minha amiga se tu não conheces a fundo esse gênio brasileiro, peço-te que dê uma folga aos seus afazeres e mergulhe na vida e na obra desse imortal das letras, desse artista da pena, pois além do exemplo de superação que deixou de menino pobre, mulato, gago, epiléptico, órfão de mãe e pai paupérrimo, ele aprendeu sozinho, latim, grego, francês, inglês e senhor absoluto da língua portuguesa.
     Com certeza, a minha amiga já leu Dom Casmurro, a Cartomante, Ressurreição, Memórias Póstumas de Brás Cubas e tantos outros títulos deixados por Machado de Assis, que me escuso citá-los para não encher o saco e a paciência da querida Maria João.
     Dom Casmurro minha amiga, é uma elegia em prosa. Machado de Assis vai tecendo fio por fio da trama, o amor, a amizade, a infidelidade, a confiança, a traição, a paixão e come frio o prato da vingança, mas “in dúbio pro réu”, é castigado ao longo do tempo pela consciência da incerteza e da dúvida e termina os seus dias longe de tudo e de todos, um dom casmurro, um anti-social e a memória de Capitu, Escobar e Ezequiel, corroendo dentro de si.
     Ademais minha amiga, é este mulato, descendente de escravos alforriados, casado com uma ilustrada mulher Portuguesa, Carolina Augusto Xavier de Novais, irmã do poeta português Faustino Xavier de Novais que fundou a nossa Academia Brasileira de Letras e foi o seu primeiro presidente. Hoje, sua obra é traduzida e lida em todos os rincões do mundo.
     Ah minha amiga, agora vou te pegar, sei que tu és uma intelectual das letras, uma filósofa, uma sabichona, mas tenho certeza que por essas nobres bandas lusitanas, não se conhece Angenor de Oliveira, ajudante de pedreiro, lavador de carro, biscateiro, fracassado negociante, serventuário público, poeta, compositor, sambista, músico e um dos fundadores da Mangueira, sua escola de samba verde rosa querida.
     Se ainda tu não descobriste quem é Angenor de Oliveira, tu não fiques triste, aqui, quase ninguém o conhece por este nome, mas se eu te falar, cá como lá, do compositor que produziu mais de quinhentas composições de primeira grandeza e foi visitado no seu Buraco Quente (um bairro no morro da Mangueira), por nada menos e nada mais do que os mestres da música, os maestros Stokovsky e Villa Lobos. O imortal Cartola, o conhecido negro Cartola, pérola negra da nossa poesia musical, acredito que tu sabes quem é, mas se tu ainda não lembraste, vejas aí em tua discografia, se tu encontras uma composição de Cartola, na voz da grande sambista Beth Carvalho:

As Rosas Não Falam
Beth Carvalho
Composição: Cartola
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza de que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

     Mas se tu ainda fores bairrista como o teu compatriota Eça de Queirós, que certa feita disse que “falar bem o nosso idioma é pronunciar mal o idioma estrangeiro”, que não acredto, pela mulher moderna do Século XXI que tu tão bem representas, que tu só ligas pra fado e não gosta de samba, esclarecer-te-ei, que os dois gêneros se completam no canto e nos pés pela força da alegria e da dança.
     Minha amiga, volto a bisbilhotar “O polvo não sabia que o mexilhão tinha asas”, inxerido, descubro o teu reconhecimento ao teu cônjuge Carlos de Oliveira que contribui com o desempenho do teu trabalho. Não me surpreendi, porque antigamente, dizia-se erroneamente, que “por trás de todo grande homem, havia sempre uma grande mulher”, hoje, o “por trás de todo grande homem...”, foi substituído “ao lado de todo grande homem...”, contigo, dir-se-iá a partir do teu reconhecimento ao maridão que “ao lado de uma grande mulher, há sempre um grande homem”.
     Espero ter expresso nestas páginas, o meu modesto comentário sobre o teu livro que não rompe com o gênero da escola realista, concretista, positivista, materialista, mas coloca um pouco de açucar na realidade dura dos nossas dias, na angústia do homem e com letras coloridas coloca no papel a realidade da vida, sem ser piegas ou uma ingênua romântica.
     Quero te parabenizar pelo “O polvo não sabia que o mexilhão não tinha asas” e que este parabéns seja extensivo aos milhares de homens e mulheres que cultivam as letras, a música, a pintura, a dança e outras manifestações culturais. Dizer-te que a literatura é o alimento da alma, que enquanto tiver uma viva alma produzindo textos como os teus levando entrelinhas amor e experaça, o homem será mais feliz.
     Enfim, abominar os cérebros, as inteligências que produzem bombas atômicas, armas biológicas, armas nucleares, armas de fogo, foguetes e toda parafernalha que destrói o homem e sua esperança de paz!... Do    amigo, agora, “companheiro de escrito”, Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna (BA).


e-mail: rilvansantana2005@yahoo.com.br 
Blog: http://saber-literario.com
http://saber-literario.blogspot.com
Google: Imagem ilustrativa
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 31/05/2012
Alterado em 16/11/2024

Carta para Paula - R. Santana

 

Carta para Paula
R. Santana

Querida filha:

     Há dezessete anos não conversamos e não nos vemos, às vezes, nos encontramos em sonhos, mesmo assim, não nos falamos, tu sempre distantes de mim, como se o tempo tivesse destruído o nosso amor e apagasse o nosso passado. Tu se lembras de mim, de tua mãe e dos teus irmãos? Acredito que sim, aliás, não tem tanto tempo a nossa separação, dezessete anos, é um ínfimo tempo do infinito tempo.
     Quanta saudade nós sentimos de ti!... Lembro-me dos teus primeiros passos, do teu primeiro aninho de vida, da tua primeira mamadeira, do teu primeiro bico, da andadeira que suado comprei para que tu começasses andar e peraltear pela casa, tudo era festa... Lembro-me quando começastes ler, sinto ainda hoje, o orgulho contido quando tua primeira professora elogiava tua inteligência e vaticinava futuro promissor que o destino te sucumbistes...
     Naquele mês de março de 1992, nos teus 15 anos, quando debutastes na vida social, toda fogosa, linda de viver, a minha princesa, tu despertastes olhares gulosos dos mancebos presentes e ciúme de pai, senti-me o homem mais feliz do mundo, mais realizado do que um sheik do petróleo e mais rico do que Bill Gates, pois ali estava o meu tesouro dado por Deus que nem Bill Gates nem o mais rico dos sheiks teriam fortuna igual, mas um ano depois, os desígnios do Senhor mudaram essa história para sempre, destroçando o meu coração, a minha alma e tirando-me a vontade de viver...
     O quê fazer, Paulinha? Tu foste para eternidade e nos deixou, aqui, neste mundo de prazeres efêmeros, de lágrimas, de doenças, sofrimento e desespero intermináveis. Às vezes, Paulinha, eu penso que Deus virou as costas para este mundo de promiscuidade, corrupção, perversão, egoísmo, maldade, ganância, injustiça e desamor, assim se explica, as desventuras do homem bom, do homem justo e os infortúnios das crianças inocentes.
     Tu deves ter lido o meu trabalho sobre felicidade, predestinação, determinismo, livro arbítrio, “O mundo das possibilidades”, Jesus e a natureza de Deus e etc., ali Paula, parece-me que encontrei a resposta para indiferença do Senhor às desgraças humanas. Somos as nossas circunstâncias, o mal em si não existe, vivemos no “mundo das possibilidades”, as coisas acontecem não como castigo ou permissão de Deus, as coisas acontecem conforme as possibilidades necessárias ou contingenciais, mas as coisas acontecem...
     Àquela noite de 11 de Novembro de 1993, a noite da dor, do sofrimento, da despedida, a noite que tu nos deixaste para sempre, a noite de mil noites, não “As mil e uma noites”, mas a noite que no leito da cama, tu destes o último suspiro de vida e nós, os teus pais, impotentes ao teu lado, restava-nos chorar, somente chorar, naquele fatídico momento, gritamos e nos revoltamos com Deus e com os céus, não entendíamos como Ele tirava de maneira sofrida a jóia mais preciosa que nos tinha dado, foi a noite mais mórbida, a mais mórbida do que todas as noites...
     Hoje, mais maduro e resignado pelo tempo, compreendo que a morte é uma possibilidade necessária para que o homem se perpetue em espírito incorruptível e não mais pereça, isto é o que nos sustenta, pois se não vivermos pela fé, se não tivermos algo para nos agarrar, se perdermos a esperança nas promessas do Senhor, a vida não vale a pena ser vivida, melhor seria o homem não ter nascido do que viver sob o auspício duma vida eterna de mentirinha.
     Num desses dias, acordei-me assombrado com a televisão ligada, a luz e o som entrando pela fresta da porta, tua mãe jurando que não a tinha ligado; eu não jurei, mas teimava também que não a tinha ligado, aí... o medo tomou conta de mim e dela, nós ambos, pensamos que algum “ladrão” se divertia sentado na cadeira do papai assistindo televisão, comodamente, gozando com o nosso medo de abrir a porta e encontrá-lo de chofre na sala... O meu coração saltava pela boca, já sentia o cano do revólver cutucando a minha costela, quando tua mãe, mais corajosa, puxou-me de lado, abriu a porta e lá para o nosso alívio, nem a sombra do ladrão encontramos.
     Porém, não me conformei de todo, pensamento lógico, eu não aceitei o argumento de tua mãe que me responsabilizava pela ligação da TV e dormido depois, por mais que batesse o pé que não a tinha ligado, ela insistia em me culpar, mas a resposta veio depois ao sonhar contigo o resto da noite. Naquela noite tu apareceste a mim em sonho, compreendi então, que foi tu Paulinha, que usou a cadeira do papai e a televisão para mandar-me um recado que somente tu e eu sabemos...
     A saudade não passa e o meu amor é eterno, sinto saudade de ti diuturnamente, não aquela saudade doída dos primeiros dias da nossa separação, mas uma saudade suave, perene e desprovida de ansiedade, uma saudade amiga que o tempo não consegue apagar.
     Enfim, os teus pais e os teus irmãos desejam que do lado de lá as coisas estejam bem melhor do que do lado de cá, que o teu sofrimento quando passaste por aqui serviu para melhorar tua alma e aproximar-te de Deus, nós do lado de cá, estamos purgando os nossos pecados a cada dia, numa peregrinação sofrida, na esperança de que um dia, todos nós, estejamos juntos não em tempo humano, mas em tempo infinito.
     Amor, amor eterno dos teus pais e irmãos!...
 



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença:Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna

Amado Jorge - R. Santana

 

Amado Jorge
Amado Jorge
R. Santana

          O nosso amado Jorge Amado não nasceu para pertencer a um lugar, mas nasceu para ser universal. Seus biógrafos tiveram o trabalho inicial de delimitar o lugar do seu nascimento por conta de algumas interpretações bairristas dos seus conterrâneos. Porém, nunca houve dúvida que Jorge Amado era brasileiro, baiano, adepto do candomblé e era Obá de Xangô no Ilê Opó Afonjá, comunista, jornalista e escritor. Todavia, tergiversava-se se ele era soteropolitano, ilheense, itabunense, pirangiense, itajuipense ou mesmo filho da fazenda Auricídia. Naquela época, com exceção da jovem Itabuna, tudo era município de Ilhéus, consequentemente, para os doutos de meia tigela, Jorge Amado era ilheense. Entretanto, a história é construída de fatos verdadeiros que podem ser dúbios no nascedouro mas incontestáveis no final: Jorge Amado foi registrado em 10 de agosto de 1912, Ferradas-Iabuna, Bahia, Brasil e ponto final.
          Na minha juventude, estudante do antiqüíssimo curso “científico”, hoje, com o rótulo de médio, comecei gostar de literatura. Li os românticos, os realistas, os simbolistas, os parnasianistas, os barroquenses, escritores brasileiros e portugueses. Tudo lindo, tudo bonito, gênios da palavra, mas fiquei enamorado dos modernistas, dos regionalistas. Quem não viaja na leitura de uma Rachel de Queiroz, de um José Lins do Rego, de um Érico Veríssimo, de um Adonias Filho, de um Graciliano Ramos, de um Jorge Amado e por aí afora? Todos.
          Claro que não se pode empanar o gênio de um José de Alencar, de um Bernardo Guimarães, de um Eça de Queiroz, de um Camões, de um Castro Alves, de um Fagundes Varela, de um Artur de Azevedo, de um Aluísio de Azevedo e de um Machado de Assis. Todavia, para o tabaréu que sou, sem muitos dotes intelectuais e culturais, a prosa regionalista que fala da terra, do chão que piso, das mazelas não muito distantes de um povo ignorante, de pouco saber, é essa prosa que gosto. E, quem pintou com cores fortes, divertimento, lucidez e ousadia essa prosa regional? Jorge Amado!...
          Comecei ler Jorge Amado depois que sua obra mais conhecida “Gabriela, cravo e canela”, virou novela, na Rede Globo, adaptação de Walter George Durst, com Sônia Braga, José Wilker e Paulo Gracindo nos papéis principais. Lembro-me que antes dessa novela, havia uma censura velada de suas obras, uma rejeição subjacente dos intelectuais, por considerá-lo desbocado, pornográfico, de poucos recursos gramaticais, uma subliteratura. As escolas, os professores, raramente usavam os seus textos na aprendizagem de seus educandos. Hoje, graças a Deus e ao bom senso, ele é um dos autores mais lidos e traduzidos em mais de 50 países, com adaptações no cinema e na televisão de suas obras. O erotismo de seus personagens, pode ser lido por ingênuos meninos que ainda estão fazendo a 1ª. Comunhão da Igreja Católica, comparado ao erotismo dos personagens de um “Budas ditosos” de João Ubaldo Ribeiro e de outros romancistas do gênero.
          Sua obra “Gabriela, cravo e canela”, é um poema em forma de romance. Seus personagens possuem uma ingenuidade, uma simplicidade e uma pureza de sentimentos que somente Jorge Amado sabia descrevê-los Quando João Fulgêncio tenta justificar e compreender as travessuras e a natureza infiel de Gabriela para o turco Nacib, o faz como se estivesse recitando um verso: “Nacib, certas flores são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo jarros de prata, ficam murchas,morrem”.
          Em Gabriela, cravo e canela, Jorge Amado narra à derrocada política dos coronéis do cacau que governavam entrincheirados por jagunços, em que prevalecia o poder de fogo de cada fazendeiro para decisão e homologação de resultados eleitoreiros viciados e cheios de fraudes.
          Os coronéis Ramiro Bastos, Melk Tavares e Amâncio Leal são os últimos remanescentes desse período arbitrário e autoritário das terras do sem fim. Esses personagens em Gabriela, cravo e canela, representavam um passado de lutas, de sangue derramado, de caxixes e de banditismo que duma forma ou doutra, tinham construído a civilização do cacau e Ilhéus era a cidade símbolo dessa civilização.
          Por outro lado, Capitão, Doutor, Ezequiel e Mundinho Falcão, representavam o novo, o império da lei, novos métodos administrativos, novas ideologias estribadas em ações políticas comuns, cujo principal beneficiado era o povo.
          O romance de Gabriela e Nacib, o crime da mulher do coronel Jesuíno e do seu amante, as raparigas e o cabaré de Maria Machadão, eram os condimentos necessários para o tempero desse romance e dessa história da civilização do cacau. Onde já se viu uma civilização sem esses ingredientes? Mesmo as civilizações mais primitivas, têm lutas, têm crimes, têm traições, têm paixões, têm amores impossíveis e tem o homem.
          "Tocaia grande" é a odisséia do cacau. A odisséia que Homero não escreveu porque não era baiano mas, a odisséia que Jorge Amado escreveu porque não era grego, com as cores vermelhas do sangue derramado dos jagunço e de homens que não arredavam pé do seu pedacinho de terra e terminavam estirados nos pastos servindo de comida para os abutres e de carniças para os urubus.
          “Tocaia grande” é o foro onde o capitão Natário da Fonseca e sua corja assinam a escritura do crime da terra, outorgando ao coronel Boaventura Andrade o direito de estender seus domínios por sesmarias de terras virgens, sem dono. Transformando dentre em pouco, o maior produtor de cacau daquela época e tendo como principal dispêndio, a compra de duas dúzias de rifles e munição.
          Em Tocaia grande, Tieta e Tereza Batista, são as obras que Jorge Amado mais explora o lado sensual e erótico dos seus personagens. O sexo, o sexo promíscuo das raparigas, das concubinas, das amantes e dos papa-crias, ele não ter sido considerado pela crítica especializada, durante algum tempo, um escritor de gênio universal.
Vejo em Dona Flor e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, o Jorge Amado místico, irreverente, que envereda nos fenômenos metafísicos com humor, hilariante, explorando o lado ingênuo dos seus personagens e sua miséria social, dando também, uma pincelada na sensualidade e no prazer que é a principal finalidade do homem para ser feliz. A morte não é o fim em si, mas uma mudança de plano.
          Embora haja alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido virtuoso, um mestre do idioma, foi um escritor preocupado em transformar seus vilões, em personagens vítimas de um contexto de exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição autodidata de um Graciliano Ramos, de um José Lins do Rego, de uma Rachel de Queiroz e de um desconhecido Franklin Távora, que falam do sertão, dos cangaceiros e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva, pasto para engorda do gado, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia.
          E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes em o Cavaleiro da esperança, e a história do comunismo brasileiro nos Subterrâneos da liberdade, ou quando ele dá uma de biógrafo em "A. B. C. de Casto Alves" ou quando ele narra as futricas, as intrigas, a ascensão e o poder da Academia Brasileira de Letras, em "Farda, fardão camisola de dormir", ele torna-se um autor maçante, de erudição chata e superficial, mas o veio de um romancista desenvolto, lúcido e inteligente que mesmo fora de sua seara faz história, é visível. Tomba, alquebrado pela idade e pela doença, o Obá de Xangô, em sua Bahia, na cidade de Salvador, em 06 de agosto de 2001, aos 89 anos, o maior romancista dos tempos atuais, do Brasil.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Crônica
e-mail: rilvansantana2005@yahoo.com.br
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 01/06/2012
Alterado em 07/03/2023

Carta para Jesus Cristo - R. Santana

Carta para Jesus Cristo
R. Santana

    Senhor Jesus, não sou nenhum teólogo, não tenho a sabedoria dos exegetas para esmiuçar a Sua palavra, cada parábola, cada parágrafo do Seu Livro Sagrado, também para mim e para os simples seria de somenos importância, o importante, é Lhe abrir o meu coração e lavar a minha alma.
    Não estou Lhe escrevendo para pedir riqueza, poder, conhecimento ou longa vida, mas, estou Lhe escrevendo para solicitar o perdão dos meus pecados, aumentar a minha fé, paz de espírito, e a sabedoria de Salomão para entender os desígnios de Deus e a coragem e a resignação de São Francisco para aceitar as atribulações dos meus últimos dias. Sei que não alcançarei a fé e a paz espiritual de São Francisco para tratar a Morte como irmã, porém, reconheço que é a única porta para chegar ao Senhor. Sei que serei atendido por Sua Misericórdia na remissão dos meus pecados e na Sua promessa de Ressurreição e Salvação, pois o Senhor empenhou a Sua palavra para aqueles que Lhe procurassem e eu creio Nela.
    Não fui um jovem dissoluto e nem um adulto mau e insensível ao próximo, aos olhos do mundo, porém, valorizei mais as coisas da carne e persegui uma felicidade fútil, efêmera. Hoje, é difícil para o homem pecador separar as coisas do mundo das coisas do espírito e abençoado é aquele que antes de expelir o seu último fôlego de vida concebeu essa graça.
    Cristo Jesus, eu agradeço-Lhe a oportunidade de Lhe mandar essa carta e revelar para o mundo o quão surdo fui para o Seu chamamento, dizer ao mundo que não é a dor e o sofrimento que suavizam e refrigeram a minha alma, mas é ter a certeza de que o Senhor perdoará os meus pecados e dar-me-á Sua bênção.

Do seu filho,
Renascido
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Carta-oração
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

A Criatividade - R. Santana

A Criatividade
R. Santana

    A criatividade é um dom de Deus. Escrever, pintar, esculpir, construir, fazer, transformar, são habilidades e atividades que, com aprendizagem e domínio técnico o homem aprende fazer, mas criar ou inventar é uma manifestação divina.
    Muitos engenheiros e arquitetos construíram prédios fabulosos, seguros, no mais preciso rigor técnico de cálculo estrutural e formas convencionais em nosso país, porém, foi preciso o gênio de Oscar Niemayer aparecer para torná-los mais belos em formas e lugares aprazíveis, em poesias...
    Todos ou quase todos os mortais balançam o esqueleto, mas foi Fred Astaire quem primeiro fez da dança um poema escrito com os pés. Os seus filmes congestionaram bilheterias em todo o mundo, não pelo conteúdo dos scripts, mas pela magia de sua dança.
Os livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha (Os sertões), Drummond, Fernando Pessoa, Shekspeare, Dante Alighieri, Haminguey, Allan Poe, Thomas Mann, Irmãos Grimm, Goethe, Dostoivski, Castro Alves, Jorge Amado, Kahlil Gibran, Homero e tantos outros, não foram somente escritores, foram gênios, deuses da criatividade e da escrita.
    Na música e na composição, Mozart, Beethowen, Friedrich Haendel, Villa Lobos, padre José Maurício, Noel Rosa, Cartola, Antônio Carlos Jobim, Adelino Moreira, não foram músicos e compositores de técnica, foram compositores e músicos de pura técnica e criatividade. Suas produções permanecem e permanecerão na história da arte para sempre pela criatividade e beleza.
    Na pintura e na escultura, Michel Ângelo, Da Vinci, Picasso, Monet, Renoir, Baldini, Almeida Júnior, Anita Malfatti, Carybé, Di Cavalcanti, Antônio Francisco, Lisboa, o Aleijadinho, não reproduziram formas e imagens, retratistas amadores, mas produziram formas e imagens divinas, com o dom da criatividade que Deus lhes deu.
    Deus premia somente alguns com o dom da criatividade e da invenção, mas não lhes premia de mão beijada, exige-lhes determinação e perseverança. Certa feita, Thomas Édson, um dos maiores inventores de todos os tempos, questionado por alguém se suas invenções eram inspiradas, ele respondeu-lhe que a inspiração não prescinde da transpiração, uma depende da outra. Se alguém ficar deitado, esperando que Deus lhe mande uma grande ideia, dê-lhe habilidade nas mãos, sensibilidade, insight, raciocínio lógico, nada acontecerá, mas se alguém tem uma boa ideia, persegue e persiste aquela ideia, diuturnamente, ele terá um desfecho feliz, mesmo que para muitos seja um contrassenso.
    Conta-se que Isaac Newton descobriu a “Lei da Gravidade” por acaso, quando embaixo de uma macieira, uma maçã lhe cai à cabeça. É evidente que Newton já perseguia essa ideia dos corpos puxados para baixo por influência de Galileu Galilei há longo tempo, porém, foi preciso uma centelha divina que lhe despertasse.
    Santo Dumont botou muito dinheiro no bolso, uma ideia na cabeça, se mandou pra Paris e inventou o avião. E, quando sobrevoou o campo de Bagatelle, com o seu XIV- Bis, deixando os franceses e o mundo estupefatos, com uma máquina mais pesada do que o ar, movida a gasolina, suas ideias e o seu feito estavam inscritos perenes na História.
    O físico e matemático Arquimedes, o homem das alavancas e roldanas, “dê-me uma alavanca e um ponto de apoio que levantarei o mundo”, descobriu a picaretagem de um ourives que enganou o rei Hierão, confeccionando uma coroa de prata e ouro, vendendo-a por puro ouro, e as leis de impulso da hidrostática, depois de um estalo divino em sua mente, quando Arquimedes imerso numa banheira, conta a lenda que despido, ele saiu pelas ruas gritando: “Eureka! Eureka!”, “Encontrei! Encontrei!”, a ciência registrava mais uma descoberta...
    Alexandre Fleming descobriu a penicilina depois de varar noites e dias, por um acaso de Deus, esqueceu umas placas com bactérias em cima da mesa do seu laboratório e o bolor destruiu essas culturas enquanto esteve de férias.
    A escola não produz gênios. A escola educa, transmite conhecimento e instrui pessoas. Se os geneticistas de todo mundo quisessem “construir” um Shekspeare, um Mozart, um Santo Dumont, um Machado de Assis, Rembrandt, um Picasso, um Charles Chaplin, não conseguiriam, salvo, se Deus acrescentasse uns cromossomozinhos de genialidade no DNA, o dom criatividade, da invenção.
    Alguém pode suscitar que este texto é uma apologia determinista o que não é verdade, o gênio não nasce pronto, nasce com as potencialidades (filosofia aristotélica de potência e ato), o meio, a educação, a interação social e outros fatores contribuem para que ele se transforme em ato.
    Cartola, negro e pouco letrado, passou alguns anos desaparecido, depois de várias investidas fracassadas em músicas e escolas de samba. No ostracismo, sumido, trabalhando de vigia e lavador de carro teve o seu momento providencial com Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta, quando por acaso o famoso jornalista o encontrou num bar, sujo e maltratado em 1956, de lá pra cá, o gênio de lindas composições, dentre tantas, “As rosas não falam”, jamais será esquecido.
    Que o tempo não me contradiga, mas Deus ao criar o homem, deu inteligência a todos e o dom da sabedoria e da genialidade a poucos.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Imagem: Google

Carta para Atir - R. Santana

 

Carta para ATIR
Carta para Atir
R. Santana

Querida Atir:

Hoje, li e reli suas correspondências. Suspirei e degustei cada palavra e cheguei transpirar de emoção. Suas palavras me transportam para adolescência, elas têm um efeito mágico, acho que só uma pessoa especial pode expressar tanto encanto.
Às vexes, gozo de alegria quando tu me tratas de “homem pensante”, como se fosse possível pensar um homem apaixonado. O homem apaixonado age, o homem pensante deita-se na rede dos seus pensamentos e fica preso aos ditames da razão. Se tu me perguntares quais dos dois homens que mais admiro, dir-te-ei, apenas, que a razão é a feiúra do ser e a paixão a face bonita da alma. Loucura? Sim! Há algo mais bonito do que a loucura do bem querer? Não! Por isto, convido-lhe para uma elegia à paixão.
O amor é um sentimento fraco, racional, de renúncia, de compreensão, pálido, próprio das almas fracas; enquanto a paixão é um sentimento forte, de posse, irracional, que rejeita preceitos moralistas e a renúncia é execrada. Acho que Nietzsche diria que o amor é o sentimento do homem inferior, do débil de vontade, do fraco de poder e a paixão é forte, inconseqüente, destemida, própria dos caracteres fortes e impávidos, traço do super-homem nietzschiano.
Bem, acho que tens razão quando tu me chamas de ”homem pensante”, pois desde que te conheci não fiz nada para romper os grilhões das circunstâncias e ter corrido ao teu encontro, te possuir e publicar ao mundo que estou apaixonado por uma mulher que me seduziu com palavras.
Goethe teve razão ao afirmar que: “pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos isso ainda o é mais”. Tu tens razão, repito, estou na categoria dos fracos dos pusilânimes, dos homens pensantes...


A história está cheia de homens pensantes e homens apaixonados. Quem conhece o poema de Dirceu e Marília de Tomás Antônio Gonzaga que no seu desterro africano dedica à sua amada Maria Dorotéia. Sentimento arrebatador e impossível que só finda com a morte do poeta. Marília de Dirceu é um culto ao amor e não à paixão.
Mas se tu, Atir, lerdes o Conde de Monte Cristo de Dumas, verás a diferença do amor e da paixão. Edmond Dantes, preso por uma conspiração política, após uma noite de amor com sua Mercedes, é mandado para uma ilha distante e permanece no calabouço por anos a fio e lá tem a ventura de encontrar na prisão o abade Faria que lhe deixou um tesouro, uma fortuna incalculável.
Dado como morto pelos falsos amigos e esquecido por Mercedes, volta à França, depois de salvar o seu filho de um encenado seqüestro em Roma, arruína o seu principal inimigo, Fernand Mondego, marido de Mercedes e pai intruso do seu filho e Mercedes.
Castro Alves, homem de muitas paixões e nenhum amor. Moço bonito, vozeirão possante, além de poeta, passou à história como um dos homens mais apaixonados do seu tempo. Talvez, tenha amado Idalina, jovem pernambucana, mas sua paixão desmedida foi a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Naquela época, atriz e prostituta se confundiam, Castro Alves não teve pejo, desfilou com sua amante Eugênia Câmara nos teatros, concertos musicais e saraus da Bahia, Rio e São Paulo, sob a censura de famílias tradicionais, a rejeição de alguns amigos e o olhar de concupiscência dos invejosos.
Dentre as mulheres apaixonadas da História, não se pode esquecer de Messalina, a terceira mulher do imperador Cláudio que numa noite de amor nos jardins do palácio, papou vários cortesãos, colocando uma coroa na estátua do deus Eros, a cada ato de prazer e pela manhã, expressa sua insatisfação erótica na célebre frase: “estou cansada, mas não saciada”.
A rainha egípcia Cleópatra também usou e abusou do seu corpo para se manter no poder, seduzindo Júlio César, imperador romano, general de muitas batalhas. Júlio César, primeiro dos césares, não resistiu aos encantos sexuais da rainha de nariz aquilino e a história registra que até filho lhe deu.
Mas a paixão de Cleópatra era movida mais por interesse de poder do que por apetite libidinoso e quando César foi assassinado por Brutus, Cleópatra se joga nos braços de Marco Antônio, principal triunvirato do governo de Roma e lhe deu dois filhos, morrendo depois picada por uma cobra, quando percebeu que suas urdiduras e faceirices deixaram de ser.

Maria Madalena, Maria Antonieta e Joana D´Arc são símbolos de paixão e de luxúria desmedidas e não símbolos do amor. Todavia, a História e a Igreja Católica redimem os pecados de Maria Madalena depois do seu encontro com Jesus Cristo.
Capitu de Machado de Assis - olhos de ressaca, oblíquos e dissimulados -, é talvez, o símbolo da mulher que mais sofreu e morreu por amor. Injuriada por Bentinho de tê-lo traído com Escobar, seu principal amigo e confidente. Com a morte de Escobar, Bentinho vê no seu filho Ezequiel, à medida que cresce, a ressurreição de Escobar noutro corpo.
Capitu sem voz e sem vez, é levada a um exílio forçado pelo marido, que a deixa com Ezequiel em um país da Europa, longe de tudo e de todos, sem lhe conceder o benefício da dúvida. Anos depois, ela morre por amor, ultrajada, esquecida e abandonada. Ezequiel, Escobar aos olhos de Bentinho, é quem lhe dar a notícia, morrendo logo depois numa expedição científica no Egito se não me falha a memória. E assim, fecha-se a história de uma mulher que desde adolescência amou e enamorou o seu único homem: Bento Santiago.
Querida Atir, depois desta enxurrada de palavras, prolixidade e exemplos, de paixões e de amor, rendo-me às tuas palavras de “caríssimo”, de “homem pensante”, de “sua admiradora”. Fazer o quê? Nada! Não tenho a têmpera dos fortes, o destemor dos valentes. Se bebesse iria afogar as minhas mágoas num copo na mesa de um bar como fizeram Noel e Vinícius, resta-me então, dizer-te: tu tens razão mulher de paixão!...

Do homem pensante,

Narvil

Autor: Rilvan Batista de Santana - Academia de Letras de Itabuna-ALITA
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 03/06/2012
Alterado em 03/08/2012

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