11.14.2025

Carta para Amanda (II) - R. Santana

 

Carta para Amanda (II)
Carta para Amanda (II)

Querida Amanda:


Confesso-lhe que fico lisonjeado com os seus elogios. Quem não gosta de ser paparicado? Todos nós, pobres mortais, portanto, eles não me constrangem tanto como nas cartas anteriores, mas ainda me incomodam quando tu me chamas de intelectual. Não sou intelectual, eu não tenho o estofo dos grandes pensadores, sou econômico de conhecimento e não fiz nada ainda para o bem da humanidade. Todavia, recuso-me ser um pseudointelectual, lestes a “Carta para Elma”, onde coloco de maneira explícita o que penso deles. Eu sou o quê? Eu sou um simples autodidata e um leitor contumaz, um escrevinhador, um Jeca na escrita de Monteiro Lobato, um Quasimodo na escrita de Vítor Hugo, nada mais que isto.
Querida amiga, eu sou apaixonado pela escrita: “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”, é através da escrita que registramos todas as ações e pensamentos do homem. Porém, escrever não é um ato simples, é dolorido, difícil, espremido, é parido, é necessário que o escritor tenha vocação e determinação para garimpar as palavras certas na construção de uma escrita, de um texto.
No início, surge uma ideia, depois outras ideias, que como anéis de uma mesma corrente, formam períodos, orações, hipóteses, definições, conceitos, teorias e encerram num pensamento. Conhecer a gramática é fundamental do ponto de vista técnico, linguístico, etimológico, mas sem a sensibilidade do artista, o canto do poeta, o texto é árido, sem gosto e sem sal, é ciência, a mesma diferença entre o limão e a limonada, a mesma diferença entre o poeta tradicional, de rima e métrica, e, o poeta atual de verso livre, sem rima nem métrica.
Querida Amanda, talvez, me faltou talento para lhe explicar com mais detalhe entre a literatura genial e a escrita erudita, por isto, valho-me de alguns exemplos conhecido por mim e por ti e conhecido por mais alguns: Platão e Aristóteles, Leonardo da Vinci e Dante Alighieri, Francis Bacon e Descartes, Paulo Coelho e Monteiro Lobato, Manuel Bandeira e Euclides de Cunha, Rui Barbosa e Castro Alves, Fernando Pessoa e Camões, etc., etc. Todos são geniais, mas uns são gênios da palavra, outros, são gênios do conhecimento e da erudição.
Aqui, Amanda, na terra do cacau, os nossos escritores e poetas tupiniquins herdaram os mesmos senões, alguns, são eruditos poetas e escritores, outros, são gênios do verso e da prosa: Jorge Amado, Adonias Filho, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Firmino Rocha, Lucrécia Rocha, Minelvino, Plínio de Almeida, Euclides Neto, Hélio Pólvora etc. e etc., são gênios da palavra, outros, que não são gênios, em respeito não foram citados, são os eruditos da palavra, que no conjunto, também, são importantes na história das artes e da cultura do Sul da Bahia.
Amanda, o mês passado fui vítima da maledicência, do deboche, de conversas desairosas, de achincalhe de duas poetisas de estimado valor literário da nossa terra, sobre as minhas falhas intelectuais, a minha falta de talento literário e a minha saúde mental.
Não me fiz de rogado com as críticas literárias, não sou poeta, não sou escritor, mas incomodou ridicularizar-me sobre a minha saúde, pois além de uma conversa falsa, leviana e irresponsável, nenhum ser humano é doente por desejo, a doença é adquirida involuntariamente, então, é congênita, portanto, é desumano qualquer achincalhe, qualquer deboche.
Sem nenhuma presunção, sem nenhum paralelo, quero lhe pedir vênia, para transcrever um trecho de uma crônica de Rubem Alves, intitulada “Saúde Mental”: “Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram que, eu na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.” – Ele completa: “Comecei o meu pensamento fazendo uma lista de pessoas que, do meu ponto de vista tiveram uma saúde mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para minha alma: Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei, Nietzsche ficou louco, Fernando pessoa era dado à bebida, Van Gogh matou-se, Wittgenstein alegrou-se ao saber que ia morrer em breve; não suportava mais viver com tanta angústia, Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica e Maiakovski suicidou-se”.
Eis aí minha amiga Amanda, a complexidade entre a lucidez e a loucura, a linha que separa a lucidez e a loucura é a mesma que separa o ódio e o amor, uma linha tênue...
Conheço-te, tu és malvada, provocativa, mesmo sendo uma alma boa e uma pessoa proba, não abre mão do seu feeling questionador, abelhudo, curioso, vasculha a alma humana como ninguém, novamente, me questiona sobre o nosso padre, se ainda penso a mesma coisa de suas práticas religiosas, dos seus discursos prolixos e sem encadeamento, das suas análises exegéticas decoradas...
Quero abrir um parêntesis, antes de lhe responder, que se eu fosse espírita, acreditaria que na outra encarnação fui um padre. Um dos meus livros: “O enviado”, que se encontra no Portal Domínio Público do MEC, se desenrola com a história de um padre impostor, agora, estou escrevendo outro, “A face obscura do homem”, que está no XVI Capítulo que a personagem principal é um padre, Acho que estou purgando os meus pecados, colocando-os em minhas histórias.
Vamos lá, minha amiga, irei satisfazer sua curiosidade, sua boa bisbilhotice: não existe nada de pessoal entre mim e o padre, é uma pessoa culta, inteligente, mas as nossas ideias são conflitantes, as nossas ideias não poderiam ser diferentes, eu sou leigo, não tenho o mesmo embasamento teórico religioso, a minha fé é mais razão e intuição do que coração, ele, ao contrário, sua fé é plena por vocação e formação teológica, além de ser um estudioso da exegese.
Porém, é necessário dizer-lhe que nesta semana, ele fez uma homilia estudada e menos prolixa. Não sei se ele me deu a honra de ler o meu ensaio, publicado em 08.06.2010, no blog: http://saber-literario.blogspot.com e no Portal do MEC: www.dominiopublico.gov.br, com o título: “O homem nasce para ser feliz?...”, onde chamo atenção duma passagem do Evangelho que Jesus Cristo come e bebe com os apóstolos depois de ressuscitado, contrariando as leis da Física e do bom senso.
Amanda, eu não sei se entendeu ou já tinha prestado atenção sobre o fato, irei fazer um comentário complementar, aproveitando o gancho do nosso ilustre sacerdote que discursou sobre a dúvida de André (João 20: 1-30). A dúvida de André é de natureza humana - vejo e creio. Todavia, questiona-se Jesus Cristo ter ressuscitado para André e para outros discípulos em carne e osso (matéria corruptível), depois de penetrar e sair em perispírito (energia pura), num recinto fechado.
O sacerdote justificou que na dimensão divina tudo é providencial... Ora, nós sabemos disto, mas se Jesus Cristo não quis quebrar a lei do homem e morreu na cruz como um cordeirinho, jamais Ele iria violentar as leis da matéria por capricho e exibicionismo, criada por seu Pai, o seu Deus, o nosso Deus!...
Hoje, minha amiga, nós sabemos depois da Relatividade de Einstein, que essa conversão é possível, mas, querida Amanda, veja que equação complicada: E = m.c², traduzindo: energia é igual à massa vezes a velocidade quadrada da luz (300.000.000 milhões/metros/segundo), a equação contrária seria: M = e:c².
Tu não entendestes bulhufas!? Então, minha querida amiga, risque tudo e sigamos o conselho do professor Remy de Souza: “... mulher, política e religião, não se escolhem, se abraça...”, se o pensamento do professor Remy de Souza não lhe convence, siga o que diz a Bíblia: “Sem a fé é impossível agradar a Deus, pois quem Dele se aproxima crer que Ele existe e que recompensa os que O buscam” (Hebreus 11,2).
Ufa!!! Estou cansado, minha amiga, os ponteiros do relógio acima da minha escrivaninha, marcam 4:35 horas, os galos já estão se movimentando no quintal para anunciarem o novo dia, enquanto as galinhas cacarejam ao seu redor. Eu vou aproveitar o lindo dia para fazer caminhada, pois estou na “pior idade”, a “idade de junta”, junta dor aqui e dor acolá...
Falei tanto da prolixidade do sacerdote e reconheço que sou um prolixo incorrigível da escrita. Do teu amigo, que te preza e estima,

Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 16.04.2012






Tempo de Sodoma e Gomorra - R. Santana

 


Tempo de Sodoma e Gomorra
Tempo de Sodoma e Gomorra
R. Santana

A Bíblia não mentiu sobre a destruição de Sodoma e Gomorra e mais três cidades vizinhas, há indicações históricas e arqueológicas que essas cidades existiram no Vale de Sidim. A ciência afirma que essa região encontra-se submersa no Mar Salgado ou Mar Morto, todavia, não afirma se o motivo dessa catástrofe foi um castigo de Deus pela degradação moral dos seus habitantes, ou, se essas cidades foram destruídas pelo fogo e submersas pelas águas devido ao deslocamento de placas tectônicas da terra, de tsunamis e outros fenômenos naturais, o fato é que essas cidades existiram.
Hoje, estamos vivendo o “Tempo de Sodoma e Gomorra”, pela depravação moral da sociedade, com respaldo da grande mídia, das casas legislativas, dos tribunais e instituições governamentais, em nome da liberdade de expressão e dos direitos individuais e das cláusulas pétreas da Constituição Federal. Embora a Constituição de 1988, prescreva que todos nós somos iguais perante a lei, pouco e pouco, os direitos da maioria são solapados pelos privilégios legais das minorias.
Somos contra a violência física ou moral, porém, repudiamos em nome dos bons costumes, da família e de Deus, as condutas aviltantes que grassam em nossa sociedade, pervertendo mentes jovens e contribuindo para males sociais danosos. Não queremos ser nenhum Nostradamus ou afirmar que o nosso pecado chegará até Deus, como no tempo de Abrão e Ló. Porém, o crente atual acredita que os tsunamis, os vendavais, os maremotos, os terremotos e outros sinistros da natureza, são avisos de Deus para que a humanidade encontre o caminho do bem, da retidão moral, da justiça, da paz, que a humanidade não seja destruída em carne e espírito nos fins dos tempos.
Qual a pessoa de bom senso que não se arrepia de medo com as marchas para legalização da maconha, casamentos de gays e lésbicas, paradas gays e a apologia de um novo modelo de família? Se não se manifesta contra ou escamoteia o que sente, é para não atrair a fúria desnecessária desses segmentos sociais que, a cada dia, têm atraído simpatias e apoios relevantes de pessoas que têm medo de serem estigmatizadas de preconceituosas, de atrasadas, etc., etc.
As pessoas têm que ser respeitadas conforme sua natureza. Entendemos que transformar o homem em mulher ou vice-versa empregando artifícios e métodos cirúrgicos revolucionários, somente, em casos de aberrações biológicas. Afora isto, é uma afronta da criatura ao Criador.
Ultimamente, as famílias (simples ou abastadas), que possuem boa formação moral e religiosa, proíbem os seus filhos assistirem certos programas de televisão (novelas, entrevistas, humorísticos etc.), que de uma forma ou de outra, incentivam o homossexualismo com cenas de beijos, gestos de carícias, trejeitos e falas dos seus personagens em horário nobre.
Os donos desses meios de comunicação de massa, os autores, os jornalistas e os produtores não pensam noutra coisa senão no lucro e estão pouco se lixando para o conteúdo da mensagem veiculada desde que aumente o índice de audiência das emissoras ou eleve a venda de edições de revistas eróticas, revistas de TV, revistas semanais, e façam grandes contratos comerciais, ignorando esses profissionais da grande mídia, que a consequência dessa enxurrada de conteúdo glamouroso desagua na promiscuidade sexual, na prostituição de adolescentes, na prostituição de adultos, na pedofilia, na droga, e, noutros crimes...
Enfim, não temos pretensões puritanas, não queremos consertar o mundo, somos contra a discriminação, o preconceito, a segregação, a violência e as penas capitais que sofrem os homossexuais em alguns países islâmicos. Entendemos que a condição homossexual é um fato, assim como as relações homoafetivas, todavia, achamos que em nome dos direitos individuais e da liberdade de expressão, as autoridades governamentais e juízes têm sido coniventes com alguns segmentos e negligentes com a maioria da nossa sociedade.

Autor: Rilvan Batista de Santana
ttabuna, 21 de junho de 2011.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/07/2012
Alterado em 03/08/2012

11.13.2025

A trama da vida - R. Santana

 

A trama da vida
   R. Santana
 
                                     I                                                      

     O salão fúnebre da Funerária Santa Fé ficou pequeno pela aglomeração de parentes e amigos a velar o corpo de Carlito, vítima fatal de um assaltante, naquele momento, ainda não identificado e preso.
     Carlos André Almeida nos documentos e Carlito para todos, era casado há pouco mais de um ano e o destino lhe foi ingrato não deixá-lo ver o filho nascer que por coincidência não explicada, nasceu na madrugada do seu passamento.
     Diz o povo que Deus não chama para o seu seio os maus, mas os bons, no caso de Carlito, justificam-se os dizeres populares e Carlito naquela hora, deveria estar nos braços de Jesus Cristo para que os seus amigos e parentes aceitassem sem desespero esse acontecimento funesto.
     Amigo de todos, ótimo filho, irmão exemplar, marido incomum, não merecia aquele trágico fim, menos ainda, não ter visto o seu filho chegar ao mundo, vê-lo andando pela casa traquinando, vê-lo balbuciar as primeiras sílabas e chorar de birra nos braços da mãe, rejeitando a mamadeira e querendo peito, decerto, o mundo lhe pregou uma maldade através de uma mão criminosa.
     Carol, sua jovem esposa, estava no mês de parir, não obstante faltarem alguns dias em seu calendário pra que ela desembuchasse o rebento, o choque da morte do marido e companheiro, rompeu-lhe a bolsa, precipitou-se o parto, e quase semiconsciente, em estado de choque, foi levada às pressas para maternidade e deu à luz.
     Jovens brincalhões, afáveis moleques, conquistavam com facilidade o mais recalcitrante sisudo. Sua Casa sempre de portas abertas nos finais de semana e dias festivos. Eles pareciam viver uma eterna felicidade e se algo não lhes ia bem, não estragavam o ócio dos amigos ou vizinhos com queixumes, se a necessidade insistisse, no máximo, recorriam às suas famílias.
     Domingo era o dia do Senhor. Cedo ainda, de braços dados, eles desciam à Rua 15 Novembro até a Igreja Nossa Senhora das Graças, Lhe prestar culto e amor.
     Eram requisitados pra aqui e acolá, mais que bouquet de noiva pelas solteironas... Carlito e Carol gostavam das benesses da vida e Carlito mais do que Carol, ambos mais do que muita gente.
                                  II                                                                                   
     A miséria é filha da pobreza e neta da necessidade. O pobre é aquele que não perde de vista o supérfluo ou o sonho sem deixar de perseguir as condições necessárias para sua subsistência. O miserável é aquele que além de não sonhar, não tem supérfluo, perdeu a vontade de lutar, perdeu a esperança e a vontade de viver, para o miserável não existe projeto.
     Clô tinha prendido Kaka pela beleza. Bonitona, traseiro reforçado, airbag grande sem ser exagerado, cor de canela, cabelos ruivos, altura mediana e rosto suave. Não era casada no papel com o bonitão Kaka, mas depois de três filhos e cinco anos comendo farinha juntos, é como se fosse casada.
     Kaka também não era de se jogar fora, além de ser amigo, esportista, bom papo, inteligente e sociável. Há dois anos, ele e Clô vinham passando dificuldades de sobrevivência, depois que Kaka perdeu o emprego e, na esteira do desemprego, a doença do filho mais novo.
     Juninho, ultimamente, não passava uma semana que não fosse levado às pressas a postos de saúde e hospitais com problemas de saúde. Juninho chegou ao mundo doente após um parto sofrido e prematuro parto de Clô. Desde os primeiros meses, ele não dava trégua às farmácias e aos bolsos sofridos e esgotados dos seus pais. Vulgarmente, dir-se-ia que o último filho de Kaka e Clô fosse uma rapa de tacho por ser o último - Clô ligou com o nascimento do filho caçula.
     Naquela tarde, o garoto teve mais uma crise, levado ao posto de saúde mais próximo, receitado e medicado, voltou para casa com uma receita para que os pais providenciassem os remédios e dessem curso ao tratamento.
                                    III                                                
     Sexta-feira, final de semana, noitada promissora, barzinhos superlotados, música ao vivo e mecânica, boates concorridas, era o cenário que se desenhava na cabeça de Carlito. Porém, naquela semana, ele e Carol tinham decidido não curtir as noitadas e ficarem em casa, pois, Juninho – nome escolhido por ambos - já dava mostras de impaciência na barriga da mãe, não tardaria ele botar a cabeça pra fora e saltar para o mundo...
     Carlito ficou preso, depois do expediente, às obrigações daquele dia, por conta de uma sobra de caixa. Funcionário do Banco–
X, empregado responsável, meticuloso, não deixaria o banco enquanto não descobrisse o erro, procedimento comum quando a necessidade surgia.
     Às 20h: 45m, daquela fatídica sexta-feira do ano 2000, do mês das noivas, quando Carlito deixou o banco. As ruas do centro de Itabuna começavam ficar erma e despovoada, salvo, o movimento dos carros com os seus faróis cuspindo luz, vez ou outra se encontrava uma viva alma, com exceção dos moradores de rua que se encontravam aos montões deitados nos passeios das marquises enrolados em trapos, geralmente, moleques e bebuns, quando a entrar num beco de uma rua estreita, Carlito é colhido de surpresa por um homem que lhe cutuca as costas com um revólver:
     -Passe a carteira!!! – Carlito adquire força para adverti-lo:
     -Cuidado, companheiro, a polícia faz ronda aqui!
     -Deixe de conversa mole, passe o dinheiro!
     -Calma, tome a cart...– Carlito pressentiu que o homem tremia, reagiu...
                                  IV                                                 
     Kaka chorava abraçado ao corpo inerte do filho. Não o vira partir, o remorso corroia-lhe a alma, culpava-se por não ter trazido a tempo os remédios. Clô ao seu lado, minimizava o seu sofrimento, usava as palavras mais confortadoras, inclusive, dava-lhe como exemplo sua dor de mãe e acrescentava que ninguém tinha culpa de nada, vontade de Deus, assim ou assado, fora dado toda assistência médica ao moleque. Ele, Kaka, não poderia culpar-se por não ter comprado os remédios imediatamente, conhecia e partilhava de suas dificuldades financeiras dia a dia, e, não obstante ele está desempregado algum tempo, virava-se como podia para que ela e os filhos tivessem o mínimo pra sobreviver.
                                    V                                                  
     A polícia foi rápida na identificação do suspeito. Todo crime é chocante, porém, a covardia do crime do bancário revoltou a sociedade itabunense e os meios de comunicação ecoaram de imediato esse clamor social a vítima ainda insepulta.
                                   VI                                                
     Clô desabou... Os amigos e vizinhos de Kaka ficaram estupefatos e confusos quando a polícia adentrou sua casa e o algemou, causando tumulto, não respeitando as pessoas presentes e as circunstâncias fúnebres.
     Houve um pálido movimento de reação, mas tudo voltou ao normal quando o delegado informou aos circunstantes, os fortes indícios que apontavam Kaka como o criminoso do bancário Carlito.
     Uma semana depois, o jornal “O Matutino”, trouxe em sua página principal a triste manchete com letras graúdas:

“KAKA SUICIDA-SE E PEDE PERDÃO...”
     A página policial completava a manchete da primeira página esclarecendo que o principal suspeito deixou um bilhete pedindo perdão à família de Carlito, que não queria matá-lo, foi um acidente, tinha sido vítima da necessidade, das circunstâncias, dos homens, da trama da vida...
     Para consolo da viúva (se fosse possível consolar-lhe), lembrava-lhe que ela perdera o marido, mas dera à luz Juninho e fará os sonhos acontecerem, enquanto Clô perdera Juninho, lhe perderia, herdaria necessidade e sofrimento e não fará os sonhos acontecerem.

     A pobreza é romântica no coração dos ingênuos e dos incautos. Porém, ela tira oportunidades, separa pessoas, destrói sonhos e inviabiliza projetos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 

O oleiro - R. Santana

 

     O oleiro
       R. Santana


                                                                           I
     Era um homem baixo, um metro e sessenta, não passava disso. Branco, cabelos pretos e lisos. Era oleiro de profissão, quando moço, trabalhou na lavoura de Simão Dias, cidade sergipana. Casou-se com uma bonita sergipana de Lagarto. Debandou para o Sul da Bahia ainda jovem. Fixou-se de início no município de Ilhéus em Maria jape. Tempos depois, passou a residir e trabalhar no município de Itabuna e terminou seus dias, louco, numa fazenda próxima do Salobrinho, lugarejo de Ilhéus. Era conhecido como Nozinho, mas no Cartório de Lagarto, constava João Rodrigues Ramos.
     Nozinho vivia em conflito entre ser o único provedor de sua casa com um mísero salário de oleiro e a dificuldade de autoridade e mando com a linda mulher que tinha.
Judy, sua mulher, era uma morena cor de canela, com seios grandes, altura mediana, bumbum arrebitado, lábios carnudos, peso proporcional à altura e um rosto escultural. Era uma tentação de mulher.
     A ingenuidade de Nozinho doía na alma. Era difícil acreditar que no meado do século passado, ainda houvesse gente tão simples e sem maldade como o senhor João Rodrigues Ramos. Saía pela manhã com o embornal nas costas, levando nele, a marmita com o cardápio trivial: arroz, feijão, carne assada ou mantinhas de bife com rodelas de batata inglesa em cima e, salada de pepino com tomate e alface. Nozinho não era o famoso “bóia fria” da lavoura, mas era o “bóia fria” da olaria. Passava o dia todo amassando barro e moldando tijolos. À tardinha, voltava para casa sujo, exausto e feliz com Judy lhe esperando.
                                                                      II
     Edvaldo Fonseca era o que se pode chamar de despreocupado. Novo ainda, aprendeu dirigir automóvel e caminhão de carga pesada. Era disputado por todo tipo de mulher, principalmente, àquelas chamadas de “Maria gasolina”. Numa época em que motorista de transporte de carga era uma raridade, Edvaldo tirava proveito desse status quo profissional.
     Divorciado da primeira mulher, após oito anos de casado com Nelza Fonseca, Edvaldo por mais que tenha querido se desvencilhar da mulher e dos filhos não conseguia. A justiça o atormentava no cumprimento da pensão alimentícia, pois seus filhotes eram todos pequenos e sua ex-mulher impedida de trabalhar noutro lugar sem prejuízo da ninhada. Embora fosse um folgazão, pouco responsável, mulherengo, procurava não faltar aos filhos, o lado afetivo de pai.
     Nelza o tinha expulsado de casa. Era impossível conviver com um rufião como Edvaldo, que a cada dia, ela tomava conhecimento de suas novas peripécias amorosas. Passou de mulher à amante, é que depois de separados judicialmente, tinham tido mais dois filhos. Era normal vê-lo saindo da casa de sua ex-mulher ao romper da aurora. Esta rotina só era quebrada quando ele estava enrabichado por outra. Ela, mesmo depois de separada, permaneceu-lhe fiel.
                                                                      III
     Não se podia afirmar que Nelza fosse uma mulher feia. Era uma morena simpática, não lhe davam 30 anos de idade. Tinha casado de véu e grinalda com Edvaldo na flor da adolescência. Não pensava em casar-se cedo. Quando o conheceu, cultivava o sonho de entrar para o convento da Ordem santa Madalena, ainda relutou em aceitar o namoro, mas foi envolvida com as promessas e juras de amor do jovem caminhoneiro. Se seus pais não tivessem pressionado o dom Juan, Nelza tinha se casado com a barriga na boca. Aos primeiros sintomas de gravidez o malandro foi chamado à responsabilidade:
     - Senhor Fonseca, não tenho filha para falatório de vizinhos. Tratemos logo desse casamento, senão, um de nós dois pode ir encomendando sua alma ao Criador!... – Fonseca não era covarde, mas a consciência moral clamava por correção: - Senhor João, não me preocupo com os mexericos dos vizinhos, preocupo-me em fazer sua filha feliz e com um ser que está a caminho, o senhor pode providenciar o enxoval e a data do casamento. Quanto às despesas que forem minhas, eu as assumirei.
                                                                      IV
     O casamento foi feito. E, durante alguns anos, Nelza não desejaria outro marido melhor. Edvaldo era um trabalhador incansável, cumpridor de suas obrigações domésticas, bom pai, bom marido, mas pouco e pouco foi dando menos atenção à esposa e mais atenção às mulheres da rua.
                                                                      V
     Nozinho era um simplório, não enxergava maldade ao seu redor. Para ele todas pessoas eram honestas. Todavia, o seu instinto de preservação e sua intuição estavam dando sinais de que alguma coisa de ruim estava acontecendo, deu pra aconselhar-se com o seu velho colega de trabalho Manoel Dias:
     - Dias, ultimamente, ela sempre tem uma desculpa. Há mais de dois meses que não temos relações sexuais. É dor de cabeça, é mal estar, é naquele dia vermelho do mês, há um pretexto a cada dia.
     -Nozinho, procure outras mulheres. Quem sabe se numa provocação, o ciúme aparece e tudo volta ao normal.
     -Dias, jamais vou fazer isso. Mesmo que quisesse não conseguiria. Amo minha mulher. Nunca disse isso a ninguém, vou lhe dizer agora, por confiança e sei que você não vai me gozar: nos casamos virgens!...
     -Nozinho, fique tranquilo, isso não é nenhum crime. Apenas, prova que você sempre foi um rapaz contido, se preservou para mulher dos seus sonhos. Ela também, entregou –se - lhe depois de casada. Mas meu amigo, tenha cuidado, mulher quando fica muito dada ou arredia, por debaixo desse angu tem caroço. Cuidado, comece mudar a rotina. Dê para chegar em casa nos momentos mais inesperados. Use todos artifícios de um homem desconfiado e enciumado.

                                                                 VI
     Judy e Fonseca encontraram-se por acaso. Ela tinha ido comprar um novelo de linha numa vendola não muito distante de sua casa quando o encontrou a papear e a beber com alguns amigos. Ele ao vê-la, não se conteve de admiração:
     - Juvenal (dono da bodega), eu pensei que as deusas só fossem encontradas nos livros, mas estou diante de uma delas, posso saber sua graça senhorita? – Judy ficou desconcertada, desnorteada, não esperava galanteio àquela hora, ainda mais, diante de tantos homens desconhecidos – Não sou senhorita. Sou a senhora Ramos. O senhor não acha imprudente elogiar mulher casada? – Senhora Ramos me perdoe pela imprudência. Não sabia que era casada, tão jovem!... Porém, o que disse é verdade, não posso negar sua beleza. Negar sua beleza é como negar a beleza das flores... – Ela deu-lhe às costas, pagou ao bodegueiro e saiu.
     Fonseca continuou bebendo e proseando com os amigos. Porém, lia-se no seu semblante que o encontro com Judy, o tinha incomodado. Não descansou enquanto não soube quase tudo dela.

                                                                 VII
     Nozinho encontrou mais uma vez a casa fechada. Depois da conversa que tivera com o colega Manoel Dias, deu para chegar em casa nos momentos mais inesperados. Judy estava cada vez mais estranha e distante. Às vezes, quando passava para o trabalho, notava nos vizinhos atitudes diferentes das usuais. Eram cumprimentos demorados, conversas reticentes ou conselhos não pedidos.
     Naquele dia, tinha chegado em casa mais cedo. Judy não estava. Isto já não lhe surpreendia. Porém ao adentrá-la teve um pressentimento sombrio e solitário. Inquieto, cheio de idéias confusas, ia de um canto a outro da moradia procurando respostas para suas perguntas silenciosas: “Será que ela me abandonou?”, “Para onde foi?”, “Que devo fazer?” Todas essas perguntas vinham à sua cabeça aos turbilhões, tão envolvido estava que não pressentia que o seu cachorro o lambia dum lado enquanto o gato rosnava do outro. Num momento de insight, lembrou que todos os segredos, os dele e os dela eram guardados numa caixinha metálica que ficava dentro de uma gaveta da cômoda de cinco gavetas no quarto do casal.
     Levou um susto, lá dentro da caixinha estava um bilhete com uma letrinha redonda e inteligível. Nele lia-se: “Perdoe-me, não queria magoá-lo. Não lhe mereço... Adeus.” Ele saiu cambaleando da casa porta fora.
     No quintal da casa, embaixo de uma mangueira, sentado em um toco, resto de uma árvore apodrecida: ele, o cão e o gato, abraçados, choraram!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

Sócrates, Maomé e Cristo - R. Santana

 

Sócrates, Maomé e Cristo
Sócrates, Maomé e Cristo
R. Santana

Não queremos neste texto, tecer tendências religiosas e filosóficas. São três marcos exponenciais da humanidade, Queremos, apenas, provocar sua capacidade intelectual e perguntar-lhe, eles tiveram algo em comum?...
Sócrates nasceu em Atenas no ano 470 a.C., filho duma família aristocrática, foi aluno de Anaxágoras, combateu intelectualmente os sofistas (mestres do saber que transitavam em todas áreas do conhecimento. Tinham por mister a profissão de ensinar aos jovens de ricas famílias, cobrando vultosos estipêndios), por suas qualidades mercenárias e enciclopédicas de transmitir o saber.
Sócrates foi o divisor entre o pensamento filosófico da Grécia antiga e o pensamento filosófico a posteriori. Era irônico, usava o diálogo como instrumento infalível de externar o seu pensamento e o meio mais acessível à análise e à construção de novos conceitos científicos. Tinha um método especial de ensinar aos seus discípulos: a maiêutica, processo dialético e pedagógico que consistia levar o sujeito descobrir e formular seu próprio pensamento e à descoberta de novos conhecimentos.
Sócrates não se preocupava com os princípios da natureza, mas com o sujeito do conhecimento, suas atitudes e o seu comportamento diante da vida e do mundo. Por isto, seus ensinamentos permanecem atuais, suas máximas mais comuns são: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus.”, “Sábio é aquele que conhece os limites da sua ignorância.”: “A ociosidade é que envelhece e não o trabalho.”: “É melhor fazer pouco e bem do que muito e mal”.
Era irônico nas respostas, quando perguntado sobre o que Heráclito escreveu (filósofo do ser e não-ser e que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, para explicar as constantes mudanças e transformações), respondeu: “Aquilo que consigo compreender é esplêndido, e acho que o que não compreendo também é”.
Sócrates morreu envenenado por cicuta, no ano 399 a.C., acusado pela aristocracia grega de corromper os atenienses, com críticas às crenças religiosas, às velhas tradições e aos costumes.
Maomé foi o maior profeta depois de Moisés e Cristo. Nasceu em Meca em 570 d.C., morreu em Medina no ano 532 depois de Cristo. Foi um líder político e religioso de enorme expressão histórica. Fundou o império árabe com a unificação de todas as tribos. Além disso, foi o fundador do Islã. Conta-se que quando tinha 40 anos foi visitado pelo anjo Gabriel que lhe mandou recitar versos mandados por Deus, quando ele meditava no Monte Hira. Esses versos deram origem ao famoso livro Alcorão.
Maomé não desprezava o cristianismo e o judaísmo. Ele dizia que tinha recebido de Deus, a missão de restaurar essas religiões que tinham se corrompido em seus ensinamentos.
Morreu deixando um legado político e religioso que ainda hoje, gera conflito ideológico entre os seus seguidores sunitas e xiitas. E os preceitos do Alcorão são tão importantes para o povo muçulmano quanto o cristianismo é significativo para o cristão.
Jesus Cristo, filho de Maria e de José, nasceu em Belém de Judéia (Miquéias 5:2), descendente de Jacó, surgiu na Galiléia e fez seu primeiro milagre na cidade de Caná da Galiléia (não sei se é mesma cidade do Líbano, duramente bombardeada, ultimamente, pelos israelenses na luta contra os hezbollah), morreu aos 33 anos de idade.
O Messias já tinha sido anunciado por diversos profetas como alguém especial, enviado por Deus para libertar o ser humano do “cativeiro do pecado”. Ele tinha a missão de sacrificar a própria vida por nós, um “Messias” prometido. Em Hebreus (9: 16,17), há referências que justificam sua morte: “... Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. Porque um testamento terá força viva onde houver morte, ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?”.
O cristianismo, hoje, divide o mundo. Somente os católicos somam um bilhão de fiéis. Cristo para os seus seguidores, é mais do que um profeta, é o filho de Deus que se fez homem para redimir os pecados do ser humano.
Traçamos o perfil acima de três figuras históricas com o cuidado de evitarmos qualquer tendência filosófica ou religiosa. Alguém poderá argüir-nos: então, qual foi o objetivo deste texto além das rápidas pinceladas biográficas? Poderíamos dar enésimas respostas. No entanto, queremos, somente, enfocar a força da palavra e das idéias e a curiosidade histórica comum dos nossos personagens: é que eles não escreveram uma linha. Embora Maomé tenha sido mercador em sua juventude, ou seja, tinha necessidade por força da profissão de calcular e escriturar seu comércio, no entanto, a história registra que ele era analfabeto. Sócrates era letrado e transitava com facilidade no conhecimento de sua época, porém suas idéias só chegaram até nós, por Platão, Xenofontes, Aristóteles e outros pós-socráticos de menor expressão. Jesus também tinha conhecimento das leis judaicas do Velho Testamento, e, há quem levante a hipótese dele ter estudado com os essênios. Há uma passagem bíblica dele escrevendo os pecados dos acusadores de uma prostituta pega em adultério. Há também, o fato dele ter exposto suas idéias por parábolas, uma forma intelectual elevada e sucinta de se comunicar. Seus ensinamentos foram escritos por Paulo, Lucas, João, Pedro, Mateus e outros discípulos e alguns historiadores romanos da época. Cristo não deixou uma linha escrita do seu punho.
Em comum: eles não gostavam de escrever!!!

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA





Agostino Benedetto = R. Santana

 

Agostino Benedetto
Agostino Benedetto
R. Santana


Leitor amigo, eu não poderia furtar-me de te contar esta história. Às vezes, tu pensas que fabricamos histórias do nada, que nós contadores de causos, os inventamos, não é verdade, todavia, tendes razão quando dizes que quem conta um conto aumenta um ponto ou que todas as histórias já foram contadas, mas, nós escrevinhadores, somos mordidos por um bichinho escritor que nos empurra para o papel para escrever uma nova história ou contar uma nova história velha.
Agostino Rossetti Amadio era o seu nome, mas todos conheciam-no como “Agostino”, para aqueles que têm dificuldade com a língua chamavam-no: “Agostinho”.
Quando o conheci, ele já era um homem de meia idade, porém, o seu bom humor e a sua perene alegria não lhe davam marcas de expressão carrancuda, com rugas faciais, cara emburrada, não, não era o jeito de ser de Agostino, ele era vida, vida feliz, alegria, não alimentava tristeza e se os céus caíam em sua cabeça, fazia do seu infortúnio uma lição de vida. Não tinha a resignação de Jó, mas herdara de Jó a paciência para solução dos seus problemas existenciais.
Não se sabia muito de sua vida passada, o pouco que se sabia é que era de origem italiana e nascido no interior de São Paulo. Quando algum abelhudo da vida alheia futucava o seu passado, ele jocosamente se saía, deixando o impertinente deslocado:
-Meu filho, você é padre ou juiz?... – dava uma sonora gargalhada sem esperar resposta.
Ele não fumava e quase que não bebia, salvo, dois dedos de jurubeba na hora do almoço para “abrir o apetite” e “desintoxicar o fígado”, justificava. Comia nos restaurantes da vida, não tinha mulher, nem filhos. Costumava sacar no bolso do paletó uma maça enrolada num papel pardo e da cinta um canivete e fazia o seu breakfast matutino, não gostava de café. À noite, gabava-se não dormir sem antes comer um gostoso cuscuz embebido no leite e uns tacos fritos de charque ou carne cozida.
Agostino não possuía inimigo, também, não cultivava amizades especiais, todos eram seus amigos, ele gostava do enxame das ruas, dois dedos de prosa no botequim da esquina, mas gostava demais da solidão de sua casa e afora uma negra velha que cuidava da faxina de sua casa de quando em vez, nenhuma outra alma vivente o visitava.
Sobrevivia como aposentado, porém, suas constantes idas e vindas à capital baiana, intrigavam-no...
“Agostinho” para os mais simples, não tinha lustre intelectual, mas transbordava em perspicácia e sabedoria, guardo ainda hoje, os seus ditos: “quem moço não morre, velho não escapa”; “a corda só quebra no lugar mais fraco”; “o que seria dos sabidos se não fossem os bestas”; “amor é uma flor rocha que nasce na cabeça do trouxa”; “comida boa é fome”; “quem Deus prometeu vintém não dá dez-réis”; “mulher de amigo meu é homem”; “quem nasceu pra tatu, morre cavando”; “mulher feia sossega marido” etc. Agostino não era o autor intelectual destes aforismos, mas dizia-os com precisão e oportunidade.
Quando faleceu no ano de 1989, lúcido, porém debilitado pela idade, deixou todos boquiabertos, é que o velho Agostino Benedetto era dono de uma formidável fortuna em títulos de capitalização fixa, poupança, vários imóveis de aluguel na cidade de Salvador e no interior do estado, geridos pela imobiliária W&Silva, condicionada deixá-lo anônimo.
A surpresa e o espanto cederam à admiração e ao mito, pois o velho Agostino Benedetto, muitos anos antes de morrer, tinha alienado os seus bens à Fundação Beatrice Gaia Rossetti Amadio – BGRA.
Conhecia como ninguém a alma humana, suas vicissitudes e suas qualidades, por isto, sua fundação foi criada quase nos moldes da Fundação Nobel, do sueco Alfred Nobel: suas receitas premiam anualmente, os cinco projetos sociais do estado de mais desenvoltura, avalizados por expertos analistas sociais.
O desprendimento, o estoicismo, a simplicidade, o anonimato e a solidariedade, representam o maior legado de Agostino Benedetto, sua fundação, hoje, representa um grão de areia num mar de necessidades, mas o seu exemplo é perene.
Enfim, leitor amigo, não é um conto da carochinha, é uma história parecida com tantas outras, para mim, ela é mais significativa, eu o conheci e estou gozando do privilégio de lhe contar.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: conto.

Células-tronco - R. Santana

 

Células-tronco
Células-tronco
R. Santana


A Igreja Católica em defesa da fé sempre caminhou na contramão da ciência. Foi assim com Galileu Galilei, Johannes Kepler, o cônego Copérnico e no Século XIX com Darwin e sua teoria evolucionista.
Nos Séculos XII e XIII, quantos “cientistas” foram queimados como bruxos e hereges pelos tribunais eclesiásticos? Milhares. Qualquer idéia que mexesse nos dogmas católicos, seria erradicada no nascedouro. No Século XVI com a Reforma de Martinho Lutero e a Contra-Reforma católica, os processos inquisitórios e os tribunais eclesiásticos forma contemplados com a institucionalização do Santo Ofício.
Entendemos que não foi fácil para as autoridades católicas mexerem no seu dogma da criação quando as idéias de evolução de Darwin foram publicadas. Ninguém admite ainda hoje, que é um parente próximo do macaco. Preferimos acreditar que o homem foi criado físico-intelectualmente com a mesma desenvoltura potencial de hoje.
Para Aristóteles e Ptolomeu a Terra era fixa no espaço, pois o seu movimento implicaria movimento em círculo das coisas e não num movimento retilíneo e vertical.
Copérnico com sua teoria heliocêntrica (o Sol é o centro do Universo), foi perseguido pela Igreja Católica, mesmo sendo um dos seus cônegos. Galileu Galilei teve que se retratar para não ser perseguido.
Porém, a Igreja Católica, instituição milenar, tem que ser reconhecida pela sua coerência e defesa dos seus princípios de forma peremptória. Ultimamente, ela tem pedido desculpas pelos seus erros históricos e reconhecido sua condição falível e humana.
Far-se-á justiça a posteriori, a Igreja Católica condenar o aborto voluntário, o homossexualismo, o trabalho escravo, a pena de morte, o suicídio... E, a defesa sistemática do ecossistema, do meio ambiente, da erradicação da fome, da miséria, e a promoção da vida, dentre outras ações religiosas, mas penitenciar-se-á por não ter contribuído para que a Ciência do Século XXI avançasse nas pesquisas de células-tronco embrionárias em defesa da qualidade de vida e terapia de mulheres e homens.
O Supremo Tribunal Superior foi sábio quando por maioria entendeu que não se pode negar ao homem a busca de algo que diminua o seu sofrimento, o seu mal, enfim, em busca duma vida feliz. Então, vejamos a notícia:
“O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou nesta quinta-feira (29.05.2008), as pesquisas com células-tronco embrionárias, ao derrubar a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra a Lei de Biossegurança. Dos 11 ministros da corte mais importante do país, seis deram parecer favorável à lei. Os outros cinco votaram parcialmente a favor, com ressalvas diferentes. Um debate sobre o possível controle do Conselho Nacional de Saúde sobre os comitês de ética das instituições responsáveis pelas pesquisas marcou o final da sessão”.
Essa Lei de Biossegurança é a Lei nº. 11.105/05, em particular, o seu Artigo 5º., que autoriza a pesquisa genética de embriões e deixou ao Conselho Nacional de Saúde o controle dos problemas éticos, subordinado ao Ministério da Saúde.
Alguns ministros do STF votaram com restrições, para que no futuro, a engenharia genética não fosse usada para fins escusos. Não se admite que com a atual explosão demográfica do mundo, somente em dois países, a China e a Índia, têm mais de dois bilhões de seres humanos, os cientistas usem essas células embrionárias para clonar seres humanos, não obstante, elas serem de uma valia inquestionável para cura de doenças crônicas, incuráveis, e na produção de órgãos.
O ministro Celso de Mello foi de uma realidade mórbida ao justificar o seu voto: “Desculpem-me a expressão, mas o destino de todos os embriões seria o lixo sanitário. Dá- se- lhes, portanto, uma destinação nobre”. Enquanto isto, uma nota da CNBB, colocando em dúvida a decisão do STF que numa votação apertada, por maioria simples, liberou as pesquisas com células-tronco e justifica: “não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que se encontra”, e arremata: “no mundo inteiro, não há até hoje nenhum protocolo médico que autorize pesquisas científicas com células-tronco obtidas de embriões humanos em pessoas, por causa do alto risco de rejeição e de geração de teratomas. Ao contrário do que tem sido veiculado e aceito pela opinião pública, as células-tronco embrionárias não são o remédio para a cura de todos os males”.
Na trama “O DNA de Emanuel”, tive o cuidado de demonstrar a importância das pesquisas de células-tronco embrionárias e adultas para o tratamento de doenças crônicas, incuráveis, porém, tive o cuidado redobrado de demonstrar que é de somenos importância para evolução da humanidade, a reprodução assistida, em laboratório, pois a fecundação e a reprodução naturais são mais simples e eficientes, além da impossibilidade, atual, de se clonar um ser humano além do seu fenótipo, isto é, além da aparência, com as mesmas potencialidades cognitivas e psicológicas.
Emanuel, um ser humano perfeito fisicamente, desde o início manifestou um comportamento estranho, psicótico, bipolar e por conta dessa instabilidade mental, teve várias atitudes sociais reprováveis e tem um triste fim.

Autor: Rilvan Batista de Santana - ALITA
Gênero Literário: Crônica.

Carta para Eglê Santos Machado - R. Santana


Carta para Eglê Santos Machado

Itabuna, 24.05.2011.
Querida Amiga Eglê:

Obrigado por ter lido o meu ensaio: “O homem nasce para ser feliz?...” É a primeira intelectual que tece alguns comentários sobre esse ensaio. Sua avaliação me encheu de orgulho, pois, considero-lhe uma poetisa de grandes recursos literários e intelectuais.
Porém, quero a priori, lhe dizer que não tenho nada contra a Igreja Católica, considero uma instituição de importância única na história da humanidade, todavia, não se pode negar historicamente, os seus percalços, não basta pedir “perdão”, ou reconhecer “mea culpa”, faz-se necessário mudança de atitude exegética, filosófica, política, administrativa – a igreja é a maior detentora de imóveis do planeta -, uma igreja menos dogmática, menos conservadora, mais evoluída, mais atual, uma igreja que corresponda às necessidades espirituais e temporais do homem do Século XXI.
Não li o livro: “Em nome de Deus” de David Yallop, mas li sua entrevista em que ele coloca em cheque a morte por infarto do miocárdio de Albino Luciani, o “papa sorriso” João Paulo I e desenvolve a tese de morte por envenenamento, após o papa João Paulo I descobrir integrantes da máfia e escândalos de corrupção financeira no seio de sua igreja escudado pelo Banco Ambrosiano, mais tarde, Ambrosiano Veneto.
Não se pode negar, agora, que a igreja católica dos Estados Unidos, irá pagar por perversões sexuais de padres e bispos, milhões de dólares em indenizações de pedofilia. É sabido, também, que o papa João Paulo II foi leniente, menos contundente e mais diplomático nesse processo de apuração, hoje, essas vítimas tiveram com o papa Bento XVI a força da reparação moral e material.
Como cristão não posso negar a Ressurreição de Jesus Cristo, seria um contrassenso, mas como livre pensador, questiono alguns pontos da Bíblia, inclusive, a Ressurreição de matéria corruptível: “E, não o crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Então, eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; o que ele tomou, e comeu diante deles”. (Lucas: 24: 41-43). Ora, o espírito não é matéria corruptível, não come nem bebe...
Minha amiga Eglê, nós concordamos quando achamos que Deus não irá resolver os meus e os seus problemas, as nossas desditas ou um Deus que pune, vingativo, um Deus personalizado, mas discordamos quanto à natureza de Deus, por isto, eu sugeri a teoria: “O mundo das possibilidades”, em três estágios de possibilidade: a) Necessárias, b) Contingenciais e c) Reais. Não são possibilidades de oportunidades pessoais, mas possibilidades lógicas, metafísicas e existenciais. Por isto, Eglê, sugiro-lhe um estudo isento, mais aprofundado, mesmo que o texto seja longo, afinal, não se deve desprezar as premissas e considerar somente a conclusão.
A nossa igreja nunca bateu palmas para Darwin, Galileu, Copérnico e outros gênios da humanidade que contrariaram os seus princípios, é sabido por todos, se patrocinou recente um estudo sobre a Evolução, acredito que foi por desencargo de consciência ou outros interesses, mas esses textos jamais serão inseridos na sua exegese porque contrariam o princípio da criação de Adão e Eva.
Não tenho formação teológica, não coloco em dúvida a minha fé, sou partidário do dito que diz: “Religião, política e mulher não se discute se abraça”, porém, não tenho fé ingênua nem romântica, por isto, eu sugeri o ensaio: “O homem nasce para ser feliz?...”, onde discuto a felicidade do homem, seus problemas existenciais, a religião, o valor da simbologia, Jesus Cristo e Deus.
Fiquei feliz querida amiga, quando li: “... essa é a frase final do texto e reflete o meu pensamento sobre o assunto símbolo”, pelo menos concordou comigo quando digo no final do Capítulo II: “Faz-se necessário dizer que essa simbologia contribui para materializar o que é transcendente”, porém, Eglê, tu não me surpreendeste como boa católica, que vai à missa todos os dias e participa da eucaristia, o uso da imagem é uma segunda natureza!...
Eu partilho do princípio do livre arbítrio, não acredito em destino nem determinismo, quando nascemos, somos “uma tabula rasa”, à medida que crescemos e amadurecemos, somos as nossas circunstâncias.
Enfim, demonstrei no ensaio “O homem nasce para ser feliz?...” – Leia-o em link nos meus textos, na coluna à direita deste blog - , argumentos e fatos que o homem, por natureza limitada, ele não nasce para ser feliz, mas para usufruir momentos de felicidade, com sua devida vênia, permita-me discordar do desfecho de sua avaliação do texto quando a poetisa diz: “E volto a afirmar: O HOMEM NASCE PARA SER FELIZ, SIM! Você pode até não perceber, mas você, Rilvan, um homem feliz. Muito feliz!”, porém, digo-lhe: ele e ela não são felizes, mas têm momentos de felicidade!...
Do seu amigo com admiração e respeito, Rilvan Batista de Santana
 

Carta para Eglê Santos Machado (tréplica) - R. Santana

 

Carta para Eglê Santos Machado (tréplica)

Itabuna, 26 de maio de 2011

Querida amiga Eglê,

Recebi, hoje, sua amável carta e quero, a priori, lhe agradecer por ter tido a gentileza de responder a minha carta publicada, ontem, no “Saber - Literário”, embora tenha “pegado pesado” comigo quando diz: “Acho meu caro amigo que terás de escolher entre ser cristão e ser livre pensador, pois se questionas a Ressurreição...”
Não tenho autoridade teológica para negar a Ressurreição, porém, coloco sob suspeição alguns aspectos da narração bíblica e atribuo às sucessivas traduções da Bíblia até os nossos dias e por ser um assunto que suscita interpretação diversa, prometo-lhe no decorrer desta missiva voltar ao assunto.
Desculpe a minha prolixidade, quando escrevo, um rio caudaloso brota dentro de mim, que a custo, procuro manter o rumo do barco das ideias, como se fosse uma casa fácil de construir, o acabamento é que demanda tempo. Não demoro na construção do texto, mas na hora dos retoques... tiro uma vírgula daqui acrescento outra acolá, mexo nos pontos de exclamação e interrogação, substituo palavras, vejo e revejo as concordâncias, aí o bicho pega!...
Peço-lhe que não transformemos as nossas controvérsias em réplicas e tréplicas à moda de Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro, eu não tenho estofo intelectual para sustentar por muito tempo uma discussão exegética e teológica, os meus parcos conhecimentos denunciariam a minha ignorância, principalmente, no enfrentamento de uma intelectual e religiosa do seu porte.
Sua carta lembrou-me um frei amigo que após ler “O homem nasce para ser feliz?...”, perguntou-me reiteradamente o que entendia por Eucaristia, Moral e outras coisas... Não lhe respondi. Ele tem jeito de mestre-escola e usa muito a maiêutica socrática, não sei se deliberadamente ou como mecanismo de defesa para não cair em contradição.
Não sei se é do conhecimento da egrégia poetisa que Sócrates envenenava o espírito das pessoas com perguntas capciosas de tal forma que deixava o seu interlocutor aparvalhado. Não sei se é no livro de Mênon ou de Górgias, que Sócrates pede ao sofista que definisse a virtude e o pobre diabo que já tinha feito mais de mil discursos no Areópago sobre a virtude, rende-se à ignorância de não saber o que é virtude.
Noutro trecho de sua carta, pergunta-me: “Amigo, já ouviste... falar do milagre Lanciano...”, confesso-lhe que “en passant”, porém, um mês atrás, a Dra. Sione Porto, gentilmente, enviou-me um slide Lanciano, aí, pude me aprofundar na história. Aprofundei-me também, faz algum tempo, no Santo Sudário e nas chagas do Padre Pio, que são mistérios de fé, acho essas discussões estéreis...
No ensaio que elaborei: “O homem nasce para ser feliz?...”, recorro ao valor da simbologia para materializar a fé e o valor da oração como único meio de conversar com Deus... A História das Religiões prova o que afirmei nesse ensaio: Jesus Cristo, recolhia-se para orar, assim como Maomé, Moisés, Buda, Lao Tsé, Confúcio, mais recente, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Madre Tereza de Calcutá e a nossa Venerável Irmã Dulce. Porém, a Eucaristia é o símbolo maior da religião católica, a presença de Jesus Cristo no pão e no vinho durante a Consagração: "E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança [ou Novo Pacto] no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20, e também Mateus 26;26-29, Marcos 14:22-25, I Coríntios 11:23-26), agora, a fé dá o desfecho da transubstanciação que é tranformação da matéria no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo e acho que estamos afinados neste mister por dogma.
Todavia, ao que parece, não estamos afinados em relação à Ressureição, por um lado Eglê, tu sustentas uma fé sem discussão quando dizes: “Rilvan, amigo, TUDO ISTO É MISTÉRIO DE FÉ”.
Não sou um “pensador” como não sou um escritor, sou um livre ser pensante e um escrevinhador, Deus deu a mim e aos demais seres humanos essas potencialidades, necessário se faz, transformar em atos essas potencialidades, por isto, levantei no ensaio “O homem nasce para ser feliz!...”, o dogma da Ressurreição, não Ressurreição em si, mas a transformação de espírito em matéria corruptível, em corpo físico: “Tocai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos”. Porém, Santo Inácio acrescenta: “Eles tocaram n’Ele e acreditaram. Esta comunhão estreita com a Sua carne e o Seu espírito ajudou-os a enfrentar a morte e a ser mais fortes do que ela. Após a ressurreição, Jesus comeu e bebeu com eles, como um ser de carne, quando Se tinha tornado um só espírito com o Pai. Recordo-vos estas verdades, bem-amados, sabendo que esta é também a vossa profissão de fé.” (Santo Inácio de Antioquia (?-c. 110), bispo e mártir Carta à Igreja de Esmirna- Evangelho Cotidiano). Ora, minha amiga, mesmo um ato da Providência, é discutível, é um assunto que dá pano pra manga...
Por que sou cristão? A resposta é a mesma dada por São Pedro: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens palavras de vida eterna”. Além disto, minha amiga Eglê, tu não podes afirmar que sou ateu. Apenas, sem presunção e sem beatitude, eu creio num ser Superior que o homem chama de Alá, Jeová ou Deus, e, na linha São Tomé, sou um cristão. Sou apaixonado por Jesus Cristo e sua palavra, porque ao contrário de Moisés e Maomé, ele só pregou o amor e a paz, foi o único homem na História que se entregou na morte de cruz para justificar sua doutrina.
Ainda rapaz, li “Quo vadis”, livro escrito pelo polonês Henrik Sienkiewcz, que me impressionou o massacre sofrido pelos cristãos primitivos na época de Nero e a força da resistência e da fé daquele povo. Embora, saibamos que o livro é literatura, o livro deve ter sido escrito pelo polonês após uma exaustiva pesquisa histórica do Império dos Césares face à convicção da leitura.
No epílogo, inesperadamente, aparece Jesus Cristo, e, São Pedro pergunta-lhe: “Quo vadis, Domini? (Aonde vais, Senhor?), Jesus Cristo responde-lhe: “Já que abandonas o meu povo, vou à Roma para ser crucificado outra vez”. São Pedro volta ao seu pastoreio e diz a lenda que morreu crucificado depois de cumprir o seu ministério, em morte de cruz de cabeça para baixo para não ser igual ao seu Mestre.
Na tua amável carta, tu dizes: “... pois se questionas a Ressurreição de Jesus em corpo e alma significa que questionas também a encarnação do Cristo no seio de uma Virgem por obra e graça do Espírito Santo”. Cara amiga, eu não sei de onde surgiu esta ideia, se eu negasse esta possibilidade, atestaria o meu desconhecimento do fenômeno partenogênese, que é a reprodução sem fecundação, isto é, o ser tem mãe, mas não tem pai, é o caso do zangão.
Quando estudei o “científico”, no Colégio Estadual de Itabuna - CEI, em mil novecentos antigamente, o meu professor indicou um livro de Biologia, não me lembro do autor, que trazia a história de partenogênese duma jovem inglesa que pariu sem conjunção carnal. Então, negar a encarnação de Jesus Cristo por uma virgem, seria desconhecer esse fenômeno.
Além do poder da Providência, Nossa Senhora se proclama: “Porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações.” (Lucas 1,48). Se tu lerdes a carta de Públios Lentúlios ao imperador César, tu irás encontrar, naquela época, referências sobre a santidade da jovem Maria, filha de Joaquim e Ana da linhagem de Davi. Portanto, amiga Eglê, a encarnação de Jesus Cristo por uma jovem judia virgem, é um fato e não um conto romântico.
Também, não tenho subsídios nem autoridade para negar a transfiguração de Jesus Cristo no monte Tabor, que embora seja um fenômeno raro, hoje, a ciência registra essa transformação da matéria. Os espíritas falam de períspirito que é mais ou menos algo que envolve o espírito, ou seja, estado de transfiguração.
Como vedes prezada amiga Eglê, eu não fui leviano na elaboração do ensaio: “O homem nasce para ser feliz?...”, acho que não faltou pesquisa e erudição. Eu pesquisei alguns aspectos existenciais do homem, porém, faltou em mim uma inteligência mais aguçada para desenvolver e clarear o que eu escrevi. Não culpo os leitores por não compreendê-lo, culpo a mim por tê-lo divulgado antes de esgotar todos esses questionamentos.
Enfim, te agradeço mais uma vez a possibilidade que estou tendo de explicar aos meus amigos leitores o meu pensamento.

Cordialmente,
Rilvan Batista de Santana

Frei J. G. Costa dos Santos - R. Santana

 

Frei J. G. Costa dos Santos:
Itabuna, 10 setembro de 2009.

Caro Frei J. G. Costa dos Santos:

Com seu jeitinho amigo, colocou-me numa saia justa: - corrigir os erros de sua redação: “Mudanças pessoais e históricas”.
Tenho aversão ao trabalho de correção, com sua bagagem cultural, seria uma presunção, eu jactar-me de corrigi-lo, prefiro pensar que vou ajudar-lhe encontrar não os erros, mas os lapsos de redação, os lapsos de raciocínio e ajudar-lhe na construção de um estilo.
Não sou capaz de construir um texto em que a técnica sobrepuja a criatividade. Ouso dizer-lhe que o texto que me privilegia na sua análise, peca pelo estilo formal, bitolado, com proposições sem brilho, obedecendo, somente, aos ditames dos exames de vestibular, exames que contribuem para que o candidato feche o número de linhas açodadamente, às vezes, com parágrafos e idéias repetidas, doutras vezes, sem muita coerência, frases desarticuladas, com o propósito do cumprimento de uma tarefa de avaliação.
Gostei do texto do adolescente que exprime o seu pensamento em relação às mudanças de costume, de hábito, de comportamento, de sua geração e a geração dos seus predecessores, com leveza, criatividade e objetividade.
Permita-me a transcrição desse texto não para confrontá-lo com o seu, mas justificar e fundamentar o nosso pensamento em relação ao mister da escrita, em particular, a arte do saber redigir:
“Não mudou nada. Os coroas agora implicam porque a gente corta e pinta os cabelos assim e assado, mas a mesma macaquice havia na época deles, com Elvis Presley, brilhantina e coisa tal. (...) Eles também usavam calça jeans, só que chamavam calça americana. A diferença é que, em vez de camisões coloridos, usavam camisas banlon. E no lugar do tênis e da sandália havaiana, calçavam mocassins.”
Numa linguagem simples, direta, sem floreio, sem erudição, o adolescente escreve sobre os novos valores, as mudanças de comportamento, os novos paradigmas, sem incorrer em falsas verdades, mas com proposições inteligíveis, acessíveis à compreensão do mais obtuso indivíduo.
Agora, vejamos, eu e você, o texto “Mudanças pessoais e históricas” que fui incumbido de sua correção, que de bom grado, devolver-lhe-ei a toga do julgamento e da análise, se o insigne religioso jurar pelos santos dos céus, que doravante não ficará mais escravo das técnicas da escrita e das convenções, mas será fiel ao seu pensamento e dará curso aos lampejos da criatividade e da invenção, porém, sem abraçar às expressões chulas ou empanar a estética da palavra.
Vejamos o texto, depois, nós procedamos a sua análise:

“Mudanças Pessoais e históricas”

“O ser humano está constantemente em mudança, buscando o novo e o aperfeiçoando a cada dia. Por isso, em cada época as pessoas criam novos paradigmas e as vivenciam a partir da sua própria cultura.”
“Essa mutabilidade faz parte da natureza humana e se evidencia no decorrer da história. A busca pelo novo dar uma invenção, alegria, esperança ao homem e abre-lhe novos horizontes. Quando o indivíduo termina uma invenção, já se desperta para dar início à outra, isso aconteceu com os gregos, com os cientistas, principalmente no mundo de hoje, com a tecnologia de ponta. Assim, a criatividade faz parte da natureza e do espírito humano.”
“Quando uma determinada nação tem intuição e cria algo novo causa impacto e gera insegurança nas pessoas. Contudo, com o passar do tempo as coisas se normalizam e vira rotina. Na década de sessenta, surgiram novas idéias, posicionamento frente a ditadura militar, estudantes, intelectuais e artistas foram exilados, presos e outros assassinados. Vê-se, então, que era necessário a mudança de comportamento.”
“Percebe-se, portanto, que essa mutabilidade é inerente ao ser humano. Cabe, pois, aceitar as novas idéias e atitudes, que são capazes de mudar o rumo da vida das pessoas”.
Agora, analisemos:
-Embora as frases tenham sido buriladas, são incipientes, sem desenvoltura, repetitivas;
-O texto está eivado de raciocínios falsos, sofismas, a exemplo da invocação dos gregos para justificar as invenções, é sabido que os gregos eram especulativos, as teorias de Física, do Universo e Biologia, do seu gênio maior, Aristóteles, hoje, têm apenas, valor histórico, enquanto suas teorias de Lógica e Moral permanecem atuais e perenes. Dir-se-ia a mesma coisa de Demócrito de Abdera, com sua teoria atômica. A ciência e as invenções deslancharam-se com o empirismo de Fancis Bacon, a Física de Galileu e Newton, o positivismo de Comte e as teorias da evolução de Darwin...;
-Outro raciocínio discutível, retórico, afirma: “Quando uma determinada nação tem intuição e cria algo novo causa impacto e gera insegurança nas pessoas.” Nação é um ente jurídico, não tem intuição, o povo é que, em princípio, tem discernimento, ou seja, as idéias novas têm origem no indivíduo e no decorrer do tempo, elas se tornam de domínio público;
-Outro equívoco está no penúltimo parágrafo quando por escassez de argumento para explicar a contracultura dos anos 60, de origem hippie, movimento revolucionário dos costumes e comportamentos vigentes daquela época, com a divisa “peace and love”,
de jovens ingleses de classe média, que por princípio pacifista, jamais se confrontariam com governos militares, ditadores de plantão, pois eram contra a guerra, o capitalismo, as corporações empresariais e qualquer tipo de autoritarismo.
A filosofia de vida do hippie, ainda hoje, é pautada ao desapego dos bens materiais, prega o sexo livre, viver em comunidade e o retorno à natureza. Os intelectuais, os políticos e estudantes que foram presos, exilados e assassinados nos anos 60, foram mais por ideais socialistas e comunistas do que pela influência que tiveram na contracultura, na renovação dos costumes e os novos estigmas comportamentais.
O texto começa falando que a “...mutabilidade faz parte da natureza humana...” e termina da mesma forma: “...mutabilidade é inerente ao ser humano...”, isto é uma conclusão chinfrim, primária, repetitiva, sem imaginação e criatividade.
Meu caro frei J.G. Costa dos Santos, eu espero não ser colocado na prateleira do ressentimento... Não tenho culpa da franqueza que destilei, fui empurrado, fiquei na casa do sem jeito quando tu me impeliste tecer comentário ao teu texto, tenho ojeriza às técnicas e aos métodos que dificultam a livre expressão do pensamento, o fiz para não vos trair intelectualmente.
Enfim, tu és generoso quando me designas como escritor, não sou escritor, sou um escrevinhador, um ávido leitor, que com transpiração ousa colocar no papel alguns causos, algumas idéias. Escrevo com dificuldade, parindo cada frase, não domino a gramática, não possuo a desenvoltura de um Machado, de um Euclides, de um Cyro de Mattos, de um Adonias Filho, de um Jorge Araújo, de um Adelindo Kfoury, por isto, tu não dês relevância às críticas que fiz ao texto “Mudanças Pessoais e históricas” e plagiando a linguagem hippie: Paz e amor!... Ou, pra fazer jus à  prática cristã do preclaro amigo, dir-te-ei: O amor de Cristo nos unindo!... Cordialmente, Rilvan Batista de Santana
Rilvan Santana

Destaques

O QUE TE FAZ FELIZ HOJE - João Batista de Paula

  O QUE TE FAZ FELIZ HOJE. João   Batista de Paula Basta sermos conscientes que o sol nasce para todos e que ninguém consegue esconder o...

Última semana