11.17.2025

Aparência - R. Santana

 


                                                                        Aparência
                                                                        R. Santana

     Duas gatas, uma da família Santiago, outra da família Oliveira, elas tinham por hábito circundar pela vizinhança todos os dias. Não faziam isto pela necessidade de sobrevivência, essas bichanas tinham tudo de seus criadores: ração diversificada, banho, médico veterinário, penteado e freqüente visita aos CatShops para aquisição das últimas novidades. Nunca tinham comido um rato, pra quê? As barrigas sempre estavam cheias. Naturalmente, não gostavam dos ratos. Tinham aversão, vontade de comê-los quando os encontravam mas, para sorte deles estavam sempre de fome saciadas.
     Caty e Felina eram os seus nomes. Caty era mais moça, estava no fulgor da adolescência e Felina um pouco mais velha, no início da idade adulta. Ambas tinham como hobby, passear todos os dias pela vizinhança à caça de namorados. Depois do seu breakfast, elas se arrumavam, se empericlitavam, esperavam os criadores dormirem e diziam: “pernas pra que te quero?”, começavam a noitada.
     - Caty, eu já estava desistindo. Por quê demorou tanto? – Ah!... Não demorei tanto assim querida Felina, está mal humorada? Se não quiser, não sairemos hoje. – Não querida, não estou mal humorada, é coisa da TPM, estou com os hormônios à flor da pele, não é nada com você, estou sim, precisando dum gato macho pra descarregar minhas tensões. – Assim começou aquele dia, melhor diria, assim começou àquela noite de boemia das duas gatarronas.
     - Psiu!... Ó Felina! Aí vêm dois miaus mancebos. Deixa seu azedume de lado, vamos nos comportar como duas jovens educadas. – Realmente, Caty estava com o seu feeling aguçado, dois bichanos surgiram do nada e apressaram apresentar-se:
     - Félix e Fidelis às suas ordens senhoritas miaus – adiantou Félix, o mais galante e o mais bonito. Félix tinha o pelo luzidio claro, com rajadas cinzas, olhos esverdeados, cara arredonda, corpo longilíneo e forte. Fidelis era o reverso da medalha: feio, raquítico, pelo ralo, cumprido e cara de poucos amigos.
     - Eu sou Caty e a minha amiga aqui Felina. Prazer em lhes conhecer. Vocês são daqui? Não me lembro de lhes ter visto antes nessas redondezas?... – A Senhorita miau tem razão, moramos do outro lado da cidade, hoje, é que decidimos romper a rotina e debandar por aqui – respondeu Félix.
     Conversa vai conversa vem entre os casais, Félix muito desprendido, falou de sua genealogia, de sua pura raça, dos seus gostos e de suas conquistas, monopolizava às atenções, enquanto Fidelis pouco falava ou nada falava a maior parte do tempo. Fidelis por pouco não tinha sido alijado do grupo se não fosse a maturidade e a educação de Felina que mesmo a contragosto não deixava que o constrangimento tomasse assento no gostoso bate-papo e a noite fosse encerrada com um grande final. Por isto, Felina se desvelou em solicitude e préstimos para que Fidelis se sentisse bem e relaxado.
     - Caty vamos embora? Já é tarde, despeçamos dos nossos amigos. - Por favor, iremos levar as senhoritas miaus em casa – falou Félix. – Não é preciso senhores miaus. Além de ser inconveniente, moramos distante uma da outra – disse Felina. – Eu levo Felina para casa e Félix leva Caty! – Foi a vez e a voz de Fidelis para pôr ordem nas coisas. Sugestão aceita, cada um pegou sua gata e foi levá-la à sua moradia.
     Dois dias depois elas se reencontraram. Felina estava saltitante, cantarolava baixinho, respirava e transpirava felicidade, tinha visto “passarinho verde” de tanta alegria como dizem os mais velhos. Doutro lado, Caty estava pra baixo, mal humorada, irritada e pra pouca conversa.
     - Que cara você está hoje Caty!... Brigou com o mundo? – É a única que tenho! – Não, não é a única que tens. Se lhe fiz alguma coisa, somos amigas, desembuche!.. Fui sua amiga no último encontro deixei pra você Félix, aquele pedaço de mau caminho. – foi a gota d`água, Caty explodiu: - Você é sabichona, não é sua gata velha? – Eu, gata velha? Sou um pouco mais velha do que você, ademais não sei o porquê de sua irritação? – Não sabe hein? Pois vou abrir suas ouças e seus desentendidos. Você sabia que aquela boniteza do Félix não passava dum capado?... Por isto, largou-o pra cima de mim. Fui burra. Laranja madura na beira da estrada ou estar bichada ou tem maribondo no pé como diz o poeta. Não pense que eu não notei suas treitas, deixou-me conversando com o Félix enquanto dava em cima do Fidelis, não foi? – Não, não foi, fui apenas gentil com Fidelis enquanto você embevecida e caída por Félix, deixava-o de escanteio e entregue a mim. Quer saber de uma coisa? O feitiço virou pra cima do feiticeiro, nunca vi um gato tão gostoso como Fidelis!... Namoramos o resto da noite. Ele sempre queria mais. Minha filha, ele deixou-me completamente estrompada, porém, saciada. Nunca encontrei um amante mais perfeito... – Caty ouvia sorumbática, reflexiva, tinha perdido as palavras e o ímpeto, começava lembrar que Felina e Fidelis tinham sido largados à mercê da sorte enquanto ela e Félix paqueravam, não era justo descarregar na boníssima Felina seu azedume e frustração.
     - Felina estou errada, peço-lhe desculpa. Fui cega, enganei-me pela aparência, você me desculpa? – Você e eu não tivemos culpa do que ocorreu. Ninguém enganou ninguém, nem Félix nos enganou! Seu orgulho de macho deixou seu sentimento ferido incapaz de dizer que era castrado. A culpa foi dos seus criadores pelo crime que cometeram contra à natureza. Por isto neguinha (tratamento carinhoso), dê-me um abraço e façamos as pazes da guerra que não houve – os abraços foram efusivos.
     - Então, Caty, me conta como descobriu a fraqueza de Félix? – Ah Felina, na hora H, ele mesmo contou a história de sua castração choramingando e ao invés de ter raiva, fiquei com pena dele, passamos o resto da noite conversando sobre amenidades do dia-a-dia para desanuviar o seu sofrimento. – Caty, desse fato tiramos uma lição: não devemos concluir nosso pensamento sobre algo ou alguém pelo único critério da aparência. -Você tem razão Felina, as aparências enganam!...
     E assim terminou a desastrosa aventura amorosa de Caty e a ventura de Felina.
 
"Seja uma pessoa que valoriza a essência, não a aparência, cultive os valores mais profundos e não caia na tentação de se tornar um "Super" em um mundo de estrelas sem brilho próprio" (Roberto Shinyashiki)
 
 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de letras de Itabuna – ALITA
Imagem: Google

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 27/06/2012
Alterado em 01/08/2024

Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia - R. Santana

 


Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia.
Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia.
R. Santana

     No próximo dia 26 de maio, deste ano de 2009, ela iria completar 95 anos se viva estivesse, mas se nos deixou não faz muito tempo e foi para junto de Deus, os seus feitos, suas obras, o seu exemplo de despojamento material, o seu exemplo de fé, suas ações de caridade, sua vida entregue aos marginalizados, aos pobres que não tinham voz nem vez permanecem e permanecerão perenes.
     Poucos a conhecem pelo nome de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes que recebeu na pia batismal, porém, todos a conhecem por Irmã Dulce de doçura, delicadeza, afável, bondosa e meiga e mais ninguém, neste país continental, foi tão doce, tão dada e tão dedicada à causa dos necessitados.
     Moleque ainda, eu li um artigo na Reader`s Digest sobre a Irmã Dulce que me impressionou. Naquela época que não havia computador nem Internet, a revista que trazia as informações em texto condensado, do mundo científico, filosófico, personagens históricos, informações militares e textos lúdicos, era a revista Reader`s Digest. A Digest representava a revista Veja dos dias atuais. Hoje, a Reader`s Digest é lida somente por alguns aficionados do passado e alguns jovens intelectuais e militares das nossas Forças Armadas, porém, é sabido que a Reader`s      Digest é uma revista lida em mais de 70 países e vinte tantas línguas.
Nesse artigo, um importante diretor da GM internacional, relatou sua experiência com a Irmã Dulce quase que se desculpando, envergonhado, por não lhe ter atendido em suas reivindicações e quando visitou in loco os barracões improvisados da freira que aproveitava qualquer espaço que lhe era oferecido para colocar os seus pobres e os seus miseráveis, que ela os recolhia à calada da noite, nas calçadas, nos becos e nas ruas de Salvador, penitenciou-se com um “mea culpa” pública.
     O filho da terra do Tio Sam, ainda teceu em seu artigo na Digest, sua ilimitada admiração pela freirinha, raquítica e baixinha, uma pessoinha frágil, mas de indômita força interior, de vontade inquebrantável, que a despeito de todas as suas dificuldades físicas e materiais, entregava-se à caridade e ao amor dos seus semelhantes necessitados.
     O ilustre ianque discorreu que não obstante o estado precário das instalações que a Irmã Dulce utilizava para abrigar os meninos de rua, os jovens e os velhos, todos eram assistidos com banhos, roupas limpas e refeições diárias e muito amor.
     Tinha 13 aninhos quando a contragosto do Dr. Lopes Pontes, o seu pai, ela tentou entrar no Convento do Desterro mais foi recusada pela idade, mas desde essa época, Maria Rita se dedicava às práticas de caridade nas ruas de Salvador, assistindo aos doentes, aos velhos e aos jovens abandonados. Nessa idade, fervorosa na fé, rezava diuturnamente, ao contrário de Madre Tereza de Calcutá que pedia a Deus um sinal, Maria Rita, foi mais humilde, pediu a Santo Antônio, o seu santo de devoção, que lhe desse um sinal e o sinal lhe foi dado.
     Aos 18 anos de idade, depois que concluiu o curso de magistério, curso perseguido por todas as moças da classe média do seu tempo, ao invés de assumir uma escolinha, casar e ter filhos, ela entra na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, no Convento do Carmo, em São Cristóvão, Sergipe e seis meses depois é freira, dois anos depois, faz sua Profissão de Fé e volta para Salvador e começa sua caminhada de caridade, de entrega e de amor.
     Foi a única religiosa no Brasil que o papa João Paulo II tomou a iniciativa de visitar quando esteve aqui pela sua dedicação aos filhos da pobreza e da miséria.
     A obra social da irmã Dulce é significativa, além do Hospital Santo Antônio, capacitado para atender mais de mil pacientes/dia, ela fundou o Centro Educacional Santo Antônio (CESA), que abriga mais de 500 crianças na faixa etária de 3 a 17 anos e o Círculo Operário da Bahia que uma escola profissionalizante e atividades recreativas e culturais.
     A Irmã Dulce nasceu no ano da I guerra Mundial, mais nova quatro anos do que Madre Tereza de Calcutá, da mesma estatura moral da religiosa albanesa, naturalizada indiana, a nossa Irmã Dulce ainda não teve o reconhecimento do mundo quanto à madre indiana. Madre Tereza em vida foi agraciada com o Nobel da Paz e o Templenton Prize.
     Agora, em janeiro de 2009, 17 anos depois de sua morte, é que o nosso Anjo baiano foi reconhecida pela Congregação da Causa dos Santos da Igreja Católica, como “Venerável”. Em abril, o papa Bento XVI, a reconheceu por decreto, suas “Virtudes Heróicas”, mas até ser beatificada e santa haverá uma longa caminhada, talvez, seja este o desejo da Irmã Dulce lá nos céus, ser reconhecida apenas como o “Anjo Bom da Bahia” e não “Santa Irmã Dulce”!...

Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras da Bahia
Gênero: Crônica.
Membro da Academia de Letras da Bahia
Licença: Creative Commons 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 28/06/2012
Alterado em 13/10/2023




A carta - R. Santana

 

A carta
R. Santana

     Não havia antigamente uma coisa mais prazerosa do que receber uma carta de um ente querido distante.
     Quando o carteiro com sua mochila às costas, carregada de cartas, e outras correspondências, gritava à nossa porta: “carteiro!!!”, todos que estavam dentro de casa corriam para recebê-la na esperança de ser sua. E, quando a carta era dirigida ao dono da casa, ao esteio da família, todos se juntavam à sua volta, pois as notícias não tinham um caráter particular, mas eram notícias que interessavam ao dono da casa e todos da família.
     Às vezes, as cartas traziam notícias pesarosas, de um ente querido que se foi, de um conhecido moribundo, de um parente distante falecido. Quem não se lembra de um telegrama tarjado de preto, anunciando desenlace? Mas as cartas traziam também, notícias alvissareiras, portadoras de boas novas, de alegria, de alguém que ia se formar, casar, alguém que tirou a sorte grande no jogo, boa safra, chuva e sol em abundância necessária.
     As cartas eram usadas também em pequenas distâncias. Os jovens de épocas mais remotas usavam as famigeradas “cartas de amor”. Livros com modelos românticos de cartas eram coqueluches daqueles tempos. As moças de liberdade controlada pelos pais, recebiam os textos mais ingênuos e apaixonados dos seus pretendentes.
     A carta não era apanágio somente dos mortais comuns. Grandes escritores, cientistas, governantes, militares, usaram-na para confessar suas angústias, seus dramas familiares e pessoais, suas descobertas científicas, suas conquistas militares e os governantes anunciarem, a priori, aos seus prepostos, medidas administrativas que tomariam em defesa do estado e do povo.
     A carta também foi usada em uma das mais repulsivas e condenáveis atitudes do ser humano: a “carta anônima”. Quantos casamentos foram desfeitos? Quantos crimes foram praticados em decorrência dessa nojenta e abjeta forma de se comunicar? Pessoas de boa fé ou má fé se escondiam atrás de uma carta anônima, sem assinatura, sem identificação de autoria, para denunciar traições, crimes, conluios, sublevações, extorsões. Há em nosso país o caso emblemático da denúncia feita por carta, do coronel Joaquim Silvério dos Reis, ao governador de Minas, Visconde de Sabugosa, sobre a Inconfidência Mineira. Mesmo quando o denunciante anônimo era movido por causas nobres e necessárias, ele era tido como gente de caráter duvidoso e covarde.
     A nossa carta mais famosa tem mais de 500 anos, é a carta de Pero Vaz de Caminha, comunicando o grande feito de Pedro Álvares Cabral, com a descoberta de uma nova terra para Portugal. Porém, têm registros mais antigos. Conta-se que Ramsés III, faraó do Egito, anunciou sua subida ao trono, aos seus súditos de terras longínquas, usando os pombos-correios para levar suas cartas, 6.500 anos antes de Cristo. E que os Persas, em tempos não menos distantes, usavam as cartas para comunicar os seus atos administrativos.
     Outra carta não menos famosa é a carta testamento de Getúlio Vargas. Getúlio eleito presidente, depois de ter exercido à presidência do Brasil por 15 anos, em regime revolucionário, constitucional e ditatorial. Retorna nos braços do povo em eleições livres em 1951 e em 1954 suicida-se.
     Sua carta é um testamento político cujo beneficiário era o povo. Não declinou nome de ninguém mas deixou como herança um conjunto de ideias políticas e administrativas e um legado de obras acabadas em todo o país.
     Com o advento de novos meios de comunicação a partir do Século XX, as cartas não perderam o seu valor afetivo, utilitário e oficial. Porém, pouco e pouco, foram substituídas por novas formas de correspondência: mais sucinta, mais rápida, mais eficiente no tempo, todavia, mais distante e menos afetiva.
     Hoje, alguém não se debruça sobre uma escrivaninha para escrever uma carta de 2 ou 3 folhas, é cafonice, é irracional. O sistema de comunicação atual, é ágil e dispensa qualquer esforço maior ou dotes intelectuais. Alguns minutos de telefonema, a família, os vizinhos, todos interessados, ficam inteirados de todos os problemas e soluções, dos negócios ao lazer.
     O aparelho de fax, a máquina de xérox, o telefone, o e-mail e a informatização, vieram colocar por terra todo romantismo que as pessoas tinham com missivas longas e redações buriladas. As correspondências são cada vez mais, econômicas, racionais e ágeis. Atualmente, a comunicação breve, a racionalização de tempo e o custo são os ingredientes indispensáveis na vida atribulada do homem moderno.
     Com a chegada da rede mundial de computadores, a exemplo da Internet, e com a Internet o e-mail, o endereço eletrônico, o correio eletrônico e a informatização das mensagens, as distâncias foram encurtadas e o mundo ficou pequeno.
     O e-mail, como sinônimo de mensagem eletrônica, é talvez, o maior instrumento da comunicação de todos os tempos. 
     O e-mail é democrático, imparcial, de acesso fácil, estabelece vínculos virtuais duradouros entre pessoas conhecidas ou não conhecidas, que tendem ser preservados toda vida. É evidente que o homem pode usá-lo também para difundir ideias más, suscitar discórdias e semear maldades. Porém, são escroques da sociedade que serão alijados pelas técnicas de filtragem e os avanços da ciência, da informática e da cibernética.
     O e-mail tem sido muito usado para transmitir conhecimento, disseminar mensagens de autoestima, divulgar filosofia de vida, exemplos de fé, estreitar laços de amizade e fazer novos amigos.
      Agora, recente, surgiu o WhatsApp, comunicação sucinta, com texto, imagem e áudio, porém, a documentação pesada, o e-mail ainda não foi substituído. 
     A história da humanidade é cíclica, os fatos travestidos com outra embalagem se repetem, contrariando o filósofo Heráclito, que dizia: “... não nos banhamos duas vezes no mesmo rio...” , para explicar o eterno movimento das coisas. Heráclito não era o dono da verdade, mas a eterna mudança é um fato, todavia, parece que a humanidade se move em círculo sempre voltando ao ponto de partida. Por isto, acreditamos que a carta retomará seu lugar como forma de expressão romântica.
     A carta simples, ingênua, recheada de palavras esperançosas, juras de amor, de saudade, de alegria, de romantismo, será novamente, a forma mais humana para encurtar distâncias afetivas e aproximar corações e vencerá às formas mais modernas da comunicação e da tecnologia.

Autor: Rilvan Batista de Santana –
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 

O orador e o escritor - R. Santana

 

O orador e o escritor
R. Santana

    Eles têm em comum o uso da palavra, são os artesãos da palavra, eles têm o dom de expressar através da oratória ou da escrita o pensamento. Entretanto, nem todo orador tem o dom da escrita e a recíproca é verdadeira.
    Na minha crônica: “A palavra e o tijolo”, deixei bem definido a função e o valor da palavra quando disse: “A palavra é o tijolo do pensamento. É com a palavra que se constrói o alicerce, as paredes, os cômodos e o teto dos conceitos e dos sistemas teóricos. Às vezes, uma palavra sozinha encerra um significado.” Portanto, a palavra é a ferramenta principal, a condição sine qua non do escritor e do orador para expressarem os seus pensamentos.
    A Bíblia, o livro de muitos escritores inspirados por Deus, expressa nos seus textos o valor divino da palavra: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3), isto é, antes do mundo ser criado a palavra estava com Deus, ”o Verbo era Deus”.
    Dentre alguns virtuosos da palavra escrita e da oratória, a História registra: Demóstenes, Péricles, Cícero, Rui Barbosa, Afonso Arinos, José de Alencar e outros luminares da História do Mundo. Gênios da palavra como Aristóteles, Platão, Shekspeare, Alighieri, Allan Poe, Hemingway, Goethe, Schiller, Kafka etc., não primavam à eloquência, à retórica, mas foram deuses da palavra escrita.
    Faz-se necessário dizer para o entendimento do leitor, que não obstante o reconhecimento desses operários da palavra pelas gerações futuras, muitos pensadores, muitos escritores, muitos poetas, foram discriminados, relegados ao ostracismo e à miséria no seu tempo.
    Escrever é uma atividade solitária. Para ser escritor não será necessário ser um Dostoievsky, um Machado de Assis ou um Eça de Queiróz, mas ser um leitor contumaz (as ideias não são construídas do nada), fazer da escrita um exercício permanente, subsidiar-se de um bom vocabulário e não se preocupar com os censores de plantão... Hoje, as editoras têm seus revisores profissionais e recursos técnicos de correção ortográfica que auxiliam o autor na correção de um texto. O importante é ter uma boa ideia na cabeça e desenvolvê-la de maneira articulada e ter em mente que escrever não é um ato de inspiração, é um trabalho intelectual puxado, o talento e o estilo fazem a diferença.
    É de domínio público, as dificuldades que os escritores, hoje consagrados, tinham para expressar as suas ideias e os seus pensamentos no papel eram enormes em todas as épocas, quem tiver a ventura de ler os rascunhos dos livros do romancista Graciliano Ramos, um dos regionalistas mais elogiado pela crítica literária, irá se debruçar em um amontoado de frases e palavras riscadas e substituídas pelo autor.
    As considerações acima servem também para o orador, não obstante, na atualidade, são raros os oradores com a mesma eloquência, a mesma retórica, a mesma prolixidade, o mesmo perfil dos oradores de outrora. Hoje, o orador foi substituído pelo palestrante ou pelo conferencista que é mais um diálogo, uma conversa, onde se valoriza a interação entre o sujeito da oração e o interlocutor.
    Conta-se que Demóstenes, o maior orador da Grécia antiga, era gago e venceu suas limitações retóricas através da perseverança e indescritível força de vontade a ponto de utilizar terapias de fonação esdrúxulas para os dias atuais como falar com pedrinhas na boca ou discursar perante o mar com o barulho das ondas.
    Atualmente, existem escolas para escritores, bons cursos de redação, estudos interessantes de gramática, de filologia, recursos fonoaudiólogos para melhorar a audição e a voz, cursos para melhorar o desempenho do orador em público, técnicas médicas para melhorar a dicção, porém, não se deve perder de vista que o escritor gênio ou o orador excepcional nasce com o dom da palavra, com essa vocação, com esse potencial.
    O orador e o escritor não são feitos nos bancos escolares, eles nascem feitos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Foto: Google

A vedete - R. Santana

 

A vedete
A vedete
R. Santana

I


Era a terceira ou quarta vez que tinha ido ao abrigo São Francisco no ano 2003. É uma construção em forma de H, com dois prédios frontais de dois pavimentos cada um, ligados por uma passarela de falsas colunas, encravado em um outeiro, ladeada de jardins e palmeiras da Índia e cerca viva de espinheiro que não impede o vivente do abrigo se deliciar com a linda visão da cidade de Vila Nova, embaixo.
Nos segundos andares ficam as salas administrativas, a lavanderia, o almoxarifado, a farmácia, uma despensa, uma grande cozinha e os dormitórios das Irmãs Clarissas, administradoras do abrigo.
Nos primeiros andares ficam apartamentos de cinco ou seis leitos cada, dos velhos abrigados. Nos térreos, os dormitórios femininos, salão de festa, salão de ginástica (para as pessoas válidas da instituição que quisessem usá-lo), a recepção e nos fundos dos prédios uma grande piscina. Todo esse complexo ligado pela passarela, por disfarçáveis escadas, rampas e passeios antiderrapantes.
Embora esse abrigo fosse entregue à Ordem Franciscana para administrá-lo, tinha sido construído e doado por um grande empresário católico, homônimo de São Francisco.
Ali, encontrei uma sapeca menina de 82 anos bem vividos, chamada de Angelina Murad que se esforçava para não envelhecer, ou melhor, se esforçava para não ter uma velhice decrépita. E, duma forma ou doutra conseguia. Alta, viva, inteligente, de olhos esverdeados e mesmo com a avançada idade, era esbelta, ainda tinha marcas duma juventude prazerosa doutros tempos.
Ela não tinha complexos sociais. Enturmava-se com os velhos e os novos com a mesma facilidade. Brincava, cantava, dançava com mais desenvoltura do que suas colegas anciãs bem mais novas.
Ficamos amigos no primeiro encontro. Desde cedo, tratava-lhe sem cerimônia, embora tivesse idade de ser seu neto. Compreendi logo que se a tratasse com



formalismo não teria o prazer de sua companhia, de sua conversa e jamais teria penetrado em sua história.

II


Final da década de quarenta, Angelina Murad com 27 anos de idade, é uma das principais estrelas do Teatro de Revista. Uma artista completa: canta, dança e domina musicalmente alguns instrumentos, notadamente, o piano e o acordeão. De uma empatia carismática. É assediada por empresários, diretores, colegas e por alguns figurões da elite da capital federal.
Não faltavam propostas de casamento, de contratos milionários, de convites para atuar em grandes musicais, convites para o incipiente cinema nacional e não faltavam também, propostas só de interesse sexual. Ela atendia algumas propostas, driblava outras e respondia com desdém quando era ferida em sua dignidade.
Muito dada, muito querida, todavia, jamais permitia que sua vida profissional interferisse na pessoal. Quando ia pra cama com alguém, ia por bem querer, por prazer, por tesão, independente dele ser rico ou pobre, dele ser o diretor do espetáculo ou o dono da companhia ou um colega de atuação. Leiamos o seu depoimento:
“Meu nome de batismo é Emma Fenstermacher. A minha mãe era gaúcha e o meu pai alemão de Colônia. No início do Século XX, depois da I Guerra Mundial, ele embarcou num navio e veio atracar no porto de Santos, atraído pela fama de uma terra ignota. Levado por notícias de seus conterrâneos radicados no Sul do país, abrigou-se logo depois no Rio Grande do Sul, onde conheceu e casou-se com a minha mãe, um ano mais tarde.
Eu sou a mais velha de quatro irmãos, quando me dei por gente, meu pai já tinha comprado uma modesta casa em Santa Rosa e era sócio de uma pequena estância. Não éramos ricos mas, tínhamos escola e fartura na mesa.
Na minha adolescência, tive aulas de balé, canto e teatro. A minha mãe era uma cantora caseira e meu pai um admirador das artes quaisquer que fossem.
Embora houvesse certo preconceito pela carreira artística, em particular, mulheres que abraçavam essa carreira, os meus pais deram vazão à minha vocação de cantar e representar.
Comecei participar desde cedo em minha terra de grupos de teatro, cantava em saraus da família e de conhecidos e com o tempo passei cantar em festa de aniversário de criança e adolescente com um pequeno cachê.
A Primeira Guerra Mundial trouxe o meu pai para o nosso país e a Segunda Guerra Mundial o levou para sempre. Quando a guerra estourou, ele já tinha mais de 45 anos de idade e quando Getúlio declarou guerra à Alemanha, o coração dele não suportou. Foi um baque pra ele a idéia de dois povos que ele amava entrarem em conflito bélico. Não tinha perdido o amor pela pátria de nascimento, entretanto, daria a vida pela pátria adotiva. O Brasil era a terra da sua esposa e dos seus filhos que estavam acima de qualquer sentimento e a morte de qualquer brasileiro em conflito lhe era insuportável, era o fim.
Com a morte do meu pai, eu e minha mãe viemos para o Rio de Janeiro, a Capital Federal, em março de 1947. Os meus irmãos preferiram ficar trabalhando e dando continuidade aos negócios do meu pai.
No início as coisas não foram fáceis, não conhecíamos ninguém, além disso, estávamos num período de vacas magras, o país ainda sentia o trauma da guerra e a economia não andava em bonança, afora os problemas políticos. Tive que bater em várias portas até conseguir uma oportunidade de trabalho em uma casa noturna de pequena expressão artística.
Depois de alguns meses de trabalho, fui convidada por Walter Santino, principal diretor de teatro, para fazer uma ponta numa peça da obra de Henrik Ibsen, interpretando uma dona de casa americana. O meu papel era de somenos importância mas desempenhei com tanta graça e também a peça no conjunto, que ficamos em cartaz mais de um semestre e propiciou-me vôos mais altos.
Participei de alguns filmes e espetáculos de pornochanchadas que foram tão ruins que prefiro não citar os nomes. Não foram ruins pelo desempenho, eram rapazes e meninas de talentos indiscutíveis, salvariam qualquer texto por pior que fosse, porém, não passavam de espetáculos sexuais de apelação. Entretanto, era a coqueluche do momento, uma verdadeira mina de ouro. As nossas pernas eram disputadíssimas pelas lentes dos fotógrafos. As principais revistas do país exploravam e estampavam os ângulos mais picantes dos nossos corpos.

Ganhei muito dinheiro. Comprei apartamento, ajudei meus irmãos e viajei outro tanto. Fizemos espetáculos em Paris, Roma, Londres, várias cidades dos Estados Unidos, México e Ottawa. Éramos recebidos com carinho e simpatia nas melhores casas noturnas.
Quando voltamos ao Brasil, o meu nome era uma marca nacional. Deixei de participar de espetáculos vagabundos e investir numa carreira mais burilada. Não me faltava convite. As principais empresas nacionais, pagavam-me a peso de ouro para veicular os seus produtos. A televisão estava engatinhando no eixo Rio-São Paulo, fui sua garota propaganda por algum tempo, mesmo depois que passei atuar em suas novelas...” – abruptamente, ela interrompeu a fala. Fiquei preocupado, não tive outro jeito senão perguntar-lhe:
-O quê houve?
-Nada meu filho, é coisa da idade, vou descansar. Contar-lhe-ei o resto depois. Sim?
-Tudo bem.

III

Voltei lá na semana seguinte. A minha curiosidade era maior do que a minha ansiedade, queria ouvir o resto da história de Emma, ou de Angelina. Acho que não daria para separar Emma de Angelina porque a partir do Rio de Janeiro, elas eram xifópagas. A carioca estava dentro da gaúcha e a gaúcha estava dentro da carioca à Aristóteles: “se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Ela nasceu como Emma e amadureceu como Angelina.
Naquela semana era festa no abrigo São Francisco, Angelina estava mais solicitada bouquet de noiva. Todos chamavam-na para dançar. Comigo ela dançou umas duas ou três vezes.
Dançava com uma leveza e uma simplicidade como ninguém. Ali no salão, dançando como se não estivesse pregada ao chão, a Angelina se sobrepunha à Emma com clareza. Quem não conhecia seu passado, ficaria boquiaberto com seu desempenho pela provecta idade.
Retornei lá duas semanas depois, não queria dar bandeira da minha ansiedade. A sabedoria popular diz que: “o apressado come cru”. Tinha todo tempo do mundo, não diria o mesmo de Angelina. Embora sua auto-estima fosse lá em cima, notava-se que ela definhava dia-a-dia. Tinha algumas doenças da velhice, nada que se perdesse o sono, no entanto, notava-se que alguma coisa lhe mexia na alma, como se os fantasmas do passado andassem lhe perturbando e tivesse consciência de sua impotência.
Fui informado que Angelina tinha ido passar um final de semana na casa de um sobrinho-neto. Não demonstrei preocupação pela ausência dela, afinal, ia ao abrigo muito antes de conhecer Angelina Murad. Passei o dia cuidando de outras pessoas. Não havia festa nesse dia, havia um movimento normal dos dias de visita que acabou absorvendo-me todo tempo, quando deixei o abrigo, a noite ia chegando.

IV

Demorei um mês pra voltar ao abrigo. Atividades particulares absorviam-me prejudicando a minha atividade voluntária que fazia aos hospitais e às casas de amparo à velhice e ao menor nos finais de semana. Todavia, não me saía da cabeça o desejo de conhecer o restante da história de Angelina. Não queria bisbilhotar sua vida por bisbilhotar, movido pela curiosidade mexerica, mas queria passar para os outros o significado relativo da vida, em particular, o lado relativo do sucesso. Não existe tempo bom que não se acabe e a recíproca é verdadeira quando se diz: “depois da tempestade vem a bonança”. Não entendia como uma pessoa tão famosa estava ultimando seus dias num abrigo, abandonada por parentes e amigos.
Depois de tantas investidas, eu a encontrei disponível naquela tarde e parecia-me querer jogar conversa fora e ter dado falta da minha ausência:
-O quê houve meu filho? Sumiu!... Enjoou desta velha? – não tive nem tempo de lhe cumprimentar.
-Angelina (nada de tia ou avó), estava trabalhando esses dias. Não sou aposentado, ainda não estou mamando nas tetas do governo como uma pessoa que está defronte a mim! – brinquei.
-Ah, ah, ah, se eu tivesse eu tivesse de viver desse salário da aposentada, Alberto, eu estaria vivendo de chorumelas... – lamentou.
-Bem, não vamos consertar o mundo. Deixa Deus com seu mundo e gambá com seu fedor, hoje, quero matar a saudade que eu senti de você esses longos dias que não lhe vejo. – enchi sua bola...
Fomos sentar em um banco de cimento que ficava no jardim. Um recanto aprazível, cercado de orquídeas, margaridas, roseiras, violetas e alguns espécimes raras que não conheço o nome ou a família.
Como sempre, ela respirava alegria. Não me lembro de tê-la encontrado macambúzia, triste. Brincava dizendo que “tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva”, por isto, não me foi difícil, com jeito, empurrar-lhe para que contasse o resto da história:
-Angelina, você terminou sua vida artística na televisão? – joguei a isca.
-Não! Trabalhei em várias novelas quando era feita ao vivo. Porém, nunca gostei de novela. É muito trabalhosa e não tem o olho no olho com no teatro, além da história ter desdobramento por vários meses. Terminei no teatro, dançando, cantando e representando. – insisti:
-Você começou trabalhar na televisão brasileira quando ela estava engatinhando e não me falou como veio parar aqui no abrigo.
-Aqui, cheguei há 10 anos, por livre e espontânea vontade. Vim visitar uns parentes, gostei da cidade e quis ficar perto deles, entretanto, sem morar em suas casas, o abrigo foi o melhor lugar que encontrei pra ficar, porque é gente da minha idade e não fico solitária, além de não ser peso pra parente ou aderente. – não era sua chegada ao abrigo que desejava ouvir, queria ouvir os verdadeiros motivos que precederam sua chegada àquela casa, fui direto ao assunto:
-Querida Angelina, você parou sua narração quando começou atuar em novelas, depois de consagrada no cinema e no teatro, o quê ocorreu depois disso?
-Você tem razão, entre o início do meu trabalho de novela e a minha entrada aqui, existe um hiato de uns 40 e tantos anos. Se tornar-me enfadonha na minha fala, interrompa-me. Quê prazer lhe trará a história duma velha?
-Não fale assim! Velho é molambo... Você é um ícone da arte brasileira, além de ser uma pessoa do bem. – fui-lhe sincero.
-obrigada, pena que lhe conheci depois de velha, senão, teria sido sua amante. – brincou. Fiz-lhe gesto de assentimento. Ela continuou:
“... Casei-me com um colega de trabalho. O casamento foi feito na Catedral do Rio, com tudo que tínhamos sonhado: buffet, Kadillac, viagem ao exterior, a mídia cobrindo cada passo e cada palavra. Fomos para Barcelona, Roma, Paris e voltamos para casa. Sessenta dias atravessando fronteiras. Júlio Galhardo, meu marido, foi de um cavalheirismo indescritível. Ele parecia estar dentro de mim, do meu pensamento, adivinhava os meus mais recônditos desejos. Se no namoro ele tinha sido um amante perfeito, depois de casado, ele duplicou os carinhos e os cuidados. Foram sessenta dias inesquecíveis...
Quando retornamos, os assédios de emprego partiam de todos os lados. As principais empresas de comunicação do país queriam fechar contrato conosco. Nossa vida era próspera. Fizemos alguns investimentos em imóveis, títulos de capitalização do governo, um haras e um sítio no município de Campos, interior do Rio de Janeiro.
Não tivemos filhos. Dois anos depois, fiz um tratamento com um especialista em fertilidade humana, mas não vingou nenhuma gravidez. Júlio começou ficar arredio, taciturno, ciumento e deu pra beber. No início era uma cervejinha ou uma pinga na hora do almoço, com o passar dos dias, ele foi relaxando, chegando bêbado e atrasado nos estúdios de gravação, nos ensaios e algumas vezes, teve de ser substituído nas peças teatrais. Desempregado e cachaceiro, ele passou viver às minhas custas.
O nosso mundo ia ruindo, as cenas de ciúmes que Júlio fazia em público, foram decisivas para que os meus contratos não fossem renovados. As propostas contratuais não condiziam em termos salariais e profissionais. Além disso, já estava com mais de 35 anos de idade, os produtores, os diretores teatrais, de televisão e de rádio, lançavam novos brotos no mercado.
Júlio passou por vários manicômios. Tornou-se um alcoólatra e com o alcoolismo outras doenças vieram no bojo: estados psicóticos, depressão, convulsões, confusão mental, delirium tremus e por aí afora. Saía bem do hospital, mas pouco tempo depois, voltava beber e repetia-se tudo de novo. Levou essa vida quase oito anos, vindo falecer com 43 anos de idade.
Vendi o sítio, o haras e lancei mão de algumas economias que tinha na poupança. Cada internação de Júlio ia um bom dinheirinho. Se ele tivesse levado mais quatro o cinco anos para morrer, teria me deixado na miséria.
Com dificuldade, pude manter e comprar depois alguns imóveis. Hoje, tenho uma aposentadoria mínima e os aluguéis dos meus apartamentos completam a minha subsistência.
Quando ele morreu, eu já era uma balzaquiana, porém, não faltaram propostas de casamento e amigação. Não quis mais envolvimento emocional duradouro. Namorei muito, agora, cada qual no seu cada qual. Não me atraía mais juntar as escovas de dente. Viver a dois é saber administrar as diferenças e não me achava mais em condições de enfrentar um novo casamento.
A juventude e o sucesso são passageiros. Lembra-me uma parábola com a base do vértice voltado para cima. Se alguém escalasse um dos lados dessa parábola, o topo seria o sucesso auge, o estado aprazível, o nirvana e a descida, a decadência, que é irreversível, ninguém se mantém no topo eternamente, o problema consiste que desejamos a subida mas, nunca estamos preparados para descida, para o ostracismo.
Fiz papel de tia, de mãe, de avó e outros papéis de somenos importância. Quando eu senti que o trabalho artístico não tinha mais significado para mim que não me dava mais prazer fazê-lo, que o trabalho me era dado como para ajudar uma artista velha, eu sumi do meio e homiziei-me voluntariamente para este abrigo Espero que os meus ossos sejam enterrados nesta cidade.
Ela tinha falado um tempão, não a interrompi para não atrapalhar seu raciocínio, embora ela fosse de uma lucidez invejável para sua idade, ás vezes, ela tergiversava noutros fatos que não tinham nenhuma relação com o seu depoimento e voltava com a maior facilidade ao fio da meada. Por isso, fiz-lhe algumas perguntas antes que deixássemos o jardim:
-Por quê razão não deixou Júlio quando ele começou beber desregradamente? – provoquei.
- Você é jovem, desconhece naturalmente que os compromissos morais são mais fortes que o amor. Tínhamos jurado estar juntos na saúde ou na doença, na alegria ou na dor, na miséria ou na bonança. Como iria abandoná-lo na doença. O alcoólatra é um doente. Casamos por amor, ele não me era infiel, portanto, eu tinha obrigação moral de não deixá-lo à deriva. – justificou.
-Bem, eu pensei em seu bem estar, em sua carreira, todavia, você poderia ter dividido esse peso com seus colegas de trabalho. Afinal, não tem uma casa beneficente de ajuda aos artistas, algum hospital público, montepio, previdência pública? - tentei desculpar a minha insensibilidade.
-Nessa época, esses serviços gratuitos eram precários. Os colegas, a maioria é imprestável, cada um está preocupado com o seu próprio umbigo, ás vezes, o apoio e a ajuda chegam de pessoas que jamais se imaginou. Nunca pense dividir seus problemas com o outro, pois o outro é um problema. – sua lucidez era admirável.
-Angelina, observa-se que você passeou ao longo desses anos por várias escolas filosóficas!... – brinquei.
-Meu filho, estudei as primeiras letras com os meus pais, aprendi o suficiente na escola e me doutorei na universidade do mundo. Aprende-se muito com as experiências do dia-a-dia. A vida é um aprendizado e a sapiência chega com a velhice.
-Minha amiga, acho que o pessoal está preocupado com o nosso sumiço! Vamos entrar?...

V

Três anos depois. A minha amizade com Angelina se estreitava a cada dia. Tornei-me seu confidente escolhido. Quando tinha problema de saúde ou alguma dificuldade, era o primeiro a saber, elegeu-me seu porto seguro em detrimento dos seus parentes. Acredito que se devia ao fato da minha presença constante e a assistência que lhe dava.
Sentia-me honrado de sua amizade, mas não me sentia satisfeito sua cisma com seus parentes, embora tivesse consciência de não ter contribuído para essa animosidade sutil, intimamente, dava-lhe razão, pois eles, esporadicamente, iam visitá-la.
Natal de 2006, nós tínhamos programado participar da festa de confraternização que o abrigo São Francisco promove todos os anos com a presença de parentes dos internos, de amigos e funcionários da instituição. Uma festa alegre, com representação teatral, canto, dança e outras brincadeiras, com a prata de casa e alguns artistas convidados. Começava-se cedo, considerando que a maioria dos velhinhos, vai para cama assim que cai a noite.
Naquele dia achei Angelina fraquinha, sem muito interesse pelo que estava ocorrendo ao seu redor. Tive que lhe dar uma injeção de ânimo:
-Quê houve Angelina? Seus sobrinhos lá fora e você aqui esquentando a cama!... – brinquei.
-Beto, eu estou mole, sem desejo de nada, por mim ficaria o dia todo aqui estirada... – estava visivelmente deprimida, buli no seu ego:
-Quer que eu espalhe que a artista mais esperada está nessa chochice! – ela riu.
-Você não tem jeito. Levanta até defunto com seu bom astral, porém, não fique cheio de si, na sua idade, eu também fazia cobra cuspir, quando você descer a ladeira do ocaso, queria estar presente para testemunhar o velho chocho e sorumbático que você vai ficar!... – eu tinha conseguido animá-la.
A festa foi um sucesso. Um conjunto de forró da região tinha sido convidado e foi a coqueluche de todos. Angelina foi convidada para recitar um soneto de J.G. de Araújo Jorge. Houve canto, dança, humor, jogos de prendas, presentes e declarações sentimentais.
Fui pego de surpresa quando Angelina após ter declamado o soneto de J.G.de Araújo Jorge, fez uma confissão pública de amor materno por mim: “... os meus parentes de sangue me são caros mas, Alberto Silva Santos, o meu Beto, é o filho que não parir porém, é o filho que escolhi”. Não me envergonho dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, não esperava dela uma confissão dessa natureza, ela não era dada às fáceis manifestações sentimentais.
Eu passava no abrigo todos os dias, à tarde, para vê-la quando saía do trabalho. Sua de decrepitude era vista a olhos nus. Naquela manhã de 10 de janeiro de 2007, o abrigo telefonou-me, urgia a minha presença, Angelina estava prostrada na cama com graves problemas respiratórios. Atendi de imediato o chamado do abrigo, juntos providenciamos sua internação hospitalar.
Fiquei o dia todo ao seu lado. Na madrugada do dia subseqüente, ela faleceu em meus braços.
Mandei colocar em sua tumba a inscrição:
“Jaz aqui uma mulher que não me deu à luz, mas ensinou-me a arte de viver.”

Autor: Rilvan Batista de Santana - ALITA
Gênero: Conto
e-mail:rilvan.santana@yahoo.com.br
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 01/07/2012
Alterado em 03/08/2012

A missão de Jonas - R. Santana

 

A missão de Jonas
A missão de Jonas
R. Santana

Quem passa por Itabuna e resolve dar uma esticada até o São Caetano e visitar a Igreja Santa de Cássia, lá encontrará frei José Raimundo, o seu pároco, que embora ligado à Fraternidade dos Frades Capuchinhos, não tem aquela postura submissa, subserviente, compungida, humilde, comum aos franciscanos do passado, ele é um frei empreendedor e atual, não tem medo de meter o bedelho nos erros dos governantes e nas injustiças dos mais aquinhoados.
Ele tem a estatura moral de Dom Hélder, de Dom Paulo Evaristo Arns e doutros luminares católicos quanto à força que move essas grandes almas de transformar as sociedades injustas em sociedades justas e iguais. Frei José Raimundo usa sua autoridade religiosa para falar de violência, droga, promiscuidade sexual, saúde, educação, pobreza absoluta, falta de compromisso de alguns cristãos, igrejas mercenárias e outras mazelas da sociedade brasileira e do mundo atual.
Frei José Raimundo é, também, um administrador nato, deu nova roupagem às construções do frei Joaquim Camelli, é gostoso visitar os jardins da Igreja Santa Rita de Cássia, suas dependências, o seu estacionamento, a sala de informática, o auditório, as salas dos grupos religiosos, vê sua fachada, a Casa Santa Rita de Cássia, além das ações sociais que ele promove a exemplo dos mutirões anuais que atendem milhares de pessoas simples da comunidade. Não sei como esse homem ainda não é bispo ou eleito para comandar sua Ordem!...
Pois é, como diz o caboclo, é que no mês de Agosto fui convidado pelo frei José Raimundo para fazer um curso bíblico de Jonas. Jonas aquele que ficou três dias e três noites no ventre duma baleia por desobediência a Deus. Fiquei honrado com o convite, mas assustado com as palavras do pároco: “50 pessoas pensantes e cada pessoa pensante passe o conhecimento adquirido para mais 12 pessoas incumbidas de levar a mensagem de Jonas à comunidade.”
Fiz indiferença ao convite, não me incluía dentre os “pensantes”, se fosse entre os “menos pensantes”, talvez o tivesse aceitado. Não tenho a palavra douta de um São Tomás de Aquino, de um São Paulo, de um Santo Agostinho, de Santa Teresa de Jesus, a Doutora da Igreja Católica, menos ainda a fé de um São Francisco de Assis, de uma Santa Clara ou a perseverança e a humildade de uma Santa Rita de Cássia ou de uma Irmã Dulce.
Gosto de chupar o doce da laranja, eu não gosto de ilações exegéticas, toda vez que entro nessa seara me dou mal (leia o ensaio: “O homem nasce para ser feliz?...”), o racionalismo não se coaduna com a fé... Leio Rute, Judite, Daniel, Jó, Jonas, Ester, José etc., com o olhar dos poetas e escritores românticos, deleitando-me com a narrativa e com o estilo dos autores bíblicos e não de um exegeta. Quero viver e morrer na fé como a minha avó, que não fazia um “ó” com o copo, mas conhecia e vivia a fé em Deus como ninguém.
Porém, pelo apreço que tenho ao pároco, um bichinho ficou perturbando a minha mente por não ter aceitado o seu convite, mas tranqüilizei-me quando o sacerdote convidou ao púlpito, uma semana depois, os “pensantes” para que dessem os seus testemunhos à assembléia sobre o curso de Jonas. Os testemunhos não poderiam ser mais alvissareiros: todos estavam compenetrados da boa nova, dali em diante, eles subverteriam a frase: “... a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos...” pela frase: “a seara é pequena e os trabalhadores são muitos...”; dali em diante, Itabuna seria uma nova Ninive: todos os homens iriam jejuar, iriam trocar as vestimentas pelos sacos, iriam untar-se de cinza, convertidos e salvos!...
Pensei que o sacerdote tivesse me esquecido, ledo engano, no último Domingo, dia do Senhor, dia 19 de Setembro de 2010, fui abordado mais uma vez pelo pároco que me doou uma revista da PAULUS com o compromisso da leitura de Jonas, portanto, fiquei na “casa do sem jeito”, como diria o capitão Natário da Fonseca, jagunço de Tocaia Grande de Jorge Amado e, comprometi-me de estudá-lo, não de levar a missão de Jonas aos recantos da nossa cidade: sou réu confesso da minha inépcia evangelizadora.
A história de Jonas é uma narrativa igual a tantas outras que o leitor encontra na Bíblia sobre o povo hebreu, os judeus. Israel abrigava o Templo de Jerusalém, a Casa de Jeová, o reduto da teocracia, donde os sacerdotes detinham o saber e os mistérios da vida e da morte, além de governar o país.
Jonas filho de Amati, Amitar para outros, recebe uma missão de Jeová para converter os ninivitas, povo mau e inimigo de Israel, senão todos seriam destruídos, inclusive, os animais.
Ninive capital da Assíria, naquela época tinha o potencial (resguardando o período histórico) de Salvador, de Recife, de Aracaju, em que a maioria absoluta das cidades eram tribos de alguns minguados habitantes, uma cidade com 120.000 habitantes que era a população de Ninive era o luxo, o supra-sumo e requinte dos assírios, por isto é fácil imaginar a corrupção, a maldade, os desvarios sexuais, os crimes, a exploração comercial e as injustiças que proliferavam em Ninive e chegaram até Jeová e a resistência de Jonas em não querer conclamá-la ao arrependimento, à conversão.
Jonas representava o nacionalismo radical do povo hebreu, o nacionalismo do povo judaico, o orgulho do povo escolhido por Javé, o povo santo de um Deus vivo, protetor, pai, pregar mensagem de vida, de esperança e conversão para estrangeiros, povo impuro, era melhor morrer, ele e os seus contemporâneos entendiam que a misericórdia de Deus era apanágio de Israel e do Templo e não doutro povo, principalmente, um povo ruim, perverso, destruidor, era muito para ele entendê-Lo...
Por isso, desobedeceu a Jeová e descendo a Jope embarcou num navio para Társis, cidade contrária a Ninive. Durante a viagem, o navio foi colhido por uma grande tempestade e os marinheiros não tiveram outra saída, senão, jogar as mercadorias mais pesadas no mar para diminuir o seu peso, todavia, o perigo continuava rondando a tripulação, Jonas se homiziara no porão do navio e foi encontrado pelo comandante da embarcação em sono pesado: “Levanta-te invoca o teu Deus, talvez assim Deus se lembre de nós para que não pereçamos”.
Como a tempestade e os ventos não se arrefeciam, combinaram disputar entre si a sorte e chegarem à causa do mal e Jonas foi o sorteado: “Que te faremos para que o mar se acalme em torno de nós?”. A solução encontrada foi jogá-lo ao mar, o resto o leitor já ouviu dizer ou já leu.
Os ninivitas receberam a misericórdia de Javé a contragosto de Jonas e dos sacerdotes do Templo. Magoado, ele estabeleceu sua tenda nos confins da cidade de Ninive. Javé fez nascer em sua tenda, por um dia e uma noite, uma mamoneira que a cobria com suas folhas, mas logo a fez secar para desespero e incompreensão de Jonas e admoestação de Javé: “Tens, por acaso, motivo para ti irar? Está certo que te aborreças por causa da mamoneira?” e, acrescenta: “E não hei de Eu ter compaixão de Ninive em que estão mais de cento e vinte mil homens, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?”.
A lição deixada pelo livro de Jonas é que a misericórdia de Deus não tem limite. Não existe povo escolhido, a graça do Altíssimo é estendida a todos os homens santos e pecadores.
Faz-se jus também esclarecer que Jonas pode ser uma personagem fictícia, usada pelo autor dessa historieta, que conhecia demais a tradição judaica e os estrangeiros, com o objetivo de desmistificar a teocracia de Israel e os ensinamentos do Templo. Naquela época, ano 704 a. C., a aversão ao estrangeiro, ao não-judeu, nascia com o indivíduo, em Êxodo lê-se: “Fica atento para observar o que hoje te ordeno: expulsarei de diante de ti os amorreus, os cananeus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Abstém-te de fazer aliança com os moradores da terra para onde vais, para que não seja uma cilada” (Ex.: 34, 11-12).
Enfim, a recomendação da Igreja Católica em estudar a história de Jonas e tê-la como modelo evangelizador é procedente, entretanto, é necessário que os missionários se conscientizem que não existe mais Ninive nem os ninivitas, hoje, o homem tem consciência de sua bondade e de sua maldade, sua conversão, exige que o missionário faça outras leituras e releituras bíblicas, o lirismo do passado não tem espaço neste mundo materialista e racional.

Gênero Literário: Narrativo
Autor: Rilvan Batista de Santana
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 02/07/2012
Alterado em 03/08/2023

Labirintos da inteligência - R. Santana

Labirintos da inteligência
R. Santana

    Não faz muito tempo, solicitei o serviço de uma empresa de informática para consertar e configurar o meu computador. Enquanto o técnico mexia e remexia no CPU, observei que certas operações eram automáticas e repetitivas, o técnico, certamente, já tinha feito aquelas operações dezenas de vezes, embora o serviço de informática tenha o status de conduta inteligente, o raciocínio pouco lhe era exigido no desempenho daquela tarefa, então, descobri naquele momento, que as experiências retidas na mente de uma pessoa, são condições necessárias para o bom desempenho da inteligência.
    Se inteligência é a capacidade de resolver problemas ou a reestruturação imediata de dados perceptivos com ingredientes emocionais e cognitivos, a medida do QI é tão relativa e inesperada quanto um atirador acertar na “mosca” de um estande a longa distância. A mente do ser humano não é um pedaço de matéria sujeito à medida do homem e a sabedoria popular de que “nunca se conhece o outro” corrobora no mistério da mente.
    Para explicação de mentes como a de Einstein, Leonardo de Vinci, Darwin, Winston Churchill, Thomas Edison, Rousseau, Maomé, e, outros gênios da humanidade, que tiveram desempenho sofrível em determinadas atividades e foram capazes de revolucionar o mundo quando descobriram os seus reais dons, a ciência, hoje, recorre às teorias de Daniel Goleman, Alfred Binet, Theodore Simon, mais recente, a teoria da Inteligência Espiritual de Danah Zohar e Iam Marshall, pois uma só teoria não responde às perguntas que o homem faz ao longo do tempo.
    Existem coisas que quanto mais se explica, mais se tropeça em definições e conceituações. O neófito estudante de matemática não entende quando o professor conceitua a “Teoria dos Conjuntos” e dentre os conceitos, ele se depara com “Conjunto Vazio” e “Conjunto Unitário” que não acepção do dia a dia, conjunto significa várias coisas, ele não entende como “um elemento” e um “espaço vazio” têm o significado de “conjunto”, isto vale pra explicação de inteligência, quanto mais se conceitua ou se define “inteligência”, mais questionamentos se suscitam.
    Sem rigor científico, “inteligência” é um grande labirinto, de compartimentos pequenos, médios e grandes, interligados (sinapses), em que o pensamento percorre e desenvolve elementos lógicos, elementos emocionais e elementos espirituais com potencialidades diferentes. Alguém afeito à lógica jamais irá cultuar a digressão, porém, em condições socioeconômicas iguais, ele terá as mesmas possibilidades se perseguir os mesmos ideais.
    O mestre chamar o discípulo de “burro”, “orelhudo”, por dificuldade de aprendizagem, é ignorar os meandros psicológicos e mentais, não se apreende o que não inspira prazer e significado (a percepção do menino da cidade é diferente do menino da zona rural), se o mestre souber combinar o gosto pela aprendizagem e o seu significado, ele não terá dificuldade de ensinar nenhum assunto.
    A tradição de que a pessoa culta é mais inteligente do que a pessoa não culta vem de longe até os dias atuais. A Grécia berço da civilização ocidental reservava o trabalho manual, o trabalho braçal, enfim, a mão-de-obra não qualificada, para os escravos, as mulheres e os camponeses. Os filósofos, os oradores, os políticos, os sofistas (mestres do saber e contemporâneos de Sócrates), eram os cultores do saber, os detentores do conhecimento, os guardiães da justiça e do estado, a elite inteligente...
    O homem comum, intelectualmente, é diferente do gênio? Potencialmente, não! Todos têm as mesmas faculdades e as mesmas possibilidades em condições iguais, apenas, o interesse e o significado de algo para o homem comum é diferente do interesse e do significado de algo para o gênio.
    Se alguém, por exemplo, é um gênio da música, é que a música, aliada à disciplina e muito trabalho, foi o seu norte e sua razão de viver, se um gênio não persegue o seu ideal, ele não é gênio, é um homem comum.
    Se Darwin e Isaac Newton não perseguissem suas ideias, eles não teriam deixado a “Origem das Espécies” nem a “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica”, duas referências da Ciência Moderna. Certa feita, alguém perguntou a Thomas Edison, se seus inventos eram frutos de sua genialidade e para surpresa do curioso, ele lhe respondeu que os seus inventos eram frutos de “transpiração” e não de “inspiração”.
    Um indivíduo de emoção instável, sob pressão, jamais terá o mesmo desempenho de um “cuca fresca” em um exame de vestibular ou coisa que valha, não por ser menos inteligente ou por ter menos conhecimento, decerto, a sua memória e o seu raciocínio serão embotados por fatores emocionais instáveis, portanto, desconfie de escalas Stanford-Binet, desconfie dessas medidas de QI, cuidado com os aplicadores contaminados desses testes!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: Google

As gêmeas - R. Santana

 

As gêmeas
As gêmeas
R. Santana

I

As duas meninas-moça, as duas meninas-mulher, confirmavam os princípios de Richard Dawkin tão decisivos no estudo do genótipo, no estudo do meio e no fenótipo de uma pessoa: nas suas atitudes, no seu comportamento e nas suas características físicas.
Ana Francisca e Ana Clara, eram gêmeas. Eram iguaizinhas na aparência física desde que nasceram e seus pais completaram a obra da natureza na aparência psicológica, dando-lhes uma educação igual, fazendo-lhes os mesmos gostos, as mesmas vontades, proporcionando-lhes os mesmos vestuários e as mesmas coisas. Se uma delas recebia uma boneca, a outra recebia uma boneca igual. Construindo assim, atitudes e comportamentos semelhantes.
Uma delas, a Ana Francisca, mais racional, ensaiou ainda mocinha, contundentes protestos de rejeição às fórmulas prontas dos seus pais, mas com o tempo, entendeu que era mais proveitoso concordar com o desejo deles do que afrontá-los. Contanto que Ana Francisca dava aos seus brinquedos um destino mais utilitário, enquanto Ana Clara dava-lhes um sentido lúdico, de entretenimento.
Jovens adultas, Ana Francisca estava concluindo o estágio do curso de medicina; Ana Clara, já tinha concluído curso de Assistente Social. As duas trabalhavam no mesmo hospital. Os pais não tinham evitado ao longo do tempo que uma fosse mais reflexiva e introspectiva; mais kantiana, enquanto a outra, fosse mais dada socialmente e tivesse desenvolvido uma inteligência emocional à teoria Goleman. Ana Clara era indubitavelmente, mais tragável e simpática no dia-a-dia. Todavia, ambas tinham almas generosas.

II

Alfredo Almeida Botelho e Kátia, depois de 5 anos de casados, dois abortos involuntários e Kátia submetida aos recursos modernos da medicina sem sucesso aparente, tinham perdido a esperança de terem filhos por concepção natural. Já pensavam numa concepção in vitro, numa adoção, quando surgiu a gravidez de Kátia. Católicos fervorosos, se pegaram aos santos Francisco e Clara. Se o rebento fosse macho, receberia o prenome de Francisco e fêmea, de Clara. Mas diz o povo que o “homem faz e Deus desfaz”, ao invés de um filho ou uma filha, Kátia teve duas lindas meninas e para agradecer a graça em dobro, as duas também foram homenageadas por Ana, mãe de Nossa Senhora.
Alfredo e Kátia eram médicos pediatras. Tinham embasamento científico, cultura médica, porém, entendiam que quando a ciência falha, a saída é puxar o saco do pessoal lá de cima e a resposta foi pródiga, pediram um filho e mandaram duas lindas meninas.
Nascidas de 7 meses, com saúde fragilizada, ficaram um tempo considerável na encubação, com cuidados redobrados dos pais e dos médicos. Passado o susto, saídas do hospital, com os esforços do pai e da mãe, as recém-nascidas adquiriram uma saúde de ferro ao longo da vida já na primeira infância.





III

José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos, não descendia de família de tradição e fortuna. Era filho de mãe professora e pai caminhoneiro.e o irmão mais velho de quatro, todavia, aos 27 anos já era reconhecido como um dos mais promissores profissionais do direito da área cível de Aracaju. Não tinha dinheiro, mas tinha talento, determinação e ousadia profissionais. Ele tinha certeza que o resto seria conseqüência e sorte.
Dançarino de mancheia, na noite de reveillon de 1985, conheceu e encantou-se por uma jovem que dançava na boate “Night Club Caju”, à avenida Santos Dumont, orla da praia de Atalaia, na capital sergipana.
Foi um amor à primeira vista. Ana Francisca brincava com um grupo de amigos quando tropeçou em Carlão e despejou-lhe na roupa, a taça de champagne que trazia nas mãos.
-Desculpe-me Senhor, não bebi o suficiente para me embebedar, fui empurrada por alguém que lhe amarrotou a roupa de bebida. – Desculpou-se Ana Francisca – Carlão não perturbou-se. Tirou o lenço do bolso e à medida que secava a roupa, não tirava os olhos da jovem que de certa forma, começou sentir-se incomodada. Na fleuma que lhe era peculiar, falou:
-Não lhe desculpo! - quando ela ameaçou reagir, ele completa: - Onde já se viu uma linda mulher pedir desculpa do que não fez?... Só lhe desculpo se não me chamar de “senhor”! – brincou Carlão – Ana Francisca estava admirada com a presença de espírito dele. Não o conhecia, mas gostou de sua tirada, do seu jeito moleque e conquistador.
-Desculpe-me é hábito lá de casa. Meus pais tiveram uma educação calvinista, embora sejam católicos, são muito cerimoniosos e formais. Acho difícil depois de adulta romper com esses preceitos que fui criada. Ademais, é praxe no cotidiano o tratamento de “senhor” e “senhora”, para pessoas que não são da nossa intimidade, não obstante que sejam velhas ou moças. – justificou-se Ana Francisca.
-Fique à vontade!... Sou José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos e os menos amigos. Espero que a senhorita me trate de Carlão, além de fazer jus ao meu tamanho, é vulgo. – Carlão tinha uma lábia fácil e uma disposição enorme de fazer amizades, era sociável por natureza.
-Sou Ana (as duas omitiam Francisca e Clara), formando em medicina, trabalho no hospital do estado, às suas ordens!... – apresentou-se.
A festa continuou noite adentro. Os dois dançaram quase que exclusivos. Uma vez ou outra trocaram de parceiros. Pareciam velhos amigos, conhecidos de longas eras. Carlão era só alegria. Brincava, rodopiava Ana no salão com leveza e habilidade. Ao alvorecer, somente os dois, encontravam-se lépidos e soltos no meio do salão. Os demais perambulavam sem norte na casa ou se prostravam nos cantos, cansados e bêbados.
Ambos estavam de carro, ambos estavam acompanhados de amigos e tinham o compromisso de levá-los de volta. As despedidas foram rápidas e convencionais, não tinham tido tempo para vínculos afetivos. Carlão tinha impressionado Ana Francisca mais pela retórica, pelo papo fluente do que pela beleza física. Porém, para Francisca, o físico era de somenos importância, ela era muito cabeça para ficar presa ao aparente. Também não existia nenhum mal, nenhuma regra contrária, nenhum crime, juntar o útil à beleza, afinal, quem é refratário ao belo? Ninguém.




Carlão não era racional no querer, no gostar, no amor. O cheiro, o cabelo, o corpo, a boniteza, o cafuné, o dengo, o requebro e os salamaleques eram os traços
necessários de uma mulher para Carlão ficar de quatro, caído de paixão e amor. E, Ana Francisca e Ana Clara tinham sido sobejamente premiadas pela beleza, pela natureza.

IV

Depois que as duas jogaram conversa fora e Ana Clara queixando-se da rabugice dos seus pais na noite de reveillon, que bem logo os ponteiros dos relógios anunciavam a virada de ano, os seus pais tinham deixado-a com as amigas e tinham ido dormir. Enquanto Ana Francisca lhe contava que seu reveillon tinha sido alegre e cheio de novidade e que tinha amarrotado a roupa dum rapaz sem desejar, mas que no final, tinham ficado ótimos amigos e completava:
-Dançamos a noite toda. Ele me cantando e eu deixando ser cantada, brincando que estava acreditando.
-Mas não rolou nada entre vocês? – perguntou-lhe Ana Clara.
-Sim. Muito affair, boa música, muitas palavras ao ouvido, muito champagne, muitas promessas não cumpridas e troca de e-mail e celular na despedida. – respondeu-lhe Ana Francisca.
-Ah, ele vai lhe ligar e passar mensagens!...
-Para mim não, ele vai ligar pra você! – disse-lhe Ana Francisca.
-O quê? Você deu-lhe o número do meu celular e o meu e-mail como seus? Isto é falsificação ideológica!!! – esbravejou Ana Clara.
-Calma! Ele é um bom rapaz, advogado, não é bonito mas é agradável, talvez, dê namoro com você. Vamos pregar-lhe uma peça: As gêmeas! Explico-lhe: iremos usar a mesma identidade, um dia sai você; outro dia, saio eu. Ele jamais irá descobrir, basta que tenhamos cuidado. Se você não gostar dele, tacitamente, daremos um fim à brincadeira – propôs-lhe Francisca.
-Francisca, você é inconseqüente com as coisas do coração, leva na troça, não acredita em paixão, em amor... E, se o feitiço virar sobre o feiticeiro (vaticinou), nos apaixonando? Uma de nós, irá sofrer emocionalmente. Será que você tem estrutura? Gente cabeça é quem mais sofre e se desmorona facilmente. Pascal deixou isso claro: “...o coração tem razões que a própria razão desconhece...”, acho que não devemos brincar com os sentimentos dos outros, não conte comigo. – resistiu Ana Clara.
-Mana, quero somente brincar um pouco com Carlão. Você não o conhece, ele é muito articulado e inteligente, talvez não telefone, nenhuma de nós, vai se machucar. Quero ver até onde vai sua perspicácia, se ele vai descobrir que não somos as mesmas e... – não completou de falar o celular de Ana Clara tocou:
- Princesa, pensei que ainda estivesse dormindo... – Ana clara fecha o celular com a mão e diz: - é pra você, é ele! – Ana Francisca não se perturba: - atenda maninha, você soube todos os detalhes da festa não vai tropeçar. – Clara ficou atarantada, sua irmã era determinada. Quando ela queria algo, perseguia o objetivo com afinco, às vezes, tornava-se inoportuna. Clara resolveu num átimo de tempo e pela curiosidade que Carlão começava-lhe despertar, entrou no jogo:
-Perdi o sono. Cochilei quando cheguei, mas o suficiente para repor as energias do organismo. E você não dormiu? – contra-atacou Clara.
-Não, e sabe quem foi a culpada? – Clara fez uma pausa propositada. Começava gostar da brincadeira. Não se sentia culpada pela farsa representação, Ana Francisca que tinha inventado essa brincadeira, que cobrasse dela!
-Acho que não houve a culpada, mas as culpadas!...
-Não, não houve mais de uma, na minha cabeça, só uma mulher bonita e inteligente, mexeu com a minha cabeça... – provocou Carlão.
-Ah, ah, ah... desculpe-me, pensei que a champagne tinha tirado o seu sono!.. – brincou Clara.
-Não brinque com esse coração ferido, doido para lhe reencontrar. Acredito que em seus braços, ele irá recuperar essas horas que passou longe desses olhos verdes! – Carlão jogou um flerte.
-Parece-me que conheci ontem um notável galanteador. Ontem, eu atribuía seus galanteios ao efeito do álcool. Hoje, mesmo pelo celular, percebe-se sobriedade e sobra sedução. Termino convencida e correndo para os seus braços, qual a mulher que não gosta de elogios? Porém, você se esqueceu de uma coisa: sou médica e protejo-me das doenças do coração. – Clara estava se saindo tão bem que Francisca comentou com certa ironia:
-Você não queria participar da farsa, da brincadeira, me chamou de inconseqüente, agora, está representando tão bem que tenho muito que aprender com a minha conseqüente irmã!...
-Eu não sou inteligente quanto você mas não sou uma toupeira, trambique é de fácil aprendizagem! – Clara estava nervosa.
-Não precisa ofender, quis somente brincar com esse dom Juan tupiniquim, testar sua percepção, seu discernimento. Se você não quiser brincar, irei dar um basta! – Francisca estava uma pilha.
-Desculpe-me. Agora, estou curiosa, selemos nosso acordo. - puxou sua mão e colocou-a sobre a sua.

V

O namoro com as duas foi estabelecido. Carlão saia com uma hoje, a outra, amanhã, parecia que não se dava conta do embuste. Uma tinha o cuidado de passar para outra todos os detalhes do encontro. Um mês já se tinha transcorrido, nenhuma das duas, quis apresentar Carlão aos pais. A saída era do hospital e os pretextos aos pais eram horas extras no trabalho.
Como o feitiço vira pro feiticeiro, Francisca estava apaixonada e começava esboçar pontas de ciúme. Já não queria participar do revezamento e num desses dias, abriu o jogo pra Clara:
-Maninha, o jogo terminou. Não podemos continuar com essa encenação. Ontem, tive que me fazer de estressada, de brava, para não despertar a desconfiança de Carlão, quando convidou-me para beber e contou-lhe:
-Eu não gosto de beber, já lhe disse!
-Mas... ainda ontem, tomamos umas duas cervejas e... – não completou.
-Eu? Ontem, eu estava de plantão!!! – Neste momento, percebi a gafe, o desastre e a besteira que tinha feito e de imediato emendei:
-Engano-me, bebemos... – foi a vez de Carlão.
-Bebemos? Eu não bebi nada. Falei “tomamos umas duas cervejas”, por força do hábito, eu estava com mal estar, fiz lhe acompanhar à mesa.
-Chega Carlão! Não fique esmiuçando detalhes de ontem. Quer me confundir? – Carlão tinha medo de magoar a namorada, por isto, contemporizou:
-Tudo bem querida, deixemos esses detalhes de somenos importância pra lá. Porém, sugiro-lhe que diminua seu ritmo de trabalho, seu estresse é visível.

Clara ouviu tudo calada. Já tinha percebido os sinais de inquietação de Francisca. Carlão tinha razão: ela estava estressada. O ciúme e a paixão estavam incomodando-lhe dividi-lo. A brincadeira inicial começava fazer os seus estragos. A renúncia, agora, seria sofrida para qualquer uma delas. Descobrir para Carlão que tinha sido usado, não seria de bom alvitre. Embora ingênuo no querer, puro de sentimentos, Carlão, depois que soubesse, com certeza, iria se sentir enganado, ultrajado, ludibriado, ter sido o joguete na trama das duas...
Com o ultimato da irmã, Clara não teve saída senão, dizer-lhe que também estava apaixonada por Carlão e, tinha a intenção de lhe contar tudo se necessário fosse para não perdê-lo:
-O jogo Francisca, para mim terminou. Irei contar tudo a Carlão, se necessário, e terminar com esse festival de mentiras e embustes, quero doravante um relacionamento sério, comprometido com a verdade. Como para você, tudo desde o início é divertimento, sua saída, agora, será prazerosa e um descarrego de consciência, não será necessário continuarmos fingindo.
-As coisas não são tão fáceis assim. Estou mais comprometida do que você pensa. Lembra-se do dia dos namorados? Fomos pra cama, estou sem menstruação há uns 40 dias, acho que estou grávida! – blefou Francisca.
-É mentira!!! Só acredito com os resultados dos exames médicos em mãos. Mesmo assim, irei lutar por Carlão, você empurrou-me para os seus braços, assegurando-me eu que fizesse bom proveito, enquanto brincávamos de dupla identidade!... – Clara estava descontrolada.
-Irmã deixe de histerismo. Falei-lhe: “acho que estou grávida”, não lhe disse que estou grávida. Porém, não estou a fim de abrir mão dele, vamos disputá-lo, quem tiver a unha maior que suba na parede. – Francisca não se intimidou com o nervoso da irmã.
-Alguém disse que religião, política e mulher não se discute se abraça. Não irei usar de manobra, de golpe baixo para tê-lo. Não vou lhe acusar e não vou reduzir a minha culpa nesse episódio. Vou chamá-lo aqui em casa, apresentá-lo aos meus pais e deixar que ele descubra o resto por si. – Clara, não ficou na ameaça. Naquele mesmo dia, convidou Carlão à sua casa, apresentou-lhe aos seus pais (os seus pais nada sabiam), falou da irmã gêmea e prometeu-lhe apresentá-la assim que pintasse uma oportunidade.
À noite, quando Francisca chegou do trabalho, encontrou a casa em polvorosa. Seus pais, parentes e empregados, todos comentando sobre o namorado da irmã e a boa impressão que o rapaz lhes causara. Racional, dissimulada, demonstrou interesse em conhecê-lo, esperava ter a mesma boa impressão do rapaz, desejava também, que a irmã fosse feliz com esse novo amor.
Alegando mal estar, sintoma de uma velha enxaqueca, recolheu-se mais cedo aos seus aposentos sem o seu breackfast noturno. Todavia, ela urdia intimamente, estratégias para enfrentar a teimosia de Clara e os rumos inesperados do triângulo amoroso.
Relutava admitir sua paixão por Carlão. Não pensou nas conseqüências que poderiam advir quando Clara foi chamada para participar da brincadeira de dupla identidade. No início, não nutria nenhum sentimento especial pelo rapaz, mas os sustos e as emoções na atuação dos papéis mais a convivência com Carlão, tinham feito de Francisca, uma mulher apaixonada. Não vislumbrava partilhar com outra esses sentimentos, mesmo Clara, a metade do seu ser.
Passava da meia noite, Francisca com os olhos pregados no teto, quando Clara adentra no quarto, sorrateiramente, pé ante pé para não despertar a irmã, quando no escuro do ambiente, é tomada de susto com a interpelação intempestiva de Francisca:
-Você abriu o jogo pra Carlão? – ainda atarantada, não refeita da surpresa, procurando o interruptor da luz, Clara responde:
-Não! Mas assumi o meu namoro. Deixei de representar e mentir, quero as coisas às claras doravante. Se você se afastar habilmente da cena, ele jamais irá desconfiar que foi usado e ludibriado nos seus sentimentos.
-Existe um detalhe: ele lhe namora em mim. Ele namora Ana Clara como se fosse Ana Francisca, quando ele conhecer sua verdadeira identidade que você não é a mulher que primeiro o conheceu no reveillon, que é uma impostora, uma santinha do pau oco, o seu castelo de cartas e fantasias, desmoronará num sopro!... – ameaçou-lhe Francisca.
-Não sou isenta de culpa, fui conivente com sua farsa e me arrependo. Estou convencida que irei pagar um preço, prefiro assim do que presa nas teias da mentira, da desonestidade, da falsidade. Se ele ciente de suas armadilhas, dos seus artifícios e do jogo que estabeleceu para brincar de faz-de-conta, lhe preferir, eu me afastarei porque vocês se merecem – concluiu Clara. – Francisca compreendeu que sua irmã tinha sido envolvida nesse caso por sua insistência, inclusive, garantiu-lhe que não sentia nenhum sentimento por Carlão, apenas uma simpatia social e o ardil seria uma forma diferente de rejeitar os seus galanteios e livrar-se dele em pouco tempo. Por isto, propôs-lhe:
-Quero lhe pedir que me deixe explicar tudo que fizemos antes dele vir aqui. Não irei mascarar os fatos. Ele ficará com a opção de decidir se ficará comigo ou com você.
-Com a condição dessa oportunidade não se repetir qualquer que seja o pretexto. Concorda? – condicionou Clara.
-Concordo!...


VI

Estrada da praia dos Coqueiros, motel “Life & Beatfull”, km 20, cidade de Aracaju. Lugar paradisíaco perto do mar. Às 18:40 h, um táxi adentra esse estabelecimento levando um casal jovem no banco traseiro. Os dois iam tão enlaçados, disfarçados, que as câmaras da portaria, identificaram com nitidez, somente, o motorista e seu táxi. O taxista tinha sido instruído para tomar as providências:
-Uma suíte presidencial! – pediu.
-Número 20, à esquerda, vista para o mar! – orientou o recepcionista. – Ainda no interior do automóvel, Carlão adverte o taxista:
-Juca, estaremos lhe esperando às 23 horas!
-Não se preocupe doutor, pontualidade inglesa! – tranqüilizou-lhe o motorista..

Ela nunca tinha freqüentado esse motel, estava atenta para os mínimos detalhes. Já tinha ouvido falar das suas instalações, da sua funcionalidade, da sua beleza, do seu luxo, através de algumas amigas, mas in loco, ficara mais deslumbrada.com o seu conforto. Agora, sabia porque Carlão insistira tanto que fossem pra lá. Ele que a despertou daquele momento de deslumbre:
-Ana, o quê achou?
-Em relação ao motel que fomos à semana passada, este é de padrão internacional!...
-Quer que eu acredite que você nunca esteve aqui com outros homens, se este motel é o principal point do sexo da elite aracajuana?! – perguntou-lhe irritado.
-Não estou lhe reconhecendo... O que você sabe do meu passado? Não sou puta pra ter vários homens! Sou uma moça normal, não sou santa já estive em outros motéis com o meu ex-noivo, você é o meu segundo namorado, trouxe-me aqui para humilhar-me? – pegou a bolsa e ameaçou sair.
-Um momento, você e sua irmã já representaram bastante, pensam que sou idiota? Faz tempo que descobri o jogo sujo de vocês duas, mas não estava nem aí, queria continuar trepando as duas, o resto que se foda!... Vocês pensam que eu engoli a recepção programada dos seus pais, como se nada soubessem? É uma família de pilantras! Não vai sair daqui antes do táxi voltar nem que tenha de lhe dar uns tapas e lhe ensinar não fazer mais ninguém de idiota!... – Carlão estava transtornado. Ela estava surpresa e mais transtornada, tinha marcado o encontro de ambos, justamente, para colocar os pontos nos ii, confessar-lhe um “mea culpa” e dá-lhe a opção de escolha. Embora estivesse apaixonada, como sua irmã, aceitaria o resultado do desfecho qualquer que fosse.
Carlão continuava irônico, debochado e desrespeitoso. Já tinha tomado quase todo o whisky (aos goles) do frigobar. Quase à força a despiu e para ela não apanhar, submeteu-se ao sexo selvagem do parceiro:

-A outra prostituta não lhe contou? Ontem foi o seu dia! E quando você falou que fizemos sexo “semana passada”, descobrir que você não era ela e ela não era você. Embora tenha descoberto a farsa sua e dela faz algum tempo, pelos lapsos dos detalhes que vocês deixavam escapar nas suas conversas, irei reivindicar o Oscar do cinema americano pelo brilhante desempenho artístico de vocês. Quantas vezes fiquei aturdido: quem era quem que estava trepando? – ele estava uma arara!
-Já se vingou (chorosa), deixe-me ir embora!!! – gritou.
-Depois, sua vagabunda!...


VII


No outro dia cedo, os jornais, as televisões, as rádios destacavam a morte inesperada e prematura do atuante advogado, o jovem José Carlos Alves dos Santos, conhecido pelos amigos e inimigos por Carlão. Ressaltavam suas qualidades, seu porte atlético, seu jeito brincalhão e, entrelinhas, levantava suspeição de morte por envenenamento dum composto arsênico ou overdose de cocaína dissolvida na bebida por uma acompanhante prostituta de identidade até então desconhecida pela polícia, que o acompanhava, naquela noite, no motel “Life & Beatfull”.
A página policial do Diário Popular informava que um conhecido taxista (omitia o nome por questão de segurança e para não atrapalhar as investigações), da praça Fausto Cardoso, centro da cidade, tinha ido levar o casal ao motel e estava à disposição da polícia para identificá-la.
Amigos e parentes lamentavam o destino da jovem viúva e dois filhos menores que o advogado deixara. A viúva, filha duma tradicional família sergipana e procuradora do estado de Sergipe, pranteada, sob a dor da perda do jovem esposo, jurava que descobriria o escroque autor do nefasto crime.


VIII
I
Juca foi pontual. Chegou ao motel às 23 h, conforme exigência do seu cliente. Carlão era seu cliente desde solteiro quando ainda não tinha carro. Casado e bem sucedido, deixava seu carro numa garagem coletiva perto do seu escritório e usava o táxi de Juca para suas aventuras extraconjugais. Juca era discreto, confiável, conhecia os hábitos do seu cliente e dentre as exigências de Carlão, a pontualidade, não iniciar papo com sua acompanhante e não telefonar para sua residência, sob nenhum pretexto, eram exigências condicionadas por um contrato de intimidade e confiança. Ele, Carlão, era quem dava as derivadas de local, horário, chegada, saída, dia, etc.
-Suíte nº. 20! – estacionou o carro na garagem e esperou que o casal descesse. Quinze ou 20 minutos depois, cansado de esperar e estranhando a demora, procurou o pessoal da portaria:

-A acompanhante pagou a conta, solicitou um táxi e avisou que seu parceiro iria lhe esperar enquanto se refazia do pileque! – informou-lhe o atendente.
-Olhe rapaz, conheço esse cliente faz tempo e jamais ele bebeu pra ficar grogue e não ter condições de pegar o táxi, salvo se ele pegou no sono. Peço-lhe que mande chamá-lo.
Minutos depois, surge o gerente mais um preposto, apavorados, dizendo-lhe que seria necessário chamar a polícia e uma ambulância, que encontraram-no em estado suspeito, parecia estar morto....
Foi um discreto corre-corre. O gerente cismava não chamar os demais clientes à atenção. A polícia chegou. Todos os procedimentos foram feitos. Gerente, funcionários de plantão e taxista foram intimados registrar ocorrência e os primeiros esclarecimentos.
A família avisada.



IX


Os pais das gêmeas tomaram conhecimento pela imprensa e por Clara. Não lamentaram a morte de Carlão. Não perdoavam o logro e o papelão que tinham sido submetidos pelo namorado da filha. Ela apresentara-se como um homem solteiro, desimpedido. Depois aparece na imprensa, o retrato do calhorda de 38 anos de idade, morto por suspeita de envenenamento, deixando uma jovem esposa e dois filhos menores.
Clara foi chamada para prestar esclarecimento. A polícia tinha recebido um telefonema, apontando-a como uma das mulheres que se relacionava com a vítima. Convidada, não se encaixava na descrição do taxista e na prova de reconhecimento com outras mulheres sequer foi citada. Recebeu as desculpas da polícia e terminou como mais uma das vítimas do falecido rufião.


X

Um mês depois.

Francisca e Clara liam no Diário Popular: “ADVOGADO NÃO FOI ENVENENADO, pág. 10”. O matutino trazia uma longa matéria com a conclusão da polícia, embasada em laudos médicos, informando que o advogado José Carlos Alves dos Santos, tinha sido vítima de infarto fulminante pela ingestão de remédio de estímulo erótico e excesso de bebida. E, atribuía-se à fuga da amante, uma reação de medo para não ser incriminada pela família da vítima.
Completava a nota que sua amante deveria ser uma pessoa esclarecida, de vida mundana experiente, pois tinha eliminado todos os vestígios de sua passagem e que as câmaras do motel, tinham imagens dela de costas e frontais com fartos cabelos sobre o rosto.e usava óculos escuros. E, se a vítima tinha tido uma morte acidental, encerravam-se as investigações e o processo seria remetido ao Ministério Público e à Justiça para fins de direito.

-Clara, perdoe-me por tudo que lhe fiz passar por causa daquele calhorda. Eu estava a fim de abrir mão dele para lhe poupar de algum sofrimento. Porém, o diabo lhe carregou na hora certa!... – penitenciou-se Francisca.
-Não se preocupe Francisca, tudo passa.. Porém, não esqueçamos que a mentira é nociva mesmo na mais ingênua situação, pois uma mentira puxa outra mentira e à medida que mentimos, mais comprometidas ficamos!...
Clara e Francisca se abraçaram e juraram arrependimento.


Autor: Rilvan Batista de Santana
e-mail: rilvan.santana@yahoo.com.br
Itabuna (BA)













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