11.17.2025

Jupará - R. Santana

 

Jupará
R. Santana

     Não o conheci pessoalmente. Depois de adulto vi sua fotografia em um semanário da cidade. Era um gigante, um quasimodo à Notre Dame de Paris do genial Vítor Hugo, um monstrengo. Não sei também, se sua alma era tão feia. Sei que ele fazia parte do perigo imaginário de todas as crianças de Itabuna e cidades vizinhas, principalmente, quando uma mãe queria por limite na desobediência do filho: - se não tomar o remédio vou chamar Jupará! – Aí, o horror invadia o pobre coitado e ele tomava até óleo de rícino (um laxativo que o indivíduo enguia os bofes para tomá-lo), um remédio que era usado para purgar todas as lombrigas e parasitos do intestino da criançada.
     Jupará era um mal necessário. Naquela época, o meio rural era inacessível para carros. Não havia estrada, eram os ramais e os caminhos que davam acesso às fazendas e buraras de cacau. Eram os burros e os cavalos, os meios mais usados de transporte. Os fazendeiros preferiam os burros por serem animais mais argutos e por terem uma sensibilidade e um faro aguçados para o ataque imprevisível de animais nocivos ao homem, como os picos-de-jaca, as jararacas, as onças e outros animais não menos nocivos e nem menos ferozes. Além disso, ninguém tinha coragem para colocar sobre a sela de um animal, um caixão de defunto e embrenhar-se, à noite, mata adentro como fazia Jupará. Ele prestava esse serviço fúnebre no meio rural, na periferia da cidade, com tanta presteza e doação na hora da dor e perda de um ente querido, que para aquela gente sofrida, Jupará era um ser querido e disputado.
     Era uma ave agoureira, tinha um instinto tão apurado que descobria um moribundo a quilômetros de distância. E, quando ele começava rondar a casa de um doente terminal, tinha-se certeza que o desfecho era iminente. Às vezes, ele era evitado por muitas famílias supersticiosas.
     Havia um boato que Jupará era um necrófilo, tinha uma atração sexual mórbida por defunto. Que muitas virgens tinham sido defloradas depois de mortas. Ninguém sabe se esses boatos eram verdadeiros, todavia, eles povoavam o imaginário daquelas pessoas simples e supersticiosas.
     Naquele tempo não havia sala de velório. O corpo era velado na sala da casa da família. Quando ocorria um velório de um indivíduo abastado, a família contratava duas ou três carpideiras que com seu choro triste e as ladainhas cantaroladas, formavam um cenário lúgubre e melancólico. No meio da noite, a família do falecido, distribuía bebida alcoólica e comida aos presentes, era muito comum ouvir a expressão: “vamos beber o defunto!” Quando era uma família muito religiosa, ao invés de bebida alcoólica, servia-se suco de fruta, café, bolo de aipim, bolo de ovos ou bolo de puba; então, biscoitos e torradas.
     Conta-se que Jupará tinha sido contratado para levar um caixão de defunto numa fazenda cinco ou seis léguas distantes da cidade de Itabuna. Quando deixou a cidade, já anoitecendo, embrenhou-se mata adentro, mas era uma noite de breu, dentro de uma mata fechada, ficou sem norte. Abriu a tampa da urna funerária, deitou-se dentro da dela, colocou a tampa por cima e adormeceu.
     Pela manhã, quando os trabalhadores em fila indiana, apontaram na vereda, para podar os cacaueiros e fazer o serviço de broca para novas plantações, avistaram de longe o caixão de defunto à beira do caminho. Numa reação instintiva e medrosa, começaram esgueirar-se e passar por longe da estranha e indesejável peça mortificante. Quando todos já tinham passado e estavam a duas varas de distância, de repente, levanta-se aquele gigante do caixão funerário e grita com eco:
     - Eh! Vocês têm fumo aí? – Foi como se tivesse tido um estouro da boiada, como se o diabo tivesse aparecido em pessoa. Largaram facão, foice, enxada, estrovenga, tudo no chão, partindo dispersos dentro da mata, levando nos peitos tudo que encontrava. Soube-se depois que alguns trabalhadores ficaram tão estropiados que ficaram alguns dias de molho, sem trabalhar.
     Doutra feita, ele passou a noite sozinho velando o corpo de uma pobre viúva que não tinha filhos e nem aderentes. No outro dia, ele e mais quatro filhos de Deus, transladaram o corpo dessa pobre mulher para o cemitério da cidade de Macuco que distava uns seis quilômetros de onde a viúva morava. Foi assim através do trabalho mórbido, trabalho que ninguém queria fazer que o mito Jupará fosse construído no imaginário popular. Histórias horríveis e crendices fizeram desse maluco ou desse enviado dos céus, um ser adorado pelos necessitados, repudiado e achincalhado por quem nunca precisou dele.
     Coitado!... Depois de acudir centenas de famílias no momento de dor e desespero, numa época em que a rede e o banguê serviam para transportar doentes, moribundos e mortos, acabou-se miseravelmente, ultrajado e esquecido. Todavia, no livro das histórias extravagantes e excêntricas de Itabuna, Jupará terá seu nome imortalizado e lembrado. E far-se-ia justiça histórica se esse benemérito anônimo tivesse seu nome de batismo resgatado e não o apodo que lhe colocaram para justificar suas excêntricas atitudes de notívago que como o macaco jupará, conhecido pelo vulgo de macaco-da-meia-noite, vagava sem rumo dentro da mata.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem ilustrativa: Google
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 06/06/2012
Alterado em 16/11/2024

A dama de preto - R. Santana

 

A dama de preto
A dama de preto
R. Santana

I

O senhor Manduca era o seu fiel escudeiro. Percorriam um raio de mais de 30 km quase todos os dias. Não trocavam confidências, eram conversas amenas, agradáveis, do dia-a-dia. Ele nunca lhe perguntou o que ela fazia naqueles becos, naqueles cortiços, naqueles prédios velhos, naqueles cafofos, naqueles bairros pobres e naquelas habitações miseráveis. Apenas cumpria suas ordens e mais nada. Ao longo desses 3 anos que se conheciam, a rotina era a mesma: ela parava o carro no estacionamento do Jacarandá Shopping Plaza, fazia algumas compras, do feijão ao remédio, de quando em vez, algumas roupas, deixava o seu carro estacionado, entrava no táxi de Manduca e chispava para algum endereço.
Tinham se conhecido naquele estacionamento por conta do acaso. Manduca tinha ido levar uma senhora ao shopping e na saída, foi parado por aquela jovem que lhe estendeu um endereço:
-Boa noite, o senhor conhece esse endereço? – perguntou-lhe.
-Conheço o bairro, lá não será difícil localizar a rua! – respondeu-lhe.
Ela era uma linda morena, esguia sem ser comprida, de formas proporcionais, sistematicamente usava roupas, calçados e acessórios pretos, por isto, o epíteto que lhe dera Manduca: “a dama de preto”. Apresentara-se como Paula, só Paula, sem nome de família e sem sobrenome. Ele nunca lhe perguntou onde morava, onde trabalhava, o que fazia e de quem descendia, se casada ou solteira. Para Manduca interessava-lhe a féria do dia. Aposentado, comprou um táxi para ajudar no sustento da mulher e de um filho adulto deficiente. Não era íntimo de Paula mas no decorrer desse tempo, pouco e pouco ia surgindo uma amizade e um respeito paternos. Não conhecia os propósitos da filantropia de Paula, dos seus mistérios, dos disfarces que ela usava para não ser reconhecida nem agradecida. Ultimamente, lhe aprazia mais as horas que passava ao seu lado, ser testemunha das ações filantrópicas daquela mulher, do que o pagamento pelas viagens do táxi. Não ligava mais o taxímetro, fazia uma estimativa, tirava a média por baixo e fechava a fatura todo final de semana.

II

Pela terceira vez eles entravam no Jardim das Papoulas, embrião de um bairro pobre da terra soteropolitana. Um bairro onde o poder público quase ainda não tinha chegado, de ruas estreitas e grandes ladeiras. Era um acinte à natureza chamar aquele antro de promiscuidade e pobreza, de moradores miseráveis de jardim. O nome papoula era uma alusão tosca da planta que fornece ópio e bonitas flores. O nome oficial era bairro do Pequeno Rio, uma homenagem dos edis da cidade a um grande ribeirão que corta uma mata que fica na extremidade sul daquele bairro e é o point dos seus moradores.



Os moradores não gostaram do nome oficial do bairro. No Brasil, é comum leis e decretos de cima para baixo nascerem mortos, pois são engendrados e paridos nos gabinetes dos políticos sem ouvir os setores interessados. Por isto, Correios e prefeitura tiveram de engolir o nome que o povo batizou. No início as correspondências oficiais vinham com a ressalva: “Pequeno Rio - Jardim das Papoulas”, porém, o comércio privado e seus moradores insistiram no apodo Jardim das Papoulas que os legisladores que sucederam os antigos, acharam por bem fazer uma ementa: “... doravante o nome Pequeno Rio será substituído oficialmente por Jardim das Papoulas, atendendo aos interesses daquela comunidade... Sala de sessões da Câmara... Salvador...”, os seus moradores pouco se lixaram para essa retardatária mudança...
Manduca parou a táxi no final de uma rua onde uma escada de alvenaria incrustada num barranco dava acesso a uma chapada com várias casas e barracos. Ele e Paula subiram à escada levando várias sacolas de mantimentos e remédios. Era a terceira vez que Paula assistia àquelas pessoas, naquela tarde, o endereço escolhido, foi de uma família que tinha sobre um catre um filho desmilinguido e doente.
-Dona, já não tinha nada pra comer. A senhora foi enviada por Deus!... – disse a dona da casa.
-Passou a febre do menino? – perguntou-lhe Paula.
-Já. Levei ele ao posto médico. O ex-patrão de meu companheiro comprou os remédios. – esclareceu a mulher.
-Não quero que falte nada ao menino, lembre-se que você prometeu-me como afilhado!... – cobrou-lhe Paula.
-Prometi-lhe e vou cumprir D. Paula. Estou deixando arranjar um emprego. Fiz o curso médio. Por amor vim parar nesse lugar. Sou devota de Stº. Expedito, padroeiro das causas impossíveis, irei dar volta por cima se Deus quiser!... – prometeu-lhe a mãe do menino.
-Não se aflija Clara, estou deixando que haja um tempinho para encaminhar com o padre daqui o dia desse batizado. Quanto às despesas, deixe-as comigo. – garantiu-lhe Paula.
III

À saída do Jardim das Papoulas, Paula e Manduca se deram conta que o dia tinha escurecido. Paula ocupada com o menino e sua mãe, não tinha percebido que o tempo tinha passado rapidamente e naquele ermo de casas e ruas mal iluminadas, cedo ainda, assim que o Sol se escondia, era uma ousadia, estranhos transitarem ali àquela hora, por isto, cuidaram de retornar o mais rápido possível.
O táxi tinha ficado embaixo, em frente dum barraco, uns 20 metros distantes da escada. Quando retornaram, a rua exibia uma iluminação lusco-fosca, não se via uma alma viva, de repente, surge um mulato escuro, saído do nada, de arma em punho, determinando:
-Passe o dinheiro e a chave do carro, coroa!!! – gritou com Manduca.
-Pode levar o carro e esses relógios. Não temos dinheiro!... – intercedeu Paula.
-Não lhe perguntei sua vadia, se não tem dinheiro, vai ter que me dar outra coisa que gosto muito e têm dias que não sei o que é mulher – Paula tremia como vara verde. Se mantinha de pé com grande esforço. Manduca o tempo todo na mira do malfeitor. Embora não fosse covarde, as circunstâncias lhes eram adversas. O mulato além de novo, era alto e forte, Manduca não daria para meia missa, o meliante o arrebentaria




num safanão, ele era o senhor absoluto da situação mas o adágio popular diz que quando Deus tarda, Ele vem no meio do caminho:
-Irmão, deixe o pessoal em paz!... – o elemento por pouco não disparou a arma do susto...
-Não se meta! Essa vadia vai ser minha e quem atravessar no caminho, deixo-o furado como uma tábua de pirulito, vá para o inferno seu negro nojento! – o negro não se mexeu. Com voz calma, parcimonioso nos gestos, tentou apaziguar os ânimos, não se incomodando com os insultos:
-Zé Maria, essa dama não é vadia, é uma moça da sociedade e vai ser a madrinha do meu filho com Clara, então irmão, vamos deixar eles saírem numa boa!... – cutucou o diabo com vara curta. Numa destreza felina, Zé Maria deu-lhe um tapa com o revólver que o negro saiu cambaleando e sangrando pelo nariz. A reação foi cinematográfica, veloz como um raio, o negro puxou uma faca e gritou: “olha Zé!...”, quanto este virou-se, uma faca lançada com destreza e velocidade, penetrava-lhe no abdome, um palmo acima do umbigo; outra, lhe foi cravada no peito, em milésimo de segundo. O meliante, antes de cair, ainda atirou a esmo. O negro com frieza inglesa, limpou o nariz que continuava sangrando e falou-lhes:
-Fiquei na casa do sem jeito. Se não fosse ele, seríamos nós! Quem beija a boca do meu filho a minha endossa. Eu não deixaria que ele fizesse nenhuma maldade com a Senhora, comadre, nem que tivesse de tombar neste chão. Agora, fujam daqui, a polícia não tarda chegar!...
IV


O fato deu na página policial do jornal “A VOZ”, no rádio, na televisão, sem muito estardalhaço. Era mais um crime atribuído à queima de arquivo, briga de quadrilha, calote de droga etc. Todavia, o redator da matéria do principal jornal, chamava à atenção das autoridades, que a vítima José Maria Sodré, não tinha passagem pela polícia como viciado ou narcotraficante, não obstante ser malquisto por muitos moradores de Jardim das Papoulas, por ter um gênio irascível e briguento.
O negro Zé Maria não tinha envolvimento com droga. Tinha fama de mulherengo e meia dúzia de filhos com mulheres diferentes. Era briguento, principalmente, quando entornava na garganta uns goles de cachaça. Afora isso, era prestativo e solidário com a comunidade. Carapina requisitado em grandes construções de casas e prédios. O seu sepultamento foi acompanhado por uma enorme quantidade de gente. Conjeturava-se que sua morte tinha sido obra de algum marido traído.

V

A “dama de preto” desapareceu do bairro e da vida de Manduca. No dia do crime, ele a tinha trazido de volta para o estacionamento como fazia todos os dias. Manduca ainda esteve no shopping várias vezes na esperança de encontrá-la mas debalde. Fez o mesmo trajeto uns 20 dias. Não entendia Paula ter desaparecido sem deixar rastro, afinal, ambos não tinham cometido nenhum crime, exceto não ter comunicado o fato à polícia. Mas como iriam explicar a história de um negro que saiu da nada e lhes salvou a vida? E, como ele iria falar de Paula, dessa mulher misteriosa se



ele não conhecia sua identidade? Será que ela se chama Paula, Maria, Joana, Patrícia ou nenhum desses prenomes? Tinha-a apelidado por “dama de preto” pois era o seu traje preferido. Lembrou-se que o cabelo não parecia original mas uma sofisticada peruca. Não sabia e não tivera interesse nem de gravar a placa do carro dela, não era adivinho do que viria ocorrer, interessava-lhe somente ganhar seu dinheiro, enfim, estava atado de pés e mãos. Uma semana depois do sinistro, recebeu por um moleque, um envelope recheado de dinheiro com um bilhete feito de recorte de letras: “...pelo serviço prestado, obrigada. Confio na sua discrição”. Quando lembrou do moleque, era tarde...
Pensou em voltar ao bairro do Jardim das Papoulas, localizar o negro, o moleque e sua mãe, porém, seria uma empreitada arriscada. Seria identificado e alvo de vingança dos parentes da vítima, do criminoso e seus comparsas. Resolveu deixar que as coisas seguissem seu curso e a polícia desse o desfecho.


VI

Um mês depois, Manduca papeava com os colegas, quando uma viatura da polícia civil pára e do carro alguém pergunta-lhes:
-Os senhores conhecem Armando Nonato dos Santos? – os taxistas ficaram um olhando para o outro, absortos, exceto Manduca, que saindo do meio deles apresentou-se:
-Sou eu!...

Foi levado â delegacia. Ele soube lá que num telefonema anônimo, a polícia ficou sabendo detalhes do crime, a exemplo do dia, da placa do carro e a quantidade de pessoas no local.
-Senhor, qual foi sua participação nesse crime? Perguntou-lhe o delegado.
-Nenhuma doutor!
- O senhor foi visto no lugar do crime, acompanhado duma mulher e mais um elemento além da vítima!
-Fui levar uma passageira lá, quando ia voltar...
-O senhor conhece essa mulher?
-Não!
- O senhor está mentindo! Os senhores foram vistos várias vezes naquele bairro. Temos testemunhas... – Manduca ficou perturbado por uns instantes, mas retornou à normalidade com fleuma de quem não tem culpa.
-Doutor, eu não sou mentiroso. Na minha idade, não tenho nada para esconder. Realmente, fui lá algumas vezes com aquela senhora. Ela pedia-me para estacionar o carro, pegava os alimentos, remédios, às vezes, roupas e desaparecia por algum tempo naqueles becos e ruas. E, eu permanecia no meu carro esperando ela voltar. – esclareceu Manduca ao delegado.
-Do jeito que o Senhor fala, essa mulher é a reencarnação da madre Tereza de Calcutá ou de irmã Dulce! – ironizou o delegado.
-Senhor, já lhe contei tudo que sei. Para mim, essa jovem senhora é uma pessoa do bem. Não sei detalhes de sua vida, o que faz e onde mora. Sei que se chama Paula, foi o nome que me deu. Depois do que ocorreu, tenho dúvidas se é Paula!...
-Para mim, o senhor foi omisso e conivente com o crime. Vou provar sua culpabilidade e quero ver a justiça deixá-lo mofando por um bom tempo atrás das grades – Manduca estava com vontade de gritar.
-Perdão doutor, não fui omisso nem conivente. Fiquei com medo de uma retaliação. Fui chamado e aqui estou, dizendo tudo que sei, entretanto, não posso incriminar ninguém ou ser falso testemunho.
O delegado encaminhou o inquérito à justiça, incriminando o Sr. Armando Nonato dos Santos, por conivência, omissão e obstrução de provas pelo crime de morte de José Maria Sodré, vulgo Zé Maria. O Ministério Público o indiciou e a Juíza de 3ª. entrância, da 2ª. Vara de Criminal da Comarca de Salvador, aceitou. Por ser réu primário, sem flagrante delito, ter endereço fixo, seu advogado por habeas corpus, solicitou da justiça que seu cliente respondesse o processo em liberdade.
Na saída do presídio, quando o criminalista Dr. Mardson Abreu Jr. foi ao seu encontro, Manduca expressou sua incompreensão com o delegado:
-Ele me tratou como um marginal. Queria que eu desse conta da minha cliente e do criminoso. È justo isso, doutor!? – esbravejou.
-Ab hoc et ab hac senhor!
-Não entendi nada, doutor!
-Senhor, é uma expressão em latim para dizer que alguém atirou a esmo, a torto e a direito... isto é, o delegado não sabendo quem é o verdadeiro culpado ou culpados, lançou-lhe acusações gratuitas, convencido de que o senhor sabe do paradeiro dos demais. – explicou-lhe o advogado.
-Acredite em mim, doutor! Juro por Cristo que é o Juiz dos juízes que não conheço essa gente das Papoulas. Até a mulher que sempre pegava o meu táxi, não sei sua identidade. Se encontrá-la por aí, acho que a reconhecerei, mas não sei o seu nome o que faz, onde mora, a família... conversávamos amenidades e quando perguntei-lhe porque não fazia aquele trabalho às claras para que servisse de exemplo, ela foi taxativa: “... não quero louros nem estátuas se não quiser me prestar serviço, procuro outro”. – justificou Manduca.
-Como advogado, sua palavra para mim tem fé de ofício, tenho o dever e a obrigação de sustentar no tribunal ou onde quer que valha, mas como pessoa, comungo com o delegado, sua história parece um conto de fada!... - disse-lhe Dr. Mardson.


VII

A audiência em juízo foi agendada para um mês depois. Manduca andava inquieto, estressado, preocupado, como iria depor na justiça fatos que não podia prová-los. Para sua mulher, tinha escamoteado a verdade, não lhe dissera que a “dama de preto”, fazia aquele trabalho há uns 3 anos, seria o mesmo que cutucar onça com vara curta. Ela iria lhe encher o saco com suas ciumeiras. Com sua imaginação fértil, seria capaz de criar histórias da carochinha, do arco da velha, de amor e infidelidade conjugal.
Faltando uns quatro ou cinco dias para a audiência, ao cair da tarde, Manduca preparando-se par ir embora, enquanto conversava com um colega de trabalho, alguém prendeu uma mensagem no limpador de pára-brisa dianteiro do seu carro, onde se lia: “... estou acompanhando seu processo. Fique despreocupado que os honorários do seu advogado, serão pagos por mim. Por motivos profissionais e pessoais não poderei me apresentar como partícipe desse infortúnio, mas prometo-lhe que o verdadeiro criminoso vai apresentar-se”.
Manduca leu e releu o bilhete. Paula, Maria, Joana, Josefa ou o diabo que valha, era mais arteira e ardilosa do que imaginara. A polícia não conseguira localizá-la, não obstante ela não ter praticado nenhum crime, afora a obrigação moral que ela teria de se apresentar à polícia e ter relatado todos os fatos para inocentá-lo
O fórum estava movimentado. Era a primeira audiência. O juiz iria ouvir Manduca. Ele já tinha decorado tudo que iria responder. Não acrescentaria um til nem tiraria uma vírgula do que foi dito na delegacia. Também, não faria nenhuma referência ao bilhete recebido. Simpatizava com o trabalho filantrópico de Paula, ademais ele e ela não tinham nada com a história do crime, tudo não tinha passado duma fatalidade, ele e ela não eram réus de joça nenhuma, mas vítimas da marginalidade que joga solto no país do Oiapoque ao Chuí. Não compreendia o interesse das autoridades em apurar esse crime de marginais. Teve a oportunidade de conversar com o seu advogado:
-Doutor a polícia e a justiça empenhando-se tanto em descobrir quem matou esse marginal? – questionou Manduca.
-Soube que a vítima trabalhava e era o protegido dum ricaço da construção civil. Deve estar custeando os advogados. Aliás, deve ser muito rico, pois a família contratou dois eminentes criminalistas.- esclareceu-lhe Dr. Mardson.
-Bem logo vi que debaixo desse angu tem caroço!... – brincou Manduca.
O movimento de advogados, oficiais de justiça e promotores era grande, quando surge no corredor uma jovem morena, alta de cabelos castanhos e traje bege, sapato alto, tudo nas esticas, ladeada por uma moça mais jovem e um rapaz, com algumas pastas nas mãos, quando alguém anuncia:
A juíza chegou! – foi o suficiente para que alguns puxa-sacos fossem ao seu encontro e sua ante-sala ficasse mais movimentada.
Manduca ficou, praticamente, sozinho num canto, até o seu advogado engrossou o séqüito. Porém, quase que teria um faniquito quando a meritíssima Dra. Fabiana Maria Machado adentra no recinto:
-Boa tarde senhores! – a juíza saúda a todos e vai direto pra sala de audiência, acompanhada do seu séqüito, Manduca a observa de soslaio, o suficiente para que o seu coração disparasse com uma boa dosagem de adrenalina: “não é possível, é Paula... Não pode ser!!!”. Ficou absorto, sem uma gota de sangue, por pouco não desabou, porém, chamou à atenção de um preposto que estava no computador:
-Senhor, estar sentindo alguma coisa?...
-Foi um ligeiro mal estar, acredito que pela emoção de ser ouvido daqui a pouco!... – contemporizou Manduca.

VIII


Manduca foi ouvido. A juíza fez algumas perguntas que ele já tinha as respostas. Os promotores e os advogados fizeram algumas intervenções. O quadro do crime era o mesmo. A polícia ainda não tinha encontrado o criminoso. A família clamava por justiça. Manduca não tirava da cabeça que a juíza era Paula. A voz a identificava. Quanto ao resto, os empecilhos em reconhecê-la decorriam por conta dos disfarces. A juíza não estava de roupa preta, não estava de óculos escuros, usava sapatos altos e não tênis, não estava de peruca de comprida e grossa cabeleira e estava ali à luz do dia e não ao seu escurecer como sempre fazia quando lhe encontrava, além da autoridade que ostentava, que não se podia levantar suspeição sem provas contundentes.
A juíza lhe deixou mais confuso, não lhe olhava de soslaio, por baixo, mas tête-à-tête, como para provocá-lo, um desafio à sua memória visual.
IX


Um mês depois, um negro chamado João Silva, comparece ao distrito policial acompanhado de sua esposa Clara e seu advogado, apresentando-se como responsável pela morte de Zé Maria. O delegado recalcitrante, resistiu em acreditar, achando que ele estava fazendo o papel de boi de piranha, não querendo tomar seu depoimento. Foi necessário uma ameaça velada do advogado:

-Meu caro Xavier, você é meu amigo, não quero tomar nenhuma outra providência, salvo, se for necessário. O meu cliente será um prato apetitoso para imprensa baiana que há longo tempo corre atrás dessa “mulher de preto”, doida pra desvendar esse mistério. Meu cliente irá até faturar com esse “furo”!... – foi o bastante para que o delegado o levasse a sério, não queria passar um atestado de negligência e inaptidão no exercício da função ao secretário e ao governador.
Uma semana depois o delegado e o Secretário de Segurança Pública, reuniram a imprensa com o desfecho do crime e um sucinto relatório: “o criminoso tinha se apresentado, alegando legítima defesa, inclusive com um histórico médico, datado do dia do crime, que numa queda ele tinha fraturado o nariz, forte lesão no rosto e quebrado dois incisivos. Além do atestado com a mesma data do dia do crime, tinham sido feitos exames datiloscópicos e as impressões digitais do criminoso confesso, eram as mesmas encontradas nas duas facas cravadas na vítima. Para que não houvesse dúvida, tinha sido encontrado um pedaço de papel sujo de sangue no local do crime que tinha o mesmo DNA do confesso criminoso”.
O delegado e seu superior hierárquico jogaram uma pá de cal na fantasia de que havia uma mulher misteriosa, com o epíteto de: “a dama de preto”. Houve sim, uma mulher e um taxista de meia idade que estavam acuados, sob a mira do revólver de Zé Maria, que estava extorquindo o homem e ameaçava molestar sexualmente a mulher, quando o criminoso confesso tentou intervir para que o pior não ocorresse, foi pego de surpresa com um safanão de revólver na cara e reagiu.


X


Um ano depois o júri inocentou o criminoso, embasado no princípio da legítima defesa. O testemunho da Manduca e de outro morador que apresentou-se a posteriori quando os fatos adquiriram notoriedade pela imprensa, foram decisivos. As provas técnicas e a má reputação do rufião deram o remate.
Manduca voltou trabalhar sem sobressaltos. Sua mulher jamais soube de suas andanças com uma mulher desconhecida e misteriosa. Hoje, rejeitava o pensamento de juíza ser Paula. A imprensa escrita e televisada não falaram mais no assunto. Seu advogado foi regiamente pago. Agora entendia Paula, se ela fosse encontrada, as aves de rapina e os urubus que sobrevivem da desgraça alheia, jogariam no poço todo bem que ela tinha espalhado para colocá-la na fogueira da suspeição do mal que ela não tinha feito.
Certo dia, uma jovem senhora de preto, de supetão, diz-lhe:
-Há pedras no caminho dos que fazem!...
-Senhora, o caminho também tem muitas flores que perfumam nossa passagem!..


Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna – ALITA

Gênero: Conto (registrado)


.



















O Fuminho - R. Santana

O Fuminho
R. Santana

     Nos idos de 1947, o bairro São Caetano era um aglomerado de poucas casas espalhadas, cercadas por roças de cacau, roças de mandioca, bananeiras, jaqueiras, canaviais, frutas em abundância, muita mata e uma fauna maravilhosa. Sua gente era de trabalhadores rurais, pequenos cacauicultores, pescadores, caçadores, oleiros, carpinteiros, marceneiros, lavadeiras, parteiras, benzedeiras, pedreiros, açougueiros e alguns minguados bodegueiros.
     A vida no povoado corria sem novidade, monótona, lazer só para os machos, à noite, nas casas das caftinas Helvécia e Rosa, ou, algum bate-coxa de final de semana em cabaré fétido, quando dois sujeitos roubaram umas bolas de fumo de algum armazém da iniciante Itabuna, e, numa canoa (a ponte Lacerda estava em construção), atravessaram as água limpas e caudalosas do rio Cachoeira e vieram ao povoado passar as bolas de fumo ao atravessador.
     Os elementos, ladrões chinfrins, foram presos, logo depois, com o atravessador, o bodegueiro Permínio, que tinha uma bodega no início, hoje, da avenida princesa Isabel. Naquela época, não havia Direitos Humanos nem humanos direitos, advogado era luxo, coisa de gente rica, os pobres diabos devem ter levado uma boa surra de cipó-de-boi ou foram corrigidos com palmatória de jacarandá e soltos.
     Porém, o imbróglio do roubo das bolas de fumo, serviu para despertar o sentimento bairrista dos parcos moradores contra os deboches e desdéns dos citadinos que passaram chamar o seu lugarejo de “Fuminho”. Se alguém do outro lado do rio Cachoeira se atrevesse chamar o São Caetano de “Fuminho” ao habitante do lado de cá, poderia não dar briga, mas a reação e o repúdio eram imediatos de menino ao velho.
     No entanto, não foi a primeira nem a última vez que o bairro São Caetano foi ameaçado do seu nome ser substituído. Com o assassinato do presidente dos E U A, John F. Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, os bajuladores dos ianques espalhados em todo mundo, deram o seu nome, in memoriam, aos bairros, ruas, praças, jardins etc. Nós, de terras tupiniquins, das terras do sem fim, não fugimos à regra. O vereador Antônio Calazans, velha raposa política, quis pegar o bonde da História e elaborou um anteprojeto de lei que mudava o nome de São Caetano para bairro presidente John Kennedy. A reação dos líderes comunitários Pedro Batista de Santana (Pedro do Bar), Eduardo Fonseca e o povo, foi enfurecida, irrefreável, movimentos de protestos pipocaram nos quatro cantos do bairro.
     Os reclames do povo e dos líderes comunitários chegaram ao prefeito, o Sr. José de Almeida Alcântara (apelidado carinhosamente pela meninada de “Arranca”, derivativo deformado de Alcântara), mestre da demagogia e da encenação. Ele foi sensível e oportunista aos protestos e reclames da comunidade caetanense, prometeu aos líderes e à comunidade, negociar com os vereadores, vetar o projeto, tirou proveito político o quanto pode...
     Os vereadores Calazans e Antônio Côrtes (relator da matéria), insistiam em submeter o projeto à assembleia para votação final, estavam irredutíveis, queriam a qualquer custo americanizar o bairro, trocando “São Caetano” por “John Kennedy”, a data da votação foi definida, parecia que os caetanenses estavam na casa do sem jeito, num beco sem saída, teriam mesmo que embolar a língua e pronunciar: - John Kennedy!...
     O dia D chegou. Os vereadores estavam convencidos da aprovação fácil do seu projeto, pouco se lixando para população, quando o prédio da Câmara de Vereadores (atual prédio da 27ª. Zona Eleitoral), a Praça Olinto Leone e as ruas circunvizinhas, foram tomadas de assalto por milhares de populares, moradores do bairro São Caetano e doutros bairros, gritando palavras de ordem, discursos, carro-de-som, faixas, cartazes, apitos, numa demonstração de cidadania e civismo nunca visto.
     Calazans acuado, sem respaldo popular, sem apoio político das autoridades da cidade (exceto seus pares), numa saída de mestre, esvaziou o plenário da Câmara, suspendeu o projeto por falta de quórum, articulou com os líderes do bairro uma nova proposta: não mudar o nome do bairro, mas manter a homenagem ao presidente americano, dando-lhe o seu nome à principal avenida, por muito tempo, o São Caetano teve sua “Avenida Kennedy”, mas graça ao sentimento patriótico das novas gerações, a posteriori, foi batizada com o nome de gente nossa: - Avenida Manoel Chaves!...
     Portanto, “São Caetano” continuou “São Caetano”, nome de santo da Igreja Católica e justa homenagem foi feita ao lavrador José Batista Caetano, o fundador do bairro São Caetano.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

Eu sou é macho - R Santana

 

Eu sou é macho
R Santana

    Ele abriu os olhos e procurou o relógio, eram 6: 00 h. Embora o quarto estivesse fechado, com cortinas vermelhas escuras cerradas, uma réstia invadia pouco e pouco o ambiente: o dia prometia muito sol e muito calor. Observou da cama, que era um quarto retangular, aconchegante, mobília nova e laqueada, teto espelhado, um abajur em cima de uma cômoda de quatro gavetas, guarda-roupa embutido, ar condicionado por controle remoto, TV 42 Tela Plana Plasma, aparelho de DVD e CD. No canto direito do quarto ficava o toalete e anexo o sanitário. Deu-se conta que estava num quarto de motel.
    Ainda zonzo, bocejando, estirou-se na cama quanto pôde. Percebeu que ao seu lado dormia uma linda morena. Devagar, foi dobrando o edredom que a cobria, do rosto à cintura, deixando a descoberto dois voluptuosos e sensuais peitos, sem ela esboçar nenhuma reação.
    Túlio Assunção Alvarez, jovem advogado de tradicional família soteropolitana, com casamento marcado para dois dias depois, tinha sido alvo da brincadeira de dois colegas do curso de direito, Marcos Sanches e Júlio Pedroso. Marcos e Júlio programaram com os demais amigos, uma festa de despedida de solteiro para Túlio, com a condição de lhe pregar uma peça e a boate “Arco Íris”, foi o lugar escolhido.
    A boate “Arco Íris” tinha sido recém inaugurada em uma rua movimentada da capital baiana. Uma casa noturna de padrão internacional, com área de estacionamento, manobrista, segurança, salão de baile, bar, barman e um palco móvel, onde as meninas e os travestis deixavam os homens alucinados com suas danças eróticas e sensuais. Embora seja uma casa dirigida a uma clientela GLS, pelo seu alto padrão e a passagem de cantores brasileiros e internacionais, fizeram dela uma casa para todos gostos e idades.
    Túlio não se conteve com a visão daqueles seios, daquela pele lisa e morena, daqueles cabelos pretos escorridos e daquela boca carnuda. Começou abraçá-la, beijá-la, pelo nariz, pela boca, descendo pelo umbigo e quando atingiu a região pubiana, deu um grito abafado e estupefato:
    - Que... que... é... isso... que... é... isso !?
   - Eh, eh, bem... isso é um peru! – Túlio avançou pra cima daquele desconhecido com vontade de esganá-lo. Estava atordoado, confuso, como tinha ido parar ali naquele motel com um homem? Deveria ter sido coisa daqueles safados! Iria matá-los...
    - Saia daqui sua nojenta, antes que lhe quebre as fuças!...
   - Agora eu sou nojenta não é? Mas ontem, você me chamava de seu macho, bicha enrustida!... – Túlio perdeu o controle, deu uma bofetada no estranho que ele caiu estatelado em cima da cama. Completou:
   - Não me chame bicha enrustida, senão, eu lhe mato! – Foi como cutucar o cão com vara curta:
  - Você é uma bicha enrustida mesmo, passou a noite dizendo que queria ser a minha menina e foi a minha menina!... Agora, vem com essa de machão? Estou acostumada com esses machões. Se me tocar novamente, vou colocar este motel abaixo e com ele sua reputação! – Túlio freou o ímpeto, não poderia deixar que aquilo acontecesse. Seria sua palavra contra aquele degenerado. Quem iria acreditar nele naquelas circunstâncias? E se o entrevero fosse parar na polícia? Seria o fim do seu noivado e adeus casamento. Para não se denunciar e ser vítima de chantagens e achaques daquele pervertido sexual e moral, depois:
    - Estou lá preocupado com por... ra ... por... ra de reputação!... Saia daqui, senão, vou ligar para polícia e falar que você embebedou-me e roubou-me enquanto eu dormia. – Pareceu-lhe que tinha descoberto o calcanhar de Aquiles, o desconhecido arrumou-se de imediato, calçou os sapatos de salto alto e foi-se...
    Túlio livre da indesejável companhia, pegou a toalha e dirigiu-se para o banheiro. Não sabia como as coisas tinham acontecido. Lembrava-se vagamente, que no dia anterior tinha ido com Marcos, Júlio, mais três amigos à boate. E, depois das tantas da noite e tantos goles de whisky, os amigos deixaram-no na companhia de uma linda mulher. Agora, uma pergunta vinha-lhe à cabeça: “será que essa mulher era o travesti?” Eles não perdiam por esperar, sua vingança seria em dobro. Mas, “será que eles sabiam? Poderiam ter sido enganados. Ela, ele, era uma mulher.”
    Fez um bochecho, raspou a barba e... quando tirou a cueca... ela estava... manchada de sangue... no traseiro. A bicha não mentiu, o seu corpo o denunciava: ele tinha sido a menina e não o menino. E agora? Noivo ou Noiva? Menino ou Menina?
    - Vá pra... eu sou é macho!!!

Autor: Rilvan Batista de Santana 
 Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Licença: Creative Commons
Gênero (conto)
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 07/06/2012
Alterado em 03/08/2012

Filho Adotivo - R. Santana

 

                                                           Filho Adotivo
                                                            R. Santana
                                                                     I
     Estava tomando o famigerado “banho de sol”, fazendo uma reflexão da minha vida passada e da minha doença que me debilitava dia a dia. Já tinha perdido os movimentos dos pés, das pernas, das mãos (a doença ainda não me tinha afetado a voz), quando fui despertado pelo vozeirão do meu filho mais novo, que me acompanhava na minha caminhada ao calvário, na minha via-crúcis:
     -Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo! – ele não gostava de me ver sorumbático, pra baixo.
     -Estou aqui pensando na minha mocidade. Eu tinha saúde de atleta. Nunca fumei, nunca bebi além do social e, estou aqui à mercê das pernas e dos braços dos outros, numa cadeira de rodas. A vida nos prega cada peça!... – lamentei.
     -Você não está à mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados? – perguntou-me.
     -Não meu filho, não é isso. É que estou velho, mas não o bastante para ficar em cima duma cadeira de rodas. Você deixando os seus afazeres e os seus divertimentos para ficar pajeando-me. - Justifiquei.
                                                                 II
     Ano de 1982, mês de agosto, não me lembro o dia. Acredito que sábado ou domingo. É o dia que mais se encaixa pra fazer visita a um doente, quem trabalha nos demais dias da semana. Eu e a minha esposa tínhamos ido visitar um velho amigo, um amigo velho, no hospital Manoel Novaes na cidade de Itabuna. Esse hospital tinha antigamente, uma unidade específica de acompanhamento às mulheres grávidas, trabalho de parto, um serviço de pediatria e um serviço geriátrico.
     Hoje, esse hospital está voltado para o serviço de pediatria, obstetrícia e um banco de leite materno, referência em todo estado baiano pelo seu bom desempenho e pelo serviço social que presta à comunidade itabunense. Além desses serviços, tem uma unidade isolada, em seus terrenos, de atendimento ambulatorial de quimioterapia aos doentes de câncer.
     Doente visitado, dever social cumprido, fomos ver os berçários e as mães daqueles pinguinhos de gente recém-nascidos. Num dos berçários, havia uma criança, de cor, órfã de mãe viva e pai ignorado. Soubemos pela enfermeira que a mãe da criança a tinha deixado lá para ser adotada. Sensibilizamo-nos com o caso, o que lhe permitiu nos perguntar se não tínhamos interesse em adotá-la:
     -Não, temos duas filhas. Se fosse um menino, nós iríamos pensar –respondemos-lhe- Essa deixa foi o bastante para que assumíssemos um compromisso não escrito de adoção:
     -Vocês adotariam se fosse um menino?...
    -Sim!! - eu e a mulher respondemos uníssonos.
   Depois vieram as explicações: era comum, mulheres solteiras e adolescentes pobres, abandonarem seus filhos, logo após o parto, para encaminhamento de adoção pela justiça. Quando não surgia ninguém interessado, a criança era encaminhada para algum abrigo, uma instituição pública.
     Um mês depois, já tínhamos esquecido do compromisso de adoção, quando essa enfermeira nos telefona, avisando que se encontrava no hospital, um recém-nascido rejeitado pela mãe e lembrava o nosso compromisso:
     -O senhor e sua esposa pediram-me para avisar-lhes quando um recém-nascido fosse rejeitado pela mãe. É um menino lindo e saudável! – procurou-nos animar...
         Os mais velhos dizem que não é obrigado empenhar sua palavra, mas uma vez dada, faz-se necessário assumi-la. Por isto, não tergiversamos, no mesmo instante, pegamos uma velha “Brasília” e fomos buscar o filho que não parimos.
     Esperávamos receber a criança formalmente, numa sala suntuosa, com os diretores do hospital e o juiz da Vara Criança e Juventude, fazendo um discurso ressaltando o nosso desprendimento, a nossa contribuição com a sociedade, impedindo que no seu seio um novo marginal fosse gerado ao tempo que nos eram exigidos compromissos escritos e registrados em cartório e homologado pelo meritíssimo juiz. Mas debalde foram nossas expectativas: a criança foi-nos entregue pela porta dos fundos, urinada e obrada, enrolada numa fralda, sem cerimônia, como se fosse um troço, uma coisa. Levamos-lhe pra casa e demos-lhe carinho, amor, nome e sobrenome.
                                                                 III
     Doença não manda recado, principalmente, as genéticas. Lá no interiorzinho da célula, um gene mau caráter, herdado dos nossos pais, fica encolhidinho, às vezes por vários anos, quando ele resolve se manifestar, é que se descobre sua existência e sua nocividade. É mais ou menos assim que se explica a atrofia muscular espinhal–AME. É uma doença insidiosa, traiçoeira, que pouco e pouco vai se manifestando. Os movimentos voluntários dos membros vão se restringindo e enquanto se peregrina de médico em médico, ela já tomou conta do nosso corpo e o final é caixão e vela.
     Alguns exames, a exemplo do eletromiografia, da biópsia muscular e do exame de DNA, detectam as alterações das fibras musculares, evidencia a histoquímica de desnervação, medem as atividades elétricas dos músculos, localizam, retardam, ajudam no tratamento, mas não curam.essa doença.
     Aos 50 e poucos anos de vida, na flor da maturidade, da atividade produtiva, sem nenhum vício, fui acometido duma atrofia espinhal progressiva de forma adulta e quando fui ter consciência de sua gravidade já estava em cima de uma cadeira de rodas.
     A doença ainda não tinha afetado a minha fala mas pelo histórico dela, é esperar pra ver.
                                                                 IV
     Diz o povo que Deus escreve certo por linhas tortas. Não me tornei pai adotivo por necessidade, egoísmo, gesto altruístico, filantropia ou realização pessoal. Tinha um casamento estável e duas lindas filhas, de 2 e 6 anos de idade. Mais um filho não fazia parte dos meus planos familiares, principalmente, adotivo.
     A minha ida ao hospital naquele dia, naquele ano de 1982, para visitar um amigo doente, encontrar uma menina rejeitada num berçário, firmar um compromisso desnecessário com uma enfermeira quase desconhecida e menos de 30 dias depois, uma mulher qualquer, que não conheço o nome nem o sobrenome, despeja do seu ventre um menino que por capricho do destino torna-se meu filho, não tem explicação racional, é coisa de Deus. Estava escrito.
     Dez anos depois a minha primogênita teve a vida interrompida por uma leucemia com 16 anos de idade. O sofrimento foi grande e o baque maior. Só quem perdeu um ente querido sabe o estrago e a dor de um luto, em especial, a perda de um filho.
   Porém, o relógio do tempo não para, a vida continua. A dor é substituída por uma lembrança amiga. Eu e a mulher tínhamos, agora, o dever de cuidar de um filho adotivo de 11 anos de vida e uma filha um ano mais velha.
     No ano de 2004, a segunda filha casou-se. Quem casa quer casa, hoje, ela cuida do marido e dois enteados que herdou. Quem contrai obrigação, adquire mando e autoridade, o pai é substituído pelo marido. Embora seja uma boa filha, a distância e os novos compromissos, filha casada é visita.
                                                                V
     Naquela manhã, quando esse filme passava na minha cabeça, em cima de uma cadeira de rodas, é que pude comprovar quão significativa é a sabedoria popular. Se Deus desse ao homem o seu saber, sua onisciência, o sofrimento do homem começaria no ventre materno porque saberia a priori o seu fim. Para mim foi bom eu não saber o meu fim, pois não aproveitaria como aproveitei sem presságios, a minha juventude e parte da minha maturidade. O amanhã a Deus pertence.
     Pude comprovar que ninguém procura o outro por acaso. E se Saulo me procurou naquele hospital para ser seu pai é que ele tinha por desígnio ser as minhas mãos e as minhas pernas nessa difícil caminhada. Seu vozeirão ainda ecoa dentro de mim:
     “Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”
    “Você não está a mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados?” – Estou chegando ao fim. A doença percorre o meu corpo lentamente, mas não posso reclamar da providência que o Criador tomou, enviando esse filho adotivo para cuidar de mim.
     Sem eira nem beira, abrigado num sistema previdenciário oficial deficitário, com uma merreca de aposentadoria, não adianta lastimar, Saulo é o senhor da razão:
     “Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google









Inferno Conjugal - R. Santana

 

                                  Inferno Conjugal
                                                      R. Santana


     Não digo quando nem onde esses fatos aconteceram nem se alguém pagar as minhas contas que não são poucas... Também não tenho ouvidos moucos. Ouvi cada palavra de graça e de graça estou lhe passando. Farei tudo para registrá-las aqui sem aumento de til ou cedilha. Se por acaso cometer algum deslize aumentando ou omitindo alguma frase que os autores dessas conversas matinais em praça pública me perdoem. Não fiz por mal, é que a minha memória não é de elefante e a minha inteligência é curta.
     Se por desígnio do destino eles lerem este texto e acharem que quero lhes comprometer pela malversação dos fatos, não será necessário ir à justiça pedir direito de resposta, fá-lo-ei da melhor maneira possível e lhes darei uma polpuda indenização pelos danos morais. Não a darei por danos físicos porque não existe alguém mais covarde neste mundo de meu Deus, bateu os pés ameaçando, já estou correndo, pedindo socorro.
     - E aí Zelito, tudo bem?
   - Não, Adonias!... – Zelito estava visivelmente pra baixo, com olheiras e pálido. – Parece que você levou uma surra ou passou a noite insone?... - Completou Adonias.
     - Estou mal assim? – Não, você está péssimo!
   - É o diabo da mulher!... Você acredita que ontem ela cismou de medir a quantidade de por... por... na hora que estávamos fazendo amor? – O quê?... – Isso mesmo. Ela disse que a mulher do vizinho descobre esse delito... Terminei broxando.
     - É... brincadeira!... – E o pior, ela anda dizendo à vizinhança que estou de caso com Artur. – Porquê?... Tem motivo? – Maluquice dela. Há limite na cabeça de mulher ciumenta? Acredito que por sairmos juntos para as peladas de finais de semana e tomarmos uma loirinha no bar de André de quando em vez.
     - Você já tentou aproximar a mulher de Artur e ela pra diminuir a cisma? – Já! – E aí? – Ela cismou que a mulher de Artur era minha amante!...
    - Zelito tem um provérbio oriental que diz: “... bata em sua mulher todos os dias porque se você não souber porque estar batendo, ela sabe porque estar apanhado...” – Adonias, você sabe que não sou disso. Sou de paz. Além disso, não posso dar desgosto aos meus filhos, eu amo-os.
     Por capricho do destino, chega Artur também chateado, com a cara amarrada, de quem comeu e não gostou, foi a vez de zelito:
     - E aí irmão?... – Tudo ok! – Mas o seu semblante, sua inquietude, falando e mexendo com as mãos e as pernas simultaneamente denunciavam Artur, seus colegas não deixaram por menos:
    - Hum.. Hum... Nesse mato tem coelho Zelito, parece-me que o nosso amigo também está em maus lençóis! – Zelito completa: - E lençol de carrapicho que você fica rebolando na cama e não consegue dormir!... – Artur explode: - Vocês vão tomar naquele lugar!... Estou aqui puto da vida e vocês ficam caçoando... – Mais fofoqueiro, querendo entrar na intimidade de Artur, Adonias contemporizou: - Olhe, eu e Zelito queremos lhe ajudar. Achamos que você não está legal, porém, precisamos saber o que houve, senão, por onde começar? – Artur se abriu como macaxeira cozida:
     - Vocês têm razão!... A minha mulher e a mãe dela estão me enchendo os bofes. Pois a destrambelhada da velha e a filha deram pra vistoriar a minha cueca e a minha camisa! – Pra quê? – Perguntou Zelito. – Para encontrar cheiro de perfume ou marca de batom. Vocês já pensaram em alguma pessoa má? Se encontram-na, multipliquem por dois que é minha sogra. Soube que maltratou tanto o ex-marido que ele se mandou pra São Paulo. E, o diacho ainda vive às minhas custas!... – Agora, Artur estava azedo e espumando cólera. Se sua sogra tivesse o infortúnio de passar por ali naquele momento, acho que a teria esganado tal a raiva que estava destilando. Para felicidade de todos, é que no meio da conversa chega mais um mal amado, Nildo. Divorciado e bonachão, ele leva as coisas na troça, aconselha-os:
     - Não esquentem a cabeça! Quem esquenta a cabeça é palito de fósforo. Casamento é igual rolo de fumo. os primeiros cigarros são deliciosos... – E, o resto? – Perguntaram todos ao mesmo tempo. – Bem, o resto você fuma para não perder o dinheiro. – Todos caíram na gargalhada. Ele ainda justificou sua filosofia de vida:
     - Entrei no casamento com apartamento e carro na garagem. Depois de quatro anos e dois filhos, tive que deixá-la. Hoje, não tenho apartamento nem carro. Moro de favor na casa da minha mãe e tenho que trabalhar como um condenado pra lhe dar uma pensão alimentícia. – O pessoal, então, disse:
     - Você está mal companheiro!... – Não, estou feliz!... – Neste momento passa um menino vendendo jornal. Na primeira página está escrito com letras enormes:
     “EMPRESÁRIO MATA MULHER E DEPOIS TENTA SUICÍDIO”
     Na página policial depois da descrição do bárbaro e injustificável crime, o marido deixa escrito como epitáfio: “Me traiu.”

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons 
Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Imagem: Google


ALITA E AGRAL - R. Santana

 

ALITA E AGRAL
R. Santana

     Itabuna e Ilhéus são duas cidades pujantes do Sul da Bahia que sempre nutriram um ranço de rivalidade comum às cidades interioranas que se compenetram de sua importância no desenvolvimento do seu estado.
     Na telenovela Gabriela da rede GLOBO, escrita por George Durst, do romance Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado e dirigida por Walter Avancini, reforça as nossas considerações dessa construtiva e benigna rivalidade histórica, quando o principal personagem do romance, o caudilho “coronel” Ramiro Bastos, rompe politicamente com o intendente de Itabuna que apoiado pelo jovem político Mundinho Falcão, pleiteiam junto ao governo do estado, separar Itabuna de Ilhéus e torná-la cidade, os meus leitores conhecem o desfecho...
     Pois é Mané, não é que após 50 anos de Ilhéus ter sua ALI, Itabuna, hoje, fundou sua ALITA, ou melhor, fundou a ALITA e a AGRAL!... As duas casas literárias irão, certamente, juntar os poetas, os romancistas, os trovadores, os ensaístas, os cronistas, os articulistas, enfim, os valores expressivos da palavra e da escrita.
     ALITA foi parida, veio à luz, numa das salas da FICC, às 9:00h, no dia 19 do mês de abril do ano cristão de 2011, e, acalentada nos braços dos preclaros Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Ruy Póvoas, Eduardo Passos, Antônio Laranjeira Barbosa, Geny Xavier, Marialda, Gustavo Veloso, 
Marcos Bandeira e outras mulheres e homens de expressão literária da terra do cacau.
     Este “escrevinhador”, o segundo filho de dona Leonor, também, estava lá, não com a mesma competência obstétrica dos demais confrades, mas com o mesmo desejo de vê-la nascer com saúde para daqui alguns anos, ela perambule e troque ideias com suas irmãs gêmeas neste país de Drummond, Cora Coralina, Aluísio de Azevedo, Adonias Filho, Amado Jorge (perdoe-me o trocadilho), João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa e o mulato Lima Barreto, dentre outros, e, o nosso mais louvado escritor, jornalista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, poeta e crítico literário, o mulato, Joaquim Maria Machado de Assis de registro de nascimento e “Machado de Assis” para o povão.
     ALITA nasceu do desejo democrático dos seus pais, ou seja, da ideia gerada e amadurecida ao longo dos anos no ventre de mulheres e homens de Itabuna, ela não nasceu de uma transa esporádica, duma pirocada leviana, mas nasceu depois de vários exames e consultas aos ginecologistas e com DNA de mulheres e homens que constroem sonhos.
     Parabenizo as duas meninas ALITA e AGRAL, peço o apoio e a compreensão de ALI para suas novas irmãs. Parabenizo, também, os seus padrinhos, Jorge Leal Amado de Faria e Adonias Aguiar Filho, espero que elas cresçam com saúde, sem picuinhas, sem competições, sem rivalidades e abriguem nos seus seios, filhos e filhas naturais e adotivos que honrem essas terras do sem fim de Ilhéus e Itabuna.


Gênero: Crônica
Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Licença: Creative Commons
IMAGEM: ALITA
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 18/06/2012
Alterado em 06/07/2024

O mulato Lima Barreto - R. Santana


O mulato Lima Barreto - R. Santana

          Caro leitor, imagine alguém que nasceu  no século XIX, em plena efervescência antiescravagista, precisamente, no ano de 1881 e num dia e mês emblemáticos: 13 de maio, em um país de tradição racista dissimulada, filho de pai mulato, nascido escravo e mãe, filha de escrava liberta da família Mendes de Souza. Imaginou? Acredito que o leitor tenha concluído que esse indivíduo não passaria dos limites da senzala à casa grande dos senhores escravocratas. Se fosse um mulatinho simpático, prestimoso e diligente, ficaria à disposição da matrona sinhá e dos caprichos da sinhazinha; senão, terminaria os seus dias de vida, arrastando cobra para os pés numa remota lavoura de algodão ou de cana desse imenso Brasil.
          Porém, esse mulato teve a sorte de ter nascido sob o signo da Lei do Vente Livre, mais ainda, ter sido afilhado de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o famoso Visconde de Ouro Preto. Homem culto, político, rico, monarquista, amigo do rei, abolicionista, de recursos retóricos admiráveis e protetor de Manoel Joaquim de Lima Barreto, tipógrafo, monarquista, marido de Amália Amado Barreto, professora primária e pai de Afonso Henrique de Lima Barreto, conhecido por Lima Barreto, jornalista, escritor, amanuense do Ministério da Guerra e precursor da prosa moderna, com o seu livro Triste Fim de Policarpo Quaresma.
          Lima Barreto foi um gênio do século XIX. Nasceu pobre, filho de um tipógrafo e de uma professora e o mais velho de quatro irmãos, fez seu curso fundamental em escola pública do Rio de Janeiro, concluindo o curso médio com louvor, no Colégio D. Pedro II, a escola dos herdeiros da nobreza e os filhos da elite econômica do país. Os principais vultos históricos da monarquia e da primeira república passaram pelos bancos do colégio D. Pedro II, muitos anos depois, voltavam fazer parte do seu corpo docente.
          Era um crítico mordaz do regime republicano. Em Policarpo Quaresma, um pacato funcionário do Arsenal de Guerra, que aposentado, se envolve em realizações delirantes e de um nacionalismo exacerbado. Um tragicômico, um sonhador, um bairrista contumaz, um maluco empreendedor de projetos e incursões esdrúxulas. Na música, aprende tocar violão, por achar que é o único instrumento que expressa musicalmente, o sentimento nacional. Na agricultura, adquire uma terra de poucos recursos naturais, o sítio ”Sossego” e trava uma guerra com as formigas saúvas que consomem arvoradamente toda suas economias.
          Quando eclode uma revolução com resquício antirrepublicano, larga seu sítio “Sossego” e seus sonhos e alista-se como oficial voluntário no batalhão “Cruzeiro do Sul” em defesa do governo do marechal de Ferro, Floriano Peixoto. Caboclo rude, desconfiado, sanguinário, nascido nas terras nordestinas das alagoas, presidente do incipiente país republicano brasileiro, depois agraciado com o título de “Consolidador da República”.
     No seu livro, Recordações do Escrivão Isaias Caminha, faz uma crítica panfletária à imprensa, aos inimigos, satiriza e critica os intelectuais do seu tempo, principalmente, os jornalistas e os literatos que tanto desprezava.
          Lima Barreto não era afeito aos trabalhos mecânicos e à rotina de horários e compromissos de trabalhos não eram do seu temperamento. Talvez, fosse uma rejeição atávica do período escravocrata dos seus antepassados, privados de liberdade.
          Péssimo aluno da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, deixando de se graduar em Mecânica, reprovado várias vezes, não por falta de talento, de raciocínio lógico, de senso crítico, de conhecimento empírico, mas por sentir aversão às formulas e conceitos teóricos prontos. Gostava de sentir-se livre, leve e solto. Frequentava assiduamente a Biblioteca Nacional, enquanto suas aulas rolavam na escola Politécnica. Para Lima Barreto, eram de somenos importância os problemas e as teorias de Mecânica, importava-lhe conhecer os expoentes da literatura local e estrangeira. Era gênio naquilo que gostava e medíocre naquilo que odiava.
          Insurgiu-se contra uma literatura certinha, presa às regras gramaticais, à ditadura da língua, para imprimir nos seus textos uma linguagem coloquial, sem complicação, fácil e sonora ao ouvido do povo.
          O seu conto, “O homem que sabia javanês”, pode ser comparado, pela genialidade, ao conto, “A cartomante”, do não menos genial mulato Machado de Assis. São temas diferentes, um fala de infidelidade, de amor e crime; o outro, perspicácia, autoestima e determinação. Têm em comum que são duas joias raras da literatura nacional, dois poemas-prosa. Um explora o lado místico, o lado supersticioso do homem, um sentimento hereditário que o conhecimento formal e a ilustração científica não conseguem extirpá-lo da alma. O outro, a audácia, a inteligência, a temeridade e o jeitinho que um jovem usa para sobreviver sozinho numa cidade grande.
          Muito cedo ficou órfão de mãe, seu pai, Manoel Joaquim de Lima Barreto, cuidou dos quatro filhos com paternalismo responsável, orientando-os na senda do saber, todavia, como uma maldição de família, termina seus dias, homiziado no quarto de um hospital de malucos. É Lima Barreto que pega na alça do caixão da responsabilidade para terminar a criação e a educação dos demais irmãos em 1904.
          Amanuense por concurso do Ministério da Guerra e colaborador remunerado dos jornais Cartas da Tarde, Jornal do dia, Gazeta da Manhã e outros, dá-lhe na telha empreender junto com colegas visionários, a fundação duma revista chamada Floreal que logo morreu, não ultrapassando a 2ª. Edição.
          A rotina de escriturário, de um governo republicano, numa função modesta, burocrática e rotineira para quem desejava alçar voos mais significativos na literatura nacional, começam-lhe conturbar o espírito, encher-lhe o saco e a saída que encontra, é refugiar suas mágoas nas mesas e copos de cachaça dos botequins e na boemia. O uso costumeiro da bebida alcoólica, trouxe-lhe internações psiquiátricas frequentes para tratamento de doenças neurastênicas e depressão profunda..
          Outro fato marcante na vida de Lima Barreto foi sua rejeição para integrar o seleto mundo dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Pense leitor, no início do século XX, um mulato que escrevia de maneira despojada, coloquial, de origem negra, pobre, de vida desregrada, ter a petulância e a ousadia de imaginar sua inserção no reduzido mundo dos deuses das letras de seu país? Ele poderia argumentar para sua vaidade, que lá também teve um presidente e fundador, mulato, egresso da periferia do Rio de Janeiro, o egrégio Maria Joaquim Machado de Assis. Mas contra-argumentar-se-ia que os dedos das mãos são irmãos e são diferentes. Machado teve uma origem semelhante, entretanto, sempre andou no caminho da probidade, da retidão e tinha um temperamento burguês, não reacionário. Era um exemplo de homem e escritor. Funcionário graduado do governo federal, soube conviver com Deus e o diabo ao mesmo tempo. Acendia uma vela para os monarquistas e duas para os republicanos. Enquanto abraçava um monarquista, apertava no peito um republicano, mesmo as subjacentes críticas que fazia em seus textos à Igreja Católica, eram eivadas de sutilezas, no fundo era um pusilânime, um medroso, um egoísta, um comodista, não era destemido nem irresponsável como o seu conterrâneo.
          Jorge Amado, em seu livro, “Farda, fardão, camisola de dormir”, foi o primeiro escritor de nomeada que escancarou a política e o jogo de interesses escusos que permeiam os membros daquele colegiado. Claro, que Lima Barreto, não tinha pedigree para ser indicado membro daquela casa, em vida, por vários fatores, dentre alguns, sua posição política reacionária e socialista.
          Alguns críticos literários de indiscutível saber, rotulam a literatura de Lima Barreto como uma arte inferior, panfletária, coloquial, de infidelidade gramatical. Uma arte usada para depreciar pessoas, vingativa e venenosa. Sua sátira é condenável e pusilânime porque mascara os verdadeiros personagens.de sua crítica. Ele não era claro, direto, corajoso a exemplo de um Gregório de Matos.
          Nessa linha de crítica mordaz, contundente, que não reconheceu ou não quis abonar os seus trabalhos literários, que não quis reconhecê-lo como um representante dos oprimidos, a voz daqueles que não foram bafejados pela fortuna, estão os críticos literários Medeiros e Albuquerque, Carlos Eduardo e Alcides Maia.
          Esta crônica se propõe a enxergar Lima Barreto sob um viés diferente. Não interessa aqui discutir a conduta vingativa, a revolta, a insatisfação do autor de “Recordações do escrivão Isaias Caminha” e outras obras. Mas enxergá-lo como um dos gênios da arte literária brasileira, sem discussão e análise dos aspectos técnicos. Enxergá-lo como um gênio criador, que foi capaz de retratar os costumes, a insatisfação política e as mazelas da sociedade daquela época com clareza e estilo próprios, rompendo com escolas literárias, conceitos arraigados e alguns poderosos.
     José Veríssimo, principal crítico literário daqueles tempos, reconheceu a clareza, a riqueza de detalhes, a objetividade e o humor nos textos do então jovem escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto. Mário Matos, simplifica em sua análise, aquilo que representa o pensamento de muitos analistas da literatura brasileira dos dias atuais:
          “A sua escrita traz o calor de uma alma inquieta, que padece a ânsia do mistério das coisas, do sortilégio que paira sobre a existência humana. A maior influência literária e moral sobre a organização de Lima Barreto é Dostoyevski... O seu processo é angustioso e tem uma piedade fácil por aqueles que são dominados pela ideia fixa, contanto que essa ideia seja um sentimento nobre. As Recordações são uma autobiografia. Aí está, porventura, o segredo de seu atrativo, da grande questão da sua palavra escrita... Os defeitos do seu livro vêm também deste feitio e estes defeitos são unicamente o tom muito pessoal que, em certas páginas, transparece”.
          Depois de várias internações psiquiátricas, morre triste e esquecido o afilhado do Visconde de Ouro Preto, no Rio de Janeiro, aos 41 anos de idade, um dos mais geniais escritores da língua portuguesa de todos os tempos, Afonso Henrique Joaquim de Lima Barreto.
          Carnaval carioca de 1982, cem anos depois do seu nascimento, seus compatriotas resolvem homenageá-lo pela Escola de Samba Unidos da Tijuca, resgatando o seu passado, com o samba-enredo: “Lima Barreto, mulato pobre mas livre”.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 18/06/2012
Alterado em 09/10/2025

Superstição - R. Santana

 

Superstição -R. Santana

   Todo homem é supersticioso, do mais ilustrado ao mais simples, do homem mais valente ao homem mais covarde, enfim, a superstição é da natureza humana, a superstição é atávica. Li alguns anos atrás, em Harold Robbins, que “o homem que não tem superstição não tem alma”, de lá pra cá, sou um supersticioso assumido, pouco me importa se alguém diz que eu sou um bronco, um limitado, um beócio, um abestalhado... Eu tenho as minhas manias: - Eu não como carne Sexta-Feira da Paixão, não passo embaixo de escada, eu me persigno várias vezes quando encontro um gato preto em noite escura, não tomo banho depois do café, acordo com o pé direito e, quando moleque, acreditava em lobisomem e Saci-Pererê.
     Com o passar dos anos, as superstições de fedelhos vão sendo substituídas pelas superstições de adultos, mais novas, mais modernas, porém, permanecem lá no recôndito da alma, elas não desgrudam nem o jovem nem o velho, todos os homens têm suas manias, até os malucos não escapam, é comum o dito popular: “cada doido tem sua mania”.
    Hoje, o atleta devoto leva o seu santinho protetor para ajudá-lo numa competição esportiva, o empresário consulta o seu horóscopo antes de ir para empresa, o artista acrescenta ou diminui letras ao seu nome para obter sucesso e os famosos têm os seus gurus e os seus fetiches. O pobre toma banho de sal grosso, água-de-cheiro, usa patuá ao pescoço, ou, usa dente de alho no bolso e folha de arruda atrás da orelha para tirar os malefícios, as bruxarias ou afastar o mal olhado.
    Coincidência ou superstição, eu tive um vizinho que chutou com bazófia, um ebó, uma macumba, na encruzilhada, numa Sexta-Feira 13, com farofa de dendê, galinha preta, velas de São Cosme e São Damião e um boneco espetado com agulhas. O pobre diabo perdeu a saúde e morreu pouco tempo depois; sua mulher, que além de chutar, esbravejou impropérios, foi vítima dum “derrame” que lhe deixou os movimentos de um braço e duma perna comprometidos e a fala embolada.
   Lá no interior do meu torrão sergipano, quando alguém quer desmanchar um forrobodó, lança pimenta malagueta no salão, instantes depois, o ardente fortum provoca espirros nos forrozeiros e a balbúrdia toma conta e acaba em briga.
  Quando moleque, colocava a vassoura com o cabo pra baixo, atrás da porta, toda vez que a minha mãe se sentia incomodada com a visita, não obstante o desdém de quem não acredita, não é que o diacho funcionava!...
    Sigmund Freud deixou no papel suas idéias de sonhos, mas prefiro a sabedoria do negro Cosme: “... sonhar com rio, água barrenta, não é coisa boa, agora, sonhar com gado, é saúde, é coisa boa, patrãozinho!”, depois destes e doutros vaticínios, o negro Cosme tomava algumas talagadas de cachaça (a primeira oferecia ao santo) “murcha venta”, sem cerimônia, indicava-me ao bodegueiro como o dono do prejuízo, eu pagava com gosto, pois gostava de ouvir as estórias e as lorotas de negro Cosme, aprendia mais sobre o assunto, com suas bazófias, do que com a sabedoria dos doutos.
   O teatro, mundo de sonho e ficção, de que tudo pode, também cultiva suas superstições, o ator pronunciar a palavra “merda”, antes de pisar no palco, é garantia de sucesso, porém, ninguém pronuncia a palavra “Macbeth” para representar a popular peça de Shakespeare, a substitui pela expressão “peça escocesa”, “Macbeth” traz maus augúrios, maus presságios, é sinistro na certa...
     Um mau augúrio, entre nós nordestinos, é o grunhido da coruja branca, a “rasga-mortatlha”. Se alguém está enfermo numa cama e essa ave agourenta começa o seu canto fúnebre ao amanhecer do dia, o Sol sem ter nascido, a família do moribundo pode se preparar porque é caixão e vela...
     Diz a sabedoria popular que a investida insistente de mosca é outro presságio não menos lúgubre do que a coruja “rasga-mortalha” de um enfermo. Não é aquela mosca que importunou o presidente Barack Obama e acabou sovada em sua mão, aquela deve ter “pedigree”, a mosca agourenta é um espécime “vira-lata”, nojenta, chula e asquerosa.
     Na última semana junina, usei e abusei de churrasco, calabresa, lingüiça, maionese, amendoim, milho cozido, feijão-tropeiro, tira-gosto, batata-frita, cerveja e licor, na beira da praia ilheense, fui parar no PA do Hospital Calixto Midlej, com uma crise hipertensiva que não recuava... Logo, a vizinha avisou à minha família que tinha ouvido naquelas noites o “canto” da rasga-mortalha. Hoje, a minha superstição tornou-se obsessiva: durmo e penso que vou morrer e acordo e penso que estou morto!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Licença: Creative Commons 
Imagem: Google 




Destaques

ILUMINÂNCIAS - Agilson Cerqueira

  Iluminâncias Agilson Cerqueira Luz que estrutura o traço, geometria viva do pensar. A lógica não habita o isolamento, mas a ponte: a coexi...

Última semana