11.18.2025

F a b u l a ç ã o - R. Santana

 

F a b u l a ç ã o
R. Santana

As más línguas comentaram que um dia após o pleito de 01 de outubro de 2006, os candidatos, Luis Inácio da Silva e Geraldo Alckmin à Presidência da República do Brasil, encontraram-se na casa de um amigo comum em Brasília e desabafaram:
- Companheiro Alckmin, se não fosse àquela mulher não haveria o segundo turno?
- Qual mulher Lula, a D. Marise? – Não companheiro Alckmin, essa cuida de mim, até cidadania italiana já conseguiu. Se o povo não acreditar em mim, já temos pra onde ir né? O resto que se fo...
- Não entendi Lula, quem é essa mulher?
- O povo tem razão de lhe chamar chuchu! Demora de entender pra chuchu!... Eu falo da Luíza Helena, companheiro Alckmin!
- É uma mulher inteligente, é uma danada... supimpa mesmo! Ela não aceitou lhe apoiar no segundo turno? Se foi Lula, ela teve razão. Você, Dirceu, Mercadante não expulsaram-na do PT?
- Sei lá que porr... é supimpa Alckmin! Sei que ela é barraqueira, mulher paraíba, murrinha, que mete o dedo na cara! Lembra-se quando ela brigou com o ACM? É mulher-macho!...
- Ou Lula que medo é esse? Por isso, você não foi para o debate? Ela foi tão dócil comigo e com o Cristovam, ainda trocamos uns “selinhos”... digo-lhe mais, é uma mulher apetitosa!...
- Você está brincando comigo companheiro Geraldo? Aquilo ali dar é indigestão... Você já viu a Luíza de saia? Perna dela é igual perna de cobra... quem a vê morre!
- Lula, eu estou lá interessado em pernas? Quero ver o recheio e o coração. Você não conhece o provérbio do povo que “por causa de uma cara feia se perde um bom coração”? Afinal, qual foi o motivo mesmo de você não ter ido ao debate?
- Luíza Helena! Se fosse ela iria me crucificar, me enforcar, por isso me comparei a Cristo e a Tiradentes. Não observou companheiro, que a mulher de tanta raiva estava espumando? E o gogo, o pigarro, companheiro? Ela tem um pigarro dos diabos!...
- Lula, você é nordestino e todo nordestino é cabra da peste, não tem medo, principalmente, de mulher... Acho que você não foi porque estava com mais de 51 de confiança.
- É companheiro Geraldo, eu gosto do número 51, é uma boa idéia! Se eu tivesse tido 51% dos votos não estaria aqui lhe explicando o ululante!...
- Lula, no próximo domingo vai haver outro debate, se você não for vai pegar mal. Não vai poder justificar que foi a Helena. Ainda mais que você já convocou sua tropa de choque: o Wagner, o Ciro, o Mercadante, a Marta...
- Companheiro Alckmin, você está torcendo que eu tenha uma dor de barriga, um mal-estar... e lá não ir, mas dessa vez vou lhe estrepar, leve o Fernando. Vou perguntar-lhe pelo dinheiro das privatizações... Desta vez, faço questão de falar sobre a ética do meu antecessor!
- Não Lula, quem vive olhando pelo retrovisor é motorista de táxi. Quero levar ao conhecimento do povo que você não aproveitou o momento do boom econômico mundial. O país precisa se desenvolver e gerarmos mais saúde, educação de qualidade, segurança, transporte e emprego sem a sobrecarga de impostos que você criou!
- É companheiro, na boca tudo é fácil.... eu prometi muito, mas não pude fazer, se não fosse juntar a ignorância e a pobreza dos nordestinos na Bolsa Família, a essa altura estaria fu.... fu...zilado!
- Você é uma pessoa carismática, sabe manipular as massas, mas, não entende nada de administração, além disso gosta muito de picaretas e oportunistas. O seu inimigo trabalha ao lado. Em nome dum projeto de poder, vocês contribuíram para uma nova terminologia: dólares na cueca, valerioduto, mensalão!...
- Ufa!!! Não me dei conta do relógio... domingo nós voltaremos a conversar, porém, em frente dos holofotes para milhões de brasileiros. Que cada um venda seu peixe. O meu peixe o Nordeste já comprou!...
- Um instante Lula! Antes que domingo chegue, vou fazer um alertar ao povo brasileiro que você está usando os feitos dos outros como seus. Foi assim com os programas assistenciais do Fernando Henrique (rotulou em bolsa-família), com a auto-suficiência do petróleo, os programas de educação,o controle inflacionário... Que diria Getúlio que morreu há mais de meio século e foi no governo dele com a campanha de rua o “petróleo é nosso” quem nacionalizou o petróleo e fundou a Petrobrás? Acho que ainda vamos discutir ética política, pois você se apropria muito das idéias e dos feitos dos seus antecessores!
- Companheiro Alckmin, eu não sou de leitura, é uma coisa chata! Mas o Roberto Campos disse que a diferença entre a inteligência e a ignorância, é que a inteligência tem limite e nesse mundão de meu Deus tem muito ignorante...

“Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral.”
Fidel Castro

Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 03/06/2012
Alterado em 03/08/2012

Carta para o jovem Paulo - R. Santana

 

Carta para o jovem Paulo
Itabuna, 04 de novembro de 2009.

Estimado Paulo:

Há mais de um mês procuro tempo para responder sua carta, a priori, quero lhe parabenizar pela sua dissertação de mestrado: “Os antagonismos exegéticos das religiões”. Li sua tese de mestrado, ponto por ponto, por isto, demorei tanto para responder sua missiva, pois sua carta é uma apresentação sucinta do seu trabalho acadêmico com os seus questionamentos e conclui com a discussão da natureza de Deus.
Surpreendi-me com o seu pedido duma análise do seu texto acadêmico, tecesse comentários, desse a minha opinião... Confesso-lhe que inicialmente, o seu pedido inflou o meu ego, senti-me um douto, um sábio, um mestre da dialética, mas tudo caiu por terra quando se acenderam os lampejos da lucidez e dei-me conta que a minha ignorância é maior do que os meus parcos conhecimentos e conclui que o estimado jovem usou o mesmo raciocínio da Pitonisa grega que declarou que dentre todos os gregos, Sócrates era o mais sábio, por ser o único que tinha consciência de sua ignorância.
Não sou um teólogo, não sou um exegeta, levo bronca do nosso pároco por ir aos domingos à missa do Senhor sem a Bíblia e recusar-me fazer a leitura dos textos bíblicos ou participar de algum grupo de oração e evangelização, mas não me incomodo, eu prefiro o anonimato, apenas um crente, um humilde servo de Jesus Cristo...
Sob a palavra de Jesus Cisto deposito a minha esperança na vida eterna e na ressurreição, Ele alimenta a minha fé num Deus criador e misericordioso que pelo poder da oração é dobrado. A história das religiões está cheia de homens e mulheres que Deus lhes tocou, foram divisores na história do pensamento e da ciência, a exemplo de Maomé, Moisés, Abrão, Salomão, Davi, Jesus Cristo, Einstein, Descartes, Galileu, Isaac Newton, Sta. Teresa de Ávila, Santa Catarina de Siena e tantos outros.
Meu caro Paulo, queixa-se da falta de fé, a fé, crença religiosa, não se transfere, não se vende em mercado, em shopping, a fé é um sentimento que se exercita dia-a-dia e se reforça pelas obras e pelo desprendimento e renúncia das coisas iníquas e condutas imorais.
A fé tem que ser sentida, eu lembro-me de um folheto, desses distribuídos pelas igrejas protestantes com mensagens significativas. O folheto narrava a história de um ateu que debochava da palavra de um pregador enquanto ele fazia sua preleção. Ele não se fez de rogado, convidou-o para o púlpito e sem delongas, descascou e começou chupar uma laranja diante do menoscabo e desdém do ateu. Ainda degustando a fruta, de chofre, perguntou-lhe se a laranja estava doce ou azeda, o que deixou o homem atarantado, sem resposta, aí, o orador concluiu que a fé assim como o sabor da fruta, tem que ser sentida, chupada, vivida...
Paulo, a fé por si só, é egoísta e inócua, veja o que diz o Evangelho de Tiago: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tiago 2: 14 -26). Por isto, meu caro jovem, sugiro-lhe que comece pelos gestos solidários que a fé vem a reboque.
Noutro trecho de sua carta, justifica sua falta de fé, citando homens e mulheres que contribuíram para ciência, para arte, para filosofia e não encontraram Deus e foram importantes para humanidade e cita dentre outros: “Albert Camus, Schopenhauer, Augusto Comte, Carl Saga, Pablo Neruda, Simone Beauvoir, Freud, James Watson, Machado de Assis, Ângela Carter”.
Não sei se lhe tocará o coração e servirá para melhorar o seu juízo algumas informações que lhe passo agora, nem posso lhe garantir que a desdita, o vazio, a infelicidade e os desencontros desses homens e mulheres foram porque não tinham fé, acreditavam na matéria e sua evolução, mas todos eles, não tiveram uma vida serena nem uma morte tranquila, os conflitos ideológicos e os desajustes pessoais foram os seus principais estigmas.
Sou um tabaréu, não possuo sua desenvoltura científica, não tenho sua intimidade no manuseio da palavra, gostaria de ter essa facilidade para colocá-las no papel o que eu penso, cada palavra que escrevo é espremida e parida com dor, por isto, não sei se lhe estou sendo convincente na análise de sua carta, porém, prometo-lhe esforçar-me para discutir, tecer comentários, doravante, sua dissertação de mestrado: “Os antagonismos exegéticos das religiões”.
Na página 12 do seu trabalho acadêmico, primeiro parágrafo, chamou-me a atenção a proposição: “... os monoteístas atribuem-Lhe imagem e o homem Lhe é semelhante, tornando-O limitado e finito, assim o fizeram os politeístas, só que estes exageraram nos fetiches”. Meu amigo, em Timóteo II, 3:16, diz: “... toda a Bíblia é inspirada por Deus e proveitosa”. Porém, recomendo-lhe que a interpretação dos textos bíblicos não pode ser literal, ademais, a Bíblia ao longo de centenas de anos, deve ter sido modificada e acrescida de termos por força das várias traduções até Johann Gutemberg.
Se o homem continua após a morte em espírito, é esta a semelhança, pois Deus é espírito infinito sem começo nem fim, o homem como sua criatura Lhe é semelhante. Acredito, também, plagiando Rousseau, que o homem é bom por natureza e a sociedade torna-o mau, ruim e desumano, portanto, o homem Lhe é semelhante e não igual em bondade, amor ao outro e, espírito.
Paulo, embora alguns religiosos acreditem que Deus criou o homem à sua “imagem e semelhança”, conforme o livro de Gênesis (Gênesis 1: 26 e 27), salvo as justificativas no parágrafo anterior, é uma figura de estilo, uma construção retórica, um recurso simbólico, usado pelo autor do Livro Sagrado para explicar humanamente o mistério da criação por Deus.
Noutro trecho de sua tese, existe a seguinte afirmação: “... a Trindade é um axioma falso, imposto pela maioria das religiões monoteístas cristãs para explicar a divindade e a natureza de Jesus Cristo, todavia, numa análise mais acurada, três pessoas em uma, é racionalmente impossível”. Meu caro jovem à luz do pensamento lógico, da propriedade física, dou-lhe razão, inclusive, algumas religiões comungam com o seu pensamento, mas permita-me o aforismo: “religião, política e mulher, não se discute se abraça...”, pois a religião, a política e a mulher são eivados de qualidades e defeitos, se priorizarmos os defeitos ou aquilo que consideramos defeitos, por ignorância ou intolerância, nada nos satisfará... A fé nos torna mais tolerante e menos exigente, por isto, aceitemos a Trindade pela fé.
Conheci-lhe ainda imberbe, sua saudosa mãe, D. Cândida, mãe coruja como todas as mães, orgulhosa e ciosa de sua inteligência, intimamente, sofria com o seu desdém, desde cedo, pelo pouco caso que demonstrava com a sua igreja de nascimento, a sua incredulidade, o seu ateísmo, valorizando mais os fatos prováveis, o positivismo, em detrimento da fé, da sensibilidade religiosa e da crença no Criador.
Não possuo capacidade persuasiva para lhe converter, pois sou fraco na escrita e nulo na retórica, ademais, não se converte um ateu através da palavra, talvez, essa conversão seja possível através do exemplo e a dor.
Gostaria de voltar ao assunto da Trindade e lhe dizer que não é, somente, eu e você que temos dúvidas, os padres que conheço e alguns teólogos não me deram ainda, uma explicação convincente, o próprio Jesus Cristo deixou entrelinhas, quando diz: “O Pai é maior do que eu.” (João 10: 36; 6: 57), acrescenta: “Aquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?”, completa: “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Colossenses 1: 15), São Paulo gradua a submissão de cada um: “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo (I Coríntios 11: 3), isto significa que o Pai é um e o Filho é outro... A Bíblia não fala dessa unicidade: “Pai, Filho, Espírito Santo...”, de maneira clara, mas subjacente, a exemplo de João: “Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.” ( João 5:7).
Querido amigo Paulo, para justificar a minha fé, deixá-la mais racional, encontrei a minha própria interpretação sobre a Trindade e dou-lhe de graça, sem nenhum ônus, peço-lhe apenas, que não a mostre aos seus colegas nem aos seus mestres, eles irão rir da minha tosca imaginação, porém, prefiro ser ridicularizado e não sustentar uma fé vazia:
“O Pai é o Supremo Criador, enquanto o Filho é sua Primeira Criatura feita Homem e o Espírito Santo, é a essência e a natureza divina da Trindade”.
Lá, em sua dissertação, chamou-me a atenção, a tese que o jovem amigo desenvolve acerca do tempo. Achei o contraditório brilhante enquanto raciocínio científico, todos esses fatos, sobejamente comprovados com o auxílio do carbono C-14, de efeito retroativo do tempo, porém, permita-me meter o bedelho em sua tese, tomando como referência o parágrafo final do seu trabalho acadêmico: “... negar a importância da Bíblia como um dos principais livros da Historia Universal da Humanidade é tapar o Sol com uma peneira, todavia, à luz da ciência, muitos fatos não se sustentam pela incoerência do tempo, o tempo é negligenciado em todo o Velho Testamento, os teólogos argumentam que Deus é atemporal, mas os autores dos Livros Sagrados eram humanos, tinham compromissos com o tempo e a verdade dos fatos”.
Paulo, eu agradeço a Deus por ter me dado vida, muito tempo de vida, para gozar as coisas boas e ruins do mundo. As coisas mundanas se gozam na mocidade, quando não temos idéia da morte e a luxúria e os prazeres da carne tomam o nosso corpo e a nossa alma. Quando os cabelos se fazem encanecidos, as paixões diminuem e tomamos consciência da nossa fragilidade, da nossa pequenez, é que nos agarramos à esperança de vida eterna e nas promessas de Jesus Cristo. Noutras palavras, não enxergamos as coisas somente com os olhos da ciência, os olhos da fé são mais importantes, por isto, posso lhe dizer com devida vênia que o seu trabalho carece de alguns complementos, porque o tempo não é somente cíclico, o tempo também é cósmico e metafísico, Deus se mexe no tempo espiritual, em que o passado, o presente e o futuro é o agora, no livro de Pedro está escrito: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (II Pedro 3: 8).
Paulo, eu peço-lhe paciência, sei que todo jovem é apressado, você não é exceção, irá queixar-se do tamanho desta missiva, por isto, eu vou apressar o desfecho desta carta, não vou analisar todos os pontos de sua dissertação, porém, permita-me que eu teça alguns comentários naquilo que é mais importante: a natureza de Jesus Cristo. O seu juízo: “... Jesus Cristo não é o Filho unigênito de Deus. Nele a Igreja Católica se inspira e foi fundada há dois mil anos. Ele tem a mesma importância religiosa, filosófica e histórica de um Maomé, de um Moisés, de um Salomão, de um Davi, de um Abrão e doutros expoentes religiosos, do budismo, do hinduísmo, do confucionismo etc.” Meu amigo, eu quase caio de costa quanto li este texto, pela heresia e pela ignorância exegética dos textos proféticos e escatológicos do Antigo e Novo Testamento.
Estimado amigo, não se pode negar a importância religiosa e histórica desses homens, eles mudaram o rumo da História, porém, foram homens santos e pecadores, que por desígnios de Deus foram escolhidos, todavia, não podemos compará-los a Jesus Cristo em santidade, providência e autoridade. Se Jesus não é o Filho unigênito de Deus, toda a Escritura é uma fraude, pois sua vinda é anunciada desde o princípio dos tempos: “E os teus ouvidos ouvirão a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele, sem vos desviardes nem para a direita nem para a esquerda (Is 30: 21); “E, sendo Ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que Lhe obedecem” (Hb 5: 9).
Se analisarmos a história de vida dos demais homens de Deus, veremos que eles foram guerreiros, pastores, negociantes, reis, pais de família, com mais de um casamento e muitos filhos, tomemos, por exemplo, o profeta Maomé, com o maior número de adeptos do mundo depois de Jesus Cristo.
Maomé, o maior profeta dos muçulmanos, nasceu em Meca no ano 570 a.C., foi comerciante na juventude, analfabeto, teve dois casamentos, sua primeira mulher foi Kadidja, uma viúva rica, mais velha 15 anos do que Maomé. Cultivava desde a juventude, retiro espiritual, num desses retiros, encontrou-se com o arcanjo Gabriel no monte Hirã que lhe confia à missão de falar de um Deus vivo, criador dos céus e da Terra, no meio duma cultura politeísta.
Maomé imprimiu o islamismo através da força e dos conchavos políticos. A História registra que ele participou de umas 26 batalhas e consolida sua vitória na batalha de Khandaq com um exército 10 mil homens.
Maomé morreu em Medina aos 63 anos, mas a cidade do Profeta é Meca e o seu livro sagrado é o Corão. Não realizou nenhum milagre, para os quase 2 bilhões de adeptos, ele não é santo, mas um homem santo, escolhido por Deus.
Amigo, sua tese da não divindade de Jesus Cristo não se sustenta, compará-los aos demais homens de Deus, é uma ignomínia, as Escrituras testificam – No, como o Príncipe da vida: “E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas” (Atos 3:15).
Enfim, espero que o jovem ateu amigo seja um ateu como aquele ateu dono de farmácia: por descuido, vendeu por engano, veneno a uma garota esbaforida que clamava socorro para sua mãe, assim que a garota saiu, o ateu deu-se conta da desgraça, não claudicou, ajoelhou-se e orou a Deus sua intercessão e o milagre aconteceu pouco tempo depois: a menina voltou, chorosa, que pela pressa, caiu e o frasco quebrou...


Cordialmente, o seu velho amigo,

R

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: carta.













11.17.2025

Joaquim Maria Machado de Assis - R. Santana

 

Joaquim Maria Machado de Assis - R. Santana

          Alguém poderá argumentar lendo este texto como que no século XXI, um incauto qualquer ainda perde o seu tempo para escrever sustentando o fatalismo, o determinismo ao invés de sustentar o livre arbítrio, tese consumada por tantos doutos das ciências humanas em voga e das tradicionais. Responder-lhe-ia que estou usando do seu livre arbítrio e não do meu determinismo para colocar no papel as minhas idéias retrógradas. E, entre os textos científicos que hoje dizem uma coisa e amanhã diz outra, prefiro ficar com a sabedoria popular que é empírica e milenar. Se não fosse ousadia (não é nova a proposta), sugeriria aos homens de ciência que eles construíssem um tratado conciliando os dois pensamentos filosóficos, porque somente crendo num destino traçado pelo Criador é que se explica essa história de determinação e sucesso literário de Machado de Assis.
          Mas se alguém contra-argumentar usando o livro de Deus que Ele deixou como herança para o homem a escolha do bem e do mal, replicarei que lá também está escrito que “...não cairá uma folha da árvore sem o consentimento do Deus”, noutro lugar está escrito: “... ele nasceu cego para que se manifestasse a vontade de Deus”, ou seja, temos um livre arbítrio relativo com forças desconhecidas por trás.
          Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e morreu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Filho do mulato Francisco José de Assis e da portuguesa da ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado. O pai de Machado era descendente de escravos alforriados. Cedo ficou viúvo, casou-se com Maria Inês. Moraram algum tempo, no sítio de D. Maria José Barroso Pereira, esposa do senador Bento Barroso Pereira, como agregados.
          Com a morte do marido, Maria Inês muda-se para o bairro de São Cristóvão e consegue um emprego de doceira numa escola do bairro. A história não lhe é justa porque ela se não foi responsável diretamente na sua formação intelectual, ela o foi na sua formação moral e nos meios de sua subsistência na adolescência.
          Pasme leitor, não existe registro que Machado tenha freqüentado escola regularmente. Sabe-se que ia vender doces na escola onde trabalhava a madrasta. Acredita-se que na hora das aulas, Machado ficava às espreitas assistindo as aulas.
          Aprendeu francês com madame Gallot, proprietária de uma padaria. Inglês e latim com o pároco de sua igreja e ainda o ajudava como coroinha. Mais tarde aprendeu alemão. Sempre foi um autodidata intelectual. Traduziu Vítor Hugo e Edgar Allan Poe.
          Os seus conhecimentos versavam em Filosofia, História Universal, Português, Sociologia, História do Brasil, além dos idiomas estrangeiros. Ou seja, açambarcava todo conhecimento de sua época.
          Era uma figura esteticamente inexpressiva: mulato, baixo, gago, epilético. Nada chamava sua atenção. Embora não fosse antipático, era por demais tímido e retraído, talvez, pela vida solitária que levou na infância e adolescência, morrendo-lhe cedo a única irmã. Sua determinação, sua inteligência, seu gênio universal, entretanto, fizeram-no o maior escritor brasileiro de sua época e um dos escritores mais lidos do mundo.
          Carolina Xavier de Novaes, portuguesa, irmão do inexpressivo poeta Faustino Xavier de Novaes, foi sua mulher e seu principal porto seguro. Quatro anos mais velha do que ele, Carolina entrou na vida de Machado e fez morada, não pela beleza física, possuía atributos naturais comuns às jovens de sua época. Porém, suas qualidades morais e intelectuais eram raras, de certa forma contribuíram para quase três décadas de feliz convivência conjugal. Conhecia e lia os principais romancistas brasileiros e portugueses, além dum conhecimento razoável da cultura francesa e inglesa.
          Aos 15 anos publica seu primeiro trabalho literário na revista Marmota Fluminense. Seu primeiro emprego de relevância foi de aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial que tinha como diretor o famoso romancista Manoel Antônio de Almeida. Muitos anos depois ingressa no Ministério da Agricultura Comércio e Obras Públicas e aposenta-se como diretor do Ministério da Aviação e Obras Públicas, cargo mais importante depois do ministro.
          No mundo intelectual, Machado foi cronista, tradutor e crítico literário. Escreveu poesias contos e romances. Embora tenha sido influenciado pela escola romântica e realista, Machado é Machado, tem estilo próprio.
          Machado de Assis é um dos maiores escritores da língua portuguesa pela criatividade, capacidade analítica, sintética e uso correto da gramática. Cada palavra dos seus textos é pesada, medida e calculada é como se ele tivesse tido o cuidado de ir colocando tijolo por tijolo numa grande parede de tijolos à vista. Olha o prumo, se o tijolo não precisa ser cortado para se adequar ao espaço ou se ele não está destoando quanto à cor e ao tamanho dos demais. A concisão ortográfica dos termos, capítulos curtos ( vide Dom Casmurro), suspense e dúvidas do desfecho, histórias curtas (por isso cultivou o conto mais do que o romance), textos introspectivos, desconfiado quanto à essência do ser humano, entretanto, são textos amadurecidos e recheados de humor.
          Nos seus primeiros livros, embora tenha desenvolvido conteúdos inteligentes quanto à forma, nota-se um romantismo ingênuo, com histórias românticas em que o leitor, a priori, imagina o desfecho. Livros como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e outros marcam a primeira fase da obra de Machado de Assis de um autor que ainda não tinha definido o seu estilo. Há quem afirme que até nessa primeira fase, Machado é original.
          Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro etc., temos aí um escritor amadurecido, um artista da palavra e do enredo. Seus temas são universais, é o primeiro escritor brasileiro e quiçá do mundo que um defunto volta para falar de sua vida e numa atitude mórbida saúda o verme responsável pela degenerescência da sua matéria. Em Quincas Borba fala de amor e desilusão, todavia, a obra que atinge o ápice, particularmente, é Dom Casmurro.
          Dom Casmurro é uma obra narrativa em que o autor explora fundo os mistérios da alma humana e da simulação. Todos personagens escondem o seu verdadeiro eu, começando por Bentinho principal personagem da história que passa o tempo todo simulando o conflito entre seguir a carreira eclesiástica para cumprir as promessas de D. Glória, sua mãe, ou gritar para o mundo seu amor por Capitu.
          José Dias, falso médico, agregado da família Santiago e fiel escudeiro de Bentinho, exerceu uma diplomacia ímpar para conciliar os conflitos e os interesses da família de D. Maria da Glória até sua morte.
          Escobar é a peça chave de um triângulo amoroso que não deixa o leitor certo de sua infidelidade. A semelhança de Ezequiel e Escobar pode ter sido estratagema que Machado colocou para justificar a traição de Capitu ou deixar o leitor mais cioso dos fatos, pois por ironia do destino, Capitu era parecidíssima com a mãe de Sancha Gurgel, mulher de Escobar, sem nenhum parentesco ou afinidade, não chegou conhece-la.
          É sabido que é uma trama com lugares comuns que se passa na alta sociedade do Rio de Janeiro. Entretanto, é uma verdadeira arte na construção das frases, nos capítulos curtos, no elemento da dúvida e na adoção de um vocabulário inteligível.
          Em 20 julho de 1897, a Academia Brasileira de Letras torna-se uma realidade e Machado de Assis é seu primeiro presidente, ao lado de Joaquim Nabuco, Barão de Lorato, Raimundo Correia, Aluísio de Azevedo, Clóvis Beviláqua e tantos outros expoentes das nossas letras.
          Fechamos esta crônica com a tese de conciliação do determinismo e do livre arbítrio. Como um negro, pobre, gago, epilético, suburbano, que não freqüentou a escola regularmente, pode se tornar um dos maiores escritores do mundo e o fundador e presidente de uma Academia de Brasileira de Letras? E a resposta é sempre evocar a missão que cada um tem aqui neste pequeno e grande planeta.
 


Autor: Rilvan Batista de Santana 
Crônica: Joaquim Maria Machado de Assis – escritor brasileiro
Rua: Cosme Damião, 69 São Caetano-Itabuna-Ba CEP 45.607-030
e-mail: rilvan.santana@yahoo.com.br
Licença: Creative Commons
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 19/06/2012
Alterado em 27/02/2023

O caminhoneiro - R. Santana

 

O caminhoneiro
R. Santana

     Diz o provérbio popular que quem conta um conto aumenta um ponto. Não existe outro preceito mais verdadeiro da comunicação oral.
    Não me lembro do nome da técnica pedagógica que participei quando estudante, em priscas eras, mas lembro-me que um professor de Literatura, para justificar a força da tradição oral e a riqueza da imaginação popular, reunia um grupo de 15 ou 20 alunos numa sala, em círculo, cochichava ao ouvido do primeiro uma pequena historinha, a exemplo de: “o cavalo de Napoleão era branco e possuía uma cela dourada...” e cada aluno ia retransmitindo essa historinha ao ouvido do mais próximo e quando o último aluno contava o que tinha ouvido do penúltimo, a historinha continuava fiel à sua essência, mas novos fatos lhe eram acrescidos nunca diminuídos.
     Nas minhas férias juninas deste ano, conheci um caminhoneiro em Estância, alegre cidade sergipana, com um veio humorístico natural que se bem produzido e lapidado, deixaria o rouquenho Chico Anísio e o intragável Tom Cavalcante no chinelo. Irei chamá-lo de Clinton. Não é o mulherengo Clinton e ex-presidente estadunidense, é um Clinton sergipano, ingênuo, simples, pai de família, que se diverte fazendo na gozação de tudo e de todos. O seu alvo preferido é o negro: “a culpa é da princesa Isabel...” e arrematando: “... mas tudo vai voltar ao que era, pois a princesa assinou a Lei Áurea a lápis!...”, então, com a própria mulher: “quando eu a conheci, a única carne sem osso que ela comia eram bofes de carneiro, agora, a infeliz só quer comer filé-mignon, ou, a primeira vez que a levei para praia, ela perguntou-me onde era a fila do ingresso”.
     Não pense o leitor que Clinton é racista, conhece História, Antropologia, deboche com maldade do negro ou discrimine o pobre, é tudo brincadeira e gozação, pois ele tem pessoas que lhe são caras que são negras e pobres. Ele não fala em tom racista e discriminatório, mas usa os notórios fatos históricos como gancho para sua comédia cotidiana.
     Pois foi esse humorista do povo que me contou uma história de arrepiar os cabelos sobre um caminhoneiro que ficou enguiçado na estrada por uma falha mecânica ou elétrica de sua carreta, no escuro da meia noite.
     Não sei se reproduzirei ipsolon por ipsolon a narração de Clinton, mas procurarei ser fiel às suas palavras e se o leitor achar que estou lhe faltando com a verdade, que estou inventando, que acrescentei mais de um ponto ao conto, darei o endereço de Clinton e se foi um conto da carochinha que ele me contou, que sua despesa de ir até lá seja ressarcida. Porém lhe advirto: pescador e carreteiro mentem mais do que cachorro de preá, é muito difícil, nós, de imaginação mediana, descobrirmos, onde a mentira finda e a verdade começa.
     Contou-me que um caminhoneiro quebrou o seu carro antes de chegar aos Treze de Lagarto. Um lugar bonito, cercado de muitas fazendas de pecuária e muitos sítios, mas pela adiantado da hora, não havia uma viva alma para pedir socorro, fazia medo. Destemido, o motorista ligou uma lamparina à bateria e começou futucar a máquina para localizar o defeito e sair daquele sufoco. Quando do nada surgiu um homem, ainda moço, oferecendo-lhe ajuda.
  O caminhoneiro assustou-se no início, mas o desconhecido foi-lhe tão prestativo, convincente, que na casa do sem jeito, ele não teve outra saída senão aceitar os seus préstimos:
     -O senhor é mecânico? – perguntou-lhe o carreteiro.
     -Trabalhei muito tempo com essa marca de carro!
     -Não dirige mais?
   -Não, dou socorro aos meus colegas, quando me é oportuno!... – e assim, deu-se o encontro.
     Ficaram mais de três quartos de hora mexendo aqui e acolá. Descobriram que o defeito era de somenos importância: um fio que tinha rebentado e interrompido a corrente que alimentava o sistema elétrico. Restaurado o sistema elétrico, arrumada as ferramentas e grato pelo serviço, o carreteiro desejou quase a pulso, compensar financeiramente aquele desconhecido que não sabia de onde ele tinha vindo e não sabia para aonde ele ia e que lhe tinha sido tão providencial.
     -Senhor, aceite o meu pagamento! – pediu-lhe o carreteiro.
    -Não, não fiz nada para merecer este pagamento!
  -Deixe de ser modesto! Se não fosse o senhor, eu teria que ir a Lagarto buscar um mecânico ou um reboque, por um fiozinho rompido... – insistiu o carreteiro. Por isto, o desconhecido lhe propôs:
     -Já que o senhor insiste, passe nos Treze e dê esse dinheiro à minha mãe!... – deu-lhe o endereço e o nome de sua genitora e seguiu viagem a pé.
    O carreteiro, pelo atraso, pela pressa, passou nos Treze e foi direto para Lagarto e somente lá depois da carga entregue é que se lembrou do compromisso e no retorno passou pelo lugarejo para localizar o endereço e a mãe daquele que lhe socorreu num momento difícil e depois de alguma procura, encontrou uma velha senhora de cabelos encanecidos e grande foi sua surpresa:
     -Minha senhora, foi o seu filho que me pediu que lhe desse este dinheiro!!! – repetiu o caminhoneiro pela terceira vez.
   -Já disse ao senhor que não tenho filho homem. O único que tinha morreu num acidente de caminhão há quatro anos! – disse-lhe a pobre senhora.
     -O seu nome é Elizabeth Pinheiro?
     -Sim!
     -Aqui não é Rua X?
     -Sim!
     -Existe outra Elizabeth Pinheiro aqui nos Treze?
     -Acho que não!
    -Então, é a senhora mesmo!... – o caminhoneiro já impaciente, quando surge uma jovem senhora que intercede no diálogo:
     -Senhor, o único irmão que eu tinha morreu há quatro anos!
     -Sua mãe já me falou!
   -Ele deu-lhe o nome? – o caminhoneiro ficou meio absorto, forçou a mente para lembrar, mas por fim...
   -Acho que disse qualquer coisa como “Kiko”, “Kid”, “Quito”... – as mulheres estavam intrigadas...
     -Quito! – adiantou a irmã. Completou:
    -Ele se chamava “Francisco”, mas nós o chamávamos de “Francisquito”, inicialmente, depois de “Quito” e com o apelido de “Quito” morreu!... – o caminhoneiro estava estupefato e mais estupefato ficou quando lhe foi mostrado o retrato de Quito exposto na sala:
     -Ele pouco antes de morrer!... - indicou-lhe a jovem senhora.
Dúvida desfeita, segredo mantido. O caminhoneiro por pouco não dá um faniquito. Reconheceu o seu benfeitor, não havia dúvida: tinha sido aquele homem do retrato que lhe tirara do sufoco na estrada erma com a carreta enguiçada. Mas como explicar isso às bondosas senhoras? Não, não sabia explicar-lhes, elas não iriam entender o mistério do fantasma ter-lhe socorrido, por isto, o segredo estava mantido e a dúvida delas desfeita:
     -Não, não foi este moço senhoras... Perdoem-me pelo transtorno!– desculpou-se.
    O caminhoneiro saiu dali às pressas, perturbado, a custo deu o dinheiro à velha senhora com o pretexto de tê-la metido naquele equívoco e não mais ter tempo para desvendá-lo.
  O caminhoneiro jurou para os seus colegas que jamais voltaria àquela estrada, sozinho!...
     Hoje, na curva daquela rodovia, alguém mandou fincar uma enorme cruz de madeira e no seu sopé uma pequena lápide com a seguinte inscrição: “Quito (*1950 e + 1988), não morreu pela vontade de Deus, mas pela sua permissão, ele continua caminhando por essa estrada...”.


Autor: Rilvan Batista de Santana 
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Academia de Letras de Itabuna – ALITA
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 19/06/2012
Alterado em 16/09/2025

João Bode - R. Santana

 

João Bode
R. Santana

     O prenome era João, porém, o nome “Bode” não lhe foi dado na pia batismal, mas por algum espírito crítico, gente espirituosa, gente que tem facilidade de colocar apelido no outro que se encaixa como uma luva, e, quem criou esse apodo de “bode” para o negro João, deu-lhe com tanta precisão que de apelido “bode”, virou João Bode. Aliás, não foi nenhuma genialidade desse autor porque João Bode não falava, não raciocinava, ele “bodejava”, suas palavras saiam atropeladas, não dizia coisa com coisa, “berrava” com voz rouca ininteligível, enfim, o negro João Bode era um retardado mental, um idiota de alma pura.
     Não sei precisar a idade quando o conheci no início dos anos sessenta, deveria ter naquela época, uns 40 anos de idade com idade mental de 8 anos. Raros fios de cabelo branco começavam despontar na sua cabeça preta encarapinhada. Se a sabedoria popular não falha: “negro quando pinta tem três vezes trinta”, João Bode deveria ter muito mais idade do que aparentava, melhor diria que João Bode tinha idade indefinida ou a idade que se quisesse lhe dar.
     Ele se aproximava um pouco da figura do homem de Neandertal: queixo comprido reforçado, um pouco dentuço, nariz acompanhando o maxilar, olhos perdidos no tempo, dentes perfeitos, baixo, troncudo, pés chatos e era preto como as asas da graúna. Não se sabe se por doença ou acidente, puxava um pouco a perna esquerda. Tinha boa índole, quando os moleques troçavam-no, ele não usava de violência física nem nomes impróprios, no máximo, bodejava algumas palavras sem significado e seguia o seu caminho.
     Não tinha sido chocado, contudo, não se conhecia sua família. Ele convivia há muito tempo com a família de Antônio Sena e Horácio Almeida, o seu cunhado, não como filho ou empregado, porém, como uma espécie de escravo alforriado do Século XX, um agregado, um criado, um serviçal, sem direito a salário ou tempo de serviço, João Bode comia e vestia as sobras dos seus protetores e era feliz!...
     Embora João Bode fosse um retardado mental, os seus trajes e sua higiene pessoal chamavam a atenção do mais desligado indivíduo, ele não andava sujo ou rasgado, gostava de roupa branca, sapatos limpos, escanhoado, carapinha escovada, banho tomado, quem não lhe conhecesse, tomava-o como alguém importante e mente perfeita.
     Naquela época, não se falava de aloprado, de dólares na cueca, rublos nas meias, reais no paletó, valerioduto ou outros meios de surrupiar, de roubar o dinheiro público, todavia, os políticos eram tão desonestos quanto os políticos atuais, pífio era o controle jurídico dos recursos públicos, os Tribunais de Contas não eram tão aperfeiçoados quanto os de hoje e a imprensa tinha suas limitações.
     O político que assumia cargo executivo ou legislativo, mesmo de uma cidadezinha do interior, se fosse pobre saía rico, pois as maracutaias de superfaturamento de obras, fraudes de notas fiscais, malversação e desvios do dinheiro público grassavam com a mesma força dos tempos modernos. Nunca se soube que um político ladrão fosse parar atrás das grades por meter a mão no dinheiro do povo.
     Foi nesse clima de imoralidade pública generalizada, que a juventude elitizada de Itabuna promoveu (eleição de 1962 para prefeito e vereadores), com o apoio da sociedade, um movimento de protesto político e João Bode foi escolhido como candidato de mentirinha a vereador para representar a insatisfação da população itabunense com a política e os políticos.
     Ele teve um desempenho melhor do que o esperado e tornou-se folclórico com o slogan: “Vote em João Bode, comigo ninguém pode”. Em sua campanha política não faltou carro de som, não faltou palanque, não faltaram “santinhos”, não faltou outdoor, não faltou nada na campanha do candidato a vereador João Bode, até um teco-teco foi alugado para que o candidato, lá de cima, inundasse a cidade de panfletos do seu programa legislativo, dentre muitas promessas, a promessa de colocar os políticos corruptos na cadeia.
     O movimento de protesto liderado pelo filho do advogado Ubaldino Brandão (ex-prefeito), começou fraco, mas, pouco e pouco, foi tomando gosto pelo povo e no meio da campanha política já esvaziava os comícios dos principais candidatos de verdade. A molecada, os jovens e os menos jovens não perdiam um comício de João Bode, a zombaria, a algazarra, os assovios e os apupos ensurdeciam a praça quando o candidato dizia (alguém soprava detrás do seu ouvido), que ia “transformar o rio Cachoeira num rio de leite com ribanceiras de cuscuz” ou “soltar os presos e prender os políticos ladrões” ou “mudar o mar de ilhéus para Itabuna” etc.
     Em cima do palanque ou da sacada de um prédio, de terno e gravata, João Bode, compenetrado, gozava de satisfação com as palmas e as vivas ao seu discurso e às suas tiradas espirituosas e o povo ainda mais.
     O dia da eleição chegou. Não havia urna eletrônica, o eleitor depositava na urna uma cédula que o mesário lhe dava, que naquela eleição, habilmente foi substituída por uma cédula de João Bode. Ele foi “eleito” e “reeleito” várias vezes se sua eleição fosse de verdade, porém, o pobre diabo ficou mais doido do que antes: - só bodejava eleição!...
     Diz a sabedoria popular que Deus marca no nascimento os seus filhos prediletos com uma deficiência física ou mental para não lhe perder de vista, portanto, João Bode deve ter sido um desses filhos marcados por Deus, não obstante ter sido usado, zombado, achincalhado, humilhado, debochado e aviltado em sua natureza, ele foi útil, permanece, hoje, o exemplo do seu protesto para que as novas gerações utilizem-no e erradiquem os malfazejos do povo.


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/06/2012
Alterado em 11/11/2024

A palavra e o tijolo - R. Santana

 

A palavra e o tijolo
R. Santana

     A palavra é o tijolo do pensamento. É com a palavra que se constrói o alicerce, as paredes, os cômodos e o teto dos conceitos e dos sistemas teóricos. Às vezes, uma palavra sozinha encerra um significado.
     Na construção do aprendizado de uma criança, os símbolos abecedários constituem os primeiros tijolinhos do seu pensamento. Assim como as paredes em estado de inércia, os símbolos também não emitem sons como letra morta, mas basta a ação de um agente externo para que as palavras tornem-se fonemas significativos ou sem significados nos casos de sons produzidos pelos ruídos e barulhos.
     A criança começa juntando os grafemas abecedários como se fossem o barro in natura do tijolo e os coloca na forma da palavra, construindo pouco e pouco os seus primeiros tijolinhos e as suas primeiras paredes.
     Wallon, Piaget e Vygotsky, que estudaram o desenvolvimento da inteligência, a mente dos indivíduos, as fases e os processos de aprendizagem, reconheceram o valor da palavra como expressão máxima do pensamento.
     O Evangelho segundo João, no Capítulo I, diz lá: “NO princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Ou seja, Deus fez o mundo usando a palavra como princípio de todas as coisas.
     Quem tem o dom da palavra arrasta multidões e a História está cheia de homens que construíram e destruíram nações com o uso da retórica, a exemplo de Cícero, Demóstenes, Lênin, Ruy Barbosa, Padre Vieira, Plínio Salgado, Hitler, Mussolini, Churchill, Júlio César e tantos outros gênios da humanidade.
     Do ponto de vista lingüístico e retórico, é de somenos importância se eles fizeram o uso da palavra para promoção do bem ou do mal, porém, faz-se jus reconhecer que esses tribunos, esses oradores, usaram uma linguagem acessível às massas.
     A palavra, assim como o barro, matéria prima do tijolo passa por um processo de transformação até ser incorporada à língua culta, convencional. O barro é extraído da terra, colocado na forma, levado ao fogo de enésimos graus Farenheit, depois de tijolo, é usado para levantar paredes, casas e prédios. A palavra nasce na boca do povo pela necessidade de comunicação, conceituação, ela é transformada, é assimilada e vira escrita.
A palavra “você” é um exemplo vulgar de transformação, inicialmente, usado como “cê”, “ocê”, “vosmicê” e “você” incorporado à língua culta.
     A palavra “menas” ainda é usada pela maioria absoluta das pessoas incultas, boa parte das pessoas “cultas”, mas ainda não foi incorporada ao português e a palavra “menos” prevalece, mesmo que o porteiro do prédio diga: “... hoje, teve menas gente do que ontem”.
     Não se assuste leitor, se não for corrigido e combatido, a palavra “próprio”, não for substituída por “própio” de tanto “cultos” e incultos cometerem este vício de linguagem.
     Às vezes, os boçais e os menos boçais jactam-se de sua erudição e refere-se a um instrumento visual conhecido por “óculos”, por “meu óculos”, “o óculos”, ao invés de “meus óculos”, “os óculos”, é que esse instrumento da visão tem duas lentes.
     Se alguém fala “meu ônibus”, ele tem toda razão, salvo se ele tem vários ônibus, é errôneo ele dizer “meu ônibus”, mas “os meus ônibus”.
     Porém, a palavra como o tijolo, não importa o defeito, importa se o resultado é necessário, ou seja, se naquele instante, a palavra e o tijolo têm finalidade em si. O defeito do tijolo fica dentro da argamassa e do reboco. O defeito da palavra é corrigido pela lógica de sua origem, pelo bom senso, pelos filólogos, e lingüistas.
     O leitor desta crônica não fique preocupado depois de lê-la. Essas questiúnculas são de somenos importância: a finalidade da língua é a comunicação.
     Chacrinha tinha como slogan: ‘... quem não se comunica se trumbica”. Ao fechar esta página, um ilustre soldado sindicalista da briosa polícia baiana, numa entrevista radiofônica, falava “muler”, “poblema” e outros vocábulos sem pernas e sem mãos, mas pensa o leitor que foi uma entrevista ruim? Ledo engano. Foi uma entrevista supimpa, proveitosa, comunicativa e não a trocaria pela entrevista do seu coronel!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 04/06/2012
Alterado em 03/03/2024

Caminhada - R. Santana

 


Caminhada
R. Santana

    As academias de ginástica estão cada vez mais sofisticadas. Há instrumentos e exercícios específicos e localizados para transformar e melhorar o corpo humano em quase tudo: quadris, tórax, bumbum, coxas etc. As academias mais ricas além dos instrumentos tradicionais, possuem piscinas, salas de dança e câmaras de raios ultravioletas para bronzeamento artificial, escurecendo a pele em pouco tempo com a liberação da melanina, diminuindo os riscos danosos dos raios infravermelhos com prolongada exposição do homem ou da mulher ao sol.
    Porém, as academias são ambientes fechados e com o ar viciado. Mesmo que seja possível um ambiente arejado, ventilado, existe o perigo de uma doença pela concentração de pessoas expelindo bactérias e vírus, transmitidos pelo ar e pelo suor. É uma hipótese remota, a maioria absoluta que frequenta uma academia de ginástica, é gente bonita, jovem, bem alimentada, vendendo saúde, com o índice de defesa imunológica lá em cima!...
    Mesmo as academias para terceira idade não correm esse risco. Os velhinhos que frequentam essas academias pertencem a uma classe social mais abastada. Tem uma boa qualidade de vida e hábitos saudáveis.
    Todavia, a caminhada, a marcha e a corrida, são as formas mais democráticas e mais saudáveis da atividade física. Na caminhada, se o indivíduo não tem problemas de articulação em pés, quadris, joelhos, pode caminhar, inclusive, os portadores de cardiopatias, pressão alta e outras doenças, é salutar caminhar no mínimo três vezes por semana, uma hora por dia.
    Na caminhada, caminha o idoso, o muito idoso; o novo, o muito novo; o feio, o bonito, o baixo, o alto, o branco, o preto, o caboclo, o cafuzo, o moreno, o sarará, o atleta, o não-atleta, o daltônico, o cego, só não caminha aquele que não tem os pés ou as pernas saudáveis ou é doente da coluna. Não há dúvida, é a mais democrática e prazerosa atividade física. Se não se pode caminhar 10 quilômetros por dia que se caminhe meio quilômetro, 100 metros, 50 metros, 10 metros, mas que se caminhe.
    Também, é a mais econômica atividade física, tem ar puro, vento noroeste e espaço gratuitos. Céu de brigadeiro, céu nebuloso, sol para bronzeamento natural, lua, estrelas (tem gente que faz caminhada à noite), suor, queima de gordura, fixação de cálcio, água de chuva de quando em vez para amenizar o calor e tomar banho... Qual o custo de todas essas benesses? Nada de nada!...
    Além da caminhada não custar nada de nada.... Nela não se precisa de esteira, nem de bicicleta ergométrica, nem barras fixas, nem de aparelho de musculação, nem aparelho abdominal e nem de monitor cardíaco para se obter os mesmos resultados da academia como definição das pernas, queima de caloria, definição de músculos e abdômen, alongamento e até exercícios para empinar o bumbum, objeto de desejo do homem brasileiro e a extensão do pensamento de algumas mulheres.
    Não é preciso ser um atleta para correr, marchar e caminhar. O importante, é caminhar, marchar e correr. Se o seu calcanhar não for igual ao de Aquiles (conta a lenda que todo seu corpo era invulnerável, menos seus calcanhares, onde sua mãe Tetis o pegou para mergulhá-lo no rio Estige e torná-lo invencível e matar Heitor e ser morto pela flecha envenenada de Páris com a ajuda de Apolo, que descobriu a vulnerabilidade dos calcanhares de Aquiles), qualquer um poderá fazer grandes caminhadas.
    Para correr não é necessário ser um Paul Tergat, um João da Mata, uma Rosa Mota, uma Roseli Machado ou uma Maria Del Carmem, campeões da São Silvestre, o importante é que corra, marche e caminhe de acordo o seu ritmo e suas condições físicas.
    Então, vamos marchar, correr e caminhar!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
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A eterna juventude - R. Santana

 

                                                                      A eterna juventude - R. Santana

     Adolescente, eu li uma parábola intitulada: “Reformador do mundo”. Não me lembro se de Viriato Correia, Emílio de Menezes, Gregório de Matos, La Fontaine, Aristófanes, Esopo... não me lembro o nome, sei que foi um desses pensadores satíricos, humoristas, dramaturgos ou coisa que o valha, sei que não me lembro quem colocou no papel essa história do homem insatisfeito com a criação e a natureza: - Reformador do mundo.
     Hoje, pensando também em reformar o mundo, recorri ao Google, enciclopédia virtual, para escrevinhar esta crônica e não ser taxado de plagiador do pensamento alheio e declinar aqui, o prenome, o nome e o sobrenome do homem que teve a coragem de dizer ao Criador que sua obra teve alguns senões ou que por sua natureza infinita, o homem não conhece os seus desígnios e, acha que as coisas poderiam ser diferentes (impossível à sabedoria finita entender a sabedoria infinita), mas para surpresa minha, o Google também o ignora, deita, somente, Paulo Barbosa, que enviou o texto “Reformador do mundo”, mas como todo veículo de comunicação que se preza, ressalva: “autor não mencionado”.
     Deixemos de conversa mole, de blá-blá e vamos ao que interessa: reformar o mundo! Leitor, já pensastes como a velhice é cruel? Se tu fores jovem, no frescor da vida, ainda verdinho, queimando óleo 20, tu não darás conta do fardo que Deus deixou para o seu filho nos seus últimos dias de vida. Porém, se tu olhardes para os seus avós ou para o seu vizinho idoso ou da “melhor idade”, ou da “juventude acumulada” (quaisquer que sejam os eufemismos), da direita ou da esquerda, verás que a idade da experiência, da sabedoria, da juventude acumulada (diz o otimista), é a idade da dor aqui, dor acolá, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, diabetes, é a idade do “junta”, junta tudo que não presta num pobre mortal!...
     Por isso, resolvi deitar umas idéias no papel e enviar para o nosso Criador. Quem sabe se no próximo dilúvio ou quando essa geração arder na fogueira eterna, na fogueira do inferno e outra geração criada Ele atenderá o meu pleito!... Leitor, não seria interessante se nascêssemos velhos e morrêssemos novos? E a vida não fosse essa bagatela! Que significam vinte, trinta, cinquenta, sessenta, setenta, cem anos de vida diante da eternidade do tempo? Nada!...
     Se tu, filho de Adão e Eva, achardes que estou amalucado, adoidado, pinel do juízo, digno de uma camisa-de-força, dir-lhe-ei em cima da bucha que não somos piores que Matusalém, Noé, Adão, Abrão, Sara, que viveram novecentos, oitocentos e não menos do que duzentos anos de vida!...
     Se tu, jovem leitor, cheio de ciência na cabeça, tu argumentares que o ano daquela época não tinha trezentos e sessenta cinco dias e algumas horas, que não havia relógio, dia era uma coisa, noite outra, que não havia ano solar, deveria haver ano lunar para plantar e colher, que não havia calendário de doze meses, trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas, que Deus não fez o mundo em sete dias de vinte e quatro horas; direi que tens razão em parte, mas contra-argumentarei que os egípcios, os gregos, os israelenses, os fenícios, os medos e outros povos antigos tiveram os seus calendários e muito que se escreveu na Bíblia não é diferente dos tempos de hoje, que o tempo de Deus é infinito, que o tempo do homem é finito, portanto, Matusalém, Noé, Adão, Sete, Caim, Enos, Mahalalel os primeiros homens de Gênesis e que Adão foi pai aos cento e trinta anos e Matusalém aos cento e oitenta e sete anos, chego à conclusão que tudo é um grande mistério e mistério não se discute se aceita, mas continuarei achando que a nossa vida é uma merreca e Deus poderia ter sido mais complacente e ter invertido o tempo biológico do homem.
     Que gostosura caro leitor se:
     - Compadre, quantos anos têm esse menino?
     - Ele está beirando 150 anos, compadre!
     -Ele já tirou os dentiqueiros, compadre?
     -Ainda não!
     -E Francisco, o seu mais novo?
     -O Chico tem 350 anos e sua mulher 320 anos, é um casal jovem, tem muito pela frente!...
     -Compadre, daqui a 500 anos, eles estarão bem mais moços!
     -Se puxar ao avô, vai viver mais de 1000 anos!...
     Tu entendeste agora, a minha reivindicação ao Criador? Se nasceria biologicamente velho, com as enfermidades de velho e se morreria novo, bonito por fora, bonito por dentro e alma rejuvenescida, uma evolução às avessas de Darwin...
     Se Ele me ouvir, se me deixar reformar o mundo, daqui a um milhão de anos, eu quero voltar pra Terra. Se Deus não me ouvir, que Ele me perdoe em sua bondade infinita, não é ingratidão de criatura, mas dispenso-Lhe essa merreca de vida, preferirei ser barro, ser matéria, ser pó, do que morrer pelancudo, buchudo, brocha, esclerosado, caquético, abestalhado, desfigurado, fazendo xixi nas calças e cagando na cueca!...


Autor: Rilvan Batista de Santana Gênero: Crônica
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Membro da Academia de Letras de Itabuna
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 05/06/2012
Alterado em 28/06/2024

O Cadáver - R. Santana

 

                             O Cadáver - R. Santana

          Ele estava ali estirado, o cadáver, o nada diante do tudo e tudo diante do nada, mas o tudo é o nada... Deus, ó Deus, onde estás que não vês o nada?! Nós todos, somos o nada diante de Ti! O nada é o cadáver, mas o cadáver já foi o tudo e o tudo um dia será o nada! O nada é o que existe...
         Meu Deus, meu Deus, por que o tudo um dia tem que ser o nada? Não basta à angústia do homem não saber de onde veio, quem é, e, para onde vai? É preciso ainda ter consciência que não é nada?! Se os nossos dobrados de lágrimas e dor chegassem a Ti, o mundo deixaria de ser imundo e seria mundo. Deus, ó Deus, se o homem fosse tudo, deixaria de ser besta fera, desumano, desalmado e passaria ser humano!...
     Deus, ó Deus, as frias carnes depositadas ali na pedra fria da funerária, serão comidas pelos vermes sem cerimônia, não importa para o verme, se um dia essas carnes foram vestidas por cambraia, seda, algodão, casimira, brim, cáqui ou jeans. Se a carne é de sábio ou de ignorante, o que importa para o verme que a carne será sua comida, depois, verme e carne serão pó e mais do que nada.
     Meu Deus, meu Deus, é justo ao homem o nada?! Nenhuma morte é digna, a morte é a indignidade da vida. Se o apóstolo diz: “Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.” (Cf. 1Co 6:19,20). Como justificar a presença do Deus no nada? Não seria mais fácil dizer que Deus nunca esteve no corpo do homem? Portanto, o nada sempre foi o nada desde o início dos tempos!...
     Estava ali o cadáver, pranteado e amado pelo tudo, tudo que amanhã será nada. Cadáver maniqueísta que foi bom ou mau e que viveu bem ou mal, qual o lado que o verme primeiro vai comer? Se o verme for bom, primeiro ele vai comer o lado mau se o verme for mau, ele vai começar pelo lado bom. Na vida não existe meio termo, só existe o bem ou o mal.
     Porém, quando a vida se esvai, resta, somente, o cadáver, a luta entre o bem e o mal não tem sentido. O tudo não chora à chegada do nada, o tudo chora à exiguidade da vida, o tudo percebe que não é nada.
     Estava ali estirado, o cadáver, sem vida e sem alma, mas será que existe alma, independente do corpo? Ou, alma é a energia que anima o corpo e se exaure deixando o cadáver? Os cientistas já conseguiram captar (filmar) a “energia” que se esvai do corpo nos estertores da morte. Há, hoje, quem advogue que esse processo não é instantâneo, leva em média, 20 dias para que o moribundo se torne cadáver.
     Filhos, mulher, parentes, e amigos, choram e se descabelam sobre o cadáver, mas o cadáver é o nada, então, eles devem estar chorando, lembrando de tudo que é nada, a separação é eterna, a ressurreição e a reencarnação são embasadas na fé... Será que o nada um dia voltará ser o tudo? Ou, sempre o tudo será nada? Mistérios que o homem ainda não conseguiu decifrá-los, mas aceitá-los.
     Ah, pais! Não devem chorar, porque o cadáver ali não é mais o seu filho, é um corpo depositado na pedra fria e indiferente da funerária, é um corpo estranho, não responde mais ao seu clamor, é o tudo diante do nada, ele não mais será acalentado no seio da família, pois o mundo da possibilidade exerceu o possível e desordenou a ordem natureza.
     Em vão é o esforço do homem para juntar riquezas em detrimento da vida se o nada é o fim. Quantas vidas são ceifadas pelo vício e ambição material? Não se pode contar. O homem moderno ainda continua com idéias atávicas, sua mente pouco evoluiu em relação ao tempo, os cientistas afirmam que o cérebro do homem tem uma grande parte inexplorada. Se a mente humana tivesse desenvolvido todas suas potencialidades ao longo do tempo, sua espiritualidade fosse zen, ele tivesse mais amor à vida e à natureza, o nada seria diferente...
     Deus, ó Deus, por que fez do tempo o nosso cutelo? Não se entende a exiguidade de vida que destes a vossa criação diante do tempo infinito! Um meteorito leva centenas de anos para se desintegrar (morrer) no espaço enquanto o homem e as outras espécies, a vida é fugaz. Se a vida é tão curta, melhor é morrer... Se não nascêssemos não teríamos a angústia que somos nada, a exiguidade da vida desperta insegurança no homem desde o nascimento á morte.
     Chora humanidade que hoje é tudo e amanhã será nada!... Chora alma minha que hoje é vida e amanhã será o meu cadáver depositado no inferno, onde os vermes não deixarão em paz as minhas frias carnes, devorando as carnes boas e as carnes más!... Se as promessas de vida eterna e remissão dos pecados de Jesus Cristo não se cumprirem, debalde foi nossa luta entre o bem e o mal!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna -ALITA
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 05/06/2012
Alterado em 05/10/2023

Diário de um homem - R. Santana

Diário de um homem
R. Santana

02 de janeiro, Ano Cristão de 2007– Hoje, sinto-me angustiado. Pela manhã, diante do espelho, percebo que o tempo tinha passado e eu estava envelhecido. As mechas brancas de cabelo e os vincos no rosto e no pescoço, confirmavam o que eu não queria admitir: o tempo estava imprimindo suas marcas. Não fui ao escritório, eu decidi que iria à cidade a pé, xeretar aqui e acolá, conversar com letrados e ignorantes para tentar descobrir os meus medos e as minhas angústias.
Sento no banco do jardim. Começo analisar como as pessoas passam apressadas, olhando para o relógio, numa luta contra o tempo para não chegarem atrasadas ao trabalho. Pela primeira vez, observo que cada pessoa é peça de uma grande engrenagem que funciona harmônica e sincronizada. Todos nós, ricos e pobres, brancos e pretos, letrados e ignorantes, cada um vive em função do outro. Se não houvesse o padeiro, não teríamos pão na mesa. Porém, foi preciso que alguém a quilômetros de distância, plantasse o trigo, ceifasse e vendesse para o dono do moinho que o industrializou. Depois, vendeu para a cooperativa. E a cooperativa repassasse para o dono da padaria e o padeiro fizesse o pão e que alguém comprasse para comê-lo. Isto é, operações e interações subjacentes do dia-a-dia, movem essa grande máquina que é a sociedade humana.
Comecei acreditar que Theilard Chardin tinha razão quando afirmou que no homem cruzam três infinitos: “o infinitamente pequeno, o infinitamente grande e o infinitamente complexo”. Pascal, filósofo francês, definiu o homem: “um nada diante do infinito e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde é tirado e o infinito para onde é engolido”. Embora tivesse na cabeça esses princípios que definem a pequenez do homem e seu destino, neste dia 02 de janeiro, queria tirar as minhas próprias conclusões da essência do homem. Melhor seria não absorver conceitos conhecidos desses sábios, porém, ouvir o homem em seu estado de ignorância ou o homem da rua.
- Doutor, não trouxe o carro para lavar? – Perguntou-me um jovem “flanelinha”, assim que cheguei. Ele sempre lavava o meu automóvel – Não, não é preciso. Quando eu voltar da fazenda, você fará uma limpeza geral, no momento, é como pegar água em um samburá, dinheiro jogado fora. O rapaz concordou. Fiz-lhe uma pergunta inesperada: - rapaz quanto você ganha por dia? - Doutor, não há um tanto certo, tem dia que ganho pra farinha; outro, para carne. Se tivesse um emprego, teria salário fixo, chovesse ou fizesse sol. Aqui, doutor, sou igual a Tarzan, vivo de aventura nesta selva de pedra e cimento. – Gostei da desenvoltura do rapaz. Ele apesar de simples, era articulado e pragmático, fiz-lhe uma proposta: - Saulo (tinha me dado o nome), hoje, não pense em disputar seu sustento, vamos ficar papeando, quando terminarmos, dar-lhe-ei a melhor féria que poderia obter trabalhando o dia todo. – Doutor, o tempo está chuvoso, não ganharia tanto neste dia, por isto, não aceitarei nenhum dispêndio, papear com o senhor é um aprendizado. Se quiser dar-me algo é por conta do seu coração e não do meu trabalho. – Falaremos nisto depois. Diga-me, qual o seu grau de escolaridade? – Não posso medir o meu conhecimento. A minha professora foi minha mãe. A minha escola, foi o bairro que nasci e fiquei homem, agora, estou estudando na faculdade do mundo. Não tive escola doutor, sou um autodidata da vida. – Ele era a pessoa que procurava...


03 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – A conversa com Saulo tinha me deixado impressionado. Falamos sobre amenidades: futebol, música, mulher, cotação do dólar, enfim, jogamos conversa fora. Fui trabalhar. Passei mais um dia no escritório. Fiz e peticionei alguns recursos jurídicos. Pelo fato dos juízes estarem em recesso, em férias, combinei com minha secretária que agendasse os meus compromissos, doravante, a partir das 14:00h.

04 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Novamente, fiz o mesmo trajeto do primeiro dia. Fui conversando com conhecidos e colegas pela cidade. Parei na mesma praça e sentei-me no mesmo banco. Tive a impressão que Saulo não estava trabalhando.

- E aí Saulo, de folga outra vez? – É doutor, o mar não está pra peixe... O tempo esses dias, não está ajudando. Quando chove é essa pasmaceira. – Então, façamos o seguinte: eu também, estou de folga do escritório esses dias de férias forenses, que tal sentarmos ali naquele bar (apontei-lhe o bar), e enquanto conversamos, tomaremos um vinho ou whisky para animar os ânimos? – Doutor, não lhe prometo acompanhar na bebida, mas, enquanto o senhor bebe seu whisky, eu tomo um refrigerante, combinado? – Tudo bem, não tenho nada contra o abstêmio e a sobriedade – encaminhamos para o bar.
Pedi um whisky com gelo e um refrigerante. Depois de um gole, voltei à carga sobre a nossa conversa de dois dias antes: - Saulo, com tantas coisas ocorrendo neste mundo de meu Deus, fico me perguntando: “o quê é o homem? De onde vem e para onde vai?” São perguntas que todos fazem, são conceitos primitivos que redundam num mesmo ponto. As respostas, às vezes, têm conotações religiosas. As respostas racionais, se apreendem mas também, não se comprovam. – Saulo era todo ouvido. Observei pelo canto do olho, que ele queria falar, deixei-o que tomasse iniciativa:
- É doutor, como todo mundo, tenho me questionado sobre a origem, a missão e o desfecho do homem. Melhor seria que aceitássemos a brincadeira de Diógenes, que depenou um frango e disse: “eis aí o homem de Platão!... “ - Confesso que não entendi, porém, não quis dar bandeira, ele completou: - Platão dizia que o homem ´”é um animal bípede sem pena”, Diógenes o satirizou.- Saulo, você tem uma definição das características físicas e por extensão biológica. Falo do homem em sua essência. Do homem metafísico do ser em si. – É um assunto inesgotável. Tenho umas ideias malucas. São ideias de uma autodidata. Não sei se vale a pena externá-las... – Insisti que ele deveria, que seu depoimento não iria passar daquela mesa de bar. Afinal, quem éramos nós para criar um novo modelo teórico de um assunto que varava séculos e tinha tido à atenção de filósofos e cientistas? Ele terminou se convencendo:
-Doutor, vou usar o termo limbo que é um espaço, um lugar onde ficavam as crianças, que sem culpa, tinham morrido sem batismo e ficavam lá enquanto expiavam o seu pecado original, segundo a tradição católica do Século XIII. Acho que o homem fica em forma de energia (alma para alguns), numa espécie de limbo, aguardando seu processo de transição, que é a passagem do estado de energia para o humano e retornando (na morte), em forma de energia.
O homem sob o aspecto da Ética, da Psicologia, da Gnosiologia, o homem é moral, é sentimento, é conhecimento e razão. Para mim a essência do homem está no bem e no mal. Para Rousseau “o homem nasce naturalmente bom e a sociedade o corrompe”. Com todo respeito que tenho ao pensamento francês, acho que o homem nasce naturalmente mau e a sociedade, através da educação, o torna necessariamente bom. Quando o processo educacional é falho, os instintos primitivos prevalecem e o indivíduo torna-se nocivo à sociedade. Não estou defendendo o maniqueísmo, Deus e o Diabo, forças antagônicas do bem e do mal. Estou querendo lhe provar doutor, que o homem é naturalmente mau e a sociedade imprime-lhe ao longo do tempo, sentimentos de solidariedade, de amizade, de gratidão, de fraternidade e de amor. Quando o indivíduo é egoísta, não tem consciência moral, tem desvio de personalidade, é “frio”, como diz o vulgo, é que o seu processo educacional foi falho, exceto, quando ele é portador de um doença mental patológica genética, suas atitudes são aleatórias e seu comportamento alienado. Com o progresso da ciência, essas áreas afetadas do cérebro não demorarão ser substituídas por “schips”. Eles irão substituir essas funções comportamentais incorretas. – Eu fiquei boquiaberto, não esperava que um simples trabalhador informal, tivesse ideias e conceitos filosóficos tão inteligíveis e um pensamento tão estruturado. Fiz-lhe uma provocação: - rapaz, você estudou em que universidade? – Doutor, hoje, com tanto livro espalhado pelo mundo e tantos meios de comunicação, basta ter gosto pela leitura, que não ficará desinformado. – Saulo, outro dia continuaremos nosso papo, irei lhe explorar!...

05 Janeiro, Ano Cristão de 2007 - Sexta-feira, último dia útil da semana para quem lida em repartições públicas. Pela manhã recebi alguns clientes, mais papo do que trabalho. À tarde dei uma passada nos cartórios para conversas com agentes da justiça. Na saída do escritório passei num barzinho conhecido e entre cervejas e Whiskys, fui para casa às 20:00 h.

06 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Passei o dia na biblioteca de casa, procurando respostas para as minhas inquietudes da vida.

07 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Fui à praia com a mulher e os filhos. Comemos, bebemos, jogamos bola, tomamos banho de mar, à noite, estava um caco.

08 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Deixei todos compromissos por conta da secretária e fui à fazenda. Instruir-lhe que se algum cliente procurasse por mim, que o agendasse para terça-feira, à tarde.
09 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Tive necessidade de lavar o carro. A estrada da fazenda tinha muitas poças de lama, por mais que tentasse desviar a camionete delas, a lama sujava os páralamas. Dei uma ducha no carro e fui procurar Saulo para que ele o secasse, lavasse os tapetes de borracha, e fizesse o resto da limpeza. Fui com a intenção de provocá-lo:

- Tudo ok, meu caro Saulo? – Doutor o senhor sumiu, nunca mais proseamos...
- Fui à fazenda. Vou fechar o cacau no armazém e precisava ver a quantidade na barcaça e quantas arrobas de cacau o pessoal já tinha ensacado.
- Doutor, com a vassoura-de-bruxa, cacau não é mais um bom negócio. Se tivesse dinheiro, seria pecuarista. Para o boi de corte não falta comprador. Além do leite, produz vários derivados.
- Saulo, não se iluda. Diz a sabedoria popular que “rapadura é doce mas, não é mole”. Bom negócio sempre é o do vizinho... Particularmente, não gosto de gado (crio umas duas cabecinhas para o leite da criançada). Para você ter lucro em gado, é preciso que você tenha muita terra, muito capim, muito gado, vacinas, manejo de pasto, é um inferno!...
- Então Doutor, prefiro não ter tanta dor de cabeça. Vou seguir o ensinamento de Cristo: “Não junteis para vós tesouro na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem”. – Lá vem você com sua filosofia de vida. Por falar em Cristo, qual sua opinião sobre religião?
- Doutor, sou um autodidata. O meu pensamento é falho, não tenho um embasamento teórico. Fico vermelho externando essas baboseiras, acredito que o senhor irá rir delas depois...
- Rapaz, não posso rir daquilo que estou sendo beneficiado. Não sei se concordo com tudo que você me expôs da última vez, entretanto, gosto de lhe ouvir. Se não gosta de religião, falaremos doutra coisa.
- Doutor, Karl Marx disse que religião “é o ópio do povo”. Ele era muito materialista, pensava somente na relação do capital e trabalho e nos meios produtivos. Não acho que a religião entorpece o povo, deixa o povo parvo. Claro que fazemos restrições às certas denominações religiosas. Tem gente usando a ingenuidade e o desespero dos incautos, ladrões com roupa de bispo.
Falei naquele dia que o homem é naturalmente mau, não foi? Acho que o senhor não se esqueceu. Também lhe falei que é através da educação que o homem se torna necessariamente bom. A religião está intrínseca nesse processo educacional de formação moral e intelectual do homem.
A religião está centrada no dogma, na doutrina da fé. Ela não torna o homem estúpido e entorpecido como pensava Marx. A religião dá ao homem expectativas transcendentais pela fé e pela razão. Alguém me disse que: “religião, política e mulher, não se escolhe se abraça”, se for escolher uma dessas sem defeito, não irá encontrar.
As históricas religiões asseguraram o limite do homem e do estado. Se não houvesse princípios religiosos rígidos, não teriam contido a sanha de muitos megalômanos, déspotas e criminosos travestidos de estadistas. As religiões estabeleceram os princípios da justiça, os “Dez Mandamentos” contribuíram para formação de sociedades antigas estribadas na lei e no direito.
Os líderes religiosos iluminaram a humanidade. Não se pode assegurar se foram seres divinos. Cristo, Maomé, Moisés, Buda, Confúcio e tantos outros foram marcos incontestes da História Universal. Não se pode negar que Cristo e Maomé dividiram o mundo.
Maomé foi um grande profeta, um iluminado, não obstante ter sido um homem comum, com mulheres, filhos e homem de negócio.
Cristo é o único que teve uma vida santa e sem mácula. Viveu e pregou o amor. Seus ensinamentos mudaram a face do mundo. Ele é a maior figura histórica. Não se sabe, porém, se ele era o Filho primogênito de Deus como proclamava-se. Em momento nenhum instigou a violência. As guerras religiosas feitas em seu nome, decorreram da sede de poder do homem.
Isso, doutor, é o que penso sobre a religião e sua função histórica e social – Saulo, mais uma vez gostei do seu discurso, obrigado.

10 de janeiro de 2007- Passei o dia no escritório, saindo somente, no intervalo de almoço. Profissionalmente, foi um dia bom, fomos contratados por novos clientes.

11 de janeiro de 2007- Tive que deslocar-me para uma cidade do interior para prestar assistência jurídica a uma cliente.

12 de janeiro de 2007 – Último dia útil da semana. Fui ao escritório à tarde. Na saída combinamos com uns colegas para uma pescaria na minha fazenda no domingo.

13 de janeiro de 2007 – Fui cedo convidar o meu amigo Saulo para pescaria de domingo.

14 de janeiro de 2007 – Eu e a esposa, dois filhos e mais três colegas e Saulo fomos em dois carros para minha fazenda. Observei que Saulo estava igual um peixe fora d´água. Procuramos ambientá-lo para que ele se sentisse bem. Tive ajuda dos filhos e da mulher nesta tarefa, procurei incuti-los que o meu amigo era uma pessoa simples, mas especial. E que só tínhamos a ganhar com sua amizade. Tivemos um dia excelente. Tomamos banho e pescamos pela manhã. À tarde, jogamos xadrez e dominó. No crepúsculo vespertino, nós, os homens, voltamos ao ribeirão para tomar banho. Agora, Saulo já brincava com os meus filhos e com os colegas de maneira natural, tinha havido uma interação espontânea, entre ele e os demais. Depois da janta, alguns foram jogar. Eu e Saulo sentamos no alpendre da casa e começamos conversar. Depois de fazermos um balanço daquele dia, quanto lúdico foi, provoquei o meu amigo para que pudéssemos fechar o assunto do homem, da religião e de Deus:

- Saulo, falamos do homem e sua ligação com Deus através da religião. Você falou de alguns líderes religiosos, porém, está em voga, algumas religiões monoteístas no momento, a exemplo do Zoroastrismo, Sikhismo e Bahaismo que não foram citadas. Elas não têm importância histórica? E, não falamos de Deus:
- Claro, elas estão inseridas em algumas culturas. Não as citei pelo fato delas representarem em sua maioria uma filosofia de vida do que propriamente uma doutrina religiosa, uma exegese bíblica, em que a palavra divina é exaustivamente analisada. Os fundadores dessas religiões as personalizaram. A exemplo do confucionismo, elas formam um corpo de preceitos morais e não de dogmas e princípios religiosos como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.
Não sou deísta, nem agnóstico ou ateu. Também, não sou adepto do panteísmo que encontra Deus em todo lugar. É um tema que requer uma discussão ou uma “descrição” pormenorizada. Poderei tecer alguns comentários despretensiosos sem comprovação matemática. São ideias assim como as que expus entre nós. Elas não poderão transpor o limiar de sua fazenda, senão, vão nos taxar de loucos ou ridículos.

- É um compromisso que vou levar para o túmulo. Sei que é um assunto delicado e inesgotável. Jamais o homem vai explicar Deus sem passar pelo crivo da fé.
- Doutor, o seu raciocínio é lógico e demonstra que aceita Deus com suas características religiosas conhecidas: onisciência, onipresença, onipotência... não é?
- Foram esses os conceitos que aprendi na escola. Por isto, gostaria de ouvi-lo, quais foram os resultados de suas pesquisas? Se você tem um pensamento tradicional, encerremos o assunto. Tem-se algo diferente e quer dar-me a honra de tecer comentários, serei todo ouvido.

- A honra é minha. Quem na condição de autodidata não gostaria de conhecer o pensamento estratificado do conhecimento convencional? Acho que qualquer ser humano que tem um pouquinho de miolo na cabeça sentir-se-ia feliz ouvi-lo. Mas pelo que entendi, grassa no senhor o pensamento comum dos homens de ciência.
- Então, se é diferente, desembuche!...

- Comecei observar historicamente, que todos os povos, os mais primitivos, criam em um deus. Os pagãos representaram deuses, semideuses, em ferro, em bronze em ouro e nas mais diversificadas figuras animais ou humanas. Nos poemas, Ilíada e Odisseia, de Homero, encontramos uma lista enorme de deuses: Apolo, Hera, Tétis, Afrodite, Poséidon, Ares, Dionísio, Eros, Zeus, etc. Todos eles tinham suas atividades voltadas para alguma coisa. Um era deus do amor, outro do vinho, da beleza, da sabedoria... isto é, cada deus tinha uma função específica. Até os nossos indígenas tinham os seus deuses com base no Sol, na Lua, na Terra... Nos seus rituais, eram invocados os deuses para os protegerem da doença, dos inimigos, ajudarem na colheita das plantações e na expulsão dos espíritos malignos e forças nocivas à natureza. O pajé e o xamã, substituíam o bruxo e o padre.
Com base nessas observações, entendi que o homem tinha criado deuses que eram de certa forma cópias daquilo que Platão defendeu na sua alegoria: o “Mito da Caverna”. O nosso mundo é uma cópia de um mundo real em si. Não é a cópia de um objeto particular, porém, a cópia do mundo das idéias como expressão maior do pensamento.
Deus não existe fora de nós, mas dentro de nós. Não é um Deus personalizado. Não é um Pai ou um Filho. Ele é energia inteligente, metafísica, transcendental. Emana dele tudo que existe. Não é um ser ontológico, que se possa explicar a priori, seus efeitos, é que são a posteriori. Poder-se-á dizer que é uma energia causal.
O homem é uma infinitésima potência dessa energia. Poderíamos afirmar que o homem é cópia de Deus como ser criador. Ele é capaz de produzir e gerar ideias de uma realidade a priori. Ele é diferente de Deus porque é potência e não ato.

- Então, meu caro Saulo, então seu Deus é energia, não existe amor, sentimento, que não somos seus filhos? Sinceramente, não gostei de seu discurso para provar a existência de Deus. Então, as promessas de vida eterna não são verdadeiras? O homem não tem espírito? Não existirá uma vida além morte? – Meu caro doutor, não fui explícito e não é fácil passar para o papel e para as pessoas essas ideias, já tentei escrever e não passei de duas linhas. Talvez, tenhamos que deixar para um momento mais inspirado!... – Por favor, Saulo, é somente o final de sua exposição que não ficou clara. Vou mandar trazer-lhe um café, para mim uma bebida, espaireçamos, depois retornemos somente no finalzinho. Prometo-lhe de hoje em diante não mais importunar-lhe, nem que eu tenha um milhão de dúvidas.
- O senhor tem razão, não podemos fazer um corte neste momento por conta da comodidade. Vou tentar responder suas últimas perguntas.
Não diria filho na acepção do dia-a-dia. Diria que somos suas criaturas, somos semelhantes a Ele, como único ser capaz de criar. É apanágio do homem e não doutro animal, a criação e a invenção.
Falei energia, para expressar algo que emana. Ele é amor, é bondade, mas não como entendemos e aprendemos. É como se fosse à essência da essência, algo sublime e de perfeição absoluta.
Acho que teremos outra vida ou outra forma de vida. Não essa vida de sofrimento e limitações. Não existirá reencarnação e a ressurreição será um retorno a essa emanação transcendental e eterna.
Tudo que dissertamos nos parágrafos anteriores, não seria possível se o homem fosse desprovido de espírito, que é uma energia vital que quando deixa a matéria retorna às emanações infinitas.

- Saulo, não posso lhe pedir mais do que eu lhe pedi. Porém, obrigado por tudo. Não é fácil apreender princípios novos, prometo-lhe que farei uma reflexão sobre os seus ensinamentos.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google


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