12.17.2025

Biografia de Fernando Pessoa


Biografia de Fernando Pessoa

        Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu “eu profundo”, suas inquietações, sua solidão e seu tédio.

    Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterônimos - poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia e, com eles procurou detectar, sob vários ângulos, os dramas do homem de seu tempo.

Infância e Juventude

    Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de junho de 1888. Era filho de Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, que era crítico musical, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, natural dos Açores. Ficou órfão de pai aos 5 anos de idade.

    Seu padrasto era o comandante militar João Miguel Rosa, que foi nomeado cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Acompanhando a família, Fernando Pessoa seguiu para a África do Sul, onde recebeu educação inglesa no colégio de freiras e na Durban High School.

    Com 16 anos já havia lido os grandes autores da língua inglesa, como William Shakespeare, John Milton e Allan Poe. Em 1902 a família voltou para Lisboa. Em 1903, Fernando Pessoa retornou sozinho para a África do Sul e frequentou a Universidade de Capetown.

    Em 1905, Pessoa regressou para Lisboa e matriculou-se na Faculdade de Letras, porém deixou o curso no ano seguinte. A fim de dispor de tempo para ler e escrever, recusou vários bons empregos. Só em 1908 passou a trabalhar como tradutor autônomo em escritórios comerciais.

    Entre 1902 e 1908, Fernando Pessoa escreveu poesias somente em inglês: “Antinous”, “Sonnets” e “Inscriptions”, publicadas nos "English Poems", I, II e III. Só em 1908 começou a compor poesias e prosas em português.

Carreira Literária e o Modernismo em Portugal

    Em 1912, Fernando Pessoa estreou como crítico literário na revista “Águia”, e como poeta em “A Renascença” (1914). A partir de 1915 liderou o grupo de intelectuais que fundou a revista “Orpheu”, que lançou o Futurismo em Portugal. No grupo estavam: Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Luís de Montalvor, Almada-Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho.

    A revista Orpheu foi a porta-voz dos ideais de renovação futurista desejados pelo grupo, defendendo a liberdade de expressão numa época em que Portugal atravessava uma profunda instabilidade político-social da primeira república.

    Sua irreverência tinha como objetivo “escandalizar o burguês”: colocavam-se contra o provincianismo e a literatura estereotipada da tradição. Os modernistas portugueses não possuíam um programa estético literário, pretendiam mais derrubar as formas artísticas convencionais pelo escândalo. Nessa época, criou seus heterônimos principais.

    Porém, a revolução cultural que pretendiam não teve os resultados esperados. Suas revistas tiveram duração muito curta: Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1923) e Athena (1924-1925).

    Fernando Pessoa publicou na revista Orpheu alguns poemas que escandalizaram a sociedade conservadora da época. Os poemas “Ode Triunfal” e “Opiário”, escritos por seu heterônimo Álvaro de Campos, provocaram reações violentas levando os “orfistas” a serem apontados, nas ruas, como loucos e insanos.

Heterônimos de Fernando Pessoa

    Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo. Tendo sido "plural", como se definiu, criou personalidades próprias para os vários poetas que conviveram nele.

    Cada um tem sua biografia e traços diferentes de personalidade. Os poetas, não são pseudônimos e sim heterônimos, isto é, indivíduos diferentes, cada qual com seu mundo próprio representando o que angustiava ou encantava seu autor.

Alberto Caeiro

    O poeta Alberto Caeiro nasceu em Lisboa, em 16 de abril de 1889. Órfão de pai e mãe, só teve instrução primária e viveu quase toda a vida no campo, sob a proteção de uma tia. Poeta de contato com a natureza, extraía dela os valores ingênuos com os quais alimentava a alma.

    Para Caeiro, “tudo é como é”, “tudo é assim como é assim”, o poeta reduz tudo à objetividade, sem a mediação do pensamento. O poema “O Guardador de Rebanhos” mostra a forma simples e natural de sentir e dizer desse poeta. Alberto Caeiro morreu tuberculoso, 1915.

Ricardo Reis

    O poeta Ricardo Reis nasceu na cidade do Porto, Portugal, no dia 19 de setembro de 1887. Teve formação em escola de jesuítas e estudou medicina. Monarquista, exilou-se no Brasil por não concordar com a Proclamação da República Portuguesa.

    Foi profundo admirador da cultura clássica, tendo estudado latim, grego e mitologia. A obra de Reis é a ode clássica, cheia de princípios aristocráticos.

Bernardo Soares

    É um dos heterônimos que o próprio Fernando Pessoa definiu como sendo um “semi-heterônimo”. É o autor do livro Desassossego.

Álvaro de Campos

    O poeta Álvaro de Campos foi o mais importante heterônimo de Fernando Pessoa, nasceu no extremo sul de Portugal, em Tavira, em 15 de outubro de 1890. É o poeta moderno, aquele que vive as ideologias do século XX. Estudou Engenharia Naval, na Escócia, mas não podia suportar viver confinado em escritórios.

    De temperamento rebelde e agressivo, seus versos reproduzem a revolta e o inconformismo, manifestados através de uma verdadeira revolução poética. Escreveu “Ode Triunfal”, “Ode Marítima” e “Tabacaria”.

    Segue uma estrofe de um dos mais importantes poemas de Álvaro de Campos “Tabacaria”. O longo poema é exemplo marcante do desalento que caracteriza o poeta:

   Tabacaria

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa como ele mesmo

    Mestre da poesia, Fernando Pessoa mostrou muito pouco de seu talento em vida. Foi na época em que colaborava com a revista “Presença” (1927) que sustentava a liberdade de expressão e apregoava a emoção estética como o real objetivo do Movimento Modernista.

    Fernando Pessoa

    Fernando Pessoa por Almeida Negreiros (Museu de Arte, Lisboa Portugal)

    O mundo poético de Pessoa é, como a expressão do próprio poeta, um mundo de criações dramáticas. O próprio poeta é visto de forma depreciativa por Augusto de Campos e Ricardo Reis: é julgado por suas próprias criações.

    Além das representações poéticas dos heterônimos, há os poemas de Fernando Pessoa, ele mesmo, como O Nada Que é Tudo, ou ainda, os famosos versos da Autopsicografia, que enunciam o mistério da criação poética que ele próprio sentiu:

  Autopsicografia

"O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração."

    Em 1934, Fernando Pessoa publicou “Mensagem”, o único livro em português que publicou em vida, e que concorreu ao Prêmio Antero de Quental do Secretariado Nacional de Informações de Lisboa, obtendo o segundo lugar.

    O livro Mensagem se divide em três partes: I Brasão, II Mar Português e III O Encoberto. É um conjunto de poemas sobre os mitos portugueses, ao estilo de Os Lusíadas de Camões, a partir de uma perspectiva nacionalista mística. Atuando como um verdadeiro "sebastianista", prega a volta do rei D. Sebastião – morto na África em 1578 – para restaurar Portugal e o Império.

    O primeiro poema de Mensagem, que pertence à primeira parte, é Ulisses, que celebra o herói grego protagonista da Odisseia:

Ulisses

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo -

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este, que aqui aprontou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade.

E a fecundá-la de corre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

    Além de grande poeta, Pessoa foi também prosador. Renovou a prosa portuguesa da época, que até então seguia os padrões criados em fins do século XIX por Eça de Queirós.

    Há traduções de Fernando Pessoa e seus heterônimos em espanhol, francês. Inglês, alemão. Italiano, chinês etc.

    Fernando Pessoa, que vivia em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de depressão e alcoolismo, faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose hepática.

    A biblioteca Nacional de Portugal, localizada em Lisboa, possui 99% do acervo pessoal do escritor, enquanto a Casa Fernando Pessoa guarda e preserva o espólio documental e a biblioteca que pertenceu a Fernando Pessoa.

Obras Publicadas em Vida

35 Sonnetos

Antinous

Inscriptions

Mensagem, 1934

Obras Póstumas

Poesias de Fernando Pessoa, 1942

Poesias de Álvaro de Campos, 1944

A Nova Poesia Portuguesa, 1944

Poesias de Alberto Caeiro, 1946

Odes de Ricardo Reis, 1946

Poemas Dramáticos, 1952

Poesias Inéditas I e II, 1955 e 1956

Textos Filosóficos, 2 v, 1968

Novas Poesias Inéditas, 1973

Poemas Ingleses Publicados por Fernando Pessoa, 1974

Cartas de Amor de Fernando Pessoa, 1978

Sobre Portugal, 1979

Textos de Crítica e de Intervenção, 1980

Carta de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, 1982

Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues, 1985

Obra Poética de Fernando Pessoa, 1986

O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, 1986

Primeiro Fausto, 1986


Fonte: Por Dilva Frazão / Biblioteconomista e professora

Foto: Google

Silvio Santos deixa carta inédita antes de seu falecimento

 

Silvio Santos deixa carta inédita antes de seu falecimento

    As filhas de Silvio Santos encontraram uma carta escrita pelo pai na qual o comunicador e empresário lista os segredos do sucesso. Daniela Beyruti, presidente do SBT, compartilhou uma cópia do documento com funcionários da emissora numa reunião realizada nesta terça-feira (27/5).

    No texto intitulado "Os Segredos do Êxito", Silvio Santos afirmou que para aprender a mandar, um profissional precisa, antes, “aprender a obedecer”. “Eu acredito na sorte, mas também acredito que cada homem trabalha o seu próprio destino, bom ou mau”, começou o apresentador na carta.

    “Nunca coloco em postos chaves homens que não sabem obedecer, ninguém pode aprender a mandar sem antes aprender a obedecer”, reforçou. “Sempre tenho tido uma fé inquebrantável em Deus, mas nunca espero que Ele faça o meu trabalho”, complementou o empresário.

    Na carta, Silvio Santos disse que é preciso economizar. “Desde muito jovem, pratico dois preceitos: trabalhar muito e gastar pouco”, apontou ele. “Se uma pessoa se envaidece com o primeiro êxito, grande ou pequeno, está perdido. A vida é uma luta que só deve terminar com a morte”, seguiu.

    O apresentador continuou, dizendo que aprendeu mais com os inimigos do que com os amigos. “Fecho os meus olhos às adulações e os abro muito bem às críticas. A verdade é que eu tenho aprendido muito mais com o que dizem os meus inimigos do que o que dizem os meus amigos”, escreveu.

    “Não sei se isto é um defeito, ou uma qualidade, mas confio pouco nos outros e muito em mim mesmo. Se uma coisa vale a pena ser feita, significa que ela merece ser bem feita. Eu sei que só Deus é perfeito, mas mesmo assim procuro fazer tudo com perfeição. É uma obsessão que eu não consigo curar”, continuou o fundador do SBT.

    Silvio Santos encerrou o documento afirmando que, além de tudo, é necessário “rir de si mesmo”. “O homem que não é capaz de rir de si mesmo não será capaz de fazer alguma coisa boa na vida”, concluiu.

E continuamos aqui aprendendo sempre com ele


Fonte: Facebook (página do Sílvio Santos)
Imagem; Google


12.16.2025

Cinderela - Irmãos Grimm

 

Cinderela

Irmãos Grimm

    Era uma vez um homem muito rico, cuja mulher adoeceu. Esta, quando sentiu o fim aproximar-se, chamou a sua única filha à cabeceira e disse-lhe com muito amor:

    -Amada filha, continua sempre boa e piedosa. O amor de Deus há de acompanhar-te sempre. Lá do céu velarei sempre por ti. E dito isto, fechou os olhos e morreu.

    A menina ia todos os dias para junto do túmulo da mãe chorar e regar a terra com suas lágrimas. E continuou boa e piedosa. Quando o inverno chegou, a neve fria e gelada da Europa cobriu o túmulo com um manto branco de neve. Quando o sol da primavera o derreteu, o seu pai casou-se com uma mulher ambiciosa e cruel que já tinha duas filhas parecidas com ela em tudo.

    Mal se cruzou com elas a pobre órfã percebeu que nada de bom podia esperar delas, pois logo que a viram disseram-lhe com desprezo:

    - O que é que esta moleca faz aqui? Vai para a cozinha, que é lá o teu lugar!!!

    E a madrasta acrescentou:

    - Têm razão, filhas. Ela será nossa empregada e terá que ganhar o pão com o seu trabalho diário.

    Tiraram-lhe os seus lindos vestidos, vestiram-lhe um vestido muito velho e deram-lhe tamancos de madeira para calçar.

    - E agora já para a cozinha! - disseram elas, rindo.

    E, a partir desse dia, a menina passou a trabalhar arduamente, desde que o sol nascia até altas horas da noite: ia buscar água ao poço, acendia a lareira, cozinhava, lavava a roupa, costurava, esfregava o chão...

    À noite, extenuada de trabalho, não tinha uma cama para descansar. Deitava-se perto da lareira, junto ao borralho (cinzas), razão pela qual puseram-lhe o apelido de Gata Borralheira.

    Os dias se passavam e a sorte da menina não se alterava. Pelo contrário, as exigências da madrasta e das suas filhas eram cada vez maiores.

    Um dia, o pai ia para a cidade e perguntou às duas enteadas o que queriam que ele lhes trouxesse.

    - Lindos vestidos - disse uma.

    - Joias - disse a outra.

    - E tu, filhinha, Gata Borralheira, o que queres? - perguntou-lhe o pai.

    - Um ramo verde da primeira árvore que encontrares no caminho de volta.

    Terminada a compra, ele comprou os vestidos para as enteadas e as joias que tinham pedido e no caminho de regresso cortou para a filha um ramo da primeira árvore que encontrou. De uma Oliveira.

    Ao chegar em casa, deu às enteadas o que lhe tinham pedido e entregou à filha um galho de oliveira, árvore que produz azeitonas. Ela correu para junto do túmulo da mãe, enterrou o ramo na terra e chorou tanto que as lágrimas o regaram. Começou a crescer e tornou-se uma bela árvore.

    A menina continuou a visitar o túmulo da mãe todos os dias e certa vez ouviu uma bonita pomba branca dizer-lhe:

    - Não chores mais, minha querida. Lembra-te que, a partir de agora, cumprirei todos os teus desejos.

    Pouco depois o rei anunciou a todo o reino que ia dar uma festa durante três dias para a qual estavam convidadas todas as jovens que queriam casar-se, a fim de que o príncipe herdeiro pudesse escolher a sua futura esposa.

    Imediatamente as duas filhas da madrasta chamaram a Gata Borralheira e disseram-lhe:

    - Penteia-nos e veste-nos, pois temos que ir ao baile do príncipe para que ele possa escolher qual de nós duas será a sua esposa.

    A Gata Borralheira obedeceu humildemente. Mas quando viu as duas luxuosamente vestidas, desatou a chorar e suplicou à madrasta que também a deixasse ir ao baile.

    - Ao baile, tu??? - respondeu ela - Já te olhaste ao espelho?

    A madrasta, face à insistência da Gata Borralheira, acrescentou, ao mesmo tempo que atirava um pote de lentilhas para as cinzas:

    - Está bem! Se separares as lentilhas em duas horas, irás conosco.

    A menina saiu para o jardim a chorar e lembrando-se do que a pomba lhe tinha dito, expressou o seu primeiro desejo:

    - Dócil pombinha, rolinhas e todos os passarinhos do céu, venham ajudar-me a separar as lentilhas.

    - Os grãos bons no prato, e os maus no papo.

    Duas pombinhas brancas, seguidas de duas rolinhas e de uma nuvem de passarinhos entraram pela janela da cozinha, e começaram a bicar as lentilhas. E muito antes de terminarem as duas horas concedidas, separaram as lentilhas. Entusiasmada, a menina foi mostrar à madrasta o prato com as lentilhas escolhidas. - Muito bem. – disse a madrasta, com ironia - Mas que vestido vais usar? E além disso, tu não sabes, dançar. Será melhor ficares em casa.

    Desconsolada, a Gata Borralheira começou a chorar, ajoelhou-se aos pés da madrasta e voltou a suplicar-lhe que a deixasse ir ao baile.

    - Está bem. - disse ela com cinismo - Dou-te outra oportunidade.

    E voltou a espalhar dois potes de lentilhas sobre as cinzas.

    - Se conseguires escolher as lentilhas numa hora, irás ao baile.

    A doce menina saiu a correr para o jardim e gritou:

    - Dóceis pombinhos, rolinhas e todos os passarinhos do céu, venham ajudar-me a separar as lentilhas.

    - Os grãos bons no prato, e os ruins no papo.

    De novo, duas pombas brancas entraram pela janela da cozinha, depois as pequenas rolas e um bando de passarinhos, e pic-pic-pic escolheram-nas e voaram para sair por onde entraram.

    A menina logo correu e mostrou à madrasta as lentilhas escolhidas, mas de nada lhe serviu.

    - Deixa-me em paz com as tuas lentilhas! Vaias ficar em casa e pronto! Ponto final! E cest fini. pronuncia-se: Cé finí).

    Virou-lhe as costas e chamou as filhas.

    Quando já não havia ninguém em casa, a Gata Borralheira foi junto ao túmulo da mãe, debaixo da oliveira, e gritou:

    - Árvorezinha. Toca a abanar e a sacudir. Atira ouro e prata para eu me vestir.

    A pomba que lhe tinha oferecido ajuda, apareceu sobre um ramo e, estendendo as asas, transformou os seus farrapos num lindíssimo vestido de baile e os seus tamancos em luxuosos sapatos bordados a ouro e prata.

    Quando entrou no salão de baile, todos os presentes se admiraram perante tamanha beleza. Mas as mais surpreendidas foram as duas filhas da madrasta que estavam convencidas que seriam as mais belas da festa. Porém, nem elas, nem a madrasta ou o pai reconheceram a Gata Borralheira.

    O príncipe ficou fascinado ao vê-la. Tomou-a pela mão e os dois começaram o baile. Durante toda a noite esteve ao seu lado e não permitiu que mais ninguém dançasse com ela.

    Chegado o momento de se despedirem, o príncipe ofereceu-se para acompanhá-la, pois ardia de desejo por saber quem era aquela jovem e onde morava. Mas ela deu uma desculpa para se retirar por momentos e aproveitou para abandonar o palácio a correr e deixar em baixo de uma árvore o seu formoso vestido e os sapatos.

    A pomba, que estava à sua espera, pegou neles com as suas patinhas e desapareceu na escuridão da noite. Ela vestiu o vestido cinzento, o avental e os tamancos e, como de costume, deitou-se junto à chaminé e adormeceu. No dia seguinte, quando se aproximou a hora do início do segundo baile, esperou até ouvir partir a carruagem e correu para junto da árvore:

    - Árvorezinha. Toca a abanar e a sacudir. Atira ouro e prata para me vestir.

    E de novo apareceu a pomba e a vestiu com um vestido ainda mais lindo que o da noite anterior e calçou-lhe uns sapatos que pareciam de ouro puro. A sua aparição no palácio causou sensação maior ainda do que da primeira vez. O próprio príncipe, que a esperava impaciente, sentiu-se ainda mais deslumbrado. Pegou-lhe na mão e, de novo, dançou com ela toda a noite.

    Ao chegar a hora da despedida, o príncipe voltou a oferecer-se para acompanhá-la, mas ela insistiu que preferia voltar sozinha para casa. Mas desta vez o príncipe seguiu-a. De repente, parecia que tinha sido engolida pelo chão. Em vez de entrar em casa, a jovem Gata Borralheira, de vergonha, escondeu-se atrás de uma frondosa oliveira que havia no jardim. O príncipe continuou a procurá-la pelas redondezas, até que decepcionado regressou ao palácio.

    A Gata Borralheira abandonou então o seu esconderijo, e quando a madrasta e as filhas chegaram ela já tinha tirado as vestes faustosas (bonitas) e posto os seus trapos velhos.

    No terceiro dia, quando o pai fustigou o cavalo e a carruagem se afastou com a sua a esposa e filhas, a menina aproximou-se de novo da árvore e disse:

    - Árvorezinha. Toca a abanar e a sacudir. Atira ouro e prata para me vestir.

    E a pomba, uma vez mais, trouxe-lhe um vestido de sonho, de seda com aplicações de suntuoso chale e uns sapatos bordados a ouro para os seus pequeninos e delicados pés. E depois, colocou-lhe sobre os ombros uma capa de veludo dourado.

    Quando entrou no salão de baile, a belíssima Gata Borralheira foi recebida com uma exclamação de assombro por parte de todos os presentes.

    O príncipe apressou-se a beijar-lhe a mão e a abrir o baile, não se separando dela toda a noite.

    Pouco antes da meia-noite, a jovem despediu-se do príncipe e pôs-se a correr. O príncipe não conseguiu alcançá-la mas encontrou na escadaria uns sapatinhos dourados que ela tinha perdido durante a sua precipitada fuga. Apanhou-o e apertou-o contra o coração.

    Na manhã seguinte, mandou os seus mensageiros difundirem por todo o reino que se casaria com aquela que conseguisse calçar o precioso sapato.

    Depois de todas as princesas, duquesas e condessas o terem inutilmente experimentado, ordenou aos seus emissários que o sapato fosse provado por todas as jovens, qualquer que fosse a sua condição social e financeira.

    Quando chegaram à casa onde vivia a Gata Borralheira, a irmã mais velha insistiu que devia ser ela a primeira a experimentar e, acompanhada pela mãe que já a imaginava rainha, subiu ao quarto, convencida que lhe servia. Mas o seu pé era demasiado grande. Então a mãe, furiosa, obrigou-a a calçá-lo à força, dizendo-lhe:

    - Embora te aperte agora, não te preocupes. Pensa que em breve serás rainha e não terás que andar a pé nunca mais.

    A jovem disfarçou a dor que sentia e subiu para a carruagem, apresentando-se diante do filho do rei.

    Embora ele tenha notado de imediato que aquela não era a bela desconhecida que conhecera no baile, teve que considerá-la como sua prometida. Montou-a no seu cavalo e foram juntos dar um passeio. Mas, ao passar diante de uma frondosa árvore, viu sobre os seus ramos duas pombas brancas que o advertiram:

    - Olha para o pé da donzela, e verás que o sapato não é dela...

    O príncipe desmontou e tirou-lhe o sapato. E ao ver como o pé estava roxo e inchado, percebeu que tinha sido enganado. Voltou à casa e ordenou que a outra irmã experimentasse o sapato.

    A irmã mais nova subiu ao quarto, acompanhada da mãe, e tentou calçá-lo. Mas o seu pé também era demasiado grande.

    E a mãe obrigou-a a calçá-lo à força, dizendo-lhe:

    - Embora te aperte agora, não te preocupes. Pensa que em breve serás rainha e não terás que andar a pé nunca mais.

    A filha obedeceu, enfiou o pé no sapato e, dissimulando a dor, apresentou-se ao príncipe que, apesar de ver que ela não era a bela desconhecida do baile, teve que considerá-la como sua prometida. Montou-a no seu cavalo e levou-a a passear pelo mesmo sítio onde levara a sua irmã. Ao passar diante da árvore onde estavam as duas pombas, ouviu-as de novo adverti-lo:

    - Olha para o pé da donzela, e verás que o sapato não é dela...

    O príncipe tirou-lhe o sapato e ao ver que tinha o pé ainda mais inchado que a irmã, percebeu que também ela o tinha enganado.

-     Aqui vos trago esta impostora. E dai graças a Deus por não ordenar que sejam castigadas. Mas se ainda tendes outra filha, estou disposto a dar-vos nova oportunidade e eu mesmo lhe calçarei o sapato.

    - Não. Não temos mais filhas - disse a madrasta.

    Mas o pai acrescentou:

    - Bem, a verdade é que tenho uma filha do meu primeiro casamento, aa qual vive conosco. É ela que faz a limpeza da casa e por isso anda sempre suja. É a Gata Borralheira.

    - As minhas ordens dizem que todas as jovens sem exceção devem experimentar o sapato. Tragam-na à minha presença. Eu mesmo lho calçarei.

    A Gata Borralheira tirou um dos pesados tamancos e calçou o sapato sem o menor esforço. Coube-lhe perfeitamente.

    O príncipe, maravilhado, olhou bem para ela e reconheceu a formosa donzela com quem tinha dançado.

    - A minha amada desconhecida! - exclamou ele - Só tu serás minha dona e senhora.

    O príncipe, radiante de felicidade, sentou-a ao seu lado no cavalo e tomou o mesmo caminho por onde tinha ido com as duas impostoras. Pouco depois, ao aproximar-se da árvore onde estavam as pombas, ouviu-as dizer:

    - Continua, Príncipe , a tua cavalgada, pois a dona do sapato já foi encontrada.

    As pombas pousaram sobre os ombros da jovem e os seus farrapos transformaram-se no deslumbrante vestido que ela tinha levado ao último baile.

    Chegaram ao palácio e de imediato foi celebrado o casamento. Quando os habitantes do reino souberam da forma como o amado e desnaturado pai, a madrasta e as duas filhas tinham tratado aquela que agora era a sua adorada princesa, começaram a desprezá-los de tal modo que eles tiveram que abandonar o país.

    A princesa, fiel à promessa feita à mãe, continuou a ser piedosa e bondosa como sempre e continuou a visitar o seu túmulo e a orar debaixo da árvore, testemunha de tantas dores e alegrias.


Fonte: Contos dos Irmãos Grimm

Imagem: Google

12.15.2025

Um legado maior do que sua própria vida


 

     A letra era trêmula. A ortografia, vacilante. Escrita no papel oficial de uma prisão, com um lápis tão gasto que quase não deixava marca, aquela petição de cinco páginas mal lembrava os elegantes documentos que costumavam chegar ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos.

    Mas, em 8 de janeiro de 1962, quando a carta manuscrita de Clarence Earl Gideon alcançou a mais alta instância do país, ela trazia uma pergunta tão simples — e ao mesmo tempo tão profunda — que os nove juízes não puderam ignorá-la: “A questão é muito simples. Pedi ao tribunal que me designasse um advogado, e o tribunal recusou.” Um caminho que começou com um erro.

    Dezoito meses antes, no sufocante verão da Flórida de 1961, a vida de Gideon — 51 anos, pobre, errante, quase sem educação formal — havia tomado o rumo que mudaria para sempre o direito criminal americano.

    Em 3 de junho daquele ano, a sala de bilhar Bay Harbor, em Panama City, fora arrombada. Uma porta partida, uma máquina de cigarros vandalizada, algumas moedas, cinco dólares, garrafas de cerveja e refrigerante faltando. Nada além disso.

    Ainda assim, uma única testemunha afirmou tê-lo visto por ali. Bastou para que fosse preso. Gideon jurou inocência. Poucos ouviram. Um pedido simples — e negado

    Em 4 de agosto de 1961, ele se apresentou ao tribunal: sem advogado, sem dinheiro, sem sequer compreender a linguagem das leis. Com a humildade de quem mal sabe como se dirigir a um juiz, fez o pedido que acreditava lhe ser garantido pela Constituição: “Meritíssimo, peço que me seja designado um advogado.”

    O juiz Robert L. McCrary Jr. respondeu com cortesia, mas sem espaço para esperança: “Desculpe, Sr. Gideon. A lei da Flórida só permite nomeação em casos de pena de morte.”

    Ele teria de enfrentar o Estado sozinho. Perguntar, argumentar, defender-se — tudo com apenas o oitavo ano de escolaridade. Não foi suficiente. O júri o declarou culpado. No dia 25 de agosto, recebeu a sentença máxima: cinco anos na prisão estadual. Do silêncio de uma cela, nasceu uma revolução. A maioria teria desistido. Gideon não.

    Na biblioteca da prisão, mergulhou em livros que mal conseguia compreender. Aos poucos, decifrou o sentido da Sexta Emenda, que garante assistência de advogado. Leu a Décima Quarta, que protege o devido processo legal. E então percebeu a verdade: Se os ricos têm advogados, por que os pobres devem enfrentar o sistema sozinhos?

    Apresentou uma petição ao Supremo Tribunal da Flórida. Rejeitada sem explicações. E assim, com o mesmo lápis curto, escreveu ao Supremo Tribunal dos EUA. Uma carta simples, torta, quase infantil. Um homem pobre, pedindo justiça ao país inteiro. E contra todas as probabilidades, o tribunal atendeu.

O caso que reescreveu a lei. Em 4 de junho de 1962, o Supremo resolveu ouvir a sua causa. E como Gideon não podia contratar ninguém, recebeu um dos maiores advogados do país: Abe Fortas, que anos depois se tornaria ministro do próprio tribunal.

A pergunta diante dos juízes era tão clara quanto revolucionária: Um réu pobre tem direito a um advogado fornecido pelo Estado?

Desde 1942, o precedente Betts v. Brady dizia que não — salvo “circunstâncias especiais”. Mas a consciência jurídica do país havia mudado.

Em 15 de janeiro de 1963, Fortas apresentou sua defesa: - Se até Clarence Darrow, o maior criminalista da América, contratou um advogado quando ele próprio foi acusado, como um homem pobre poderia defender-se sozinho? A resposta, enfim, era evidente. Um veredicto que ecoou por gerações. Em 18 de março de 1963, o Supremo Tribunal divulgou sua decisão: Unânime. 9 a 0.

O direito a um advogado não era luxo. Não era favor. Era fundamental para que houvesse justiça. Gideon teria um novo julgamento. O dia em que ele finalmente foi ouvido

Desta vez, com o advogado Fred Turner, tudo mudou. Ele expôs falhas, desmontou a principal testemunha, mostrou incoerências que antes haviam passado despercebidas.

Em 5 de agosto de 1963, o mesmo tribunal, o mesmo juiz, o mesmo réu — mas agora com defesa — ouviu um veredicto completamente diferente: Inocente.

    Depois de dois anos atrás das grades por um crime que não cometeu, Gideon saiu livre.

    Um legado maior do que sua própria vida. Gideon voltou a uma vida simples, marcada por problemas de saúde e um quinto casamento. Morreu em 1972, pobre, enterrado inicialmente numa sepultura sem nome.

    Anos depois, ganhou uma lápide da ACLU com as palavras que ele mesmo escreveu a Fortas: “Cada era encontra uma melhoria na lei para o bem da humanidade.” Hoje, sempre que um juiz diz: “Se não puder pagar, será designado um advogado.” Essas palavras existem porque um homem pobre, numa cela, se recusou a aceitar a injustiça como destino. O poder de uma única voz A história de Clarence Earl Gideon lembra uma verdade profunda: Nem sempre são os poderosos que mudam o mundo.

    Às vezes é alguém invisível. Alguém ignorado. Alguém cujas letras tremem no papel — mas cuja convicção permanece firme.

    Um homem que pegou um lápis curto e escreveu: “Isto não está certo.” E o mundo, por fim, concordou.


Fonte: Facebook 

Imagem: Google

12.14.2025

CURIOSIDADE DE GANDHI

 

CURIOSIDADE DE GANDHI

Quando Gandhi estudava Direito na Universidade de Londres tinha um professor, Peters, que não gostava dele, mas Gandhi não baixava a cabeça. Um dia o prof. estava comendo no refeitório e sentaram-se juntos.

O prof. disse: - Sr. Gandhi, você sabe que um porco e um pássaro não comem juntos?

Ok, Prof. já estou voando e foi para outra mesa.  O prof. aborrecido resolve vingar-se no exame seguinte, mas ele responde, brilhantemente, todas as perguntas.

Então resolve fazer a seguinte pergunta: - Sr. Gandhi, indo o Sr. por uma rua e encontrando uma bolsa, abre-a e encontra a sabedoria e muito dinheiro. Com qual deles ficava?

- Claro que com o dinheiro, Prof.!

- Ah! Pois eu no seu lugar ficaria com a sabedoria.

- Tem razão prof, cada um ficaria com o que não tem!

O prof. furioso escreveu na prova "IDIOTA" e lhe entregou.

Gandhi recebeu a prova, leu e voltou:

- Prof. o Sr. assinou a prova, mas não deu a nota!

 

Moral da historia.

Semeie a Paz, Amor, compreensão. Mas trate com firmeza quem te trata com desprezo. Ser gentil não é ser capacho, nem saco de pancadas...

 

Autor: Autor desconhecido

Fonte: Google


Att.: Alguns leitores afirmam que essa história nunca ocorreu com Gandhi, outros afirmam que já leram essa história com outros protagonistas.

12.13.2025

Poema em linha reta de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

 


Poema em linha reta de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

"Poema em linha reta" é uma composição que Fernando Pessoa assinou com o seu heterônimo Álvaro de Campos, que escreveu entre os anos de 1914 e 1935, não existindo certeza da sua data.

O poema é uma crítica às relações sociais que Campos parece observar, de fora, e a sua incapacidade de se operar pelas regras de etiqueta e conduta vigentes. O sujeito lírico aponta a falsidade e hipocrisia dessas relações.

 

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das

etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Fonte: Carolina Marcello / Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Imagem: Google

 

 

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