11.14.2025

Poesias de Carlos Drummond de Andrade

 


Poesias de Carlos de Drummond de Andrade

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho

Carlos Drummond de Andrade 

Convite Triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

(Em: Brejo das Almas)

Carlos Drummond de Andrade

PARTIDO

Agrupamento para defesa abstrata de princípios e elevação positiva de alguns cidadãos.

Carlos Drummond de Andrade 

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Carlos Drummond de Andrade

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade 

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade 

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade 

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade 

Lembrete

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade 

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade 

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Carlos Drummond de Andrade 

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade 

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade 

VERBO SER

Que vai ser quando crescer? vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade 

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade 

Gostando das poesias?

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade 

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade 

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade 

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Carlos Drummond de Andrade 

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 Carlos Drummond de Andrade 

MANEIRA DE AMAR

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava".

 Carlos Drummond de Andrade 

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor.
Acho que a poesia está contida nisso tudo.

 Carlos Drummond de Andrade

Ainda que mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

 Carlos Drummond de Andrade 


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 Carlos Drummond de Andrade 

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

 Carlos Drummond de Andrade 

CONSOLO NA PRAIA

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

 Carlos Drummond de Andrade 

Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

 Carlos Drummond de Andrade 

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

 Carlos Drummond de Andrade

O chão é cama

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre o tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

 Carlos Drummond de Andrade 

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Carlos Drummond de Andrade 

BOCA

Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.

Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

 Carlos Drummond de Andrade 

O professor disserta sobre ponto difícil do programa.

Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.

 Carlos Drummond de Andrade 

O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

 Carlos Drummond de Andrade 

Resíduo

(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

 Carlos Drummond de Andrade 

Os médicos estão fazendo a autópsia
Dos desiludidos que se mataram
Que grande coração eles possuiam
Viscéras imensas, tripas sentimentais
E um estômago cheio de poesia.

 Carlos Drummond de Andrade 

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 Carlos Drummond de Andrade 

Vacina de ano novo

Muitos me desejaram paz e amor em 75. Mas havendo amor, haverá paz? Amor é o contrario radioso dela. É inquietação, agitação, vontade de absorver o objeto amado, temor de perdê-lo, sentimento de não merecê-lo, ânsia de dominá-lo, masoquismo de ser dominado por ele, dor de não o haver conhecido antes, dor de não ocupar seu pensamento 24 horas por dia, e mais dias a pedir ao dia para ocupá-lo, brasa de imaginá-lo menos preso a mim do que eu a ele, desespero de o não guardar no bolso, junto ao coração, ou fisicamente dentro deste, como sangue a circular eternamente e eternamente o mesmo. Amor é isso e mais alguma triste coisa. E a tristeza incurável do tempo não passa fora de nós, passa é dentro e na pele marcada da gente, lembrando que eternidade é ilusão de minutos e o ato de amor deste momento já ficou mergulhado em ter sido. Amor é paz?

 Carlos Drummond de Andrade

A dança e a alma

A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança-não vento nos ramos
seiva, força, perene estar
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser
por sobre o mistério das fábulas

 Carlos Drummond de Andrade 

CONFRONTO

Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixa-me entrar – pediu. Sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar."

Carlos Drummond de Andrade 

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade  

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate

 Carlos Drummond de Andrade 

AMOR


1985 - AMAR SE APRENDE AMANDO

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.

"Amor" - eu disse - e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.

 Carlos Drummond de Andrade

 Beija Flor


O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis.

Carlos Drummond de Andrade 

O Sobrevivente

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

 Carlos Drummond de Andrade 

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

 Carlos Drummond de Andrade 

A Palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

 Carlos Drummond de Andrade 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra ...

 Carlos Drummond de Andrade 

O antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

 Carlos Drummond de Andrade

A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 Carlos Drummond de Andrade

DEZEMBRO

Quem me acode
à cabeça e ao coração
neste fim de ano,
entre alegria e dor?

Que sonho,
que mistério,
que oração?
Amor.

 Carlos Drummond de Andrade

A flor e seu nome

Mas o que impressiona mesmo no amor-perfeito é o nome. Que responsabilidade, meu filho! Há por aí uma planta chamada de amor-de-um-dia, que não carece muito esforço para ser e acontecer, como doidivanas. Outra atende por amor-das-onze-horas e presume-se como sua vida é folgada. Há também amor-de-vaqueiro, amor-de-hortelão, amor-de-moça, amor-de-negro... muitos amores vegetais que desempenham função limitada. Mas este aqui não tem área específica, não se dirige a grupo, ocasião, profissão. É absoluto, resume um ideal que vai além do poder das flores e dos seres humanos.
Que sentirá o amor-perfeito, sabendo-se assim nomeado? Que tristeza lhe transfixará o veludo das pétalas , ao sentir que os homens que tal apelação lhe dera não são absolutamente perfeitos em seus amores? Que aquele substantivo, casado a este adjetivo, sugere mais aspiração infrutífera da alma do que modelo identificável no cotidiano?
A tais perguntas o sóbrio amor-perfeito não responde. O outono tampouco. Talvez seja melhor não haver resposta.

 Carlos Drummond de Andrade

 Remover anúncios

Lutar com palavras
é a tuta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
[...]
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.

 Carlos Drummond de Andrade

Fácil é saber que está rodeado por pessoas queridas.
Difícil é saber que está se sentindo só no meio delas...

 Carlos Drummond de Andrade

Que nunca te arrependas pelo amor dado,
faz parte da vida arriscar-se por um sonho...
Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado.
Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado,
ele se chama TEMPO... seu melhor amigo.
Só ele pode dar todas as certezas do amanhã.
A certeza que... realmente você amou.
A certeza que... realmente você foi amada.

 Carlos Drummond de Andrade

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

 Carlos Drummond de Andrade 

Soneto da perdida esperança

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

 Carlos Drummond de Andrade


O que muda na mudança,
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança,
junto ao que nunca se alcança?

 Carlos Drummond de Andrade

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

 Carlos Drummond de Andrade 

O problema não é inventar.
É ser inventado hora após hora
E nunca ficar pronta
Nossa edição convincente.

 Carlos Drummond de Andrade

 

Fonte: Google / Pensador

Eutanásia - R. Santana

 


                                                      Eutanásia
                                                        R. Santana

                                                                 I

     Tomamos um susto naquela tarde de fevereiro de 2006, ao entrarmos no quarto 106 do hospital Dr. Caio Martins. Eu e Maria estávamos procurando um colega de longas eras, que tinha tido um acidente vascular encefálico (AVE), vulgarmente, derrame cerebral. Lembro-me que na soleira da porta comentei:
     -Maria, o professor Carlos não está neste quarto! – ela, mais ativa e desprendida, entrou no quarto, olhou para os internos e disse:
     -Acho que o moço da recepção nos deu o número errado! – conjeturei:
     -Ele pode ter tido alta médica... – uma enfermeira passava no momento:
     -Moça, por favor, o professor Carlos Botelho já saiu do hospital?
    -Não, ele está no 106 (apontou), na primeira cama, logo na entrada! – Maria, ainda sem entender, perguntou-lhe:
    -Mas... aquele velho é o professor Carlos Botelho?
     -Sim.
    Ficamos atônitos, voltamos ao quarto 106 e verificamos amiúde que um dos pacientes do 106 era realmente Carlos Botelho. Ele era um homem que antes da doença, aparentava menos de cinquenta anos, mas naquele estado, tinha envelhecido uns vinte anos. Os cabelos e a barba encanecidos, as pálpebras caídas, as bochechas e o queixo fino, tipo Noel Rosa, três dedos amputados por causa de uma trombose a posteriori ao acidente vascular cerebral, magérrimo, com a perda de movimento de um dos braços e perda total da fala, usando fraldas, enfim, um homem transformado e modificado em pouco tempo, pela doença e pelo sofrimento.
                                                                 II
     -Alô, alô... gostaria de falar com quem? – do outro lado da linha, uma voz de mulher, não familiar:
     -Quero falar com o professor Ricardo, ele está? – ainda não a tinha reconhecido:
     -Sou eu, quem gostaria de falar? – estava nervosa:
     -É Cal, Ricardo! Não reconheceu a minha voz?... – desculpei-me:
    -Você está com a voz de menina, como poderia adivinhar? Depois que você mudou para apartamento novo ficou toda metida (risos), nunca mais deu o ar da graça!...

    -Não é nada disso. Tenho que acompanhar o estudo dos filhos, trabalho um turno fora, cuido dos trabalhos de casa e Carlos dá aula nos três turnos em dois colégios, é uma luta!...
    -Desembuche Cal, qual a razão do seu nervosismo? – tergiversou, disse coisa com coisa, depois foi ao assunto que a estava incomodando:
     -Vocês saíram muito tarde, ontem à noite, do bar Carne na Brasa?
     -Vocês quem?
     -Você, Carlos, Antônio, Edu... – fui inepto:
   -Cal, ontem não fui a nenhum bar e seu marido, têm umas duas semanas que não o encontro! Ouvir um palavrão do outro lado da linha:
    -Filho da puta, ele chegou ontem pela manhã, bêbedo e disse-me que estava com você e os demais!... - não podia mais consertar, estava na casa do sem jeito. A emenda poderia ser pior do que o soneto. Ela confiava em mim, não poderia confirmar a mentira de Carlos, mesmo ele sendo um dos meus melhores colegas, apenas, remediei doutra forma:
     -Cal, deixa Carlos arejar a cabeça, afinal, ele trabalha de segunda a sábado, senão, ele pode ter um esgotamento nervoso.
    -Eu entendo Ricardo, porém, ele não anda bem de saúde, fuma mais do que come e não procura se cuidar. Já marquei médico e exames, ele faz por fazer, mas não segue nenhuma prescrição médica, continua fumando e bebendo.
    -Peço-lhe que não faça nenhuma admoestação. Com habilidade e carinho, insista para que ele se cuide, afinal não é criança. Porém, tem gente que não gosta de pressão. Use seu jeitinho feminino...
     -Obrigado Ricardo, estava para estourar. Acho que seu conselho pode dar resultado, tchau!...
                                                                 III

     Mais uma visita que me deixava arrasado psicologicamente. Cada dia, agravava o quadro de saúde de Carlos. Seu pé esquerdo estava roxo e infeccioso pelas complicações da trombose e os médicos já tinham esgotados todos os recursos do tratamento e o único recurso seria amputá-lo para não afetar a perna.
     Era um quadro deprimente. Mais depressivo e impotente, ficavam seus amigos e familiares. Carlos pouco e pouco ia se tornando um espantalho de gente.
    Embora o derrame cerebral tivesse atingido a região da fala (ele não falava, com muito esforço grasnia alguns sons de corvo), ele chorava seu pranto, principalmente, para reclamar a presença da mulher, ou quando chegava um colega querido, que ele o reconhecia mas não podia falar, externar seus sentimentos de alegria e papear.
                                                                 IV
     Quinta-feira, janeiro de 2002, à tarde, Dr. Eugênio Santillo fazia no auditório do Edifício Pedro Américo, uma palestra para os trabalhadores da saúde e da educação da região Sul da Bahia, em Ilhéus, sobre os controversos temas da Bioética e do Biodireito: a eutanásia e suas formas, a distanásia e o suicídio assistido.
     Mais de uma hora de palestra, explicando esses assuntos, sob a ótica jurídica e ética. Dr. Santillo encerra seu discurso, externando sua opinião pessoal: “...que o homem não tem direito sobre a vida de terceiros, mas se lhe é dado o livre arbítrio de viver, que lhe dê o livre arbítrio de morrer. Se alguém toma a priori essa decisão, que se acometido de uma doença incurável e sofrida ou mesmo durante o processo de uma enfermidade crônica, os profissionais da saúde e a família têm que eticamente cumprir o último desejo daquele que sofre e quer ter uma morte breve e digna”.
     Eu e Carlos tínhamos sido designados pela nossa escola como agentes multiplicadores do evento. Nós teríamos que repassar para os demais colegas, todas as informações e os conhecimentos vistos naquele seminário de “Educação e Saúde I”, ministrados naquela semana de janeiro, por vários especialistas, conforme o assunto. Lembro-me que Carlos ficou impressionado com a palestra de Dr. Eugênio Santillo, não sei se por premonição, presságio, ou pela qualidade intelectual e oratória do palestrante.
     -Bicho, tenho o mesmo pensamento desse médico. Se eu tiver uma doença incurável, quero abreviar a minha morte.
     -Carlos, é uma decisão difícil para família, notadamente, para os filhos e os pais.
     -Bicho, eu não tenho mais pai e nem mãe. Já avisei a Cal, Gustavo e Priscila que não me deixem sofrer. Se eu estiver lúcido, tomarei a iniciativa.
     -Hum!... Você está com astral de moribundo. Vamos deixar essa conversa de eutanásia e morte para quando chegar o dia. Pensamento positivo, ave agoureira!...
    -Ave agoureira é a puta que te pariu. O meu pai morreu entrevado numa cama em meus braços, sofri com ele. A morte assistida pode ser um conflito de consciência para os parentes próximos e os agentes de saúde, todavia, é a única forma digna de morrer quando o mal é de morte!...
    -Você se esqueceu que tem pouco tempo que enterrei uma filha? – ele se arrependeu da verborragia intempestiva – Oh Ricardo, desculpe-me, é que ainda me lembro do sofrimento do meu velho. Mas sua labuta com Paola, deve ter sido mais sofrida. Enterrar filho é mais dolorido porque está na contramão da natureza.
                                                            V
     - Cal, sei que o momento é impróprio, mas gostaria de lhe falar em particular!... – falei-lhe num momento de dor.
     -Fique à vontade Ricardo, você é nosso amigo, Carlos muito lhe estima.
    -Lembra-se que há uns quatro anos, eu e Carlos participamos de um seminário em Ilhéus?
     -Claro, na época eu fique fula da vida por não ter ido com vocês.
     -É... que... naquele seminário, Carlos estava com umas conversas esquisitas...
     -Já sei, você quer falar de eutanásia?
     -Sim. Carlos também lhe falou?
    -Falou e olhe no que deu!
  -Por favor, esqueça a nossa conversa. Acho que fui inconveniente tocar nesse assunto neste momento. Ele está sofrendo tanto e, ele me disse naquela época que não queria...
   -Por que razão devo esquecer? Comungo com suas preocupações. Carlos também deixou claro para mim e os filhos como gostaria de morrer. Parece-me agora, que estava vaticinando seu fim. Mas, pensa você que irei obedecer-lhe? Não! Não irei obedecer-lhe por motivos de foro pessoal, porque temos uma história juntos, por convicção religiosa, além disso não existe respaldo jurídico e por achar que cada um aqui tem uma missão. Se temos que sofrer, que saibamos sofrer com dignidade. O nosso corpo é uma caixinha de segredo. Quantas vezes a ciência médica já falhou? Enésimas vezes, então, meu caro Ricardo, sempre haverá um luzinha no fim do túnel e a estamos enxergando, mas lhe agradeço pelas preocupações, entendo como um desencargo de sua consciência. Obrigada!...
     -Cal, fico feliz por você pensar assim. Nunca fui a favor da eutanásia, temos que esgotar a última gota de esperança. As pessoas que falam em eutanásia, pena de morte, aborto, suicídio assistido e outros métodos de por fim â vida, não têm Deus no coração ou nunca sofreram na pela ou têm uma mente criminosa. Acho que se Carlos, hoje ficasse bem de saúde, não mais pensaria nessas teorias malucas. É aquela história: “pimenta no olho do outro não arde.” – Cal entendeu as minhas preocupações e fiquei exultante de alegria porque, ela e os filhos tinham ideias e convicções religiosas diferentes das dele.
                                                            VI
     Maria insistiu para que fossemos visitar naquela tarde, último sábado de março de 2006, o professor Carlos. Não lhe falei da conversa que tinha tido com Cal, estava com um pontinha de vergonha por ter-lhe tocado naquele assunto, porém, ela tinha me assegurado que entendia como um desencargo de consciência. Por isto, eu e Maria fomos ao hospital.
     -Maria o professor Carlos foi transferido para o quarto 112, mas não se encontra lá, um paciente informou-me que ele acaba de entrar em coma e subiu (a CTI ficava no andar superior) para CTI. – Maria ficou arrasada. Nós já tínhamos sabido que além dos três dedos que tinham sido amputados, os médicos tiveram que amputar boa parte do pé que necrosou. Com sua ida para o Centro de Tratamento Intensivo-CTI, as coisas iam ficar mais difíceis.
     -Ricardo, Cal está aí. Ela me disse que o problema da trombose agravou-se e depois da amputação da parte do pé, ele teve febre e foi levado às pressas para CTI com suspeita doutro derrame cerebral.
     -Maria, acho que o nosso amigo Carlos vai pra cidade de pé junto, a coisa está feia...
     -Deus é o dono da vida. Ele tem que se apegar ao Salmo 23 que diz:
    “...Embora eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois junto a mim estás: teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo...”
     -A vida Maria, às vezes, não vale a pena ser vivida. Quando já não temos controle sobre as nossas ações, os nossos desejos e temos que recorrer às pessoas até para realizar os nossos desejos primários, é melhor que partamos...

                                                                 VII
Um ano depois:
     Tem gente que não acredita em milagre. Prefiro acreditar que existe. Como explicar a saída de uma pessoa que vagou na sombra da morte por vários meses e um ano depois, está praticamente saudável e quase sem nenhuma sequela? Não tem explicação. É a mão do Criador manifesta. É a prova inconteste que a ciência e os cientistas têm suas limitações.
    Carlos, hoje, tem uma vida quase normal, afora alguma dificuldade na fala e nos reflexos motores, ele está lúcido, lendo mais do que escrevendo e passeando de quando em vez com a família.
     Embora nunca tivesse partilhado com as ideias de Carlos sobre a eutanásia e em especial com o discurso de Dr. Santillo que é uma autoridade médica com vários trabalhos científicos publicados. A eutanásia, o suicídio assistido e outras formas de ajudar morrer, é para quem perdeu a fé em Deus, a autoestima e a vontade de viver. E, principalmente, para àquelas pessoas de fácil verborreia e que nunca em seus braços um ente querido seu esvaiu-se para eternidade.
     Quando me lembro da conversa que tive com Cal, coro de vergonha, só não me enrubesço mais pelo fato dela ter me tranquilizado que todos em sua casa conheciam o desejo de Carlos.
     Hoje, tenho medo e pena daquelas pessoas que com aura sapiente se arvora como dona da verdade, simplificando esses assuntos para sociedade.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons                                                      
Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Imagem: Google

Atir, a cronista - R. Santana

 

Atir, a cronista
R. Santana

     Conhecemo-nos virtualmente e virtualmente nos separamos. Ela chamava-me de “homem pensante”. Bondosamente, distinguiu-me desde o início como um homem intelectual e inteligente, mais cabeça do que emoção. Não me lembro se distinguir-lhe com algum epíteto, mas se não o fiz, o faço agora: “mulher emoção”.
     Entretanto, faz-se justiça esclarecer para os leitores de raciocínio rápido, que não tirem conclusões antecipadas. Não pensem que os sentimentos e as emoções fáceis embotam o raciocínio, ambos podem conviver coesos numa mesma pessoa e Atir goza desse privilégio. Ela é sensível, carente, sonhadora, emoção quando a ocasião é cor de rosa. Camaleônica quando lhe é adverso o terreno, deixa de ser emoção e assume a mulher pensante, articulada e inteligente.
     O nosso país é um celeiro de mulheres inteligentes em todas as áreas intelectuais, com nomes expressivos nas ciências exatas, nas ciências humanas, na música, na pintura, notadamente, na literatura, como Valdelice Pinheiro, Helena Borborema, Jasmínea Benício, Adelaide Guimarães, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Joyce Cavalcante, Cora Coralina, Adélia Prado e tantas outras sumidades das letras que ainda não tiveram o reconhecimento popular e o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, porém, a genialidade, o talento e o dom dessas divas com a articulação da palavra e a construção do pensamento criativo são inegáveis.
     A amizade e o carinho que tenho por Atir não me conduzem ao delírio, à megalomania, aos adjetivos extravagantes, às palavras irresponsáveis, às comparações fantasiosas com as nossas principais escritoras, todavia, não é exagero dizer que Atir, a cronista, possui uma facilidade, um jeito novo de escrever e brincar com as palavras, os seus textos são claros, inteligentes e bem humorados.
     Quando eu a conheci, ousei-me sugerir-lhe que diminuísse nas suas crônicas o excesso de citações e referências acadêmicas e desse mais curso ao seu pensamento e a sua criatividade. Hoje, os seus textos semanais, publicados no jornal A, são mais personalizados, ela imprimiu o seu estilo inconfundível, eles trazem sua marca.
     Amante das letras, apaixonado por todos os gêneros literários, fraco escrevinhador, invejo a facilidade que ela tem de colocar as palavras no papel. Não é uma inveja mesquinha, pecaminosa, egoísta, é mais uma mistura de impotência e admiração, se possuísse o seu talento, decerto, não me estrebucharia, agora, para escrever suas potencialidades de escritora, dizer-lhe que desejo muito sucesso e continue escrevendo e divulgando no dia a dia, amizade, paz e amor entre os homens.
 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

História & estórias - R. Santana

 

História & estórias
       R. Santana

                                             I
                                       José do Ó

     A região Sul da Bahia tornou-se notória pela riqueza do cacau, pelo folclore de sua gente, pelo seu povo cordato, pela sua música e dança e pelo seu povo festivo e trabalhador. É uma injustiça atribuir ao baiano à pecha histórica de folgado, preguiçoso e ocioso porque é um povo laborioso e empreendedor sem prejuízo de curtir a vida.
     Jorge Amado, decerto, foi um dos primeiros e o principal escritor em traduzir nas páginas dos seus romances, as lutas, a derrubada das matas, os plantios de cacau, os caxixes, os jagunços, as tocaias e a índole dessa gente. Em seus textos, há um acervo de pequenas histórias, mil curiosidades, causos e mais causos, enfim, Amado soube, com genialidade, colocar no papel a sabedoria do seu povo.
     Sem a mesma genialidade do autor de Tocaia Grande, quero registrar neste papel, algumas histórias populares, estórias do povo...
     Se a sovinice tem pai, ele é o pai. Egresso de terras sergipanas, ele migrou para o Sul da Bahia ainda rapazola. Foi empregado no comércio por pouco tempo, por pouco tempo, deixou de ser boi pra ser ferrão.
     Inteligente, trabalhador, mão-de-figa, diligente e ladino comercialmente, José Oduque, conhecido por Zé do Ó, fez fortuna pouco tempo depois, nas terras do cacau.
     Feito o pé-de-meia, maduro, José do Ó voltou aos bancos escolares, beneficiado pelos programas do MOBRAL, 99 e 101, em exíguo tempo, concluiu o curso de bacharel em direito pela UESC, entrou na política e tornou-se prefeito de Itabuna.
     Um homem que deverá ser lembrado no futuro pela sua austeridade com a coisa pública.    Prefeito nos idos dos anos 70, uma de suas primeiras providências, depois de eleito, foi proibir suas empresas, de peças automotivas, revenda de autos, posto de combustível e materiais de construção, não participarem de nenhum processo de licitação da prefeitura de Itabuna na venda de bens ou serviço.
     Empresário bem sucedido, não decepcionou os seus munícipes na condução dos negócios públicos. Além de sua postura ética, deixou sua marca empreendedora com ações administrativas ainda hoje lembradas.
     O senão que se faz de Zé do Ó, a única nódoa pessoal, é sua natureza parcimoniosa, beirando à miserabilidade e à mesquinhez, contam-se várias histórias escabrosas de sua avareza, dizem as más línguas que jamais será solidário com o próximo se tiver de meter a mão no bolso, que ele não dá adeus para não abrir à mão, que se cotizou com os irmãos pobres, as despesas dos funerais dos pais, que jamais alguém lhe viu estender a mão para alguém caído, que desconfia até de sua sombra...
     Mas faz-se jus registrar que ele enriqueceu honestamente, que sua fortuna não tem mancha de sangue, que sua fortuna está estribada no trabalho e na austeridade pessoal e no seu faro para os bons negócios.
     O bem e o mal são faces de uma mesma moeda. Não existe natureza humana absoluta boa ou má, quantas vezes, o mais vil e desalmado criminoso, esboça os mais elevados sentimentos de humanidade e solidariedade? Por isto, ninguém seja visto pelo que tem de mau, mas pelo que tem de bom.

                                                 II
                                          João Bode

     Ele não falava, bodejava... Negro forte, atarracado, queixo saliente, ioruba, parecia um orangotango despelado fugido da selva ou o Homem de Neanderthal. Não havia certeza que se chamasse “João”, o epíteto “Bode” lhe foi acrescentado por causa da sua aparência e pelos grunhidos que soltava na fala.
     Agregado da família Sena e Almeida por herança, ao longo dos anos adquiriu um verniz social: vivia arrumado, bem nutrido, escovado e calçado – refugo dos senhorzinhos. O QI de João Bode perdia para um menino de 10 anos de idade, analfabeto de pai e mãe e madrinha da apresentar, porém, era um negro de temperamento não agressivo, bem-comportado e cordato. Era incapaz de qualquer maldade.
     Nos idos dos anos sessenta, a política itabunense estava tão avacalhada e desmoralizada quanto à política do nosso tempo, com os escândalos de Sarney, de Renan, de Delúbio, de Dirceu, de Maluf, de Jéferson, dólar na cueca, anãos do orçamento e tantos outros maus exemplos da política nacional que alguns insurretos, descontentes com a política local, rapazes gozadores, bem-humorados e criativos, indicaram João Bode, candidato a vereador, claro, que tudo de mentirinha.
     Dentro de pouco tempo, João Bode tornou-se o símbolo do descontentamento, da ojeriza, da aversão do povo com a política da terra e, ele caiu de imediato no gosto popular do humor.
     Os “coordenadores” de campanha de João Bode alugaram um teco-teco, sobrevoaram a cidade, despejaram milhares de folhetos com a “plataforma” do candidato, espalharam “santinhos” em todo município, outdoor, dum dia pra noite, João Bode virou estrela, mais conhecido do que farinha na feira.
     Os comícios eram uma festa. Um sanfoneiro abria o forrobodó, os “partidários” (jovens estudantes e intelectuais anarquistas) discursavam ressaltando as qualidades do proeminente candidato (João Bode de terno e gravata em cima do palanque, ao lado dos oradores), arrancando aplausos da multidão (mais de dez mil pessoas), porém, a coqueluche se dava, quando o locutor, num estardalhaço, com mil e uma peripécias, num grande teatro, anunciava que Sua Excelência João Bode ia falar, aí, os estrépitos de vozes, palmas e apupos ensurdeciam...
     João Bode com o microfone na mão, atrás dele alguém que lhe soprava o discurso com as mais desvairadas propostas e João não se fazia de rogado, incontinenti, bodejava o seu programa administrativo:
     -Vou alimentar jegue com pão-de-ló...
     -Vou botar os políticos na cadeia...
     -Vou asfaltar o rio Cachoeira...
     -Vou fazer um rio de leite com as ribanceiras de cuscuz...
     -Vou trazer a praia de Ilhéus pra Itabuna...
     O povo ia ao histerismo... A garotada se urinava de tanto rir, os velhos davam crise de tosse de tanta alegria, as mocinhas gozavam de satisfação, para os verdadeiros candidatos, um acinte, uma anarquia, uma esculhambação...
                                          III
                                 
                                  Zé de Juvita

     Não o conheci pessoalmente, quem o conheceu, tinha-o como boa gente, não obstante suas esquisitices, porém, foram essas esquisitices que lhe fizeram lembrado até hoje.
     Juvita, grande fazendeiro do cacau, não usava calçado. Com os pés descalços, bocapiu na mão, ele ia aos bancos e às principais casas comerciais de Itabuna. As gafes e os constrangimentos se sucediam porque quem não o conhecia, tomava-o por um pobre diabo:
     -Senhor, passe aqui outro dia, não temos trocado... – tomava-o por mendigo.
     Juvita não era sovina, mas um simplório, um tabaréu que se recusava absorver os fumos dos novos tempos. Paletó, gravata, camisa social e sapato eram coisas de almofadinha e doutor, não dele, que vivia embrenhado na mata, esses apetrechos e esses vestuários lhe causavam urticária e mal-estar. O seu gosto era uma calça de cáqui ou de brim, uma camisa de algodão e quando em vez, em tempo de festa numa de suas fazendas, calçar uma alpercata de cangaceiro de tiras de couro cru.
     Não poderia ser tomado por um abestalhado, um alienado, Juvita era em sua época, um dos mais abastados fazendeiros, uma fortuna sólida, construída no cabo de facão, na enxada e em seu inato tino administrativo.
     Há muitas estórias do seu desprendimento, mas uma estória, o frete da mala, faz-se jus registrar para o alcance do leitor, do seu altruísmo.
     Conta-se que em tempos idos, quando ainda não existiam as modernas sacolas de viagem, a mala era uma saco e o cadeado era o nó ou a mala era de madeira revestida de couro cru desenhado, um cabra encontrou um caminhante dentro das roças de cacau e lhe queixou do peso da mala e se eles estavam longe da fazenda de Zé de Juvita, o caminhante informou ao desconhecido que a fazenda distava uns dois quilômetros e foi surpreendido com a pergunta:
     -Quanto vosmecê quer pra levar a mala? - acordaram o preço.
     O camarada quase teve um troço quando chegou à fazenda e descobriu que o seu parceiro de viagem, o homem que lhe carregou a mala, não era outro, senão, o fazendeiro Zé de Juvita!...
                                      IV
                            Oscar Marinho
     Em 1972 (leitor, não me pergunte o dia e o mês) a rádio Globo deu em manchete nacional, que o maior produtor individual de cacau do mundo tinha falecido em Itabuna, Sul da Bahia e o jornal Globo trazia em suas páginas, uma breve biografia de Oscar Marinho Falcão.
     Já se sabia naquela época, que Oscar Marinho era o homem mais rico da região e quiçá da Bahia, mas se desconhecia o tamanho de sua fortuna, que ele colhia mais de 120 mil arroubas de cacau, quando a maioria dos fazendeiros não passava de 2000 arroubas que lhes davam uma vida nababesca.
     Oscar Marinho, na juventude, trabalhou com o seu pai Máximo Marinho Falcão como ajudante de alfaiate, moço, jogou futebol com talento nos remotos anos de 1911, mas enriqueceu no comércio e na lavoura.
     Ele não usava jagunços, não usava o bacamarte para tomar terras do vizinho, era um homem de paz, bonachão, amante da sabedoria do povo, mesmo quando foi vítima de uma tentativa de homicídio pelo seu genro Washington Quintela, (para cedo herdar, dizem as más línguas), deixou que o tempo se incumbisse da vingança e como era um homem de sorte, Quintela foi tragado pelo mar pouco tempo depois, pilotando o seu avião.
     A leitura que se faz desse desbravador do cacau, desse homem de origem pobre que fez fortuna, é que era um homem ladino, esperto comercialmente, um judeu tupiniquim do século passado, se algum vizinho de roça lhe tomava dinheiro, ele de bom grado emprestava com juro escorchante e, se o inepto do agricultor não pudesse lhe pagar, entregava-lhe também de bom grado, o seu pedaço de terra para honrar o empréstimo.
     Uns burburinhos de sua época dão conta que quando alguém ia lhe quitar uma nota promissória, ele a embolava, jogava-a no lixo às vistas do ingênuo devedor e assim que lhe dava as costas, Oscar corria à lixeira e restaurava a nota promissória com ferro de roupa, tempo depois, o titular do débito era cobrado por inadimplência...
     Folgazão, envolvente, bom papo, maquiavélico comercialmente, não dava ponto sem nó. Com exceção do genro, nunca peitou e nunca foi peitado por ninguém, sua capacidade de convencimento era sua maior arma, era capaz de tomar o último níquel de um pobre coitado e deixá-lo com sentimento de gratidão.
     Não queimava dinheiro, não era perdulário, não se tem notícia de casa montada para amante ou envolvimento com filha ou mulher dos seus agregados (procedimento comum dos coronéis do cacau), ele era respeitoso, mulher só a mulher do casamento. Porém, não era sovina nem miserável, era farto na mesa e no vestir. Gostava de roupa branca. Usava, dia de semana ou feriado, ternos bem talhados de linho ou casimira, meia branca, camisa branca e sandália de tiras, fechada no calcanhar.
     Espirituoso, certa feita indicou um protegido para trabalhar no extinto Banco Econômico, não se sabe o motivo, o gerente não lhe deu um “não”, também não lhe deu um “sim”, ficou enrolando o seu afilhado, que na casa do sem jeito, queixou-se ao seu protetor. Oscar pegou o afilhado pelo braço e foi ao banco tirar todo o seu dinheiro, foi um vexame...
Não havia na agência tanto dinheiro disponível para o resgate, a soma era astronômica, foi necessário o gerente socorrer-se ao Banco do Brasil. Dinheiro contado e recontado, pacotes de cédulas circundados na borracha, sacos de dinheiro empilhados, juros acrescidos, carro-forte esperando, revólveres e rifles de prontidão, gerente abestalhado, parvo, não se aguentando em pé de nervoso, preocupado com a perda do cliente, do coronel do cacau, seu emprego ameaçado, quando do nada Oscar Marinho resolve voltar atrás, estava satisfeito com o “zelo dos seus tostõezinhos”, mas antes de sair, lembrou ao gerente:
     -Filho – apontou o protegido -, tu estás em falta com este rapaz! – como de bobo o gerente só tinha a cara e o jeito de andar...
     Ele tinha suas tiradas filosóficas:
    -Cavalo de corrida morre na pista...
    -Quem nasceu pra tatu, morre cavando...
    -Quem Deus prometeu vintém, não dá dez reis...
    -Se o meu amigo tem carro pra que comprá-lo?...
     -Quem tem pai rico não se sujeita ao dinheiro...
     Morre o homem, fica a fama, Oscar Marinho ainda hoje é lembrado pelo seu jeito de ser, pela natureza cordata, por ter sido até hoje o maior produtor individual de cacau de todos os tempos, pelos seus empreendimentos, pelo colégio estadual CIOMF que contribuiu para sua construção, doando ao governo mais de um hectare de terreno, pela rua que empresta o seu nome, mas acima de tudo, pelos benefícios que espalhou e pelo exemplo que fica.

                                     ***
Algumas Linhas:
Tocaia Grande, de Jorge Amado, é o retrato da Terra do Cacau, sem lei e de muitos donos, construída com suor, sangue e choro, esquecida ao longo do tempo, hoje, as novas gerações não têm orgulho desse passado, celebram somente, aos pioneiros que a desenvolveram com trabalho, paz e amor.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google













.






CHATO DE GALOCHA - R. SANTANA

CHATO DE GALOCHA
R. SANTANA

    Eufrásio era um velho conhecido dos tempos da adolescência. Quando o conheci, ele tinha sido transferido da Cidade de Deus em Osasco, onde trabalhava numa conhecida rede bancária, como operador de rádio Morse, para Itabuna. Naquela época, bancário era o emprego mais cobiçado e desejado pelos jovens que pleiteavam entrar num incipiente e restrito mercado de trabalho. O jovem bancário era disputadíssimo pelas moças solteiras que sonhavam matrimônio. E status maior era ser um funcionário bancário, ainda mais, ser um qualificado operador de rádio Morse de um grande banco. Ele que tinha recém saído da Aeronáutica, chegando ao posto de 3º. Sargento paraquedista, não demorou contrair núpcias com uma bonita baiana nessas terras do sem fim de Jorge Amado.

    Era um jovem simpático, de estatura mediana, atarracado, de compleição robusta que quando sóbrio era um boa praça, amigo e prestativo, porém quando bebia, dava porre em “Sonrisal” e embebedava “Alka-seltzer“, Deus perdoe-me sua ausência: era um chato etílico!...

    Quando estava bêbado, só falava com a gente cochichando, gesticulando e babando. Embebedava-se facilmente. Não bebia para embebedar, mas embebedava porque bebia. Eu era caixeiro de bar, tinha que suportar noite adentro sua chatice para ele engolir dois ou três conhaques ou duas ou três cervejas. Além da chatice alcoólica de Eufrásio de querer falar as coisas banais em segredo, nos agarrando, cuspindo e gesticulando, ele demorava um intervalo enorme de um trago pra outro, que demandava tempo e paciência para aturá-lo

    Certo dia, chateado de lhe pajear profissionalmente, em decorrência da minha função de caixeiro e levado pela minha imaturidade juvenil, às tantas da noite, com rala clientela, eu e um colega de trabalho, combinamos dar-lhe (às essas alturas, ele tinha perdido toda sobriedade e discernimento que lhe restavam), álcool puro, acredito, beirando aos 46º. INPM. Foi tiro e queda! Ele engasgou, engulhou, ficou ansioso, quase perdeu os sentidos e numa reação inesperada, mudo, tomou o caminho de sua casa que ficava na circunvizinhança e desapareceu...

    - E aí, Geraldo, matamos o homem! - Geraldo, colega de trabalho, mais velho e mais irresponsável, pouco se liga – eu quero que esse filho da puta chato se fo... fo... , vazo ruim não quebra! – Dois dias depois desse surto de catarse que provocamos, ele reapareceu são e forte sem falar e nem reclamar do ocorrido.

    O chato não tem educação, é rasteiro, não tem senso de oportunidade, fala quando deveria ouvir é como aquele inseto que coça irritantemente a região pubiana de uma pessoa e ela não consegue desvencilhar-se facilmente.

    Não pense o leitor que o chato se caracteriza somente pela falta de educação. Tem o chato acadêmico, o chato religioso, o chato adulador, o chato puxa-saco. Qual a dona de casa que já não deixou seus afazeres domésticos para ouvir uma chata ou um chato religioso? A doutrina religiosa não é chata, mas alguém lhe tomar tempo para encher sua cabeça de um fundamentalismo religioso estéril, cantilena decorada de capítulos e versículos da Bíblia, é um desserviço a Deus.

    Quem ainda não teve um colega sabichão? O tipinho que tudo sabe e quer demonstrar para o mundo que sabe tudo? Às vezes, esse chato termina irritando e desestabilizando o professor e os colegas com seu cricri. Mesmo que ele não possua senso de oportunidade, a melhor reação para contê-lo, é ignorá-lo e deixar-lhe à vontade nas suas críticas.

    Porém, o pior chato e o mais incômodo é o adulador, o puxa-saco. Este é o chato que advinha a vontade dos patrões numa servidão voluntária que irrita e dar náusea aos demais circunstantes. Há uma passagem folclórica de um indivíduo fumante que chamado pelo patrão para confirmar se ele fumava, respondeu: “eu fumo, mas se o senhor quiser, eu deixo.” É o serviçal assumido. Embora pareça que o chato é um beócio, um curto de inteligência, ledo engano, é um ser perigoso, perspicaz, falso, que lhe deixa ver navio, assim que não represente seus escusos interesses.

    Conheci um professor de escola pública que se prestava lavar e escovar o carro dos novos diretores de sua escola, antecipar-lhe seus desejos e auxiliá-lo nos serviços domésticos de finais de semana, numa servidão espontânea, irritante e calculada. Angariava-lhes dessa forma. confiança e prestígio fácil. Era um negro de fala mansa, falava cochichando, mais para ele ouvir do que para o seu interlocutor ao lado, com jeito de afeminado, que com sua chata adulação e drible de corpo, construiu uma carreira de mando por indicação, nas escolas que trabalhou, pouco se dando às atividades docentes. Um colega comum, de saudosa memória dizia: - É um sujeito mais escorregadio que uma enguia. Mais falso do que uma nota de três reais. Se ele souber que tem uma cobra no seu caminho, ele a deixa picar-lhe para ter oportunidade de suturar suas feridas com a moeda da bajulação! – Era verdade, ele era incapaz de avisar alguma prevenção administrativa individual. Se um aluno fazia denúncia infundada de um colega, ele deixava os fatos correrem soltos em detrimento funcional do colega, resumindo: era um chato adulador do chefe e inato egoísta.

    A chatice não é uma doença, é um estilo de vida de algumas pessoas, talvez, um mecanismo de defesa que muitos usam para sobreviver às agruras e dificuldades do dia a dia. Encontram na tagarelice e em atitudes inconvenientes sua autoafirmação.

    O escritor Guilherme Figueiredo escreveu um Tratado geral dos chatos. Ele fez um texto bem humorado, divertido, todavia, não incluiu na sua classificação um novo chato: o internauta mensageiro. É o chato que lhe enche de mensagens diuturnas não solicitadas. É um chato diferente, não há contato físico, mas um contato intelectual que graças aos recursos da tecnologia pode-se deletar.

    - Fui!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative: Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: Google


Att.: Leitor amigo, conhece algum chato? 


Visite o "Ponto de Leitura":


  

A volta - R. Santana


                                                                           A volta
                                                                                R. Santana

             Não existe nada mais gostoso do que a volta ao lugar que nascemos, crescemos e demos os primeiros passos. Parece que o umbigo fica ligado à terra por uma placenta perene e invisível. O cheiro da terra aonde engatinhamos e pisamos pela primeira vez, fica armazenado em nossa memória e ao primeiro estalido, ao primeiro contato, todas lembranças voltam à tona. É de somenos importância que se tenha ficado distante dela décadas, o que tem significado é a celebração da volta.
          Pode ser a terra mais inóspita, mais seca, mais miserável, que nela só produza cactos, macambiras, gramíneas nocivas, carrapicheiros, pega-pega, sensitivas e outras espécimes de terra pobre e desnutrida, mesmo assim, é o nosso paraíso, é o nosso orgulho, é o nosso chão e coitado daquele que dela falar. Não importa que o lugar seja Paris, Londres, São Paulo ou o mais pobre rincão do interior do Brasil, a emoção da volta é a mesma.
          Não importa a pobreza da maioria dos nossos conterrâneos ou a riqueza de poucos, tudo é motivo de alegria e de festa em cada reencontro. O reencontro, também serve para se fazer um ror dos que já se foram para sempre, dos felizardos, dos alquebrados, dos infelizes e daqueles que partiram para outras plagas e não deixaram parentes, aderentes, amigos, não deixaram rastros...
          Depois de muito tempo fora da nossa terra natal, quando se chega, tudo é diferente: as ruas, as casas, o movimento da cidade, as pessoas, é tudo diferente. Se a deixamos menino, quando se retorna, tudo que era grande aos nossos olhos outrora, parece-nos encolhido. É assim com a matriz, com o jardim, com a escola, com a feira e com os parentes mais velhos. Os nossos avós,os nossos tios, os nossos cunhados, as nossas cunhadas, os nossos padrinhos, os nossos irmãos mais velhos, os nossos conhecidos, suas aparências atuais, às vezes, se chocam com as nossas lembranças de suas imagens originais, muitas pessoas, agora, em situação decrépita, lastimável...
            A recíproca é verdadeira quando a situação é inversa. As crianças que deixamos em tenra idade, quando voltamos, não as reconhecemos. Encontramo-las, viçosas, feias, bonitas, baixas, altas, jovens, maduras, solteiras, casadas, cheias de projetos e sonhos. Algumas fiéis aos princípios bíblicos de: “crescei-vos e multiplicai-vos”; outras, mais comedidas. Aos olhos delas, nós, é que envelhecemos e diminuímos.
          Com raras exceções, as cidades quanto mais velhas mais remoçadas e o lugar onde nascemos e demos os primeiros passos não é diferente. Ou seja, à medida que o tempo passa, as ruas e as avenidas vão se alargando, imóveis mais verticais e maiores vão surgindo, novas praças ajardinadas são construídas, novas áreas de lazer vão aparecendo, o sistema de iluminação vai se modernizando e o serviço de infra-estrutura sanitária vai adquirindo padrões cada vez mais sofisticados. As ruas mais arborizadas e se um rio divide os seus terrenos, pontes cada vez mais modernas, vão ligando suas margens. O renascimento de uma cidade, sua mocidade, sua beleza e o seu amadurecimento, são refletidos na pujança do seu progresso e não no tempo de sua fundação.
           Depois de muito tempo fora do nosso solo, as brincadeiras mais ingênuas da molecada, a exemplo de empinar raia, soltar papagaio, pular corda, tomar banho pelado nos rios, nos açudes ou ribeirões, montar a cavalo, jogar gude, brincar de esconde-esconde, boca-de-forno, cabra-cega, tiro ao alvo, jogar pelada e por aí afora, têm um significado prático e pedagógico para o indivíduo, essas brincadeiras ajudam moldar o seu temperamento e contribuem para formação de cidadãos mais aguerridos, mais seguros emocionalmente, mais disciplinados, mais competitivos, mais cívicos. Essas atividades lúdicas e esportivas, ensinam que o medo, a moderação e o cultivo das normas sociais, trazem mais benefícios do que a imprudência, a desobediência e a negligência.
           E, em ralação às manifestações culturais? Não existe uma cidadezinha de qualquer rincão deste imenso país, que não haja artesanato, pintura, música, dança folclórica, poesia, literatura clássica, literatura de cordel, enfim, tudo que expressa o sentimento e tudo que constitui a identidade de um povo.
       Por isso, nunca é demais para exprimir esse sentimento inato do lugar onde nascemos e por circunstâncias diversas o deixamos, evocar o verso do poeta maranhense: “... as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Não existe nada mais gostoso do que a volta ao lugar que nascemos...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: crônica

A simplicidade da vida - R. Santana

A simplicidade da vida
R. Santana

    Eu não bebo nem fumo não para esnobar saúde, mas me falta saúde para beber e fumar. Acho bonito quem bebe e fuma sobriamente... Claro, que o objetivo desta crônica não é fazer apologia do tabaco e da bebida, porém, quero invocar o ato de pitar um cigarrinho ou tomar uma pinga pra almoçar como exemplos de simplicidade de vida. Não se pode elogiar o excesso, a dependência de álcool e de fumo, pois o excesso de álcool e de fumo, mina a saúde do homem e ao invés de prazer lhe traz sofrimento.
    A vida não é riqueza, a vida não é poder, a vida não é beleza, a vida não é glamour, a vida é simplicidade... O filósofo Albert Camus foi feliz quando disse: “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”. Os significados sociais não fazem a vida do homem melhor, mas engessa o homem em emaranhado de compromissos e obrigações que lhe roubam a naturalidade de viver. O homem é feliz quando não quebra o cordão umbilical, o retorno à sua origem, é que lhe dar significado de vida.
    Quem já não teve a experiência depois de dias ou meses de trabalho, se espichar na areia da praia, o sol a pino, quase despido, e sentir-se o homem mais feliz do mundo?... Então, numa fazenda, gozar de felicidade com o cheiro da terra invadindo as narinas depois de uma chuva rápida de verão?... Ou, numa noite de lua cheia, deitado no alpendre da casa escarafunchando o céu?... E, ainda, acordar com o canto dos pássaros e um roseiral, cheio de orvalho, lhe invadindo a janela, incendiando o quarto de perfume?... Quem de peito aberto, não percorreu o campo sorvendo o ar e gozando da natureza sem objetivo?... Quem ainda não enterneceu em seu braço, um recém-nascido?... Isto é a simplicidade da vida, o encontro do homem consigo mesmo, com a natureza e com Deus!...
    A ciência e a religião não se sustentam se os seus ensinamentos têm a complexidade dos eruditos. Se os ensinamentos de Jesus Cristo não fossem para sábios e ignorantes, não seriam tão atuais ao longo do tempo. Aliás, a Bíblia é o livro que explica a criação do mundo, a origem do homem, a dor, o sofrimento, a Aliança de Deus com sua criatura numa linguagem natural, compreensível à mente mais simples à mente complexa de um sábio.
    A teoria da Relatividade tornou-se popular, não pelo seu objeto abstrato e metafísico, mas pela tradução menos complexa de Einstein. Se Sócrates não fosse, no seu tempo, o filosofo da rua, da praça, do povo ou se os seus conceitos de conhecimento, de ciência e de moral fossem complexos e eruditos, ele não teria sido marco da História da Filosofia.
    Deus criou o homem numa lógica infinita, mas não faz muito tempo que a ciência obteve do homem o seu mapa genético, e algum tempo antes descobriu que a vida é sistêmica, embora a vida comece na célula e no interior do átomo, é lá que a menor partícula energética dá origem à vida, portanto, a vida é singela no seu início.
A felicidade absoluta não existe, o homem é suas circunstâncias, porém, o homem terá felicidade mais duradoura quando se desvencilhar de todos os produtos artificiais e priorizar os naturais e eleger o estilo de vida primitivo, todavia, não é aquela vida do homem primitivo, do homo sapiens ou do homo erectus, mas usar a tecnologia e a ciência como meio e não como fim.
    Talvez, o homem moderno não acredite que isso é possível, mas lhe dou como exemplo o investidor Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, que não trocou a casa modesta que mora há 60 anos por um palácio suntuoso, além de não ter criado os filhos nababescamente e vida de bilionário, mas lhes deu uma educação e vida espartanas, elegendo para os filhos valores morais e intelectuais duradouros, não uma vida de glamour, bonita, mas falsa e efêmera...
    O bilionário Warren Buffett é tão simples que segundo a imprensa falada e escrita, não usa celular, não tem computador pessoal e dirige o seu próprio Cadillac DTS, além de ter deixado como herança, 83% de sua fortuna para uma instituição de caráter social.
Porém, a simplicidade da vida não será obtida enquanto o homem não se desvencilhar da usura, da ganância, se desvencilhar do ter e não do ser, e, souber compartilhar os meios produtivos, a tecnologia e a ciência, de maneira social e racional.
    Não se faz aqui, propaganda da miséria, tudo que foi conquistado é bem do homem, mas ele terá momentos duradouros de felicidade se atingir um grau de educação comunitária, de partilha, aí, a felicidade será um estado de espírito absoluto, enquanto esse estágio não for adquirido, a simplicidade da vida não será adquirida e a maior parte da humanidade viverá para sempre infeliz.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
 Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

QUEM SOMOS: Ponto de Leitura
a) Rilvan Batista de Santana - escritor, professor de matemática aposentado - Graduado: Filosofia / Matemática, pós- graduado em Psicopedagogia - UESC.

b) Agilson Cerqueira - professor, artista plástico, matemático, engenheiro ambiental, poeta e prosador.

c) Luis Pedro Novaes - Administrador de Empresa e Técnico em Informática

 



Mãe, onde está o seu filho, agora?... - R. Santana

 

    Mãe, onde está o seu filho, agora?...
R. Santana

    Alguém que de chofre pergunte pelo paradeiro dum filho à sua mãe, nos dias atuais, decerto, terá uma resposta insegura, vacilante, vaga, pois, cada dia, a mãe sabe menos aonde anda e com quem anda o seu filho... Ele pode estar na escola, na biblioteca, numa “Lan     House”, jogando bola, comprando pipoca, chupando sorvete ou num lugar ermo, embaixo duma marquise, numa casa abandonada, num apartamento de luxo, fumando maconha ou pitando crack ou se alcoolizando, ou cheirando cocaína ou usando “ecstasy” e LSD, então, por algum dinheirinho a serviço do narcotráfico.
    A droga é uma peste, ela mina a sociedade e destrói a família. Jean Jack Rousseau foi feliz quando mais ou menos disse: “... o homem nasce naturalmente bom e a sociedade o corrompe, torna-o mau”. O jovem de hoje é cada vez mais pervertido, é cada vez mais corrompido, é cada vez mais vítima de animais humanos desprezíveis, de bestas-feras, de facínoras desprovidos de alma e coração que os Direitos Humanos exigem que os tratemos como humanos...
    Felizes são os pais que veem o seu filho nascer, crescer e amadurecer!... Hoje, os filhos não mais sepultam os seus pais, mas os pais choram os seus filhos cada vez mais. A malha protetora da sociedade da vida humana é falível e impotente. O estado que Tomaz Hobbers pensou para que o homem não fosse vítima de sua natureza: “home homini lupus”, “homem lobo do homem”, é uma teoria de estado que não deu certo, o homem, hoje, barbariza, mata, rouba, sequestra, estupra, calunia e denigre o outro sem conflito de consciência, cinicamente e, a sociedade e o estado...
    A Lei 8069 de 13 de julho de 1990, ou seja, o Estatuto da Criança e o Adolescente – ECA, os juizados da infância e juventude, os ministérios públicos, os conselhos tutelares da infância e juventude, as pastorais e outros órgãos afins, não contêm a demanda, são ineficientes, cada vez menos, eles não cumprem o seu papel, é comum nas grandes cidades, as bocas-de-fumo, as prostituições infantis e os absurdos de abusos sexuais no seio da família, nas barbas das autoridades e da sociedade.
    Antes da Internet, antes da mídia comprometida com o IBOP e com o sensacionalismo, quando o brasileiro era tupiniquim, caipira, jeca, quando a escola e a família eram mais estruturadas, quando o homem não estava conectado ao mundo, quando a palavra “narcotraficante” não constava no dicionário, quando “droga” não era uma droga, quando “aviãozinho” era uma miniatura, quando a religião era coisa de beato, quando “bandido” era personagem de filme americano, quando se prezava as relações afetivas, quando “craque” era um exímio jogador de futebol, quando os instintos primitivos do homem eram usados na sua autodefesa, as bestas-feras, os psicopatas e os criminosos eram personagens de cinema e cochichos de vizinhos, a vida tinha sentido.
    No livro de coletânea: “Encontro Pontual - Antologia Scortecci de Poesias, Contas e Crônicas, 21ª. Bienal Internacional do Livro de São Paulo – 2010”; há um conto de minha autoria, intitulado: “Nóia não, meu filho!”, o confronto de um policial e uma mãe, quando ela chorava a morte do seu filho assaltante, crivado de balas, e o policial lhe rogou que não chorasse a morte dum nóia.
    Portanto, não existe mãe de ladrão, de malfazejo, de criminoso, mas filho da mãe, filho do coração, filho da alma, por isto, é justo reconhecer que a mãe, moça, madura ou velha encarquilhada pelo tempo, não é responsável, porém, ela é vítima e a mais sofrida pelos desvios de comportamento dos seus filhos por influência desses corruptores e desses criminosos dos novos tempos e a ausência de políticas públicas efetivas.
    Não se faz apologia do atraso e não se faz apologia às ideias retrógradas. A evolução, o desenvolvimento, as conquistas tecnológicas e científicas são bem-vindas, são necessárias, mas quando o homem é o “lobo do homem”, é um animal perverso, os bandidos assumem as funções do estado, o homem é desprovido de valores morais, não tem apego à família, é desprovido de amor e de Deus, é o começo do fim, faz-se necessário renegar a evolução dos tempos e o desenvolvimento, seria melhor que a mãe respondesse à pergunta:
- Mãe, onde está seu filho, agora?...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

Blog "Ponto de Leitura" : rilvanbatistadesantana.blogspot.com  
 

Destaques

ILUMINÂNCIAS - Agilson Cerqueira

  Iluminâncias Agilson Cerqueira Luz que estrutura o traço, geometria viva do pensar. A lógica não habita o isolamento, mas a ponte: a coexi...

Última semana