11.17.2025

Fidelidade - R. Santana

Fidelidade
R. Santana

          Ela chegou sem ser chamada. Uma carinha sem vergonha, olhos cor de mel e uma boca e umas orelhas grandes para o seu tamanho, sem falar do rabo que é enorme. Ela chama-se Hanna. Falo do presente, porque graças a Deus, ela está vivinha entre nós.
          Sua idade é indefinida, deve ter uns 13 anos no calendário humano e uns três anos no calendário animal. Já tinha tudo para ser mãe: peitos, menstruação e órgãos genitais perfeitos e saudáveis. Para não emprenhar e para controlar o fluxo sangüíneo, ela tomava anticoncepcionais, melhor diria, anticoncepcionais eram lhe aplicados.
          Poder-se-ia dizer que é nossa neta, pelo fato da nossa filha casada e sem filho, tomou-a para criar ainda recém-nascida. Entre as duas, havia uma grande cumplicidade que com exceção do trabalho, aonde minha filha ia, ela ia atrás.
          Como todo jovem casal, a minha filha e o marido, quando iam às festas ou viajavam, deixavam a nossa “neta” adotiva conosco e quando voltavam das festividades ou das viagens, por força da rotina do trabalho de ambos, ela foi ficando e ficou.
          Inicialmente, relutamos aceitar àquela nova responsabilidade: “quem pariu Mateus que balance” mas ela é tão sapeca que quando voltava para casa dos seus pais “adotivos” deixava-nos um vazio...
          Alguns dias atrás, em um dos seus retornos (a minha filha e o marido viajaram), por um descuido meu e da esposa, Hanna foi levemente acidentada. Um maldito carro a bafejou, jogando-a contra o passeio. Para não perturbar o casal, que estava em gozo de férias, cuidamos dela nesse acidente como se fossemos seus verdadeiros avós.
          Foi uma correria, aflição para todo lado, vizinhos acudindo, a minha mulher me culpando pelo acidente e não menor a minha ira pela sua negligência. Todos apavorados pelos gritos lancinantes e choro de Hanna. Pensávamos que tinha fraturado uma costela ou outro osso de menor ou maior importância. Mas levada ao médico com urgência, feitos exames físicos, radiografias, constatou-se que ela tinha sofrido leves luxações traumáticas no peito e arranhões na cara, mas tudo de somenos importância ou gravidade vital.
          Trazida para casa, cuidamos dela como um bebezinho que é. Antibióticos, pomadas “spray”, unguentos caseiros, chá de mastruz e por aí afora. Ficamos aliviados quando oito dias depois, ela foi voltando andar sem sequelas e pintando o sete.
          Hanna é muito travessa, às vezes, faz xixi e outras coisas nos lugares mais inconvenientes. Por mais que ralhemos, ela parece entender nossa bronca no primeiro momento, nos olha com uma carinha tão safada, nos promete com os olhos que não mais fará estripulias e dois dias depois, repete tudo de novo.
          - Hanna se você fizer xixi aqui, irei esfregar sua carinha nele! – Ela promete que não, mas fica na promessa, quando esquecemos e achamos que ela entendeu nossas admoestações, ela quebra seu compromisso e deixa uma enxurrada de mijo no sofá ou no meio da casa.
          Toda reprimenda desce pelo ralo diante da sua doçura meia hora depois, basta o repressor de suas necessidades fisiológicas sentar-se no sofá ou em qualquer lugar, ela chega querendo sem querer, se aconchegando entre as pernas e logo depois, se estira toda tomando conta da situação. É preciso que seja um energúmeno, desprovido de sentimentos para não se derreter de emoções diante de tanto carinho.
          Às vezes, fico pensando se todas pessoas do mundo fossem como Hanna e seus irmãos, o paraíso prometido pelos cristãos seria aqui na Terra, independente doutras mazelas da humanidade. Hanna não enxerga as meus defeitos, ela só enxerga as minhas qualidades. Não me discrimina, nunca cheguei para ela está enfezada, de cara feia, de calundu. Quando ela ouve o barulho do meu carro ou minha fala, começa fazer festa de boas vindas. Sobe nas minhas pernas, agita-se toda e enquanto não a coloco no colo e dou-lhe um beijo, dizendo que estou bem, ela não deixa de se agitar.
          Embora seja feminina, ela e seus irmãos de raça nunca serão infiéis. Mesmo que lhes façamos alguma maldade, dois minutos de carinho, de afago, de estripulia, é o que é necessário para eles esquecerem de qualquer má ação praticada pelo criador. Ela não guarda ódio, ressentimentos menores, vinganças, malquerenças, ela só guarda alegria e bem querer. Ai daquele ou daquela que tente agredir-me em sua presença. Aí, ela se torna mais irracional...
          Quem não compreende essa relação de amor, não entende e nos censura. Acha pieguice e talvez procure na psicologia animal e humana uma resposta. Poderá dizer que estamos sublimando frustrações e fracassos amorosos reprimidos no subconsciente. Responder-lhe-ia que a ciência não explica com quem, como e quando o amor acontece. Ele acontece.
          - Quem é Hanna? – É a minha pequerrucha, a minha salsichinha, a minha cachorrinha BASSET, a verdade reclama: uma “gata”!...


Autor Rilvan Batista de Santana 
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Blog: Ponto de Leitura 


Réquiem - R. Santana

 

Réquiem
R. Santana
 
        "Senhor, conceda-lhe a vida eterna"

     Hoje, acordei com o pressentimento de morte. Não sei quanto tempo vou durar, mas sei que não vou demorar muito neste planeta Terra. Se fosse versado em música clássica como Mozart, começaria escrever a minha música para o meu sepultamento: “requiem aeternam”, na versão dos doutos: repouso eterno! Porém, quem disse ao energúmeno que criou este tal “requiem aeternam”, que eu quero repousar eternamente? Se o movimento, o dia a dia, a atribulação, os desafios e as superações que fazem a vida gostosa e o desejo de viver. O matuto é feliz quando diz: “Se morrer é descanso, eu prefiro viver cansado”.
      No meu sepultamento, não ficarei menos feliz se na falta de um Mozart, se alguém providenciasse Roberto Carlos, Chico Buarque ou Milton Nascimento, nossos maiores cancioneiros, enquanto meu corpo frio fosse baixado na terra árida ou o caixão fosse colocado numa gaveta, os parentes, amigos e amigas cantassem “O Senhor é Santo”, “Jesus Cristo” ou “Cálice”, estas canções não me aliviariam descer ao inferno, mas consolariam os corações dos que estiveram comigo até o fim, para os mais crédulos cristãos, o fim do começo, a espera da ressurreição.
   Não ficarei depressivo quanto Mozart, que atribuiu o pedido do réquiem ao mensageiro do Destino que queria encomendar uma peça musical para si e não para um conde alemão qualquer, pois o mensageiro sumiu com a mensagem...
    Entretanto, não faz jus pela dificuldade, eu pedi à viúva e aos amigos uma missa acompanhada por uma orquestra tocando uma música de Mozart, de Beethoven ou de Joseph Haydn, se estou lhe deixando modestos recursos, portanto, as músicas dos nossos cancioneiros populares, é que preencherão a nave da igreja e também os sentimentos dos meus entes queridos com a mesma força de uma música clássica.
      Hoje, a preocupação dos ricos mortais, não é mais com a suntuosidade das missas (os padres encomendam o corpo na pedra fria da funerária), com as músicas fúnebres orquestradas, mas com a beleza do ataúde, a quantidade de coroas (quanto mais coroas, mais importante é o defunto), a quantidade de flores e a riqueza do mausoleu.
    Os pobres mortais satisfazem-se com um caixão que não deixe o corpo no meio do caminho, o canto dos Salmos, uma sepultura na terra fria e a lembrança eterna do seu ente querido.
       Mas, o pior de quem vai mudar daqui pra lá, é que do lado de lá é um mistério, ninguém ainda tem prova do que ocorre depois da morte. Os kardecistas alimentam uma vida depois da morte, com o mesmo formato daqui, em que o sujeito continua em atividade após a morte, depois de sucessivas reencarnações para o seu aperfeiçoamento espiritual, seu espírito viverá para sempre.
    Cada religião tem um pensamento, o cristão espera a ressurreição, o muçulmano, espera encontrar o repouso eterno no paraíso junto de Alá. O budista espera encontrar um estado espiritual zen, através da intuição e da contemplação. O deísta, o panteísta e o ateu têm concepções diferentes, porém, todos eles não têm certeza do que acontece do lado de lá e ninguém faz questão de morrer, todos eles esperam que a morte chegue naturalmente sem atropelo e desejo.
     Não desejo ir para o lado de lá, mas não existe saída, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, por isto, tenho que pensar num “requiem aeternam”, num repouso eterno mesmo contra vontade. Os amigos, os parentes e os meus inimigos que me sigam, no entanto, desejo-lhes um século para um “requiem aeternam”, já que não sei o que é do lado de lá, mas estou certo que todos haverão de chegar...
        Deus criou o homem e tudo que existe, ao homem lhe deu promessa de vida eterna. Qualquer que seja o caminho registra esta promessa, mas se não foi Deus que alimentou o homem a promessa de vida eterna através das Escrituras Sagradas, não é blasfêmia, mas seria melhor que Ele não o tivesse criado.
   Porém, não devemos condenar os homens santos que alimentaram séculos essa esperança através da fé, se o homem não tivesse nada para se agarrar, sua crise existencial começaria desde o nascimento, seus dias seriam um inferno, suas tormentas acabariam com a sua morte.
    A vida se finda, é a única certeza, não sabemos se a vida finda eternamente ou é o fim do começo para ressurreição ou reencarnação. Se a morte é o fim do começo, valeu a pena toda a crise existencial, todas as agonias terrenas, todos os sofrimentos, mas se não existe vida espiritual eterna, o ser humano não passa de uma coisa abjeta e desprezível, uma criatura com o mesmo destino de um sapo ou de uma rã, melhor seria que não tivesse tido a História da Humanidade, pois no futuro, o homem irá renegar Deus e construir o seu próprio destino.
    A dúvida é cruel, mas vale a pena alimentar a esperança de vida eterna, senão, melhor morrer do que ter nascido. 
 
Autor: Rilvan Batista de Santana 
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O pestinha - R. Santana

 

 
O pestinha
R. Santana

     O diacho da criança não deixava a jovem mãe em paz na fila do caixa do mercado. Deveria ter no máximo uns dois aninhos de vida. Bulia nos doces, nos barbeadores, nos jornais, tudo que estava exposto à beira do caixa, de quando em vez berrava de choro a qualquer intervenção da mãe que lhe contrariasse.
   Rechonchudo, cabelos loiros anelados, feições viçosas, um garoto bonito e saudável... Se o diabinho não fosse tão estripulento, dava-se gosto colocá-lo nos braços em aconchego.
     De repente, uma senhora, atrás da fila, incomodada com as más-criações do fedelho, irrompe agastada:
     -Moça, repreenda essa criança!... - a jovem mãe bufou:
    -Quem é a senhora para me mandar ralhar com o meu filho?
    -Desculpe-me moça. Apenas, pedi-lhe para conter os viços e as más-criações da criança...
    O pestinha nem estava aí para o entrevero, pulava no carrinho-de-feira, esticava os cabelos da mãe e choramingava:
    -Ma... ma... mamaaa... ma... ma... mamaaa!... – outra senhora da fila, menos refinada:
   -Dê mama a esse pestinha para nos deixar em paz! – gritou.
   Não houve morte nem ferido, os seguranças deram um basta no conflito, contudo, não foram diligentes suficientes para evitar que a mãe levasse uns bons tabefes das matronas que se uniram na desavença...
   O fedelho alheio à briga, continuou berrando e choramingando:
   -Ma... ma... mamaaa... ma... ma... mamaaa!...
 
 


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/06/2012
Alterado em 02/09/2024

Carta para um escritor - R. Santana

Carta para um escritor
R. Santana

“Feliz aquele que transfere o que sabe”

    No início deste ano, vaidoso por estar dominando parcialmente certas funções do computador: o Word, eu tive a pretensão de mandar uma carta para uma figura exponencial das letras da região do cacau. Embora não tenha lhe pedido resposta, considerando sua laboriosa atividade intelectual.
    “Itabuna, 10 de fevereiro de 2006. Preclaro Senhor: leio sua coluna semanal no jornal A, há vários anos. Porém, somente agora, depois de comprar um computador (quatro meses de comprado), aprender o mister do seu uso, que tenho a pretensão de lhe escrever e trocar uns dois dedos de prosa, como dizia o nosso caboclo. Para mim, é uma honra pois o considero neste momento, um dos maiores escritores regionais do nosso estado e quiçá do Brasil.
    Embora tenha passado uma vida lidando com os números de Pitágoras, Gauss, Descartes, e tantos outros expoentes da ciência dos números, sempre me deleitei com a arte do uso da palavra escrita e falada. Jamais iremos encontrar em nossos políticos atuais, o talento de um Cícero, um Diógenes, um Ruy Barbosa, um João Mangabeira, um Carlos Lacerda. Na arte de escrever, declinaria: um Platão, um Francis Bacon, um Aristóteles, um Dumas, um Eça, um Vitor Hugo, um Sidney Sheldon, um Morris West, um João Ubaldo Ribeiro, um Jorge Amado, um Adonias Filho, um Cervantes, um Érico Veríssimo e tantos outros luminares da nossa prosa e da nossa filosofia que me fogem à memória. Todavia, sem prejuízo histórico e sem demérito de todos os citados acima (não sou um crítico literário para fazer um juízo de valor e que a minha opinião deva ser considerada), particularmente, o nosso maior artista da prosa foi o Sr. Joaquim Maria Machado de Assis, este usava a palavra como um pintor usa o seu pincel com todos os cuidados e sutilezas de detalhes. Detalhes das linhas, das curvas, do brilho, das cores, dos contrastes, tudo que se exige numa obra de arte, principalmente, se ela teve a hegemonia e o olhar de um da Vinci, de um Miguel Ângelo, de um Meireles ou de um Van Gough. Machado de Assis usava a palavra como o escultor usa o seu cinzel para delinear toda beleza de uma escultura. Ele pode não ter sido um gênio da inspiração do enredo, mas ele foi um gênio na construção da língua, na sua concisão, na sua clareza, na precisão textual, nos parágrafos e períodos curtos e inteligentes e no realismo de sua época.
    Guardando as devidas e respeitosas proporções, sem jactância, puxa-saquismo, eu o comparo ao mestre Machado. Acredito que pela facilidade de escrever o cotidiano, o dia a dia, a riqueza e o movimento que imprime em seus personagens, tornando-os “vivos” e simpáticos. Transformando personagens belicosos da terra do cacau em figuras românticas e ingênuas, fazendo da história de luta e sangue parecer uma estória de carochinha, onde cada episódio é narrado com cores e fantasias. O Senhor lembra-me também o saudoso Plínio de Almeida (o meu professor de História na Escola Comercial), porém, Plínio tinha falha na sua formação intelectual. Por temperamento irrequieto e vaidoso, queria açambarcar todo conhecimento do seu tempo e por ser um autodidata, tinha enormes falhas teóricas metodológicas. Porém, era um grande poeta, um cronista como poucos e com uma verve fácil e inteligente que jamais deixará de ser lembrado na nossa sociedade das terras do sem fim.
    Embora alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido um mestre do idioma, foi também um escritor com essa preocupação: de transformar seus heróis em personagens vítimas de um contexto exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição de Graciliano Ramos que fala do sertão e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva e pasto para engorda, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia. E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes e a história do comunismo no Brasil, tornava-se maçante, inferior, de talento duvidoso...
    Mestre A. (permita-me o tratamento menos cerimonioso), a comparação que fiz com o mestre e Machado de Assis não foi gratuita. Embora Machado não tenha escrito temas regionais, fi-la considerando que tanto o senhor quanto ele primam pela clareza e leveza de estilo, tornando o texto inteligível e de fácil compreensão. Hoje é de somenos importância os textos com verborragia prolixa e incompreensível que alguns escritores teimam em usá-la, às vezes, para demonstrar conhecimento intelectual e profunda erudição, tornando-o chato e ininteligível. Difícil é escrever com simplicidade, ter capacidade de síntese e análise. Difícil é comunicar-se... Lembra-se de Sócrates e sua Apologia? Então, porque não falemos de Cristo, que pra falar do pai, do perdão, da justiça, do pecado e do amor, usava a forma mais interativa da linguagem simbólica: a parábola. Considerando ainda, que ambos, Cristo e Sócrates, não deixaram uma linha escrita do próprio punho, seus discípulos tiveram a incumbência de relatá-los para o mundo. Em nossos dias corridos e atropelados pelos fatos não existe espaço para uma literatura à euclidiana e alguns articulistas insistem em usá-la.
    Pelo fato do Senhor ter conseguido em suas elucubrações intelectuais o domínio da palavra, transformou-se não em um historiador-escritor regional, com textos que não ficam devendo nada aos grandes articulistas do Globo, do Correio da manhã do Estadão e de tantos outros órgãos da comunicação deste país continental, chamado Brasil.
    Enfim não é necessário responder-me, tomar-lhe-ia o seu tempo e o tempo é a principal moeda do político e do escritor. Na oportunidade, desejo-lhe muita saúde e vida longa para que possamos desfrutar das suas CRÔNICAS semanais.”

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: Produção


O C a s a m e n t o - R. Santana

 

O C a s a m e n t o 
R. Santana

     O casamento é um consórcio em que a mulher entra com a beleza, o sexo, as curvas bem delineadas, um bumbum empinado, uns peitos avolumados e o homem entra com o trabalho e o capital. Por mais que tenhamos progredido intelectualmente e culturalmente, a tradição permanece: é feio a mulher pagar as contas – o homem é o provedor da família. Porém, nem sempre foi assim, em épocas não muito remotas, o mancebo recebia um polpudo dote que lhe garantia o feito e o feitio.
     Há um conto de Malba Tahan, que num país do Oriente (não me pergunte o nome), um judeu muito rico, com base no Talmude, fez chegar notícias aos jovens rapazes daquela época, que sua linda filha além de possuir um riquíssimo dote, o felizardo que a desposasse ficaria às expensas dele por dez longos anos, sem trabalhar, na maior boa vida... Um pobre jovem judeu, de tribo rival, apaixonou-se pela moça e pelas promessas do seu pai. Como “esmola grande cego desconfia”, pensou: “esses judeus não dão prego sem estopa, há truta nisso!” - Aí decidiu aconselhar-se com o mais velho ancião da sua tribo: - estou apaixonado. Ela é a mulher da minha vida. Porém, laranja madura na beira da estrada ou está bichada ou tem marimbondo no pé, né? – o velho pensou, pensou, achou que o rapaz procedia bem em desconfiar, essa raça não era fácil e disse: - meu jovem, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Tu cuidas do teu casamento e do contrato, se algo não ocorrer bem com a promessa do teu sogro, procuras um judeu rival do pai da tua noiva e aconselhas-te com ele - o jovem sentia que havia algo de podre no reino da Dinamarca, mas valia qualquer sacrifício para desposar àquela jovem.
     O casamento transcorreu com muitos folguedos, bebidas, comidas durante três dias, tudo era só alegria! Seu sogro era uma simpatia em pessoa, cuidou dos mínimos detalhes para que nada fosse motivo de reprovação e comentários desairosos. Os convidados ficaram encantados com o fausto da casa. Os nubentes se esbaldaram de tanto dançar e degustar dos prazeres da mesa, porém, toda festa tem início e fim e cada um voltou para o seu dia a dia.
     Passados longos dez dias de bonança, o sogro vai à casa dos pombinhos e depois de muitos abraços e beijos dando fim às saudades, o sogro chama o genro em segredo e pergunta: - e aí meu genro, estás feliz? O genro não pode esconder o contentamento e respondeu-lhe: - melhor estraga, meu sogro! - Não podia se queixar. A esposa era maravilhosa, possuía todas as qualidades, além disso o sogro estava cumprindo tudo que prometera. O felizardo estava navegando em céu de brigadeiro, não tinha motivos para reclamar... O velho começou andar dum lado pra outro, pigarreou, coçou a cabeça, por fim falou: - meu genro, eu não posso me queixar, a minha filha está feliz a olhos vistos, porém... já não tenho mais obrigações contigo, já cumpri o meu dever de pai e de sogro - o genro foi abaixo, não estava entendendo... queria uma explicação: - Meu sogro, não estou lhe entendendo, além do dote, não me foi prometido dez anos às tuas expensas? Casei-me com tua filha, estamos felizes, gozando ainda nossa lua de mel e tu me vens com esta de ter cumprido o nosso contrato? Maluqueceu? – o velho continuou no seu périplo, reflexivo, respondeu: - não estou maluco meu genro! Tu me dissestes ainda pouco que és feliz, melhor estraga e há um provérbio do nosso povo que um “dia feliz na vida de um homem vale por um ano”, tu estás com dez dias de felicidade, então, pela nossa tradição és feliz há dez anos! – o rapaz caiu em si, realmente, foram dez dias de gozo e felicidade, não podia reclamar, o velho lhe tinha pego uma peça... teria que trabalhar daí em diante para prover sua casa. Tinha sido embrulhado e enrolado pelo artifício e sagacidade do sogro, como se safar dessa esperteza? Lembrou-se do conselho do ancião de sua tribo: “procuras um judeu rival do pai de tua noiva”.
     Ele foi ao mentor mais famoso da sua região queixar-se do procedimento e esperteza do sogro, do artifício que ele tinha usado para safar-se dos compromissos e lhe retirar a gorda mesada. Que faria? Como iria sustentar a si e a mulher? O mentor depois de ouvir os queixumes do folgado, disse: - jovem, teu problema é fácil de resolver, tu voltes e digas ao teu sogro que a lei judaica dá direito ao marido repudiar a esposa que em dez anos não concebeu! - O jovem saiu dali saltitante, achava que seu caso tinha sido solucionado, embora amasse a esposa, tinha que cutucar o velho e não deixar a bonomia matrimonial:
     - Querido sogro vim devolver tua filha! -, o velho ficou estupefato, teria ocorrido um flagrante adultério? Porém, como todo bom judeu, manteve-se calmo, reprimiu os impulsos, pois sabia que um escândalo naquele momento o deixaria em maus lençóis e por experiência sabia que uma boa conversa e umas moedas de ouro na bolsa de um fraco caráter enfraquece qualquer ímpeto de dignidade. Ademais, bronca é arma de trouxa. Abriu os braços, um largo sorriso estampou-lhe o rosto, perguntou: - Não amas mais minha filha? - O rapaz não esperava por aquele desprendimento e desfaçatez... O seu sogro era um grande canastrão, representava mal, mas representava... – pensei que tu estavas me preparando um neto? – neto!... neto era o gancho: - é justamente o neto meu sogro, estar faltando um neto! E, conforme a lei judaica, a mulher que não concebe em dez anos é repudiada! – o velho não perdeu a fleuma: - meu rapaz quer matar do coração este velho? Esqueces tudo que te falei! Foi uma grande brincadeira! Queria somente conhecer se o meu genro é arguto... vás e continua fazendo minha filha feliz... Tu és o genro que pedi ao profeta Moisés! Se quiserdes morar comigo, és mais um filho à mesa...

     Para um sabido, sabido e meio. Para os inimigos a lei e para os amigos as falhas da lei...



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 22/06/2012
Alterado em 07/01/2025

Vercil Rodrigues e as análises cotidianas - R. Santana.

Vercil Rodrigues e as análises cotidianas
R. Santana

    O professor Vercil Rodrigues é um exemplo de superação. Egresso de escola pública, portador de deficiência física, filho de pais pobres, possuiria todos os ingredientes de um fracassado, de um trombadinha, de um usuário de droga, de um Lima Barreto que Monteiro Lobato negou conhecer, em orgulho de vida. Não se sucumbiu ao meio nem ao defeito físico, transformou o seu status quo através do estudo e determinação, hoje, ele é professor de história, bacharelando em Direito, escritor, empresário, editor e fundador de jornal jurídico, site e a revista “Direitos” - a primeira revista jurídica do estado da Bahia.
   Li e reli o seu livro (já na 2ª. edição) “Análises Cotidianas”, é uma beleza de livro, Vercil Rodrigues discorre sobre saúde, educação, vinda do papa Bento XVI à nossa terra tupiniquim, acessibilidade, Dia Internacional da Mulher, impunidade, indignação etc.
    O seu livro Análises Cotidianas não é uma leitura chata, erudita, não é um livro rebuscado de retórica, de termos difíceis, expressões prolixas, mas um texto de quase 40 capítulos de doçura. Não é o livro: “As Catilinárias de Cícero”, porém, são as análises do dia a dia, as crônicas do cotidiano, um livro gostoso de ler e aprender, desde o prefácio de Dr. Selem Rachid Asmar e do preclaro advogado Paulo Sérgio Bonfim até a sua última linha.
   Além disso, o danado do Vercil Rodrigues, ainda bacharelando, sem ter adquirido as manhas da sua futura profissão de operador do Direito, surpreendeu à classe e aos seus mestres, desafiando à compreensão de velhos causídicos, não faz muito tempo, com o seu livro: “Breves Análises Jurídicas”.
    Nessa área jurídica, meu caro leitor, eu não lhe dou detalhes, pois o seu velho amigo é obtuso e ignorante em leis, mas prometo buscar esses ensinamentos no mestre advogado Paulo Bonfim. Todavia, adianto-lhe que não irei jurar esse compromisso nem pelo Corão de Maomé, tampouco pelos Evangelhos de Jesus Cristo, seria uma heresia, um engodo, uma mentira, é que comungo com a teoria piagetiana do significado da aprendizagem e as teorias jurídicas não me apetecem, se me der na telha...
    Acredito no potencial intelectual de Vercil Rodrigues, porém, não sei se estamos diante duma promessa à estatura dos baianos Clóvis Beviláqua, Rui Barbosa, Orlando Gomes, certamente, nós estamos diante de uma promessa jurídica ou diante de uma história de vida que irá encher de orgulho os seus contemporâneos baianos e brasileiros pelo exemplo de superação e determinação que como todo mortal, um dia irá deixar...

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Enviado por Rilvan Santana em 22/06/2012
Alterado em 03/08/2012


Afrodite - R. Santana

 

Afrodite
R. Santana

“... Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-iá com ela, então o Senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”

    Diz a tradição popular que quem conta um conto, aumenta um ponto... Porém, prometo ao leitor que ler este conto que procurarei ser um dos mais fiéis narradores dessa história. Não sei se ela já foi contada por alguém, se foi, espero que ele tenha sido fiel aos fatos. Não me incomodarei se seu estilo for mais rebuscado, mais inteligente, pois não sou um escritor mas um sofrível escrevedor.
    Afrodite, bem nascida, bem educada, era a filha caçula de ricos empresários. Sua mãe descendia de uma família de abastados produtores de açúcar e álcool, dona de usinas e imensos canaviais no interior de Pernambuco. Seu pai, de uma família de políticos e empresários da construção civil paulista. Tinha ascendentes ingleses por parte de pai.
    Afrodite, como uma deusa da mitologia grega, era linda. Uma morena alta, com formas e expressões faciais bem definidas como se a natureza tivesse esbanjado por capricho, seu estoque de beleza numa só pessoa. Sua beleza atraía e irritava...
    Não era má. Era dócil, inteligente e solidária, sem ímpetos e ideais revolucionários. Nunca pensou em mudar o mundo mas viver para amá-lo. Gostava de viver o amor e o prazer sem ser fútil. Não perseguia o prazer e a beleza como fim último. Não era uma hedonista, não era uma radical, o prazer e a beleza eram conseqüências. Enfim, era uma pessoa normal, suas ações e reações eram circunstanciais.
    Pela beleza, pelo viço e pela juventude, tinha sido perseguida por muitos mancebos da alta aristocracia paulista. Desde a adolescência, recebia propostas de namoro, de casamento e juras de amor eterno. Tinha a diplomacia no sangue, esgueirava-se dum e doutro sem deixar sequelas.
    Casou-se aos 25 anos com um jovem multimilionário e antes de completar seu trigésimo aniversário, teve três filhos, um homem e duas mulheres.
    Seu marido era um engenheiro civil talentoso. Nunca foi empregado do governo. Não gostava da atividade política partidária. Cultivava algumas relações de amizade e comerciais com alguns políticos, por força de contratos que suas empresas tinham com o governo estadual e federal. Contribuía financeiramente, com todos candidatos a cargos eletivos, com potenciais condições eletivas não obstante o partido político dele ser da direita ou da esquerda.
    O esposo de Afrodite, o empresário, Arnaldo Sá, deixou este mundo aos 42 anos de vida, vítima de um brutal acidente de automóvel, pela imperícia de um carreteiro, numa ultrapassagem irresponsável, o abateu na contramão.
    Na época do desenlace, da tragédia, Afrodite estava à beira dos 40 anos de idade, era mais nova do que o marido uns dois anos. Ficou viúva ainda moça e rica. Nunca tinha enfrentado uma tragédia, o mundo tinha desabado em sua cabeça com a morte do marido. Seu casamento tinha sido por amor, embora sua família fosse menos rica do que a do esposo, era rica e tradicional. Arnaldo tinha sido o seu primeiro macho, os outros tinham sido namorados, pequenos affair e namoricos.
    A perda do marido tinha transtornado e transformado a vida de Afrodite. Não que a tivesse se transformada numa mulher dissoluta, namoradeira impudica, desregrada, mas tinha saído da rotina do lar e do trabalho e passado a curtir noitadas de festas e bebedeiras.

    Naquela manhã de setembro de 1993, ela tinha acordado de ressaca, mal humorada, indisposta e cansada. Não tinha nascido para libertinagem e licenciosidade. A maioria de suas colegas estavam afeitas àquela vida desregrada e achavam-na prazerosa. Ela não as censurava e não as condenava, tinha aprendido desde cedo “...não julguem e vocês não serão julgados...”, então, “...quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra...” , certamente, um dia, todos serão julgados pelo Criador do Universo.
    Ao passar em frente ao espelho, levou um susto: sua mocidade e sua beleza escorriam na calha do tempo!... O tempo era mau, impiedoso, inexorável, infinito e jamais volta. Segue transformando, fazendo e refazendo. Alimenta sonhos, esperanças, constrói vitórias e testemunha derrotas. O tempo é a espada de Deus...

    -Espelho, espelho meu... ah, ah, ah!... Tu pensas que irei repetir a pergunta daquela madrasta malvada da Branca de Neve dos irmãos Grimm? Estás enganado. Sei que não sou mais bonita como dantes!
    -Oh!... Tu ainda és moça e bela. O quê diriam as feias e as velhas? – perguntou o espelho.
   -Espelho tu és insensível e cruel em teu juízo. Não vedes que eu sou uma cópia embotada do passado. As feias nasceram feias, assim devem continuar e as velhas foram vítimas do tempo, Deus deveria lhes ter dado a graça de morrerem jovens e... – foi abruptamente interrompida pelo espelho.
    -Senhora, estás blasfemando! Deus é eterno, não é imediato. Ele tem um plano para cada um de nós. A matéria é movimento e envelhece, a alma não!...
    -Tu, espelho, não vedes que o homem foi mais generoso contigo que Deus comigo. Tu fostes trabalhado, lapidado e colocado numa linda moldura de mogno. Daqui uma centena de anos, tu poderás refletir a beleza das damas que passarem por aqui, com a mesma singeleza deste momento. Enquanto eu serei pó e à terra voltarei.
    -Tu, madame, estás embebida de sentimentos e coisas efêmeras. A beleza e o prazer são efêmeros. Fui lapidado e trabalhado pelo homem, porém, ele poderá me destruir e tirar o meu brilho. O homem é mau e egoísta. Todavia, eu e tu jamais seremos destruídos em nossa essência. O ser é transcendental e eterno – concluiu o espelho.
-Espelho não me venhas com este pensamento aristotélico. Fazes um retrospecto da história e vedes que todos pintores e escultores perseguiram a perfeição em suas obras.
    -Senhora, o homem ainda busca o prazer e a beleza como dantes. Acredito que, hoje, ainda mais, existem novos recursos científicos. Os pitanguys, as academias de ginástica e beleza e as enésimas fórmulas de cremes e unguentos naturais não me deixam mentir – justificou o espelho.
    -Tu és um ingênuo. O tempo é inflexível, já vistes que coisa horrível são as mulheres que querem se manter novas? O bisturi tira as rugas, muda as formas, suspende e siliconiza os peitos mas, ele não lhes devolvem o viço, o mimo e o frescor da juventude e não lhes cicatrizam as dores e angústias da alma, continuam velhas... ridículas!...
    -Concordo contigo, sou testemunha do queixume delas. Quantas já passaram por aqui tristes e revoltadas? Muitas. Se todas entendessem que sua essência é a mesma, o mundo seria menos lamurioso.
    -Espelho, depois nos veremos, bom dia!
    -Bom dia, senhora!...
    Afrodite passou usar os outros espelhos da casa. Quem iria acreditar nela que aquele espelho falava? Ninguém. Porém, dois depois, rompeu o trato consigo mesmo e resolveu confirmar se aquilo não teria sido produto de sua imaginação, voltou auscutá-lo e nada melhor do que provocar-lhe:
    -Não irei mais passar defronte de ti!... Há dois dias que não te procuro e quando volto, vejo um fio de cabelo caindo na minha fronte. Parece-me que gostas de expor os meus defeitos...
   -Senhora, não estou enxergando nenhum fio de cabelo branco. Aliás, tua cabeleireira é cuidadosa e profissional. Uma boa pintura resolve o problema.
    -Espelho, tu vês aquele retrato?
    -Vejo. Não faço outra coisa... ele fica defronte a mim. Vejo que tu eras bem jovem, deverias ter uns 20 anos de idade...

    -Enganas-te. Ele foi tirado no dia que completei 25 anos – esclareceu Afrodite.
    -Senhora, não diminuir a idade para te agradar. A pessoa tem a idade que aparenta. Naquele retrato, tu aparentas 20 anos ou menos, por isto, prefiro ficar com esta idade.
    -Espelho, aquele retrato tem quase duas décadas... já começa desbotar... ele começa dar sinais de envelhecimento... e, tu me dizes que aparento ainda mais nova?...
    -Senhora, percebi que a pintura começa desbotar mas o brilho dos olhos, as feições e a aura que existe nele permanecem como no primeiro dia. Eu o estou vendo com os olhos do coração e não com os olhos da crítica!...
    -Espelho, em que fonte fostes buscar tanto romantismo? Ainda não percebestes que tudo envelhece e se transforma e me dizes que o brilho, as feições e a aura refletidas naquele pedaço de papel, são os mesmos de quase 20 anos atrás?...
    -Senhora, não polemizemos! Talvez tu não alcançastes o meu pensamento ou talvez eu tenha exagerado nas minhas digressões... – desculpou-se o Espelho.
    -Ah!!!..
    -Pensastes o quê? – perguntou o Espelho.
    -Tu és abelhudo! Queres conhecer os meus íntimos desejos?...
    -Não!!... Fui criado para refletir o que está fora do ser, dentro dele é uma caixinha de segredo, só o eterno Criador tem esse poder – desabafou o Espelho.
    -Espelho, percebo que és arrogante! Não entendes que posso te destruir? Não me leves à loucura!...
    -Dorian Gray assassinou o pintor Basil Hallward e esfaqueou o seu retrato numa relação de sadismo, porém, não conseguiu destruir a beleza do quadro, morreu desfigurado e irreconhecível... – disse o Espelho.
    -Estás me ameaçando? – perguntou Afrodite.
    -Não!... Quero dizer-te que quando me destruíres, os estilhaços de cristais desprendidos de mim, te deixarás desfigurada e não poderei depois refletir tua bela imagem se eu for restaurado.
    -Espelho, tu és esperto, tens justificativa pra tudo. Dizes-me então como farei para continuar jovem e bonita?
    -Não existe um elixir da juventude. A beleza é um estado de espírito. O belo absoluto não existe é um componente estético e subjetivo duma obra, enquanto isto, a natureza é bela e eterna mesmo velha. Tu nunca conhecestes idosos de uma beleza genuína, plácida?
    -Espelho, se eu morresse agora, aqui (apontou a cama), tu serás capaz de registrar, somente, esse estado de espírito que referistes?
    -Senhora, como poderei fazê-lo se tu gozas de uma saúde de anjo? Pensas em suicidar-se?...
    -Não tenho coragem. Penso em abandonar a vida. Deitar-me naquela cama, saudável e bonita e deixar-me morrer pouco e pouco, sem comer e beber até o último suspiro!
    -Senhora, tu levarias muito tempo para morrer, enquanto tu ias definhando, perdendo o viço e o mimo, nos últimos dias, estarias velha e feia!...
    -Para que serve os amigos? Tu registrarias o meu melhor momento, a minha melhor imagem. Os meus filhos te colocariam em um quadro de bronze, tu serás a lápide do meu mausoléu!
    -Senhora, não possuo livre arbítrio, o poder de escolher a melhor imagem, a última imagem é a que fica. Acho que estarás feia e velha ao partir – o Espelho tentou persuadir-lhe da idéia do suicídio passivo.
    -Então, combinemos uma morte súbita. Prometes guardar a minha bela imagem? – insistiu Afrodite.
    -Senhora, sabes que não posso escolher. Porém, concedes-me o privilégio de guardar tua bela imagem, agora, para isto, quero tua promessa de não me vedes mais. Quando fores para vida eterna, te refletirei para sempre, não precisas abreviar tua morte!...
    -Espelho, farei o teu pedido. Confio em ti. Não sei quanto tempo viverei e não mais te verei. Quando eu morrer, mesmo velhinha e enrugada, providenciarei para que os meus filhos te coloquem e te protejam em meu mausoléu, refletindo-me...

    Não foi necessário Afrodite ficar velha e feia. Um ano depois foi sucumbida pela mesma tragédia do marido. No retorno do Rio para São Paulo, pela rodovia presidente Dutra, foi dilaceradamente morta por uma vil carreta.
Os seus filhos e parentes, cumpriram o seu último desejo: fixaram na principal parede de mármore do seu mausoléu um lindo espelho que reflete de forma tridimensional sua linda imagem. Todos acham que é uma obra encomendada de um pintor italiano     – ela e o espelho sabem que não...
    Alguém já tentou roubar o quadro mas foi surpreendido por uma voz de mulher que fala:
    -Deixe-o aí!!!...


Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna – ALITA
licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

São Caetano - R. Santana


São Caetano
R. Santana

          O São Caetano, hoje, é privilegiado pela quantidade de suas igrejas, a igreja Santa Rita de Cássia é a mais velha e a mais suntuosa, mas existe templo Adventista, Batista, Testemunha de Jeová, Universal, Assembléia de Deus, Igreja da Graça, além de igrejas dissidentes locadas em salão de garagem, portanto, se algum pesquisador fizer uma enquete, encontrará mais igreja do que bar (não é heresia), o que é generoso para a população, não obstante algumas servirem de fachada para exploração da fé e do bolso de incautos fiéis.
     Porém, em tempos idos, muito antes de Frei Joaquim Cameli desembarcar por estas bandas, muito antes dos padres capuchinhos passarem aqui, na época das missões, a fé dos moradores do São Caetano era confiada a Dona Pedrina, Manuel Canguruçu, Mãe Ester, Caboclo Ló e Maria Sertaneja, os primeiros e principais pais-de-santo, filhos de Iansã, Obá, Ibeji, Oxossi, Ogum, Iemanjá e outros orixás, filhos da umbanda de Angola...
     O seu sincretismo religioso fazia inveja às idéias ecumênicas atuais. Todos, sem traumas, tinham idéias cristãs permeadas de orixás, salvo, os pais-de-santo charlatães, de interesses escusos, manifestavam crença nos exus como meio de solucionar os males físicos e os casos de possessão dos seus clientes. Naquele tempo, todo barracão tinha um espaço reservado aos santos, à queima de velas, às oferendas e um quartinho escuro cheio de mistério, onde segundo a lenda, o babalorixá mantinha o Diabo preso e o soltava em sessões especiais.
     Missa? Missa nos eventos anuais: Sexta-Feira Santa, Natal, Dia de São José e Quarta- feira de Cinzas. Os moradores emperiquitados, roupa domingueira, cabelo brilhantina, desciam a pé, a cavalo ou de carroça para o centro da cidade, no retorno, se despiam daquela parafernália indumentária, arregaçavam a bainha, penduravam os sapatos nas costas e voltavam pegando picula na estrada, às vezes, estrada enlameada.
     Porém, os adultos gostavam mais das festas e danças de candomblé, não movidos pela fé, mas pela superstição e requebro dos quadris das morenas e negras ao som dos tambores, possuídas pelos orixás... O som dos tambores era ouvido ao longe e ao invés do som repicado e monótono dos sinos, era mágico o som dos tambores de D. Pedrina ou de Manoel Canguruçu ou de Maria Sertaneja. As filhas de santo, de corpo escultural, de roupa branca e descalça, todo o corpo se mexendo, principalmente, os quadris e os ombros, movimentos eróticos levavam à loucura os filhos de santo, de vez em quando, uma filha de santo embuchava do pai-de-terreiro ou dos filhos-de-santo, aí, o pobre coitado ficava na casa do sem jeito, o jeito era amancebar-se. O pai-de-terreiro participava da dança de candomblé ou ficava sentado num estrado com postura de bispo, abençoando-os e recebendo louvores.
     Cada pai-de-santo incorporava um orixá (Bará, Ogum, Oiá-Iansã, Exu, Ibeji, Odé, Otim, Oxalé), estes orixás controlam (conforme a crença), as forças da natureza, portanto, existe o orixá de cura, o orixá para expulsar os espíritos maus, orixá pra controlar as paixões, orixá Tinhoso, orixá para benzer as encruzilhadas, orixá da fortuna, enfim, orixá para fazer o bem e orixá para fazer o mal.
     Os candomblés mais arrumados eram o de Dona Pedrina, o de Manoel Canguruçu e o candomblé de Maria Sertaneja. O candomblé de Pedrina era freqüentado pela elite e pelos políticos, a elite, interessada em suas lindas filhas de santo e os políticos interessados no aumento do seu cacife eleitoral. O candomblé de Manoel Canguruçu era voltado para cura de pessoas com obsessão de perseguição, vítimas de bruxaria, endemoninhadas, possessas, e, não para o tratamento de neuroses histéricas, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, esquizofrenias e outras psicopatias. O candomblé de Maria Sertaneja cuidava dos despachos, da coisa-feita e das mandingas de encruzilhada.
     Os malucos eram tratados por Manoel Canguruçu por certa “unguentoterapia”, uma substância estranha de rato morto, sapo, urubu, cobra, lagartixa que ele triturava tudo num pilão e deixava de fusão com uma mistura de ervas, após alguns dias, no sol e no sereno, aquilo se tornava uma “pasta putrefata” que era espalhada no corpo do maluco que se não ficasse bom...
     Porém, as mulheres malucas, as moças histéricas, de calundu, as moças mal amadas, reprimidas pela ignorância dos pais e dos costumes, cheias de faniquitos, eram tratadas por Manoel Canguruçu com água de cheiro e muita mordomia, as más línguas juravam que elas caíam na lábia e na cama do pai-de-terreiro como a “mosca no leite”.
     Um episódio policial acerca do candomblé é contado até hoje pelos moradores mais velhos, protagonizado pelo sargento Mário Silva, delegado do São Caetano naquela época: - As filhas de Iemanjá do Pai João Demétrio, voltavam do Rio Cachoeira com uns tabuleiros de oferenda, vazios, todas de traje branco, pulseiras e argolas, quando foram paradas pelo Jeep Willys do delegado, que autoritariamente, fez as moças subirem no automóvel com os tabuleiros e as levou para cadeia da cidade a pretexto de nada, minto, a pretexto de alimentar o seu ego etílico e autoritário.
     Hoje, as histórias de antigamente, parecem contos da carochinha, histórias de Trancoso, fatos inverossímeis, porém, são histórias verdadeiras, crendices de gente simples, crendices que contribuíram para crença racional e o sincretismo cultural e religioso atuais. Naquela época, padre, pastor, médico, advogado e engenheiro eram de ouvir dizer... O São Caetano daquele tempo era uma comunidade de trabalhadores rurais, jagunços, burareiros, carroceiros, aguadeiros, bodegueiros, retirantes, mestres de ofício, a maioria absoluta, analfabeta e supersticiosa, mas sem essa gente, os caetanenses de hoje, não poderiam contar sua História.

Autor: Rilvan Batista de Santana - ALITA
Fonte oral: Pedro Batista de Santana
e-mail: rilvan.santana@yahoo.com.br
Imagem da Igreja: Google 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 24/06/2012
Alterado em 12/06/2023

A Prosa e a poesia - R. Santana

 

A Prosa e a poesia
R. Santana

     A prosa é a expressão menor do pensamento enquanto a poesia é a expressão maior do pensamento. Na prosa, uma simples idéia, às vezes, é representada por várias palavras, entretanto, a capacidade de síntese e análise da poesia, poucas palavras representam um feixe de idéias, veja o exemplo do hay-kay, poesia japonesa, é uma poesia tão concisa que três versos encerram um pensamento.
     Por outro lado, o cultivo da poesia tradicional além do raciocínio conciso e analítico, exigia-se do sujeito, sensibilidade e técnica apuradas na sua produção. Quem não viaja nos versos das escolas literárias desde o arcadismo até a Semana da Arte Moderna de 1922? Naquela época, antes da Semana de Arte Moderna, não se fazia verso livre, por isto, ensejou-se o rompimento com o Parnasianismo e o Simbolismo, noutras palavras, quando a arte rompeu com velhos sentimentos individuais e adquiriu maior liberdade na forma e na expressão.
     O Modernismo rompeu com conceitos métricos e rítmicos tradicionais e quebrou alguns entraves lingüísticos e estéticos, a partir daí, tornou-se mais fácil fazer poesia e artes plásticas, porém, o Modernismo inibiu a pureza da alma do poeta, o seu vôo particular, o seu romantismo, a poesia tornou-se mais simbólica, mais lógica, mais racional e menos apaixonante, uma produção de cultos e menos povo:

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra...”(Drummond)

Antes, uma produção mais apaixonante, mais bela, uma produção do coração, uma produção de sonhadores e mais povo:

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores... “(Gonçalves Dias)

     Porém, qualquer que seja o movimento literário, qualquer que seja a escola literária, a prosa ficcional e a poesia (inclusive, a poesia pura), são imprescindíveis ao espírito humano, não se entende uma sociedade concreta o tempo todo, certamente, tornar-se-á ao longo do tempo, uma sociedade de pensamento estéril e doente.
     Embora a prosa seja uma expressão menor do pensamento, não lhe diminui o mérito, principalmente, quando a prosa é uma poesia, uma poesia-prosa, mesmo que o seu conteúdo real não seja aprazível.
À guisa de entendimento, o mundo literário produziu obras poéticas que estão na mente e no coração de todos os mortais para sempre, veja caro leitor:

a) Apologia de Sócrates, uma peça retórica em que Platão discorre com maestria o valor da liberdade e o sentido da morte. Sócrates, condenado à morte por corromper a juventude com certos ensinamentos, é condenado por um Tribunal ateniense beber cicuta. O tema liberdade, vida, imortalidade da alma, morte, explorado por tantos, ganha na pena de Platão um poema de beleza incomum e a obra é maior do que a personagem.

b) Os Sertões, a epopéia brasileira de Euclides da Cunha, enaltece o sertanejo, elege-o herói das adversidades naturais e Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos como uma das páginas literárias mais bela do idioma português e quiçá de todas as línguas.

c) Oração aos Moços, um discurso levemente autobiográfico de Rui Barbosa, louvando o Direito e a justiça, um discurso dirigido aos jovens bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. É uma jóia excepcional, um poema feito de prosa e poesia de valor indescritível que se faz necessário e indispensável à estante de qualquer neófito estudante do Direito.

d) A Oração da Coroa, discurso político de autodefesa do maior orador e político grego, Demóstenes. Aliás, além desse discurso, dessa prosa-poesia, Demóstenes tem uma historinha singular: - Conta-se que na juventude ele era gago e para vencer a gagueira, exercitava a fala com pedrinhas na boca em frente ao mar com o barulho das ondas. Sua determinação e sua força de vontade surtiram efeitos, que além de ficar curado da gagueira, tornou-se o maior orador da Grécia.

e) As Catilinárias, discurso de Cícero pronunciado no senado e ao povo romano, ainda é uma das jóias mais raras da literatura universal, Cícero, o maior orador romano, acusa Catilina, político ambicioso, corrupto e inescrupuloso: “Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a (tua) audácia desenfreada se gabará (de nós)?...

f) O Discurso do Método, discurso do filósofo francês René Descartes, entronizando a razão como pressuposto fundamental do conhecimento, donde se originou o racionalismo. Não obstante, o “Discurso do Métod”o ser um trabalho especulativo, filosófico, é sobremaneira um compêndio de prosa-poesia.

     Enfim, deve haver outras obras na mesma linha prosa-poesia, todavia, essas obras acima representam uma literatura de escol e justificam a necessidade de produções que não deixem a literatura morrer, produções literárias que atendam aos reclames do dia a dia, que reflitam as necessidades sociais, mas que sejam recheadas de sentimentos de solidariedade, de desprendimento e de esperança, pois, assim como o corpo não vive sem o alimento, o espírito se alimenta da fé em Deus, de valores morais, de fantasia, de prazer intelectual e de amor.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Membro: Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Licença: Creative Commons

A força do preconceito - R. Santana

 

A força do preconceito
R. Santana
 

     O motel “Maçã Verde” amanheceu, naquele dia, lotado de policiais, delegado e gente do IML, quase todos interessados na morte daquele transexual não conhecido, identificado pelo nome de Luiz Carlos..., um celular com agenda extensa de possíveis clientes, um relógio modelo feminino, uma bolsa com alguns produtos de beleza de mulher e um pouco de dinheiro.
     Os funcionários juravam que não o conheciam que nunca o tinham visto e não sabiam informar quem o tinha levado ali. Pra piorar, o plantonista acrescentou que na noite do crime o movimento tinha sido intenso, que as câmaras não estavam funcionando e por discrição, pouco se dava ao trabalho de esmiuçar o interior dos veículos, além de garantir-lhes que naquele dia não houve nenhum caso de suspeição, que tudo ocorrera na rotina de sempre.
     O local do crime estava quase intato se não fossem os lençóis revoltos e os travesseiros espalhados sobre o rosto da vítima. Pelo seu porte avantajado, embora feminino, a vítima deve ter se dado às perversões e às fantasias do criminoso, deve ter se deixado amarrar mãos e pés sem oferecer resistência, facilitando assim, os instintos de selvageria do homicida.
     A cena do crime mexeu com os nervos dos profissionais mais experientes com as desgraças humanas, não houve quem não fizesse uma cara de horror do que viu no quarto do motel “Maçã Verde”, naquele dia, a vítima estendida na cama com as pernas abertas, sem escroto e sem testículos, o sangue ensopando o colchão, os braços estendidos e amarrados à cabeceira da cama, pedaço do pênis na boca do transexual e o que mais assustava era a cara de tortura e os olhos esbugalhados da vítima e no seu peito esquerdo uma faca encravada até o cabo.
     Sonhos interrompidos, um corpo masculino que não se aceitou jogado no caixão para necropsia e corações de pais e amigos despedaçados.

                                                                                       ***

     A casa noturna “Black & White” funciona de Sexta-feira a Domingo, sempre lotada. O repertório musical é samba, é sertanejo, de quando em vez, o rock`n roll, bandas estrangeiras ou alguma música especial a pedido de clientes especiais. A clientela é de maioria jovem mesclada de pessoas não muito jovem. Os garçons circulam pelas mesas com bandejas, copos e taças de bebida e comida com desempenho invejável. Quando alguém bebe além do normal e arma arruaça, é contido pelos seguranças numa boa...
Maurício e Tiago não conheciam a casa “Black & White”, foram lá pela primeira vez, embora estivessem gostando da festa, ainda se sentiam peixes fora d`água, acostumados com as festas de família, aquele ambiente exagerava em luxo e suntuosidade. Porém, educados em escolas tradicionais, aprenderam sublimar suas emoções sem vexames.
     Tiago, mais novo, porém mais sagaz com mulher, chamou a atenção do irmão para uma linda morena que comia Maurício com os olhos:
     - Brother, aquela mulher não lhe tira os olhos!
     - Qual mulher!?
     - A morena que está sozinha naquela mesa do bar à direita!...
Maurício começou olhá-la de soslaio e se deu conta que Tiago tinha razão, a morena, descarregava-lhe com os olhos uma tonelada de libido que lhe começaria incomodar se não fosse o apoio e insistência do irmão:
     - Brother, vai lá!
     - Ainda não, vamos dar tempo ao tempo...
     Ao contrário do seu irmão, Maurício é cismado e caladão. Na cidade onde eles moram, Tiago é arroz de festa, brinca com os rapazes e namora as moças, gozador e satírico não perdoa a garfe de um colega, enquanto Maurício, embora não tivesse inimigos, não tinha amigos, afora os irmãos ninguém priva de sua intimidade, depois de Deus, a família, o estudo e o trabalho preenchem o seu mundo.
Tiago, moleque, não se contenta enquanto não junta ambos:
     - Meu irmão!
     - Estou encantada, Sarita!...
     - Maurício. Eu que estou deslumbrado!...

                                                                                  ***

     O táxi deslizava lentamente no asfalto, no meio da noite, rumo ao motel “Maçã Verde”, no banco de trás, Maurício e Sarita aos beijos e abraços... O motorista de quando em vez, olhava para o retrovisor de esguelha, mas com profissionalismo, naquela vida há muito tempo, aprendera desde cedo, que a discrição e o fingimento eram condições essenciais para não se envolver e nem ser envolvido em rolo, quando questionado por algum marido traído ou mulher traída, suas respostas lhe vinham à língua com facilidade: “Não sei”, “Não os conheço”,      “À noite, todos os gatos são pardos”, “As mulheres são as rainhas do disfarce”, etc., etc.
     A luz fosca do quarto e os espelhos do quarto valorizavam o sexo e o romantismo. Sarita, ofegante, lasciva, esfomeada, desabotoou num instante a camisa de Maurício, tirou-lhe a calça e a cueca com volúpia, suspendeu seu vestido à altura da barriga, virou-se de costas e deixou-se possuir pelo macho com gritos e grunhidos de prazer.
     Maurício, vorazmente, joga-a sobre a cama, tirou-lhe a roupa e começa mordisca -lhe as orelhas, lhe chupar o pescoço, beijá-la com sofreguidão, beijar e sorver os seios, lamber- lhe com volúpia a barriga, descer... quando, de repente, ele encontra uma protuberância de esparadrapo na genitália, desce num impulso da cama, berrando:
     - Que diabo é isso!?
     - Um pedaço do corpo que me consome a mente e a alma!
     - Você é homem!?
     - Sou mulher presa num corpo masculino!
     -Veado!!!
     O preconceito motivou o crime.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Licença Creative Commons
Imagem: Google
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 26/06/2012
Alterado em 07/10/2024

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